A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 11 de 29

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A Loja dos Sonhos

Onze

 

O tucunaré — ou peacock bass, como é conhecido pelos ingleses — é um peixe agressivo, belicoso. Apesar da beleza iridescente enganadora, é mau o bastante para entortar um anzol e envergar um caniço. Mesmo aqueles de dois a três quilos são capazes de cansar um homem em menos de uma hora. Esses peixes evoluíram nas mesmas águas que a piranha, o jacaré, o pirarucu de armadura de escamas, criaturas do tamanho de um carro, e costumam brigar com rivais maiores e mais perigosos que eles. Mas, ao contrário de outros peixes na América do Sul, quanto maior ficam, mais complicada é a briga. Podem chegar a quase treze quilos ao se aproximarem das águas do Amazonas, seu habitat natural, então, tornam-se adversários dignos da própria Moby Dick.

É, em resumo, um peixe perverso, e quando pula, vários metros acima da água, é fácil detectar naquele olho pré-histórico uma sede de luta. Pode-se ver sua atração por um jovem interessado em afirmar-se aos olhos dos outros. Ou até por um homem mais velho interessado em conservar o respeito do filho.

Talvez fosse por isso que Jorge e Alejandro de Marenas gostavam daquele peixe. Eles embalavam os caniços, iam no quatro por quatro de Jorge para o aeroporto pegar um voo para o Brasil e passar dois, talvez três dias flexionando os músculos contra este ciclídeo, depois voltavam para casa com o equipamento satisfatoriamente quebrado, as mãos ensanguentadas, com a satisfação de um sentimento primitivo da eterna luta do homem contra a natureza. Para eles, era uma peregrinação bianual; não que a descrevessem como tal. Era o único lugar, Alejandro pensava muitas vezes, onde se sentiam verdadeiramente à vontade um com o outro.

Jorge de Marenas era cirurgião plástico em Buenos Aires, um dos melhores: sua lista de clientes continha mais de três mil nomes, muitos políticos proeminentes, cantores e artistas da TV. Como o filho, era conhecido como Turco, devido à aparência médio-oriental, embora, quando se dizia isso dele, era muitas vezes com um suspiro reverente. As mulheres chegavam a ele cada vez mais jovens, atrás de seios mais empinados, coxas mais finas, nariz como o de certa apresentadora de televisão ou lábios carnudos como da determinada jovem atriz. Com um jeito tão suave quanto a pele que recriava, ele satisfazia a todas, injetando, levantando, preenchendo e alisando, muitas vezes moldando e tornando a moldar a mesma pessoa ao longo dos anos até elas parecerem versões mais espantadas de si mesmas dez anos antes. Salvo a mãe de Alejandro. Ele não tocava na esposa. Em suas gordas coxas de cinquenta anos, seus olhos furiosos e cansados, camuflados por maquiagens caras e pela aplicação religiosa de cremes caros. Nem gostava que ela pintasse o cabelo. Ela contava às amigas com orgulho que era porque ele a considerava naturalmente perfeita. Achava, dizia ao filho, que, como acontecia com construtores e encanadores, o trabalho que lhe aguardava em casa era sempre deixado para depois. O próprio Alejandro não podia dizer que versão era correta: o pai parecia tratar a mãe com o mesmo respeito imparcial com que tratava todo mundo.

Pois enquanto a mãe era latina de uma forma quase estereotipada — dramática, passional, propensa a altos e baixos vertiginosos —, ele e o pai eram uma decepção emocional, extraordinariamente serenos e reservados, Alejandro, sobretudo, que beirava a antipatia. O pai o defendia dessa acusação (frequente), dizendo que os homens da família Marenas nunca tinham sentido necessidade de se comunicar, como nas novelas, com brigas tempestuosas e teatrais nem com declarações de amor extravagantes. Talvez isso se devesse ao fato de Alejandro ter sido mandado para o colégio interno aos sete anos, ou de o próprio Jorge ser um homem contido — exatamente o atributo que fazia dele um cirurgião tão bom. A luta bianual com os peixes era a única ocasião em que pai e filho se soltavam, por alguns momentos, dando vazão às emoções nas águas turbulentas, a alegria, a raiva, a felicidade, o desespero manifestados a partir da rede de segurança de botas para andar dentro d’água e um colete cheio de anzóis.

Geralmente. Dessa vez, para Alejandro, pelo menos, os prazeres físicos descomplicados da viagem tinham sido prejudicados pela conversa que ainda estava por vir, pela noção de que, mesmo tendo feito uma escolha profissional considerada por sua família a maior mágoa que ele poderia lhes infligir, estava prestes a fazer pior.

A viagem já começara complicada: Jorge não tinha certeza se deveria ser visto viajando, consciente de que muitos de seus amigos não só estavam sentindo falta das próprias viagens de pescaria e de passar uns dias na estância da família, mas, também, diante de fortunas desvalorizadas e poupanças confiscadas, estavam agora pensando em formas de deixar o país de vez. Ele tinha uma situação boa, dizia, mas não queria ferir o orgulho dos amigos. Não ficava bem se regozijar com a própria sorte quando tantos estavam sofrendo.

Talvez eu esteja prestes a equilibrar um pouco as coisas, pensou Alejandro, e sentiu uma pontada de ansiedade.

Ele planejara contar ao pai na caminhada do hotel, mas Jorge estava preocupado com uma picada que deixara seu pé inchado e o incomodava quando andava, então Alejandro carregou o equipamento dele e não disse nada, a aba do chapéu abaixada contra o sol, a cabeça zumbindo com os argumentos projetados, o confronto antecipado. Ameaçou contar a Jorge quando o pai tivesse prendido o chamariz, uma coisa espalhafatosa do tamanho de uma ferradura, com as decorações de um festival indígena, o tipo de isca que fazia os europeus balançarem a cabeça incrédulos — até fisgarem o próprio tucunaré, claro.

Tinha a intenção de contar a ele quando chegassem na água, mas o barulho da correnteza do igarapé e a concentração intensa do pai o tinham distraído, forçando-o a esperar até o momento se perder. Então, no trecho silencioso preferido deles entre a barraca em ruínas e o monte de madeira em pé, justo quando Alejandro se pegou engasgando com as palavras, já na ponta da língua, seu pai fisgara um bichão, cujos olhos, visíveis por um instante, olharam nos deles, mesmo há dez metros de distância, com a mesma fúria silenciosa dos da mãe de Alejandro quando Jorge anunciava que tornaria a chegar tarde em casa. (Não convinha ficar muito zangada, dizia ela, após ter posto o fone no gancho. Não com as coisas do jeito que estavam, e ele sendo o único homem que conheciam ainda ganhando dinheiro. Não com aquelas putas todas flutuando em volta dele com aqueles peitões de plástico e aquelas bundas de adolescente.)

Este tucunaré era grande até para os padrões do pai de Alejandro. Ele anunciou a chegada do peixe com um grito, parecendo uma criança surpresa, quando a isca foi atacada na água com um barulho semelhante ao de uma explosão, e, com um gesto de cabeça frenético, fez sinal para o filho se aproximar — precisava segurar o caniço com as duas mãos para não deixá-lo escapar. Qualquer conversa que tivesse sido planejada foi esquecida de imediato.

Alejandro largou o próprio caniço e correu para o pai, os olhos fixos na furiosa comoção embaixo da água. O tucunaré pulou da água, como que para melhor avaliar os adversários, e os dois homens suprimiram um grito diante do tamanho dele. Então, na fração de segundo em que ambos estavam petrificados com o que viram, o bicho fugiu como um raio para o labirinto de troncos de árvores em decomposição, arrancando do freio do molinete o zunido de uma aeronave mergulhando a prumo em direção à terra.

— Más rápido! Más rápido! — gritou Alejandro para o pai, que puxava a linha, esquecendo tudo que não fosse aquele peixe combativo.

Sacudindo a cabeça, o tucunaré deslocou pelo menos um dos anzóis da isca, suas brilhantes escamas laranja e verde-esmeralda faiscando enquanto ele lutava com a linha, o olho negro rodeado de dourado da nadadeira caudal caçoando deles ao cintilar acima da água, tão agressivo e sedutor como o rabo do pavão que lhe dava o nome em inglês. Alejandro sentiu o pai titubear um pouco, atordoado com a pura ferocidade da luta, e bateu em seu ombro, feliz pela primeira vez por ter sido seu pai que atraíra o magnífico peixe, feliz por ter sido ele que tivera uma chance de exibir sua superioridade na água.

Dito isso, não foi uma vitória rápida. Na verdade, durante algum tempo, eles nem tinham certeza de que seria uma vitória: colhendo e soltando a linha, revezando-se no molinete conforme se cansavam. Indo e vindo, cada vez mais perto chegava o peixe, sacudindo a enorme cabeça para soltar os anzóis coloridos da boca, debatendo-se cada vez mais furiosamente, transformando em espuma a superfície lisa da água, enquanto era levado para a praia.

A certa altura, Alejandro segurou a cintura do pai, sentindo suas costas largas se retesarem com o esforço, tentando manter o ponto de apoio no leito escorregadio do rio, e impressionou-se por não conseguir se lembrar de já ter abraçado o pai antes. Com a mãe, era um chamego só — de tal forma que, na adolescência, chegara a ser rejeitado por ela — mas agora ele entendia que ela precisava de uma coisa que seu pai recusara, fosse por autêntica inabilidade ou por implicância: atenção masculina de vez em quando, respeito suave e sedutor, amor. Dada a decepção que fora para ela em outros aspectos, era o mínimo que ele podia fazer.

— Mierda, Ale, você está com a sua câmera?

Finalmente, esgotados, estavam meio sentados, meio deitados na margem do rio, o peixe como um bebê adormecido entre pais de primeira viagem orgulhosos. Jorge prendeu a respiração antes de se levantar com esforço. Segurando pelas extremidades o peixe morto de olhar vazio e ainda furioso, sua madura cara bronzeada iluminou-se com uma expressão de vitória arduamente conquistada, de rara alegria espontânea, enquanto seus braços doloridos flexionados o erguiam aos deuses. Segundo ele, aquele foi o melhor dia que tivera em anos. Um dia memorável. Espere até ele contar no clube. Ale tinha mesmo tirado as fotos?

Alejandro se perguntou várias vezes, depois: como poderia ter contado ao pai naquele momento?

* * *

Jorge de Marenas ia passar no consultório a caminho de casa. O tráfego em direção à Zona Norte era sempre terrível a essa hora, e desde que o tumulto começara, nem um homem como Jorge se sentia seguro sentado num engarrafamento.

— A Mercedes nova de Luís Casiro foi roubada, eu contei? Nem teve tempo de sacar a arma do paletó antes de ser tirado do carro. Apanhou tanto que levou quatorze pontos. — Jorge balançou a cabeça, olhando o tráfego à sua volta. — Fernando de La Rua tem muito que explicar.

À direita, pela janela de vidro fumê, Alejandro via as Mães da Praça de Maio, com seus lenços de cabeça brancos bordados com os nomes dos Desaparecidos contra o verde em volta. Aquela atitude aparentemente calma era enganosa. Desmentindo as milhares de fotografias com que haviam decorado o parque por mais de vinte anos: filhos, filhas, cujos assassinos, todas sabiam, podiam ter passado por elas na rua. A retração econômica não as detivera, mas dera um novo foco aos habitantes da cidade, e elas pareciam cansadas e ignoradas, defensoras de notícias passadas.

Alejandro pensou por um instante na bebê que trouxera ao mundo quase três meses antes, nos outros que vira serem entregues posteriormente, seus nascimentos batizados com lágrimas, depois tirou aquilo da cabeça.

— Pa?

— Não conte à sua mãe quanto bebemos ontem à noite. Minha cabeça já dói o suficiente.

A voz do pai ainda demonstrava a satisfação da pescaria. Ao lado deles, um colectivo, cuspindo uma fumaça preta, reduziu a velocidade para seis ou oito quilômetros por hora, devagar o suficiente para permitir o desembarque e o embarque dos passageiros sem se deter. Um homem gritou e sacudiu o punho para o ônibus quando tropeçou e caiu ao saltar.

— Acho que ela está passando pela mudança — disse o pai, reflexivo. — As mulheres muitas vezes ficam irracionais nessa fase.

— Preciso falar com você.

— Ela está tão paranoica com segurança que nem sai de casa. Não admite isso, óbvio. Nem se a gente perguntar. Dá desculpas, diz que as senhoras estão indo lá para as suas obras de caridade, ou que está muito quente para sair, mas não tira mais o pé de casa. — Fez uma pausa, ainda alegre. — E está me deixando louco. — O tamanho do peixe o deixara falador. — Como não sai, ela cisma com as coisas, sabe? Não só com a questão econômica. Não só com a questão da segurança, que, eu garanto, está feia. Sabe que é mais provável ser assaltado na Zona Norte do que nas favelas? Os filhos da mãe sabem onde está o dinheiro, não são burros. — Jorge exalou, os olhos ainda fixos na rua à frente. — Não, ela está obcecada com o meu paradeiro. Por que cheguei do escritório com dez minutos de atraso? Eu não sabia que ela temia que eu me acidentasse no trânsito.

Olhou no espelho, inconscientemente verificando se a caixa térmica contendo o peixe não tinha virado.

— Ela deve achar que estou tendo um caso. Sempre que me pergunta por que estou atrasado, logo pergunta por Agostina. Agostina! Como se a mulher fosse olhar duas vezes para um coroa feito eu! — Disse isso com a segurança de quem não acreditava de fato nos próprios comentários.

O coração de Alejandro estava pesado.

— Pa, vou para o exterior.

— Tudo é aumentado, sabe? Porque ela tem tempo demais para ficar fazendo nada, pensando. Sempre foi assim.

— Para a Inglaterra. Vou para a Inglaterra. Trabalhar num hospital.

Jorge definitivamente o ouvira agora. Houve um longo silêncio, que nem os boletins de trânsito no rádio conseguiram quebrar. Alejandro ia sentado no banco de couro, prendendo a respiração diante da tempestade iminente. Por fim, quando não conseguiu segurar mais, falou, com calma:

— Não é uma coisa que eu planejei… — Desconfiava de que seria assim, mas ainda não se sentia preparado para o peso da culpa que se instalara sobre ele, para as explicações, os pedidos de desculpa, que já começava a dar.

Olhou para as mãos, empoladas e riscadas de um vermelho feroz por conta das linhas de náilon.

Seu pai esperou terminar o boletim de trânsito.

— Bem... acho que é uma coisa boa.

— Como?

— Não tem nada aqui para você, Ale. Nada. É melhor você aproveitar a vida em outro lugar. — Afundou a cabeça nos ombros e deu um longo suspiro cansado.

— Você não se importa?

— Não se trata disso... Você é jovem. Tem direito de viajar. Merece algumas oportunidades, conhecer pessoas. Deus sabe, não tem nada na Argentina. — Olhou de soslaio, e o filho entendeu o olhar. — Você precisa viver um pouco.

As palavras que vieram à mente de Alejandro pareceram inadequadas, portanto ele as engoliu.

— Quando vai falar com a sua mãe?

— Hoje. Consegui os documentos semana passada. Quero ir o quanto antes.

— É só... É só a situação econômica, certo? Não tem mais... mais nada que te faça querer partir?

Alejandro sabia que outra conversa rondava entre eles.

— Pa, os hospitais públicos estão à beira do abismo. Ouvi dizer que não têm dinheiro para nos pagar no fim do ano.

O pai pareceu aliviado

— Eu não vou ao consultório. Você precisa falar com sua mãe. Levo você de carro.

— Ela vai ficar mal, não vai?

— A gente dá um jeito — disse o pai simplesmente.

Contornaram os três lados da praça e ficaram parados no trânsito diante dos prédios do governo. Jorge colocou paternalmente a mão na perna do filho.

— Então, quem vai me ajudar a caçar tucunaré, hein? — A animação espontânea de antes desaparecera.

A máscara profissional do pai estava de volta, bonachona, tranquilizadora.

— Vamos para a Inglaterra, pa. Vamos pescar salmão.

— Ora. Um peixe de criança. — Isso foi dito sem ressentimento.

As mães dos desaparecidos estavam terminando sua marcha semanal. Quando o carro começou a voltar, Alejandro observou-as cuidadosamente guardando os cartazes plastificados nas bolsas, ajustando os lenços de cabeça bordados, cumprimentando e abraçando umas às outras com a naturalidade de aliadas de longa data antes de se dirigirem aos portões e a suas longas viagens para casa.

* * *

A casa dos Marenas, como muitas na Zona Norte, não parecia nem com as casas paroquiais de influência espanhola do centro de Buenos Aires, nem tinha uma estrutura moderna de vidro e concreto. Era um curioso prédio decorado recuado da rua e, em estilo arquitetônico, mais parecido com um relógio cuco suíço.

Em volta dele, canteiros cuidadosamente tratados acompanhavam sebes esculpidas, que disfarçavam o portão elétrico, as barras nas janelas recém-instaladas, e escondiam a guarita de segurança no fim da rua. No interior, os assoalhos de madeira havia muito tinham dado lugar a brilhantes extensões de mármore fresco, com mobília francesa em estilo rococó, lustrosas e douradas até não poder mais. Não era uma casa agradável de ver, mas enquanto os aposentos da frente ostentavam uma superioridade social tranquila, convidando as pessoas a admirar em vez de relaxar, a cozinha, onde a família passava a maior parte do tempo livre, ainda abrigava uma mesa velha e várias cadeiras surradas, mas confortáveis. O desaparecimento delas, garantia Milagros, a empregada, significaria o fim imediato de seus vinte e sete anos de trabalho com a família. Se achavam que, depois de um dia difícil de faxina, ela ia espremer o traseiro num daqueles negócios modernos de plástico, podiam mudar de ideia. Como havia um consenso de que Milagros era a única coisa que se interpunha entre a mãe de Alejandro e o sanatório, as cadeiras permaneceram, para a satisfação tácita de todos. E a cozinha continuou sendo o aposento mais usado na casa de sete quartos.

Foi lá que Ale falou com a mãe, enquanto o pai supostamente se atarefava no escritório e Milagros ia e voltava com o esfregão no chão de mármore para entreouvir a conversa e de vez em quando fazer uma exclamação pertinente. Sua mãe sentava-se empertigada à mesa. Com cabelo loiro em formato de capacete, não lembrava em nada a beldade de cabelo castanho das fotografias de casamento em porta-retratos dourados espalhadas pela casa.

— Para onde você vai? — perguntou ela, pela segunda vez.

— Para a Inglaterra.

— Para treinar? Você mudou de ideia? Vai ser médico?

— Não, mãe, ainda vou ser parteiro.

— Vai trabalhar num hospital particular? Para alavancar a carreira?

— Não. Em outro hospital público.

Milagros, que já não fingia limpar mais nada, ficou parada no meio do cômodo para ouvir.

— Você vai para o outro lado do mundo para fazer a mesma coisa que faz aqui?

Ele assentiu.

— Mas por quê? Por que tão longe?

Ele havia ensaiado mentalmente as respostas muitas vezes.

— Aqui não há oportunidades. Estão oferecendo bons empregos na Inglaterra, salários decentes. Posso trabalhar num dos melhores hospitais.

— Mas você pode trabalhar aqui! — Havia um tom se elevando na voz da mãe que revelava traços de pânico e histeria. — Não basta eu ter perdido um filho? Tenho que perder dois?

Ele sentira que o golpe estava chegando, mas isso não o tornava mais leve. Sentia a presença vagamente maligna que sempre sentia quando Estela era o assunto da discussão.

— Você não está me perdendo, mãe. — Sua voz era a de um médico falando com o paciente.

— Você está se mudando para dezessete mil quilômetros daqui! Como não vou te perder? Por que está se mudando para tão longe de mim? — Ela apelou para Milagros, que meneou a cabeça concordando, com tristeza.

— Não estou me mudando para ficar longe de você.

— Mas por que não para os Estados Unidos? Por que não para o Paraguai? Para o Brasil? Por que não ficar na Argentina, pelo amor de Deus?

Ele tentou explicar como faltavam parteiros nos hospitais ingleses, como estavam oferecendo compensações financeiras significativas comparadas a outros países para preencher a lacuna. Tentou dizer a ela que seria bom para sua carreira, que podia acabar trabalhando para um dos famosos hospitais-escolas, como os cuidados neonatais estavam entre os melhores do mundo. Ela vivia falando de seus ancestrais europeus — seria bom para ele vivenciar a Europa.

Considerou contar-lhe dos três bebês que vira serem entregues ao nascer porque o colapso econômico da Argentina deixara seus pais pobres demais para sustentá-los, dos gritos angustiados das mães ainda sangrando, das mandíbulas dolorosamente cerradas dos pais. De que, embora tivesse escolhido trabalhar com os muito pobres da cidade, ver de perto a desgraça paralisante que é a pobreza e a doença andando de mãos dadas, nada o preparara para a tristeza sem fim, para a sensação de cumplicidade indesejada que ele sentia ao entregar aquelas crianças.

Mas ele e o pai não falavam sobre bebês com ela. Nunca tinham falado.

Ele se ajoelhou e pegou a mão da mãe.

— O que sobrou para mim aqui, mamá? Os hospitais estão se acabando. O meu salário não me paga uma casa na favela. Quer que eu more com você até ficar velho? — Lamentou as palavras tão logo as pronunciara, sabendo que ela estaria felicíssima com tal arranjo.

— Eu sabia que essa... essa sua escolha profissional não seria boa para nós.

Quando ele a princípio fora estudar medicina, sua mãe se orgulhara. Que profissões tinham um status mais alto em Buenos Aires, afinal? Só cirurgiões plásticos e psicanalistas, e já havia um de cada na família. Depois, passados dois anos, ele voltara para casa para anunciar uma mudança na carreira: percebera que seu lugar não era entre os médicos. Seu futuro estava em outro lugar. Disse que iria trabalhar na área da obstetrícia.

— Vai ser obstetra? — perguntara a mãe, uma leve preocupação lhe franzindo o cenho.

— Não, vou ser parteiro.

Era apenas a segunda vez que Milagros tinha visto a patroa fingir limpar uma sujeira. (A primeira foi quando lhe contaram que Estela havia morrido.) Não era uma profissão adequada para o filho do mais proeminente cirurgião plástico de Buenos Aires, qualquer que fosse a sua suposta vocação. Não era uma profissão para um homem forte, independentemente do que se falasse a respeito de igualdade sexual naquela época. Certamente não era o tipo de coisa sobre a qual ela se sentiria confortável conversando com as amigas, para quem seu filho só era descrito como “estudante de medicina”. Não era certo. Sobretudo ela acreditava que isso talvez fosse, confidenciou a Milagros, o verdadeiro motivo de seu lindo filho nunca trazer garotas para casa, de não exibir o machismo arrogante que deveria ter sido passado para o primogênito de uma família como a deles. Seus instintos masculinos, confidenciou ela à empregada, haviam sido corrompidos pela exposição reiterada ao lado mais brutal da biologia feminina. Depois, pior ainda, ele escolhera trabalhar no hospital público.

— Então, quando você pensa em ir?

— Semana que vem. Terça-feira.

— Semana que vem? Na próxima semana? Por que tanta pressa?

— Eles estão precisando com urgência, mamá. A gente tem que aproveitar quando a oportunidade aparece.

O choque a deixara dura. Ela levou a mão ao rosto, depois desmoronou.

— Se tivesse sido a sua irmã que quisesse essa profissão, que quisesse mudar de continente... eu suportaria. Mas você... Não é certo, Ale.

Então o que é certo?, ele quis perguntar. Não é certo eu ter escolhido trazer crianças com segurança para um mundo inseguro? Não é certo a minha aceitação profissional estar na emoção, na vida real, no verdadeiro amor, enquanto o país em que vivemos está construído em cima de segredos, e celebra o que é falso? É certo, não importa no que você escolha acreditar, o segundo procedimento cirúrgico mais comum que meu estimado pai realiza ser supostamente tornar mais “belas” as partes mais íntimas de uma mulher? Como sempre, ele não disse nada. Alejandro fechou os olhos e se preparou para enfrentar a mágoa da mãe.

— Vou voltar para ver você, duas, talvez três vezes por ano.

— Meu filho único vai ser uma visita na minha casa. Isso deveria me deixar feliz? — Ela não olhou para Alejandro, mas apelou para Milagros, que sugou os dentes. Houve um longo silêncio. Depois, como esperado, a mãe começou a soluçar ruidosamente. Estendeu a mão para ele, os dedos se agitando em vão no ar. — Não vá, Ale. Prometo que não vou me importar com seu local de trabalho. Pode ficar no Hospital de Clínicas. Não vou falar nada.

— Mamá...

— Por favor! — Ela ouviu a certeza no silêncio dele, e quando tornou a falar, sua voz tinha uma pontada de amargura. Piscou para conter as lágrimas. — Tudo que eu queria era ver você bem-sucedido, casado, cuidando dos filhos. E agora você não só me nega isso, você me nega a sua presença!

A separação iminente deles o tornou generoso. Ele se ajoelhou e segurou a mão dela, os anéis frios em sua pele.

— Vou voltar. Achei que você podia enxergar isso como uma oportunidade para mim.

Ela franziu o cenho para ele, afastou-lhe o cabelo dos olhos.

— Você é muito frio, Ale. Não tem sentimentos. Não vê que está partindo meu coração?

Mais uma vez Alejandro não conseguiu responder à lógica contundente da mãe.

— Fique feliz por mim, mamá.

— Como posso ficar feliz por você quando estou sofrendo por mim mesma?

E é por isso que estou fugindo de você, disse ele em silêncio. Porque, de você, só conheci sofrimento. Porque estou com a cabeça cheia disso, sempre estive. E assim, finalmente, posso ter um pouco de paz.

— Depois conversamos melhor. Tenho que sair agora. — Ele sorriu, o sorriso paciente, distante, que reservava para a mãe, e deixou-a, com um beijo na testa, soluçando baixinho nos braços da empregada.

* * *

Considerando que tinha como único objetivo facilitar inadequação e excessos sexuais, o Venus Love Hotel, como outros estabelecimentos do tipo, era bem amarrado por regras e normas. Embora se pudesse pedir qualquer quantidade de acessórios eróticos no cardápio do serviço de quarto e se pudesse atender a toda espécie de tendências extravagantes nos muitos vídeos adultos disponíveis para aluguel particular, o hotel era curiosamente pudico quando se tratava de manter seu código de conduta, seu ar de respeitabilidade. O prédio tinha a fachada sóbria de uma residência. Seu nome não era sequer anunciado do lado de fora. Nem homem nem mulher podia esperar num quarto sozinho, apesar da inconveniência causada a casais ilícitos forçados a se encontrar em cafés próximos, não muito protegidos de olhares intrometidos. Uma tela de vidro fumê na recepção significava que nem o recepcionista nem o visitante podia identificar a identidade do outro.

Com exceção de uma pessoa em particular, que era conhecida do homem por trás da tela e já lhe pagara generosamente em mais de uma ocasião para garantir discrição. Essa pessoa aparecera nas revistas de fofocas vezes suficientes para ser reconhecida mesmo por trás das barreiras de vidro fumê e dos óculos escuros.

Isso significava que, com apenas um gesto de cabeça para o vulto à sua frente, Alejandro pôde subir as escadas de dois em dois degraus e, na hora marcada, bater à porta discretamente numerada que havia sido um porto seguro particular duas ou três vezes por semana durante quase dezoito meses.

— Ale? — Nunca nada romântico. Nunca nada como amor. Ele preferia assim.

— Sou eu.

Eduardo Guichane era um dos mais bem pagos apresentadores de televisão da Argentina. Em seu programa de entrevistas, que ia ao ar várias vezes por semana, ele aparecia ao lado de várias garotas sul-americanas seminuas que faziam frequentes referências mal roteirizadas a seu lendário apetite sexual. Era alto, de cabelos escuros, impecavelmente vestido e se orgulhava de um físico que aparentemente não mudara desde seus anos como jogador profissional de futebol. A revista de fofocas preferida da Argentina — Gente — sempre apresentava fotos de “flagras” dele acompanhando alguma jovem que não era Sofia Guichane, ou especulando se, como havia acontecido com suas esposas anteriores, ele estaria sendo infiel à ex-finalista do Miss Venezuela. Tudo plantado por seu assessor de imprensa.

— Tudo mentira — murmurava Sofia com amargura, acendendo um de seus indefectíveis cigarros.

Eduardo tinha a libido de uma cadeira. Embora sua desculpa mais frequente fosse cansaço, ela se perguntava se os interesses dele não pendiam para outro lado.

— Rapazes? — perguntou Alejandro, com cautela.

— Não! Isso, eu suportaria. — Sofia soprou fumaça para o teto. — Infelizmente ele se interessa mais por golfe.

Eles haviam se conhecido no consultório, num dia após Alejandro e o pai farrearem, aonde ele fora, a pedido da mãe, conferir se o pai chegara no trabalho são e salvo. Sofia estava em mais uma de suas várias visitas: tendo passado quatro dos seis anos do casamento abstendo-se de sexo, tinha achado que um traseiro menor e mais empinado e vários centímetros a menos nas coxas poderiam reacender a paixão do marido. (“Quantos dólares perdidos”, disse ela depois.) Alejandro, impressionado com sua beleza e com a ilustre insatisfação estampada em seu rosto, se pegara admirando-a, e depois, ao sair, não pensou mais nela. Mas Sofia esbarrara com ele no saguão do andar de baixo, onde, fitando-o com a mesma sede curiosa, anunciou que normalmente nunca fazia esse tipo de coisa, depois rabiscou seu telefone num cartão e o jogou para ele.

Após três dias, encontraram-se no Fenix, um motel espetacularmente lascivo, onde gravuras intrincadas do Kama Sutra decoravam as paredes e as camas vibravam desvairadamente. A menção dela ao local do encontro não lhe deixou dúvidas quanto à intenção, e eles gozaram juntos quase sem falar, numa cópula frenética que deixara Alejandro aturdido por quase uma semana.

Seus encontros tinham gradualmente chegado a um padrão. Ela jurava que eles não podiam tornar a se encontrar, que Eduardo desconfiava de alguma coisa, que andara lhe fazendo perguntas, que ela só tinha se safado por um triz. E então, sentado ao lado dela, ele a consolava, dizia que entendia, ela chorava, perguntava por que, sendo tão jovem, sem nem ter completado trinta anos, deveria suportar um casamento sem sexo, uma vida sem paixão. (Ambos estavam cientes de que aquilo não era estritamente verdade — a idade, pelo menos —, mas Alejandro não se atreveria a interromper.) E, depois, enquanto tornava a consolá-la, concordava que era injusto, que ela era muito linda, muito apaixonante para murchar como um figo velho. Ela segurava o rosto dele e anunciava que ele era muito atraente, muito bom, o único homem que já a compreendera. Então, faziam amor (embora a expressão sempre soasse muito delicada para o que realmente era). No fim, fumando furiosamente, ela se afastava e lhe dizia que estava acabado. Os riscos eram muito grandes. Alejandro teria que entender.

Vários dias ou, às vezes, uma semana depois, ela ligava de novo.

Os sentimentos dele sobre o arranjo muitas vezes tinham beirado a ambivalência: Alejandro sempre fora discretamente seletivo quando se tratava de parceiras sexuais, desconfortável com a ideia de se apaixonar. Embora compreendesse o conflito de Sofia, sabia que não a amava. No fundo, achava que em alguns momentos sequer gostava dela. Ele sentia que as declarações de amor da amante eram uma forma de legitimar os atos ilícitos de uma boa moça católica: embora a visão de religião dela pudesse abarcar a paixão romântica, o desejo carnal claramente passava dos limites. O que tinham em comum, embora nenhum dos dois tivesse coragem de admitir, era uma química sexual feroz. Isso alimentava em Sofia a sensação constante de ser uma mulher desejável, enquanto tirava Alejandro daquela atitude reticente habitual, ainda que por fora fosse quase imperceptível.

— Por que você nunca olha para mim quando goza?

Alejandro fechou a porta calmamente ao entrar e ficou parado diante da figura prostrada de Sofia na cama. Já estava acostumado com essas táticas iniciais: era como se a natureza breve de seus encontros não desse abertura para nenhum tipo de sutileza.

— Eu olho para você, sim. — Pensou em tirar o casaco, depois mudou de ideia.

Sofia ficou de bruços para alcançar o cinzeiro. O movimento fez sua saia subir nas pernas. Estava passando um filme pornográfico na televisão. Alejandro deu uma olhada, se perguntando se ela estivera assistindo àquilo enquanto ele não chegava.

— Não, não olha. Não quando goza. Eu observo você.

Ele sabia que ela tinha razão. Nunca abrira os olhos para nenhuma mulher enquanto chegava ao clímax: sem dúvida seu tio, o psicanalista, diria que isso denunciava algo mesquinho nele, uma relutância em se revelar.

— Não sei. Nunca pensei nisso.

Sofia se endireitou, levantando uma perna e deixando à mostra um longo trecho de coxa. Normalmente, isso seria suficiente para provocar nele poderosas ondas de desejo. Naquele momento, ele se sentiu curiosamente distante, como se já estivesse a milhares de quilômetros dali.

— Eduardo acha que devemos ter um bebê.

No quarto ao lado, alguém abriu a janela. Através da parede, Alejandro ouvia o murmúrio vago de vozes.

— Um bebê — repetiu.

— Não vai me perguntar como?

— Acho que a essa altura eu entendo a biologia.

Ela não estava sorrindo.

— Ele quer fazer isso numa clínica. Diz que será a melhor maneira de garantir que aconteça rápido. Acho que é só porque não quer fazer amor comigo.

Alejandro sentou-se na beira da cama. O casal na televisão estava envolvido num frenesi orgíaco. Será que Sofia se incomodaria se ele desligasse o aparelho? Alejandro já tinha dito várias vezes que filmes daquele tipo não mexiam com ele, mas ela apenas sorria, como se tivesse a certeza de que o tratamento de choque fosse fazê-lo mudar de ideia.

— Acho que um filho não é uma coisa que se possa fazer sozinho.

Ela descalçara os sapatos chutando-os cada um para um canto do quarto: Eduardo gostava de tudo arrumado, organizado, dissera ela certa vez. Quando estava com Alejandro, Sofia espalhava as roupas pelo quarto, uma espécie de revolta secreta.

— Isso não incomoda você?

— Se incomoda você.

— Acho que ele não quer de fato um filho. Aquelas fraldas todas... brinquedos de plástico por todo canto, vômito de bebê nos ombros. Ele só quer parecer viril. Sabia que ele está perdendo cabelo? Eu disse a ele que seria mais barato para nós dois se ele fizesse um implante capilar. Mas ele diz que quer um filho.

— E o que você quer?

Ela lhe lançou um olhar feroz, deu um sorrisinho para o seu tom psicanalítico.

— O que eu quero? — Fez uma careta, apagou o cigarro. — Não sei. Outra vida, provavelmente. — Levantou-se da cama com esforço e aproximou-se dele, o suficiente para que ele aspirasse o seu perfume, e colocou a mão fria em seu rosto, deixando-a deslizar lentamente em sua pele. Seu cabelo, solto nos ombros, estava ligeiramente embaraçado, como se tivesse passado algum tempo deitada na cama antes de ele chegar. — Ando pensando em você. — Chegando para a frente, beijou-o, deixando nos lábios dele um gosto de batom e cigarro. Então, inclinou a cabeça. — O que foi?

Surpreendia-o assim de vez em quando: ele a achava muito mimada e egocêntrica, no entanto, às vezes, ela farejava alguma súbita mudança no ar, como um cachorro.

Ele avaliou se havia alguma maneira de suavizar a notícia.

— Vou viajar.

Ela arregalou os olhos. A mulher na tela se contorcera numa posição que deixou Alejandro desconfortável por ela. Como queria desligar a televisão…

— Por muito tempo?

— Um ano... não sei.

Ele esperara uma explosão, ainda estava preparado para isso. Mas ela apenas ficou imóvel, depois suspirou e sentou-se na cama, pegando os cigarros.

— É trabalho. Arrumei emprego num hospital na Inglaterra.

— Inglaterra?

— Vou semana que vem.

— Ah.

Ele chegou mais perto dela, pousou a mão em seu braço.

— Vou sentir sua falta.

Ficaram sentados assim por alguns minutos, vagamente conscientes do barulho da transa abafada no quarto ao lado. Houve um tempo em que achariam isso embaraçoso.

— Por quê? — Ela virou-se para ele. — Por que está indo?

— Buenos Aires... é muito cheia de fantasmas.

— Sempre foi. Sempre será. — Ela deu de ombros. — A gente simplesmente tem que escolher ignorá-los.

Ele engoliu em seco.

— Não consigo.

Ele a segurou e então, talvez porque não tivesse causado a reação esperada, subitamente desejou-a, sentiu-se desesperado para se perder dentro dela. Mas Sofia se desvencilhou dele, contorcendo-se com agilidade, e se pôs de pé. Levou a mão ao cabelo, alisou-o, foi até a televisão e desligou-a.

Quando falou, não tinha nos olhos nem lágrimas nem uma fúria infantil, mas uma espécie de sabedoria resignada que ele nunca vira antes.

— Eu deveria estar furiosa com você, por me abandonar assim — disse ela, acendendo outro cigarro. — Mas estou feliz, Ale. — Balançou a cabeça, como se confirmando isso para si mesma. — É a primeira vez que vejo você fazer alguma coisa, tomar uma decisão de verdade. Você sempre foi muito... passivo.

Ele sentiu um breve desconforto, sem saber se ela estava menosprezando sua técnica sexual. Mas tendo acendido o cigarro, ela pegou sua mão, levantou-a e beijou-a, um gesto curioso.

— Está indo atrás de alguma coisa? Ou só fugindo? — A mão dela segurava a dele com firmeza.

Como era impossível responder a verdade, ele não disse nada.

— Vá, Turco.

— Assim, sem mais?

— Vá logo. Não quero que a gente comece a fazer promessas idiotas de se encontrar de novo.

— Eu escrevo, se você quiser.

— Ah, para...

Ele olhou para seu lindo rosto desapontado, sentiu um afeto surpreendente. As palavras que ensaiara pareciam banais.

Ela entendeu. Apertou a mão dele, depois apontou para a porta.

— Vá. Você sabe que eu ia terminar de qualquer jeito. Você não faz meu tipo, afinal.

Ele ouviu o tom dela endurecer com determinação e encaminhou-se para a porta.

— Que azar o meu, hã? — disse Sofia, rindo sem achar graça. — Um marido frio que nem um defunto e um amante assombrado por fantasmas.

* * *

Heathrow e seus arredores eram o lugar mais feio que ele já vira. O Hospital Maternidade de Dere não chegava a tanto, mas era ainda menos convidativo — especialmente, percebeu ele, para aqueles de pele mais escura. Durante semanas, muitas das parteiras haviam se recusado a falar com ele, aparentemente incomodadas com aquele usurpador do sexo masculino em seu domínio feminino. Duas semanas depois de ter chegado, ele dormira por solidão com uma jovem enfermeira e, quando se desculpara depois, ouvira o amargo comentário: “Nossa, vocês homens são todos iguais.”

Ele vivia com frio. Sua mãe, quando ligara, perguntou se ele já tinha arrumado uma namorada.

— Um rapaz da sua idade — disse, tristemente — deveria estar de olho no que tem disponível aí.

Ele vira a placa em frente ao Empório Peacock e, vencido por uma onda de saudade de casa tão forte quanto sua exaustão após um plantão de quatorze horas (outras parteiras lhe chamaram de louco por não encerrar um plantão no meio de um parto, mas ele não achava justo largar uma mulher em seu estado mais vulnerável), abrira a porta e entrara. Não era supersticioso, mas às vezes era preciso seguir os sinais. Tentar apagá-los não tinha se mostrado uma boa estratégia para ele até então.

Alejandro não disse isso às duas mulheres, claro. Nem contou sobre Sofia. Ou Estela, aliás. Se não tivesse sido pela loira de rosto sorridente, a primeira pessoa que parecera querer ouvir o que ele tinha a dizer, talvez não tivesse dito nada.