A Loja dos Sonhos
Cinco
O dia em que parti o coração de alguém
Ah, sei que não pareço o tipo. Você deve estar pensando que nunca despertei a paixão de ninguém. Mas despertei, sim, muito tempo atrás, antes de a meia-idade e os cabelos grisalhos cobrirem quaisquer atributos que já tive. O nome dele era Tom e ele era um amor de rapaz. Não era dos mais atraentes, mas tinha muita integridade. Sólido como uma rocha, sem dúvida. Boa família. E me adorava.
Não era de falar muito. Naquele tempo, os homens não falavam. Pelo menos não os que conheci. Mas eu sabia que ele me adorava. Para começar, me esperava na esquina toda noite para me levar em casa quando eu saía do escritório, e também guardava para mim belas peças de fita e renda da pilha de sobras na fábrica de seu pai. A família dele trabalhava com aviamentos, sabe? Ele estava aprendendo o ofício do pai. Foi assim que nos conhecemos. Não muito masculino, você deve estar pensando, e, sim, até havia alguns meninos assim, mas quando você o via... bem, ele não tinha nada de afeminado. Era um cara alto, de ombros enormes. Carregava rolos de tecido para mim, empilhava três ou quatro no ombro com a mesma facilidade com que jogava o casaco nas costas.
Ele chegava com bandejas de botões e pedaços de aviamento, em geral de uma linda renda vitoriana que estava mofando em alguma caixa. Deixava-as para mim sem dizer nada, estendidas, como se fosse um cachorro me presenteando com um osso. Eu fazia as minhas próprias roupas na época, e ele sempre era capaz de identificar nelas um dos seus botões ou um viés de veludo. Acho que isso o deixava bem orgulhoso.
E ele nunca me pressionou. Nunca fez qualquer declaração mais contundente nem anunciou suas intenções. Eu lhe dissera, veja só, que nunca me casaria. Eu tinha certeza disso e achava que seria o correto deixar explícito desde o início. Mas ele se limitou a assentir, respeitando minha decisão, mas optando por me adorar mesmo assim. E, gradualmente, fui esquecendo do medo de estar lhe dando falsas esperanças ou sendo injusta, e simplesmente apreciava a companhia dele.
Era uma época bem complicada para ser uma garota solteira, os anos sessenta. Ah, sei que você está pensando que era só minissaia, amor livre, boates e coisas do gênero, mas pouquíssimas de nós realmente viveram isso. Para moças como eu, de famílias respeitáveis, que não eram “fáceis”, a época podia ser bem confusa. Havia garotas que eram, e garotas que não eram. E eu nunca soube direito qual dessas deveria ser. (Embora tivesse chegado perto de ser, com Tom. Várias vezes. Ele era muito bom nisso, considerando tudo, mesmo quando falei que tinha decidido morrer virgem.) E havia uma pressão para a pessoa estar à la mode, estar por dentro da última moda, fosse com roupas da Biba ou da King’s Road, ou, como as minhas, feitas a partir de modelos da Butterick e da Vogue. Mas nossos pais ficavam todos bem escandalizados, então a gente sofria aquela pressão para usar saia curta ou o que fosse, mas também ficava constrangida de usar.
Talvez eu apenas não fosse assim tão liberal. Havia muitas que eram. Mas Tom parecia me entender e gostar de mim do jeito que eu era, ou de qualquer jeito que eu tentava ser, e tivemos quase dois anos muito agradáveis.
Então foi uma pena que ele tivesse que sofrer tanto na ocasião em que foi apresentado aos meus pais.
Eu os tinha convidado para ver um musical em Londres. Minha mãe estava animada e papai também estava um amor, embora não dissesse, pois eu tinha passado quase um ano sem ir em casa. Eu reservara para nós ingressos para Hello, Dolly! no Theatre Royal, e depois uma mesa para um jantarzinho leve em um dos novos restaurantes Golden Egg. Eu ia pagar para todo mundo, porque o Sr. Holstein tinha acabado de me dar um aumento e me promover de secretária a gerente de escritório, o que me deixara muitíssimo empolgada. Fiquei séculos ponderando e cheguei à conclusão de que talvez convidasse o Tom também, porque ele era um amor. Eu sabia que significaria muito para ele conhecer os meus pais. Também sabia que meus pais gostariam dele, tinham que gostar. Não havia nada em Tom que pudesse inspirar antipatia. O espetáculo foi maravilhoso. Mary Martin interpretou Dolly Levi — nunca vou esquecer como ela estava deslumbrante, embora, no fundo, todos desejássemos ver Eve Arden. E mamãe estava tão satisfeita de me ver que, disfarçadamente, ficava pegando e apertando minha mão, enquanto lançava pequenos olhares significativos a Tom. Sei que estava bastante aliviada de ver um homem na jogada depois de tanto tempo, e ele tinha levado para ela uma caixa de frutas cristalizadas. Então foi uma noite bem agradável até o jantar. Ah, o Golden Egg não tinha nada de errado (mamãe disse, olhando em volta, que era “sem dúvida muito... colorido”): a comida estava boa, e esbanjei comprando uma garrafa de vinho, embora papai tenha dito que não me deixaria gastar o meu novo salário entretendo os meus “velhos”. E Tom só ficou sorrindo daquele jeito calmo dele, falando por horas com mamãe sobre fitas, coisas de antes da guerra e de como o pai dele uma vez encontrou a mulher do primeiro-ministro para vender-lhe uma fina renda belga.
Até que ela foi dizer aquilo.
— Eu ia te contar, querida. As coisas não estão nada boas na família Fairley-Hulme.
Fiquei olhando o meu peixe, depois olhei para a frente, com uma expressão ao mesmo tempo vazia e cautelosa.
— Oi?
Papai bufou.
— Ela pulou a cerca.
— Quem pulou a cerca?
— Ah, Henry. Que termo mais antiquado. Athene Forster. Perdão, Fairley-Hulme. Ela fugiu com algum vendedor do norte, acredita? Deu a maior confusão. As famílias estão desesperadas para não deixar isso sair nos jornais.
Era como se ela pensasse que suas palavras já não fossem me afetar.
— Eu não leio jornal. — O peixe tinha virado pó na minha boca. Obriguei-me a engolir e tomei um gole de água. Tom, pobrezinho, continuava comendo, alheio. — Como... Como vai o Douglas?
— Torcendo para ela voltar, coitado. Completamente arrasado.
— Aquela... sempre teve cara de encrenca.
— Ah, sim. Mas parecia que tinha sossegado.
— Garotas assim nunca sossegam.
As vozes deles ficaram distantes, e me perguntei por um momento se eu iria desmaiar. Então olhei para Tom e, pela primeira vez, notei com certa repugnância que ele comia de boca aberta.
— De fato, os pais dela estão furiosos. Eles a deserdaram, inclusive. Estão dizendo a todo mundo que Athene foi passar um tempo no exterior, só até as coisas se acalmarem. Quer dizer, não é como se ela não tivesse abusado da sorte antes de se casar com o Douglas. Ela não tinha nenhum amigo de verdade, tinha? Nem uma reputação muito boa, ainda por cima.
Pensativa, minha mãe abanou a cabeça e varreu migalhas inexistentes da toalha.
— Os pais de Douglas reagiram muito mal. A situação tem péssimos reflexos em todo mundo. O sujeito vendia aspirador de pó de porta em porta, você acredita? Aspirador de pó. E, umas semanas depois de ter ido embora, a garota teve a ousadia de ligar para eles pedindo dinheiro. Coitada da Justine. Eu a vi na noite de bridge dos Trevelyan há duas semanas e isso a deixou bem abatida.
Foi então que ela deve ter visto a minha expressão. Primeiro me fitou com preocupação, mas logo em seguida seu olhar se tornou severo, e aí se dirigiu a Tom.
— Mas enfim, você não quer que a gente fique falando de quem você não conhece, não é, Tom? Muito indelicado da minha parte.
— Não se preocupe — disse Tom. Ainda de boca aberta.
— Sim. Bem. Vamos pensar na sobremesa. Quem vai querer? Alguém? — A voz dela se elevara quase uma oitava. Ela me lançou outro olhar severo, do tipo que só acontece entre mãe e filha.
Acho que não ouvi mais nada do que ela disse.
Não voltei para casa depois. Mas não era justo com Tom continuar saindo com ele naquelas circunstâncias.
Isso basta ou você quer saber sobre o bebê?