A Loja dos Sonhos
Vinte e quatro
A primeira noite que Suzanna Fairley-Hulme passou com sua família foi cenário de enorme transtorno na propriedade Dere, de grande emoção e insônia, de ansiedade e inquietude e de medo mal disfarçado. Retirada do ambiente em que passara os primeiros meses, de tudo e de todos os que tinha conhecido, era de se esperar que ela ficasse bastante inquieta, mas a bebê dormiu pacificamente do crepúsculo até quase sete e meia da manhã seguinte. Foram os novos adultos em sua vida que só conseguiram alguns momentos de sono.
Rosemary Fairley-Hulme, que tinha se acostumado a ter de novo o filho na casa da família, entrara em pânico quando ele não chegou no fim da noite, e mais ainda quando se deu conta de que nem ela nem o marido tinham ideia de onde ele passara o dia. Até meia-noite, ela andara de um lado para o outro nos assoalhos rangentes, olhando pelos vitrais na esperança vã de ver dois faróis chegando lentamente pelo acesso. A governanta, tirada da cama, disse a Rosemary que tinha visto o Sr. Douglas pegar um táxi para a estação às dez horas naquela manhã. O chefe da estação, quando ela fez Cyril ligar para ele, disse que Douglas usava um terno elegante.
— Foi até a cidade para assistir a um show, foi? — perguntou jovialmente. — Que bom para ele desopilar um pouco.
— Mais ou menos isso, Tom — disse Cyril Fairley-Hulme, e desligou.
Foi aí que eles ligaram para Vivi, sem perder a esperança da possibilidade de que o filho, só desta vez, a tivesse levado a cidade, embora não parecesse lhe prestar mais atenção do que prestava à mobília quando ela ia à Casa Dere várias vezes por semana.
— Sumiu? — disse Vivi, e se afligiu quando entendeu que Douglas, o seu Douglas, que tinha passado os últimos meses chorando em seu ombro, confidenciando seus pensamentos mais sombrios sobre a partida da mulher, guardara segredos dela.
— Esperávamos que estivesse com você. Ele está a noite inteira fora de casa. Cyril está procurando por ele de carro agora — informou Rosemary.
— Já estou a caminho — disse Vivi e, apesar do desconforto, sentia-se vagamente satisfeita por Rosemary, apesar da hora, ter parecido achar isso conveniente.
Vivi correra para a propriedade, sem saber direito se tinha mais medo de ele estar ferido, caído numa vala, ou de o desaparecimento estar ligado ao reaparecimento de outra pessoa. Ele ainda amava Athene, ela sabia. Ouvira-o fazer esta afirmação muitas vezes nos últimos meses. Mas isso era suportável quando ela conseguia achar que os sentimentos dele andavam morrendo, como as brasas de um fogo — um fogo que, agora que tinha sabido de todos os detalhes, ela não achava que seria realimentado.
Entre meia-noite e o alvorecer, divididos em pequenos grupos, munidos de lanternas, eles haviam vasculhado a propriedade, para o caso de ele ter ido para casa bêbado e caído numa vala. Um rapaz fizera isso algumas semanas antes e se afogara. A lembrança daquele corpo encontrado de bruços em vários centímetros de água estagnada ainda assombrava Cyril.
— Desde as primeiras semanas, ele não bebe muito. — disse ele, enquanto iam andando, esbarrando delicadamente um no outro ao luar. — O pior para o rapaz já passou. Ele está muito mais ele mesmo.
— Deve estar na casa de um amigo, Sr. Fairley-Hulme. Aposto que tomou umas e outras e decidiu passar a noite em Londres. — O guarda-caça, que andava no Bosque Rowney com a agilidade e a confiança de alguém acostumado a contornar galhos e raízes de árvores no escuro, tinha uma visão otimista do caso. Já comentara quatro vezes que os garotos eram assim mesmo.
— Poderia ter ido para Larkside — murmurou um dos rapazes. — A maioria termina em Larkside uma hora ou outra.
Vivi fez uma careta: a casa nos arredores do vilarejo era mencionada em tons sussurrados ou em brincadeiras de bêbados, e pensar em Douglas se rebaixando àquele nível, na possibilidade de ele recorrer a mulheres assim quando ela só estava esperando que ele a chamasse...
— Ele tem juízo para não ir parar lá.
— Não se ele estiver de cara cheia. Ele está sozinho há um ano.
Ela ouviu o baque suave da bota do guarda-caça batendo em um pano, e um xingamento resmungado.
— Isso não tem jeito — disse Cyril. — Maldito Douglas. Maldito rapaz sem consideração.
Vivi ergueu os olhos para sua mandíbula cerrada enquanto caminhava, o casaco aconchegado ao corpo na vã tentativa de espantar o frio. Tinha certeza de que a crítica dele a Douglas era para disfarçar a ansiedade. Ele, como Vivi, sabia da profundidade do desespero de Douglas.
— Ele vai aparecer — disse ela calmamente. — Ele é muito sensato. De verdade.
Ninguém cogitou ir à Casa Philmore. Por que iriam até lá, quando ele mal pusera os pés na propriedade desde que ela tinha ido embora? Portanto, só lembraram disso uma hora depois de o dia ter raiado, quando os dois grupos de busca convergiram na luz fria, gelados e cada vez mais calados, em frente aos celeiros Philmore.
— Tem uma luz acesa, Sr. Fairley-Hulme — disse um dos rapazes, apontando. — Na janela de cima. Olhe.
E enquanto estavam parados no gramado coberto de mato, encharcado de orvalho, seus olhos se ergueram para os andares superiores da velha casa, o canto dos pássaros num crescente em volta deles, e a porta da frente se abriu. Lá estava ele, os olhos sombrios traindo a sua própria noite em claro, a calça do terno elegante amassada e as mangas da camisa arregaçadas, uma criança dormindo pacificamente nos braços.
— Douglas! — A exclamação de Rosemary trazia um misto de choque e alívio.
Houve um breve silêncio depois, quando o pequeno grupo de pessoas registrou a cena à sua frente.
Douglas olhou para baixo e ajustou o xale em volta do bebê.
— O que está havendo, filho?
— Essa é... Suzanna — disse ele calmamente. — Athene me entregou a menina. Isso é tudo que eu quero dizer sobre o assunto. — Tinha um aspecto ao mesmo tempo magoado e desafiador.
O queixo de Vivi caíra e ela o fechou. Ouviu o guarda-caça praguejar vigorosamente entre dentes.
— Mas nós achamos... ah, Douglas, que diabo foi...
Cyril, os olhos fixos no filho, deteve Rosemary com a mão em seu ombro.
— Agora não, Rosemary.
— Mas, Cyril! Olha a...
— Agora não, Rosemary. — Ele fez um sinal de cabeça para o filho e virou para o caminho de acesso. — Vamos todos descansar um pouco. O rapaz está em segurança.
Vivi sentiu-o empurrá-la delicadamente pelo gramado: esperava-se que ela também fosse embora.
— Obrigado a todos — ela o ouviu dizer, quando olhou para trás na direção de Douglas, que ainda contemplava o rosto suavemente iluminado da criança. — Se quiser voltar para a Casa Dere, acho que um café cairia bem para nós todos. Tem muito tempo para falar depois que tivermos dormido um pouco.
* * *
Ele tinha ido para a Casa Philmore, segundo contou a Vivi muito depois, porque precisava ficar sozinho, não sabia direito se era capaz de admitir nem para si mesmo a verdade do que acontecera naquele dia. Talvez tenha ido porque, carregando a filha de Athene, tivesse sentido um desejo primitivo de estar mais perto da mãe dela, de levar a criança para um lugar que pudesse passar alguma familiaridade, alguma sensação dela. De uma maneira ou de outra, só ficou na casa dois dias, até descobrir que lidar sozinho com um bebê estava além das suas possibilidades
Rosemary, a princípio, ficara roxa de raiva. Não admitiria a filha daquela mulher lá dentro, exclamara, quando Douglas chegou na casa da família. Não podia acreditar que ele tivesse sido tão idiota, tão ingênuo. Não podia acreditar que ele se expusesse a tal ridículo. E agora? Esperava-se que eles recebessem os amantes de Athene também?
Foi nesse ponto que Cyril dissera a ela para sair para tomar um pouco de ar. Com uma voz mais calma, mas comedida, tentara raciocinar com o filho. Ele tinha que ser sensato, não? Era um rapaz com a vida toda pela frente. Não podiam lhe botar um bebê nas costas para criar. Especialmente um que... E as palavras ficaram não ditas. Algo no olhar implacável de Douglas o deteve no meio da frase.
— Ela vai ficar aqui — dissera Douglas. — Só isso. — Ele já a segurava com a destreza relaxada de um jovem pai.
— E como você vai mantê-la? — disse Cyril. — Não pode esperar que a gente leve você nas costas, com todo o trabalho que precisa ser feito na propriedade. E sua mãe não vai fazer isso. Você sabe que ela não vai.
— Vou dar um jeito — disse Douglas.
Mais tarde, confidenciou a Vivi que sua determinação silenciosa não tinha envolvido só o seu desejo de ficar com a criança, embora já a amasse. Não gostava de admitir para o pai que, mesmo que tivesse querido devolver Suzanna, que tivesse concordado com os desejos da família, não havia lhe passado pela cabeça perguntar a Athene como poderia entrar em contato com ela.
Os primeiros dias tinham sido absurdos. Rosemary ignorara a presença da criança e se atarefara no jardim. As esposas da propriedade tinham sido menos condenatórias, pelo menos diante dele, trazendo, ao saberem da notícia, seus próprios bebês confortos, suas mamadeiras e suas musselinas, um arsenal inteiro de coisas imprescindíveis para um bebê, que ele não considerara que poderiam ser necessárias para o cuidado de um único pequeno ser humano. Ele pedira a Bessie para aconselhá-lo no essencial, e ela passara uma manhã explicando a forma correta de prender a fralda com o alfinete, a melhor maneira de esquentar mamadeiras de leite, como amassar com um garfo a comida sólida para torná-la digerível. Ela observara de longe, reprovação se misturando com ansiedade enquanto ele canhestramente tentava alimentar a criança, praguejando e limpando comida das roupas quando a pequenina afastava do rosto a colher cheia com um tapa.
Em poucos dias, ele estava exausto. Cyril estava perdendo a paciência com a incapacidade do filho para trabalhar, os papéis empilhados e os homens reclamando da falta de comando nas terras.
— O que você vai fazer? — perguntou Vivi, tendo observado quando ele embalava a bebê embaixo do braço enquanto tentava negociar com um comerciante de produtos alimentícios no telefone. — Por que não arranja uma ama de leite, ou seja o que for que os bebês têm?
— Ela já passou da idade de mamar no peito — respondeu ele, a falta de sono tornando-o ríspido. Não disse o que ambos pensavam: que a criança precisava da mãe.
— Você está bem? Está com uma cara cansadíssima.
— Estou bem — disse ele.
— Mas você não pode administrar tudo sozinho.
— Não comece, Vi. Não fale como os outros.
Ela se indignou, magoada com a sua suposição de que ele a colocava no mesmo lugar que “os outros”. Observou em silêncio enquanto ele andava para cima e para baixo na sala, balançando as chaves na frente das mãos ávidas da menina, murmurando alguma lista de controle entre dentes.
— Eu ajudo você — disse ela.
— O quê?
— Não estou trabalhando no momento. Cuido dela para você. — Ela não sabia o que a tinha feito dizer aquilo.
Os olhos dele se arregalaram, a esperança se esboçando em seu rosto.
— Você?
— Sei cuidar de criança que está para começar a andar. Fui babá, quero dizer. Quando estava em Londres. Uma da idade dela não pode ser muito mais difícil.
— Você tomaria mesmo conta dela?
— Para você, sim. — Ela corou com a escolha de palavras, mas ele pareceu não notar.
— Ah, Vi. Você tomaria mesmo conta dela? Todo dia? Até eu conseguir resolver alguma coisa, é lógico. Até eu conseguir resolver o que fazer. — Ele se aproximara dela, como se já estivesse com muita vontade de entregar Suzanna.
Ela hesitou então, de repente vendo naquele cabelo escuro sedoso, nos grandes olhos azuis, a lembrança de um tempo anterior. Depois, olhou para ele, para o alívio e a gratidão em seu rosto.
— Sim — disse. — Tomaria, sim.
* * *
Os pais dela tinham ficado apavorados.
— Você não pode fazer isso — dissera sua mãe. — Nem é sua filha.
— Não devemos carregar os pecados dos pais, mamãe — respondera Vivi, parecendo mais confiante do que se sentia. — Ela é um bebê absolutamente adorável. — Tinha acabado de ligar para o Sr. Holstein para lhe dizer que não voltaria a Londres.
A Sra. Newton, agitada, chegara até a visitar Rosemary Fairley-Hulme, e ficara surpresa ao ver que ela também se opunha ferozmente a todo aquele plano infeliz. Os jovens pareciam ter se decidido, disse Rosemary, sem esperanças. Com certeza não dava para dizer a Douglas o que fazer.
— Mas, querida, pense nisso, quero dizer, ela pode voltar a qualquer momento. E você tem o seu trabalho, a sua carreira. Isso pode seguir por anos. — Sua mãe quase chorara. — Pense, Vivi. Pense em como ele te magoou antes.
Eu não me importo. Douglas precisa de mim, disse ela silenciosamente, saboreando a sensação de estarem, os dois, unidos contra o mundo. Isso já está bom para mim.
* * *
Eles todos acabaram amolecendo. Tiveram que amolecer: quem podia resistir a uma linda bebê inocente e sorridente? Vivi viu, com o passar dos meses, quando a presença de Suzanna na casa se tornou algo normal, quando já não discutiam tanto na cidade as explicações para seu aparecimento, que, de vez em quando, ao ouvir a criança chorar, Rosemary saía de sua cozinha “só para ver se ela estava bem”, que Cyril, encontrando-a nos braços do filho antes do banho, dava um tapinha no rosto dela e fazia barulho de pum para ela. Enquanto isso, Vivi estava toda boba, o cansaço afastado pelos sorrisos desinibidos, as mãos que se agarravam e a confiança cega. Suzanna também fez com que ela e Douglas se unissem: toda noite, diante de um gim-tônica, quando ele chegava dos campos, eles se sentavam e riam das pequenas manias dela, sentiam pena por causa de seus dentes ou de seu gênio volúvel. Quando ela dera os primeiros passos, Vivi tinha ido correndo até o campo de dezesseis hectares para encontrá-lo, e eles tinham voltado correndo juntos, com falta de ar, cheios de expectativa, para o lugar em que a bebê estava sentada com a governanta, olhando em volta com o semblante alegre. E tinha havido o dia perfeito quando eles a tinham levado juntos ao jardim, empurrando o velho carrinho pela propriedade, para fazer um piquenique, como se, pensou Vivi no íntimo, furtivamente, eles fossem uma família de verdade.
Douglas andara alegre naquele dia, segurara a criança abraçada, mostrando os celeiros, um trator, pássaros voando no céu. E algo na perfeição disso tudo, em sua própria felicidade, levara a pergunta aos lábios de Vivi.
— Ela vai querer a filha de volta? — perguntou.
Ele abaixara o dedo que apontava.
— Vou lhe dizer uma coisa, Vi. Uma coisa que não contei a ninguém. — Seus olhos, que tinham andado brilhantes e alegres, de repente pareceram assombrados.
Com o bebê sentado entre eles, ele lhe contou exatamente como essa criança acabara aos seus cuidados, como ele fora tolo de ir ao restaurante achando que Athene o queria lá por outro motivo, como até mesmo em face de sua própria ignorância, de sua burrice, não fora capaz de lhe negar nada.
Vivi sabia agora que a razão de ele amar tanto essa criança era ela ser um elo duradouro com sua antiga mulher: ele achava que, enquanto a segurava, enquanto cuidava dela, havia uma grande possibilidade de que Athene voltasse. E que, por mais que ele confiasse em Vivi, por mais que dependesse dela, por mais tempo que passassem falando de bebês, ou agindo como se fossem uma família de verdade, ela nunca seria capaz de atravessar esta barreira.
Eu não devo ter inveja dela, pensou Vivi, fingindo que havia um cisco em seu olho e se afastando. Eu não devo invejar a mãe de uma criança, pelo amor de Deus. Deve bastar ele precisar de mim, eu ainda fazer parte da vida dele.
Mas era mais forte que ela. Agora a questão não era só Douglas, pensou, ao pôr Suzanna no berço aquela noite, bendizendo seu rosto com beijos, quando a menina se acomodou para dormir chupando os dedos, satisfeita. Não queria devolver nenhum dos dois.
* * *
Exatamente seis meses depois de Suzanna ter chegado, Rosemary telefonara pouco antes do café da manhã. Sabia que Vivi planejava ir à cidade, mas será que podia pegar Suzanna para passar o dia?, perguntou, a voz brusca.
— Claro, Rosemary — disse Vivi, refazendo mentalmente os planos. — Algum problema?
— Sim... é...
Depois Vivi se deu conta de que, mesmo então, Rosemary relutara em dizer o nome dela.
— Recebemos um telefonema. É tudo meio difícil. — Ela parou. — Athene... faleceu.
Houve um silêncio perplexo. A respiração de Vivi engasgou na garganta. Ela lamentava, disse, balançando a cabeça, mas não tinha certeza do que Rosemary acabara de lhe contar. — Ela morreu, Vivi. Recebemos um telefonema dos Forster. — Era como se, cada vez que dissesse aquilo, Rosemary ganhasse um pouco mais de confiança, até por fim poder falar friamente no assunto.
Vivi sentou-se na cadeira do hall, sem fazer caso da mãe, que, vestida com um robe, tentava avaliar o que estava acontecendo.
— Você está bem, querida? — ficava articulando em silêncio, abaixando-se para ver se captava a atenção da filha.
Athene não voltaria. Não voltaria para lhe tirar Douglas e Suzanna. Embora petrificada, Vivi percebeu que seu choque estava marcado com algo desconfortável, próximo da alegria.
— Vivi, você ainda está na linha?
— Douglas está bem?
Ela sempre tinha se sentido culpada depois por ele ter sido a sua primeira preocupação, por ela nem ter pensado em perguntar as circunstâncias da morte de Athene.
— Vai ficar — disse Rosemary. — Obrigada por perguntar, Vivi. Ele vai ficar. Vai deixar a bebê aí em meia hora.
* * *
Douglas passara dois meses de luto, revelando um nível de dor que muitos à sua volta acharam excessivo, considerando que a sua mulher tinha fugido havia mais de um ano e todo mundo sabia que começara uma relação com outro homem.
Vivi não. Vivi achou a dor dele tocante, um sinal de quão profundo, quão apaixonado podia ser o sentimento daquele homem. Ela podia se dar ao luxo de ser generosa agora que Athene havia morrido. Não se fixou na morte de Athene, achando impossível se decidir pelo equilíbrio certo de compaixão e opróbrio, portanto, em vez disso, concentrou-se em Suzanna, como se pudesse expiar seus pensamentos ruins inundando a criança de amor. Já se encarregara sozinha da criança havia semanas, descobrindo que, sem a ameaça do retorno de Athene, era despejada uma quantidade quase chocante de amor na menina agora órfã de mãe.
Suzanna pareceu responder à afeição desinibida de Vivi e tornou-se mais radiante do que era antes, encostando a bochecha macia na dela, pegando seus dedos com a mãozinha gorducha. Vivi chegava pouco depois de sete e meia e levava-a para longos passeios pela propriedade, afastando-a da dor de Douglas, que pairava sobre a casa como uma nuvem negra, e das conversas sussurradas dos pais dele e dos criados, que pareciam todos considerar a presença de Suzanna um problema de certa urgência.
— Não podemos nos livrar dela agora — ouvira Rosemary dizer a Cyril, ao passar pelo escritório. — Já contamos a todo mundo que a criança é filha de Douglas.
— A criança é filha de Douglas — dissera Cyril. — Ele vai ter que decidir o que quer fazer com ela. Diga ao menino que ele tem que pôr a cabeça no lugar. Tem decisões a tomar.
* * *
Estavam esvaziando a Casa Philmore. A casa que tinha permanecido um santuário de Athene — cujos armários ainda estavam abarrotados de vestidos dela, em cujos cinzeiros ainda havia bitucas manchadas de batom — recaíra na lista de responsabilidades de Rosemary. Douglas e Suzanna estavam agora firmemente instalados na Casa Dere. E Rosemary, que há muito tempo estava louca para retirar da propriedade as provas físicas “daquela garota”, aproveitara o recente estado passivo do filho para cuidar disso.
Vivi estava no topo do morro, segurando o chapéu na cabeça, quando viu os homens saírem para o jardim, carregando braçadas de vestidos coloridos e depositando-os no gramado da frente, enquanto as mulheres, ajoelhadas em tapetes e se protegendo do frio, separavam sacolas, caixas de joias e cosméticos, exclamando entre elas ao perceberem a qualidade dos objetos.
Para alguém que se proclamara tão indiferente em relação a objetos pessoais, Athene possuíra uma quantidade de coisas prodigiosa. Não só vestidos, casacos e sapatos, mas também discos, fotos, lâmpadas, coisas bonitas compradas às pressas e descartadas, ou recebidas como presentes e logo esquecidas.
— Levem tudo que quiserem. Empilhem o resto para ser queimado.
Ela ouviu a voz de Rosemary, clara e autoritária, talvez se elevando com a recuperação da autoridade, e observou-a entrando de novo na casa com um passo decidido para buscar mais uma caixa. Perguntou-se se ela também estava vibrando um pouquinho com a remoção definitiva e forçada de Athene do mundo. Uma emoção mesquinha que ela mal era capaz de confessar a si mesma. O mesmo sentimento baixo que a levara até ali para assistir àquilo, como uma bruxa velha diante de uma execução.
— Você não quer nada disso, quer? — gritou Rosemary, avistando Vivi, que para lá se dirigia sem pressa, empurrando o carrinho de Suzanna.
Vivi olhou para o tailleur de lua de mel de Athene, para as sapatilhas bordadas que ela usara naquele primeiro baile de caça, agora jogadas ao lado do canteiro de gerânios, de vez em quando se agitando no vento forte.
— Não — respondeu. — Obrigada.
Os próprios pais de Athene nada quiseram. Vivi tinha escutado seus pais discutindo isso quando eles acharam que ela não estava ouvindo. Os Forster tinham ficado muito embaraçados com o comportamento da filha, querendo muito se distanciar dela mesmo na morte. Mandaram cremá-la numa cerimônia fechada, nem sequer colocaram um anúncio no The Times, dissera a Sra. Newton, num sussurro chocado. E não quiseram conhecer a própria neta. Só que não tinham se referido a Suzanna como criança.
Vivi empurrou devagar o carrinho com Suzanna através das pilhas de pertences, inclinando-se à frente para ver como estava a bebê adormecida, assegurando-se de que ela estava protegida de quaisquer rajadas de vento. Hesitou, estremecendo, ao ver uma gaveta de roupas íntimas de Athene, peças diáfanas de renda e seda, artigos que falavam de noites de segredos sussurrados, de prazeres desconhecidos, agora expostas e descartadas. Como se não houvesse nenhuma parte dela que merecesse permanecer inviolável.
Vivi achara que aquela situação poderia lhe trazer alguma satisfação secreta. Agora que estava ali, esta alienação apressada, completa das coisas de Athene, parecia quase indecente. Como se todo mundo estivesse determinado a apagar sua presença. Douglas já não falava dela. Rosemary e Cyril haviam proibido qualquer menção a seu nome. Suzanna era muito criança para se lembrar da mãe: sua idade lhe permitira seguir em frente perfeitamente, aceitar o amor dos estranhos à sua volta como um substituto feliz. Mas, por outro lado, não se sabia o quanto Suzanna tinha sido amada antes.
Vivi passou com cuidado por uma pilha de casacos de lã caros e ficou parada na margem do gramado, enquanto um homem jogava fora uma caixa de fotografias ao seu lado. Depois, não soube direito o que a levara a fazer aquilo. Talvez pensar na falta de raízes de Suzanna, talvez seu próprio desconforto com o que parecia quase um desejo ardente entre aqueles que tinham conhecido Athene de apagá-la até mesmo da história. Talvez fossem as belas roupas íntimas, exibidas, descartadas, como se elas também tivessem sido contaminadas.
Vivi abaixou-se, puxou um punhado de fotografias e recortes de jornal da caixa e meteu-os embaixo da bolsa no fundo do carrinho. Não sabia direito o que faria com essas coisas. Nem sabia direito se as queria. Simplesmente pareceu importante Suzanna poder, quando ficasse mais velha, ter alguma ideia de sua origem, por mais desagradáveis que fossem esses documentos, por mais perguntas difíceis que pudessem suscitar.
— Quem é a minha menina linda? — Quando Vivi voltou para o alto do morro, Suzanna tinha começado a chorar. Vivi levantou-a do carrinho e rodou-a, deixando suas bochechinhas ficarem coradas no ar fresco. — Quem é a minha menina linda?
— Com certeza é ela.
Vivi girou nos calcanhares, encontrando Douglas parado atrás dela, e corou.
— Desculpe — disse com a voz entrecortada. — Eu não... eu não sabia que você estava aí.
— Não se desculpe. — Ele estava com a gola de tweed levantada para se proteger do frio, os olhos cansados e vermelhos. Aproximou-se, ajeitou a touca de lã de Suzanna. — Ela está bem?
— Está ótima. — Vivi sorriu, radiante. — Muito bonita. Comendo tudo que aparece, não é, amor? — A bebê esticou uma mão rechonchuda e deu um puxão num dos cachos loiros que saíam de baixo do chapéu de Vivi. — Ela está... ela está muito bem mesmo.
— Me desculpe — disse Douglas. — Eu abandonei a pobrezinha. Abandonei vocês duas.
Vivi corou de novo.
— Você não tem... não tem de que se desculpar.
— Obrigado — disse ele baixinho. Olhou para o gramado lá embaixo, onde agora as pessoas já estavam pondo as coisas em ordem. — Por tudo. Obrigado.
— Ah, Douglas... — Ela não sabia direito o que mais dizer.
Douglas colocara o casaco no chão, e eles se sentaram ali em silêncio por algum tempo, de frente para a casa. Ele olhando para o gramado, para a criança cujos dedos agarravam e soltavam as folhas de relva na segurança do colo de Vivi.
— Posso pegá-la?
Ela entregou a bebê. Ele parecia mais calmo, pensou. Talvez estivesse saindo daquele exílio autoimposto.
— Fico pensando que é tudo minha culpa — disse ele. — Que, se eu tivesse sido um marido melhor... que se ela tivesse ficado aqui, nada disso...
— Não, Douglas. — A voz dela estava inusitadamente seca. — Não havia nada que você pudesse ter feito. Nada.
Ele baixou os olhos.
— Douglas, ela tinha morrido para você há muito tempo. Muito antes disso. Você deve saber.
— Eu sei.
— A pior coisa que você podia fazer era transformar a tragédia dela em sua. — Ela se admirou com a força, a determinação das próprias palavras. De alguma maneira, essa certeza lhe vinha com mais facilidade ultimamente. Havia prazer em apoiá-lo. — Suzanna precisa de você — disse ela, puxando o chocalho da criança de um bolso. — Precisa que você seja alegre. E que mostre a ela que pai maravilhoso você é.
Ele deu uma risadinha.
— Você é, Douglas. Você provavelmente é o único pai que ela conheceu, e ela te ama muito. — Ele olhou para ela de soslaio. — Ela te ama muito.
Vivi corou de prazer.
— Eu a amo. É impossível não amar.
Eles observaram a figura empertigada de Rosemary andando para baixo e para cima com um passo decidido entre as pilhas remanescentes, gesticulando e apontando com eficiência militar. E depois perceberam que a fogueira começara a arder, fora do campo de visão, a espiral de fumaça indicando o fim irrefutável da permanência de Athene na propriedade. Quando a coluna cinza ficou mais forte, perdeu a transparência, Vivi sentiu a mão de Douglas se insinuar pela grama para a dela, e apertou-a de volta de um jeito tranquilizador.
— O que vai acontecer com ela? — perguntou.
Ele olhou para a criança entre eles e deu um longo suspiro.
— Não sei. Não posso cuidar dela sozinho.
— Não. — Diante disso, Vivi sentiu algo se agitar dentro dela, os primeiros indícios de uma confiança que nunca sentira. O sentimento de ser, pela primeira vez na vida, indispensável. — Estarei aqui — disse —, pelo tempo que você precisar de mim.
Ele olhara para ela então, os olhos, muito velhos e tristes para sua cara jovem, vendo-a como se pela primeira vez. Tinha observado as suas mãos entrelaçadas e depois balançara a cabeça ligeiramente, como se tivesse deixado de ver alguma coisa e naquele momento estivesse se repreendendo por isso. Pelo menos, era assim que ela gostava de se lembrar do episódio.
Então, quando ela ficara com a respiração engasgada no peito, ele levara a mão livre ao seu rosto, quase da mesma maneira que levara ao da criança. Vivi levantara a sua mão para encontrar a dele, seu sorriso doce, generoso, se abrindo, inculcando-lhe energia, amor, como se pudesse fazer isso apenas com a força de vontade. Quando os lábios dele encontraram os seus, não foi grande surpresa. Apesar de o gesto finalmente fechar aquela ferida dela que sempre estivera em carne viva, não foi uma grande surpresa.
— Querido — dissera ela, maravilhando-se com a determinação, a certeza que o amor correspondido podia conferir. E seu sangue cantou quando ele lhe respondeu do mesmo jeito, envolvendo-a num abraço que falava tanto da necessidade dele quanto da dela. Não exatamente um conto de fadas, mas nem por isso menos importante, não menos real.
Estarei aqui.