A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 4 de 29

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A Loja dos Sonhos

Quatro

 

 

Douglas recostou-se na cadeira, mordeu a ponta da caneta, pensativo, e olhou para as páginas completamente cobertas por planos à sua frente. Aquilo lhe tomara várias semanas de trabalho até tarde da noite, mas ele tinha quase certeza de que havia compreendido bem.

Baseara suas ideias, em parte, numa mistura de teorias dos grandes reformadores sociais, uma espécie de fórmula utilitária de vida, e, em parte, em algo que lera sobre os Estados Unidos — uma forma mais comunitária de fazer as coisas. Bem radical, sem dúvida, mas ele achava que poderia funcionar muito bem. Não, corrigiu-se, sabia que funcionaria muito bem. E mudaria fundamentalmente a cara da propriedade privada.

Em vez do enorme rebanho de gado holandês, para os quais havia regras e regulamentos que, desde a introdução da Política Agrícola Comum, seu pai sempre disse que eram capazes de transformar um homem são num imbecil total, quarenta hectares da propriedade seriam entregues a uma comunidade autossuficiente. Os moradores poderiam viver nas casas em ruínas que eram alugadas, reformando-as eles mesmos com madeira do bosque de Mistley. Havia uma nascente de água nas proximidades e velhos celeiros que podiam ser usados para pequenas quantidades de gado. Se chamassem artesãos, podiam até montar um ateliê ali, vender a cerâmica deles ou o que fosse, talvez devolvendo uma pequena porcentagem dos lucros em troca.

Enquanto isso, os quatro campos em Page Hill, então destinados à beterraba-sacarina, podiam ser divididos em minifúndios para permitir que o pessoal da terra cultivasse sua própria horta. A procura por alimentos de pequenos produtores era cada vez maior, um número crescente de pessoas que queriam um “retorno à natureza”. Os Fairley-Hulme cobrariam um aluguel mínimo e aceitariam alimentos como parte do pagamento. Seria como voltar ao colonato, às formas ancestrais da família, mas sem a atitude feudal. E o esquema seria autossuficiente. Talvez até lucrativo. Se funcionasse muito bem, o dinheiro excedente poderia ser investido em algum outro projeto, talvez um programa educativo. Quem sabe ensinasse algo produtivo aos delinquentes na cidade, talvez lições sobre administração de terras.

A propriedade era muito grande para ser administrada por um único homem. Ele ouvira o pai dizer isso um milhão de vezes, como se o próprio Douglas não tivesse condições de unir-se a ele. Havia o administrador da propriedade, lógico, o vaqueiro-chefe e os trabalhadores da fazenda, o guarda-caça e o faz-tudo, mas a responsabilidade final pelo que acontecia cabia a Cyril Fairley-Hulme, responsabilidade que ele já carregava havia quase quarenta anos. E essa responsabilidade já não significava a simples administração da terra, mas cálculos complexos envolvendo subsídios, que redundavam em mais maquinário, menos diversificação, mais herbicidas e fertilizantes químicos. Tudo isso havia deixado seu pai triste, murmurando que, se tivesse que arrancar mais sebes, seria melhor vender os animais, transformar a propriedade numa daquelas fazendas aráveis de estilo norte-americano e acabar com aquilo, enquanto seus homens mais velhos, aqueles que haviam aprendido a arar com cavalos, especulavam: esqueça animais, nesse ritmo não haverá necessidade de humanos.

O breve período de autoavaliação após o seu encontro com Athene fizera Douglas se dar conta de que nunca se sentira verdadeiramente confortável com a ideia de herdar a propriedade Dereward. De alguma forma, não achava que a merecesse: numa era em que o nepotismo e o feudalismo morriam aos poucos, não parecia certo aceitar essa incumbência autoengrandecedora, assumir, antes dos trinta, o direito à propriedade e a responsabilidade pela vida de todos os que dela dependiam.

Na primeira vez que abordara o assunto com o pai, Douglas fora tirado como um comuna. Talvez o pai até tivesse usado essa palavra. E Douglas, que era esperto o suficiente para entender que o pai provavelmente não levaria a sério um plano pouco amadurecido, engolira as palavras e saíra para supervisionar a desinfecção da sala de ordenha.

Mas agora tinha um conjunto concreto de propostas que podiam levar a propriedade rumo ao futuro, torná-la um modelo não só pela excelência agrícola, mas também pela transformação social, e isso até seu pai teria que admitir. Seguiriam a tradição daqueles grandes reformadores, Rowntree e Cadbury, que consideravam lucro um objetivo insuficiente a menos que levasse a melhorias sociais e ambientais. Ele evocou imagens de trabalhadores satisfeitos comendo alimentos produzidos em casa e estudando para se aprimorar em vez de torrar seus salários semanais no White Heart. O ano era 1965. As coisas estavam mudando depressa, mesmo que os habitantes de Dere Hampton não estivessem dispostos a reconhecer isso.

Douglas juntou as páginas com capricho, colocou-as com reverência dentro de uma pasta e a segurou embaixo do braço. Fez o possível para ignorar a pilha de cartas a que ainda precisava responder. Passara grande parte do último mês se defendendo de reclamações de excursionistas e passeadores de cães por ter erguido uma cerca no meio dos campos de doze hectares que davam no bosque para deixar os dois lados para pasto de ovelhas. (Ele sempre gostara de ovelhas. Ainda se lembrava com carinho de um estágio com um ovinocultor da Cúmbria que contava os animais usando um dialeto antigo e incompreensível: yan, tan, tethera, pethera, pimp, sethera, lethera, hovera, covera, dik...) O fato de os moradores ainda poderem caminhar pelo campo não os pacificara: eles não gostaram de estar “encurralados”, disseram. Douglas ficara tentado a retrucar que eles tinham sorte de contar com um acesso ao campo e que, sem tais medidas, a propriedade não teria segurança financeira e seria vendida em lotes para algum projeto imobiliário, como a Rampton, que já tinha sido uma propriedade imponente, a pouco mais de seis quilômetros dali. E vamos ver o que eles achariam disso.

Mas, consciente de que, como um Fairley-Hulme, precisava pelo menos fingir que dava importância às opiniões dos moradores, sugerira que eles colocassem as reclamações por escrito e disse que faria o possível para analisá-las.

Olhou para o relógio e tamborilou os dedos na lateral da mesa, um misto de nervosismo e empolgação. Sua mãe devia estar preparando o almoço. Quando seu pai se retirasse para o escritório para aquela meia hora em que “trataria da papelada” (sempre envolvendo uma breve fechada dos olhos — só para fins de descanso, você sabe), exporia suas ideias. E quem sabe deixaria a própria marca, mais contemporânea, na propriedade Dereward.

* * *

Perto dali, a mãe de Douglas Fairley-Hulme tirou as luvas e o chapéu e levou os cachorros para o hall de entrada, notando no relógio que chegara quase meia hora antes do horário previsto para o almoço. Não que houvesse qualquer coisa para organizar. Saíra com a esperança de poder pelo menos ser convidada para um café e, assim, preparara tudo de antemão. Mas, apesar de ter percorrido aquela distância toda a pé e aparecido à porta bastante ofegante — todo ano se esquecia de como março podia surpreender — e obviamente necessitando de um refresco, a nora não a convidara a entrar.

Não tinha começado bem com Athene. Na verdade, não sabia como poderia ter sido de outro jeito. A moça era uma pessoa cansativa, sempre fazendo exigências impossíveis a Douglas, ainda que quase nunca se mostrasse uma esposa dedicada ou retribuísse com algum apoio. Mas Cyril lhe dissera que ela devia se esforçar um pouco mais por essa amizade.

“Tente encontrá-la para tomar um café pela manhã ou coisa assim. Douglas disse que ela fica muito entediada. Para ele seria mais fácil se vocês fossem amigas.”

Ela nunca fora muito fã da companhia de outras mulheres. Fofoca demais e muita preocupação desperdiçada com besteiras. Uma das desvantagens de ser a matriarca da propriedade era que as pessoas de alguma forma esperavam que ela conversasse o tempo todo, que falasse de trivialidades em reuniões matinais de caridade e em quermesses, quando tudo o que realmente queria era estar em casa, no seu jardim. Mas como era raro Cyril lhe fazer um pedido específico, ela obedientemente enveredara pela trilha de cinco quilômetros que levava à Philmore House, a ampla casa em estilo rainha Anne que, dois anos antes, Cyril dera de casamento ao filho único.

Athene estava em trajes de dormir, embora já passasse das onze da manhã. Mas nem de longe demonstrou desconforto por ter sido flagrada assim.

— Me perdoe — dissera, sem a menor cara de arrependimento. Ficara surpresa por um momento, mas logo em seguida abriu um sorriso doce, encantador. — Hoje não estou recebendo ninguém.

Com a mão, abafou um bocejo, o robe de anarruga revelando a camisola finíssima e, pior, um bom trecho pálido do colo por baixo, embora qualquer um dos homens da propriedade pudesse estar passando.

A mãe de Douglas se sentira bastante incomodada com essa extraordinária quebra de decoro.

— Eu pensei que podíamos tomar um café — disse, com um sorriso forçado. — Você quase não tem aparecido lá em casa ultimamente.

Athene olhara para trás da mulher, um ar distraído e irritado, como se a sogra pudesse ter sido seguida por uma falange de visitantes, todos exigindo chá e conversa.

— Cyril estava... nós dois estávamos querendo saber como você está.

— Você é muito gentil. Acabei de descobrir que tenho um monte de coisas para resolver. — O sorriso de Athene vacilou um pouco ao ver que a sogra não se mexeu. — E hoje estou me sentindo bem cansada. Por isso realmente não estou recebendo ninguém.

— Pensei que podíamos conversar um pouquinho. Sobre coisas...

— Ah, acho que não. Mas é muita bondade sua pensar em mim.

— Tem umas coisas que gostaríamos que você...

— Foi ótimo estar com você. Tenho certeza de que vamos vê-la em breve.

E, depois daquele rápido diálogo, da despedida menos efusiva possível e sem o menor sinal de um pedido de desculpas, Athene fechara a porta. E a sogra, que normalmente não gostava de rodeios, sentira-se quase estupefata demais para se ofender.

Aliás, apesar de ser uma mulher de alguma assertividade, nem sabia direito como descrever aquele incidente ao marido. O que poderia dizer de condenatório? Que a moça a recebera de camisola? Cyril poderia achar isso fascinante — pior, poderia começar a imaginar coisas, e ela sabia onde isso podia terminar. Que Athene não lhe oferecera um café? Cyril diria simplesmente que ela deveria ter lhe dado algum aviso, telefonado antes de sair. Era uma das coisas que mais a irritavam, a determinação perene do marido de ser justo. Decidira ficar calada, mas quando Douglas chegou, levou-o para um canto e lhe disse, sem meias-palavras: se a esposa dele não quisesse se vestir com o mínimo de dignidade, não deveria atender a porta. A família tinha um nome a zelar. Ao perceber o olhar cheio de dúvidas do filho, foi assolada por um repentino instinto de proteção, combinado com uma vaga irritação pelo fato de o rapaz se parecer tanto com o pai. Durante toda a juventude, eles recebem avisos... São alertados por anos, talvez. Mas não fazia diferença quando se tratava de moças como aquela.

* * *

Cyril Fairley-Hulme baixou o guardanapo e olhou para o relógio, como fazia todos os dias nos minutinhos que levava entre terminar a refeição e sua esposa se levantar perguntando-lhe se queria um café, antes que ele se dirigisse para seu escritório. Às suas costas, o rádio deu a previsão do tempo num tom comedido, como dava no fim de cada almoço, e os três concederam um minuto de silêncio para lhe permitir ouvir.

— Muito bom — disse Cyril, com calma. Depois, como que fazendo uma observação longamente ponderada: — Um bom empadão de caça é imbatível.

— Delicioso. Obrigado, mãe. — Douglas puxou o guardanapo do colo e o largou, embolado, na mesa.

— É um dos da Bessie. Vou dizer a ela que você gostou. Tem tempo para um café?

A mesa fora posta, como sempre, com formalidade caprichada e boa louça, apesar da ocasião trivial. Ela retirou os pratos e saiu, empertigada, da sala.

Douglas observou a mãe, sentindo as palavras pesadas na boca, destoando dos sentimentos palpitantes em seu peito.

Seu pai levou alguns minutos em um estado reflexivo, apertando o fumo no cachimbo, depois o acendendo, velhas rugas de concentração se delineando no rosto magro e bronzeado. Depois olhou para o filho, como que surpreso por ele ainda não ter ido, como mandava a rotina.

— Dennis está semeando os tubérculos hoje à tarde.

— Sim — disse Douglas. — Vou até lá quando sair.

O pai apagou um fósforo pela metade e praguejou baixinho entre dentes, olhando de modo inconsciente para a porta por onde sua mulher havia saído.

— Quero ter certeza de que ele vai fazer o espaçamento direito. Ano passado plantou tudo muito junto.

— Sim, pai, você disse. Vou falar com ele sobre isso.

O pai tornou a olhar para o cachimbo.

— Esperando a colheita? — perguntou, alegremente.

— O quê? Ah... — Muitas vezes era difícil reconhecer quando o pai estava brincando. — Ah, não. Na verdade, pai, eu queria conversar sobre um assunto.

O cachimbo foi aceso. O pai se recostou e soltou uma fina espiral de fumaça, descontraindo o rosto por um instante.

— Pode falar — disse cordialmente.

Douglas olhou para ele, depois baixou o rosto, tentando se lembrar onde pusera a pasta. Levantou-se, pegou-a na cômoda, depois começou a sacar as páginas, dispondo-as com cuidado à frente do pai na mesa.

— O que é isso?

— O assunto que eu queria tratar. Algumas ideias que tive. Para a propriedade.

Douglas tornou a arrumar duas páginas e recuou, observando enquanto o pai se inclinava à frente para olhar com um pouco mais de atenção.

— Ideias para a propriedade?

— Ando pensando há séculos. Quer dizer, desde que aconteceu aquele negócio com a PAC e você começou a falar em desistir dos laticínios. Poderíamos olhar para as coisas de um jeito um pouco diferente.

Cyril observou impassível a explanação gaguejante do filho. Depois olhou para as folhas.

— Me passe os meus óculos.

Indo até o lugar indicado pelo pai, Douglas pegou os óculos e os entregou a ele. Da cozinha, ouvia a mãe colocando louça na bandeja, além de armários abrindo e fechando. Ouvia a pulsação latejando no ouvido. Enfiou as mãos nos bolsos e tornou a tirá-las, contendo-se para não avançar e apontar para parágrafos distintos na página.

— Tem um mapa ali embaixo — disse, sem conseguir mais se segurar. — Destaquei os campos com cores diferentes de acordo com o uso.

O tempo pareceu se arrastar, depois parar. Douglas, olhando para o rosto do pai, não via um pingo sequer de emoção enquanto examinava metodicamente as páginas. Lá fora, os cães latiam, histéricos, para algum delinquente.

Seu pai tirou os óculos e se recostou devagar na cadeira. Examinou o cachimbo, que apagara já fazia algum tempo, e o colocou na mesa ao lado.

— Foi isso que lhe ensinaram na faculdade de agronomia?

— Não — disse Douglas. — Na verdade, são quase todas ideias minhas. Quer dizer, ando lendo e tudo mais, sobre kibutzim... e você sabe tudo sobre Rowntree, claro, mas...

— Porque, se foi, perdemos cada maldito centavo mandando você para lá.

Foi uma afirmação brusca, como se as palavras tivessem sido disparadas por uma arma, e Douglas se sobressaltou, como se impactado fisicamente.

A cara do pai, como sempre, não revelava quase nada. Mas havia um brilho escondido em seus olhos, uma leve palidez por trás de sua tez corada que sugeria uma imensa fúria oculta.

Ficaram sentados em silêncio, olhando um nos olhos do outro.

— Pensei que você tivesse juízo. Pensei que tínhamos criado você com alguma noção do que era certo e...

— Isso é certo. — Douglas ouviu a própria voz se elevar em protesto. — É certo devolver alguma coisa para as pessoas. É certo que todo mundo tenha um pedaço da terra.

— Você acha? Dar a terra de presente? Distribuí-la em lotes para quem quiser? Pedir às pessoas que façam uma fila?

— Ainda seria nossa terra, papai. Isso só permitiria que outras pessoas trabalhassem nela. Afinal, nem sequer usamos a propriedade toda.

— Você acha que as pessoas das redondezas querem trabalhar a terra? Já perguntou a alguma delas? Os jovens não querem arar nem semear. Não querem estar ao ar livre, faça chuva ou faça sol, arrancando ervas daninhas e espalhando esterco. Querem estar nas cidades, escutando música popular e de todo tipo. Sabe quanto tempo levei para encontrar mão de obra suficiente só para apanhar o feno ano passado?

— Encontraríamos gente. Sempre tem gente que precisa de trabalho.

O pai bateu nos papéis com desgosto.

— Isso não é um experimento social. É o nosso sangue, o nosso suor neste solo. Não dá para acreditar que criei um filho, ensinei-lhe tudo que sei sobre essa propriedade, só para fazer com que ele queira dar a terra de presente. Nem ao menos vendê-la, veja bem. Dá-la de mão beijada. Você... você é pior que uma garota.

Ele cuspiu as palavras no filho, como se estivesse furioso. Douglas quase nunca tinha ouvido o pai levantar a voz para ele e percebeu que estava tremendo. Tentou se acalmar para enfrentar a raiva concentrada do pai e viu a mãe, parada à porta, com a bandeja na mão.

Sem uma palavra, o pai se levantou, passou por ela a passos firmes e, no caminho, enfiou o chapéu na cabeça.

* * *

A mãe de Douglas colocou o café na mesa e ficou olhando para o filho, que tinha a mesma cara de choque e tristeza contidos de quando, aos oito anos, apanhara do pai por deixar os cachorros entrarem na maternidade das vacas. Ela resistiu ao impulso de consolá-lo e, em vez disso, perguntou com cautela o que acontecera.

Douglas ficou vários minutos sem responder, e ela se perguntou se ele estaria tentando segurar as lágrimas. Ele apontou para uns papéis na mesa.

— Tive algumas ideias para a propriedade. — Fez uma pausa, depois falou com a voz embargada. — Meu pai não gostou delas.

— Posso olhar?

— À vontade.

Ela se sentou com cuidado na cadeira do marido e examinou as páginas. Levou algum tempo para entender o que ele propunha e ficou olhando para o mapa colorido, aos poucos assimilando o plano do filho.

Pensou no marido e naquele seu atípico acesso de raiva, e a pena que sentira do filho no início foi substituída por uma onda de raiva se formando nela própria. Os jovens podiam ser muito inconsequentes. Nunca consideravam o que as gerações anteriores haviam enfrentado. O mundo estava virando um lugar mais egoísta e, apesar do amor profundo que sentia pelo único filho, agora estava furiosa com a falta de consideração dele, e também com a nora irresponsável, sem vergonha, e a geração deles em geral.

— Sugiro que você jogue isso no fogo — disse, juntando as folhas.

— O quê?

— Livre-se disso. Com sorte, seu pai vai esquecer que algum dia tiveram essa conversa.

A cara do filho era uma máscara de frustração e incredulidade.

— Você nem vai considerá-las?

— Já considerei, Douglas, e elas são... inadequadas.

— Tenho vinte e sete anos, mãe. Mereço ter voz na administração da propriedade.

— Merece? — Ela sentiu um aperto no peito e sua voz saiu em pequenos rompantes. — Sua geração só liga para isso... para o que vocês supostamente merecem. Suas ideias são um insulto ao seu pai e, até você compreender isso, sugiro que a gente encerre esta conversa por aqui.

Douglas, agora com as duas mãos em cima da mesa, se apoiava nos braços estendidos, como se tivesse sido quase derrubado pela resposta.

— Não posso acreditar que vocês dois estejam reagindo assim.

O último resquício de solidariedade maternal que ela sentia evaporou.

— Douglas, sente-se — ordenou, colocando-se diante dele. Respirou fundo, tentando medir as palavras. — Vou lhe contar uma coisa sobre o seu pai, rapaz. Você não tem ideia do que ele passou para manter essa propriedade inteira. Não tem ideia. Quando ele a herdou, estava quase falida. Os preços do trigo nunca tinham sido tão baixos, os trabalhadores da fazenda estavam indo para a cidade porque não tínhamos dinheiro para lhes pagar e não podíamos dar a porcaria do leite. Ele teve que vender quase toda a mobília da família, todos os quadros a não ser os retratos, as joias da própria mãe, inclusive a única lembrança que tinha dela, só para manter a propriedade viva. — Ficou olhando para o filho, determinada a colocar na cabeça dele a gravidade do que lhe contava. — E você devia ser muito novo para se lembrar bem disso, mas, na guerra, a propriedade foi requisitada... tivemos até prisioneiros de guerra aqui. Sabia disso? O irmão do seu pai foi morto no ar, e tivemos que aceitar alemães — ela cuspiu a palavra — só para manter as coisas funcionando. Eram ladrões sujos roubando comida e tudo. Até peças do maquinário da fazenda.

— Eles não roubaram nada. Foram os garotos Miller.

Ela fez que não.

— Douglas, ele trabalhou nesses campos dia após dia, com chuva, neve e granizo, por toda a vida adulta. Já o vi chegando em casa com as mãos em carne viva de tanto arrancar ervas daninhas e com as costas vermelhas de trabalhar doze horas no sol. Lembro que havia noites em que ele comia e adormecia à mesa. Quando eu o acordava, ele saía para consertar os tetos dos arrendatários ou arrumar o sistema de drenagem. Essa é a primeira vez que temos dinheiro suficiente para que ele possa relaxar um pouco. A primeira vez que ele se permite deixar que outras pessoas o ajudem. E agora você, a esperança, o orgulho, o herdeiro dele, vem lhe dizer que quer dar a propriedade para um bando de beatniks, ou seja lá o que forem.

— Não é assim. — Douglas estava corando.

A mãe fizera o discurso dela. Levantou-se e serviu o café. Acrescentou o leite, depois empurrou a xícara para o filho.

— Eu gostaria que fosse a última vez que discutimos isso — disse, a exaltação dissipada da voz. — Você é um rapaz com grandes ideias. Mas esta propriedade é maior que as suas ideias. E não a mantivemos de pé por tanto tempo para deixar você desbaratar tudo o que fizemos. Porque, Douglas, ela nem é sua para você dar. Você é um fideicomissário, um depositário. Seu trabalho é simplesmente agir como um condutor para as mudanças necessárias para mantê-la funcionando.

— Mas vocês disseram...

— Dissemos que a propriedade seria sua. O que não dissemos, em momento algum, é que ela devia ser desviada de sua finalidade natural. Que, primeiro, é agricultura e, segundo, fornecer um lar e um meio de vida para sucessivas gerações da família Fairley-Hulme.

Fez-se um longo silêncio. Ela se sentiu revigorada após tomar um grande gole de café. Seu tom, quando falou, foi conciliador:

— Quando tiver filhos, você vai entender um pouquinho melhor.

O rádio chiou com interferência quando um avião passou no céu. Ela se virou na cadeira e ajustou o dial. O serviço foi restabelecido.

Douglas, cabisbaixo, olhava para o fundo da xícara.

* * *

Quando chegou em casa, encontrou-a vazia. Nem se dera ao trabalho de chamar pela esposa quando fechou a porta. Ela raramente se lembrava de deixar uma luz acesa para ele, e a casa estava dominada por um silêncio frio que indicava muitas horas desocupada.

Pendurou o casaco no corredor que ecoava e foi para a cozinha, os pés absorvendo o frio do linóleo. No primeiro ano do casamento, Douglas frequentemente vira que seu jantar consistia em cereais matinais ou pão com queijo. Athene não era uma dona de casa nata e, após algumas tentativas carbonizadas, perdera o interesse até em fazer de conta que era. Não fazia tempo que, sem contar à mãe, ele empregara Bessie, uma das mais antigas mulheres que trabalhavam na propriedade, para manter a cozinha deles abastecida e colocar de vez em quando um empadão ou um guisado na geladeira. Ele sabia que aquela mulher achava Athene escandalosa. Numa vaga tentativa de proteger a reputação doméstica da esposa, ele explicara que farinha causava urticária em Athene.

Uma torta de queijo esperava na prateleira. Douglas a colocou no forno, fechou a porta e examinou a mesa da cozinha à procura de algum bilhete. Quase nunca diziam muito: “Querido Douglas, já volto — A.” Ou: “Saí rapidinho para tomar ar”, ou “Fui dar uma volta”. E com cada vez mais frequência ela não vinha deixando bilhete algum. Naquela noite, ele não se importou. Não sabia se queria falar com alguém no momento, nem com a esposa.

Puxou um prato do aparador, olhando para a moldura com a foto instantânea que ele tirara de Athene em Florença. Aquele primeiro ano fora maravilhoso. Eles tinham passado três meses viajando pela Itália, dirigindo aquele seu MGB Roadster vermelho, ficando em pensiones minúsculas e frequentemente ofendendo as padronas com suas demonstrações desinibidas de amor. Athene o fizera sentir-se um rei, rindo, deliciada, da maneira como ele dirigia nas estradas sinuosas das montanhas, pendurando-se nele enquanto bebericavam café ao ar livre, enroscando-se nele no escuro, toda carente. Na volta, apesar da casa recém-decorada, do cavalo, das aulas de direção e do carro novo que ele lhe dera de presente — Athene era péssima motorista, Douglas já nem se importava mais com os arranhões que apareciam no para-choque —, aos poucos, ficara um pouquinho menos encantada, um pouquinho menos fácil de agradar. Não tinha interesse nos planos de redistribuição de riqueza dele, que tinha esperanças de inspirá-la. A ideia tinha partido dela, afinal.

“Vamos dar tudo”, dissera a esposa, numa tarde de verão, quando faziam um piquenique sozinhos à beira do rio das trutas. “Vamos decidir quem mais fez por merecer no vilarejo e depois distribuir a propriedade em lotes. Como os Estados Unidos fizeram com as pessoas escravizadas.”

Ela estava brincando, certamente. Como na vez em que anunciara que estava com muita vontade de cantar jazz e ele, de surpresa, contratara aulas para ela.

Na verdade, embora não gostasse de pensar no assunto, nas últimas semanas, Athene vinha dando certo trabalho. Ele nunca sabia como estaria seu humor: num minuto era sedutora, grudenta, tentava atraí-lo para algum plano extravagante; em seguida, era fria e distante, como se ele tivesse deixado de cumprir alguma regra tácita. Se ele se atrevesse a perguntar o que havia feito, ela explodia, exasperada, perguntando por que não podia deixá-la em paz. Ele não ousava mais se aproximar de Athene no escuro. Ainda estava ressentido desde que, duas semanas antes, ela chegara a empurrá-lo, acusando-o de parecer um “animal babão”.

Ele ergueu os olhos para a foto da mulher sorridente, simples. Tinha sido tirada quinze dias antes do segundo aniversário de casamento deles. Talvez pudessem ir à Itália de novo, passar uma ou duas semanas para mudar de ambiente. Ele precisava de uns dias longe da propriedade, tirar um tempo para digerir sua decepção. Talvez umas férias a deixassem menos irritada, menos inconstante.

Athene chegou pouco antes das oito, erguendo as sobrancelhas, surpresa, quando viu o prato de jantar limpo diante dele. Usava um vestido azul-claro e um casaco branco de gola alta novo.

— Não me dei conta de que você estaria em casa tão cedo.

— Pensei que você poderia querer companhia.

— Ah, querido, perdão. Se você tivesse dito, eu trataria de estar aqui. Passei a tarde em Ipswich, queria ir ao cinema.

Ela estava visivelmente de bom humor. Abaixou-se rapidamente para beijar sua testa, deixando um rastro de perfume no ar diante dele.

— Minha mãe disse que passou aqui mais cedo.

Athene estava tirando o casaco, de costas para ele.

— Acho que ela ainda quer me apresentar como um troféu na quermesse do vilarejo. Já disse a ela que não é a minha praia.

Douglas levantou-se, foi até o bar e serviu dois dedos de uísque.

— Você podia fazer um esforço, Athene. Ela não é tão ruim assim. Faça esse esforço por mim.

— Ah, não vamos discutir. Você sabe que não sou boa nessas coisas de família, Douglas.

Era uma conversa inútil, que já tinha se repetido várias vezes.

— Vi um filme fabuloso. Francês. Você tem que ver também. Fiquei tão emocionada que quase não voltei para casa. — Sua risada, talvez deliberada, tirou qualquer ameaça de suas palavras.

Douglas a observou desfilando pela sala: ela era o foco dali, mas sem pertencer ao lugar. Talvez sempre fosse ter este aspecto para ele: algo do outro mundo, flutuando, recusando-se a ser presa pelas amarras da domesticidade. Ele desejou, por um instante, poder lhe contar sobre o diálogo com o pai. Desejou poder expressar sua humilhação, sua decepção com a reação do homem cuja opinião ele valorizava mais do que tudo no mundo. Talvez deitar a cabeça no colo da esposa e ser consolado. Mas aprendera à custa de uma experiência amarga que Athene se deteria em qualquer rachadura na relação dele com os pais e faria o possível para aumentá-la. Ela não o queria tão ligado à família, queria separá-los.

Ele tomou um longo gole de uísque.

— Pensei que pudéssemos viajar.

Ela se virou, algo de intraduzível tomava sua expressão.

— O quê?

— Para a Itália.

Foi como se ele tivesse proposto saciar uma fome oculta. Ela se aproximou dele, sem deixar de encará-lo.

— Voltar a Florença?

— Se você quiser.

Ela arquejou discretamente, depois atirou os braços em volta dele com uma espécie de sofreguidão infantil.

— Ah, sim. Sim. Vamos voltar à Itália. Ah, Douglas, que ideia maravilhosa.

Ele largou o copo e afagou o cabelo dela, abismado com a facilidade com que as coisas se ajeitavam entre eles. Sentia as pernas e os braços dela, sinuosos, e era arrebatado pela excitação do desejo. Ela ergueu o rosto para o dele, e ele a beijou.

— Quando vamos? Em breve? Podemos fazer as malas num piscar de olhos. — Sua voz era ávida, premente.

— Pensei que podíamos ir para o nosso aniversário de casamento.

Os olhos dela foram parar em algum horizonte distante, seus pensamentos já além-mar. Era como se seu rosto tivesse mudado de forma, suavizado e com os contornos vagos, como se visto através de lentes embaçadas.

— Podíamos até ficar na Via Condolisa.

— Mas onde vamos morar?

— Morar?

— Na Itália.

Ele baixou o queixo e franziu a testa.

— Não vamos lá para morar, Athene. Achei que podíamos fazer uma viagem de comemoração.

— Mas pensei que... — Seu rosto se fechou quando ela entendeu as ramificações do que ele estava dizendo. — Você não quer se mudar para lá?

— Você sabe que não posso me mudar para lá.

Athene sentiu irromper um súbito desespero.

— Mas vamos nos mudar daqui, querido. Para longe da sua família. E da minha. Odeio família. Eles só servem para jogar em nós obrigações e expectativas. Vamos embora. Nem precisa ser a Itália. Já estivemos lá. Vamos para o Marrocos. Lá deve ser fabuloso.

Seus braços estavam apertados em volta da cintura do marido, seus olhos ardendo intensamente.

Douglas se sentiu subitamente exausto.

— Você sabe que não posso ir para o Marrocos.

— Não vejo por que não. — Seu sorriso estava magoado, hesitante.

— Athene, tenho responsabilidades.

Então, ela se afastou. Recuou e lhe lançou um olhar duro.

— Nossa, você fala exatamente igual ao seu pai. Pior. Exatamente igual ao meu pai.

— Athene, eu...

— Preciso de uma bebida.

Virou as costas para ele e foi se servir de uma dose grande de uísque. Nesse momento, Douglas notou que a garrafa nova já estava com o nível consideravelmente baixo. Ela ficou uns minutos de costas para ele. Em geral, Douglas poderia ter se aproximado, segurado seu ombro num gesto reconciliatório, murmurado algumas palavras de afeto. Naquela noite, porém, estava simplesmente muito cansado. Exausto demais para fazer joguinhos com sua esposa volúvel e impossível.

Ela se virou para ele.

— Douglas. Querido. Eu nunca lhe peço nada. Peço?

Não adiantava contradizê-la. Douglas olhou para seu rosto pálido, indecifrável, e a tristeza de repente era visível ali. Odiou pensar que era tudo culpa de seu fracasso como marido.

— Vamos embora. Vamos embora daqui. Diga sim para mim, Douglas. Por favor.

Ele teve um breve impulso insano de jogar seus pertences numa mala e pegar a estrada com o MG roncando, Athene encantada e enroscada nele, depois desaparecer num futuro colorido em alguma terra exótica.

O olhar de Athene não vacilou.

— Preciso de um banho — disse ele.

E, cansado, seguiu em direção às escadas.