A Loja dos Sonhos
Quinze
Na adolescência de Suzanna, em dias como aqueles, Vivi a descreveria como alguém que acordou se sentindo “meio complicada”. Não era nada específico, nenhuma consequência de um possível revés palpável, mas ela começava o dia coberta por uma nuvem carregada, com um sentimento de que seu universo estava distorcido de alguma maneira e de que ela estava a ponto de cair em prantos. Em dias assim, os objetos inanimados geralmente colaboravam para o desenrolar dos acontecimentos (ou pioravam as coisas): um pedaço de pão tinha ficado preso na torradeira, e ela levara um choque ao tentar tirá-lo com um garfo; tinha descoberto um vazamento embaixo da pia do banheiro e batido com a cabeça na porta baixa ao sair; Neil não tinha levado o lixo para fora, como prometera. Ela esbarrara com Liliane na delicatéssen quando passara lá para comprar uma caixa de amêndoas confeitadas, como sugerira Jessie para o próximo “símbolo de amor”, e fora obrigada a metê-la na bolsa, como uma ladra, o que, teoricamente, se tornara ao se esquecer de pagar. E quando finalmente chegou ao Empório, tinha sido emboscada pela Sra. Creek, que lhe contou com um prazer perverso que estava esperando na rua havia quase vinte minutos e perguntou se Suzanna podia doar algumas de suas “quinquilharias” para um dos bazares dos pensionistas.
— Eu não tenho quinquilharia nenhuma — disse ela incisivamente.
— Não me diga que isso tudo está à venda — disse a Sra. Creek, fitando a vitrine na parede do fundo.
A Sra. Creek então passara sem esforço para uma história sobre jantares dançantes em Ipswich e como, na adolescência, complementava a renda dos pais costurando vestidos para as amigas.
— Quando comecei a fazer minhas próprias roupas, a New Look estava em alta. Grandes saias rodadas e mangas três quartos. A gente usava um monte de tecido naquelas saias. Sabe, quando a moda começou, as pessoas aqui se escandalizaram. A gente tinha passado anos economizando pano durante a guerra. Não tinha nada. Nem com cupons. Muitas de nós saíam para dançar com vestidos que fazíamos com as cortinas de casa.
— Jura? — disse Suzanna, acendendo interruptores e se perguntando por que Jessie estava atrasada.
— O primeiro que fiz foi em seda esmeralda. Era uma cor linda, muito elegante. Parecia um dos trajes do Yul Brynner em O Rei e Eu... sabe do que estou falando?
— Mais ou menos — disse Suzanna. — Gostaria de tomar um café?
— É muita gentileza sua, querida. Eu não me importo de lhe fazer companhia. — Sentou-se na cadeira perto das revistas e começou a sacar papéis da bolsa. — Tenho fotografias em algum lugar, de como a gente era. Eu e a minha irmã. A gente dividia vestidos nessa época. Cinturinhas que dava para envolver com as mãos. — Ela suspirou fundo. — Mãos de homem, quero dizer. As minhas mãos sempre foram miúdas. De fato, a gente quase sufocava com espartilhos para conseguir o visual, mas mulher sempre está disposta a sofrer em nome da beleza, não?
— Hum — disse Suzanna, lembrando-se de tirar as amêndoas confeitadas da bolsa e colocá-las embaixo do balcão.
Jessie podia levá-las lá mais tarde. Se decidisse aparecer.
— Ela agora está com uma colostomia, coitadinha.
— O quê?
— A minha irmã. Doença de Crohn. Um problema terrível. A pessoa pode usar todas as roupas folgadas que quiser, mas precisa cuidar para não esbarrar em ninguém, entende o que estou falando?
— Acho que sim — disse Suzanna, tentando se concentrar em medir o café.
— E ela mora em Southall. Então pronto... É desastre na certa. Mesmo assim, podia ser pior. Ela trabalhava em ônibus.
— Desculpe o atraso — disse Jessie. — Usava um jeans cortado, tinha uns óculos cor de lavanda na cabeça, um ar de verão, e estava quase insuportavelmente bonita. Logo atrás dela, veio Alejandro, abaixando-se ao entrar. — A culpa foi dele — explicou ela, animada. — Estava precisando de indicação de um açougue bom. Anda meio chocado com o estado da carne do supermercado.
— É chocante, aquele supermercado — disse a Sra. Creek. — Sabe quanto paguei outro dia por um pedaço de barriga de porco?
— Me desculpe — disse Alejandro, que registrara a boca crispada de Suzanna. — É difícil para mim descobrir essas coisas quando não estou de plantão. O meu horário não combina com o de mais ninguém. — No olhar dele havia um apelo mudo que acalmou e irritou Suzanna.
— Vou compensar os minutos extras — disse Jessie, largando a bolsa embaixo do balcão. — Ando ouvindo falar muito sobre carne argentina. Mais dura, aparentemente, porém mais saborosa.
— Tudo bem — disse Suzanna. — Não tem importância. — Desejou não ter visto o olhar que passou entre eles.
— Expresso duplo? — perguntou Jessie, indo para trás da máquina de café. Alejandro fez que sim, sentando-se na mesinha ao lado do balcão. — Aceita um? — perguntou a Suzanna.
— Não. Estou bem. — Desejou não estar com aquela calça. Grudava pelo, e o corte, ela percebia, tinha um aspecto barato. Mas o que ela esperava? A calça tinha mesmo sido barata. Suzanna não comprava roupas de qualidade desde que tinham deixado Londres.
— A gente não come muita carne — dizia Jessie. — Durante a semana, pelo menos. Tirando frango, carne é muito cara... e não gosto de pensar neles naquelas gaiolas de granja. E Emma não liga muito. Mas adoro rosbife. Para o almoço de domingo.
— Um dia vou encontrar para você uma boa carne argentina — disse Alejandro. — A gente deixa os nossos animais envelhecerem mais. Dá para ver a diferença.
— Pensei que os bois velhos ficavam fibrosos — comentou Suzanna, e imediatamente se arrependeu.
— Mas você amacia a carne, querida — disse a Sra. Creek. — Sova ela com uma coisa de madeira.
— Se a carne é boa — retrucou Alejandro —, não precisa ser sovada.
— A vaca já deve ter passado por muita coisa.
— Gordura de carne — disse a Sra. Creek. — Está aí um produto que nunca mais encontramos nas lojas.
— Não é o mesmo que banha?
— Podemos mudar de assunto? — Suzanna começava a se sentir enjoada. — Jessie, já acabou esse café?
— Você nunca nos contou — Jessie virou-se para Alejandro, debruçando-se no balcão — sobre a sua vida antes de vir para cá.
— Não tem muito para contar.
— Tipo, por que você quis ser parteiro? Quero dizer, sem querer ofender, mas não é uma profissão normal para um homem, é?
— O que é normal?
— Só estando muito confortável com seu lado feminino para fazer o que faz num país de masculinidade exacerbada como a Argentina. Então por que escolheu isso?
Alejandro pegou sua xícara de café e deixou cair dois torrões de açúcar no espesso líquido preto.
— Você está desperdiçando seu talento numa loja, Jessie. Devia ser psicoterapeuta. Na minha terra, esse é o emprego de maior prestígio que se pode ter. Ao lado de cirurgião plástico, é lógico... Ou talvez açougueiro.
O que foi, pensou Suzanna ao começar a desembalar uma caixa nova de sacolas, um jeito bem engenhoso de não responder à pergunta.
— Eu estava contando a Suzanna que fazia vestidos.
— Eu sei — disse Jessie. — Você me mostrou as fotos. Eram lindos.
— Eu mostrei essas? — A Sra. Creek exibiu um leque de fotografias surradas.
— São uma beleza — disse Jessie, amável. — Você é inteligente!
— Acho que a gente tinha mais habilidade manual naquela época. As moças hoje parecem ser... menos prendadas. Mas, também, a gente não tinha opção, com a guerra e tudo.
— E o que você fazia, Suzanna, antes de abrir essa loja? — A voz de Alejandro, com seu sotaque forte, era grave, tranquilizadora. Ela podia imaginá-lo consolando as mulheres no parto. — Quem você foi na vida pregressa?
— A mesma pessoa que sou agora — disse ela, consciente de que não acreditava no que dizia. — Tenho que dar um pulinho na rua para pegar mais leite.
— Ninguém é a mesma pessoa para sempre — insistiu Jessie.
— Eu era a mesma pessoa... mas acreditava menos veementemente que cada um deve cuidar da própria vida — respondeu ela, ríspida, e bateu a gaveta da caixa.
— Eu venho aqui pelo ambiente, sabe — confidenciou a Sra. Creek a Alejandro.
— Você está bem, Suzanna? — Jessie se inclinou para ver melhor a expressão dela.
— Ótima. Só ocupada, ok? Tem muita coisa para fazer hoje.
Jessie captou a crítica implícita e fez uma careta.
— Aquele peixe — disse ela a Alejandro, enquanto Suzanna empurrava canecas desnecessariamente pela prateleira acima da caixa —, o que você costumava pescar com seu pai, o tucu-qualquer-coisa.
— Tucunaré. Peacock bass.
— É conhecido por ser muito mal-humorado, certo?
A Sra. Creek tossiu discretamente dentro da xícara.
Houve uma breve pausa.
— Acho que tem que ser mal-humorado, como você diz, para sobreviver no habitat dele — disse Alejandro, inocente.
Eles esperaram até que Suzanna, com um olhar faiscando na direção deles, fechasse a porta da loja com força. Observaram-na subir a rua a passos largos, cabeça baixa, como se estivesse caminhando contra um vento forte.
Jessie soltou o ar, balançou a cabeça com admiração para o homem à sua frente.
— Puxa, Ale, não sou a única pessoa na profissão errada.
* * *
O padre Lenny desceu a Water Lane, virou à esquerda e assentiu pela vitrine para as pessoas no Empório Peacock. Ao ver o rosto alegre rodeado de tranças loiras, acenou com vigor, pensando na conversa que tivera mais cedo aquela manhã.
O rapaz — pois ainda era um rapaz, por mais maturidade que julgasse haver adquirido com a paternidade — tinha ido entregar um aquecedor para o presbitério. O aquecimento central quase não servia para nada, na época, e a diocese não tinha recursos para um sistema novo, ainda mais com a obra do telhado da igreja sendo prioridade. A reputação de Lenny era conhecida: todos sabiam que ele podia viver de seus contatos. Depois de vinte anos, fazia-se vista grossa para quaisquer atividades comerciais que, examinadas de perto, pudessem parecer impróprias para um servo da igreja. Então o carro de entrega tinha entrado no acesso da garagem, e Lenny tinha dado por si se preparando para acompanhar o rapaz.
Foi Cath Carter que inicialmente pedira o seu conselho. Cath, em várias ocasiões, já o convidara à sua casa para, supostamente, tomar um chá e, em suas palavras, “colocar a conversa em dia”, mas, na verdade, queria pedir opinião a respeito da coleção cada vez maior de contusões e machucados “acidentais” da filha. Não era como se menina em si não fosse geniosa, dizia, e seria mentira se dissesse que ela própria e Ed nunca tinham chegado às vias de fato em todos os seus anos juntos, mas aquilo era diferente. O garoto ultrapassara um limite. E sempre que ela tentava tocar no assunto com Jessie, recebia uma resposta seca mandando que cuidasse da própria vida, ou algo do tipo.
— Mães e filhas, hã? — dissera ele, prontamente.
Não havia muito que ele pudesse oferecer. Cath achava que a moça se ofenderia se pensasse que eles estavam falando dela, então o padre não podia procurá-la. E o problema não era sério a ponto de chamarem a polícia, segundo a mãe. Antigamente, quando ele era jovem, uns dois homens mais velhos chegavam para aplicar-lhe um corretivo, uma surra, só para mostrar que estavam de olho. Quase sempre funcionava. Mas, já não tendo Ed Carter por perto, ninguém fora da assistência social tendia a querer assumir esse pequeno problema. E Cath e Jessie não queriam essa gente envolvida de forma alguma. Então o padre estava de mãos atadas.
Até o rapaz aparecer à sua porta. Porque ninguém tinha dito nada, afinal, a respeito de eles dois terem uma conversinha.
— Está gostando do seu novo trabalho, hã?
— Não é ruim, padre. Horário normal... O salário podia ser melhor.
— Ah, ora, essa é uma verdade universal.
O rapaz olhara para o padre, como se tentando avaliar o que ele queria dizer, depois levantou o aquecedor com uma facilidade extraordinária e o carregou, como lhe foi instruído, para a sala da frente, onde ignorou as pilhas altas de caixas de louça e despertadores com desconto encostadas nas paredes, parcialmente escondendo duas Virgens Marias e um São Sebastião.
— Quer que eu monte para o senhor? Leva cinco minutos.
— Seria ótimo. Não tenho nenhum talento especial com uma chave de fenda. Quer que eu procure uma?
— Tenho a minha. — O rapaz mostrara a ferramenta, e Lenny subitamente reparou, com desconforto, no vigor daqueles ombros, da força potencial por trás dos movimentos agora contidos.
A ironia era que ele não era um rapaz mau: geralmente atencioso, educado, criado na parte boa da propriedade. Embora não frequentassem a igreja, seus pais eram gente decente. Seu irmão, Lenny se lembrou, fora fazer serviço voluntário no exterior. Talvez tivesse também uma irmã, mas lhe fugia da memória. O caso era que o rapaz em si nunca se metera em nenhuma encrenca, não tinha sido um daqueles que o padre apanhava de vez em quando na praça do mercado, nas primeiras horas de um domingo, semi-inconscientes de sidra barata e só Deus sabia o que mais. Nunca fora pego fazendo rachas com carros roubados pelas estradas rurais ao luar.
Mas isso não significava que fosse bom.
Lenny ficou parado, observando, enquanto as pernas de aço eram presas ao corpo do aparelho, as porcas e os parafusos apertados com uma eficiência econômica. Depois, enquanto o rapaz segurava o aquecedor, preparando-se para endireitá-lo, Lenny falou:
— Então, o que a sua mulher está achando do emprego novo?
O rapaz não desviou o rosto do trabalho.
— Ela diz que gosta.
— É uma loja simpática. Bom ver uma coisa diferente na cidade.
O rapaz grunhiu.
— E bom para ela ganhar um dinheiro, sem dúvida. Qualquer coisinha ajuda, hoje em dia — disse Lenny.
— A gente já tinha o bastante antes de ela começar lá. — O rapaz colocou o aquecedor em pé no tapete e deu um pontapé no sapato, como se para deslocar alguma coisa.
— Tenho certeza de que sim.
Lá fora, dois carros tinham chegado a um impasse na rua atrás do pátio da igreja. Lenny podia vê-los, cada um se recusando a recuar o suficiente para deixar o outro passar.
— Ela deve estar trabalhando bastante.
O rapaz ergueu os olhos, sem entender.
— Evidentemente é um trabalho mais braçal do que parece. — Lenny olhava nos olhos do rapaz, tentando parecer mais à vontade do que se sentia. Escolheu as palavras com cuidado, e pronunciou-as lentamente, deixando o impacto do coice para o final. — Deve ser, afinal, considerando o número de contusões que ouço dizer que ela anda tendo.
O rapaz, enfim sobressaltado, desviou o rosto e depois tornou a encarar o padre, os olhos entregando seu desconforto. Então abaixou-se e pegou a chave de fenda, guardando-a no bolso superior. Embora seu rosto mostrasse pouca emoção, as pontas de suas orelhas tinham ficado rubras.
— É melhor eu ir andando — murmurou. — Tenho outras entregas.
— Muito obrigado. — Acompanhou-o pelo estreito corredor. — Não seja muito duro com ela agora — continuou o padre Lenny, levando o rapaz à porta. — É uma boa moça. Sei que, com o apoio de um homem como você, pode encontrar um jeito de se machucar um pouco menos.
Jason virou-se na varanda. Tinha uma expressão magoada e furiosa, agora evidente, e os ombros encurvados.
— Não é o que o senhor...
— Certamente.
— Eu amo a Jess.
— Sei que ama, e sempre há maneiras de evitar essas coisas, não?
O rapaz não disse mais nada. Soltou a respiração, como se tivesse considerado falar de novo e desistido. No andar emproado com que se encaminhou para a van havia um indício de petulância.
— Porque nós não íamos querer a cidade inteira preocupada com ela, afinal — gritou o padre, acenando quando a porta bateu e o veículo sobrecarregado derrapou ao sair do acesso para a rua.
Havia ocasiões em que ansiava por uma vida maior, por horizontes mais amplos, pensou Lenny, com certa satisfação, ao voltar para sua casa abandonada, descuidada, a mão protegendo do sol a pele clara. Mas às vezes havia mesmo vantagens em morar numa cidade muito pequena.
* * *
Liliane MacArthur esperou até os rapazes terem desaparecido, as sacolas penduradas sem preocupação em ombros vestidos com camisetas, uma ginga que os levava depressa para o outro lado da praça. Depois, olhando para dentro da loja para se assegurar de que estaria sozinha, abriu timidamente a porta e entrou.
Arturro estava ocupado nos fundos. Quando o sino soou, gritou que chegaria num minuto, e ela ficou parada canhestramente no meio da loja, entre as geleias e a massa seca, escutando o zumbido das geladeiras e alisando o cabelo.
Quando apareceu, enxugando as mãos no grande avental branco, ele abriu um sorriso enorme.
— Liliane! — Pelo modo de dizer seu nome, pareceu estar propondo um brinde.
Ela quase retribuiu o sorriso, mas se lembrou do motivo de estar ali. Enfiou a mão na bolsa e sacou a caixa de amêndoas confeitadas, verificando que os cantos não tivessem sido amassados pelos medicamentos controlados que acabara de buscar.
— Eu... Eu só queria lhe agradecer... pelos chocolates e todo o resto. Mas está começando a ficar meio exagerado.
Arturro não parecia entender. Olhou para a caixa na mão dela e, como que seguindo a deixa, pegou-a.
Ela apontou para os chocolates na prateleira, mantendo a voz baixa como se a estivesse escondendo dos outros clientes.
— Você é um homem muito bom, Arturro. E é... é... bem, eu não ganho muitas surpresas. E foi muita gentileza sua. Mas eu... eu gostaria que isso parasse por aqui. — Segurou a bolsa apertada contra o flanco, como se estivesse se escorando nela. — Entenda, eu não sei direito o que... o que você está esperando de mim. Tenho que cuidar de minha mãe, você sabe. Não posso... Em nenhuma circunstância posso deixá-la sozinha.
Arturro deu um passo para perto dela. Passou a mão pelos cabelos.
— Achei que era justo elucidar. Mas fiquei muito tocada. Queria que soubesse disso.
A voz dele, quando saiu, estava grossa, pesada.
— Lamento, Liliane...
Ela abanou a mão, a expressão angustiada.
— Ah, não. Não quero que você lamente... eu só...
— ... mas eu não entendi.
Houve um longo silêncio.
— Os chocolates? Os presentes?
Ele continuou olhando para ela, na expectativa.
Ela então estudou sua expressão.
— Você me deixou chocolates? Em frente à minha porta? — Sua voz era insistente.
Ele ficou olhando para a caixa em sua mão.
— São daqui, sim...
Liliane corou. Olhou para a caixa, depois novamente para ele.
— Não foi você? Você não mandou nenhum desses?
Ele balançou a cabeça devagar.
Sem se dar conta, Liliane levara a mão à boca. Olhou em volta da loja, depois se virou para a porta.
— Ah! Me desculpe. Estou... Foi só um mal-entendido. Pode... por favor, por favor, esqueça o que eu disse... — E depois, ainda agarrada à bolsa como a uma tábua de salvação, saiu correndo da delicatéssen, os saltos repicando no piso de madeira.
Por alguns minutos, Arturro ficou parado no meio da loja vazia, fitando a caixa de amêndoas confeitadas, um resquício do perfume dela pairando no ar. Olhou para a praça do mercado quase deserta, em cuja área pombos andavam pelas sombras alongadas e o último dos carros de entrega se preparava para sair.
Depois, ergueu os olhos para os três aventais brancos recém-pendurados no gancho ao lado da porta e fechou a cara.
* * *
A alguns metros dali, Suzanna se preparava para fechar o Empório Peacock. Jessie já tinha saído fazia quase meia hora, e Suzanna ficara meio desconsertada ao notar que Alejandro, que pelo visto não havia trabalhado naquele dia, não tinha ido com ela. Ele tinha escrito uma série de cartões-postais e se encontrava sentado, lendo um jornal, de vez em quando olhando para a rua, a cabeça aparentemente longe dali.
Por alguma razão, a presença dele tinha deixado Suzanna ainda mais propensa a acidentes. Ela tinha deixado cair um vaso de vidro colorido justo quando ia entregá-lo a um cliente e sido obrigada a substituí-lo, sem cobrar nada, por outro. Tinha tropeçado nos dois últimos degraus do porão e torcido ligeiramente o tornozelo, ficando sentada no chão xingando a si mesma em silêncio antes de conseguir se recuperar o suficiente para reaparecer na loja. Tinha se queimado duas vezes na máquina de café. Se ele notara isso, não dissera nada. Permaneceu sentado, tomou o seu café e não disse nada.
— Não tem mais nenhum outro lugar para ir? — perguntou ela, quando só restou ele na loja.
— Gostaria que eu fosse embora?
Suzanna corrigiu-se, corando com a transparência dele.
— Não... me desculpe. Eu só estava imaginado que lugar faria você se sentir em casa.
Ele franziu o cenho para a vitrine.
— Nenhum onde eu queira passar muito tempo.
Ele tinha cílios longos. Pretos, sedosos, curvos. Ela não havia notado antes quão femininos eram os olhos dele.
— O hospital oferece acomodação? — A voz dela era quase interrogativa.
— Não de início.
Ela esperou.
— Até descobrirem que muitos dos senhorios das redondezas não querem “estrangeiros” como inquilinos. — Ele sorriu e ergueu a sobrancelha diante do interesse dela, como se aguardando que ela tropeçasse numa verdade de longa data. — Você, Suzanna, é uma das poucas pessoas que conheci aqui que não é nem loira nem tem olhos azuis.
O olhar que ele lançou para ela a fez corar. Suzanna saiu do balcão e começou endireitar os jarros de botões coloridos, ímãs de cores vivas, caixas de broches, formando linhas retas. Sentiu-se subitamente na defensiva.
— Aqui não é a Alemanha nazista. Quero dizer, nem todo mundo reagiria assim.
— Tudo bem. Eu tenho acomodação no hospital.
Lá fora, a cidade entrara num torpor de fim de tarde. As mães tinham levado os filhos pequenos para casa e agora tropeçavam neles em cozinhas, preparando-se para a investida vespertina de chá, banho e cama. Os pensionistas estavam transportando mochilas ou carrinhos de compras com legumes em sacolas de papel do mercado, porções únicas de carne ou empadão de carne. Em algum lugar longe dali, ruas apinhadas de gente se preparavam para a hora do rush, linhas de metrô rugindo no subsolo, bares e pubs enchendo, seus limites abafados atochados de trabalhadores de Londres com colarinho frouxo desesperados por libertação e calibragem.
Suzanna olhou em volta do interior de sua loja e sentiu-se sobrecarregada pelo peso de sua perfeição inventada, sua estase.
— Como você consegue aguentar isto aqui? — perguntou.
— Aguentar o quê? — Ele olhou para ela, a cabeça inclinada.
— Depois de Buenos Aires. O provincianismo. Como você disse, senhorios com medo porque você é diferente.
Ele franziu o cenho, tentando entender.
— Todo mundo tendo opinião sobre tudo. Todo mundo se achando no direito de saber da sua vida. Como se precisasse te catalogar, te botar numa categoria certa para se sentir confortável. Você não sente falta da cidade grande? Da liberdade da cidade grande?
Alejandro pousou a xícara de café vazia.
— Acho que talvez você e eu tenhamos ideias diferentes sobre liberdade.
De repente, Suzanna se sentiu inibida e ingênua. Não sabia nada sobre a Argentina, salvo os vagos fragmentos de que se lembrava do noticiário. Algumas revoltas, algumas crises financeiras. Madonna como Eva Perón. Nossa, pensou com amargura. E acuso todo mundo de não olhar para fora.
À sua frente, Alejandro abaixou-se para pegar a mochila embaixo da mesa. Olhou pela vitrine, que ainda brilhava com o sol do poente refratado, paralelogramos de luz se insinuando gradualmente pelo vidro, banhando cada elemento de dourado-claro.
Algo inundou Suzanna.
— Ela mora com uma pessoa, sabe?
— Quem? — Ele ainda estava abaixado sobre a mochila.
— Jessie.
Ele nem pestanejou.
— Eu sei.
Ela se virou e começou a esfregar a pia, furiosa e envergonhada.
— Jessie não precisa se preocupar comigo.
Foi uma coisa estranha de dizer, ainda mais por causa do modo enfático com que ele falou, como se estivesse tentando se convencer.
— Não foi minha intenção... Desculpe. — Ela abaixou a cabeça na direção da pia.
Resistiu ao impulso então de lhe contar sobre Jason, de explicar, de tentar reparar aquela demonstração de ciúme infantil. Não queria que ele a visse como os outros pareciam vê-la. Mas explicar a relação de Jessie a colocaria o mesmo nível das pessoas que ela andara criticando — que trocavam os segredos domésticos umas das outras como uma espécie de moeda social.
— Eu odiava morar aqui até ter esta loja. — Ela falou subitamente, polindo as torneiras. — Eu era uma garota da cidade, sabe? Gosto de barulho, movimento, anonimato. É muito difícil morar no lugar onde a gente cresceu... numa cidadezinha feito esta. Todo mundo sabe tudo sobre você, sabe quem são seus pais, em que colégio você estudou, onde você trabalhou, com quem saiu. Como você caiu do banco do piano no recital da escola.
Deu para ela sentir que ele a observava, e as palavras tinham saído, irrefreáveis, enquanto, lá no fundo, um lado sensato seu lhe perguntava por que sentia essa necessidade desesperada de preencher o silêncio.
— E por eles saberem as coisas que te aconteceram... algumas, pelo menos... acham que te conhecem. Acham que sabem quem você é. Você não tem espaço para ser outra pessoa. Por aqui, sou a mesma que era aos doze, aos treze, aos dezesseis anos. Sem tirar nem pôr. É assim que me enxergam. E o engraçado é que sei que sou alguém completamente diferente.
Ela parou, as mãos apoiadas nas laterais da pia, e balançou a cabeça ligeiramente, como se estivesse tentando afastar um zumbido dos ouvidos. Soltou a respiração e tentou colocar as ideias em ordem. Pareceu ridícula, até para si mesma.
— Enfim. A loja mudou tudo isso. Porque mesmo que eu não possa ser outra pessoa, a loja pode. Pode ser qualquer coisa que eu queira. Ninguém espera nada dela. Sei que não é a ideia que todo mundo tem de um... empreendimento comercial. Sei que muita gente por aqui acha que é bobagem. Mas ela tem... ela tem um... — Ela não sabia direito o que estava tentando dizer.
Um carro deu ré lentamente na rua.
— Eu já a vi no hospital — disse Alejandro, em pé, a mochila pendurada no ombro. — Às vezes, vou com a cadeira de rodas buscar as mães em frente à emergência. As senhoras que têm dificuldade de andar ficam lá esperando ajuda para entrar. Já a vi... na sala de espera.
No aço inoxidável das torneiras, Suzanna conseguia distinguir o seu reflexo — torcida, invertida.
— Então você sabe... que ela ama o Jason. — Ela falou olhando para baixo.
Depois, quando não veio nenhuma resposta, encarou-o...
Ele estava observando-a. Agora chegou cuidadosamente a cadeira para baixo da mesa.
— Só sei o que vejo. — Encolheu os ombros. — Não é o meu tipo de amor.
— Não — disse Suzanna.
Ficaram parados de frente um para o outro. As mãos dele nas costas da cadeira. Como seu rosto estava na sombra, ela mal via sua expressão.
As portas traseiras de uma van bateram na rua, quebrando os fios frágeis da atmosfera. Alejandro olhou pela janela, depois para ela, fitando-a nos olhos durante vários segundos antes de se virar para a porta.
— Obrigado pela hospitalidade, Suzanna Peacock.