A Loja dos Sonhos
Doze
O problema em envelhecer não era tanto ficar presa ao passado, Vivi costumava pensar, mas sim o tanto de passado que havia para nos prender. Ela andara arrumando a velha escrivaninha na sala, determinada a botar todas aquelas fotografias sépia num álbum, com sorte, antes de os homens entrarem. Mas, de repente, já eram quase cinco e meia. Ela se pegara inerte no sofazinho, absorta em imagens do que ela era antes, em retratos que não parava para olhar fazia anos: pendurada no braço de Douglas em várias ocasiões sociais, posando toda afetada de vestido, orgulhosamente segurando bebês recém-nascidos e, depois, quando eles ficavam maiores, com um ar cada vez menos confiante, o sorriso talvez um pouco mais forçado a cada ano. Quem sabe estivesse sendo muito dura consigo mesma. Ou talvez sentimental, projetando em sua versão do passado emoções que a inundavam no presente.
Suzanna fora uma criança fácil. Quando Vivi considerava a comoção dos primeiros anos da filha, e sua própria falta de experiência como mãe, ficava espantada por ter dado tudo certo. A infância de Suzanna nunca fora um problema, ao contrário da puberdade, quando aquelas pernas compridas desengonçadas alcançaram uma certa elegância de sílfide, quando aquelas maçãs do rosto quase eslavas começaram a realçar os planos antes ocultos de seu rosto, que um eco distante nitidamente perturbara a paz de espírito de Douglas. E Suzanna, talvez reagindo a alguma vibração invisível na atmosfera, saíra dos trilhos.
De forma racional, Vivi sabia que não era culpada: ninguém poderia ter oferecido a Suzanna um amor mais incondicional, ter entendido melhor sua natureza complicada. Mas a maternidade nunca era racional: mesmo agora, com Suzanna estável como nunca — e tendo um marido maravilhoso como Neil —, Vivi sentia-se cheia de culpa por de certa maneira não ter conseguido criar esta filha para ser feliz.
— Não há razão para ela não ser feliz — dizia Douglas. — Teve uma vida cheia de privilégios.
— Sim, bem, às vezes não é tão simples assim.
Vivi raramente se aventurava em psicologia familiar: Douglas não concordava com tais discussões e, além disso, estava certo a seu modo. Suzanna tivera tudo. Todos eles tiveram. O fato de ela e os dois filhos de Douglas estarem tão satisfeitos não diminuíra seu sentimento de responsabilidade... pelo contrário. Vivi passara anos se perguntando no íntimo se havia tratado os filhos com alguma diferenciação, se inconscientemente incutira em Suzanna a sensação de não ser boa o suficiente.
Ela sabia quão sedutor esse sentimento podia ser.
Douglas disse que era bobagem. A visão que ele tinha dos relacionamentos era simples: tratava-se bem os outros e esperava-se ser bem tratado por eles. Os pais amavam os filhos e eram amados por eles também. Davam a eles todo o apoio, e, em troca, eles tentavam dar orgulho para os pais.
Ou, no caso de Suzanna, recebiam amor dos pais e faziam de tudo para se tornar infelizes.
Acho que não consigo suportar isso mais tempo, pensou, os olhos se enchendo de lágrimas enquanto olhava para a Suzanna de onze anos, agarrada à cintura prematuramente engrossada de Vivi. Alguém tem que fazer alguma coisa. E hei de me odiar se pelo menos não tentar.
O que Athene teria feito? Vivi havia muito deixara de se fazer essa pergunta: Athene era tão imprevisível que não dava para imaginar quais seriam seus próximos passos, mesmo em vida. Agora, uns trinta anos mais tarde, parecia tão inconsistente, sua memória tão forte e ao mesmo tempo tão efêmera, que era difícil imaginá-la sequer como mãe. Teria ela entendido a natureza complicada da filha, que ecoava a dela? Ou teria feito mais estragos ainda, entrando e saindo da vida de Suzanna, fracassando em se ater à maternidade como mais um exemplo doloroso de seu temperamento sempre volúvel?
Você tem sorte, disse Vivi à mãe invisível na fotografia, subitamente com inveja, pensando em como Douglas a rechaçara quando ela tentara mais uma vez tocar no assunto de Rosemary e a roupa suja. É mais fácil ser um fantasma. Pode ser romantizada, adorada, pode-se crescer na lembrança em vez de diminuir na realidade. Depois, obrigando-se a se levantar da cadeira e vendo a hora, censurou-se pelo capricho extravagante de invejar os mortos.
* * *
Alejandro chegou às nove e quinze. Ia lá quase todo dia agora, mas sempre em horas diferentes, conforme a escala aparentemente aleatória de seus plantões. Não falava muito. Nem sequer lia um jornal. Limitava-se a ficar sentado no canto tomando seu café, de vez em quando sorrindo em resposta à conversa animada de Jessie.
Jessie, que nunca demorava a puxar conversa, impusera-se a missão de descobrir tudo sobre o homem que chamava de Gine Gaúcho, fazendo-lhe perguntas de um jeito que às vezes deixava Suzanna constrangida. Ele sempre fora parteiro? Só desde que se dera conta de que não ia entrar para a seleção de futebol da Argentina. Gostava de fazer partos? Sim. As mulheres se incomodavam de ter um homem como parteiro? Em geral, não. Ele recuava com elegância quando elas se incomodavam. Descobrira, disse, que, se usasse um jaleco branco, ninguém pestanejava. Ele tinha namorada? Não. Suzanna teve que olhar para o lado quando ele deu essa resposta, furiosa consigo mesma por seu rubor suave, mas nítido.
Ele não parecia se importar com as perguntas de Jessie, embora muitas vezes conseguisse não respondê-las diretamente. Sentava-se perto do balcão, notara Suzanna, o que demonstrava certo grau de conforto com elas. Suzanna, por sua vez, fazia questão de quase não chegar perto dele, que já parecia, de certa forma, ser de Jessie. Ela sentia que, se tentasse ser igualmente simpática, deixaria todo mundo desconfortável.
— Quantos partos você fez hoje?
— Só um.
— Alguma complicação?
— Só um pai desmaiado.
— Fantástico. O que você fez?
Alejandro olhara para as mãos.
— Não foi numa hora muito propícia. A gente só teve tempo de tirá-lo da frente.
— O quê... arrastá-lo?
Alejandro parecera levemente envergonhado.
— Nossas mãos estavam ocupadas. Tivemos que empurrá-lo com os pés.
Jessie adorava ouvir essas histórias. Suzanna, com mais melindres, muitas vezes tinha que aumentar o volume da música ou inventar alguma tarefa no porão. Aquilo tudo estava mexendo um pouquinho demais com ela. Mas muitas vezes se pegava olhando para ele, ainda que disfarçando: embora a aparência daquele homem não fosse prender a sua atenção em Londres (aliás, talvez o tornasse invisível: ela provavelmente presumiria que ele era um imigrante mal remunerado), nos arredores excessivamente caucasianos da cidade de Suffolk, e no interior de sua lojinha, ele era uma agradável lufada de beleza, um lembrete de um mundo maior fora dali.
— Ele perdeu o nascimento?
— Mais ou menos. Mas acho que estava meio confuso. — Ele sorriu sozinho. — Tentou me dar um murro quando voltou a si e depois me chamou de “mãe”.
Contara-lhes uma outra história, de um homem que, enquanto a mulher gritava de dor, ficara sentado na ponta da cama, calmamente lendo o jornal. Alejandro envergara com o peso da mulher, enxugara-lhe a testa, secara-lhe as lágrimas, enquanto o marido nem erguia os olhos do jornal. Quando o bebê nasceu, contou com calma, Alejandro queria bater no homem. Mas a mulher, incrivelmente, não parecia guardar ressentimento. Quando colocaram o bebê nos braços dela, o marido se levantou, olhou para os dois, beijou a mulher na testa ainda suada e saiu do quarto. Alejandro, chocado e furioso, perguntou a ela, com o maior tato possível, se ela tinha ficado feliz com a reação do marido.
— Ela olhou para mim — disse ele, e deu um sorriso largo — e falou “ah, sim”. A minha cara deve ter revelado a minha confusão, então ela explicou: o marido tinha pavor de hospital. Mas ela precisava de sua companhia. Fizeram um trato de que se ele conseguisse entrar no quarto, só para ela saber que ele estava presente, ela aguentaria firme. Por amá-la, ele se obrigou a fazer isso.
— Então a moral da história é... — disse Jessie.
— Não julgue um homem por seu jornal — disse o padre Lenny, erguendo os olhos de suas palavras cruzadas.
Jessie quis fazer uma vitrine sobre ele, quis uma história sobre algum nascimento milagroso (“meio que combina, sendo uma loja nova e tudo”), mas Alejandro fora reticente. Não achava, disse com sua voz calma e educada, que já podia afirmar ser um dos clientes assíduos da loja. Havia algo decisivo o bastante em seu tom para Jessie recuar. E apesar de seu charme poderoso (Suzanna achava que ela provavelmente poderia flertar até com um tijolo), Alejandro não satisfazia a nenhuma de suas expectativas em relação aos homens. Não andava todo emproado nem olhava para elas com intenções escusas.
— Deve ser gay — disse Jessie quando, com um até logo educado, ele saiu para trabalhar.
— Não — disse Suzanna, que não sabia ao certo se era um desejo ou um palpite.
* * *
Jessie machucara a mão. E não fora Suzanna, mas Arturro quem reparou, quando veio tomar seu expresso matinal.
— Você se machucou? — Levantara a mão dela do balcão com a ternura de alguém acostumado a tratar os alimentos com reverência, e virou-a para a luz, revelando uma grande mancha roxa em três dedos.
— Prendi a mão na porta do carro — disse Jessie, e puxou-a de volta com um sorriso. — Desastrada, né?
Fez-se um silêncio constrangedor inesperado na loja. O hematoma era horrível, um lembrete lívido de uma dor extrema. Suzanna olhou para a cara de Arturro, notando que Jessie se recusava a olhar diretamente para qualquer um deles, e sentiu-se envergonhada por não ter visto aquilo antes. Ia perguntar, achando que talvez pudesse fazer Jessie se abrir com ela se o assunto fosse abordado com tato, mas enquanto pensava em todas as perguntas possíveis, concluiu que todas as variações possíveis soavam não apenas intrusivas, mas idiotas, e possivelmente condescendentes também.
— Creme de arnica — disse, por fim. — Dizem que diminui o hematoma mais rápido.
— Ah, não se preocupe. Já passei. Tem aos montes lá em casa.
— Tem certeza de que não quebrou os dedos? — Arturro continuava olhando para a mão de Jessie. — Estão me parecendo meio inchados.
— Não, eu consigo mexê-los. Olha. — Fez um aceno alegre com os dedos, depois tornou a se virar para a parede. — Então, quem vai estar na primeira vitrine? Eu queria muito colocar o Alejandro, mas acho que aquela história do bebê que foi dado faria todo mundo chorar.
— Foi ele, não foi? — perguntou Suzanna, muito depois, quando estavam sozinhas.
— Quem? — Jessie estava trabalhando na vitrine: escolhera o padre Lenny, que concordara achando certa graça, mas só se ela mencionasse que ele estava com quase duzentos massageadores de costas a pilha para vender. (“Não me parecem muito massageadores de costas”, dissera Jessie, erguendo um deles, em dúvida. “Sou padre”, respondera o padre Lenny, “o que mais seriam?”)
— Seu namorado. Que machucou seus dedos. — Durante a tarde inteira, sentiu que havia esse consenso entre elas, e foi cada vez mais consumida pela necessidade de que isso fosse pelo menos reconhecido, mesmo correndo o risco de se indispor com Jessie.
— Prendi os dedos na porta do carro.
Suzanna demorou um pouco a falar.
— Você quer dizer que ele prendeu.
Jessie estava ajoelhada na vitrine. Levantou-se e recuou dali com cuidado para não deslocar nenhum dos itens em exibição. Ergueu a mão e examinou-a, como se pela primeira vez.
— É muito difícil de explicar.
— Tente.
— Ele gostava quando eu só ficava em casa com Emma. Isso tudo começou quando passei a estudar à noite. Ele se descontrola porque fica inseguro.
— Por que você não vai embora?
— Ir embora? — Ela pareceu verdadeiramente surpresa, até mesmo, talvez, ofendida. — Ele não é um agressor de mulheres, Suzanna.
Suzanna ergueu as sobrancelhas.
— Olha, eu o conheço e sei que no fundo ele não é assim. Só está se sentindo ameaçado porque estou estudando e ele acha que isso quer dizer que vou deixá-lo. E agora tem isto aqui, que é outra novidade. Com certeza, eu não ajudo... você sabe que vivo falando com todo mundo. De fato, nem sempre eu penso no lado dele... — Ela olhou pensativa para sua vitrine inacabada. — Olha, quando vir que nada vai mudar, ele vai voltar a ser do jeito que era. Não esqueça, Suzanna. Eu o conheço. Estamos juntos há dez anos. Esse não é o Jason que eu conheço.
— Eu só acho que não existe qualquer desculpa para isso.
— Não estou dando desculpas. Estou explicando. Há uma diferença. Olha, ele sabe que agiu mal. Não pense que eu sou uma vitimazinha acuada. A gente simplesmente briga e, quando briga, às vezes briga feio. E eu não deixo barato, entende?
No longo silêncio, a atmosfera na loja ficara opressiva. Suzanna não disse nada, com medo de como poderia soar, consciente de que, mesmo calada, estava fazendo uma espécie de julgamento.
Jessie se encostou numa das mesas e olhou diretamente para ela.
— Tudo bem, o que realmente te incomoda nisso?
A voz de Suzanna, quando saiu, era mansa.
— O efeito que isso pode ter sobre Emma? O que ela está aprendendo com isso?
— Acha que eu deixaria alguém encostar a mão em Emma? Acha que eu ficaria em casa se achasse que Jason podia encostar a mão nela?
— Não estou dizendo isso.
— Então o que está dizendo?
— Que.. Que... Sei lá... Só me sinto mal com qualquer tipo de violência.
— Violência? Ou paixão?
— O quê?
Era a primeira vez que Jessie tinha fechado a cara.
— Você não gosta de paixão, Suzanna. Gosta de coisas arrumadinhas. Gosta de manter tudo guardado. E tudo bem. É escolha sua. Mas Jason e eu, nós somos honestos em relação ao que sentimos... quando amamos, amamos de verdade. Mas, quando brigamos, brigamos de verdade. Não há meias medidas. E sabe de uma coisa? Acho melhor assim do que o oposto, que é o casal se incomodar tão pouco um com o outro que leva um tipo de vida paralela fria, educada. Faz sexo uma vez por semana. Que nada, uma vez por mês. Briga baixinho para não acordar as crianças. O que as pessoas aprendem com uma vida assim?
— As duas coisas não precisam... — Suzanna deixou a frase no ar.
De forma racional, sabia que poderia ter questionado o sentido do que Jessie dizia, apesar de toda a contundência na argumentação dela, mas, mesmo que não tivesse sido mal-intencionado, havia ali algo tão desconcertante que Suzanna mal conseguiu falar. Na descrição de Jessie da relação que ela não queria, da relação que temia mais do que a violência, do que a mão quebrada, Suzanna enxergara nitidamente seu casamento com Neil.
* * *
A visita de Vivi naquela tarde fora quase um alívio: Suzanna e Jessie, embora aparentemente gentis uma com a outra, haviam perdido um pouco da espontaneidade, como se a franqueza da conversa tivesse sido muito prematura para que a amizade recente sobrevivesse. Arturro tomara seu café inusitadamente depressa e, com um obrigado nervoso, foi embora. Dois outros clientes que falavam alto no canto, alheios, disfarçaram por um momento o longo silêncio entre elas. Mas agora que haviam ido embora, era dolorosamente notável que a tagarelice normal de Jessie fora atenuada, substituída pela sensação de que ela estava medindo tudo o que dizia. Suzanna, fazendo um esforço gigante para falar com os clientes para atenuar o clima tenso, pegou-se cumprimentando Vivi com um carinho incomum, que a mãe, corada de prazer ao ser abraçada, retribuíra avidamente.
— Então é isso! — exclamou, várias vezes, à porta. — Como você é esperta!
— Que nada — disse Suzanna. — São só umas mesas e umas cadeiras.
— Mas olhe que cores lindas! Todas essas coisas bonitas! — Abaixou-se para examinar as prateleiras. — É tudo excepcional. E está muito bem arrumado. Eu queria passar aqui, sim... mas sei que você não gosta de sentir que estamos todos te vigiando. E, nas vezes que passei por aqui, você dava a impressão de estar ocupada... enfim. Empório Peacock — disse, lendo lentamente uma etiqueta. — Ah, Suzanna, estou muito orgulhosa de você. Realmente não tem nada como esta loja nas redondezas.
Foi como se, Suzanna pensou, seu acesso de carinho evaporasse. Vivi nunca era capaz de acertar no nível de emoção: seu excesso de entusiasmo deixava o receptor incapaz de aceitá-lo com elegância.
— Quer um café? — Indicou o cardápio na lousa, tentando disfarçar seus sentimentos.
— Eu adoraria. Você mesma prepara?
Suzanna resistiu ao impulso de erguer as sobrancelhas.
— Bem. Sim.
Vivi sentou-se cuidadosamente numa das cadeiras azuis e olhou para as almofadas no banco.
— Você usou aquele tecido do sótão que te dei.
— Ah, aquele. Sim.
— Está muito melhor aqui. Quase se passa por contemporâneo, não é, aquele estampado? Ninguém diria que tem mais de trinta anos. Um velho amigo me deu. Posso ficar aqui? Não estou atrapalhando ninguém? — Ela segurava a bolsa à frente com as duas mãos, feito uma velhinha nervosa.
— Isso é uma loja, mãe. A pessoa pode sentar em qualquer lugar. Ah, Jessie, essa é a minha mãe, Vivi. Mãe, Jessie.
— Prazer em conhecê-la. Eu faço o seu café — disse Jessie, que estava atrás da máquina. — Qual você quer?
— Qual você recomendaria?
Ah, pelo amor de Deus, pensou Suzanna.
— O latte é bom, se você não gosta muito forte. Ou a gente faz um mocha, com chocolate.
— Um mocha, eu acho. Vou me dar o luxo.
— Precisamos completar os flocos de chocolate, Suzanna. Quer que eu pegue mais?
— Tudo bem — disse Suzanna, profundamente consciente da nova formalidade de Jessie. — Eu pego.
— Não tem problema. Posso ir agora.
— Não, sério. Eu pego. — Seu tom de voz estava errado, muito insistente... como o de chefe.
— Está realmente um espanto. Você mudou completamente a cara da loja. E tem um gosto tão pessoal! — Vivi olhava em volta. — Adoro os cheiros, o café e o... O que é isso? Ah, sabonete. E perfume. Não são lindos? Vou dizer a todas as minhas amigas para comprarem os sabonetes delas aqui.
Normalmente, Suzanna reparou, Jessie já teria se sentado com Vivi, a estaria bombardeando com perguntas. Em vez disso, estava concentrada na máquina de café, a mão machucada agora escondida por uma manga excessivamente comprida.
Vivi segurou a mão de Suzanna.
— Não sei nem dizer o quanto achei a loja espetacular. Todo o seu bom gosto. Parabéns, querida. Acho que é simplesmente maravilhoso você ter realizado tudo sozinha.
— Ainda está no começo. Ainda não estamos no lucro nem nada.
— Ah, vão estar. Tenho certeza. É tudo muito... original.
Jessie entregou o café com um sorriso mudo, depois pediu licença para desembalar umas joias que haviam acabado de chegar.
— Se você concordar, Suzanna...
— É óbvio que concordo.
— O café está uma delícia. Obrigada, Jessie. Definitivamente é o melhor de Dere.
— Isso não seria difícil. — Suzanna tentou fazer piada, esperando que Jessie sorrisse.
Achava que não conseguia aguentar mais isso. Por outro lado, talvez ela merecesse, dada a sua atitude crítica idiota. O que Jessie fizera, afinal, perguntou-se, além de ser honesta?
Suzanna virou-se para Vivi, animada.
— Adivinha só, mãe. Vamos bancar o Cupido. Ideia da Jessie. Vamos juntar dois corações solitários sem eles saberem.
Vivi bebericou cuidadosamente o café.
— Parece empolgante, querida.
— Eu tinha intenção de lhe contar, Jess, comprei esses. Pensei que você podia usá-los... sabe, como você disse. — Esticou o braço para trás do balcão e sacou uma caixinha de chocolates embrulhada em papel dourado. Jess olhou para aquilo. — Foi uma ideia muito boa. Acho que você deveria colocar em prática. Ponha os chocolates lá, sabe, antes de ela ir embora hoje à noite. Ou quem sabe amanhã à primeira hora.
O olhar de Jessie continha uma leve interrogação, e uma compreensão silenciosa se formou entre elas.
— O que acha?
— Esses são perfeitos — disse Jessie, com o antigo sorriso espontâneo. — Liliane vai adorar.
Suzanna sentiu algo relaxar dentro de si. A própria loja pareceu respirar e se iluminar um pouco.
— Vamos todas tomar um café. Eu faço, Jess. Uns biscoitos do Arturro. Capuccino para você?
— Não, estou bem. — Tornou a guardar os chocolates embaixo do balcão. — É melhor esconder esses, caso ele volte. Pronto, você está a par de um segredo aqui, Sra. Peacock. Não pode dizer uma palavra.
— Ah, eu não sou Sra. Peacock — corrigiu Vivi afavelmente. — Esse é o nome de casada de Suzanna.
— Ah? Então qual é o seu sobrenome?
— Fairley-Hulme.
Jess virou-se para Suzanna.
— Você é uma Fairley-Hulme?
Vivi balançou a cabeça.
— Ela é, sim. Uma de três.
— Da propriedade Dereward? Você nunca disse.
Suzanna sentiu-se estranhamente flagrada.
— Por que eu diria? — perguntou, um pouco rude. — Eu não moro na propriedade. A rigor, sou uma Peacock.
— Sim, mas...
— É só um nome.
O alívio de Suzanna — pelo clima entre ela e Jessie ter se desanuviado — se dissipou. Teve a sensação de que sua família se intrometera fisicamente ali.
O olhar de Jess se revezou entre as duas mulheres e voltou para o balcão à sua frente.
— Mesmo assim. Está tudo fazendo sentido agora. Adoro o quadro — disse para Vivi.
— Quadro?
— O retrato. Suzanna ia pendurá-lo aqui, mas acha que não fica bom. Já ouvi falar dos retratos da sua família. Ainda deixam pessoas entrarem para vê-los no verão?
Jessie virou-se para o quadro, ainda visível por entre os pés do balcão. Vivi corou quando viu a pintura.
— Ah, não, querida. Essa não sou eu. É Athene.
— Vivi não é a minha mãe biológica — interveio Suzanna. — Minha mãe biológica morreu quando eu nasci.
Jessie não falou nada, como se estivesse esperando que dissessem mais alguma coisa. Mas Vivi agora fitava o retrato, e Suzanna pareceu estar pensando em outra coisa.
— Não, agora eu vejo. Cabelo diferente. E tudo... — Jessie deixou a frase no ar, consciente de que ninguém estava ouvindo.
Por fim, Vivi quebrou o silêncio, tirando os olhos do quadro e pondo-se de pé. Pousou a xícara vazia cuidadosamente no balcão na frente de Jessie.
— Sim. Bom. É melhor eu ir embora. Prometi levar Rosemary para visitar uma de suas velhas amigas em Clare. Ela deve estar se perguntando onde estou. — Apertou mais o lenço de seda no pescoço. — Eu só queria passar para dar um oi.
— Prazer em conhecê-la, Sra. Fairley-Hulme. Volte logo. Pode provar um de nossos cafés com sabor.
Vivi fez menção de pagar, mas Jessie fez um gesto afastando-a.
— Não seja boba. Você é da família.
— Você... Você é muito simpática. — Vivi pegou a bolsa e se encaminhou para a porta. Depois virou-se para Suzanna. — Olhe, querida. Eu estava pensando. Por que você e Neil não vêm jantar conosco esta semana? Nada de mais, como a última vez. Só um jantarzinho. Seria ótimo ver vocês.
Suzanna estava arrumando as revistas na estante.
— Neil chega em casa tarde.
— Venha sozinha, então. Nós adoraríamos receber você. Rosemary teve uns... problemas, ultimamente. E sei que você a animaria.
— Me desculpe, mãe. Estou muito ocupada.
— Só você e eu, então?
Suzanna não havia tido intenção de ser ríspida, mas alguma coisa na situação dos sobrenomes, ou talvez do quadro, a deixara irritável.
— Olha, mãe, eu já disse. Tenho que fazer a contabilidade e várias outras coisas depois do trabalho agora. Não tenho as noites livres. Uma outra hora, sim?
Vivi disfarçou a frustração com um sorriso hesitante. Pôs a mão na maçaneta e bateu num móbile rodopiante quando recuou, tendo que afastá-lo da cabeça.
— Certo. Lógico. Adorei conhecer você, Jessie. Boa sorte com a loja.
Suzanna enterrou-se de novo nas revistas, recusando-se a olhar nos olhos de Jessie. Enquanto Vivi saía, elas a ouviram murmurando, como se para si mesma, mesmo quando já tinha passado da porta. “Sim, está maravilhosa mesmo...”
— Jess — chamou Suzanna, vários minutos depois. — Me faça um favor. — Ergueu os olhos. Jessie continuava olhando para ela firmemente do outro lado do balcão. — Não fale sobre isso. Com os clientes, quero dizer. Sobre eu ser uma Fairley-Hulme. — Esfregou o nariz. — Eu só não quero que isso... vire um problema.
A expressão de Jessie era neutra.
— Você que manda.
* * *
— Você nunca vai adivinhar aonde eu vou.
Neil entrara de supetão, e Suzanna, embora em grande parte escondida pela espuma, sentiu-se curiosamente exposta. Um dos maiores incômodos em deixar o apartamento de Londres foi ter que dividir o banheiro. Ela se controlou para não perguntar se ele se importaria de sair dali.
— Aonde?
— Caçar. Com seu irmão. — Ergueu os braços, empunhando um rifle imaginário.
— Não está na época.
— Não é agora. Na primeira caçada da próxima estação. Ele me telefonou hoje de manhã, disse que estão com uma vaga. Vai me emprestar uma espingarda e o equipamento todo.
— Mas você não caça.
— Ele está ciente de que sou iniciante, Suze.
Suzanna franziu o cenho para os pés, que mal se viam na outra ponta da banheira.
— Simplesmente não parece ser a sua praia.
Neil afrouxou a gravata e fez uma careta para si mesmo no espelho ao examinar um corte antigo feito ao se barbear.
— Para dizer a verdade, estou ansioso. Sinto falta de me exercitar desde que perdemos o convênio com a academia. Vai ser bom praticar uma atividade física.
— Caçar não é correr meia maratona.
— Mesmo assim é uma atividade ao ar livre. Tem bastante caminhada.
— E um almoço farto. Cheio de banqueiros gordos enchendo a cara. Você não vai ficar em forma assim.
Neil enrolou a gravata na mão e sentou-se na privada, ao lado da banheira.
— Qual é o problema? Você não tem estado por aqui nos fins de semana. Não sai da loja.
— Eu avisei que teria muito trabalho.
— Não estou reclamando, só dizendo que eu poderia fazer alguma coisa com os meus fins de semana, se você vai estar trabalhando.
— Ótimo.
— Então qual é o problema?
Suzanna encolheu os ombros.
— Não tem problema nenhum. Como eu disse, só achei que caçar não fosse a sua praia.
— E não era. Mas agora a gente mora no interior.
— Isso não quer dizer que você precisa começar a usar roupas de tweed e falar sem parar sobre armas e faisões. Honestamente, Neil, não existe nada pior do que uma pessoa da cidade fingir que tem raízes rurais.
— Mas se estão me oferecendo a chance de experimentar uma coisa nova, de graça, seria bobagem minha rejeitar. Vamos, Suze, não é como se a gente estivesse se divertindo muito ultimamente. — Ele inclinou a cabeça. — Olha só, por que você não arranja alguém para cuidar da loja e vem também? Você tem tempo à beça para organizar isso. Podia ser uma batedora ou seja lá como eles chamam. — Levantou-se e imitou o movimento com a mão. — Nunca se sabe, ver você com uma vara — sorriu sugestivamente — podia fazer milagres por nós.
— Eca. Minha ideia de inferno. Obrigada, mas acho que posso pensar em outras maneiras de passar meus fins de semana que não matando criaturinhas penosas.
— Me perdoe, Linda McCartney. Vou libertar o frango assado, o que acha?
Suzanna fez um gesto pedindo uma toalha e saiu da banheira, mal revelando dois centímetros de pele antes de se cobrir.
— Olha, é você quem fica me acusando de ser chato e previsível. Por que está me agredindo por tentar uma novidade?
— Eu simplesmente odeio gente tentando ser o que não é. É forçado.
Neil ficou parado diante dela, abaixado para não bater com a cabeça nas vigas.
— Suze, estou cansado de ter que ficar me desculpando. Por ser eu. Por cada raio de decisão que tomo. Em algum momento você simplesmente vai ter que aceitar que vivemos aqui agora. Este é o nosso lar. E aceitar o convite do seu irmão para caçar ou caminhar ou tosquiar ovelhas não significa que eu seja forçado. Significa apenas que estou tentando aproveitar as oportunidades que surgem. Que eu, pelo menos, estou tentando me divertir de vez em quando. Mesmo que você continue determinada a ver o pior em tudo.
— Bem, um viva para você, fazendeiro. — Ela não foi capaz de pensar numa maneira mais inteligente de reagir.
Houve um longo silêncio.
— Sabe de uma coisa? — disse Neil, por fim. — Se quer mesmo que eu seja cem por cento sincero, ando achando que essa loja não está nos fazendo nada bem. Que bom que você está feliz com o trabalho, eu não queria dizer nada porque sei que é muito importante para você, mas há um bom tempo venho achando que isso não está nos ajudando. — Esfregou o cabelo, depois olhou-a nos olhos. — E o engraçado é que de repente eu me pergunto se o problema é mesmo a loja.
Suzanna sustentou seu olhar pelo que pareceu uma eternidade. Depois passou por ele e seguiu depressa pelo corredor estreito para o quarto, onde, de um jeito ostensivamente ruidoso, começou a secar o cabelo, os olhos bem fechados para conter as lágrimas.
* * *
Douglas encontrou Vivi na cozinha. Ela se esquecera de que tinha prometido uns dois bolos para o leilão do Instituto das Mulheres no sábado e se levantara com relutância do consolo soporífico da televisão e do sofá. Os planos complicados de Rosemary para a manhã seguinte não lhe dariam tempo de cuidar disso.
— Você está toda suja de farinha — disse ele, olhando para o suéter dela.
Ele tinha ido tomar um drinque com um dos atacadistas de grãos local: ela sentiu cheiro de cerveja e fumaça de cachimbo quando ele se abaixou para lhe dar um beijo no rosto.
— Sim. Acho que ela sabe que odeio fazer bolo. — Com a faca virada de lado, Vivi alisou a massa na forma.
— Não sei por que você não compra no supermercado. Bem mais prático.
— As senhorinhas esperam que seja caseiro. Ia ter o maior ti-ti-ti se eu lhes desse um bolo comprado em loja... — Fez um gesto para o fogão. — Seu jantar está no forno de baixo. Eu não sabia a que horas você voltaria.
— Me desculpe. Eu pretendia telefonar. Não estou com tanta fome, para ser sincero. Me enchi de batata frita, amendoim e porcarias. — Ele abriu o armário superior, procurando um copo, depois sentou-se pesadamente e se serviu de um uísque. — Ouso dizer que Ben vai repetir.
— Ele saiu.
— Ipswich?
— Bury, acho eu. Pegou meu carro. Deveria arrumar um para si logo.
— Acho que ele está torcendo para eu deixar o Range Rover de herança se ele esperar o suficiente.
No corredor, ouviu-se um chiado quando o terrier aparentemente emboscou o gato idoso de Rosemary. Dava para ouvir as garras dele raspando nas pedras e derrapando ao entrar em outra sala. A cozinha tornou a ficar em silêncio, interrompido apenas pelo tique-taque regular do relógio de parede vienense que ela ganhara de casamento dos pais, um dos poucos presentes recebidos, já que não tinha sido um casamento daqueles.
— Vi Suzanna hoje — disse Vivi, ainda alisando a massa do bolo. — Ela está bem fria. Mas a loja estava linda.
— Eu sei.
— O quê? — Vivi ergueu a cabeça de repente.
Douglas tomou um longo gole do uísque.
— Eu ia te contar. Fui vê-la semana passada.
Vivi estava prestes a pôr o bolo no forno. Parou.
— Ela não falou.
— Sim, terça-feira, acho que foi... Achei que essa briga boba já tinha se prolongado muito. — Douglas segurava o copo com as duas mãos. Mãos ressecadas, com os nós dos dedos vermelhos, embora o alto verão já estivesse chegando.
Vivi tornou a se virar para o forno, pôs o bolo lá dentro e fechou a porta com cuidado
— E vocês se resolveram? — Esforçava-se para disfarçar a consternação da voz, para conter a fúria de seu sentimento de exclusão. Sabia que estava sendo infantil, mas não sabia o que a magoava mais: que, depois de todas as suas preocupações com a relação deles, depois de todas as suas tentativas de agir como mediadora, nem pai nem filha tinham pensado em lhe contar isso; ou, se ela ousasse admitir para si mesma, que não tinha sido só Douglas a estar naquela loja antes dela. — Douglas?
Ele parou, e ela se perguntou, por um delírio momentâneo, durante quanto tempo ele contemplara a imagem.
— Não — disse ele, por fim. — Não muito.
Ele suspirou, um ruído estranhamente fúnebre, e olhou para ela, a expressão fatigada e vulnerável. Vivi sabia que ele meio que esperava que ela o abraçasse, dissesse alguma coisa tranquilizadora, lhe garantisse que a filha iria mudar de ideia. Que ele havia feito a coisa certa. Que eles todos iam ficar bem. Mas, pela primeira vez, Vivi não estava a fim.