A Alma Nova

Guilherme Avelino Chave de Azevedo · Capítulo 14 de 53

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A Alma Nova

Capítulo XII

 

Quando Martha morrer, depois do extremo arranco, Não tratem d'orações;

Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco Á moda das visões.

Desejo vel-a então passar d'esta maneira Depois de tal revêz,

Por entre a chama azul e tenue da poncheira No fumo dos cafés.

Áquelle bom paiz das pallidas chymeras, Monotonia azul;

Não temam que ella vá no fogo das espheras Queimar o véu de tulle.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos A nuvem triste e vã,

E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos As nevoas da manhãa!

De noite ella virá com seus trajes singellos, Archanjo d'outros ceus, Nos suspiros febris dos meigos violoncellos Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos por que foge á doce transparencia Que o ceu formoso tem,

Meiga filha gentil da mesma decadencia

Que é nossa boa mãe.

Se as lagrimas de luz que chora o firmamento Em noites de luar,

Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento, Cingir-se n'um collar;

De certo ella daria ao pallido comêta

E á estrella trivial,

A mesma adoração que dava á cançoneta Que amou até final!

E á saida do circo, ao astro romanesco,

Á noite iria, então,

Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco Do livido truão!

Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis Um hymno d'enfadar,

Cantado por milhões d'archanjos insensiveis Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes Do que ella amava mais:

—A vida illuminada á luz dos restaurantes N'um sonho de cristaes!