A Loja dos Sonhos
Sete
Dere Hampton, em geral, era descrita na literatura turística como “a mais bela cidade-mercado de Suffolk”, com prédios tombados, a igreja normanda e os antiquários proporcionando um atrativo para os turistas que passeavam durante o verão, mas também aos estoicos que faziam caminhadas no inverno. Pelos habitantes mais velhos, era descrita simplesmente como “Dere”, e pelos mais jovens, que quase toda noite de sexta-feira batiam o ponto na praça do mercado bebendo sidra barata e passando cantadas uns nos outros, como “um maldito buraco, sem nada para fazer”. Eles não estavam sendo de todo insensatos. Era justo dizer que se tratava de uma cidade mais apaixonada por sua história do que por seu futuro, sobretudo desde que virara cidade-dormitório para inúmeras famílias que deixaram Londres e o cinturão verde graças à inflação no mercado imobiliário e à esperança de “um lugar agradável para criar os filhos”. Suas construções altas, elegantes, em tons pastel, articulavam-se com casas em estilo Tudor de janelas minúsculas e vigas, que avançavam na calçada como navios em alto-mar, todas dispostas numa rede de estreitas ruelas de paralelepípedos e pequenos pátios que se ramificava a partir da praça. Ali, ficavam pelo menos duas das lojas de primeira necessidade — açougue, padaria, banca de jornais e revistas, loja de ferragens — e uma incrível proliferação de outros estabelecimentos nem tão necessários assim, recheados de óleos de aromaterapia, cristais mágicos, almofadas e sabonetes perfumados superfaturados.
Suzanna levou quase dois meses para perceber o que mais a incomodava na cidade: que, durante o horário comercial, fosse quase exclusivamente feminina. Havia senhoras de lenço na cabeça e coletes verdes pegando peças de carne com açougueiros a quem tratavam pelo primeiro nome, e vice-versa, jovens mães empurrando carrinhos, mulheres de certa idade penteadas com capricho aparentemente sem muito mais o que fazer além de matar o tempo. Mas tirando os comerciantes ou os estudantes, quase não havia homens. Era de presumir que partissem para os centros comerciais nos primeiros trens do dia e só voltassem já bem depois de escurecer, quando encontrariam a casa acesa e comidas caseiras prontas. Era, murmurava irritada com seus botões, como se ela tivesse sido transportada de volta aos anos 1950. Perdera a conta de quantas vezes lhe perguntaram o que seu marido fazia e, quase um ano depois, continuava esperando que a pergunta fosse feita.
Embora pudesse ter protestado de início, dizendo que não tinha nada em comum com aquelas mulheres, Suzanna se via em algumas: no jeito de fazer compras, passeando pela única loja de departamentos da cidade com o passo pausado de quem tem tempo e dinheiro; na impossibilidade de marcar hora em qualquer dos dois salões de beleza; nos cristais, velas perfumadas e testes para alergia alimentar que tinham virado não tanto algo “alternativo”, mas um jeito de viver.
Suzanna não sabia direito em que categoria sua loja se encaixaria. Sentada ali, rodeada de caixas de estoque, consciente de que não só ainda não estava funcionando como também o eletricista não lhe dissera quais lâmpadas seriam necessárias para os refletores, não sabia direito nem se aquilo seria uma loja. Neil ligara duas vezes, querendo saber se ela tinha certeza de que precisava começar com um estoque tão grande, enquanto a companhia de água mandara várias cartas exigindo pagamento antes mesmo da inauguração da loja.
Para uma pessoa que havia tão pouco tempo tinha sido assombrada por dívidas, Suzanna estava despreocupada com tudo isso. Nas semanas desde que as chaves lhe tinham sido entregues, se limitara a curtir o lugar, lentamente transformando em realidade o que imaginara nos últimos meses. Adorara viajar pelos arredores para avaliar possíveis fornecedores em exposições de fabricantes ou em salinhas atrás da Oxford Street de Londres, conhecer estilistas jovens ansiosos para exibir seus trabalhos, ou os já mais estabelecidos, capazes de lhe explicar anos de ofício. Adorava ter um objetivo, ser capaz de falar da “minha loja”, tomar decisões baseadas em seu próprio gosto, escolhendo só o que achava bonito e original.
E havia a loja em si. A fachada recebera uma demão de tinta branca e o interior ia lentamente tomando forma graças às visitas de bombeiros e carpinteiros locais e à sua habilidade de pintora amadora. Sabia que a achavam exigente e excessivamente lenta para tomar decisões, mas resolver onde as coisas deviam ficar era complicado, porque aquela não ia ser uma loja convencional. Pelo contrário, era uma mistura de coisas: um café, para o qual a parede do fundo continha um banco de igreja antigo, várias mesas e cadeiras e uma máquina de café italiana recondicionada. Era um brechó, que oferecia alguns artigos disparatados simplesmente porque ela gostava da aparência. Tinha algumas roupas, algumas bijuterias, alguns quadros, alguns enfeites. Tinha umas coisas modernas. E não dava para especificar mais que isso.
Suzanna começara a colocar uma variedade de objetos na vitrine. Inicialmente, para dar à loja um ar habitado, colocara algumas das coisas mais belas que comprara durante a “fase das compras” e nunca conseguira usar: bolsas bordadas com contas coloridas, enormes anéis de vidro, uma moldura antiga com uma gravura abstrata moderna. Quando o estoque chegou, não se sentiu disposta a mudar a arrumação, apenas acrescentou outros itens: belos círculos concêntricos de pulseiras indianas, gavetas de cômodas antigas cheias de canetas metálicas brilhantes, vidros de especiarias com tampas de prata numa variedade de cores.
— É como uma casa de boneca. Talvez uma caverna do Aladim — dissera Neil, quando passara ali no fim de semana. — Está muito… hã… bonitinha. Mas tem certeza de que as pessoas vão entender sobre o que é?
— Tem que ser sobre algo?
— Bem, que tipo de loja vai ser?
— Meu tipo de loja — respondera ela, apreciando o seu ar confuso.
Suzanna estava criando algo belo que era inteiramente a sua visão, não diluída por marido ou sócio algum. Livre para fazer o que quisesse, pegou-se pendurando luzes decorativas nas prateleiras, colocando plaquinhas pintadas com sua própria letra intrincada, pintando de roxo-claro as tábuas do piso porque gostara da cor. Fez com mesas e cadeiras, compradas a baixo custo num brechó e pintadas com latas de teste, o tipo de decoração que ela gostaria de ver quando fosse tomar café com suas amigas. Foram as cadeiras que a fizeram enxergar: estava, percebeu ao olhar para elas, criando para si um cantinho mágico, talvez um pouco cosmopolita, um lugar onde pudesse mais uma vez sentir-se em casa, distante dos olhos e atitudes provincianos que agora a rodeavam.
— Então, que tipo de loja você tem? — perguntara um dos antiquários, após ver o batente em sua vitrine. A voz dele tinha um sutil tom de escárnio.
— Eu tenho... Eu tenho um empório — dissera ela, fingindo não ver que ele voltava de sobrancelhas erguidas para a própria loja.
E foi assim que a chamou: Empório Peacock, em uma placa pintada de azul e branco com giz e com o estêncil de uma pena de pavão, remetendo ao sobrenome, ao lado. Neil olhara para aquilo com um misto de orgulho e receio. Confessou mais tarde que se perguntara se, com seu nome na porta, poderia tornar a vislumbrar a falência caso a loja desse errado.
— Não vai dar errado — disse Suzanna com firmeza. — Não seja tão negativo.
— Você vai ter que trabalhar à beça — retrucou ele.
Nem os anseios de Neil a incomodavam. Ultimamente estava mais difícil discutir com ele. Ela vinha dormindo bem.
Salvo o estoque, passou semanas sem comprar nada.
* * *
— Está aberta?
Suzanna ergueu os olhos de seu lugar no chão. As velas de ícones bizantinos haviam parecido uma boa ideia no atacadista de Londres, mas ali, enquanto examinava colete verde acolchoado após colete verde acolchoado passar pela vitrine, pessoas desinteressadas ou olhando para dentro com os olhos franzidos de um jeito vagamente desdenhoso, se perguntava se fora muito cosmopolita em suas escolhas. As velas ficavam lindas ao lado das bolsas bordadas com contas, mas, como Neil vivia dizendo, não fazia sentido comprar coisas belas se ninguém ali estava preparado para usá-las.
— Mais ou menos. Provavelmente segunda-feira.
A mulher entrou assim mesmo, fechou a porta e olhou em volta com uma expressão extasiada. Não estava de colete verde, mas sim de anoraque bordô, com um gorro de tricô colorido do qual seu cabelo grisalho saía espetado. À primeira vista, Suzanna poderia tê-la considerado uma aprendiz de mendiga, mas, olhando melhor, notou que tinha sapatos de boa qualidade, assim como a bolsa.
— Não é lindo aqui? Muito diferente de como era antes. — disse a visita. Suzanna levantou-se com esforço. — Essa loja era um armazém, sabe, quando eu era menina. As frutas ficavam desse lado... — apontou para onde agora ficavam as mesas e as cadeiras — e desse, as hortaliças. Ah, e eles vendiam ovos frescos. Tinham as galinhas nos fundos, sabe? Acho que você não vai fazer isso. — Ela riu, como se tivesse dito algo engraçado.
— Certo. Bem, é melhor eu...
— Para que são as mesas? Vai servir comida?
— Não.
— O pessoal gosta de uma comidinha.
— É preciso licença para isso. Vou servir café. Tipo expresso.
— Expresso?
Eram momentos assim que faziam vacilar o otimismo renovado de Suzanna. Como ela podia vender café numa cidade cujos habitantes nem sabiam o que era um expresso?
— É um tipo de café. Bem forte. Servido em xicrinhas.
— Bem, acho que é uma boa maneira de manter os lucros lá em cima. A casa de chá em Long Lane serve o chá em xícaras muito pequenas, eu sempre digo. Acho que isso mantém os lucros deles lá em cima também.
— Mas é para ser servido em xícaras pequenas.
— Tenho certeza de que eles diriam a mesma coisa, querida. — Foi até a vitrine, murmurando para si mesma enquanto tocava nos objetos em exibição. — Isso é para ser o quê, então? — Mostrou o quadro abstrato.
— Acho que não é para ser nada. — Suzanna ouviu o primeiro indício cortante na voz.
A mulher olhou mais de perto.
— Isso é arte moderna? — disse as palavras como se estivesse falando uma língua estrangeira.
— Sim. — Por favor, não diga “uma criança seria capaz de fazer isso”, Suzanna pensou.
— Eu seria capaz de fazer isso. Se eu fizesse um parecido, você o venderia para mim?
— Na verdade, aqui não é uma galeria. Você precisa falar com uma galeria.
— Mas você está vendendo aquele.
— É uma obra isolada.
— Mas se você vendê-lo, não há por que não ter interesse em vender outro. Quero dizer, prova que existe demanda.
Suzanna sentiu que perdia a paciência. Já tinha pavio curto mesmo nas boas circunstâncias. Que dirá nas piores.
— Foi ótimo falar com você, mas infelizmente preciso ir. — Suzanna estendeu o braço, como que para conduzir a mulher para a porta.
Mas ela tinha fincado o pé no chão. Cruzou os braços.
— Cresci nesta cidade. Sou costureira, mas me mudei quando me casei. Muita gente daqui se mudou.
Ai, meu Deus. Ela queria falar do passado. Suzanna olhou em volta desesperada, tentando encontrar alguma tarefa prática que pudesse usar como desculpa para se livrar da mulher.
— Meu marido morreu três anos depois que nos casamos. Tuberculose. Passou quase seis meses numa clínica na Suíça, acredita? E mesmo assim morreu.
— Sinto muito.
— Eu não. Ele era um homem bem burro. Só me dei conta disso depois de ter casado com ele. Não tivemos filhos, sabe? Ele preferia a gaita dele.
Suzanna bufou.
— O quê?
A mulher afagou vagamente o cabelo.
— Ele não sabia o que fazer, querida. Eu sabia, porque minha mãe tinha me contado. Expliquei a ele na nossa noite de núpcias, e ele ficou tão horrorizado que disse não, obrigado, preferia tocar a gaita dele. Então foi o que fez todas as noites, durante dois anos. Eu lia o meu livro na cama, ele tocava gaita.
A contragosto, Suzanna se pegou rindo.
— Sinto muito. Você... encontrou outra pessoa?
— Ah, não. Ninguém com quem eu quisesse me casar. Tive um monte de casos que foram legais, mas não queria a mesma pessoa na minha cama toda noite. Ela podia querer tocar um instrumento musical também. Deus sabe o que eu poderia acabar encontrando. — A mulher, pelo visto assombrada momentaneamente por visões de bumbos e tubas, fez um pequeno movimento de cabeça. — Sim, está tudo mudado. Voltei há seis meses e está tudo mudado... Você é daqui?
— Eu nasci aqui, mas moramos em Londres até o ano passado. — Suzanna não sabia direito por que dissera a verdade: tinha um palpite de que quanto menos contasse a essa mulher, melhor.
— Então você também é uma regressa! Que emocionante. Bem, encontrei minha alma gêmea. Sou a Sra. Creek. Johanna Creek. Pode me chamar de Sra. Creek. Como é seu nome?
— Peacock. Suzanna Peacock.
— Na casa onde cresci tinha pavões. Fica bem nos arredores da cidade, na estrada de Ipswich. São aves horrorosas, fazem um barulho medonho. Costumavam fazer as necessidades delas nos parapeitos das janelas.
Virou-se e pôs a mão no gorro, como que para conferir se ainda estava lá.
— Bem, Suzanna Peacock, não posso ficar o dia inteiro parada aqui conversando. Infelizmente preciso ir. Tenho que pegar uma torta de carne no mercado do Women’s Institute. Vou fazer uns aventais e umas bolsas para elas. Não são as coisas que estou acostumada a costurar, mas mantêm os dedos ocupados. Volto quando você inaugurar para tomar uma das suas xicrinhas de café.
— Ah, ótimo — disse Suzanna, secamente.
Antes de ir embora, a Sra. Creek tornou a olhar para o quadro abstrato, como que memorizando-o em preparação para a própria versão.
* * *
Suzanna chegou em casa quase às nove e meia. Neil estava sentado com os pés em cima da mesa de centro, uma tigela vazia e um prato cheio de migalhas ao lado.
— Já ia mandar um grupo de resgate — disse, tirando os olhos do televisor.
— Eu estava tentando deixar o estoque arrumado.
— Eu lhe disse que você precisava de mais prateleiras na frente.
— O que tem para jantar?
Ele fez um ar meio surpreso.
— Não fiz nada. Achei que você voltaria a tempo de cozinhar.
Ela tirou o casaco, sentindo-se subitamente irritada e cansada.
— Vou inaugurar a loja daqui a três dias, Neil. Estou muito ocupada. Pensei que só dessa vez você poderia cozinhar para mim.
— Você podia já ter jantado. Além disso, eu não sabia a que horas você voltaria.
— Você podia ter ligado.
— Você podia ter me ligado.
Suzanna jogou o casaco no encosto de uma cadeira e entrou pisando forte na pequena cozinha. As louças do café da manhã ainda estavam dentro da pia.
— Desde que você esteja bem, Neil, não se preocupe comigo, sim?
A voz dele elevou-se em protesto:
— Só comi um mísero pão com queijo. Não preparei um banquete para mim.
Ela começou a bater portas de armários, procurando algo fácil de preparar. Já fazia umas duas semanas que não tinha tempo de ir ao supermercado, e as prateleiras continham pouco mais que uma lentilha seca ou um cubo de caldo aberto.
— Você podia ter lavado a louça.
— Ah, pelo amor de Deus! Eu saio de casa quinze para as seis. Você quer que eu espere aqui até você ter acabado de tomar o seu café?
— Esquece isso, Neil. Você toma conta de si mesmo e eu tomo conta de mim, e aí pelo menos nós dois sabemos em que pé estamos.
Houve um breve silêncio, e ele apareceu à porta da cozinha. Havia pouco espaço para os dois, e Neil se moveu como para conduzi-la para a sala.
— Não seja tão melodramática, Suze. Olhe, sente aí que preparo alguma coisa para você.
— Você não deixou nem pão para mim. — Ela espiou o interior da embalagem plástica.
— Só tinha duas fatias.
— Ah, sai daí, Neil. Vai se deitar no sofá.
Ele jogou os braços para cima, exasperado. Só então ela viu quão cansado ele parecia, com o rosto abatido.
— Ah, sai daí você — retrucou ele. — E não se faça de mártir. Se essa loja vai deixar você tão ranzinza, já estou arrependido de você ter arrumado isso.
Atirou-se de novo no sofá, que era muito grande para a sala, pegou o controle remoto e começou a zapear.
Ela ficou na cozinha uns minutos, depois veio e sentou-se na cadeira em frente a ele, segurando uma tigela de cereais. Não queria olhar para o marido. Era a forma menos árdua de lhe mostrar quão farta estava.
Bruscamente, Neil desligou a televisão.
— Perdão — disse no silêncio. — Eu deveria ter pensado no pão. É só que, quando salto do trem à noite, só consigo pensar em chegar em casa.
Ele a desarmara.
— Não, eu é que deveria pedir perdão. É só cansaço. Vai ser melhor quando a loja inaugurar.
— Estou feliz por você ter conseguido a loja. Eu não deveria ter dito aquilo. É bom ver você tão... tão...
— Ocupada?
— Animada. Gosto de ver você animada. Parece que você anda... menos entediada… com a vida.
Comer o cereal pareceu um esforço muito grande. Ela estava muito cansada. Pousou-o na mesa à sua frente.
— Menos tempo para pensar, acho.
— É. Muito tempo para pensar... não dá boa coisa. Tento não fazer isso. — Ele sorriu sem forças. — Quer que eu veja se consigo tirar o dia de folga para a sua inauguração?
Ela suspirou, reconhecendo o sorriso dele.
— Não... não se preocupe. Acho que não vou fazer uma inauguração grandiosa. Nem sei se vai ser segunda-feira, pelo andar da carruagem. E é melhor você não perturbar o chefe. Com tão pouco tempo de casa.
— Se você tem certeza... — Deu-lhe um sorriso tímido, depois tornou a se acomodar no sofá, pegou o jornal e folheou-o.
Suzanna, sentada à sua frente, se perguntava por que, instintivamente, não o quisera lá. Parecia bobagem, mesmo para ela. Mesquinho, até. Mas simplesmente queria algo que fosse seu, puro e agradável, não contaminado pela história dela e de Neil. Não complicado por pessoas.