A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 17 de 29

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A Loja dos Sonhos

Dezessete

 

O verão chegara com tudo na cidadezinha, envolvendo Dere Hampton delicadamente em seu abraço sufocante. As ruas estreitas suavam e assavam, os carros contornavam preguiçosamente a praça do mercado, os pneus pegajosos no asfalto fundido. Grupos de turistas norte-americanos com dor nos pés paravam e olhavam para as fachadas trabalhadas em estuque, exclamando com a cara enfiada em seus guias. Na praça, os comerciantes sentavam-se embaixo de toldos, bebericando latinhas, enquanto cães idosos jaziam no meio das calçadas, as línguas cor-de-rosa grosseiras encostadas na poeira.

A loja estava calma: os mais abonados tinham ido passar as férias de verão em cidades tranquilas, outros passavam o tempo pastoreando filhos enlouquecidos com seis semanas de libertação da educação escolar intensiva. Suzanna e Jessie, movendo-se num ritmo tranquilo, limparam prateleiras e janelas, rearranjaram vitrines, conversaram com turistas e fizeram jarras de chá gelado, que ficava cada vez mais diluído à medida que o gelo derretia com o passar da tarde.

Cada vez mais, Suzanna ficava insatisfeita com a disposição da loja e furiosa consigo mesma por não conseguir descobrir o que estava errado. Uma manhã, elas colocaram a placa dizendo “fechado”, levaram todas as mesas e cadeiras para um canto e contrataram um faz-tudo conhecido do padre Lenny para levar as estantes para o outro lado. O resultado não ficou como o esperado, e Suzanna pagou ao homem a mesma quantia — para desespero de Neil, quando examinou os livros — para mudar tudo de novo. Ela decidira não vender mais joias (já tinham “sumido” peças demais, pequenas o suficiente para deslizarem para um bolso quando ela estava ocupada fazendo café) e levou o mostrador para o porão. Tão logo fez isso, não menos que três mulheres entraram separadamente querendo colares antigos. Escondeu os testamentos e substituiu-os por mapas coloridos da África do Norte. Depois, pintou a parede do fundo de turquesa-claro e imediatamente se arrependeu da cor. Durante todas essas modificações, Athene permanecera em sua moldura nos degraus do porão, o sorriso tão enigmático quanto o da Mona Lisa, inadequada tanto para a loja quanto para ser levada para casa, um lembrete constante da inabilidade de Suzanna de moldar seu mundo de uma forma que pudesse ser considerada satisfatória.

Por fim, contagiada por uma espécie de loucura, tirou um sábado de folga para ir a Londres. Inicialmente, pretendia encontrar Nadine, mas, por capricho, deu a desculpa de uma emergência familiar e foi para Bond Street, onde, entrando e saindo de lojas a uma velocidade incomum naquelas temperaturas, comprou dois pares de sandálias de verão, dos quais apenas um podia-se verdadeiramente dizer que servia, uma camisa cinza de mangas curtas, brincos, mais um par de óculos de grife e um tailleur de linho azul-claro que poderia ser útil se ela tivesse que ir a um casamento. Comprou também um vidro de seu perfume preferido, um hidratante caríssimo e um batom novo de uma cor que tinha visto numa revista de celebridades. Passou tudo menos a camisa no cartão de crédito que Neil achava que ela havia cancelado. Pagaria aos poucos, ponderou, e teve que se conter para não chorar no trem de volta.

Alejandro passou três dias sumido, depois voltou a aparecer diariamente. Às vezes, ela saía do porão e o encontrava sentado, aquele rosto aquilino, na expectativa, como se aguardasse algo, e ela corava e disfarçava a confusão com algum comentário muito alto sobre o tempo, o nível de café nas máquinas, a bagunça de tudo ali! Depois ficava calada de um jeito inibido, repassando furiosamente na cabeça suas respostas inadequadas, parecendo cada vez mais tola.

Se Jessie estivesse por perto, Suzanna pouco falava, contentando-se em ouvir a conversa deles, em armazenar as informações que Jessie conseguia arrancar de Alejandro: que o pai dele escrevera, que ele preparara uma refeição inglesa, que, na noite anterior, uma “mãe” fora admitida na maternidade sem qualquer sinal de gravidez além de um travesseiro por baixo da camisola. Às vezes, Suzanna achava que, por meio de Jessie, ele estava lhe contando coisas a respeito de si mesmo, expondo-se diante dela por fragmentos. Às vezes, pegava-se fazendo o mesmo, sendo inusitadamente extrovertida, apenas porque havia partes dela que queria que ele visse: as melhores partes, uma pessoa mais atraente, mais inteira do que a que achava que ele geralmente via.

Já outras vezes, ele chegara quando Jessie havia saído para almoçar, e Suzanna se vira quase paralisada pelo constrangimento. Mesmo se houvesse outros clientes presentes, ela sentia-se estranhamente sozinha com ele, gaguejava e procurava coisas com que se ocupar para não deixar quase brecha alguma para falar com ele, e depois praguejava descaradamente quando Alejandro ia embora. Se ele parecesse concentrado num jornal ou num livro, ela conseguia se acalmar e, depois, gradualmente, eles começavam a conversar. De vez em quando durante uma hora inteira, até Jessie voltar.

Uma vez, Alejandro lhe contara que queria visitar o museu da cidade, uma série de salas atravancadas que detalhavam a história medieval bastante horripilante de Dere, e ela fora junto. Passaram uma hora rondando peças empoeiradas, enquanto a loja estava fechada, e ele lhe contava sua história e a de Buenos Aires. Provavelmente não era a melhor estratégia comercial, mas era bom ouvir de alguém uma perspectiva nova. Lembrar-se de que havia outras maneiras de ser, outros lugares para estar.

O rosto dele mudava quando sorria.

Sim, era bom ter um amigo novo. Suzanna tinha quase certeza de que alguém uma vez lhe dissera que amigos nunca eram demais.

* * *

Jessie estava na vitrine, prendendo lanternas chinesas em volta de um arranjo, de vez em quando acenando para um passante, quando gritou:

— Seu velho está subindo a rua.

— Meu pai?

— Não. Seu marido. Me desculpe. — Ela recuou, sorrindo, a boca cheia de tachinhas. — Esqueci que você é das classes endinheiradas.

— O que ele quer? — Suzanna foi para a porta e viu Neil acenar enquanto se aproximava.

— Reunião cancelada. Só preciso estar no escritório na hora do almoço — disse, beijando-lhe o rosto. Tinha o paletó do terno pendurado no ombro. Olhou para as mesas com clientes conversando, depois para o espaço na parede atrás do balcão. — A loja está bonita. Para onde foi o retrato?

— Você não acreditaria se eu lhe contasse. — Nem ela sabia direito o que pensar.

Seus pais haviam ido na loja dois dias antes. O retrato, eles decidiram, precisava de um trato. “Trinta anos” mofando no sótão e do dia para a noite precisava de um restauro “urgente”. Eles estavam estranhos. Seu pai a beijara e dissera que a loja estava maravilhosa. A mãe, inusitadamente, não dissera quase nada, mas ficara atrás, sorrindo, radiante, como se isso fosse algo que ela de alguma forma tivesse arquitetado. Tinha confidenciado que Douglas concordara em comprar um aspirador de pó para a casa. “Não entendo porque demorou tanto”, dissera Suzanna. Eles não mencionaram isso, mas ela desconfiava de que estivessem usando o quadro como forma de fazê-la aceitar o testamento.

— Então, afinal, o que você está fazendo aqui? — perguntou a Neil agora.

— Preciso de pretexto? Achei que pudesse vir tomar um café com a minha esposa antes de sair.

— Que romântico — disse Jessie, endireitando uma fita. — O próximo passo é mandar flores.

— Suzanna não gosta de flores — disse Neil, sentando-se ao balcão. — Significam que ela vai ter que lavar um vaso.

— Ao passo que joias...

— Ah, não. Isso ela tem que merecer. Tem todo um sistema de pontos envolvido.

— Então não vou perguntar o que ela tem que fazer para ganhar aquele anel de diamante.

— Ah! Se fosse por sistema de pontos, ela estaria usando anéis de lata.

— Vocês são hilários — comentou Suzanna, abastecendo a máquina de café. — Ouvindo isso dá até para esquecer que o feminismo existe.

Eles só tinham se encontrado três vezes, mas Suzanna achou que Neil provavelmente tinha uma quedinha por Jessie. Não se importou: quase todos os homens que ela conhecia tinham, em graus variados. Jessie tinha sempre aquela alegria e aquela simplicidade. Era de uma beleza feminina, pele de pêssego e sorrisos doces. Estimulava a testosterona deles: seu tamanho e sua fragilidade faziam os homens mais improváveis parecerem trogloditas e protetores. A maioria deles, afinal. E ela tinha o mesmo senso de humor de Neil, um atributo que ele devia achar que era pouquíssimo valorizado em casa.

— Eu nunca imaginei você queimando sutiãs, Suzanna.

— Eu não descreveria a minha esposa como uma militante... a não ser quando se esqueceram de abrir a Harvey Nichols na hora certa.

— Tem gente — disse Suzanna, entregando-lhe um café — que está trabalhando para viver em vez de ficar à toa tomando café.

— Trabalhando? — Neil levantou as sobrancelhas. — Fofocando na sua loja? Falando assim parece que você está cavando no fundo de uma mina.

Suzanna cerrou a mandíbula inconscientemente.

— Ah, certo, porque vender produtos financeiros exige um dublê de corpo, é óbvio. Não tinha ninguém fofocando aqui, querido, até você chegar. — O querido poderia ter estilhaçado um vidro.

— Ah! Falando em fofoca, adivinha só. O nosso argentino não é gay. Tinha mulher na Argentina. Casada, parece. — De volta à vitrine, Jessie rearrumava os itens, as pernas dobradas com a elegância de um gato.

— Com ele?

— Não. Ele era amante dela. Era casada com um astro de TV argentino. Você nunca ia acreditar, ia?

— O nosso argentino?

— É um parteiro que vem aqui. Da Argentina. Fabuloso, não é?

Neil fez uma careta.

— O rapaz deve ser esquisitão. Que tipo de homem vai querer passar o dia inteiro fazendo o que ele faz?

— Ué, o nascimento de uma criança não é a coisa mais importante do mundo para você?

— Se for do meu filho, sim, mas ainda assim acho que ia preferir estar na cabeceira, se é que me entende.

— Você é patético.

— Um ginecologista convencional, aí é diferente. Posso entender o atrativo disso. Embora não veja como conseguem trabalhar.

Jessie riu. Suzanna ficou constrangida.

— É meio do tipo come-quieto, não? O Alejandro, quero dizer. Jason sempre diz que os calados são os piores.

— Como você sabe tudo isso?

— Ah... ele estava no parque quando levei a Emma no domingo. Eu me sentei no banco e a gente ficou conversando.

— O que ele estava fazendo lá?

— Nada, até onde eu pude ver. Só curtindo o sol. Aliás, curtindo não. Estava com uma cara bem deprimida até eu chegar. — Olhou para Suzanna. — Estava com aquela cara de sofrido, sabe?

— Pensei que parteira tinha que ser mulher. — Neil bebericou o seu café. — Acho que eu não ia querer um parteiro homem se estivesse tendo um filho.

— Se você estivesse tendo um filho, essa seria a menor das suas preocupações — disse Suzanna com rispidez, e começou a pregar polaroides de clientes acima dos mapas do norte da África.

— Acho que eu não gostaria que você tivesse um parteiro homem, pensando bem.

— Se eu estivesse passando pela tortura de expelir um ser humano inteiro do meu corpo, acho que a decisão não seria sua, na verdade.

— Vou procurar essa mulher na internet, só para ver como é a cara dela. Ele me contou o nome, mas disse que eu nunca teria ouvido falar. — Jessie encostou a escada na parede.

— Ele ainda está apaixonado por ela, então? — perguntou Suzanna.

— Não disse. Mas sabe de uma coisa, Suze, desconfio de que ele seja do tipo que gosta de mulher casada.

— Entendi você dizendo que aqui não tem fofoca — caçoou Neil.

— Para não ter que se envolver emocionalmente.

— Como assim? — Suzanna observou Jessie levando a escada em direção aos degraus.

— Bem, ele é bem na dele, né? Não dá para imaginá-lo correndo atrás de alguém ou perdidamente apaixonado. Alguns homens gostam de dormir com mulheres que já estejam envolvidas com outro. É seguro para eles. A mulher não vai fazer nenhuma exigência emocional. Estou certa, Neil?

— Não é uma estratégia ruim — disse Neil. — Mas eu mesmo nunca consegui colocar em prática.

Suzanna fungou, tentando disfarçar o rubor no rosto.

— Você lê muita revista.

— Você bota as revistas aqui. — Jessie pendurou a bolsa no gancho da porta do porão e mostrou um avental branco engomado. — A Sra. Creek fez. Bonito, não? Quer que eu peça a ela para fazer outro para você?

— Não. Sim. Tanto faz.

Jessie amarrou as tiras na cintura, depois alisou o avental nas pernas.

— Ah, olha, a senhora com os filhos quer ser atendida. Eu vou... Bom, ele não mexe comigo. Muito... Sei lá. É que eu gosto de homem com um pouco mais de vida.

Ela parou e olhou para Suzanna, que desviou o olhar. Neil, folheando um jornal, não percebeu Jessie olhando uma segunda vez para Suzanna, nem Suzanna, tendo sorrido constrangida para Jessie para disfarçar o mal-estar, ocupando-se com uma caixa de pergaminho embaixo do balcão e levando bem mais tempo do que o estritamente necessário para o serviço em questão.

Não se tratava de Jason, apesar do jeito canhestro de Jessie com as palavras. Nem de Neil. Nem uma nem outra tinha dito coisa alguma, mas ambas tinham se dado conta.

* * *

Arturro tinha demitido todos os rapazes da loja. Sem mais nem menos, sem aviso, sem indenização, nada. A Sra. Creek foi a primeira a descobrir, quando passou por lá a caminho do mercado. Contou a elas pouco depois de Neil ter ido embora.

— Ouvi uma gritaria danada e sabe lá Deus o quê, e ele estava soltando fumaça como um touro num campo. Eu ia entrar para comprar daquele queijo bom, aquele com pedaços de damasco, mas, para ser honesta, achei melhor dar a ele uma chance de esfriar a cabeça.

Jessie e Suzanna ficaram muito caladas desde que a Sra. Creek começara sua história — que se estendeu por um bom tempo, acrescentando inflexões e gestos, aproveitando ao máximo aquela plateia embevecida. Quando terminou, elas se entreolharam.

— Eu vou — disse Jessie.

— Vou ficar de olho em Arturro — disse Suzanna.

Ele não viera.

Jessie foi na loja de Liliane, não para espionar, óbvio, só para se inteirar do clima, segundo suas próprias palavras, descobrir o que estava acontecendo. Inicialmente imaginou que a Sra. Creek devia estar exagerando. Liliane, embora reservada como sempre, estava serena e foi educada como de costume. Mas quando Jessie mencionou a delicatéssen, ela ficara visivelmente reativa. Já não ia mais lá, falou. Algumas pessoas na cidade achavam bem ruim o jeito deles de tratar os clientes. Bem ruim mesmo.

— Alguma coisa em particular? — insistiu Jessie.

— Digamos apenas — explicou Liliane, com um sorriso duro, o cabelo tão rígido quanto a mandíbula — que há pessoas de quem se poderia esperar algum cavalheirismo, mas que acham normal pregar peças mais adequadas ao jardim de infância.

— Ah, porra — disse Jessie quando voltou. — Estou com um mau pressentimento.

— Devemos confessar? — perguntou Suzanna, sentindo-se levemente nauseada.

— Se os rapazes perderam o emprego, acho que devemos. A culpa é nossa.

Suzanna pensou neles, se perguntando por que era capaz de se sentir tão distante de rapazes que já haviam ocupado uma parte nociva de sua imaginação.

— Vai você.

— Não, você.

Estavam dando risadinhas nervosas.

— A ideia foi sua.

— Você comprou as amêndoas confeitadas. A coisa estava indo bem até as amêndoas confeitadas.

— Não acredito que, com trinta e cinco anos na cara, eu esteja me sentindo como se tivesse que ir falar com a diretora da escola... Não consigo. Não mesmo. — Suzanna debruçou-se no balcão, refletindo. — E se eu te pagar? — Tornou a rir.

Jessie pôs as mãos na cintura.

— Dez mil. É meu preço final.

Suzanna sufocou um grito de um jeito teatral.

— Já sei... uma fala com o Arturro, outra com Liliane.

— Mas você conhece os dois melhor que eu.

— Portanto tenho mais a perder.

— Ela me assusta. Acho que não gosta muito de mim. Desde que comecei a vender essas camisetas. Acha que estou roubando os clientes.

— Por quê? O que ela disse?

— Não é o que ela disse, é como olha para as camisas quando entra aqui.

— Suzanna Peacock, você é patética. Quase dez anos mais velha que eu e...

— Nove, na verdade. Tenho trinta e cinco. Só trinta e cinco.

— Neil diz que você tem trinta e cinco há uns dez anos.

O medo as deixara histéricas. Elas se agarraram, olhos arregalados, às gargalhadas.

— Ah, eu vou... vou amanhã, se você me deixar sair cedo hoje à tarde. Preciso levar Emma para comprar sapato. E não posso levar mais tarde porque tenho curso à noite.

— Isso é chantagem.

— Quer que eu fale com Arturro? Você me deve uma. Então amanhã. — Jessie começou a preencher etiquetas de preço com uma caneta fúcsia. — E só se ele ainda não tiver esfriado a cabeça e deixado os rapazes voltarem.

* * *

Mas, no dia seguinte, Jessie não apareceu. Suzanna estava em casa secando o cabelo quando o telefone tocou.

— Me desculpe — disse Jessie, com uma voz estranhamente desanimada. — Sabe que eu normalmente não deixaria você na mão, mas não dá para eu ir hoje.

— É a Emma? — Suzanna estava com mil coisas na cabeça. Pretendia encontrar com um fornecedor em Ipswich. Teria que mudar seus planos.

Houve uma pausa.

— Não, não. Emma está bem.

— O que é? Um resfriado? Esse verão está esquisito. O padre Lenny disse que se sentiu estranho ontem. E aquela mulher com os cachorros. — Se ligasse já para o fornecedor, pensou, talvez conseguisse cancelar sem muito transtorno. Do contrário, teria que deixar a loja fechada a manhã inteira.

— Sabe de uma coisa? Talvez eu vá precisar de uns dias...

De repente Suzanna mudou o foco da atenção para a voz na linha.

— Jess? Você está bem?

Houve um silêncio.

— Precisa... precisa que eu leve você ao médico?

— Só preciso de uns dias. Prometo que não vou deixar você na mão de novo.

— Não seja ridícula. O que houve? Você está doente?

Outro silêncio, depois:

— Não exagere as coisas, Suze, por favor.

Suzanna sentou-se, olhando para a mesa de cabeceira, ainda com o secador de cabelo na mão. Largou-o e mudou o fone de orelha.

— Ele machucou você? — sussurrou.

— Parece pior do que é. Mas não está nada bonito. Não pega bem para a assistente de uma loja elegante. — Jessie conseguiu dar uma risada irônica.

— O que ele fez?

— Ah, Suze, por favor, deixa para lá. As coisas fugiram um pouco do controle. Ele vai fazer terapia de controle da raiva. Me prometeu dessa vez.

O quartinho ficara gelado.

— Você não pode continuar nisso, Jess — murmurou ela.

A voz de Jessie era dura.

— Estou resolvendo as coisas, ok? Agora, por favor, Suzanna, deixa pra lá. E se minha mãe passar na loja, não diga nada. Diga que saí com uma cliente ou coisa assim. Não quero que ela fique brava.

— Jess, eu...

A ligação caiu.

Suzanna ficou sentada na beira da cama, olhando para a parede. Depois fez um rabo de cavalo com o cabelo molhado, desceu correndo para buscar as chaves e foi para o centro de Dere Hampton, pertinho dali.

* * *

Havia, até onde Suzanna podia ver, vantagens limitadas em se morar numa cidade tão pequena, mas uma inegável era a facilidade de encontrar as pessoas. Encontrou o padre Lenny na casa de chá, prestes a dar uma mordida num sanduíche de bacon. Quando a viu, encolheu-se de brincadeira, como se tivesse sido apanhado cometendo uma traição.

— Vou passar lá mais tarde para o meu café normal — disse, enquanto ela se sentava à sua frente. — Prometo. Só tenho que testar a concorrência de vez em quando.

Suzanna deu um sorriso forçado, tentando parecer estar tranquila.

— Padre Lenny, por acaso o senhor sabe onde Jessie mora?

— Na propriedade Meadville. Perto da mãe. Por quê?

Suzanna lembrou-se do aviso de Jessie.

— Nada importante. Ela está em casa resfriada, e me esqueci de pegar uns detalhes de uma encomenda com ela. Pensei em aproveitar e passar lá para lhe levar umas flores. Matar dois coelhos com uma cajadada só, sabe. — Sorriu de um jeito tranquilizador.

Os olhos do padre Lenny procuraram os dela e, presumivelmente, tendo encontrado as respostas que procurava, olhou para o prato com o sanduíche de bacon.

— É um resfriado grave? — perguntou lentamente.

— Difícil dizer. Mas acho que ela vai precisar de uns dias de folga.

Ele balançou a cabeça, como se digerindo a informação.

— Você quer companhia? — perguntou com cautela. — Não tenho muito que fazer essa manhã.

— Ah, não. Estou bem.

— Vou com prazer. Fico só uns cinco minutos se vocês tiverem... coisas para discutir.

— É muita gentileza, mas sabe como é quando a pessoa está resfriada. Não gosta de ser incomodada.

— Não — disse o padre Lenny. — Não gosta. — Depois endireitou-se, empurrou o prato. — Ela mora no quarenta e seis do Crescente. Saindo na rua do hospital, pegue a primeira à direta e é ali, à esquerda.

— Obrigada. — Suzanna já tinha se levantado da cadeira.

— Diga a ela que mando lembranças, sim? E estou ansioso para vê-la de novo na loja.

— Digo.

— E, Suzanna...

— O quê? — Não era sua intenção ser grosseira. — Perdão. Sim?

O padre Lenny balançou a cabeça, um gesto de reconhecimento.

— Que bom que ela tem uma amiga. — Hesitou. — Alguém com quem falar.

Só que uma coisa era ter o endereço, outra completamente diferente, Suzanna se deu conta, enquanto estava sentada no degrau do lado de fora da loja, era ir até lá e se meter num potencial vespeiro, onde muito provavelmente não era chamada. E se ele estivesse lá? Ela não saberia o que lhe dizer. Qual era a etiqueta em tais situações? Ignorava-se a aparência da mulher? Jogava-se conversa fora? Aceitava-se uma xícara de chá? E se ele estivesse lá e não a deixasse entrar? Ela poderia piorar a situação só de colocar os pés na casa.

Suzanna só tivera que lidar com violência doméstica uma vez: na escola, sua professora de geografia, uma mulher de óculos que vivia se desculpando, chegava regularmente tentando esconder manchas roxas no rosto e nos braços. “O marido bate nela”, diziam as meninas umas às outras depois, e em seguida não pensavam mais no assunto. Era como se, Suzanna agora percebia, elas estivessem repetindo como papagaio palavras que ouviam dos pais. Essas coisas aconteciam. A vida era assim. Afinal, a Sra. Nathan sempre teve cara de vítima.

Mas dessa vez era diferente.

Suzanna afundou a cabeça nos joelhos. Sentia-se fraca e inadequada. Podia simplesmente não ir, pensou. Jessie parecia não a querer por lá. Seria o caminho mais fácil. A amiga voltaria dali a um ou dois dias. No entanto, havia um grau de cumplicidade nessa opção que a deixou envergonhada só de considerá-la.

Parecia quase inevitável ir. Ergueu os olhos, ainda passando as chaves de uma mão para a outra, e o viu parado à sua frente, as pernas compridas pela primeira vez em calças claras, uma camiseta em vez do jaleco e da jaqueta de sempre.

— Ficou trancada do lado de fora? — Ele parecia relaxado, como se tivesse passado aqueles dias sumido num lugar reparador qualquer que fosse.

— Não exatamente. — Suzanna pensou que ele talvez pedisse um café, ou fosse entrando, mas Alejandro só esperou que ela falasse. — É a Jessie.

Ele olhou para a loja vazia atrás dela.

— Não sei se devo ir à casa dela. — Chutou uma pedra solta. — Não sei... o quanto é certo interferir. — Não precisou explicar a ele.

Ele se agachou diante dela, a expressão tensa e sombria.

— Você está com medo?

— Não sei o que ela quer. Quero ajudar, mas parece que ela não quer.

Ele olhou a rua.

— A Jess fala muito, mas na verdade é bem reservada. Não sei... com essa coisa, se ela se sente bem com... essa situação. Ou se, no íntimo, está desesperada para alguém se meter para ajudá-la. E... — Coçou o nariz — não sou muito boa em sondar as pessoas. Em procurar confidências e intimidades e essa coisa toda. Para ser sincera, Ale, não tenho preparo para lidar com isso. E estou apavorada de ter entendido errado. — Não lhe contou seus pensamentos mais sombrios: que tinha medo de chegar muito perto daquela confusão, daquela infelicidade deprimente. Não queria que, depois de ter recuperado uma espécie de paz frágil em sua vida, isso fosse corrompido pela infelicidade de outra pessoa.

Ele tocou o joelho dela com a ponta dos dedos. Um gesto delicado, tranquilizador.

Ficaram assim um bom tempo.

— Sabe de uma coisa? — disse ele, pondo-se de pé. Estendeu a mão. — Feche a loja. Acho que a gente deve ir.

* * *

A casa era mais bonita do que Suzanna esperara, mais bonita por dentro do que merecia ser, considerando o ar uniformemente deprimido da vizinhança, como se o sol, o céu azul, até a gloriosa paisagem rural de Suffolk em volta da propriedade tivessem falhado na tentativa de deixar sua impressão no casario sem graça do pós-guerra.

Dava para reconhecer a casa de Jessie pelas floreiras das janelas e pela porta da frente de um púrpura brilhante. Suzanna esperava encontrar uma zona de guerra no interior da residência. Em vez disso, deparou-se com uma sala de estar impecável com almofadas gordas de guingão e prateleiras sem um pingo de poeira. Os cômodos acanhados eram pintados de cores vivas, decorados com mobília barata que havia sido transformada em algo mais atraente. As paredes eram decoradas com fotos de família e quadros visivelmente pintados por Emma nas várias fases de sua vida escolar. Ainda havia cartões de aniversário engraçadinhos alinhados sobre o console da lareira e, no chão, um par de chinelos em forma de bicho de pelúcia que anunciavam ser “pés de urso”. O único sinal de algum tumulto era um embrulho de jornal ao lado do conjunto de pá e escova, presumivelmente escondendo cacos de vidro ou porcelana. Mas o que o interior aparentemente alegre não conseguia esconder era o ar de quietude estupefata, uma atmosfera bem diferente do silêncio tranquilo de uma casa quase vazia, como se ainda estivesse digerindo ações que haviam acontecido por lá.

— Chá? — ofereceu Jessie.

Suzanna ouviu o grito sufocado de Alejandro quando a moça abrira a porta, a rápida tentativa dele de disfarçá-lo ao entrar na casa. A coitada tinha as finas feições inchadas, a boca emplastrada num ângulo grotesco pois ambos os lábios haviam sido cortados por um murro histórico. Havia um grande hematoma na parte superior do lado direito da bochecha e um tipo de tala caseira apoiava seu dedo indicador esquerdo.

— Não está quebrado — disse, meneando-o, ao acompanhar os olhos de Alejandro. — Eu teria ido ao hospital se achasse que tinha quebrado alguma coisa.

Ela tentou, mas não conseguir disfarçar o ligeiro coxear quando andava.

— Vamos para a sala — disse, um arremedo de anfitriã. — Sentem-se e fiquem à vontade.

Ouvindo o barulho de crianças andando de bicicleta na calçada do lado de fora, ficaram sentados em silêncio, lado a lado, no comprido sofá, que estava coberto com uma manta clara. Suzanna tentou não imaginar que tipo de marcas no sofá haviam feito com que precisasse ser coberto.

Jessie trouxe uma bandeja de canecas, recusou a ajuda para servir e sentou-se de frente para eles.

— Alguém quer açúcar? — perguntou, a voz grossa com o esforço de falar com a boca inchada.

Suzanna, com um soluço inesperado, começou a chorar, passando a mão no rosto numa tentativa de disfarçar as lágrimas. De alguma forma, parecia muito errado ver Jessie daquele jeito. Ela era muito diferente do tipo de mulher com quem geralmente esse tipo de coisa acontecia.

Alejandro sacou um lenço. Suzanna o pegou sem falar nada, envergonhada, diante de tanto sofrimento, de ser quem estava chorando.

— Não, por favor, Suze. — A voz de Jessie estava obstinadamente animada. — Parece pior do que é, sério.

— Cadê a sua filha?

— Ela estava na casa da minha mãe, graças a Deus. Agora só preciso arranjar um jeito de deixá-la mais uma noite lá sem minha mãe reclamar.

— Quer que eu dê uma olhada na sua mão? — ofereceu Alejandro.

— Só está machucada.

— Talvez você precise dar uns pontos nesse lábio.

— Não. Ele não cortou a pele por dentro. Eu verifiquei.

— Talvez você deva fazer um raio X também, só para checar se está tudo bem com a sua cabeça.

Suzanna observou Alejandro ir até Jessie e examinar o rosto dela, virando-o delicadamente para a luz.

— Quer que eu traga umas suturas borboletas do trabalho? Ajudariam a fechar isso mais depressa. Ou talvez uns analgésicos.

— Eu digo o que você pode fazer, Ale. Me explique como eu posso fazer para diminuir o inchaço. Preciso que Emma venha para casa o quanto antes e não quero assustá-la. Já botei gelo e creme de arnica, mas se tiver mais alguma coisa...

Alejandro ainda olhava com atenção para sua cabeça.

— Nada que vá fazer grande diferença — falou.

Houve um silêncio. Suzanna pegou seu chá e ficou olhando para ele, sem saber direito o que dizer. Jessie, com aquela dor e aquele controle, com aquela reação aparentemente bem ensaiada, parecia uma estranha.

— Quer que eu fale com ele?

Suzanna ergueu os olhos. A expressão de Alejandro era dura. Sua voz estava contida.

Jessie balançou a cabeça.

— Eu já conversei com ele — falou por fim. — Eu disse que isso foi longe demais.

Lá fora, as crianças estavam brigando. Gritavam umas com as outras na outra ponta da rua.

— Sei o que vocês estão pensando, mas não vou deixar isso continuar. Por Emma, principalmente. Já disse a ele, da próxima vez que encostar um dedo em mim, ele já era.

Alejandro baixou os olhos para a caneca.

— Estou falando sério — disse Jessie. — Não espero que vocês acreditem em mim, mas estou. Eu só quero ver o que acontece com esse negócio de gestão de raiva antes de realmente fazer as malas e ir embora.

— Jessie, por favor, vai agora. Por favor. Eu ajudo. Nós todos ajudamos.

— Você não entende, Suze. Ele não é um estranho, é o homem que amo desde que eu era... desde que eu era praticamente uma criança. Conheço a verdadeira personalidade dele e não é essa. Não posso jogar fora dez anos só por causa de alguns meses difíceis. Ele é o pai da Emma, pelo amor de Deus. E, acredite ou não, quando ele não está... assim, nos divertimos muito juntos. Somos felizes há anos.

— Você está criando desculpas para ele.

— É, talvez esteja. E posso ver como você enxerga essa situação. Mas só queria que você o tivesse conhecido antes que isso começasse. Queria que você tivesse visto a gente junto.

Suzanna olhou para Alejandro. Tinha pensado, dada a evidente afeição dele por Jessie, que ele talvez ficasse furioso, intercedesse por ela apesar de suas instruções, mas ele se limitou a ficar ali sentado, segurando a caneca, escutando. Isso a deixou quase frustrada.

— Não estou com medo dele, sabe? Quero dizer, sim, é meio assustador quando ele perde a cabeça, mas não é como se eu ficasse andando pela casa apavorada com a possibilidade de deixá-lo irritado. — Jessie olhou de Suzanna para Alejandro. — Não sou idiota. Esta é a última chance dele. Mas preciso dar mais essa. Todo mundo merece uma chance de mudar.

— Não é...

— Olha, você sabe o que provocou isso, não? — Jessie ergueu uma caneca com a mão machucada, depois passou-a para a mão boa e deu um gole. — O padre Lenny. Ele deu uma dura em Jason sobre ele se descontrolar. Jason ficou com a sensação de estar sendo julgado por todo mundo. Achou que eu andava contando histórias e que a cidade tinha se virado contra ele. Você sabe como as coisas são por aqui. É uma sensação horrível ter todo mundo desdenhando de você. Eu entendo, porque muita gente não falava comigo quando eu era faxineira. Como se isso de alguma maneira me tornasse diferente. — Ela pousou a caneca. — Você tem que deixar eu enfrentar isso sozinha. Não piore as coisas. Se eu decidir que ele realmente não é mais o mesmo, que virou alguém com quem eu não me sinto segura, faço as malas e vou embora. — Tentou sorrir. — Eu me mudo para a loja, Suzanna. Aí você nunca vai se ver livre de mim.

Venha já, Suzanna quis dizer, mas havia alguma coisa determinada na expressão de Jessie que a deteve.

— Meu número está aqui. — Alejandro estava rabiscando num pedaço de papel. — Mudando de ideia sobre a mão, querendo que eu lhe traga umas suturas borboletas, qualquer coisa — Suzanna achou que ele poderia ter se demorado significativamente no “qualquer coisa” —, me ligue.

— Volto a trabalhar depois de amanhã.

— Quando estiver pronta. Não se preocupe.

Suzanna se levantou e já ia abraçar Jessie, quando se deu conta de que poderia fazer pressão em machucados que a amiga não tivesse mencionado. Recuou e tentou imprimir uma certa urgência no olhar que trocaram.

— Pode me ligar também. A qualquer hora.

— Eu estou bem. Mesmo. Agora, sumam daqui, vocês dois. Vão abrir aquela loja, senão eu não vou ter trabalho para o qual voltar. — Ela os estava conduzindo porta afora.

Suzanna teria protestado, mas também sabia que Jason poderia chegar a qualquer momento, que Jessie poderia ter as próprias razões para querer a casa vazia.

— Até logo. — A voz de Jessie, alegre através da rede de cortinas, acompanhou-os pela rua.

* * *

Eles caminharam em silêncio até o hotel Cisne, na rua alta, cada qual concentrado nos próprios pensamentos, os passos ritmados na calçada que já irradiava ondas de calor, embora ainda não fosse meio-dia.

Suzanna parou na esquina da rua que levava ao centro da cidade.

— Não estou a fim de abrir a loja hoje — disse.

Ele enfiou as mãos nos bolsos.

— Vamos aonde, então? — perguntou.

* * *

Eles não estavam a fim de comer, o calor e os acontecimentos daquela manhã conspiraram contra o apetite. Após passar distraidamente pelas poucas opções de almoço da cidade, dirigiram-se ao mercado. Nenhum dos dois parecia saber aonde estava indo: simplesmente compartilhavam o desejo de estar sozinhos, de não retomar a rotina normal. Pelo menos, foi o que Suzanna disse a si mesma.

Caminharam amigavelmente ao redor das barracas na praça, bebendo garrafas de água, até que ele confessou, como quem se desculpa, estar entediado com o mercado.

— Venho aqui em quase todos os meus dias de folga — disse.

Não tinha visto quase nada, acrescentou, desde que chegara na Inglaterra. Não era assim que ele havia planejado, pensara que, nos dias de folga, viajaria para conhecer algumas cidades, mas as viagens de trem provaram ser proibitivamente caras e, na maior parte de seu tempo livre, estava muito cansado para fazer qualquer esforço maior. Fora uma vez a Cambridge, e tinha havido uma excursão a Londres para todas as parteiras, organizada pela administração do hospital, quando visitaram o Madame Tussaud, a Torre de Londres e a London Eye em rápida sucessão, sem registrar quase nada. Sendo de nacionalidades diferentes, as pessoas mal tinham sido capazes de compreender os sotaques umas das outras, as mulheres estavam ou rindo em grupinhos exclusivamente femininos, ou olhando para ele timidamente, sem envolvê-lo na conversa pelo fato de ele ser homem.

— Fiquei muito feliz por encontrar a sua loja — disse ele, as mãos enfiadas nos bolsos. — É o único lugar... era simplesmente diferente de tudo.

— Então o que você quer ver? — perguntou Suzanna, corando ligeiramente ao perceber quão sugestiva a frase poderia parecer.

— Me mostre de onde você é — disse ele. — Me mostre essa famosa propriedade. A que lhe causa tanto problema. — Ele dissera isso de um jeito brincalhão, e, sem querer, ela sorrira.

— Não é nenhuma estância — disse ela. — Tem uns cento e oitenta hectares. Provavelmente não muito grande para os padrões argentinos. — Mas estava de bom tamanho para proporcionar um bom passeio vespertino. — Vou levá-lo até o rio — disse ela. — Se gosta de pescar, vai gostar do nosso rio.

Foi como se tivessem tomado uma decisão tácita de sair da sombra da manhã, não deixar que o problema de Jessie, a revolta e a impotência que ambos tinham sentido, assombrasse o restante do dia. Ou talvez, pensou Suzanna, enquanto subiam a trilha para o bosque, ela sempre passando pela lateral do milharal a fim de evitar o caminho esburacado, simplesmente fosse impossível se sentir arrasada durante muito tempo num dia em que o céu estava tão gloriosamente azul, em que os pássaros competiam em canto, o esforço lhes estourando o peito, quando a tarde em si estava contagiada pela alegria do ócio, de estar escondido quando todo mundo estava trabalhando.

Por duas vezes, ele pegara a mão dela para ajudá-la a atravessar a trilha.

Na segunda vez, ela tivera que fazer um esforço consciente para soltar a dele.

* * *

Eles se sentaram no topo do campo de dezesseis hectares e estavam olhando para o vale. Era um dos poucos pontos de onde a propriedade era visível na quase totalidade, as colinas onduladas e os trechos escuros de floresta criando um mosaico até o horizonte. Ela apontou para uma casa distante, rodeada de pavilhões.

— Aquela é a Casa Philmore. Está alugada no momento, mas meus pais moraram lá quando se casaram. — Ela se levantou e apontou para um bosque, cerca de oito quilômetros à esquerda da casa. — Aquela casa amarela... dá certinho para ver, né? É a casa dos meus pais agora. Meu irmão Ben, ele é mais novo que eu, e minha avó moram lá também.

Tinham atravessado um terço do campo, chegando no ponto em que havia uma inclinação acentuada, descendo na direção do vale e do rio, que não se via por trás da mata, quando ela disse:

— Eu e meu irmão vínhamos aqui quando éramos pequenos. Nós descíamos rolando. Ficávamos parados em pé, fazendo de conta que não sabíamos o que ia acontecer, e aí um empurrava o outro e rolava junto até lá embaixo apostando para ver quem chegava primeiro. No final, ficávamos com grama na boca, no cabelo... — Ergueu as mãos, os cotovelos dobrados, demonstrando a posição, perdida numa lembrança distante. — Teve um ano em que papai deixou esse campo para as ovelhas. Nós não pensamos nisso. Ben se levantou lá embaixo parecendo um pão de passas.

Suzanna percebeu que tinha começado a falar dos familiares e não quis continuar. Às vezes, parecia que não havia como fugir deles.

Ele estava ao lado dela, protegendo a vista do sol enquanto admirava o horizonte.

— É lindo.

— Eu já não vejo assim. Acho que, quando se cresce com alguma coisa, a gente deixa de reparar.

Abaixo deles, um gavião pairava no ar, de olho em alguma presa que não se via. Alejandro acompanhou-o quando ele mergulhou em direção à terra.

— Mesmo em dias como esse, acho que ainda prefiro a cidade.

Ele virou-se para ela.

— Então por que deixa isso te entristecer tanto? — Olhou-a como se achasse os sentimentos dela curiosos.

— Não estou triste. E não deixo isso me incomodar tanto assim. É que eu não concordo com o sistema, só isso.

Ela se sentou e, com um ar pensativo, puxou um capim comprido e colocou o talo entre os dentes posteriores.

— Isso não governa a minha vida nem nada. Não é como se eu estivesse sentada num quarto escuro em algum lugar espetando alfinetes num boneco vudu do meu irmão.

Ouviu-o rir ao se sentar ao seu lado cruzando as pernas embaixo do corpo. Ouviu o farfalhar do capim quando ele se ajeitou, observou, disfarçadamente, quando ele esticou as pernas ao lado das dela...

— A propriedade nunca foi sua, certo? Pertence ao seu pai?

— E ao pai dele. E antes era do pai do pai dele.

— Portanto nunca foi sua, nem nunca será. Então?

— E daí?

— Exatamente. E daí?

Ela ergueu os olhos para o céu.

— Acho que você está sendo meio ingênuo.

— Por lhe dizer para não deixar as terras da sua família comerem a sua felicidade?

— Não é tão simples assim.

— Por quê?

Ela chutou um inseto que pousara em seu pé.

— Ah, todo mundo é um grande especialista, não é? Todo mundo sabe como eu me sinto... como eu devo me sentir. Todo mundo acha que eu devo simplesmente aceitar as coisas do jeito que são e parar de reclamar. Pois bem, Alejandro, não é tão simples assim. Não é tão simples quanto a gente se convencer a não querer alguma coisa. Tem a ver com família, relacionamento, história e injustiça e... — Interrompeu-se, dirigiu-lhe um olhar furtivo. — Nunca envolve só a terra, ok? Se envolvesse só a terra, isso teria sido resolvido há muito tempo.

— Então envolve o quê?

— Sei lá. Tudo.

Ela pensou de repente nos problemas maiores que provavelmente já vira, na situação de Jessie, e sua voz pareceu infantil, petulante, até para ela mesma.

— Olha, podemos mudar de assunto?

Ele puxou as pernas para cima, olhou de rabo de olho para ela por cima do ombro.

— Não fique brava, Suzanna Peacock.

— Não estou brava — rebateu ela, irritada.

— Tudo bem... Acho que talvez você tenha que tomar uma decisão. Acho que... é muito fácil você se deixar engolir pela sua família, pela história dela.

— Agora você falou como o meu marido. — Ela não queria mencionar Neil, achava a presença dele indesejável entre eles.

Alejandro jogou o cabelo para trás.

— Então ele e eu estamos de acordo. Nenhum de nós quer ver você infeliz.

Ela olhou para ele, estudou seu perfil e, depois, quando ele se virou para ela, se deixou fazer perguntas mudas àqueles olhos castanhos, àquela boca que sabia das coisas. Ele estava com uma cara ligeiramente intrigada, como se estivesse tentando entender algo.

Você é só mais uma paixãozinha, disse ela a si mesma, depois estremeceu pensando na possibilidade de ter dito isso em voz alta.

— Não estou infeliz — murmurou. Parecia importante persuadi-lo disso.

— Tudo bem — disse ele.

— Não quero que você pense que estou.

Ele assentiu.

O jeito que olhou para ela, como se entendesse, como se conhecesse sua história, sua culpa, sua infelicidade. Como se as compartilhasse, como se também as carregasse.

Ele devia ser uma paixãozinha, pensou ela, deixando a cabeça cair com força nos joelhos para disfarçar o rápido pestanejar. Estou imaginando demais, impondo sentimentos a ele que eu nem sei se ele tem.

Sentou-se e pousou a testa nos joelhos, até sentir o toque elétrico dele em seu ombro.

— Suzanna — disse.

Ela olhou para ele. Contra o sol, só via uma silhueta indistinta, afinada de um jeito não natural.

— Suzanna.

Ela pegou a mão estendida dele, fez menção de se levantar, a vista ainda se adaptando à agressiva claridade vespertina, aceitando de algum modo, naquela estranha tarde de sonho, que iria atrás desse homem de qualquer maneira, que se deixaria ser levada para dentro da esteira dele. Alejandro não se levantou, mas puxou-a ligeiramente para si, e ela observou quando ele se deitou de costas na grama. Quando ela ficou com o ar engasgado no peito, ele fixou os olhos nos dela, com algo travesso no convite que sugeria. Então, com um grito infantil, deu um impulso e começou a rolar morro abaixo, as pernas batendo uma na outra à medida que ganhava velocidade.

Durante vários segundos, ela ficou olhando incrédula para a figura que se afastava. Depois, com o passar da tensão dos últimos instantes, ela se jogou atrás dele, aliviada, deixando o céu e a terra se dissolverem até se confundirem, deixando seus sentidos serem consumidos pelo capim que passava depressa, o cheiro da terra, o delicado solavanco de seus ossos batendo no chão. E ela estava rindo, perdida no ridículo daquilo, cuspindo pedaços de capim e margaridas e sabe Deus mais o quê, rindo, as mãos estendidas acima da cabeça, se deixando voar morro abaixo, criança de novo, sabendo que seria apanhada no fim.

Ele ficou parado acima dela, enquanto ela jazia rindo e arfando na relva, a cabeça ainda tonta por causa da descida. Ele balançava lá em cima, estendendo a mão como se para ajudá-la a se levantar, parado até ela conseguir aos poucos distinguir seu rosto sorridente, a calça toda suja de grama.

— Feliz agora, Suzanna Peacock?

Ela não conseguiu pensar em nenhuma resposta mais sensata. Portanto, ficou deitada, rindo, ainda sentindo tontura, os olhos fechados contra o céu dolorosamente azul.

* * *

Eles chegaram ao centro da cidade pouco antes de sete. Talvez pudessem ter chegado mais cedo, mas, por consentimento mútuo, haviam ido num passo comedido, quem sabe para poderem ter mais tempo para conversar. A conversa agora vinha com facilidade, como se aquela liberação física infantil dos dois tivesse destravado alguma coisa entre eles. Suzanna soube mais um pouco sobre Alejandro: sobre sua mãe que não saía de casa, a empregada, a situação política na Argentina. Ele soube da história familiar dela: sua infância, seus irmãos, sua raiva por ter que deixar Londres. Mais tarde, ela se lembraria que, em várias horas de conversa, Neil não fora mencionado, e não se sentiria muito culpada pela omissão.

Estavam atravessando a praça quando Suzanna notou os três rapazes deixando a delicatéssen, conversando, as bolsas confortavelmente penduradas nos ombros. Eles olharam para as calças de Alejandro, gesticularam entre eles e disseram alguma coisa possivelmente rude em italiano, depois fizeram uma saudação.

Alejandro e Suzanna levantaram as mãos em resposta.

— Ele os contratou de volta — sussurrou ela.

— Quem?

— Essa é uma longa história, mas é uma boa notícia. Jessie vai ficar muito contente. — Ela viu que não conseguia parar de sorrir, um sorriso largo, desinibido. Era como se o prazer do dia tivesse sido intensificado pelo modo excepcionalmente triste com que começara.

— É melhor eu ir andando — disse ele, olhando o relógio. — Estou num plantão noturno.

— Acho que eu devia ir até a loja — sugeriu ela, tentando não parecer tão cabisbaixa quanto se sentia. — Ver se deixaram alguma encomenda do lado de fora. — Não queria ir embora, mas ficou mais fácil sabendo que qualquer que fosse a barreira que tivesse sido quebrada hoje ainda estaria quebrada amanhã.

Olhou para o chão, depois de novo para ele.

— Obrigada — disse, esperando que ele entendesse tudo o que aquilo significava. — Obrigada, Ale. — Ele ficou ali um instante, depois afastou um fio de cabelo desalinhado da testa dela. Alejandro ainda cheirava a capim, a pele inundada de sol.

— Você é parecida com a sua mãe — disse.

Ela franziu ligeiramente o cenho.

— Acho que não sei o que isso quer dizer — disse com cautela.

Os olhos dele não tinham deixado os dela.

— Acho que sabe.

* * *

Neil não estava em casa quando ela chegou. Uma mensagem na secretária eletrônica disse que chegaria muito tarde: ia jogar squash com os colegas de trabalho, tinha lhe avisado aquela manhã, mas tinha quase certeza de que ela não se lembrava. Acrescentou, de brincadeira, que ela devia tentar não sentir muito a falta dele.

Suzanna não quis jantar. Por alguma razão, ainda não tinha apetite. Em vez disso, tentou em vão encontrar algo que lhe interessasse na televisão, depois ficou andando nervosamente pela casinha, olhando pela janela para os campos por onde andara mais cedo naquele dia até escurecer.

Finalmente, Suzanna estava em seu pequeno quarto. Sentou-se em frente ao espelho, que quase encaixava na parte mais baixa do teto inclinado. Ficou olhando algum tempo para o próprio reflexo e depois, quase inconscientemente, puxou o cabelo para cima e prendeu-o no topo da cabeça. Delineou os olhos com kohl, pintou as pálpebras o mais parecido com aquele azul gelado característico que conseguiu achar.

Sua pele, pálida como a da mãe, não tinha marcas de sol. Seu cabelo, livre de tinturas e disfarces químicos, de um preto profundo, quase artificial. Ela olhou em seus olhos, ergueu as comissuras da boca numa aproximação daquele sorriso.

Depois, ficou sentada, imóvel, enquanto Athene a fitava também.

— Sinto muito — disse para o seu reflexo. — Sinto muito mesmo.