A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 9 de 29

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A Loja dos Sonhos

Nove

 

 

A propriedade Dereward era uma das maiores naquela parte de Suffolk. Com os fundos voltados para o que mais tarde ficou conhecido como Constable Country, remontava aos anos 1600, era inusitada no sentido de que abrigara uma linhagem quase ininterrupta, e suas terras, particularmente montanhosas para a região, tinham boa serventia para uma variedade de coisas, de cultivo agrícola a pesca esportiva, e continham um número excepcional — antieconômico, diziam alguns — de casas cedidas aos trabalhadores do campo. A maioria das casas de propriedades que ultrapassavam 180 hectares era bem mais imponente, talvez com uma galeria de retratos ou um salão de baile para indicar a seriedade da família titular. A propriedade Dereward tinha certo orgulho de sua história — seus retratos de família eram famosos não apenas por mostrar cada herdeiro nos últimos quatrocentos anos como também por detalhar, em linguagem bastante ousada, a circunstância de sua morte —, mas a casa cor de mostarda de oito quartos e repleta de vigas fora ampliada de maneira bastante incoerente, e em estilos arquitetônicos às vezes impróprios.

Mas, por outro lado, o lar original dos Fairley-Hulme tinha sido associado a meros 24 hectares, e só aumentara de tamanho em decorrência de uma aposta entre Jacob Hulme (1743-1790, morto pelo contato próximo, muito desencorajado, com uma das primeiras máquinas debulhadoras de Suffolk) e o constantemente embriagado chefe da Philmore, a propriedade vizinha. Para uma família tão interessada em alardear sua história, esse episódio era quase sempre esquecido. Aliás, a reclamação da dívida de jogo por parte de Jacob Hulme quase causara um levante entre os aldeões locais, que temiam por suas casas e seu sustento, até Jacob, que era mais esperto que a média dos membros da classe proprietária de terras, prometer que, sob seu domínio, os dízimos seriam reduzidos e uma nova escola seria construída, para ser administrada por uma tal Catherine Lees. (A Srta. Lees mais tarde teve um filho em circunstâncias não esclarecidas, embora Jacob mostrasse rara benevolência em oferecer-se para sustentar a professora solteira e lhe oferecer um teto.)

A casa Philmore permanecera em grande medida vazia e, dizia-se, depois fora o local de muitos encontros amorosos discretos para os membros masculinos da família Hulme, até uma Arabella Hulme (1812-1901, sufocada com uma amêndoa confeitada), cujo irmão, o herdeiro, morrera na Crimeia e fora responsável, por casamento, pelo acréscimo do “Fairley”, pôr fim no que viu como uma tentação desnecessária no caminho do marido. Empregara uma governanta particularmente severa e espalhara rumores mórbidos sobre as tendências castradoras dos supostos “fantasmas” da casa. Ela precisava fazer isso: a casa tinha se tornado mais ou menos uma lenda local a essa altura, e dizia-se que bastava um homem passar pela porta de entrada para ser dominado por pensamentos lascivos. Famílias viajantes se radicariam nas imediações para que suas meninas pudessem estar prontas para se aproveitar de tal fraqueza.

Então, Arabella Hulme era a exceção vestida de crinolina nessa fileira de rostos masculinos autoengrandecedores — embora sua mandíbula fosse tão marcada e seu perfil tão grosseiro que muitas vezes era preciso olhar duas vezes para se ter certeza. A partir da virada do século XX, foram feitas várias tentativas de retratar mais membros femininos da família, assim como surgiram protestos crescentes quanto à possibilidade de a casa cair na linha feminina da família. Mas as esposas e filhas tendiam a parecer meio desanimadas, como se não estivessem convencidas de seu direito à imortalidade pictórica. Ocupavam molduras douradas menos decoradas e posições menos proeminentes, e frequentemente desapareciam sem deixar vestígio. Os Fairley-Hulme, como Rosemary gostava de dizer, não haviam sobrevivido quatrocentos anos dobrando-se à moda e ao politicamente correto. Para durarem, as tradições precisam ser fortes, sustentadas por regras e certezas. Para alguém tão estridente no assunto, ela falava pouco sobre a história da própria família — com razão: Ben a procurara num banco de dados de genealogia na internet e descobrira que a família de Rosemary procedia de um matadouro em Blackburn.

Mas, talvez considerando os costumes sociais modernos e vivendo numa época em que a grandiloquência não era mais tão apreciada quanto antigamente, tudo indicava que os retratos seriam interrompidos no pai de Suzanna, de quem uma medonha máscara “interpretativa”, a óleo, achava-se em menor esplendor majestoso na parede do que fora conhecido por gerações sucessivas como a cova dos ursos: um quarto de pé-direito baixo com uma imensa lareira de pedra grosseiramente entalhada onde as crianças espalhavam brinquedos, adolescentes viam televisão e cachorros descansavam tranquilos. O último retrato teria sido o da mãe de Suzanna. Tinha sido pintado quando a moça completara dezoito anos por um jovem artista que, décadas depois, tornara-se importante. Mas agora o retrato pertencia a Suzanna e morava com eles no chalé, embora Vivi lhe tivesse assegurado reiteradamente que adoraria que Athene assumisse o seu lugar de direito na parede. “Ela é muito linda, querida, e se significasse alguma coisa para você tê-la à vista, assim ela deveria estar. Podemos mandar restaurar a moldura, vai ficar lindo.” Vivi, sempre se esforçando, sempre ansiosa para poupar os sentimentos de todo mundo. Como se ela mesma não tivesse nenhum.

Suzanna lhe dissera que gostava de ter o retrato em casa simplesmente por ser uma bela pintura. Não era como se ela se lembrasse de Athene. Vivi tinha sido a única mãe que ela conhecera. Não era capaz de articular o verdadeiro motivo. Tinha a ver com culpa e ressentimento e, diante da quase total incapacidade do pai em falar sobre a primeira esposa, sua própria dificuldade de confrontá-lo com a prova de que ele havia tido aquela primeira esposa. Foi desde que ela deixara o cabelo ficar escuro de novo, desde que adquirira, como dizia Neil, um pouco da beleza feroz da mãe, que o pai achara difícil até olhar para ela. “Athene Forster”, dizia a inscrição discreta na moldura dourada carcomida. Talvez em deferência aos sentimentos de Suzanna, não detalhava a circunstância da morte.

— Você vai pendurar? Está à venda?

Suzanna olhou a jovem parada, de cabeça inclinada, à porta.

— Ela se parece com você — disse a moça alegremente.

— É a minha mãe — disse Suzanna com relutância.

O quadro não combinava com a casa: era muito imponente. Athene, com seus olhos faiscantes e seu rosto pálido, anguloso, enchera a sala sem deixar espaço para mais nada. Agora, olhando para a pintura na loja, Suzanna se deu conta de que também não ficava bem ali. O simples fato de aquela estranha o estar examinando a fez sentir-se desconfortável, exposta. Virou-o para a parede e encaminhou-se para a caixa.

— Eu estava levando a tela para casa — disse, e tentou sugerir, pelo tom, que a conversa estava encerrada.

A moça tentava tirar o casaco. Tinha o cabelo loiro preso em duas tranças, como uma colegial, embora fosse mais velha.

— Eu quase perdi a virgindade nas suas escadas. Estava bêbada feito um gambá. Você está servindo café?

Suzanna, encaminhando-se para a máquina de expresso, nem se virou.

— Você deve estar enganada. Aqui era uma livraria.

— Dez anos atrás era um bar de vinhos. O Red Horse. Foi durante uns dois anos, enfim… Quando eu tinha dezesseis, a gente aparecia sábado à noite, tomava um porre no Diamond White na praça do mercado, depois vinha aqui para namorar. Foi onde conheci o carinha. Ficamos aos amassos naqueles degraus. Veja só, se eu soubesse naquela época... — Ela deixou a frase no ar, rindo. — Posso tomar um expresso? Você está servindo café?

— Ah. Sim. — Suzanna se embaralhou com alavancas e medidas de café, agradecida pelo barulho da máquina abafar temporariamente a necessidade de uma conversa. Ela imaginara que as pessoas entrariam ali, se sentariam e conversariam umas com as outras. Que ela presidiria a tudo isso da segurança do balcão. Mas, nesses dois meses de loja, descobrira que, na maioria das vezes, os clientes queriam falar com ela, quer ela se sentisse sociável, quer não.

— Acabaram fechando o bar. Não espanta, mesmo, com a venda de bebidas a menores de idade que rolava.

Suzanna colocou a xícara cheia num pires com dois torrões de açúcar e levou-a com cuidado para a mesa.

— Está com um cheiro maravilhoso. Faz semanas que passo por aqui e sempre fico com vontade de entrar. Adorei o que você fez com o espaço.

— Obrigada — disse Suzanna.

— Já conheceu o Arturro, na déli? Grande figura. Se esconde atrás dos salames quando mulheres entram na loja. Desistiu de vender café há uns dezoito meses porque a máquina vivia quebrando.

— Sei de quem você está falando.

— E Liliane? Da Unique Boutique? É logo ali. A loja de roupas. Na esquina.

— Ainda não.

— Ambos solteiros. Ambos de meia-idade. Acho que têm interesse um pelo outro há anos.

Suzanna, consciente de que não queria se ver como tópico desse tipo de conversa no futuro, não disse nada. A moça tomou o café. Depois reclinou-se na cadeira e notou a pequena pilha de revistas de papel brilhoso num canto.

— Se incomoda se eu der uma olhada?

— É para isso que estão aí.

Tinha comprado as revistas havia uma semana, esperando que isso diminuísse as conversas com os clientes. A moça lhe lançou um olhar estranho, depois sorriu com naturalidade e começou a folhear a Vogue. Examinava as páginas com o tipo de prazer que sugeria que não era grande leitora de revistas.

Ficou ali sentada quase uns vinte minutos, durante os quais os dois homens que tocavam a loja de peças de motocicleta entraram para tomar silenciosas doses rápidas de café forte e a Sra. Creek fez sua incursão bissemanal pelas prateleiras. Nunca comprava nada, mas dera várias semanas da história de sua vida a Suzanna, que escutara sobre sua carreira como modista em Colchester, sobre o Infeliz Incidente no Trem e sobre suas várias alergias, que incluíam cães, cera de abelha, certas fibras sintéticas e cream cheese. A Sra. Creek passara a maior parte da vida sem saber que tinha essas alergias, óbvio. Não tinha havido muitos indícios. Mas ela fora falar com um daqueles homeopatas na lojinha da esquina, e eles fizeram um teste envolvendo campainhas e pequenas ampolas e ela descobrira que havia uma infinidade de coisas das quais não deveria se aproximar.

— Você não tem cera de abelha aqui, tem? — perguntou, fungando.

— Nem cream cheese — disse Suzanna, tranquilamente.

A Sra. Creek comprara uma única xícara de café e reclamara, fazendo careta, que era “um pouquinho amargo para o meu gosto”.

— No Three Legged Stool, lá em cima, botam CoffeeMate no deles, se a gente pedir. Sabe, como leite em pó. E dão um biscoito de graça — disse, esperançosa. Depois, quando Suzanna não fez caso dela, acrescentou: — Não é preciso alvará de comercialização de alimentos para servir biscoitos.

Ela fora embora pouco antes do meio-dia, tendo, como disse à moça, “prometido jogar baralho com uma das senhorinhas no centro”.

— Ela é meio chata — confidenciou, num sussurro para ser ouvido —, mas acho que é um pouco solitária.

— Tenho certeza de que ela vai ficar feliz em vê-la — disse a moça. — Tem muita gente solitária nesta cidade.

— Não tem, querida? — A Sra. Creek ajeitou o chapéu, lançando um olhar significativo para Suzanna, e saiu energicamente para o clima úmido e ensolarado da primavera.

— Pode me servir outro café? — A moça se levantou e levou a xícara para o balcão.

Suzanna reabasteceu a máquina. Quando ia ligá-la, sentiu o olhar da mulher. Notou que estava sendo avaliada em silêncio.

— É uma escolha estranha, administrar uma cafeteria. Quero dizer, para alguém que não gosta de gente.

Suzanna ficou imóvel.

— Isso não é bem uma cafeteria — disse com aspereza. Olhou para as mãos, que seguravam a xícara. Depois acrescentou: — Eu só não sou muito de jogar conversa fora.

— Então é melhor aprender — disse a moça. — Do contrário, não vai sobreviver por muito tempo, por mais linda que seja a sua loja. Aposto que você veio de Londres. O povo de Londres nunca conversa nas lojas. — Olhou em volta. — Você precisa de música. Música sempre anima as coisas.

— Oi? — Suzanna tentava não se irritar.

A moça devia ser uns dez anos mais nova que ela e tinha a pretensão de lhe ensinar a administrar o seu negócio.

— Estou sendo um pouco incisiva? Me desculpe. Jason sempre diz que sou muito incisiva com as pessoas. É só que sua loja é muito simpática, realmente encantadora, e acho que vai fazer muito sucesso se você parar de agir como se desejasse que os clientes não estivessem aqui. Pode colocar açúcar nesse?

Suzanna empurrou o açucareiro para ela.

— É essa impressão que eu dou?

— Você não é das mais acolhedoras. — Vendo a expressão consternada de Suzanna, corrigiu-se: — Quero dizer, eu não ligo, porque falo com todo mundo mesmo. Como aquela senhorinha. Mas tem muitos outros aqui que desanimariam. Você é mesmo de Londres?

— Sim — disse Suzanna.

Era mais fácil do que explicar.

— Cresci na propriedade perto do hospital. Meadville, conhece? Mas é uma velha cidade engraçada. Galochas muito verdes. Muito metida a besta. Entende o que estou dizendo? Para ser sincera, tem um monte de gente aqui que não vai dar bola para você porque vai achar tudo na sua vitrine muito esquisito. Mas tem algumas pessoas que acham que não se encaixam. Pessoas que não querem ficar sentadas com seu biscoito de aveia, um lapsang souchong e uma velhinha de cabelo roxo e lenço na cabeça berrando na mesa ao lado. Acho que, se fosse um pouquinho mais simpática, você teria uma clientela grande.

A contragosto, Suzanna sentiu os cantos da boca subindo ao reconhecer a descrição da moça.

— Acha que eu deveria virar uma espécie de assistente social?

— Se isso trouxer clientes. — A moça jogou um torrão de açúcar na boca. — Você precisa ganhar dinheiro, não? — Lançou um olhar malicioso para Suzanna. — Ou essa loja é um hobbyzinho?

— O quê?

— Eu não sabia se você era uma dessas... sabe, “maridinho trabalha no centro. Ela precisa de um hobbyzinho”.

— Não sou uma dessas.

— Quando os seus clientes souberem que são bem-vindos, você pode colocar um aviso dizendo: “Não falem comigo.” Se você conseguir o tipo certo de clientela, eles vão entender... quero dizer, se falar com as pessoas for assim tão doloroso.

Elas se olharam e sorriram. Duas mulheres adultas, identificando alguma coisa uma na outra, embora velhas demais para reconhecerem que estavam virando amigas.

— Jessie.

— Suzanna. Não sei direito se consigo entrar nessa de bater papo.

— Você está conseguindo clientes suficientes sem isso?

Suzanna ponderou. Pensou em sua caixa registradora vazia. Na testa franzida de Neil enquanto ele examinava os números.

— Mais ou menos.

— Você me paga em café, eu venho ajudar por umas horinhas amanhã. Mamãe está ficando com a minha Emma por umas duas horas antes das aulas à noite, e prefiro isso a passar aspirador. É bom fazer uma coisa diferente.

Suzanna se empertigou, perturbada com a ideia de estar sendo manipulada.

— Acho que aqui não tem trabalho para duas.

— Ah, eu arrumo. Conheço todo mundo, sabe? Bom, tenho que ir. Pense nisso, e eu apareço amanhã. Se não me quiser, tomo um café e vou embora. Tudo bem?

Suzanna encolheu os ombros.

— Se você quiser.

— Ah, que saco. Estou atrasada. Tchau.

Jessie atirou um dinheiro no balcão — a quantia certa, no fim das contas —, jogou o casaco no ombro e correu para a rua. Era pequena. Enquanto ela se afastava, parecia uma criança aos olhos de Suzanna. Como alguém como ela pode ter um filho, pensou, e eu ainda achar que não estou pronta?

* * *

Não queria admitir, nem para si mesma, mas Suzanna estava cultivando uma nova paixonite. Sabia disso porque todo dia, nos poucos minutos antes de fechar a loja para comprar seu sanduíche de sempre na déli, pegava-se conferindo a aparência, retocando o batom e limpando os detritos da manhã da roupa. Não era a primeira durante seu casamento com Neil, achava que provavelmente tinha em média uma por ano. Iam do professor de tênis, que tinha os antebraços mais poderosos e musculosos que ela já vira, ao irmão de sua amiga Dinah, passando pelo chefe da empresa de marketing onde ela trabalhara, que dissera que Suzanna era o tipo de mulher que dava aos homens noites insones. Ela tinha quase certeza de que tinha sido um elogio.

Nada jamais acontecera de fato. Ela ou os adorava de longe, criando uma espécie de vida e personalidade paralelas para eles em sua imaginação — muitas vezes bem mais desejáveis que a realidade —, ou se permitia uma amizade rapidamente íntima, em que perguntas pairavam tácitas no ar e tendiam a evaporar quando o homem presumia que ela não estava preparada para levar aquilo adiante. Uma vez, com o chefe de marketing, ela se permitira o prazer culpado de um beijo roubado. Fora bem romântico quando ele fechara a porta do escritório, deixando os dois a sós, e olhara para ela com uma concentração muda, mas se tornou tão horrorizante quando depois ele se declarou apaixonado que ela nunca mais voltou. (Achava um despropósito e uma injustiça Neil ainda ver isso como mais um exemplo de sua incapacidade de levar um emprego a sério.) Ela não estava sendo infiel, dizia a si mesma, só saboreando um pouco o prazer de olhar vitrines, alimentando o tipo de frisson que costumava desaparecer com a segurança e a vida doméstica.

Só que dessa vez não sabia ao certo em quem sua paixão estava focada. A delicatéssen de Arturro, o dono alto e tímido sobre quem Jessie andara lhe contando, empregava três dos jovens mais atraentes que Suzanna já vira. Ágeis e cheios da exuberância alegre daqueles que não só sabem que são bonitos como também ficam mais bonitos ainda numa cidade sem concorrência, eles gritavam insultos animados uns para os outros, atirando queijos e vidros de azeitonas com o que Suzanna via como uma graça sublime, enquanto Arturro rondava de um jeito bonachão atrás do balcão.

Quando Suzanna entrava, eles invariavelmente estavam dizendo aos gritos um peso ou uma medida.

— Sete ponto oito!

— Não, não. Oito ponto dois.

Para uma cidade que parecia considerar muito ousada qualquer coisa mais estrangeira que as ofertas entediantes do restaurante chinês de comida para viagem e ainda tinha reservas quanto ao restaurante indiano, a déli de Arturro estava sempre bem povoada. As mulheres da cidade esperavam numa fila organizada para comprar seu prato semanal de queijos ou seus biscoitos elegantes de café da manhã, aspirando os densos aromas de salame picante, Stilton e café, observando os rapazes com um olhar divertido e gentil (enquanto ajeitavam de vez em quando uma mecha rebelde de cabelo). As garotas mais jovens ficavam na fila dando risadinhas, aos cochichos umas com as outras, e só se lembravam de que não tinham dinheiro nenhum quando chegava a sua vez.

Eram bonitos, com a pele brilhante, negra. Seus olhos tinham o brilho cúmplice que indicava noites de verão cheias de alegria, passeios barulhentos em motonetas elegantes, noites de promessa culpada. Estou velha demais para eles, dizia Suzanna a si mesma, de uma maneira decididamente maternal, enquanto se perguntava se níveis crescentes de equilíbrio e sofisticação tinham mais peso que as rugas definidas em seu rosto e a forma cada vez mais quadrada de seu traseiro.

— Nove. Nove ponto um.

— Você é disléxico. Ou cego. Está com os números ao contrário.

— Pode me ver um sanduíche de mortadela, tomate e azeitona no pão integral? Sem manteiga, por favor.

Arturro corou ao registrar o pedido dela.

— Movimentado hoje — disse Suzanna, quando um dos jovens subiu numa escada de mão para alcançar um panetone envolvido numa embalagem alegre.

— E você? — perguntou, baixinho, e Suzanna teve que se inclinar à frente para ouvi-lo.

— Não muito. Hoje não. Mas são os primeiros dias. — Estampou um sorriso alegre.

Arturro entregou-lhe um saco de papel.

— Vou até lá amanhã para conhecer. A pequena Jessie veio aqui hoje de manhã nos convidar. Tudo bem?

— O quê? Ah, sim. Sim, certamente. Jessie está me ajudando.

Ele fez um gesto de aprovação com a cabeça.

— Boa moça. Conheço-a há muito tempo.

Enquanto Suzanna se perguntava qual dos três rapazes poderia constituir o “nós” de Arturro, ele foi a passos pesados até a ponta do balcão e puxou uma lata decorada de biscoitos amaretti de uma prateleira alta. Voltou e entregou a ela.

— Para o seu café.

Suzanna olhou para a lata.

— Não posso aceitar.

— É para dar sorte. Para o seu negócio. — Sorriu timidamente, revelando duas fileiras de dentes miúdos. — Experimente quando eu for lá amanhã. Muito bom.

— Uau, Arturro está paquerando. — Ouviu-se um assobio atrás dela. Dois dos rapazes olhavam para ele, braços cruzados sobre os aventais brancos, fazendo cara de reprovação. — Tomem cuidado, senhoras. Daqui a pouco, Arturro vai lhes oferecer uma prova grátis do salame dele...

Ouviram-se risadas abafadas na fila. Suzanna se pegou corando.

— E sabe o que dizem do salame italiano, hein, Arturro?

O homem corpulento virou-se para a caixa, levantou um braço da largura de um presunto e soltou uma rajada do que Suzanna presumiu serem impropérios à italiana.

— Ciao, signora.

Suzanna foi embora da déli vermelha, tentando não sorrir demais para não parecer o tipo de mulher que fica muito empolgada quando recebe um pouco de atenção.

Quando voltou para a loja, descobriu que se esquecera de pegar o sanduíche.

* * *

Jessie Carter nascera na maternidade de Dere. Era filha única de Cath, que trabalhava na padaria, e Ed Carter, que fora um dos carteiros da cidade até morrer de infarto fazia dois anos. Podia-se dizer que não tivera uma vida exótica. Passou a infância com os amigos na propriedade Meadville, estudou na Dere Primary, depois foi para a Hampton High School, da qual saiu aos dezesseis anos com dois GCSEs em arte e economia doméstica e um namorado, Jason, que se tornou o pai de sua filha, Emma, dois anos depois. Emma não fora planejada, mas foi muito desejada, e Jessie nunca se arrependeu — especialmente sendo Cath Carter a mais dedicada das avós; Jessie não podia reclamar de ficar presa como algumas moças reclamavam.

Não, não era Emma que causava quaisquer limitações à sua vida. Para ser sincera, era Jason. Ele era possessivo à beça, o que, no fundo, era uma burrice, pois ela sempre foi fiel a ele e não tinha intenção de arrumar outro. Mas Jessie não queria passar a impressão errada. Jason era muito divertido, quando não estava sendo babaca, e um ótimo pai, e não se podia reclamar de ser assim tão amada. Paixão, sabe? Esse era o segredo. Sim, eles brigavam, mas também havia muitas reconciliações. Às vezes ela achava que provavelmente só brigavam para chegar na parte da reconciliação. (Bem, tinha que ter alguma razão para tantas brigas.) E agora que o município lhes dera uma casa, não tão longe da casa da mãe dela, e que Jason tinha se acostumado com a ideia de Jessie estudar à noite, e que ele estava ganhando uns trocados fazendo entregas com a van da loja de material elétrico, as coisas estavam melhorando.

Suzanna descobriu tudo isso mais ou menos nos primeiros quarenta minutos de trabalho de Jessie na loja. Inicialmente, não se importou com a conversa: Jessie tinha limpado a loja inteira quase sem esforço enquanto falava, levantando móveis e varrendo corretamente embaixo de todas as cadeiras, tinha organizado duas prateleiras e lavado todas as xícaras de café. De alguma forma, isso deixou o ambiente mais caloroso. E ela — ou isso — ajudara a dar ao Empório Peacock a sua tarde mais lucrativa, atraindo uma trilha aparentemente interminável de clientes com eficiência magnética. Arturro apareceu, sozinho, tomou o seu café com uma atenção de quem entende o que está fazendo e respondeu às incessantes perguntas de Jessie com um prazer tímido. Depois que ele foi embora, Jessie assinalou que ele ficara quase o tempo todo olhando pela vitrine para a Unique Boutique, como se na esperança de que Liliane pudesse sair daquela porta de vidro fumê e se juntar a ele.

As senhoras da loja de departamentos, onde a tia de Jessie trabalhava, apareceram e ficaram bobas com as tapeçarias da parede, abaixaram a cabeça sob os móbiles chamativos, se alvoroçaram com os mosaicos de vidro e acabaram comprando um de cada, exclamando diante da sua extravagância. Trevor e Martina, do cabeleireiro atrás dos correios, que conheciam Jessie desde a escola, compraram um dos espanadores de penas pretas, porque ficaria bom no salão. Vários jovens que Jessie conhecia pelo nome, provavelmente da propriedade, foram até o Empório. Além da mãe e da filha de Jessie, que tinham entrado e ficado uns bons quarenta minutos sentadas, admirando quase tudo que viam. Emma era uma cópia fiel da mãe, uma menina segura de sete anos, toda vestida de cor-de-rosa, que avaliou os biscoitos amaretti como “estranhos, mas bons, ainda mais o açúcar” e disse que, quando crescesse, ia ter uma loja “igualzinha. Só que, na minha loja, vou dar pedaços de papel para as pessoas poderem fazer desenhos e eu pendurar nas paredes”.

— Boa ideia, flor. Você podia botar os desenhos dos seus clientes favoritos em um lugar de destaque. — Jessie parecia tratar com seriedade todas as declarações da filha.

— E emoldurá-los. As pessoas gostam de ver seus desenhos emoldurados.

— Pronto — disse Jessie, dando um polimento final na máquina de café. — Psicologia do varejo. Como fazer seus clientes se sentirem valorizados.

Suzanna, embora reconhecendo o benefício da clientela extra, sentia-se sufocada por Jessie e sua família. Não conseguia lidar com outra pessoa atrás do balcão, com a reorganização de suas prateleiras — embora sem dúvida estivessem com um aspecto melhor. A loja não parecia mais tão sua desde que Jessie pisara ali.

Aliás, depois das calmas semanas anteriores, tinha entrado tanta gente na loja aquela tarde que Suzanna teve que reprimir um ligeiro sentimento de inadequação e uma pontada de inveja por essa moça ter se saído tão naturalmente bem no que ela fracassara.

Isso é burrice, disse a si mesma, indo ao porão buscar mais sacolas. É uma loja. Você não pode se dar ao luxo de guardar tudo para si. Sentou-se bruscamente nos degraus, agora poluídos pelos fantasmas de adolescentes se beijando, e examinou as prateleiras do andar de baixo, que, no passado, aparentemente haviam guardado caça ilegal que se podia pedir com legumes. Talvez a questão não fosse ter sido superada por Jessie, talvez ela é que não gostasse da sensação de todo mundo sentir-se em casa, da obrigação e da expectativa que uma relação íntima com os clientes parecia criar. Tudo estava mudando de direção, aproximando-se um pouco demais da ideia de família.

Não sirvo para isso, pensou. Vai ver que só gostei de fazer a decoração, de criar uma coisa bonita. Talvez eu deva fazer uma coisa que não envolva nenhum tipo de relacionamento com o cliente.

Estremeceu quando a cabeça de Jessie apareceu no alto da escada.

— Está tudo bem aí?

— Sim.

— Mamãe nos trouxe um suco de laranja gostoso. Achei que talvez você estivesse farta de café.

Suzanna deu um sorriso forçado.

— Obrigada. Já vou subir.

— Quer alguma ajuda aí embaixo?

— Não, obrigada. — Suzanna tentou transmitir no tom que preferiria ter cinco minutos sozinha.

Jessie olhou para um ponto invisível à sua esquerda e depois de novo para ela.

— Tem mais uma pessoa aqui que você precisa conhecer. A Liliane, da loja da frente. Eu fazia faxina lá. Ela acabou de comprar um par de brincos, os da vitrine.

Era o artigo mais caro da loja. Por um instante, esquecendo suas reservas anteriores, Suzanna subiu os degraus quase correndo.

A expressão de Liliane MacArthur era tão carrancuda quanto a de Jessie era simpática. Uma mulher alta, magra, com o tipo de cabelo discretamente avermelhado apreciado pela população feminina de Dere Hampton, fitou Suzanna com o experiente olhar de cima a baixo de alguém que aprendera a duras penas que mulheres, especialmente com uns bons vinte anos a menos, em geral não mereciam confiança.

— Oi — disse Suzanna, imediatamente sem jeito. — Que bom que você viu os brincos.

— Sim. Gosto de topázio. Sempre gostei.

— São vitorianos, talvez dê para notar pela caixa.

Jessie os embrulhava num arranjo intrincado de ráfia e papel de seda.

— São para você, Liliane?

A mulher mais velha fez que sim.

— Vão combinar muito com aquele seu casaco azul. O de gola alta.

A expressão de Liliane se suavizou ligeiramente.

— É, eu pensei nisso.

— Como vai sua mãe, Liliane? — A mãe de Jessie se inclinou, tentando ver por trás da caixa registradora.

— Ah, mais ou menos na mesma... Ultimamente, anda com problemas para segurar a xícara.

— Coitadinha. Agora tem de todo tipo, com alças diferentes e coisas para facilitar. Vi na televisão. Especialmente para pessoas com artrite. Pergunte ao padre Lenny, ele normalmente consegue coisas assim — disse Jessie.

— Ele é o nosso padre — explicou Cath —, mas é como um faz-tudo. Consegue arranjar tudo para gente. Se não conhece uma pessoa, acha na internet.

— Vou ver como as coisas andam.

— É uma doença muito cruel, a artrite. — Cath balançou a cabeça.

— Sim — disse Liliane, a cabeça baixa. — É, sim. Bem, é melhor eu voltar para a loja. Prazer em conhecê-la, Sra. Peacock.

— Suzanna, por favor. Igualmente. — Suzanna, as mãos abaixadas se contraindo inutilmente, tentou relaxar o sorriso enquanto Liliane fechava a porta calmamente ao sair.

Sentiu, mesmo que não tenha ouvido, o “coitadinha” remanescente no ar quando a mulher de meia-idade foi embora.

— O primeiro marido morreu — murmurou Jessie. — Foi o amor da vida dela.

— Não, foi o Roger.

— Roger? — disse Suzanna.

— O segundo marido — disse Cath. — Ele disse a ela que não queria filhos, e ela o amava tanto que concordou. Dois dias antes de ela completar quarenta e seis anos, ele fugiu com uma de vinte e cinco.

— Vinte e quatro, mãe.

— Era? Ela estava grávida. Meu Deus, que injustiça. Dezoito anos, Liliane deu para aquele homem. Nunca mais vai ser a mesma.

— Agora mora com a mãe.

— Não tem escolha, com as coisas do jeito que estão...

Enquanto Liliane atravessava a rua, a figura pesada de Arturro podia ser vista encaminhando-se em perpendicular na direção dela. Ao vê-la, ganhou velocidade, os braços balançando como se não estivesse acostumado a andar naquele ritmo. Podia ter falado com ela quando, assentindo em reconhecimento e parando por apenas alguns segundos, ela entrou na própria loja.

Arturro parou em estágios deselegantes, como um veículo grande precisando de mais espaço para frear, a cara ainda virada para a porta da Unique Boutique. Depois olhou para o Empório Peacock, a expressão quase culpada e, com apenas um vestígio de indecisão, entrou.

Jessie, que vira tudo, ligou a máquina de café, gritando, inocente:

— Veio para uma reabastecida, Arturro?

— Se você não se importar — disse ele, baixinho, desabando no banco.

— Eu sabia que você voltaria para uma segunda xícara. Os italianos adoram café, não?

Suzanna, para quem o diálogo tinha sido quase doloroso, sentiu as apreensões anteriores se dissolverem. Pela janela, dava para ver bem a mulher, sã e salva de volta aos próprios domínios, senhora de cadeado na boca e introversão, rodeada daquele arsenal de tecidos. Havia algo na aparência frágil de Liliane, em seu desconforto com uma conversa descontraída, na dor ligeiramente implícita a seu comportamento, que a tornava terrível, como se ela estivesse testemunhando o Fantasma do Natal Futuro.

— Quer vir de novo? — Suzanna perguntou a Jessie mais tarde, depois que Arturro e Cath tinham ido embora. Elas haviam colocado as cadeiras de ponta-cabeça nas mesas e Jessie varria o chão, enquanto Suzanna contava o saldo do dia. — Eu gostaria muito se viesse — acrescentou, tentando imprimir certa convicção na voz.

Jessie abriu um sorriso, aquele seu sorriso largo, franco.

— Posso vir até a hora da saída da escola, se estiver bom para você.

— Depois de hoje, não vejo como posso me virar sem você.

— Ah, você vai se sair bem. Só precisa conhecer todo mundo. Fazer com que as pessoas entrem aqui todo dia.

Suzanna contou várias notas e estendeu-as.

— Não posso pagar muito de início, mas se você aumentar o faturamento assim de novo, eu poderia fazer esse trabalho valer a pena para você.

Após um instante de hesitação, Jessie pegou o dinheiro e enfiou no bolso.

— Eu não esperava nada por hoje, mas obrigada. Tem certeza de que não vai se entediar com meu papo furado o tempo todo? Jason fica doido comigo. Diz que eu pareço um disco arranhado.

— Eu gosto disso. — Suzanna achou que poderia acabar acreditando naquilo. — E se não gostar, boto um daqueles avisos que você mencionou... “Não fale comigo”, ou o que quer que tenha dito.

— Vou perguntar ao meu marido. Mas ele não pode dizer que não estamos precisando. — Ela começou a retirar as cadeiras de cima das mesas.

* * *

Suzanna trancou a caixa, notando, quando começou a rotina de encerramento do expediente, que era a primeira noite em que restara um vestígio de claridade cor de pêssego. Gradualmente, a luz se intensificou, iluminando o interior da loja, transformando os azuis em tons neutros, tingindo os documentos que ela colara nas paredes com um brilho rico, riscando-os em zigue-zague com as sombras das molduras das janelas. Do lado de fora, a rua estreita já estava vazia: as lojas fechavam cedo na cidade, e só os comerciantes permaneciam para dar boa-noite uns aos outros enquanto anoitecia. Ela adorava esta parte: adorava o silêncio, adorava a sensação de ter passado o dia trabalhando para si mesma. Adorava a ideia de que as impressões que deixava na loja ficariam até ela tornar a abri-la na manhã seguinte. Circulava quase em silêncio, aspirando a miríade de fragrâncias dos sabonetes artesanais e dos vidros bizantinos de perfume que restavam no ar, ouvindo no silêncio as risadas e a conversa dos clientes do dia, como se cada um tivesse deixado para trás algum eco espectral. O Empório Peacock tinha sido um sonho agradável, mas naquele dia, de certa forma, tinha parecido mágico, como se o melhor da loja tivesse contagiado os clientes e vice-versa. Ela descansou encostada num banco, vendo à sua frente algo que não as decepções e restrições que andara imaginando como seu futuro, substituídas por um lugar de possibilidades para o qual coisas e pessoas belas eram atraídas. Um lugar em que podia ser quem realmente era, o melhor de si mesma.

Este lugar está te deixando criativa, pensou, e se pegou sorrindo. Em algumas noites, como essa, ela não queria ir embora: abrigava um desejo secreto de trocar o banco de igreja por um sofá velho e dormir lá. A loja era muito mais sua do que a casa.

Enquanto ela arrastava para dentro o letreiro de chão, Arturro passou, virou-se bruscamente, pegou-o da mão dela sem dizer uma palavra e guardou-o com cuidado.

— Linda noite — disse, uma echarpe vermelha enrolada na cabeça.

— Maravilhosa. Um pôr do sol marsala.

Ele riu e ergueu a mão pesada, já indo embora.

— Arturro — chamou Suzanna —, o que vocês pesam o dia inteiro? Aquilo que vocês todos gritam uns para os outros? Porque não são os queijos, são? Notei mais cedo que os queijos são pesados no balcão.

O homenzarrão olhou para baixo. Mesmo à luz cor de pêssego, dava para ver que ele estava constrangido.

— Não é nada.

— Nada?

— Não estamos pesando exatamente... — disse ele.

— Esse negócio todo de “sete ponto dois”, “oito ponto um”. Só pode ser algum peso.

Quando a encarou, ele estava achando graça de um jeito culpado.

— Tenho que ir. Mesmo.

— Você não quer me contar?

— Não é importante.

— Por que não me conta?

— Não sou eu, ok? São os rapazes... eu já mandei pararem com isso, mas eles não ouvem.

Suzanna aguardou.

— Eles estão... hã...

Ela ergueu a sobrancelha.

— ... avaliando clientes.

Suzanna arregalou os olhos e sentiu uma pontada, como se tivesse pessoalmente sido feita de boba. Depois, pensou nas filas de mulheres, esperando pacientemente para serem avaliadas, e soltou uma rara risada. Quando Arturro se afastou, rindo, pela rua que escurecia, ela ainda tentava lembrar exatamente que números tinham sido negociados quando ela entrara. Estava na hora de ir. Neil ia para casa cedo, especialmente, disse ele, para lhe preparar uma refeição, embora ela soubesse que era por causa do grande jogo, que começava normalmente antes de ele chegar em casa. Mas tudo bem. Afinal de contas, um banho demorado não era má ideia.

Andou pela loja, endireitando coisas, passando um pano nas superfícies, depois pôs o pano na pia. Verificou se a caixa registradora estava desligada e, enquanto estava parada no balcão, reparou que o quadro ainda estava virado para a parede. Por um capricho, desvirou-o, de modo que Athene, revelada, ficou de imediato reluzente, incandescente. O sol da tarde, ardendo com a intensidade urgente que denunciava seu desaparecimento iminente, refletia na tela, reluzia em pontos da moldura dourada antiga.

Suzanna fitou-a.

— Boa noite, mãe.

Depois deu uma olhada ao redor da loja, apagou as luzes e encaminhou-se para a porta.