A Loja dos Sonhos
Dezoito
Isadora Cameron tinha o tipo de cabelo crespo e ruivo que quase não se vê mais: antes era comum em crianças muito caçoadas na escola ou era domado por atendentes de salão de beleza mal-humoradas. Uma nova geração de relaxantes e condicionadores leave-in eliminou esse tipo de cabelo, frisado, cheio, cor de cenoura, que emoldurava o rosto dela. Mas Isadora não parecia se importar. Desde o primeiro dia em que fora à Casa Dere, deixara o cabelo solto balançando em volta da cabeça, uma espécie de explosão avermelhada, diminuindo um rosto que, não fora por isso, seria quase redondo.
— A mulher parece um Bombril enferrujado — comentou Rosemary, com uma fungadela, no dia em que ela chegou. Mas, por outro lado, Rosemary estava propensa a não gostar dela fosse qual fosse a natureza de seu cabelo.
Para Rosemary, a Sra. Cameron foi descrita como faxineira, alguém para ajudar Vivi agora que ela passava mais tempo com Douglas. Era uma casa grande, afinal. A única surpresa era que a nora tivesse se virado por tanto tempo sem ajuda. Para o resto das pessoas, a Sra. Cameron era a motorista, a faxineira e a lavadeira de roupas íntimas de Rosemary e a ajudante nos serviços gerais da casa. “Alguém para lhe tirar o peso dos ombros”, dissera Douglas, quando anunciou a contratação. A Sra. Cameron não se alterava com despensas anti-higiênicas nem com geladeiras perigosas. Não deixava gatos caquéticos nem terriers desonestos perturbarem seu jeito alegre. Achava que lençóis e roupas íntimas sujas faziam parte de seu trabalho. E durante quatro horas todas as manhãs, pela primeira vez desde que Rosemary chegara, desde que as crianças haviam crescido, talvez em toda a sua vida de casada, Vivi agora se via, durante várias horas por dia, em condições de fazer qualquer coisa que quisesse.
Primeiro, achara a liberdade quase intimidante. Arrumara armários, cuidara do jardim, fizera bolos extras para o Instituto das Mulheres. (“Mas você nem gosta de fazer bolo”, dissera Ben. “Eu sei”, disse Vivi. “Mas acho que não fazer é desperdiçar o dinheiro do seu pai.”) Depois, aos poucos, passou a aproveitar as horas livres. Tinha começado a fazer uma colcha de retalhos com tecidos das roupas preferidas das crianças que guardara ao longo dos anos. Havia ido à cidade de carro, sozinha, para tomar uma xícara de chá feito por outra pessoa e curtir o luxo de ler uma revista sem ser interrompida. Levava seu cachorro para passeios de verdade, redescobrindo a propriedade desde o nível do chão, deleitando-se com a terra que nunca chegara realmente a ver. E tinha passado um tempo a sós com Douglas, dividindo sanduíches com ele no trator, corando com satisfação quando entreouviu um dos homens comentar que ela e o “velho” pareciam dois pombinhos ultimamente.
— Não gosto dela — reclamou Rosemary quando Vivi e Douglas voltaram para casa. — Ela é muito impertinente.
— Ela é muito simpática, mãe — disse Douglas. — Aliás, eu diria até que ela é um tesouro.
— Ela força uma intimidade comigo. E não gosto do jeito que ela limpa.
Vivi e Douglas se entreolharam. A Sra. Cameron era decididamente surda às grosserias de Rosemary, recebia suas queixas mal-humoradas com a mesma animação leniente com que, sem dúvida, tratava os velhos do lar de idosos de onde Douglas a aliciara. Ela ficara feliz em aceitar o emprego oferecido por Douglas, confidenciou a Vivi. Aqueles velhinhos podiam ser frágeis, mas não deixavam de lhe dar um ou outro beliscão no traseiro quando tinham a oportunidade. E não era como se a pessoa pudesse revidar com uma boa cacetada, com eles estando propensos a cair e tudo.
— Vou falar com ela, então, mãe. Garantir que ela não esteja deixando escapar alguma coisa.
— Ela devia dar um jeito naquele cabelo — murmurou Rosemary, voltando devagar para o seu anexo. — Ela não se arrumar um pouco realmente me incomoda. — Virou-se e ficou olhando desconfiada para o filho e a nora. — Estão acontecendo coisas por aqui — disse. — Cabelo e tudo o mais. E não estou gostando.
Naquela manhã, quando a Sra. Cameron entrou, Vivi pensou que Rosemary ia fazer a festa. O calor abafado das semanas anteriores arrefecera com um temporal: o céu escurecera quase que de forma perversa na hora do café da manhã e, após uma calmaria demorada e portentosa, se abrira para desencadear um aguaceiro torrencial. A Sra. Cameron aparentemente fora pega sem guarda-chuva e, na curta caminhada de seu carro até a porta, seu cabelo se armara em espiral em volta da cabeça.
— Será que vão reparar? — disse a Sra. Cameron, sacudindo o lenço que usava na cabeça, enxugando a água do rosto com um pano e examinando as mangas do casaco de malha escarlate.
— Graças a Deus por isso — disse Douglas, quando apareceu atrás delas. — Pensei que fôssemos ter que começar a irrigar se não tivéssemos uma chuva em breve.
— Quer... quer um secador de cabelo emprestado? — perguntou Vivi, apontando para o cabelo dela.
— Meu Deus, não. Se acha que parece bagunçado agora, devia ver depois de passar por um secador. Não, vou deixar secar ao natural. Mas vou botar meu casaco na secadora, se estiver tudo bem para você. — A Sra. Cameron foi andando em direção à cozinha com um passo enérgico, um rechonchudo ponto de exclamação vermelho invertido.
Douglas ficou parado à janela, depois virou-se para a mulher.
— Não se esqueça que vamos a Birmingham hoje, ver reboques. Tem certeza de que não se importa se pegarmos o seu carro?
O Range Rover estava na revisão anual e, para Douglas e Ben não cancelarem os planos, Vivi lhes ofereceu o seu carro.
— Tudo bem. Com um tempo desses, vou me limitar a ficar me distraindo em casa. Além do mais, se precisar de alguma coisa, sempre posso pedir à Sra. Cameron para ir a Dere para mim.
Ele levara a mão ao rosto dela, um gesto mudo, mas um reconhecimento mesmo assim. Deixou-a ali tempo suficiente para fazer Vivi corar, antes de indicar a galeria no andar de cima.
— Ligou para Suzanna? — Ele estava sorrindo do rubor dela.
— Não, ainda não.
— Vai convencê-la a vir aqui? Hoje podia ser um bom dia, com a chuva e tudo. Acho que a loja não deve estar muito movimentada.
— Ah, nunca se sabe. Amanhã, talvez. — Seus olhos não tinham deixado os do marido. — Mas acho que você devia ligar para ela. Partindo de você, tem mais significado.
Ele pôs o chapéu na cabeça, aproximou-se para abraçá-la. Ela sentiu as mãos do marido envolvendo a sua cintura, a segurança reconfortante do peito dele contra o dela, e se perguntou se, àquela altura da vida, podia se sentir feliz de um jeito tão embaraçoso.
— Você é uma mulher extraordinária, Vivi Fairley-Hulme — disse ele no ouvido dela. Colocara a ênfase no “é”, como se só ela duvidasse disso.
— Vá — disse ela, recuando e abrindo a porta de tal maneira que a chuva escureceu a ardósia do piso do hall. — Antes que Ben suma e você demore uma hora para encontrá-lo. Ele está aflito para ir desde antes do café da manhã.
* * *
Na hora do almoço, todo mundo já tinha se cansado da chuva. Mesmo quem ficara aliviado quando ela chegara, chamando a atenção para a sede desesperada dos jardins, ou para o peso do calor recente, estava achando aquela força do aguaceiro torrencial opressiva. Parecia uma tempestade tropical, disseram os poucos que visitaram o Empório Peacock naquela manhã, enquanto contemplavam o céu cinzento, as calçadas espelhadas.
— Fui a Hong Kong na estação chuvosa uma vez — disse a Sra. Creek, que visitou a loja depois de seu linguado ao limão com batatas cozidas no Friday Lunch Club do Pensioners (Cozinha de Restaurante! A Preços de Café!) —, e chovia tanto que a água realmente cobria os meus pés. Estragou os meus sapatos, mesmo. Achei que talvez isso fosse um jeito de nos fazer gastar mais dinheiro.
— O quê? — disse Suzanna, que desistira de fazer qualquer coisa e assistia ao dilúvio pela janela.
— Pois é uma boa maneira de obrigar a gente a comprar mais sapatos, não é?
— O que... fazer chover? — Suzanna revirara os olhos para Jessie.
— Não seja ridícula. Tem lógica, não? Não fornecer uma drenagem decente para o escoamento da água.
Suzanna convenceu-se a sair da janela e tentou absorver as palavras da Sra. Creek. Panela vigiada não ferve, era o que sua mãe lhe dizia. Mas isso não a impedia de procurar a figura ágil e sedutora que se tornara familiar a ela, quanto mais não fosse, pela reminiscência. Uma figura que, hoje, até agora, recusara-se decididamente a aparecer. Eu não deveria pensar assim, disse a si mesma talvez pela trigésima vez naquele dia.
Suzanna obrigou-se a voltar para o interior confortável da loja, apenas vagamente consciente do jazz suave ao fundo e do bate-papo em surdina das mulheres no canto, que tinham ficado felizes de usar a chuva como desculpa para se dar o luxo de umas horinhas de conversa. A Sra. Creek estava estudando uma caixa de tecidos antigos, desdobrando as peças e murmurando baixinho ao examinar cada uma em busca de fios puxados e furos, e um jovem casal vasculhava uma caixa de contas art-déco vitorianas em que Suzanna ainda não tinha tido tempo de colocar preço individualmente. Era o ripo de chuva que em geral fazia o Empório Peacock parecer um esconderijo exótico, resplandecente, confortável e alegre, frente aos paralelepípedos cinzentos da rua, e lhe permitia se imaginar num lugar completamente diferente. Hoje, porém, ela se sentia inquieta, como se um mal-estar distante vindo com as nuvens cinzentas do Mar do Norte tivesse sido soprado para dentro da loja.
Ela olhou para Jessie, que ainda estava preenchendo etiquetas de preço para uma caixa de letras Perspex coloridas, como estivera na última meia hora, embora Suzanna lhe tivesse dito que aquilo não era muito necessário: bastava escreverem “75 pence a unidade” na frente da caixa.
Pensando bem, Jessie mal falara a manhã inteira. Desde que voltara a trabalhar, andava meio diferente: não exatamente desanimada, mas distraída, lenta para entender piadas que antes ela própria poderia ter instigado. Aparentemente, esquecera tudo a respeito de Arturro e Liliane, sua antiga obsessão, e Suzanna, ensimesmada, demorara mais a notar. As contusões externas podiam desaparecer, pensou agora, lamentando a própria distração, mas talvez as internas fossem mais difíceis de eliminar.
— Jess? — chamou com cautela, quando a Sra. Creek já havia ido embora. — Não me entenda mal, mas quer tirar mais um tempinho de folga?
Jessie ergueu os olhos bruscamente, e Suzanna logo quis recuar.
— Não é que eu não queira você aqui. Só achei... bem, não estamos com movimento no momento, e talvez você queira passar mais tempo com Emma.
— Não, não. Está ótimo.
— De verdade. Isso não é problema.
Jessie ficou olhando para a mesa um instante, depois virou a cabeça lentamente, registrando onde os clientes estavam, a privacidade relativa que tinha, e voltou-se com relutância para Suzanna.
— Na verdade, preciso falar com você — disse, evitando o olhar da amiga.
Suzanna hesitou, depois deu a volta no balcão em silêncio e sentou-se em frente a ela.
A moça ergueu os olhos.
— Vou ter que pedir demissão — disse.
— O quê?
Jessie suspirou.
— Já decidi que esse emprego não vale o sufoco. Ele está piorando. Estamos inscritos para a gestão da raiva dele e para a terapia de casal, ou seja lá o que for, mas isso pode levar semanas, meses até, e tenho que tomar alguma providência para fazer com que ele seja racional.
Seu rosto exprimiu um pedido de desculpas.
— Eu estava apavorada de falar com você — disse. — Mesmo. Mas tenho que botar a minha família em primeiro lugar. E, com um pouquinho de sorte, essa situação poderia ser apenas temporária. Só até ele se acalmar um pouco, sabe.
Suzanna ficou sentada em silêncio. A ideia de Jessie não aparecer mais ali a fez sentir-se doente. Mesmo sem suas distrações atuais, a loja já não parecia a mesma nos dias em que Jessie não estava presente: ela não sentia o mesmo entusiasmo na hora de abrir. As horas se estendiam, em vez de passar depressa com piadas ridículas e confidências compartilhadas. E se Jessie nunca mais voltasse, diziam seus pensamentos mais sombrios, quantos clientes desapareceriam com ela? A loja mal estava cobrindo os gastos, e Suzanna sabia muito bem àquela altura que a cara sorridente daquela moça e seu interesse pela vida de todo mundo eram uma atração que ela sozinha nunca poderia ter.
— Não fique zangada comigo, Suze.
— Não estou zangada. Não seja boba. — Suzanna estendeu a mão, pousou-a na de Jessie.
— Fico uma semana ou duas se isso te deixa num aperto. E vou entender se você quiser arranjar outra pessoa. Quero dizer, não estou esperando que você segure a vaga para mim.
— Não seja ridícula.
Suzanna viu uma lágrima cair na mesa.
— O emprego é seu — disse baixinho. — Você sabe que o emprego é seu.
Ficaram por alguns minutos escutando um carro de entrega descer a rua molhada de marcha à ré, criando marolas que chegavam no meio-fio.
— Quem imaginaria, hein? — O sorriso de Jessie voltou.
Suzanna ficou segurando sua mão, se perguntando se iria receber mais confidências, sem saber direito o que aguentaria ouvir.
— O quê?
— Suzanna Peacock. Precisando de gente.
A chuva batia ferozmente na rua, a vista das janelas uma mancha cor de chumbo.
— Gente, não — disse Suzanna, tentando, sem conseguir, fazer uma voz ranzinza para disfarçar o aperto no coração. — Talvez você tenha uma personalidade dividida, Jess, mas acho que nem você pode ser considerada gente por enquanto.
Jessie sorriu, um vestígio de seu antigo eu aparecendo, e, com delicadeza, retirou a mão.
— Mas o problema não sou só eu, não é?
* * *
A moça irritante saiu às quinze para as três, levando junto aquele cabelo ainda espetado como se ela tivesse sido arrastada para trás através de uma cerca viva. Ela se habituara a gritar com Rosemary, como se esta fosse surda, e Rosemary, irritada com esse tratamento condescendente, habituara-se a responder gritando, para lhe mostrar que não era necessário gritar. Os jovens podiam ser muito irritantes.
Quando a moça saíra, Rosemary dissera-lhe que, se quisesse conservar o marido, ela teria que comprar um espartilho.
— Se arrume um pouco — falou. — Homem nenhum gosta de ver uma mulher toda caída.
Tinha achado, esperado, talvez, no íntimo, que a moça se ofendesse e fosse embora. Mas, em vez disso, ela pousara aquela mãozinha gorducha na de Rosemary (outro gesto excessivamente familiar) e caíra na gargalhada.
— Obrigada, Rosemary — dissera. — Vou oferecer o meu marido como voluntário para o tratamento com a cinta antes de fazê-lo. Ele não tem vários galões de cerveja chacoalhando em volta da pança?
Ela era mesmo impossível. E era para ela ir embora às duas — duas, não às quinze para as três. Rosemary, olhando o relógio sem parar, não via a hora de ela sair. Vivi sempre levava o cachorro para passear depois do almoço, e Rosemary contava ter a casa só para ela.
Chamou, certificando-se de que Vivi não entrara em casa por uma das portas dos fundos, e começou a subir as escadas devagarinho, de um jeito meio emperrado, segurando-se com as duas mãos no corrimão. Tinham achado que ela não saberia, refletiu com amargura. Só porque já não ia no andar de cima, tinham pensado que podiam ignorar os desejos dela. Como se sua idade avançada significasse que a opinião dela já não contava. Mas ela não era burra. Sabia exatamente qual era o jogo deles: não tinha tido as suas suspeitas desde o dia em que o filho levantara novamente toda aquela história sobre dividir a propriedade? Mesmo na faixa dos sessenta, ele não tinha o juízo com que nascera, ainda era controlado por caprichos e fantasias femininos.
Ela alcançara o penúltimo degrau e parara, segurando o corrimão, maldizendo a dor nas juntas, a tonteira que provocava o canto de sereia que a atraía até poltrona. A velhice, ela descobrira havia muito, já não conferia sabedoria nem status, mas simplesmente uma série de indignidades e degenerescências físicas, fazendo com que a pessoa não só fosse ignorada mas também tivesse que planejar e avaliar com cuidado tarefas que antes executava automaticamente. Ela conseguia alcançar a lata de tomates naquele armário? E se conseguisse pegá-la e não a de feijões, muito parecida, ao lado, seus punhos agora fracos teriam forças para aguentá-la sem deixá-la cair até conseguir pousá-la no aparador?
Respirou fundo e olhou o piso amplo e nivelado da galeria. Mais dois passos. Não tinha sobrevivido a duas guerras mundiais para deixar uns degraus dissuadirem-na. Empinou o queixo, segurou o corrimão com mais firmeza e, com um gemido, conseguiu chegar à galeria.
Endireitou-se lentamente, registrando o espaço que não via havia quase sete anos. Estava tudo mais ou menos igual, decidiu, com uma vaga satisfação: o carpete, o radiador portátil ao lado do aparador e o cheiro de cera de abelha e brocado velho. De diferente, só o retrato, recém-instalado, que agora resplandecia com moldura nova irradiando malícia do espaço em frente à janela comprida.
Athene.
Athene Forster.
Ela nunca merecera o sobrenome Fairley-Hulme.
Rosemary ergueu os olhos para a tela, para a figura pálida com um sorriso afetado que parecia, mesmo agora, passados mais de trinta anos, estar rindo dela. Aquela ali riu de todo mundo. Dos pais que a tinham criado para ser a pequena vagabunda que foi, de Douglas, que lhe dera tudo, e a quem ela pagou desfilando o seu comportamento imoral por três condados, de Rosemary e de Cyril, que tinham feito de tudo para manter a continuidade da linhagem Fairley-Hulme e a integridade da propriedade. E sem dúvida, mais uma vez, de Douglas, por não ter coragem de deixar o retrato dela fora da galeria da família.
Ficou olhando para a garota, para o sorriso irônico, para os olhos que ainda transmitiam falta de respeito e excesso de conhecimento.
A chuva batia na janela, e o ar estava úmido, carregado de intenção.
Rosemary voltou-se rigidamente para a cadeira de braço gótica ao lado da balaustrada, avaliando, calculando. Olhou para suas pernas, depois andou lentamente até ela. Agarrando os braços do móvel com as duas mãos nodosas, empurrou-o para trás, arrastando-o pelo tapete em direção à parede, um passo doloroso de cada vez.
Foram vários minutos para fazer o trajeto de poucos palmos e, quando finalmente chegou ao seu destino, foi obrigada a sentar-se e vencer a tonteira, preparando-se para a arremetida final. Bastante confiante de que estava pronta, ficou de pé. Então, apoiando-se com uma das mãos nas costas da cadeira, olhou mais uma vez para a garota que fizera tanto estrago, que continuava insultando a família de Rosemary.
— Você não merece estar aí — disse, em voz alta.
Embora pouco tivesse feito nos últimos dez anos de mais acrobático que abaixar-se para encher a tigela do gato, Rosemary, com o queixo empinado, o rosto uma máscara de determinação, levantou um magro pé artrítico e começou, sem muita firmeza, a subir na cadeira.
* * *
Eram quase quinze para as quatro quando ele chegou. Fazia tempo que ela desistira de ficar olhando através dos fios de água que escorriam pela janela, estava num ponto em que até se censurar perdera o sentido. Decidiu fazer o que passara semanas adiando: arrumar o porão. A loja em si poderia estar impecável, mas ela e Jessie tinham se habituado a jogar caixas vazias escada abaixo, enfiando bandejas de produtos e caixas de café em qualquer espaço que conseguissem encontrar. Agora, no entanto, o estoque de outono estava a caminho, uma entrega importante estava prevista para chegar no dia seguinte, e Suzanna se dera conta de que não conseguiam circular em volta das caixas — e do lixo — a menos que se organizassem melhor.
Ela já estava lá embaixo fazia quase meia hora quando ouviu a exclamação de surpresa e deleite de Jessie, e ficou imóvel por um momento, sem saber direito se era apenas mais um de seus muitos visitantes que parecia incutir na amiga tal prazer instantâneo e vocal. Mas então, mesmo com o barulho da chuva, ouviu a voz dele, vacilante e tonal, seu pedido de desculpas risonho por alguma coisa. Parou e alisou o cabelo, tentando acalmar a palpitação no peito. Pensou, por um instante, na consulta médica que marcara mais cedo aquela manhã, e fechou os olhos, sentindo uma pontada de culpa que podia associar à presença dele ali. Depois respirou fundo e subiu as escadas deliberadamente.
— Ah — disse, na porta do porão. — É você. — Tinha tentado, em vão, falar com uma voz surpresa.
Ele estava sentado na mesa de sempre. Só que não estava virado para a janela, mas sim para o balcão. Na direção de Jess. Na direção de Suzanna. Seu cabelo escuro brilhava com a chuva, seus cílios separados virando pontos estrelados. Ele sorriu, um sorriso lento, encantador, limpando a água do rosto com a mão molhada.
— Olá, Suzanna Peacock.
* * *
Vivi conduziu o cachorro pela porta dos fundos, sacudindo o guarda-chuva no chão da cozinha e chamando o animal de volta antes que ele saísse correndo para os outros cômodos e deixasse suas pegadas nos carpetes claros.
— Ah, volte aqui, seu bicho ridículo! — exclamou.
Pensara que, de galochas e guarda-chuva, estava preparada para o tempo, mas esta chuva era de outro nível. Ela estava totalmente ensopada. Vou ter que me trocar toda, até a roupa de baixo, pensou, examinando as roupas encharcadas. Vou preparar o chá e posso me trocar enquanto ele descansa.
O céu carregado de chuva tinha deixado a cozinha numa escuridão incomum, e ela ligou vários interruptores, esperando enquanto as luzes acendiam. Encostou o guarda-chuva na porta, encheu a chaleira e tirou os sapatos, deixando-os encostados no fogão e se perguntando se devia colocar palmilhas neles para que não encolhessem. O gato de Rosemary estava dormindo, estirado e imóvel, ao lado deles, e Vivi encostou-lhe a mão no pescoço, só para se certificar de que ainda estava vivo. Atualmente, nunca se podia ter certeza. Ela temia que, quando ele morresse mesmo, só fossem notar vários dias depois.
Tirou o bule de chá do armário, encheu-o com água quente e deixou-o na bandeja para aquecer enquanto pegava duas xícaras com os pires. Por ela, teria usado uma caneca, mas Rosemary gostava de fazer as coisas formalmente mesmo quando eram só elas duas, e Vivi estava se sentindo bastante generosa esses dias para lhe fazer as vontades.
Olhou para o diário da cozinha enquanto despia o suéter e o colocava sobre o anteparo do fogão. Ben tinha uma reunião do clube de rúgbi essa noite: sem dúvida ia querer pegar o carro dela emprestado novamente. Havia também um lembrete da Sra. Cameron de que estavam precisando de luvas de borracha e de pulverizadores novos. Graças a Deus pela Sra. Cameron, pensou. Como consegui me virar sem ela por tanto tempo? Como podia uma coisa tão simples produzir uma mudança tão grande?
Voltou para a chaleira e começou a preparar o chá.
— Rosemary — chamou, na direção do pavilhão —, gostaria de uma xícara de chá?
A falta de resposta não era incomum: frequentemente, Rosemary, por surdez ou teimosia, exigia ser chamada várias vezes antes de se dignar a responder, e Vivi sabia que ainda não tinha sido perdoada pela explosão. Mas, após a terceira tentativa, Vivi pousou a bandeja do chá em cima de uma boca do fogão e bateu à porta do anexo.
— Rosemary? — disse, o ouvido colado à porta. Depois abaixou a maçaneta e entrou.
A sogra não estava ali. Depois de revistar cada cômodo duas vezes, Vivi ficou parada no corredor tentando pensar aonde mais ela podia ter ido. A Sra. Cameron fora embora, portanto não poderia estar com ela. Ela não estaria nos jardins com um tempo ruim como aquele.
— Rosemary? — chamou de novo.
Foi então, acima do rumor monótono da chuva, que ouviu o barulho: um gemido distante, um arrastar de pés, anunciando algum esforço em um lugar longe do seu campo de visão. Esperou, depois virou a cabeça para melhor avaliar de onde vinha o ruído. Olhou, incrédula, para o teto e tornou a chamar.
— Rosemary?
Houve um silêncio do qual Vivi se lembraria por semanas, e depois, quando se dirigiu à porta, uma exclamação abafada de algum lugar no andar de cima e uma pausa imperceptível, seguida por um estrondo terrível, revestido de um furioso grito estrangulado.
* * *
— Eu lhe trouxe uma coisa — disse Alejandro, mas estava olhando para baixo e Suzanna não sabia direito com quem ele estava falando.
— Um presente? — perguntou Jessie, empolgada. Ela ficara mais animada quando ele chegou: de alguma maneira, ele sempre produzia este efeito nela.
— Não exatamente — respondeu ele, se desculpando. — É a bebida nacional argentina. Mate. Nossa versão da sua xícara de chá, se quiser. — Sacou um pacote colorido de dentro do casaco molhado e entregou-o a Suzanna, que estava parada ao lado do balcão. — É amargo, mas acho que você pode gostar.
— Mate — disse Jess, revirando a palavra na boca. — La Hoja Yerba Mate — leu no pacote. — Quer uma xícara de mate, Suze? Leite e dois torrões de açúcar, é isso?
— Leite não — disse Alejandro, fazendo careta —, mas pode acrescentar açúcar. Ou pedaços de laranja. Talvez limão, toranja.
— Faço um bule? — perguntou Suzanna.
— Não, não. Um bule, não. Aqui. — Ele foi para trás do balcão e, de repente, Suzanna estava profundamente consciente da proximidade dele. — A gente prepara isso numa cuia. Assim. — Do outro lado do casaco, sacou uma voluptuosa cuia de prata, como uma jarra em miniatura. — Aqui, deixa eu preparar. Vocês podem experimentar e me dizer o que acham. Eu sirvo vocês, para variar.
— Parece chá chinês — disse Jessie, olhando para o conteúdo do pacote. — Não gosto de chá chinês.
— Parece um monte de folhas e gravetos velhos — disse Suzanna.
— Eu vou fazer ficar doce — afirmou Alejandro, despejando a mistura da yerba na cuia.
Suzanna encostou na lousa, sem se dar conta de que o cardápio de café do dia estava se transferindo para sua camiseta preta. Alejandro estava tão perto que dava para ela sentir o cheiro dele: uma mistura de sabonete e água da chuva, e uma coisa por baixo disso, que a deixou tensa na hora. Sentiu-se vulnerável de um jeito estranho.
— Tenho que... que continuar a levar essas caixas lá para baixo — disse ela, desesperada para colocar a cabeça no lugar. — Me chame quando estiver pronto. — Olhou para Alejandro e acrescentou sem necessidade: — Nós... nós temos um monte de mercadorias chegando amanhã. E nenhum espaço. Simplesmente não tem espaço. — Desceu a escada bamba e sentou-se no último degrau, amaldiçoando-se por sua fraqueza enquanto seu coração batia erraticamente no peito.
— Em geral você não está aqui a essa hora — ela ouviu Alejandro dizer a Jessie, a voz não traindo nada da agitação que ela sentia.
Mas, por outro lado, ela não tinha ideia do que sentia. O que eu espero que aconteça?, pensou, segurando a cabeça. Sou casada, pelo amor de Deus, e aqui estou eu, me jogando de cabeça em outra paixão. Qualquer coisa para evitar o que realmente está acontecendo na minha vida.
— A Emma tem clube de teatro — disse Jessie.
Suzanna ouvia os passos dela no chão de madeira, via as madeiras cederem ligeiramente no alto enquanto ela andava de uma ponta a outra da loja.
— Pensei em ficar até mais tarde um pouquinho, já que não tenho andado muito por aqui ultimamente.
— E sua cabeça? Está parecendo melhor.
— Ah, está ótima. Eu literalmente me cobri de creme de arnica. E quase não dá para reparar no corte no lábio se eu estiver de batom... Olha. — Houve um breve silêncio, quando, presumivelmente, Alejandro examinou o rosto de Jessie. Suzanna tentou não desejar que fosse em seu rosto que os dedos dele tivessem delicadamente pousado. Ouviu Jessie murmurar alguma coisa, e depois Alejandro dizer que não era nada, absolutamente nada.
Houve um silêncio, durante o qual a mente de Suzanna ficou em branco.
— Isso tem um cheiro... — comentou Jessie rindo. — Nojento.
Alejandro ria também.
— Não, espere, espere — dizia ele. — Vou pôr açúcar. Depois você pode experimentar.
Tenho que me controlar, pensou Suzanna, e pegou uma caixa pesada de álbuns de fotografia vitorianos que comprara em um leilão. Planejara retirar as fotos e colocá-las em molduras individuais, mas não conseguira arranjar tempo para isso. Sobressaltou-se quando a cara de Jessie apareceu no alto das escadas.
— Vai subir? Estamos prestes a ser envenenadas.
— Não devíamos chamar alguns dos nossos clientes preferidos — disse ela num tom leve —, para eles poderem se unir a nós?
— Não, não — disse Alejandro, rindo. — Só vocês duas. Por favor. Quero que experimentem.
Suzanna subiu correndo os degraus e notou que a chuva continuava torrencial, tão cinzenta e determinada quanto estivera o dia todo. A loja, no entanto, de repente parecia quente e aconchegante, bem iluminada em contraste com a rua monótona e molhada, impregnada de cheiros desconhecidos. Dirigiu-se à prateleira, começou a pegar xícaras, mas Alejandro, com um toque em seu braço, deteve-a.
— Não — disse, fazendo um gesto para que ela as repusesse no lugar. — Não é assim que se bebe isso.
Suzanna olhou para ele, depois para a cuia de mate, da qual agora emergia um canudo de prata, retorcido como açúcar-cande.
— A gente bebe por esse canudo.
— O quê? Nós três? — disse Jessie, olhando.
— Um de cada vez. Mas, sim, pelo canudo.
— É meio anti-higiênico.
Alejandro assentiu.
— Não tem problema. Sou um médico capacitado.
— Você não tem herpes, tem? — perguntou Jessie a Suzanna, rindo.
— Sabe, é uma grande ofensa se recusar a dividir com alguém — disse Alejandro.
Suzanna ficou olhando para o canudo.
— Eu não me importo — disse. Segurou o cabelo para trás, depois sugou um bocado do líquido. Fez uma careta... era amargo. — É... é diferente.
Ele tornou a lhe oferecer o canudo.
— Pense no gosto do café da primeira vez que você experimentou. Você tem que ver o mate do mesmo jeito. Não é ruim, só é diferente.
Com os olhos presos aos dele, Suzanna pôs os lábios em volta do canudo. Estava com a mão na lateral da cuia, apoiando-a, ou se apoiando, não sabia direito. Olhava para seus dedos, muito claros e lisos ao lado dos dele, que eram bronzeados e estranhos e inconfundivelmente masculinos, protegida da luz pela cortina escura do cabelo. Aquelas mãos deram à luz crianças, enxugaram lágrimas de olhos de mulheres, conheceram nascimento e morte e viveram e trabalharam a um milhão de quilômetros dali. Mãos podiam contar a história do dono, pensou ela vagamente. As de seu pai eram marcadas e ásperas devido a décadas de trabalho braçal, e as de Vivi tinham envelhecido devido ao puro ato de cuidar. As suas eram pálidas e efêmeras, ainda não desgastadas por trabalho nem humanidade. Mãos que ainda não tinham vivido. Tomou mais um gole de mate, enquanto Jessie murmurava algo sobre precisar comprar mais açúcar. Depois observou a mão larga dele se mexendo, com delicadeza, para pousar na dela.
A leveza dos minutos anteriores foi substituída por algo perturbador, algo eletrizante. Suzanna tentou engolir o líquido pungente, os olhos nas mãos deles, todos os seus sentidos sintonizados naquela palma quente e seca em sua pele, resistindo a um impulso de encostar a boca nela, colar os lábios na pele dele.
Piscou com força, tentou regular os pensamentos. Poderia ter sido um movimento acidental, disse a si mesma. Tinha que ter sido.
Deu um longo suspiro trêmulo e ergueu o olhar para Alejandro. Os olhos dele já estavam nela. Não com uma expressão de cumplicidade divertida, de convite sexual, nem mesmo de ignorância, como ela meio que esperara, mas como se ele estivesse perplexo, procurando respostas.
O olhar dele, fixo no dela, causou-lhe um choque que foi quase doloroso. Ridicularizava a razão, cortava suas próprias crenças e desculpas. Eu também não sei, ela queria protestar. Não entendo. Depois, quase como se pertencessem a outra pessoa, os dedos dela se mexeram na cuia até estarem entrelaçados com os dele.
Ela escutou-o engolir e desviou o olhar para a prateleira de onde Jess retirava xícaras, entre elétrica e apavorada com o que tinha feito, sem saber direito se era capaz de lidar com a emoção que parecia ter provocado, o peso daquele pequeno movimento ameaçando desabar sobre ela.
Ele não mexeu a mão.
Ela ficou quase aliviada quando o silêncio da loja foi interrompido pelo toque estridente do telefone. Suzanna, retirando a mão, não conseguiu olhar para Alejandro. Limpou a boca e virou para o telefone, mas Jess tinha chegado lá primeiro. Suzanna sentia-se atordoada, desorientada, estava tão consciente dos olhos de Alejandro nela que, a princípio, não conseguiu distinguir o que a outra moça estava dizendo. E depois, lentamente, quando seus sentidos tornaram a entrar em foco, pegou o fone.
— É a sua mãe — disse Jess, com um ar ansioso. — Ela disse que sua avó sofreu um acidente.
— Mãe? — Suzanna encostou o fone no ouvido.
— Suzanna? Ah, querida, sinto muito incomodar você no trabalho, mas Rosemary levou um tombo e estou desesperada, precisando de ajuda.
— O que aconteceu?
— Estou sem carro. Os meninos saíram com o meu, seu pai se nega a andar com celular, e preciso levar Rosemary para o hospital. Acho que ela pode ter quebrado uma costela.
— Estou a caminho — disse Suzanna.
— Ah, querida, você pode vir? Eu não pediria, mas é isso ou uma ambulância, e Rosemary se recusa a permitir que uma chegue perto da casa. A questão é que não consigo levá-la lá para baixo sozinha.
— Ela está no andar de cima? O que ela estava fazendo lá?
— É uma longa história. Ah, Suzanna, tem certeza de que não se importa?
— Não seja boba. Vou o mais depressa possível.
Suzanna desligou.
— Tenho que sair — disse. — Jess, é melhor eu fechar a loja. Ah, meu Deus, onde botei as minhas chaves?
— E as caixas? — perguntou Jess. — Você tem aquelas entregas amanhã. Onde vamos botar tudo?
— Não posso pensar nisso agora. Tenho que levar minha avó correndo para o hospital. Simplesmente vou ter que lidar com o amanhã quando ele chegar. Talvez eu volte hoje à noite se não tiver que esperar muito tempo na emergência.
— Quer que eu vá com você? — perguntou Alejandro.
— Não, obrigada — Suzanna sorriu sem querer ao pensar em explicá-lo a Rosemary.
— Deixa eu ligar para minha mãe — disse Jess. — Ela pode buscar Emma e eu fico aqui e faço isso para você. Jogo as chaves pela sua porta mais tarde.
— Tem certeza? Você vai ficar bem? Tem umas caixas bem pesadas.
— Eu ajudo — disse Alejandro. — Vá. Não se preocupe. A gente resolve.
Suzanna correu da loja para o carro, as mãos levantadas acima da cabeça numa tentativa inútil de se proteger da chuva, se perguntado como era capaz, mesmo no meio de uma emergência familiar séria, mesmo diante da generosidade de Jessie, mesmo conhecendo a dedicação decidida da amiga a outro homem, de encontrar espaço para uma ponta de ciúme pelo fato de agora os dois estarem sozinhos na loja.
* * *
A vitrine era sobre Sara Silver. Era justo dizer que era uma das menos interessantes que o Empório Peacock já tinha montado, focando no dia em que ela se mudara para aquela reitoria georgiana de oito cômodos, Brightmere — agora rebatizada de Solar Brightmere —, no limite de Dere Hampton. Falava de como ela havia tido que esperar oito dias angustiantes para descobrir se o seu lance confidencial havia assegurado a casa e das longas e tortuosas semanas que passara escolhendo tecidos e estofados (as agonias da escolha!), das responsabilidades sufocantes de oferecer infinitos cafés da manhã de caridade e a quermesse anual da região. Incluía um dos “quadros de humor” que ela criara para mobiliar cada cômodo, inspirando-se em vários castelos e casas majestosas com que alardeava uma tênue ligação. Vários parágrafos antes do fim, havia duas linhas sobre o dia do seu casamento, uma ordem de prioridades que não surpreendia ninguém que a conhecia. Ela já estava na vitrine havia duas semanas, e Suzanna e Jessie tinham um prazer secreto em mudar sutilmente a arrumação aos pouquinhos: tinham se cansado de ver Sarah se gabando da projeção da mostra e passando “por acaso” várias vezes por ali para exibi-la a seus conhecidos — mas sem conseguir fazê-los entrar para comprar nada. Até agora, elas tinham inserido um catálogo da MFI e um anúncio de altura de fossa séptica entre suas revistas Interiors cuidadosamente arrumadas, substituído cirurgião “arbóreo” por “plástico” na parte do texto de apresentação que falava sobre a importância de um bom jardineiro e acrescentado vários zeros ao preço que ela pagara pela casa. De quebra, ao lado da seção interminável sobre o seu primeiro jantar como “dama do solar”, Jess plantara uma lata de almôndega Brain.
— Eu não teria feito isso com mais ninguém — explicou ela a Alejandro, subindo com mais uma caixa —, mas ela realmente é a vaca mais pretensiosa que você já conheceu. Quando entra aqui, nem se dirige a mim. Só fala com Suzanna. Deixei escapar um dia que ela era uma Fairley-Hulme e o velho Fancy Pants acha que eles todos são uma única grande família aristocrática. — Fez uma pausa. — Sabe como o marido dela ganha dinheiro, não sabe? Pornografia na internet. Só que ela diz que “Ele faz alguma coisa de computador”. A gente não a teria escolhido de jeito nenhum, mas eu estava sem tema e prometi a Suzanna que podia continuar fazendo isso.
Alejandro estava olhando para a vitrine.
— O que têm essas almôndegas?
Passava das seis, e o luminoso céu da tarde fechara prematuramente com nuvens carregadas: da hora do chá em diante, Jess fora acendendo todas as luzes da loja. Amontoara todo o lixo em sacos pretos, que tinham sido relativamente fáceis de carregar escadas acima. Agora, porém, precisava mover as caixas, algumas delas pesadas, carregadas de louça ou livros.
— Só Deus sabe o que ela anda comprando — disse, subindo com mais uma. Era a única maneira de abrir espaço para mudar as outras de lugar. — Acho que metade do tempo ela não sabe. — Soltou um suspiro de dor.
Alejandro veio depressa tirar a caixa da mão dela.
— Você está bem?
— Só peguei muito peso. Estou bem — disse Jessie, examinando o dedo, que continuava na tala caseira.
Alejandro pousou a caixa no chão e levantou a mão dela.
— Você devia fazer um raio X desse dedo.
— Não está quebrado. Teria inchado se estivesse.
— Não necessariamente.
— Não sou capaz de encarar o hospital de novo, Ale. Acho que aquelas enfermeiras todas me olham como se eu fosse uma idiota. — Suspirou. — Ele é muito burro! Nunca olhei para outro homem. Bom, óbvio que já olhei, mas nunca... sabe... pensei em fazer nada. — Franziu o nariz. — Sei que todo mundo acha que sou meio paqueradora, mas, na verdade, sou uma daquelas pessoas chatas que acham que só existe um único homem para uma única mulher.
— Eu sei. — Alejandro virou a mão dela ao contrário, separando delicadamente os dedos. O hematoma estava ficando de um verde doentio. — Se estiver quebrado e não for tratado, seu dedo pode perder um pouco do movimento.
— Vou correr esse risco. — Ela olhou para o dedo, esboçou um sorriso. — Ei, eu nunca usei muito esse dedo, afinal.
Ele tornou a virar para a caixa e levantou-a.
— Tudo bem, de agora em diante, eu levanto o peso. Você me orienta. E então vamos para casa mais rápido. Onde quer que eu deixe isso?
Ela sentou-se no banco ao lado do balcão.
— Mesa azul. Acho que é estoque de verão, e sei que ela quer a maior parte do estoque de verão ou na liquidação ou lá embaixo de novo.
Ele colocou a caixa na outra ponta da loja, com a facilidade estimulante de um homem feliz de ter um objetivo. Do lado de fora, na rua sem iluminação, a chuva continuava caindo a cântaros, agora pesada o suficiente para quase não deixar ver a parede do outro lado da rua. Jessie tiritou, notando que a água tinha começado a entrar por baixo da porta.
— Tudo bem — disse Alejandro. — Não deve passar daí. É só porque os bueiros estão cheios. — Deu um tapinha de leve no cotovelo dela. — Ei, vamos lá, Jessie. Você não pode ficar sentada sem fazer nada, sabe. Tem que me mostrar quais caixas preciso mover.
* * *
Na rua, a uns dez metros de distância, Jason Burden estava sentado na caminhonete, sem ser visto de dentro da loja. Tinha bebido um pouco, não estava realmente em condições de dirigir. Mais cedo, fora à casa de Cath buscar Emma e Jessie, e soube que a filha ainda estava no clube de teatro e a mulher devia estar fazendo as unhas em algum salão de beleza. Voltariam logo, logo, disse-lhe a sogra. Ele podia esperar, tomar uma xícara de chá com ela, e eles podiam ir a pé juntos buscar Emma. Em vez disso, ele fora para o pub.
Não soubera direito o que o motivara a ir para a frente da loja. Talvez fosse porque nada parecia certo no momento. Nada parecia seguro, como já parecera. Jessie não parecia a mesma, com suas amigas elegantes, seus livros, afastando-se noite após noite enquanto estudava, sem dúvida se preparando para construir uma nova vida longe dele. Vivia muito cansada para ir com ele ao pub agora que estava trabalhando, sempre falando de gente que ele não conhecia, de uma moça da propriedade Fairley-Hulme, se dando ares de importância. Sempre tentando fazê-lo ir à loja, conhecer seus novos “amigos”, tentando transformá-lo em alguma coisa que ele não era. Agora olhava para ele com um olhar de censura estranho, mostrando-lhe as contusões como se isso já não o machucasse o suficiente.
Talvez fosse porque ele viu o padre Lenny andando na direção da casa de Cath, emproado como se fosse dono da propriedade toda, e o padre lhe dera aquele olhar, como se de certa forma não o considerasse melhor que a terra embaixo dos seus pés, ainda que tivesse disfarçado isso com um aceno falso.
Talvez fosse o número de telefone que achara no bolso dela. O número que tinha sido atendido por um cara com voz de estrangeiro antes de ele desligar.
Não sabia direito por que estava parado ali.
Jason estava sentado na caminhonete, ouvindo o barulho do motor esfriando, o constante chiado dos limpadores de para-brisa revelando, a cada poucos segundos, na loja bem iluminada, a visão que ele não quisera ver.
O homem segurando a mão dela.
Conversando com o rosto a centímetros do dela.
Indicando, sorrindo, com um gesto, que ela descesse ao porão, ao lugar onde Jason e Jessie haviam dividido o primeiro beijo. O lugar em que ele a fizera dele pela primeira vez.
Eles não tinham subido de volta.
Jason pousou a cabeça, que zumbia, no volante.
Depois, passada uma eternidade, pôs a mão na chave na ignição.
* * *
A última caixa estava cuidadosamente empilhada na estante improvisada, e Alejandro limpou o pó da mão nas calças. Jessie, sentada nos degraus acima dele (com as caixas, não havia espaço suficiente para duas pessoas passarem uma pela outra), examinou o porão e sorriu satisfeita.
— Ela vai ficar feliz.
— Espero que sim. — Ele sorriu para ela, pegou um papel amassado da escada e jogou-o de um jeito certeiro na lixeira.
Jessie o observava, a cabeça inclinada para o lado.
— Você é tão ruim quanto ele, sabe.
— Seu namorado? — perguntou ele, visivelmente perplexo.
— Nenhum de vocês é capaz de dizer o que sente. A diferença é que ele recorre a violência e você simplesmente guarda tudo.
— Não entendi.
Ele subiu em direção a ela, ficando com a cabeça no mesmo nível da de Jessie.
— Não entendeu uma ova. Você devia falar com ela, Ale. Se um de vocês não fizer alguma coisa logo, vou desmaiar sob o peso de todo esse desejo não declarado no ar.
Ele olhou fixamente para ela por algum tempo.
— Ela é casada, Jess. E achei que você fosse a grande crente... no destino, quero dizer. Um único homem para uma única mulher, certo?
— Eu sou — disse ela. — Ninguém tem culpa se escolhe errado da primeira vez.
O aparelho de som, que estava tocando uma compilação de Jazz, desligou bruscamente, deixando um silêncio na loja, permitindo que se ouvisse o ronco surdo de uma tempestade se aproximando do lado de fora.
— Acho que você é uma romântica — disse ele.
— Não. Acho que às vezes as pessoas precisam de um empurrãozinho. — Ela se mexeu no degrau. — Inclusive eu. Vamos, vamos sair daqui. A minha Emma deve estar se perguntando onde estou. Ela vem me ver fazer as unhas na manicure esta noite. A primeira vez. Não consigo decidir se uso um rosa de bom gosto ou um lindo vermelho piranha.
Alejandro estendeu o braço e ela o pegou, usando-o como alavanca para se levantar.
— Nossa — disse ela, quando emergiram na loja iluminada. — Estou imunda.
Ele encolheu os ombros concordando, limpou-se com a mão, olhou para a chuva.
— Você tem guarda-chuva?
— Capa de chuva — disse ela, apontando para sua capa de plástico fúcsia. — Roupa essencial do verão inglês. Você vai aprender. — Andou em direção à porta.
— Acha que devíamos ligar para Suzanna? — disse Alejandro, de um jeito displicente. — Ver se ela está bem?
— Ela vai passar horas presa na emergência. — Jess conferiu as chaves em sua mão. — Mas, como tenho que deixar isso aqui na casa dela mais tarde, posso dizer que você estava perguntando por ela, se você quiser... — Sorriu, com uma pontinha de malícia no olhar.
Ele se recusou a lhe responder, balançou a cabeça fingindo exasperação.
— Acho, Jessie, que você devia limitar as suas intrigas a Arturro e Liliane. — Parou para puxar uma fita adesiva que tinha colado na perna de sua calça. Mais tarde, diria que só tinha ouvido o início da risada de Jessie, uma risada que foi interrompida por um barulho de algo se precipitando, um chiado que parecia, no volume e na velocidade cada vez maiores, o guincho de um enorme pássaro irritado. Ele tinha erguido os olhos a tempo de ver a mancha branca, o ronco ensurdecedor do que poderia ter sido um trovão, e depois o estrondo da frente da loja explodindo para dentro, madeira voando para todo lado. Ele erguera os braços para se proteger da chuva de estilhaços de vidro, das prateleiras, dos pratos, das imagens que voavam, caíra para trás no balcão, e tudo que tinha visto, tudo que tinha visto não era Jessie, mas sim o flash do plástico rosa vivo desaparecendo, como uma sacola molhada, embaixo da frente do carro.
* * *
Era sua quarta xícara de café de máquina, e Suzanna percebeu que, se tomasse mais uma, suas mãos começariam a tremer. Mas era difícil, dado o tédio de esperar naquele cubículo, e desaparecer para tomar café parecia ser a única forma de fugir legitimamente do mau humor implacável de Rosemary.
— Se minha vó disser mais uma vez que “o sistema de saúde não é mais o que era” — sussurrou ela para Vivi, sentada ao seu lado —, vou dar nela com um urinol.
— O que está dizendo? — perguntou Rosemary, queixosa, da cama. — Fale alto, Suzanna.
— Eu não me preocuparia, querida — murmurou Vivi. — Hoje em dia eles são feitos do mesmo material que as caixas de ovo.
Elas estavam lá havia quase três horas. Rosemary primeiro tinha sido examinada por uma enfermeira de triagem e enviada para fazer várias radiografias que constataram uma costela fraturada, escoriações e um punho torcido. Depois, aparentemente, tinha sido retirada do quadro de urgência e colocada no fim de uma longa fila de lesões banais, o que ela tomara como uma afronta pessoal. A chuva não ajudava, dissera a jovem enfermeira, informando depois que talvez tivessem que esperar mais uma hora no mínimo. Sempre há mais acidentes quando chove.
Suzanna olhava a toda hora para a mão esquerda, como se esta mostrasse os sinais de sua duplicidade. Seu coração pulava toda vez que pensava no homem que possivelmente ainda estava em sua loja. Isso é errado, dizia a si mesma. Você está fazendo isso de novo. Saindo da linha. E depois sentia o pulso disparar quando se permitia, mais uma vez, repassar os acontecimentos das horas anteriores.
Vivi inclinou-se para ela.
— Vá, querida. Volto para casa de táxi.
— Não vou embora, mãe. Mesmo. Não posso deixar você sozinha aqui.
Com ela, foi o acréscimo tácito.
Vivi apertou o braço da filha, agradecida.
— Eu devo contar a você como Rosemary fez isso — murmurou.
Suzanna virou-se para ela, e Vivi olhou para trás, prestes a revelar alguma informação, quando, com um chiado, a cortina do cubículo foi aberta.
Um policial estava parado na frente delas, o rádio zumbindo e parando bruscamente. Atrás dele, outra policial falava no dela.
— Acho que vocês estão procurando o último cubículo — disse Vivi, inclinando-se à frente de um jeito conspiratório. — Eles é que andaram brigando.
— Suzanna Peacock? — disse o policial, olhando de uma para a outra.
— Vai me prender? — disse Rosemary em voz alta. — Agora é infração esperar várias horas num hospital?
— Sou eu — disse Suzanna. Isso parece um filme, ela pensou. — É... é o Neil?
— Houve um acidente, senhora. Acho que é melhor vir conosco.
Vivi levou a mão à boca.
— Foi o Neil? Ele sofreu um acidente?
Suzanna ficou paralisada, gelada de culpa.
— O quê? — falou. — O que aconteceu?
O policial olhou com relutância para a mulher mais velha.
— Elas são da minha família — disse Suzanna. — Diga. O que houve?
— Não é o seu marido, senhora. É a sua loja. Houve um acidente sério e gostaríamos que viesse conosco.