A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 10 de 29

Páginas do PDF

A Loja dos Sonhos

Dez

 

As calças estavam no centro da mesa da sala de jantar. Ainda embrulhadas em celofane, empilhadas como panquecas para café da manhã, ainda anunciando sua “segurança discreta, confortável”. Não foram tocadas desde aquela manhã, quando a Sra. Abrahams as deixou na porta de Rosemary, exceto para serem colocadas na posição atual, embaixo do lustre veneziano, onde permaneciam como um protesto mudo, furioso.

Vivi e Rosemary tiveram algumas discussões ao longo dos anos, mas Vivi não se lembrava de nenhuma tão feia quanto a causada pela visita da Senhora Incontinência. Não se lembrava de alguém ter gritado tanto e por tanto tempo com ela, não se lembrava de ver aquele nível de fúria que deixou Rosemary roxa, gaguejante, as ameaças, os insultos, as portas batendo. Ela já estava lá dentro havia quase duas horas, só o volume elevado da televisão dando alguma pista de sua presença na casa.

Vivi tirou as calças da mesa e foi bater timidamente à porta de Rosemary no fim do corredor, depois de deixar o embrulho embaixo do banco de igreja antigo ao passar.

— Rosemary, vai querer almoçar hoje? — Esperou uns minutos, o ouvido colado à porta. — Rosemary? Gostaria de um ensopado?

Houve uma pausa momentânea, depois o volume da televisão aumentou, e Vivi recuou, olhando nervosa para a porta.

Parecera uma ideia sensata. Ela não se sentira forte o suficiente para tocar no assunto diretamente com Rosemary, mas, como era a pessoa que lavava a roupa da casa, reparara que o controle da sogra, na falta de uma palavra melhor, não era mais o mesmo. Agradecendo ao Sr. Hoover pela lavadora automática, pegara-se, várias vezes naquele mês, de luvas de borracha e com uma expressão aflita, botando na máquina a roupa de cama de Rosemary. E não só a roupa de cama: ao longo de meses, Vivi se dera conta de que o número de peças íntimas de Rosemary diminuíra de modo significativo. Esperou até que a sogra saísse de casa e revistou o anexo, se perguntando se as peças haviam sido deixadas no cesto de roupa suja, por distração. No início, descobrira as mais problemáticas de molho na pia do banheiro de Rosemary. Passado algum tempo, era como se o esforço mental envolvido em tal lavagem manual tivesse se tornado excessivo para a velha e ela tivesse começado a escondê-las. Nas últimas semanas, Vivi as descobrira embaixo do sofá de Rosemary, no armário embaixo da pia e até enfiadas numa lata de tomates pelados, no alto de uma prateleira do banheiro.

Quando tentara discutir o problema com Douglas, ele olhou para ela com uma expressão tão horrorizada que Vivi recuou, prometendo resolver sozinha. Várias vezes se sentou com Rosemary no almoço, tentando arranjar coragem para perguntar se a senhora estava tendo algum problema com o sistema urinário. Mas era impedida por alguma coisa na atitude mordaz da sogra, na agressividade com que passara a gritar “o quê?” sempre que Vivi tentava puxar uma conversa inocente. E depois, sua médica, uma jovem escocesa pragmática, revirando a mesa, lhe apresentou todo um leque de serviços subvencionados pelo estado que significavam que talvez Vivi pudesse remediar o problema sem precisar abordá-lo diretamente com a idosa.

A Sra. Abrahams era uma pessoa rechonchuda e profissional, com um jeito acolhedor que sugeria não apenas que já vira de tudo, mas também que tinha uma solução para aquela situação: um forro de plástico antissuor discretamente embrulhado. Ela chegara pouco antes das onze. Vivi explicou a delicadeza da situação e que ainda não tinha tomado coragem para mencionar à sogra a natureza da visita da Sra. Abrahams.

— Muito mais fácil quando vem de fora da família — disse a Sra. Abrahams.

— Não é que eu me incomode de lavar... — Vivi deixara a frase no ar, já se sentindo culpada pela traição.

— Mas também há considerações de saúde e de higiene.

— Sim...

— E você não quer que a senhora perca a dignidade.

— Não.

— Deixe comigo, Sra. Fairley-Hulme. Em geral, vejo que, superado o obstáculo inicial, a ajuda é um grande alívio para a maioria das senhoras.

— Ah... ótimo.

Vivi bateu à porta de Rosemary e encostou o ouvido na madeira para ver se a idosa tinha ouvido.

— Às vezes acho que as senhoras mais jovens, que acabaram de entrar na meia-idade, me tomam alguns pacotes.

Vivi não conseguia ouvir os passos familiares de Rosemary.

— Ah, sim...?

— Quero dizer, depois dos filhos, muitas vezes as coisas não são como antes. Não importa quantos exercícios para o assoalho pélvico a paciente faça. Entende o que quero dizer?

A porta abriu, fazendo Vivi perder o equilíbrio.

— O que está fazendo? — Rosemary olhou irritada para a nora.

Vivi endireitou-se.

— A Sra. Abrahams veio vê-la, Rosemary.

— O quê?

— Vou fazer um café e deixar vocês conversarem. — Fora depressa para a cozinha, corada, ciente de que suas mãos suavam.

Houve paz por quase três minutos. Depois a Terra rachara, fogo vulcânico sendo cuspido e, então, contra o pano de fundo do pior palavreado que Vivi já tinha ouvido num sotaque da elite, ela vira a Sra. Abrahams encaminhando-se num passo enérgico pelo cascalho até o seu pequeno e elegante carro hatch, a bolsa agarrada ao peito, olhando para a casa enquanto várias peças embrulhadas em plástico eram atiradas às suas costas.

— Douglas, querido, preciso falar com você sobre a sua mãe.

Ben tinha ido almoçar fora. Rosemary continuava trancada no anexo. Vivi não achava que podia guardar isso para si até a hora de dormir.

— Hã? — Ele lia o jornal, enfiando garfadas de comida na boca, como se estivesse com pressa para tornar a sair. Era a época da semeadura, a hora de semear os campos aráveis. Ele quase não parava em casa.

— Chamei uma mulher aqui, para Rosemary. Para falar sobre... aquele assunto que discutimos.

Ele olhou para ela, a sobrancelha erguida.

— Rosemary reagiu muito mal. Acho que ela não quer ajuda nenhuma.

Douglas deixou cair a cabeça e acenou a mão para o alto com desdém.

— Então mande tudo para a lavanderia. A gente paga. É a melhor coisa.

— Acho que a lavanderia não vai aceitar as roupas que estiverem com... sedimentos sólidos.

— Bem, então para que serve uma bendita lavanderia, se não for para receber roupa suja?

Vivi não se julgava capaz de suportar a ideia do pessoal comentando sobre o estado da roupa de cama dos Fairley-Hulme.

— Acho... Acho que não é uma boa ideia.

— Bem, já lhe disse o que eu penso, Vivi. Se você não quer mandar lavar fora e não quer lavar você mesma, então não sei o que espera que eu sugira.

Vivi também não. Sabia que Douglas ficaria inexpressivo se ela dissesse que só queria um pouco de solidariedade, de compreensão, uma imperceptível insinuação de que não estava sozinha nisso.

— Vou dar um jeito. — disse, abatida.

* * *

Suzanna e Neil não discutiam havia quase cinco semanas. Nenhuma resposta atravessada, nenhuma crítica maldosa, nenhuma briga impensada. Nada. Quando percebeu isso, Suzanna se perguntou se as coisas estavam mudando, se seu casamento, por alguma osmose peculiar, tinha começado a refletir a satisfação que ela estava obtendo da loja — percebeu que, ao acordar, quando pensava em seu dia e nas pessoas que agora o povoavam, sentia, talvez pela primeira vez em sua vida profissional, algo parecido com animação. Desde o momento em que enfiava a chave na porta, ficava entusiasmada ao ver o interior alegre, repleto, os enfeites coloridos, os perfumes maravilhosos de mel e frésia. Era quase impossível manter o mau humor dentro daquelas paredes. E, apesar de suas reservas, a presença de Jessie não funcionara para a loja apenas economicamente: algo de sua natureza de Pollyanna parecia ter passado para Suzanna também. Várias vezes, se pegara assobiando.

Quando se permitiu tempo para pensar a respeito, percebeu que não era porque se sentia mais próxima do marido, mas simplesmente porque os dois trabalhavam até tarde e não restava tempo ou energia para brigar. Em três noites essa semana, Neil não tinha chegado em casa antes das dez. Várias vezes, ela saíra de casa antes das sete, só vagamente consciente de que tinham compartilhado a mesma cama. Talvez seja assim que casamentos como o de mamãe e papai sobrevivam, refletiu. Os dois só precisam garantir que estejam muito ocupados para pensar no casal. Há tipos de consolo mais convincentes.

Neil estragou tudo, é óbvio, puxando o assunto do filho aparentemente iminente.

— Ando pesquisando sobre creches. Tem uma anexa ao hospital que não se limita a aceitar os filhos do pessoal que trabalha lá. Se a gente se inscrever na lista agora, talvez tenha uma boa chance de conseguir uma vaga. Então você pode continuar trabalhando, como queria.

— Eu nem sequer estou grávida.

— Planejar com antecedência não faz mal, Suze. Estava pensando, posso até deixar o bebê lá quando for para o trabalho de manhã para você não perder horas do seu dia. Faz sentido, agora que a sua loja está indo bem.

Neil não conseguia disfarçar a animação na voz. Suzanna sabia que agora ele passava por cima de muitas coisas que antes o irritavam nela — a preocupação dela com a aparência do estoque, a persistente descortesia com Vivi, o mau humor e a falta de libido em função da exaustão —, tudo isso por causa do grande favor que ela estava prestes a lhe fazer… dali a uns sete meses.

Apesar de sua promessa, Suzanna não sentia a mesma animação, mesmo com as garantias veementes de Jessie de que fora a melhor coisa que já lhe acontecera, de que ter filhos fazia a pessoa rir, sentir, amar mais do que algum dia sonhou ser possível. Não era só a questão do sexo que a incomodava — para engravidar, eles teriam que entrar num período bastante regular de atividade sexual —, era a sensação de que sua promessa a tolhera, de que ela agora estava obrigada a produzir essa coisa, abrigá-la num corpo que sempre fora, de um jeito bastante confortável, inteiramente seu. Tentou não pensar muito na mãe. O que despertou outros sentimentos.

Num dos seus momentos mais irritantes, Neil tinha passado os braços em volta dela e dito que ela “sempre podia fazer uma terapia”, e Suzanna teve que se conter fisicamente para não bater nele.

— Seria perfeitamente compreensível. Quero dizer, não admira que você tenha reservas — prosseguiu ele.

Ela se desvencilhara dele.

— As únicas reservas que tenho, Neil, são porque você não para de insistir nisso.

— Eu não me importo de pagar para você ir conversar com alguém. Estamos indo bem no momento.

— Ah, já chega, por favor.

A expressão dele era compreensiva. Isso de alguma maneira a deixou ainda mais irritada.

— Sabe — disse ele —, você é mais parecida com o seu pai do que pensa. Vocês dois vivem em negação quanto aos próprios sentimentos.

— Não, Neil. Eu só quero levar minha vida sem ficar obcecada com um bebê que não existe.

— Bebê Peacock — refletiu ele. — Neil Peacock Júnior.

— Nem pense nisso — disse Suzanna.

* * *

Todas as escolas em Dere Hampton interrompiam as atividades para almoço entre meio-dia e meia e uma e quarenta e cinco da tarde, e esse período do dia era marcado, em frente às janelas do Empório Peacock, pela passagem de bandos de estudantes longilíneas de uniformes inadequadamente customizados, de mães exasperadas arrastando seus filhos menores para longe da loja de doces e pela chegada de clientes autônomos insatisfeitos com o que faziam, procurando o que podia ser só um café, mas que, em geral, era um pouco de contato humano para quebrar a rotina. Tinha sido seu primeiro inventário de estoque, e para comemorar isso, além de ser o primeiro dia realmente quente do ano, a porta da loja fora deixada aberta, e uma única mesa com cadeiras fora colocada na calçada (e isso provavelmente era ilegal). Na maioria das vezes, serviam de assento para algumas senhoras mais idosas descansarem um pouco ou de brinquedo para inúmeras crianças de todas as idades, que ficavam subindo, descendo e derrubando, mas poucas vezes foram utilizadas da maneira correta.

Isso parece quase europeu, disse Suzanna a si mesma. Ainda não se cansara de olhar, através dos arranjos meticulosos, pela janela de iluminação prismática, e gostava de ficar em pé, o avental branco engomado à moda antiga, atrás do caixa. Às vezes, se perguntava se odiava menos Dere Hampton do que havia imaginado: tendo criado o próprio espaço, e nele imprimido a própria personalidade, percebia às vezes quase um sentimento de posse. E não só em relação à loja.

Jessie logo aprendera a valorizar o que cada uma delas tinha de bom, e naquele dia, com um vestido estampado de flores e botas pesadas, estava servindo no balcão, a toda hora dando um pulinho lá fora para entabular conversa com os construtores de botas sujas de cimento e as senhorinhas, enquanto Suzanna andava pela loja com seu caderninho, somando o estoque remanescente, notando com ligeira decepção quão pouco havia vendido nas últimas semanas. Não era o que se chamaria de sucesso estrondoso, mas, como frequentemente tranquilizava a si mesma, dava para ver que era possível para a loja pagar o próprio estoque e o custo do pessoal. Se melhorasse um pouquinho, disse Neil, eles podiam começar a recuperar uma parte do capital investido. Neil gostava de dizer tais frases. Ela achava que a área financeira era uma das poucas na relação deles em que ele tinha autoridade incontestável.

Arturro entrara, tomara dois expressos, um atrás do outro, depois fora embora. O padre Lenny enfiara a cabeça pela porta, supostamente para perguntar a Jessie se Emma ia voltar para o catecismo no domingo, mas também para se apresentar a Suzanna e comentar que, se ela quisesse mais luzes decorativas, conhecia uma pessoa perto de Bury St. Edmunds que as vendia por atacado.

A Sra. Creek entrara, pedira um café com leite, fora se sentar do lado de fora e tirara o chapéu, expondo ao sol o cabelo fino, parecendo tão frágil quanto relva queimada pela geada. Contou a Jessie que este tempo lhe lembrava a primeira vez que viajara para o exterior, para Genebra, onde o marido andara hospitalizado. O avião tinha sido uma tremenda aventura; na época, as companhias aéreas usavam enfermeiras de verdade como comissárias de bordo, não as jovens que empregam hoje em dia, e a chegada num país estrangeiro tinha sido tão empolgante para a Sra. Creek que ela quase esquecera por que estava lá, e perdera o horário de visita no primeiro dia. Suzanna, de vez em quando se aventurando a ir lá fora para recolher xícaras de café ou só para sentir os primeiros raios de sol no rosto, ouvira-a contando a história a Jessie, que estava de queixo apoiado na mão absorvendo cada último detalhe com o sol. O marido ficara irritadíssimo, passara dois dias sem falar com ela. Depois, ocorreu a Sra. Creek que poderia ter mentido, dito a ele que o voo atrasara. Mas ela nunca foi de mentir. A pessoa sempre acabava atrapalhada tentando se lembrar o que disse a quem.

— Jason acha que eu minto mesmo quando estou falando a verdade — disse Jessie, animada. — Tivemos uma briga enorme uma vez porque eu estava doente e não passei aspirador na casa. Ele adora ver aquelas risquinhas todas no tapete, sabe, só para provar que eu passei. Mas eu estava com uma infecção alimentar, acho que foi frango, então fiquei deitada. Quando ele chegou em casa, eu estava um pouquinho melhor, e ele me acusou de passar o dia todo sem tirar a bunda do sofá, embora eu tivesse conseguido fazer o chá dele. Fiquei tão irritada que dei com a panela nele. Você não sabe como tive vontade de vomitar só de descascar as batatas. — Ela riu, culpada.

— Os homens são assim, querida — disse a Sra. Creek, vagamente, como se eles fossem uma espécie de desgraça.

— O que ele fez? — perguntou Suzanna, impressionada com o relato despreocupado de violência, sem saber se interpretava ao pé da letra o que Jessie acabara de contar.

— Ele revidou. Então dei de novo com a panela e quebrei metade do dente dele. — Apontou para o fundo da boca, mostrando o local do estrago.

A Sra. Creek olhara para o outro lado da rua, como se não tivesse ouvido. Após um momento de silêncio, Suzanna dera um sorriso vago, como se tivesse esquecido de pegar alguma coisa, depois virara as costas e voltara para a loja.

— Você tem medo dele? — perguntou, algum tempo depois, quando a Sra. Creek já tinha ido embora.

Vinha tentando imaginar Neil tão agressivo a ponto de bater nela, o que já se provara impossível.

— De quem?

— Do seu… De Jason.

— Medo dele? Que nada. — Jessie havia meneado a cabeça, uma expressão carinhosa de indulgência. Olhou para Suzanna e nitidamente concluiu que a preocupação em seu semblante tornava necessário um tipo de explicação. — Olha, o problema é que eu sou melhor com as palavras. Então sei como realmente provocá-lo. E se ele começa a pegar no meu pé, basta eu virar o jogo, dar um nó nas palavras dele e deixá-lo se sentindo um idiota. Eu não deveria, mas... sabe como eles às vezes nos dão nos nervos?

Suzanna fez que sim.

— E às vezes eu me exalto um pouco. E não deixo... — o sorriso dela murchou. — Acho que não lhe deixo nenhuma saída.

Houve um breve silêncio.

Na rua, dois estudantes chutavam uma mochila de um lado para outro.

— Adoro essa loja. A sua loja — disse Jessie. — Não sei o que ela tem, porque não era assim na época do Red Horse, mas é como se ela tivesse um astral muito bom. Sabe o que quero dizer?

A cabeça de Suzanna ainda estava em outra coisa.

— Sim. Quando cheguei aqui, pensei que era só o cheiro do café e tal. Ou talvez fossem todas as coisas bonitas. É mais ou menos uma caverna do Aladim, não é? Mas acho que a loja em si tem alguma coisa. Sempre faz... — ela parou — ... com que eu me sinta melhor.

Os dois garotos tinham parado, estavam examinando algo que um tirara do bolso, murmurando em voz baixa.

As mulheres os observaram da janela.

— Não é o que você está pensando — disse Jessie, por fim.

— Não — disse Suzanna, que se sentiu de repente classe média e ingênua. — É lógico que não.

Jessie pegou o casaco, deu um passo para trás e ficou olhando para as prateleiras atrás de Suzanna.

— Acho que vou dar uma boa lavada nelas mais tarde. Passar pano nunca tira toda a sujeira de verdade, né?

* * *

Jessie saíra às duas e quinze para pegar a filha no colégio mais cedo e, com a permissão da diretora, levá-la para comprar um mimo de aniversário. Se Emma quisesse, disse, podiam comprar picolés e se sentar à mesa em frente à loja para comê-los.

— A escola vai fazer uma excursão à França ano que vem — disse ao sair. — Contei a ela que é assim que os franceses comem e agora ela só quer saber de arrastar as nossas cadeiras para a rua.

Suzanna estava no meio da escada do porão quando ouviu a porta abrir. Gritou que chegava num segundo. Tropeçou no último degrau e praguejou baixinho quando quase deixou cair a braçada de cadernos de capa de camurça. As coisas sempre pareciam mais fáceis quando Jessie estava lá.

Seu pai estava no meio da loja, voltado para o balcão, de braços cruzados, constrangido, como se não quisesse ser visto muito perto de coisa alguma. Quando Suzanna entrou, ele se sobressaltou.

— Pai — disse ela, corando.

— Suzanna. — Ele assentiu.

Houve um silêncio. Ela se perguntou, sem acreditar, se ele ia se desculpar por aqueles comentários. Mas tinha idade suficiente para entender que a presença dele em sua loja era o máximo que ele faria para uma reconciliação.

— Por pouco você não me encontra aqui — balbuciou ela, esboçando um sorriso. — Cheguei há meia hora. Você seria recebido por Jessie... minha assistente.

Ele tinha tirado o chapéu e o segurava, um gesto curiosamente cortês.

— Eu só estava passando. Como tinha que vir à cidade encontrar o meu contador, pensei em... dar uma olhada na sua loja.

Suzanna ficou parada, segurando firme os cadernos.

— Bem, aqui está ela.

— De fato.

Ela fez menção de olhar atrás dele.

— Mamãe não veio?

— Ficou em casa.

Suzanna colocou os cadernos numa mesa e olhou para os objetos em volta deles, tentando avaliá-los com os olhos do pai. “Banalidades e bobagens”, ela o imaginava dizendo. Quem ia querer gastar um bom dinheiro num castiçal de mosaico ou numa pilha de guardanapos bordados de segunda mão?

— O Neil lhe contou? Estamos indo muito bem. — Parecia mais fácil fazer de conta que era uma iniciativa de Neil também. Sabia que o pai o considerava um sujeito mais sensato.

— Não contou, mas que bom.

— O faturamento subiu... hã... uns trinta por cento no primeiro trimestre. E eu... acabei de fazer o primeiro inventário de estoque. — As palavras soaram sólidas, tranquilizadoras, não o tipo de palavras pronunciadas por uma cabeça-oca inconsequente, irresponsável.

Ele assentiu.

— Talvez eu tenha que pegar umas dicas com você em breve sobre o IVA. Esse imposto me parece impenetrável. Não entendo como você administra isso.

— É só prática.

Ele andara contemplando o retrato da mãe dela. Suzanna olhou atrás do balcão e viu o quadro, virado para fora, evidente através das pernas de madeira fina do balcão. O sorriso enigmático de sua mãe, que nunca dera a impressão de ser maternal, agora parecia inadequado, íntimo no espaço público. Jessie tinha adorado o retrato, dizendo que era a mulher mais glamorosa que já vira, e insistira que ficasse na parede. Agora ele fazia com que Suzanna se sentisse culpada, embora não soubesse direito por quê.

— O que aquilo está fazendo ali? — Ele pigarreou enquanto falava.

— Não vou vender, se é o que o preocupa.

— Eu estava...

— Não estamos tão mal de dinheiro.

O pai parara, como se estivesse avaliando suas possíveis respostas. Deu um pequeno suspiro.

— Eu só estava curioso, Suzanna, para saber o que o quadro estava fazendo numa loja.

— “Uma loja”, não, pai. Você dá a impressão de que eu estava tentando me desfazer dele. Minha loja... eu ia pendurá-lo na parede. — A atitude defensiva a deixara ríspida.

— Para que você ia querer pendurá-lo aqui?

— Eu só achei que seria um bom destino para ele. Não fica muito bom lá em casa. Não mesmo. A casa é muito pequena para ele. — Foi mais forte que ela.

O pai fitou-o de esguelha, com olhos apertados, como se achasse difícil olhar diretamente para a imagem.

— Acho que não deveria ser deixado aí embaixo.

— Bem, não sei onde mais colocá-lo.

— Podemos levá-lo de volta para o banco, se quiser. Guardam lá para você. — Olhou de soslaio para ela. — Deve valer um bom dinheiro, e duvido que você o tenha posto no seguro.

Ele nunca expressava qualquer emoção quando falava dela. Às vezes, pensou Suzanna, era como se, depois da morte de Athene, ele tivesse decidido que a mulher teria tanta importância para ele, em termos emocionais, quanto um parente distante, quanto os ancestrais que cobriam os corredores do andar superior. A história familiar limitada que fora divulgada a ela e aos irmãos mostrava que o pai passara bem depressa para Vivi, afinal de contas. Em outras ocasiões, ela se perguntava se ele havia recalcado as emoções por achar a lembrança de Athene simplesmente muito dolorosa, e nesses momentos Suzanna sentia implícita a já habitual onda de culpa. Não havia caixas de roupas nem fotos muito manuseadas. Só Vivi guardara alguns resquícios dela: um recorte amarelado de jornal noticiando o casamento da “última debutante” e uma ou outra fotografia de Athene montada num cavalo. Mesmo estas só eram mostradas quando Douglas estava em outro lugar.

A presença dele em sua loja, tão aparentemente desprovido de qualquer reação emocional, produziu nela o efeito contrário. É tão impossível para você demonstrar alguma emoção?, Suzanna de repente quis gritar. Mesmo que seja supostamente para o meu bem, você precisa fazer de conta que ela nunca existiu? Eu tenho que fazer de conta que ela nunca existiu?

— Você podia pendurar o retrato na galeria de quadros. — As palavras pairavam, muito sonoras, no ar, a voz de Suzanna contendo um leve tremor de desafio. — Vivi não se importaria.

O pai se afastara dela, estava se abaixando para examinar uma peça de seda chinesa.

— Eu disse que Vivi não se importaria. Aliás, ela sugeriu isso. Mandar consertar a moldura e pendurá-lo. Há pouquíssimo tempo.

Ele pegou uma das carteiras de seda em miniatura, examinou o preço, em seguida a repôs delicadamente na pilha. O ritmo desse gesto e o leve tom de crítica implícito fizeram crescer dentro dela uma coisa espontânea, irreprimível.

— Ouviu o que eu disse, pai?

— Muito bem, obrigado. — Ele ainda não olhava para ela. Houve uma demora atroz. — Eu só... Eu só acho que é inadequado.

— Não. Mas acho que, mesmo só na tela, você não quer que mulheres atravanquem a sua linhagem, não é?

Ela não sabia direito de onde tirara isso. Seu pai virou-se muito devagar e se empertigou diante dela, a expressão intraduzível. De repente, ela se sentiu uma criança pequena considerada culpada de algum delito, apavorada e calada, aguardando para descobrir seu castigo.

Mas ele simplesmente recolocou o chapéu, um gesto pausado, e virou-se para a porta.

— Acho que o tempo do meu parquímetro está acabando. Eu só queria dizer que a sua loja está muito bacana. — Ergueu a mão, a cabeça inclinada para ela.

Os olhos de Suzanna tinham ficado marejados.

— Só isso? É só isso que você vai dizer? — Ouviu o tom estridente de uma adolescente na voz, e soube, furiosa, que ele também ouvira.

— O quadro é seu, Suzanna — disse ao sair. — Faça o que quiser com ele.

* * *

Quando voltou, entrando na loja como se estivesse no meio de uma conversa, embora não se visse ninguém com ela, Jessie não tinha quase mais nenhuma marca no rosto.

— São incríveis os picolés que vendem agora. Quando eu era da idade dela, a gente tinha sorte de conseguir um Mivvi de morango, ou um Foguete. Lembra deles? Com as listras coloridas? Agora tem picolé de tudo: Mars, Bounty isso e Cornetto aquilo. Inacreditável. E mais de uma libra cada. Mesmo assim, são tão enormes que a gente também nem precisa almoçar.

Suzanna foi para o caixa. Enquanto passava para recolher recibos desgarrados, foi varrendo migalhas da mesa quase sem notar o que fazia.

— Trouxemos um de Crunchie para você. Sabia que faziam desse sabor? Emma e eu achamos que você ia preferir esse.

— Obrigada — disse Suzanna, a cara enterrada na pasta de faturas. — Pode guardar na geladeira?

Vinha olhando para as faturas havia quase vinte minutos, sem saber direito por que as examinava. A visita do pai a desequilibrara, sugara-lhe a disposição e o entusiasmo.

— Mas não demora a pegar. Vai derreter. — Jessie foi até as mesas, examinando-as à procura de xícaras vazias. — Alguém esteve aqui?

— Ninguém especial.

Isso era o mais irritante em chorar. Mesmo que o choro durasse apenas uns minutinhos, meia hora depois os sinais reveladores continuariam estampados na pele, no nariz.

Jessie talvez a tivesse olhado por uma fração de segundo a mais do que normalmente o faria.

— Eu tive uma ideia enquanto estive fora. Sobre Arturro.

— Oi?

— Vou juntá-lo com a Liliane.

— O quê?

— Tive essa ideia, sabe? O que você acha?

Suzanna ouvia o barulho de um pano sendo passado embaixo de uma torneira, e Jessie tagarelava.

Ela falou para dentro da pasta.

— Sabe de uma coisa, Jess? Eu acho que as pessoas devem simplesmente ser deixadas em paz.

— Sim, mas acho que Arturro e Liliane já passaram muito tempo sozinhos. Estão tão acostumados a viver assim que têm muito medo de quebrar o hábito.

— Talvez eles sejam mais felizes desse jeito.

— Você não acha mesmo isso.

Ah, vá embora, pensou Suzanna, esgotada. Pare de tentar me convencer de que sou alguém que não sou. Pare de tentar transformar as pessoas todas em versões mais iluminadas, mais felizes delas mesmas. Nem todo mundo vê as coisas como você.

Mas não disse nada.

— Suzanna, eles são perfeitos um para o outro. Acho que veriam isso se alguém apenas lhes desse um empurrãozinho.

Houve um breve silêncio, depois os passos de Jessie em direção às prateleiras.

— Tudo bem, sabe… Você não precisa entrar nessa. Eu só queria contar o que estou fazendo para você não entregar o jogo. — Não havia rancor em sua voz.

— Não vou.

Jessie fitou-a por um instante.

— Por que não faz uma pausa? Vai dar um passeio. Está um dia tão lindo lá fora.

— Olha, estou bem, Jessie. Me dê um tempo, sim? — As palavras saíram de um jeito mais seco do que era a intenção. Percebeu a mágoa no rosto de Jessie, que foi imediatamente disfarçada sob um sorriso compreensivo. — Ah, tudo bem, tem razão. Eu vou — disse Suzanna, pegando a carteira, injustamente magoada por estar se sentindo culpada de novo. — Olha, me desculpa, não repara. São só hormônios, ou coisa assim. — E depois se odiou por usar isso como desculpa.

* * *

Passou quase vinte minutos andando em volta da praça: era dia de feira, e viu que podia passear na sombra entre as barracas apinhadas, saboreando o breve período de invisibilidade, olhando os doces importados baratos, a barraca de alimentos integrais, os arranjos atemporais dos verdureiros, enquanto, ao mesmo tempo, tentava calar a voz interior que lhe lembrava de que as feiras de Londres eram muito mais interessantes, muito mais vibrantes, com uma variedade muito mais empolgante.

Nunca vai dar certo, admitiu para si mesma, enquanto passava pelos ossos reconstituídos, pelos quilos de sementes e rações de cachorro agrupadas que compunham a barraca de bichos de estimação. Não importa o que eu faça aqui. Por mais sucesso que a loja tenha, sempre vou desejar que a gente morasse em outro lugar. Vou sempre me ressentir de estar presa na sombra dos Fairley-Hulme. E embora eu nunca quisesse ter voltado para cá, para início de conversa, Neil, papai e a família toda vão simplesmente enxergar isso como mais uma coisa a que não sou capaz de me ater.

Suzanna se perguntou, como de costume, se teria se sentido do mesmo jeito caso sua mãe estivesse viva. Às vezes, se perguntava se o que sentia era por que ela não estava por perto.

— Quer alguma coisa, amor?

— Ah. Não. Obrigada.

Enfiou as mãos nos bolsos e continuou. A leveza interna que sentira no início do dia foi transformada em algo triste, pesado. Talvez Neil estivesse certo. Talvez ela devesse simplesmente ceder e ter um bebê. Pelo menos estaria fazendo a única coisa que todo mundo esperava dela. Provavelmente iria adorá-lo quando ele chegasse. Quase todo mundo adorava, não? Não era como se qualquer outra coisa a tivesse feito feliz.

Se é o meu destino, a minha biologia, perguntou a si mesma, caminhando lentamente de volta para a loja, por que, sempre que penso nessa ideia, todos os ossos no meu corpo protestam?

* * *

— Sabe o que você deveria fazer?

Suzanna fechou os olhos e tornou a abri-los devagar. Dissera a si mesma com firmeza que, só faltando duas horas para a loja fechar, não ia descontar mais o seu mau humor em Jessie. Mesmo Jessie exibindo um par de asas de anjo infantis e equilibrando na cabeça uns óculos cor-de-rosa francamente ridículos.

— O quê? — perguntou calmamente.

— Eu estava pensando numa coisa que Emma disse. Sobre desenhos.

— Acha que eu deveria botar as pessoas para desenhar? — Suzanna, abastecendo açucareiros, esforçou-se para esconder o sarcasmo da voz.

— Não. Mas estava pensado sobre o que dissemos antes, sobre envolver as pessoas com a loja, fidelizar a clientela. Porque é disso que você vai precisar por aqui. Você podia ter uma espécie de Cliente da Semana.

— É brincadeira?

— Não, não é. Olha o que pusemos nas paredes… as partituras antigas e os testamentos que você colou. Todo mundo que entrou aqui hoje à tarde parou para ler os testamentos, certo?

Tinha sido uma de suas melhores ideias. Encontrara o maço de testamentos amarelados manuscritos numa caçamba de lixo em Londres e os guardou numa pasta durante anos, aguardando uma chance de usá-los como papel de parede.

— E depois de terem passado tanto tempo na loja, acabam comprando alguma coisa, certo?

— E?

— Então você faz uma coisa parecida na vitrine. Mas sobre alguém que entra na loja. As pessoas são bisbilhoteiras por aqui, gostam de falar, gostam de saber da vida alheia. Então você faz uma pequena exposição sobre, digamos, Arturro. Sei lá, um textinho sobre a vida dele na Itália, como ele começou a déli. Ou talvez simplesmente pegue uma coisa da vida dele… o melhor ou o pior dia que ele consegue lembrar... e faça uma exposição em torno disso. As pessoas parariam para ler e, sendo vaidosas, como a maioria é, cada uma podia querer uma mostra pessoal.

Suzanna resistiu ao impulso de dizer a Jessie que, do jeito que ela se sentia agora, a loja talvez não durasse muito.

— Acho que as pessoas não vão querer botar a vida delas numa vitrine.

— Pode até achar que não. Mas você não é como a maioria das pessoas.

Suzanna ergueu os olhos bruscamente. A expressão de Jessie era inocente.

— Isso vai trazer mais gente. Vai aumentar o interesse. Aposto que eu conseguiria convencer as pessoas a fazer isso… me deixa tentar.

— Não vejo como poderia funcionar. Quero dizer, o que você faria com Arturro? Ele não diz mais que duas palavras por vez, e não quero a vitrine da loja cheia de salames.

— Me deixa tentar.

— E, afinal, todos nessa cidade parecem saber tudo que há para saber uns sobre os outros.

— Vou fazer isso eu mesma. E se você achar que não está dando certo, eu paro. Não vai te custar nada.

Suzanna fez uma careta. Por que a vida de todo mundo tem que ficar exposta aqui?, pensou com irritação. Por que todo mundo tem que se meter? A vida nesta cidade seria muito mais suportável se as pessoas pudessem continuar cuidando dos próprios assuntos em particular.

Jessie parou na frente dela, o sorriso largo e compreensivo. Suas asas de arame repicavam animadamente às suas costas.

— Vou mostrar para você como pode dar certo. Olha, o próximo que entrar aqui, vou convencer a fazer isso. Prometo. Você vai descobrir todo tipo de gente que não conhecia.

— Se você acha...

— Vamos, vai ser divertido.

— Ai, meu Deus, se for a Sra. Creek, não vai sobrar espaço na vitrine.

Enquanto Suzanna esticava o braço para pegar a caixa de leite vazia, a porta abriu. As duas se entreolharam quase com culpa. Jessie hesitou, depois sorriu, um sorriso grande, cúmplice.

O homem olhou para elas, como se em dúvida se entrava.

— Gostaria de um café? Ainda estamos servindo.

Ele lembrava um pouco os rapazes da déli, porém era mais alto, e tinha a expressão frustrada de alguém que achava que um dia quente na Inglaterra podia ser considerado frio. Estava com o jaleco azul do hospital local por baixo de um casaco de couro velho, e seu rosto, que era comprido e anguloso, estava quase paralisado, como se ele estivesse muito cansado para mover algum músculo.

Suzanna se deu conta de que ele a olhava, então baixou os olhos bruscamente.

— Você tem expresso? — Tinha sotaque estrangeiro, mas não italiano.

Olhou para o quadro, depois de volta para as duas mulheres, tentando precisar as razões da alegria mal contida da mais baixa, do papel involuntário dele no ambiente estranho.

— Ah, sim — disse Jessie, radiante para Suzanna e depois para ele. Pegou uma xícara e colocou-a, com um floreio, embaixo do bico da máquina de expresso, fazendo sinal para que ele se sentasse. — Aliás, se estiver disposto a me dar uns minutinhos, acho que esse expresso pode ser por minha conta.