A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 29 de 29

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A Loja dos Sonhos

Vinte e nove

 

Minha filha nasceu na noite dos apagões, o dia em que o hospital inteiro, e metade da cidade, foi mergulhada na escuridão. Gosto de pensar agora que isso foi auspicioso: que sua chegada a esse mundo foi tão importante que tinha que ser marcada por um acontecimento. Na rua, as luzes tinham desaparecido, quarto por quarto, prédio por prédio, dissolvendo-se pela cidade como bolhas de champanhe, enquanto íamos disparados no nosso carro até o céu da noite nos encontrar no portão do hospital.

Eu soltava risadas escandalosas entre as contrações, de tal maneira que a parteira queixuda, que não conseguia entender o que eu dizia, achou que talvez houvesse alguma coisa errada comigo. Eu não conseguia explicar. Estava rindo porque queria tê-la em casa e ele dissera que eu não podia, que ele não era capaz de suportar o risco de algo dar errado. Foi uma das poucas coisas sobre as quais já discordamos. Portanto, lá estávamos nós, ele se desculpando e eu rindo e arquejando na entrada, enquanto enfermeiras gritavam e praguejavam e os feridos ambulantes colidiam no escuro.

Não sei por que ri tanto. Disseram depois que nunca viram alguém rir assim em trabalho de parto, sem a ajuda do Entonox. Talvez eu estivesse histérica. Talvez a coisa toda fosse simplesmente tão incrível que eu não era capaz de aceitar que estivesse acontecendo. Talvez eu estivesse até com um pouco de medo, mas acho isso difícil de acreditar. Não tenho medo de muita coisa, hoje em dia.

Minhas risadas diminuíram conforme a dor aumentava. Depois, mordi o bocal para aspirar o gás e o ar e gritei, indignada e sentindo-me traída por ninguém ter me avisado que podia ser assim. Não me lembro da última parte. Tudo virou uma confusão de dor, suor, mãos e vozes encorajadoras me instando à meia-luz a aguentar, a prosseguir, dizendo-me que eu era capaz de fazer aquilo.

E eu sabia que era. Apesar da dor, da sensação estranha e chocante que anunciava o nascimento, não precisei do encorajamento deles. Eu sabia que podia fazer força para o bebê sair. Mesmo que não houvesse mais ninguém ali a não ser eu. E quando olhei para o meu torso nu em nossos últimos minutos como uma pessoa só, para minhas mãos com os nós dos dedos brancos agarrando os lençóis, ela saiu com um pouco da mesma determinação, da mesma confiança na própria capacidade, os braços já levantados como se em triunfo.

Ele estava lá para recebê-la. Não sei como, acho que não o vi se mexer. Eu o tinha feito prometer de antemão que não ficaria parado ali, que não estragaria a visão romântica que tinha de mim. Ele rira, e me dissera que eu era ridícula. Portanto, estava lá quando ela respirou pela primeira vez neste mundo, e, mesmo na luz fraca, eu via lágrimas brilhando na face dele quando ele cortou o cordão umbilical e levantou-a, segurando-a à luz de velas para eu poder vê-la também, acreditar na existência dela.

E a parteira, que acho que tinha planejado cuidar da minha filha, ficou para trás quando ele a segurou, beijando seu rosto com ternura, limpou o sangue de seus braços e suas pernas, de seu cabelo escuro, o tempo todo cantarolando uma canção de amor que não entendi. Ele falou o nome dela, o nome sobre o qual tínhamos concordado: Veronica de Marenas. E, como por um passe de mágica, as luzes começaram a acender de novo, iluminando a cidade, bairro por bairro, jogando as ruas silenciosas de novo na luz. Quando chegaram em nosso quartinho, duras e claras, a parteira andou energicamente até o interruptor e apagou-as. Havia uma beleza em nossa escuridão, uma magia em nosso quarto à meia-luz, que até ela foi capaz de ver.

Enquanto aquela mulher me limpava, entre brusca e terna, observei meu marido e minha filha circulando pelo quartinho, seus rostos iluminados pelas velas, e finalmente comecei a chorar. Não sei por quê: de exaustão, talvez, ou de emoção com aquilo tudo. Duvidava da minha capacidade de ter produzido aquela garotinha perfeita, linda, a partir do meu próprio corpo, de ter sido a criadora involuntária de tamanha alegria.

— Não chore, amor — disse Alejandro, ao meu lado, sua própria voz ainda afogada em lágrimas. Ele passara para o lado da cama.

Hesitando, olhou para ela, depois se inclinou e a entregou delicadamente a mim. Mesmo enquanto seus olhos se enchiam de amor, suas mãos moviam-se lentamente, como se ele relutasse em soltá-la. E, quando ela ergueu os olhos em nossa direção, piscando daquele jeito sábio, inconsciente, ele passou os braços ao nosso redor, e ficamos todos ali, num único abraço.

— Não há motivo para chorar. Ela será amada.

Suas palavras atravessaram tudo então, sem deixar cantos obscuros, como ainda atravessam.

Ela será amada.

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