A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 14 de 29

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A Loja dos Sonhos

Quatorze

 

 

O dia em que minha mãe botou unhas de anjo

As unhas da minha mãe eram muito curtas. Ela não roía — disse que, quando fazia faxina, mergulhava tanto as mãos em água sanitária que as unhas ficaram fracas depois disso. Embora as hidratasse com creme toda noite, nunca passavam da ponta do dedo. Viviam quebrando e, todas as vezes, ela praguejava, acrescentando em seguida: “Epa! Não conte ao seu pai que eu disse isso.”

E eu nunca contei.

Às vezes, se eu tivesse sido boazinha, ela se sentava comigo e pegava a minha mão como fazem no salão e passava creme, depois lixava as minhas unhas. Eu ria, porque fazia cócegas. Depois, ela me deixava escolher um dos vidros de esmalte e pintava com muito cuidado para não borrar. Quando a gente pinta a unha, tem que ficar um tempão sem pegar em nada, para não arranhar a cor, e ela me servia uma bebida e botava um canudinho no copo para eu poder agitar as mãos até elas secarem.

A gente sempre tinha que tirar o esmalte de novo antes da escola, mas ela me deixava passar a noite de unha pintada, ou, às vezes, um fim de semana. Quando eu estava na cama, eu levantava as mãos e ficava mexendo os dedos, porque eles pareciam muito lindos, mesmo no escuro.

Um dia antes de morrer, minha mãe tinha marcado de colocar unhas postiças. Tinha me mostrado essas unhas numa revista — eram muito compridas, e tinham pontas brancas que não mostravam a sujeira, porque as unhas de verdade ficavam por baixo. Ela dizia que sempre quis ter unhas compridas, e, agora que estava ganhando um dinheirinho, ia se dar a esse luxo. Não ligava para roupa, dizia, nem para sapato, nem para cortes de cabelo elegantes. Mas unhas bonitas eram a única coisa que ela queria muito. Eu poderia ir com ela depois da escola. Sou boazinha, sabe. Consigo ficar sentada quieta lendo, e prometi que não ia fazer barulho no salão; ela disse que sabia disso, porque eu era a flor dela.

Quando minha avó me buscou na escola e me contou que minha mãe tinha morrido, eu não chorei porque não acreditei. Achei que tinham entendido errado, porque minha mãe tinha me deixado no clube de teatro e disse que depois que me pegasse ia comprar batata frita e nós íamos tomar chá juntas no fim da tarde. Mas então, quando a professora ficou triste e chorou, eu soube que não era brincadeira. Mais tarde, quando minha avó estava me abraçando, perguntei a ela o que a gente ia fazer com a hora marcada da minha mãe. Isso poderia parecer engraçado, mas fiquei aflita porque ela nunca colocaria as unhas, e eu sabia que era uma coisa que ela queria muito.

Vovó me olhou por um bom tempo, e achei que ela fosse chorar, porque ficou com os olhos cheios d’água. Depois segurou minhas mãos e disse: “Sabe de uma coisa? Vamos garantir que a sua mãe bote as unhas dela, porque, assim, vai ficar bonita quando chegar no céu.”

Não olhei para minha mãe no caixão no dia do enterro, embora vovó dissesse que ela estava linda, como se estivesse dormindo. Perguntei-lhe se alguém tinha dado unhas compridas para ela, e vovó disse que sim, uma senhora simpática do salão, e que eram muito bonitas, e que depois, se eu olhasse para o céu à noite, talvez as visse cintilando. Eu não disse nada, mas achei que, se mamãe não conhecesse ninguém no céu, pelo menos podia acenar, como eu acenava na cama, e as pessoas não iam ter que saber que ela tinha sido faxineira.

Meu pai não sabe pintar unha. Eu pediria a ele, mas estou morando com a minha avó, e ela diz que vai pintar minhas unhas quando as coisas se acalmarem um pouco. Ela chora muito. Eu escutei quando ela achava que eu estava dormindo, mesmo que ela sempre faça uma voz alegre quando pensa que estou ouvindo.

Às vezes, eu também choro. Sinto muita falta da minha mãe.

O Steven Arnold diz que as unhas da minha mãe, a essa altura, não devem estar cintilantes. Diz que devem estar pretas.

Na verdade, não quero mais fazer isso.