A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 13 de 29

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A Loja dos Sonhos

Treze

 

O dia em que me dei conta de que eu não precisava ser meu pai

Acho que nunca na vida vi meu pai sem o cabelo untado de óleo. Eu nunca soube qual era a cor verdadeira do cabelo dele: era uma espécie de carapaça escura sempre lisa, dividida em minúsculos sulcos pelo pente de tartaruga que se projetava de seu bolso traseiro. Ele era de Florença, dizia minha avó, como se isso explicasse a vaidade. Por outro lado, minha mãe não tinha a cara da mamma italiana que os ingleses imaginam. Era muito magra, muito linda, mesmo com a idade avançada. Pode vê-los nesta fotografia: pareciam saídos de um filme, muito glamorosos para um vilarejo como o nosso. Acho que ela nunca cozinhou.

Eu tinha seis anos quando me deixaram pela primeira vez com minha avó. Eles trabalhavam na cidade: um lugar impróprio para uma criança, diziam-me a toda hora. Tiveram uma variedade de empregos, quase sempre ligados à ponta mais baixa da indústria do entretenimento, mas nunca pareciam ganhar muito dinheiro — ou, pelo menos, menos do que precisavam para manter a própria beleza. Mandavam envelopes de lire para o meu sustento — não dava nem para o milho das galinhas, dizia meu avô com desdém. Ele cultivava ou criava quase todos os nossos alimentos — “só assim”, dizia, batendo nas minhas costas, “criaria um bom rapaz”.

Eles voltavam de seis em seis meses para me ver. A princípio, eu me escondia atrás das saias de minha avó, mal os reconhecendo, e meu pai fazia muxoxos e depois caretas para mim pelas costas dela. Minha mãe cantarolava para mim, alisando o meu cabelo e repreendendo minha avó por me vestir como um camponês, enquanto eu me encostava no peito dela, sentindo o seu perfume e me perguntando como duas criaturas tão diferentes podiam ter criado um bicho tosco feito eu. Era assim que meu pai me descrevia, beliscando-me a barriga, exclamando para a minha papada, e minha mãe o repreendia, sorrindo, mas não para mim. Por anos, eu não sabia se os amava ou os odiava. Eu sabia que nunca estaria à altura do que eles queriam de um filho e que, possivelmente até, eu era o motivo de eles viverem indo embora.

— Você não deve ligar para eles — dizia minha avó. — A cidade os deixou afiados como facas.

Depois, no ano do meu décimo quarto aniversário, eles voltaram sem nada para minha avó, sem nada para o meu sustento. Aparentemente era a quinta vez seguida. Não era para eu saber disso, e fui mandado para o meu quarto, mas espiei pela porta, tentando ouvir direito as vozes que rapidamente se elevaram. Meu avô, perdendo a cabeça, chamou meu pai de vagabundo, minha mãe, de prostituta.

— Não lhes falta dinheiro para botar essa merda na cara, para engraxar os sapatos novos. Vocês não prestam.

— Eu não tenho que ouvir isso — disse meu pai, acendendo um cigarro.

— Tem, sim. Como pode chamar a si mesmo de pai? Não seria capaz nem de matar um frango para alimentar seu próprio filho.

— Você acha que eu não seria capaz de matar um frango? — retrucou meu pai, e consegui vê-lo perfeitamente se empertigando todo naquele terno de risca de giz.

— Você não presta a não ser para se empetecar todo como uma bicha.

A porta da sala bateu. Quando corri para a janela, vi meu pai saindo com passadas largas para o quintal. Depois de várias tentativas, e muitos cacarejos, conseguiu agarrar Carmela, uma das galinhas mais velhas, que já parara de botar ovo havia muito tempo. Encarando meu avô, meu pai torceu o pescoço da ave e, displicentemente, atirou seu corpo para o outro lado do quintal, em cima dele.

Baixou um silêncio e, de repente, senti que o gesto de meu pai tinha sido quase uma ameaça. Vi nele uma coisa que não tinha visto antes, uma coisa mesquinha e impulsiva. Minha avó vira o mesmo que eu: torcia as mãos, implorando a todo mundo que entrasse para tomar uma grappa.

Minha mãe olhava nervosamente do pai para o marido, sem saber a quem tentar acalmar primeiro.

O ar pareceu parar.

Depois, com um cacarejo estrangulado, Carmela apareceu aos pés de meu pai, a cabeça meio inclinada, a expressão maligna. Hesitou, cambaleou e, em seguida, trôpega, atravessou o pátio e entrou no galinheiro. Ninguém disse nada.

Então, minha avó apontou e disse:

— Ela cagou no seu terno.

Meu pai olhou para baixo e viu suas calças muito bem passadas sujas pelo que poderia ter presumido ser o último protesto de Carmela.

Minha mãe, a mão pressionando os lábios, começou a rir.

Meu avô, de cabeça erguida, virou-se e voltou para dentro de casa, deixando no ar um desdenhoso “hã!”.

— Até o seu filho é capaz de torcer o pescoço de uma galinha — murmurou.

Depois disso, meu pai voltava muito raramente. Eu não me importava. Meu avô me ensinou sobre carne, sobre as diferenças entre pancetta e prosciutto, entre dolcelatte e panna cotta, sobre como fazer patê cravejado de figos e selado em gordura de ganso. Nunca mencionou a minha aparência. Dez anos mais tarde, abri minha primeira loja, e desde então foi a minha vez de alimentá-lo, o que fiz com prazer até ele morrer.

Carmela foi a única galinha que nunca comemos.

* * *

Liliane enfiou a chave na porta da Unique Boutique faltando quase vinte minutos para as dez. Olhou para o chão e, tendo escorado a porta com o pé, abaixou-se e pegou a caixinha de chocolates com embrulho dourado no degrau. Olhou-os atentamente, virou-os por duas vezes nas mãos, depois ergueu a cabeça e olhou de um lado para outro na rua, o casaco comprido ondulando na brisa fria. Depois recuou dois passos, soltando a porta, a fachada da déli de Arturro bem à vista. Aguardou mais um instante e, então, segurando os chocolates e a bolsa junto ao peito, entrou na loja.

Do outro lado da rua, de seu ponto privilegiado por trás da vitrine de Arturro, Suzanna e Jessie se entreolharam. Depois, como se uma delas fosse pelo menos vinte anos mais moça, caíram na risada.

* * *

Era o quarto presente que elas haviam deixado nos degraus da Unique Boutique: uma vez por semana, foi o que tinham decidido. Mais que isso pareceria óbvio, menos talvez parecesse obra do acaso. Mas a manobra não tinha sido unidirecional. Talvez contagiadas pelo início do calor, pelos impulsos primitivos que persuadiam as garotas a mostrar pernas e ombros, que deixavam os rapazes de Dere zanzando para baixo e para cima pelas ruas estreitas em ruidosos carros envenenados (enquanto os moradores mais velhos contraíam os lábios, desaprovando), Suzanna e Jessie tinham desenvolvido todo tipo de estratagemas para atrair Liliane e Arturro para a companhia um do outro. Quando a prateleira de bolsas de Liliane caiu, elas convenceram Arturro a consertá-la, dizendo-lhe que Liliane admirara muito o trabalho que ele havia feito nas próprias prateleiras. Davam indiretas sobre os benefícios do azeite para a artrite, fazendo Liliane ir à déli comprar um vidro para a mãe. Arrumavam desculpa — subitamente limpando mesas, ou retirando cadeiras para “manutenção” — para os dois se sentarem juntos quando iam até a loja tomar um café. E, de vez em quando, eram recompensadas: flagravam os dois se olhando com uma espécie de prazer tímido, ou se sobressaltando se entravam no Empório Peacock e encontravam o outro já ali (o que parecia ocorrer cada vez mais). Estava funcionando, diziam uma à outra em sussurros exultantes, quando a loja estava vazia. E colocavam atrás do balcão outra caixa de algum doce.

* * *

Na Casa Dere, Vivi tinha suas próprias questões culinárias com que se preocupar: passara a ser assombrada pela geladeira de Rosemary. Nas últimas semanas, quando entrara no anexo para a tarefa bissemanal de esvaziar a lixeira (Rosemary tinha dificuldade de tirar os sacos sem rasgá-los), descobrira na geladeira, entre os vegetais melados e vidros de remédio velhos, vários potes de iogurte descartados ao lado de pacotes abertos de bacon e bandejas de frango cru com sangue pingando na caixa de leite aberta. As palavras Listeria e salmonela assumiram uma horrível ressonância, e Vivi pulava de ansiedade toda vez que Rosemary falava em preparar um “sanduichezinho” para comer ou fazer um lanche.

Ela quis falar com Douglas a respeito, mas ele estava bastante fechado desde o episódio com Suzanna e, com a fenação, muitas vezes ficava fora de casa até nove da noite. Cogitou pedir ajuda de alguma das amigas da vizinhança, mas não tinha intimidade com nenhuma para este nível de confidência: nunca fora uma daquelas mulheres que tinham um grupo de amigas e, com o peso que o nome Fairley-Hulme carregava, admitir qualquer dificuldade em casa parecia uma espécie de deslealdade. Vivi assistia aos programas de entrevistas matinais, com jovens que achavam normal revelar os detalhes mais íntimos da vida sexual, ou seus problemas com drogas ou álcool, e se admirava. Como, de uma geração para outra, podíamos ter sido transportados de uma era em que tudo tinha que ficar entre quatro paredes para um ponto em que essa atitude era considerada doentia? No final das contas, ligou para Lucy, que ouviu com a imparcialidade analítica que a tornara tão bem-sucedida no trabalho, depois lhe disse que, até onde podia ver, Rosemary estava chegando na idade em que precisava ir para uma casa de repouso.

— Eu jamais sugeriria isso para o seu pai — sussurrou Vivi, como se, do outro lado do campo de dezesseis hectares, Douglas pudesse de alguma forma ouvir a sua traição.

— Você vai ter que fazer alguma coisa — disse Lucy. — Salmonela mata. O que acha de contratar uma empregada?

Vivi não gostava de confessar o probleminha da Senhora Incontinência.

— É só que ela é muito teimosa. Não gosta nem quando eu entro na cozinha dela. Tenho que inventar todo tipo de desculpa para substituir a comida de lá.

— Ela deveria ser grata.

— Pois deveria, querida, mas você sabe que essa palavra não faz parte do vocabulário da Rosemary.

— É complicado. Não dá para você cobrir tudo com papel-filme?

— Tentei fazer isso, mas ela quis reaproveitar o plástico. Tirou do frango e embrulhou um naco grande de Cheddar, tive que jogar o queijo todo fora.

— Diga que ela está colocando a própria saúde em risco.

— Eu tentei, querida. Mesmo. Mas ela fica muito irritada e não ouve. Se limita a acenar com a mão para mim e sair furiosa.

— Ela deve saber — disse Lucy, pensativamente. — Que está ficando gagá, quero dizer.

Vivi suspirou.

— Sim. Sim, acho que sabe.

— Isso me deixaria uma fera. E a vovó nunca foi exatamente uma pessoa... benevolente.

— Não.

— Quer que eu dê uma palavrinha?

— Com quem?

— Não sei. Com a vovó? O papai? Às vezes é mais fácil quando pula uma geração.

— Você podia tentar, querida, mas não sei se vai adiantar. Seu pai está meio... Bem, acho que ele está farto de lidar com problemas de família no momento.

— Como assim?

Vivi parou, sentindo-se desleal de novo.

— Ah. Você sabe. Essa bobagem com a Suzanna.

— Está brincando? Eles estão nessa?

— Ela está mesmo bastante magoada. E infelizmente eles chegaram àquele estágio horrível em que qualquer coisa que dizem só piora a situação.

— Ah, pelo amor de Deus, não posso acreditar que eles ainda não se resolveram. Espere um instante. — Vivi ouviu o barulho de uma conversa abafada e um acordo rápido. Depois a voz da filha estava de novo na linha. — Vamos, mãe. Você tem que botar um fim nisso. Eles estão agindo feito dois idiotas. Um é tão teimoso quanto o outro.

— Mas o que eu posso fazer?

— Não sei. Bater as cabeças deles uma na outra. Você não pode deixar isso se arrastar. Vai ter que tomar a iniciativa. Olha, mãe, tenho que desligar. Tenho uma reunião. Me ligue hoje à noite, está bem? Depois me conte o que decidir em relação à vovó.

Lucy desligou antes de a mãe poder lhe mandar um beijo. Vivi ficou sentada, olhando o fone zumbindo ao longe, e lhe bateu aquele familiar sentimento de inadequação. Por que isso é minha responsabilidade?, pensou com irritação. Por que tenho que resolver o problema de todo mundo ou sofrer as consequências? O que foi exatamente que eu fiz?

* * *

Nadine e Alistair Palmer estavam se separando. Quando as noites ficaram mais claras, as horas calmas de Suzanna entre a fechar loja e Neil chegar em casa, aquele momento em que ela normalmente examinava os recibos à mesa da cozinha, bebericando uma taça de vinho, tinham sido cada vez mais interrompidas por telefonemas de Nadine.

— Não acredito que ele está fazendo isso comigo... Se acha que vou largar as crianças um fim de semana inteiro, ficou maluco... Sabe, o advogado acha que eu também deveria ir para a casa de férias... Eu a decorei, sim, mesmo ela sendo dividida com o irmão dele...

Primeiro, Suzanna se sentira lisonjeada de ter notícias da amiga — durante algum tempo, pensara que Nadine, que ainda morava em Londres, a esquecera. Depois de algumas semanas, estava exausta com os telefonemas, com as histórias sem fim de injustiça pós-conjugal, os incontáveis exemplos de mesquinharia em que casais que no passado tinham se amado eram capazes de afundar no desejo de punir um ao outro.

— Você não imagina como as noites são vazias... Escuto barulhos de todo tipo. Minha mãe acha que eu deveria arranjar um cachorro, mas quem vai passear com ele agora que tenho que trabalhar?

Nadine e Alistair tinham sido os primeiros do círculo deles a se casar, apenas seis semanas antes de Suzanna e Neil. Passaram a lua de mel na mesma parte da França. Havia pouco tempo, Nadine perguntara três vezes se ela e Neil estavam bem, como se procurando desesperadamente uma confirmação de que não estava sozinha em sua desgraça. Suzanna nunca dizia mais que “bem”. A princípio, ficara bastante mexida, mas Nadine e Alistair já eram o quarto casal entre seus velhos amigos a ter se divorciado, e ela se abalava menos — quem sabe, se surpreendia menos — a cada vez. Às vezes, depois de colocar o fone no gancho, refletia sobre a inevitabilidade do caminho que as uniões de sua geração pareciam seguir: após a onda de entusiasmo inicial, vinha uma relação mais estável, talvez com um pouco menos de sexo, depois o casamento, a construção de um lar, o tesão substituído por uma paixão por cortinas e estofados. Então vinha o bebê, e a partir daí as mulheres ficavam apatetadas, realizadas, sem paciência, o sexo desaparecia, e as mulheres e os homens pareciam seguir caminhos diferentes — a mulher fazia referências brincalhonas mas contundentes à inutilidade de maridos e pais, e o homem se retirava, para passar o máximo de tempo possível no escritório até terminar com uma pessoa mais jovem, mais entusiasmada pelo sexo e menos decepcionada com a vida.

— Ele diz que não sente mais atração por mim. Desde que as crianças nasceram. Eu lhe disse, francamente, não sinto atração por ele há anos, mas casamento não é isso, é? Ela tem vinte e dois anos de idade... O que ele acha que vai fazer? Pelo amor de Deus, Suzanna, ela nem era nascida quando Charles e Di se casaram.

Claro, em seus melhores dias Suzanna sabia que aquele não era o destino de todo mundo, que havia casamentos em que os filhos cimentavam coisas e eram uma fonte de alegria. Aliás, ela nunca sabia ao certo se suas amigas tinham enfatizado para ela todas as coisas ruins da maternidade — as noites em claro, os corpos estragados, os brinquedos de plástico e o vômito — por uma espécie de compaixão equivocada por ela ainda não ter embarcado nisso. Mas, paradoxalmente, essa ladainha pessimista de sofrimento começara a mudar a forma como se sentia. As lamúrias de Nadine pela perspectiva de seus dois filhos pequenos conviverem com a namorada do papai, pelo silêncio de uma casa ao acordar sem eles, a deixavam profundamente consciente de que, em meio às trivialidades domésticas, à banalidade e à insignificância, havia uma paixão profunda e ciumenta. E algo nessa paixão — mesmo nas profundezas do desgosto de Nadine —, comparado com sua vida morna cuidadosamente construída, começara a lhe seduzir.

* * *

Quando Neil conheceu Suzanna, ela tinha lhe servido sushi. Ela trabalhava num restaurante no Soho e, tendo descoberto que a mistura de peixe cru com arroz quase não continha gordura, vivia à base disso e Marlboro Lights na tentativa de ir do tamanho 44 para o 42 (hoje em dia, ela se perguntava por que, em vez de ficar nervosa por causa da celulite inexistente, não tinha passado a casa dos vinte andando por aí de biquíni). Neil fora lá com clientes. Tendo crescido em Cheam, com a dieta descomplicada do time de rúgbi de garoto de escola pública, ele bravamente experimentou tudo que ela tinha sugerido, e só lhe confessou depois que, se qualquer outra pessoa tivesse tentado fazê-lo comer ouriço do mar cru, ele lhe teria dado uma chave de braço.

Ele era alto, largo e atraente, só alguns anos mais velho que ela, e trazia um brilho na pele que dizia que um salário de cidade grande e viagens frequentes ao exterior podiam ser usados para combater a palidez e o tédio da vida de escritório. Dera-lhe uma gorjeta de quase trinta por cento da conta, e ela reconhecera que o gesto não era por seus companheiros. Ela o observara na mesa, escutara sua confissão sussurrada, consciente de que a disposição à experiência em questões de apetite talvez sugerisse uma mentalidade aberta em outras áreas.

Neil, ela descobriu, ao longo de meses sucessivos, era focado, descomplicado e absolutamente confiável, ao contrário de seus namorados anteriores que oscilavam um pouco nesse quesito. Comprava-lhe as coisas que um namorado teoricamente deveria comprar — flores de praxe, perfumes após viagens ao exterior, fins de semana fora de vez em quando e, em intervalos adequados, noivado, casamento e alianças de tamanho impressionante. Seus pais o amavam. Suas amigas o olhavam especulando, várias delas com uma persistência furtiva que lhe dizia que ele nunca ficaria sozinho por muito tempo. O apartamento dele tinha janelas francesas com vista para a Ponte Barnes. Ele se encaixou na vida dela com uma facilidade que a convenceu de que tinham sido feitos um para o outro.

Casaram-se jovens. Muito jovens, os pais dela ficaram preocupados, sem saber nada da movimentada vida amorosa da filha. Ela rebatera as preocupações deles com a certeza de quem sabia ser adorada, de quem nunca duvidara disso. Estava estonteante naquele vestido de seda creme.

Se, mais tarde, se perguntava se algum dia tornaria a sentir aquela primeira onda de empolgação, aquele formigamento da expectativa pela atenção sexual de alguém, em geral, era capaz de racionalizar. Sendo alguém que pesquisara as melhores oportunidades tanto quanto ela, acabava de vez em quando querendo provar o exótico. Vivendo com um homem que agora frequentemente mais parecia um irritante irmão mais velho que um amante, era óbvio que de vez em quando ela lançasse um olhar cobiçoso para outro lugar. Sabia, mais que ninguém, que esse tipo de comparação do mercado podia ser viciante.

Desde a briga por causa da caçada, Neil andara retraído, nada óbvio, só um esfriamento no clima doméstico. Em alguns aspectos, Suzanna se dava conta, era a melhor coisa que ele podia ter feito. Ela era sempre melhor quanto tinha que se esforçar para receber atenção. Ser um pouquinho insegura em relação a ele induzia-lhe a convicção de que não queria perdê-lo. Ouvir Nadine falar da mania horrível de quererem arranjar um par para ela em jantares, de como outros casais tinham tomado partido, como se fosse um esforço mental muito grande para eles continuar sendo amigos de ambos, de como ter sido obrigada a aceitar uma “casa para um casal começando a vida” num bairro cafona lhe dera o mesmo arrepio profético de quando tinha ouvido pela primeira vez Liliane contando da vida com a mãe. Portanto, embora Neil pudesse inicialmente ter pensado o contrário, as coisas para eles andaram melhorando, ainda que aos poucos. Ela alcançara uma espécie de equilíbrio. Não tinha desejo — nem mesmo energia — de se recolocar novamente, por esforço próprio.

Talvez Neil também soubesse disso. Talvez por esse motivo, para o aniversário dela, a tivesse levado a Londres para comer sushi.

— Como qualquer coisa que você jogar em cima de mim — estava dizendo Neil — desde que não me obrigue a comer uma daquelas morcelas.

— Os testículos cor-de-rosa?

— Isso mesmo. — Neil limpou a boca com um guardanapo. — Lembra quando você me fez comer uma em Chinatown e tive que cuspi-la na bolsa de ginástica?

Ela sorriu, feliz porque a lembrança não tinha vindo acompanhada de repugnância nem irritação.

— É a textura. Não entendo como alguém pode comer uma coisa com consistência de travesseiro.

— Mas você come marshmallow.

— É diferente. Não sei por que, mas é.

Pelo que ela lembrava, tinha sido a primeira noite em que falaram livremente, sem inibição, sem uma conversa paralela nas entrelinhas, cheia de recriminações. Ela se perguntara, no íntimo, se era só o prazer de estar no centro de Londres, mas acabou concluindo que quase todos os seus problemas vinham da análise excessiva. Memória curta e senso de humor eram, segundo sua avó, os ingredientes necessários para um casamento bem-sucedido. Ainda que ela mesma nunca tivesse demonstrado ter nem um nem outro.

— Você está bonitinha — dissera ele, observando-a por cima do chá verde.

E ela fora capaz de perdoá-lo pelo uso de uma palavra tão insípida.

Às dez e quinze, enquanto caminhavam por uma Leicester Square amena e movimentada, ele lhe dissera que não voltariam a Dere Hampton aquela noite.

— Por quê? — perguntara ela, gritando para ser ouvida, enquanto os Hare Krishnas passavam pulando bravamente com seus tamborins. — Aonde vamos?

— Surpresa. Porque estamos melhorando financeiramente. Porque você está trabalhando muito. E porque minha esposa merece um agrado. — E ele a conduzira para um hotel discretamente luxuoso em Covent Garden, onde as próprias jardineiras de janela demonstravam bom gosto e o tipo de atenção que garantiria um pernoite agradável, mesmo que Suzanna ainda não estivesse transbordando de prazer diante do modo como sua noite estava saindo. E, no quarto deles, havia uma mala de mão que, pelo visto, ele tinha feito aquela manhã e despachado por um passe de mágica. Só se esquecera do hidratante dela.

A paixão, no casamento, refluía e fluía. Todo mundo dizia isso. Se, para variar, ela lhe desse toda a sua atenção, se tentasse deixar de lado todas as coisas que a aborreciam, que insistiam em se insinuar e poluir seus melhores sentimentos, se tentasse focar no que era bom, não seria impossível que eles conseguissem recuperá-la.

— Eu te amo — dissera ela, e sentira um alívio enorme por, mesmo depois de tudo, ainda ser verdade.

Ele a abraçara com força, calado, o que era raro.

Às onze e quinze, enquanto bebericava champanhe do serviço de quarto, ele se virara para ela, a colcha lhe deslizando pela pele nua, que estava branca, ela notou. O primeiro ano deles sem férias no exterior. Dali a quinze meses, faria quarenta anos, disse ele.

E?

Ele sempre quis ser pai antes dos quarenta.

Ela não disse nada.

E, ele pensava, se levava em média dezoito meses para engravidar, eles não deveriam começar a tentar já? Só para se permitirem uma pequena chance extra? Ele simplesmente queria ser pai, disse, baixinho. Ter uma família sua. Tinha pousado a taça, segurado o rosto dela entre suas mãos quentes, com uma cara meio apreensiva, como se estivesse ciente de que abordar o assunto daquela forma poderia violar os termos do acordo que tinham, que poderia quebrar a frágil paz que tornara a noite mágica.

Mas, por outro lado, ele não sabia que estava lhe pedindo uma coisa que ela já havia decidido. Ela não dissera nada, mas se recostara, pousando o copo na mesa do outro lado.

— Você não tem que ter medo — disse ele, docemente.

Na névoa do champanhe, ela se sentia um pouco como um peixe na areia. Respirando, arfando, mas, de certa forma, finalmente, aceitando seu destino.

* * *

No corredor, bufando sob o peso combinado e mal distribuído das sacolas, Vivi refletia que seu filho nunca estava em casa quando ela precisava dele. Chegando na cozinha, deixou as sacolas caírem e levantou as mãos na luz fraca para examinar os lanhos vermelhos que as alças haviam deixado em suas palmas carnudas.

Normalmente, não teria ido ao supermercado àquela altura da semana, mas sentira-se na obrigação de repor a comida que jogara fora da geladeira de Rosemary aquela manhã. Na ocasião, também desbravara os armários superiores, encontrando várias latas de apresuntado com o prazo de validade vencido havia quase três anos e, o que era mais preocupante, no meio da louça, vários pratos que pareciam ter sido guardados sem ter passado pela máquina de lavar. Vivi os deixara de molho em água sanitária durante meia hora, só por precaução. Depois, temendo o que podia estar mofando escondido, trepara numa cadeira e passara um pano em todos os quatro armários antes de lhes repor o conteúdo.

Tudo isso significara precisar cancelar a sessão de ajuda semanal com as senhoras da Hipoterapia em Walstock, mas elas haviam sido muito compreensivas. Lynn Gardner, que dirigia o projeto, acabara de internar o pai numa clínica, e Vivi, ainda traumatizada pela canseira matinal, teve a reação inusitada de confessar por que se sentira incapaz de ir.

— Ah, nossa, coitada de você. É melhor verificar a gaveta embaixo do forno. Aquela onde a gente esquenta os pratos — gritara ela no telefone. — Encontramos um balde de larvas nos nossos. Ele andava botando louça suja lá dentro em vez de na máquina de lavar.

Vivi olhou horrorizada para o forno.

— Você está enfrentando sonambulismo?

— O quê?

— Ah, eles começam a andar pela casa de noite. Bem aflitivo, posso lhe dizer. No final, a gente dava remédio para o papai... eu tinha medo de que ele saísse de casa e acabasse junto com as ovelhas.

Os homens não tinham levado as canecas vazias da mesa para a pia, e Vivi, que já não suspirava resignada ao vê-las, fez isso para eles. Varreu as migalhas que ficaram de lembrança do almoço deles, colocou os pratos na máquina de lavar louça e empilhou os jornais espalhados. Enquanto desembalava as compras na mesa da cozinha, distinguiu o tom imperioso de Rosemary na sala, de onde soava uma conversa abafada com Douglas. Ela era muito dogmática, muito cheia de vida, pensou Vivi, para se parecer com o pai de Lynn, um espectro fantasmagórico vagando silenciosamente de pijama, e Vivi por um instante não soube direito se isso a deixava feliz ou outra coisa. Considerou meter a cabeça no vão da porta para dar um oi, mas se deu conta, com culpa, que preferia ter os cinco minutos extras só para si. Olhou o relógio e viu, com uma pontinha de prazer, que ainda podia pegar os últimos minutos de The Archers.

— Vamos aproveitar um pouco de paz, não vamos, Mungo?

O terrier, ao ouvir seu nome, estremeceu paradinho olhando atentamente para ela, aguardando num estado constante de expectativa que caísse algum resto de comida.

— Não deu sorte, querido — disse Vivi, guardando as várias carnes no freezer. — Por acaso sei que você já comeu a sua.

Colocou várias costeletas de cordeiro numa bandeja, tirando com cuidado a gordura das de Rosemary, que sempre reclamava de carne com gordura. Depois pôs as batatas miúdas para ferver com umas folhas de hortelã e começou a fazer uma salada. Provavelmente eles iriam comentar que era um jantar mais leve, mas ela comprara um pudim de verão para compensar. Se o tirasse da embalagem, Rosemary não comentaria sobre a superioridade do caseiro.

Quando The Archers terminou, Vivi ficou um instante parada, olhando pela janela enquanto escutava. A horta estava no auge naquela época do ano, as ervas enviando ondas de perfume para dentro de casa, a lavanda, a campânula e a lobélia transbordando dos canteiros de tijolos antigos, as trepadeiras, esqueletos marrons no inverno, agora uma profusão de verde viçoso. Rosemary tinha construído esse jardim quando se casou: foi uma das poucas coisas pelas quais Vivi se sentia descomplicadamente grata a ela. Durante algum tempo, achara que Suzanna se interessaria pela horta: a menina tinha o mesmo olhar que Rosemary, um jeito para a arrumação que realçava a beleza das coisas.

Vivi estava apreciando o perfume da prímula e escutando o zumbido preguiçoso das abelhas quando detectou que, sobrepondo-se aos ruídos suaves da noite que chegava, a voz de Rosemary assumira um tom incomumente agressivo. A de Douglas era mais suave, como se estivesse argumentando com ela. Vivi se perguntou, com um vago desconforto, se era ela o assunto da discussão deles. Talvez Rosemary tivesse se ofendido com a limpeza indiscriminada de suas prateleiras. Ou talvez ainda não tivesse lhe perdoado pela visita da Senhora Incontinência.

Virou as costas para a janela e colocou as costeletas em cima do fogão. Esfregou as mãos no avental e, com o coração aflito, encaminhou-se para a porta.

* * *

— Não consigo acreditar que você esteja sequer cogitando isso.

Rosemary estava sentada na cadeira de balanço, embora muitas vezes tivesse dificuldade de se levantar dali. Estava com as mãos cruzadas de maneira bastante rígida no colo, enfezada, o rosto virado para o lado como se estivesse se recusando fisicamente a reconhecer o que o filho tinha a dizer. Quando entrou e fechou a porta, Vivi reparou que a sogra abotoara errado a blusa, e ficou angustiada por não poder mencionar isso.

Douglas estava em pé ao lado do piano, um copo de uísque na mão. À sua esquerda, os ponteiros do relógio de pé que estava na família desde o nascimento de Cyril Fairley-Hulme formavam um ângulo reto.

— Já pensei bastante, mãe.

— Pode ser, Douglas, mas já lhe disse antes, nem sempre você sabe o que é melhor para esta propriedade.

Um leve sorriso esboçou-se nos lábios dele.

— A última vez que tivemos esta conversa, mãe, eu tinha vinte e sete anos.

— Estou ciente disso. E também tinha a cabeça cheia de ideias tolas.

— Eu só não acho que faz sentido financeiramente Ben herdar a propriedade inteira. — Não é só uma questão de tradição, é uma questão de dinheiro.

— Alguém poderia me pôr a par do que está acontecendo? — Vivi olhou do marido para a sogra, que continuava teimosamente virada para as janelas francesas. Tentou sorrir, mas parou quando se deu conta de que nenhum dos dois estava sorrindo.

— Tive umas ideias que achei que deveria discutir com a minha mãe...

— E enquanto eu for viva, Douglas, e tiver voz na administração desta propriedade, as coisas vão ficar exatamente como estão.

— Só estou sugerindo que uma...

— Sei muito bem o que está sugerindo. Você já disse isso muitas vezes. E estou lhe dizendo que a resposta é não.

— A resposta a quê? — Vivi chegou mais perto do marido.

— Eu me recuso a sequer continuar discutindo isso, Douglas. Você sabe muito bem que seu pai tinha opiniões firmes sobre essas coisas.

— E tenho certeza de que meu pai não ia querer ver ninguém nesta família infeliz por causa de...

— Não. Não, não aceito isso. — Rosemary pôs as mãos nos joelhos. — Agora, Vivi, quando sai o jantar? Pensei que fôssemos comer às sete e meia, e tenho certeza de que já passa disso.

— Um de vocês quer fazer o favor de me dizer o que estão discutindo?

Douglas pousou o copo em cima do piano.

— Tive umas ideias. Pensei em modificar o meu testamento. Em talvez criar uma espécie de fundo que dê direitos iguais aos filhos na administração da propriedade. Talvez mesmo antes de eu morrer. Mas... — sua voz baixou de tom — ... a minha mãe não gosta da ideia.

— Direitos iguais? Para todos os três? — Vivi ficou olhando para o marido.

— Alguém me ajuda a levantar? Nunca consigo sair dessa cadeira ridícula.

Douglas encolheu os ombros, a cara curtida mostrando a Vivi uma exasperação cúmplice.

— Eu tentei. Não posso dizer que estou inteiramente feliz com o rumo das coisas.

— Você tentou?

Rosemary pelejou para se levantar da cadeira, apoiando-se em braços finos. Depois, caiu para trás e soltou um grunhido de irritação.

— Você precisa me ignorar? Douglas? Preciso do seu braço. Seu braço.

— Isso significa que você vai ceder?

— Isso não é ceder, minha velha. Eu simplesmente não quero piorar as coisas. — Douglas aproximou-se da mãe e colocou o braço embaixo do dela para levantá-la.

— Como podem piorar?

— Minha mãe também tem poder de decisão, Vi. Nós todos moramos aqui.

Rosemary, de pé, tentou, com algum esforço, endireitar-se.

— Seu cachorro — anunciou, olhando diretamente para Vivi — andou na minha cama. Encontrei pelos.

— Você tem que se lembrar de deixar a porta fechada, Rosemary — disse Vivi, calma, ainda fitando Douglas. — Mas isso solucionaria tudo, querido. Suzanna ficaria muito mais feliz. Tudo que ela precisa é se sentir igual. Ela não quer de fato administrar a propriedade. E os outros não se importariam... acho que eles nunca se sentiram muito confortáveis com os planos.

— Eu sei, mas...

— Chega — disse Rosemary, encaminhando-se para a porta. — Chega. Eu gostaria do meu jantar agora. Não quero discutir mais essa questão.

Douglas estendeu a mão para o braço de Vivi. O contato dele era leve, inconsistente.

— Me desculpe, minha velha. Eu tentei.

Quando Rosemary passou por ela, Vivi se sentiu sufocada. Observou Douglas se virar para abrir a porta para a mãe e reconheceu que, para eles dois, a conversa já estava terminada, questão encerrada. De repente, ouviu a própria voz, alta o suficiente para fazer Rosemary se voltar para ela e com uma irritação incomum.

— Bem, espero que vocês dois fiquem satisfeitíssimos quando tiverem alienado completamente a pobre coitada.

Passaram-se vários segundos até eles registrarem as suas palavras.

— O quê? — perguntou Rosemary, segurando o braço de Douglas.

— Bem, nós nunca lhe contamos a verdade, contamos? Não me olhem assim. Ninguém lhe contou sobre a mãe dela. E depois a gente se pergunta por que ela cresceu confusa e ressentida. — Finalmente, Vivi tinha a plena atenção dos dois. — Eu já estou farta disso tudo. Douglas, ou você faz dela sua herdeira ou institui alguma espécie de fundo igual, ou lhe conta a verdade sobre a mãe dela, incluindo o que não sabemos. — Ela estava ofegante, depois murmurou quase para si mesma. — Pronto. Falei de uma vez.

Seguiu-se um breve silêncio. Depois Rosemary levantou a cabeça e começou a falar, como que para alguém com problemas mentais:

— Vivi — disse pausadamente —, não é assim que essa família...

— Rosemary — interrompeu Vivi —, caso você não tenha reparado, eu sou essa família. Sou a pessoa que prepara as refeições, que passa as roupas, que mantém a casa limpa e que faz isso há uns trinta anos. Eu sou esta bendita família.

A boca de Douglas abrira ligeiramente. Mas ela não ligou. Era como se uma espécie de loucura a tivesse contagiado.

— É isso mesmo. Sou eu quem lava a roupa de baixo de vocês, que é o alvo do mau humor de todos, que limpa a sujeira dos bichos de estimação, quem faz de tudo para tentar manter o raio desta casa unida. Eu sou essa família. Posso ter sido a segunda opção de Douglas, mas isso não quer dizer que seja a segunda melhor...

— Nunca ninguém disse que você...

— E eu mereço dar a minha opinião. Eu... também... mereço... dar... a minha opinião. — Ela arfava, as lágrimas lhe irritando os olhos. — Agora, a Suzanna é tão minha filha quanto é de outra pessoa, e estou farta, farta, digo para vocês, de ver esta família, a minha família, dividida por causa de uma coisa tão banal quanto uma casa e alguns hectares de terra. Isso é uma besteira. Sim, Rosemary, comparado à felicidade dos meus filhos, à minha felicidade, é mesmo uma besteira. Então pronto, Douglas, já falei. Ou você coloca Suzanna devidamente como sua herdeira, ou conta a ela toda verdade.

Ela esticou o braço para desamarrar o avental às costas, passou-o pela cabeça e jogou-o no braço do sofá.

— E não me chame de “minha velha” — disse ao marido. — Eu não gosto nem um pouco disso.

Depois, sob os olhares estarrecido do marido e da sogra, Vivi Fairley-Hulme deixou para trás a cozinha, onde o gato idoso de Rosemary tentava dar um bote juvenil nas costeletas, e saiu para o sol do entardecer.