A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 29

Páginas do PDF

A Loja dos Sonhos

[Avançar para o início do texto]

A meus pais, Lizzie Sanders e Jim Moyes.

Com amor e gratidão.

PARTE UM

Um

 

Buenos Aires, 2001

O dia em que realizei meu primeiro parto

Era a terceira vez na semana que o ar-condicionado tinha pifado no Hospital de Clínicas, e o calor era tão forte que as enfermeiras adotaram o hábito de segurar ventiladores de plástico a pilha em cima dos pacientes na ala de terapia intensiva, numa tentativa de refrescá-los. Havíamos recebido uma caixa com trezentos ventiladores de presente de um homem do ramo de importação que havia sobrevivido a um derrame, um dos poucos pacientes do hospital público que ainda se sentia com dinheiro o suficiente para fazer doações.

No entanto, aqueles ventiladores de plástico azuis revelaram-se quase tão confiáveis quanto a promessa de mais medicamentos e equipamentos médicos feita pelo homem. Por todo o hospital, pingando de calor no barulhento verão de Buenos Aires, ouvia-se o súbito ¡Hijo de puta! das enfermeiras — mesmo das normalmente devotadas — quando tinham que bater nos aparelhos para fazê-los voltar a funcionar.

Eu não sentia o calor. Estava suando frio, tremendo de medo, o pavor de um parteiro recém-formado que acabara de saber que realizaria seu primeiro parto. Beatriz, a parteira mais antiga, que supervisionara o meu treinamento, fez o anúncio fingindo que não era grande coisa. Deu-me um bom tapa no ombro com a mão negra rechonchuda e saiu para ver se conseguia pegar alguma comida da enfermaria geriátrica para alimentar uma de suas novas mães.

— Estão na dois — disse, apontando para a sala de parto. — Multípara, três filhos, mas este não está querendo sair. Quem pode culpá-lo? — Ela deu uma risada amarga e me empurrou em direção à porta. — Volto daqui a pouco. — Depois, quando me viu empacado ao lado da porta, ouvindo os gemidos de dor abafados lá dentro, acrescentou: — Vá, Turco, ele só pode sair por um lugar, você sabe.

Ainda conseguia ouvir a risada das outras parteiras quando entrei na sala de parto.

Eu planejara me apresentar com alguma autoridade, inspirar confiança tanto a mim mesmo quanto às minhas pacientes, mas a mulher estava ajoelhada no chão, empurrando com força a cara do marido e mugindo feito uma vaca, então considerei um aperto de mão inadequado.

— Por favor, doutor, ela precisa de algum remédio — disse o pai, afastando como podia a mão da esposa.

Percebi que sua voz tinha a deferência com que eu me dirigia aos meus superiores do hospital.

— Ah, Jesus amado, por que está demorando tanto? Por que está demorando tanto? — gritava a mulher para si mesma, balançando para trás e para a frente de cócoras.

Estava com a camiseta encharcada de suor, o cabelo, preso num rabo de cavalo, tão molhado que dava para ver linhas claras do couro cabeludo.

— Nossos dois últimos filhos vieram muito rápido — disse o pai, afagando o cabelo da esposa. — Não entendo por que este não vem.

Peguei o prontuário no pé da cama. A mulher estava em trabalho de parto havia quase dezoito horas: muito tempo para um primeiro filho, que dirá para o quarto. Resisti ao impulso de gritar por Beatriz. Em vez disso, encarei as anotações, procurando passar uma aura de entendido, e tentei recitar mentalmente a minha lista de providências ao som dos gemidos da mulher. Lá embaixo, na rua, alguém tocava uma música alta no carro: a insistente batida eletrônica da cúmbia. Pensei em fechar as janelas, mas a ideia de abafar ainda mais o quartinho escuro era insuportável.

— Pode me ajudar a colocá-la na cama? — perguntei ao marido, depois que perdi as forças de olhar para as anotações.

Ele deu um pulo na mesma hora, feliz, talvez por ter aparecido alguém que faria alguma coisa.

Depois que a levantamos, verifiquei sua pressão arterial e, enquanto ela agarrava o meu cabelo, cronometrei as contrações e apalpei sua barriga. A pele da mulher estava febril e escorregadia. A cabeça do bebê estava completamente encaixada. Perguntei ao marido sobre os partos anteriores, mas não descobri qualquer pista. Olhei para a porta e desejei que Beatriz aparecesse.

— Não tem por que se preocupar — falei, enxugando o rosto e torcendo para ser verdade.

Foi então que reparei no outro casal em pé e quase imóvel no canto do quarto, ao lado da janela. Eles destoavam dos visitantes mais frequentes de um hospital público: com aquelas roupas caras e coloridas, combinavam mais com o hospital suíço do outro lado da praça. O cabelo da mulher, que exibia uma tintura sofisticada, estava puxado para trás num chignon elegante, mas a maquiagem não sobrevivera ao calor sufocante de quarenta graus e borrara em volta dos olhos, escorrendo pelo rosto brilhante. Ela segurou o braço do marido e olhou atentamente para a cena diante deles.

— Ela está precisando de medicamentos? — perguntou, virando-se para mim. — Eric pode conseguir remédios para ela.

Será que é a mãe de um deles?, pensei, distraído. Ela parecia nova demais.

— O trabalho de parto já está muito avançado para medicamentos — respondi, tentando parecer confiante.

Todos olhavam para mim com expectativa. Nenhum sinal de Beatriz.

— Farei apenas um exame rápido — informei.

Como ninguém deu a impressão de que me impediria, não tive opção senão fazer mesmo.

Levei os calcanhares da mulher até suas nádegas e deixei seus joelhos caírem para o lado. Depois esperei até a contração seguinte e, com a maior delicadeza possível, fiz o exame de toque. Isso podia ser doloroso no trabalho de parto avançado, mas ela estava tão cansada que mal protestou. Fiquei um minuto parado, tentando entender. Ela estava totalmente dilatada, mas eu não conseguia sentir a cabeça do bebê... Por um instante, perguntei-me se não seria mais uma das peças que as parteiras pregavam, como quando me pediram para manter uma boneca aquecida na incubadora. De repente, senti um leve entusiasmo. Dei a todos um sorriso tranquilizador e corri ao armário de instrumentos, torcendo para que o que eu procurava não tivesse sido saqueado por outro departamento. Mas lá estava o instrumento que parecia uma pequena agulha de crochê de aço: minha varinha mágica. Segurei-a na palma da mão, sentindo uma espécie de euforia com o que estava prestes a acontecer, com o que eu estava prestes a fazer.

O ar foi rasgado por outro gemido da mulher. Eu estava com um pouco de medo de fazer o procedimento sem supervisão, mas sabia que não era justo esperar mais. E, agora que o monitor cardíaco fetal já não funcionava, eu não tinha como saber se a criança estava sofrendo.

— Mantenha-a quieta, por favor — pedi ao marido e, cronometrando cuidadosamente o intervalo das contrações, introduzi o gancho e fiz um pequeno furo na bolsa de água, que, como percebi, bloqueava o avanço do bebê.

Mesmo com os gemidos da mulher e o tráfego lá fora, ouvi o belo estalo da membrana cedendo à minha pressão. Subitamente, veio um jorro de fluido e a mulher se sentou, dizendo, com certa surpresa e bastante urgência:

— Preciso fazer força.

Neste momento, Beatriz chegou. Ela notou o instrumento em minha mão, a determinação renovada no rosto da mulher, e, ajudando o marido a apoiá-la, fez um sinal com a cabeça para que eu continuasse.

Depois disso, não me lembro de muita coisa. Lembro-me de ver a quantidade impressionante de cabelo preto fino, de pegar a mão da mulher e colocá-la ali para que aquilo pudesse incentivá-la também. Lembro-me de instruí-la a fazer força e arfar, e que, quando o bebê começou a surgir, eu gritava tão alto quanto nos jogos de futebol a que ia com meu pai, com alívio, choque e alegria. E me lembro de ver aquela linda menina deslizando para as minhas mãos, o azul mosqueado de sua pele logo se tornando cor-de-rosa, feito um camaleão, antes de soltar um vigoroso grito bem-vindo de indignação com sua entrada atrasada no mundo.

E, para minha vergonha, lembro que tive que virar a cabeça, porque, quando cortei o cordão umbilical e a deitei no peito da mãe, percebi que tinha começado a chorar e não queria que Beatriz desse às outras parteiras mais um motivo para rirem.

Ela apareceu ao meu lado, enxugando a testa, e apontou para trás.

— Depois que você terminar — disse, em voz baixa —, vou rapidinho lá em cima ver se consigo achar o Dr. Cardenas. Ela perdeu muito sangue, não quero que se mexa antes de ele dar uma olhada.

Eu mal ouvi o que foi dito, e Beatriz percebeu isso. Então me deu um pontapé no tornozelo.

— Nada mal, Ale — falou, sorrindo. Foi a primeira vez que me chamou pelo meu nome verdadeiro. — Na próxima, você talvez até se lembre de pesar o bebê.

Eu já ia responder no mesmo tom, a alegria me dando coragem, pela primeira vez, de me manifestar. Mas, enquanto conversávamos, percebi que o clima no quarto mudara. Beatriz também notou, e congelou no mesmo instante. Em vez dos típicos arrulhos extasiados da mãe vendo o bebê pela primeira vez e do murmúrio suave de parentes admirados, só se ouvia no quarto uma súplica baixinha:

— Diego, não, não, Diego, por favor...

O casal bem vestido passara para o lado da cama. Reparei que a mulher tremia, um meio sorriso estranho no rosto, estendendo a mão timidamente para a bebê.

A mãe agarrava a filha ao peito, olhos fechados, murmurando para o marido:

— Diego, não, não. Não consigo fazer isso.

O marido acariciava seu rosto.

— Luisa, nós concordamos. Você sabe que concordamos. Não temos dinheiro para alimentar os nossos filhos, imagina mais um.

Ela não abria os olhos, as mãos ossudas enroladas no xale tantas vezes lavado do hospital.

— As coisas vão melhorar, Diego. Você vai conseguir mais trabalho. Por favor, amor, por favor, não...

Diego franziu o rosto. Ele esticou o braço, devagarinho, para soltar os dedos da esposa, um por um, da bebê. Ela agora chorava.

— Não. Não, Diego, por favor.

A alegria do nascimento evaporara, e senti o estômago embrulhado ao me dar conta do que estava acontecendo. Eu estava pronto para intervir, mas Beatriz, com uma rara expressão sombria no rosto, deteve-me com um mínimo movimento de cabeça.

— O terceiro este ano — sussurrou.

Diego conseguira pegar a bebê. Abraçou-a com força, sem olhar em sua direção, e depois, de olhos fechados, ergueu-a para longe dele. A mulher que aguardava deu um passo à frente.

— Vamos amá-la muito — disse, seu sotaque elitista falhando com as lágrimas. — Esperamos tanto tempo...

A mãe então ficou descontrolada e tentou sair da cama. Beatriz deu um salto, segurando-a.

— Ela não pode se mexer — disse, com uma voz que sua cumplicidade contrariada tornava mais estridente. — É muito importante que você não a deixe se mexer até o médico chegar.

Diego envolveu a esposa com os braços. Difícil saber se para consolá-la ou aprisioná-la.

— Eles vão dar tudo a ela, Luisa, e o dinheiro vai nos ajudar a alimentar nossos filhos. Você tem que pensar nos nossos filhos, na Paola, no Salvador... Pense em como as coisas têm sido...

— Minha bebê — gritou a mãe, sem lhe dar ouvidos, ferindo com as unhas o rosto do marido, impotente diante do tamanho de uma pesarosa Beatriz. — Você não pode levar ela embora.

Suas unhas deixaram um lanho sangrento, mas acho que ele não notou. Fiquei ao lado da pia enquanto o casal voltava em direção à porta, meus ouvidos preenchidos pelo som visceral de uma dor que nunca esqueci, sem nem conseguir mais olhar para a criança cujo parto me dera tanta alegria fazer.

E até hoje não consigo me lembrar de qualquer ponto positivo do parto do primeiro bebê que trouxe ao mundo. Só me vêm à memória os gritos da mãe, a expressão de dor gravada em seu rosto, uma dor que eu sabia, mesmo não tendo experiência, que jamais seria aplacada. E me lembro da mulher, traumatizada, mas decidida, que saiu de maneira furtiva com o bebê, como uma ladra, dizendo baixinho:

— Ela vai ser amada.

Deve ter dito cem vezes, embora ninguém estivesse ouvindo.

— Ela vai ser amada.