A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 2 de 29

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A Loja dos Sonhos

Dois

 

 

1963: Framlington Hall, Norfolk

Entre Norwich e Framlington, o trem fez seis paradas não previstas. O azul glacial infinito do céu escurecia, embora nem sequer fosse a hora do chá. Vivi observara os guarda-freios saltarem várias vezes com pás para retirar montes de neve dos trilhos e sentira sua impaciência com o atraso compensada por uma satisfação perversa.

— Espero que quem for nos buscar esteja com correntes de neve nos pneus — disse, com sua respiração embaçando a janela do vagão de tal maneira que teve que esfregar o dedo enluvado no vidro para voltar a ver a paisagem. — Não quero empurrar carro nenhum nessa nevasca.

— Você não teria que empurrar — disse Douglas, por trás do jornal. — Os homens empurram.

— Deve escorregar absurdamente.

— Para quem usa botas como as suas, sim.

Vivi olhou para seus novos sapatos Courrèges, satisfeita por ele ter reparado. Completamente inadequado para o clima, dissera sua mãe, acrescentando com tristeza para o pai de Vivi que “não consegue entender o que está havendo com ela”. Vivi, normalmente condescendente em relação a tudo, fora categórica e se recusou a usar galochas. Era seu primeiro baile e, além de desacompanhada, não chegaria parecendo uma menina de doze anos. Aquele não tinha sido o único embate entre as duas: seu cabelo, uma criação elaborada de cachos modelados presos no alto da cabeça, não deixava espaço para um bom chapéu de lã, e a mãe estava agoniada sem saber se o enorme trabalho que tivera para montar o penteado valia o risco de deixar a única filha se aventurar só com um lenço na cabeça no inverno mais rigoroso de que se tinha registro.

— Vou ficar bem — mentiu a garota. — Bem quentinha.

Agradeceu em silêncio por Douglas não notar que ela estava usando ceroulas por baixo da saia.

Já estavam no trem havia quase duas horas, uma delas sem calefação: o guarda-freios lhes dissera que o aquecimento daquele vagão pifara antes mesmo da frente fria. Eles haviam planejado viajar com a mãe de Frederica Marshall no carro dela, mas Frederica pegara uma mononucleose (não à toa, a enfermidade também era conhecida como “a doença do beijo”, segundo a observação mordaz da mãe de Vivi), e assim, com relutância, os pais dos jovens os deixaram viajar sozinhos de trem, com muitos avisos sobre a importância de Douglas “tomar conta” de Vivi. Ao longo dos anos, Douglas fora instruído muitas vezes a tomar conta de Vivi —, mas a perspectiva da garota sozinha num dos eventos sociais do ano, ao que parecia, tinha conferido a essa tarefa uma ressonância significativa.

— Você se importa que eu viaje com você, D? — perguntou, tentando fazer charme.

— Não seja boba.

Douglas ainda não perdoara o pai por se recusar a deixá-lo pegar emprestado o Vauxhall Victor.

— Não sei por que meus pais não me deixam viajar sozinha. Eles são tão caretas...

Ela ficaria bem com Douglas, dissera seu pai, de um jeito tranquilizador. Ele é como um irmão mais velho. Em seu coração sem esperança, Vivi sabia que o pai tinha razão.

Apoiou um dos pés calçados no assento ao lado de Douglas. Ele estava usando um casacão de lã grossa e seus sapatos, como os da maioria dos homens, traziam uma marca pálida de neve derretida em volta.

— Pelo visto, todo mundo que é importante vai hoje à noite — disse ela. — Muita gente não conseguiu convite.

— Podiam ter ficado com o meu.

— Parece que aquela Athene Forster vai. Aquela que foi grosseira com o duque de Edimburgo. Você a viu em algum dos bailes?

— Não.

— Ela é um horror. Mamãe a viu nas colunas sociais e começou a falar que o dinheiro não compra educação, ou coisa assim. — Parou e esfregou o nariz. — A mãe da Frederica acha que, em breve, essa coisa de “temporada social” não vai mais existir. Disse que garotas como a Athene estão acabando com a tradição. Ela está sendo chamada de “a Última Deb”.

Douglas bufou sem tirar os olhos do jornal.

— A Última Deb. Que besteira. A temporada toda é uma fachada. Tem sido desde que a rainha parou de receber pessoas na corte.

— Mas ainda é uma boa maneira de conhecer pessoas.

— Uma boa maneira de garotos e garotas conhecerem pretendentes adequados para o casamento. — Douglas fechou o jornal e o colocou no assento ao seu lado. Recostou-se e pôs as mãos atrás da cabeça. — As coisas estão mudando, Vi. Em dez anos, bailes de caça como esse não existirão mais. Nem vestidos elegantes ou casacas.

Vivi não tinha certeza, mas achava que essa afirmação podia estar ligada à obsessão de Douglas com o que ele chamava de “reforma social”, que parecia abarcar tudo, da educação das classes trabalhadoras de George Cadbury ao comunismo na Rússia. Por meio da música popular.

— Então qual será a solução para conhecer outras pessoas?

— Todos serão livres para sair com quem quiserem, seja qual for a sua origem social. Será uma sociedade sem classes.

Era difícil dizer pelo tom de voz se ele achava que isso era uma coisa boa ou se estava fazendo uma advertência. Então Vivi, que raramente lia os jornais e admitia não ter opiniões próprias de verdade, fez um ruído de concordância e tornou a olhar pela janela. Torceu, não pela primeira vez, para que seu penteado durasse a noite toda. Ela não teria problema em danças como o quickstep e o Gay Gordons, segundo sua mãe, mas talvez fosse melhor tomar um pouco de cuidado na hora do Dashing White Sergeant.

— Douglas, você me faz um favor?

— Qual?

— Sei que você não queria muito vir...

— Eu não me importo.

— E sei que você detesta dançar, mas, depois de algumas músicas, se ninguém tiver me convidado, promete que dança comigo? Acho que eu não aguentaria passar a noite toda sozinha. — Ela tirou as mãos por um instante do relativo calor dos bolsos. Um esmalte perolado cobria uniformemente suas unhas. Cintilava, opalescente, ecoando o véu cristalino que aparecia agora, pouco a pouco, na janela do vagão. — Pratiquei bastante. Não vou decepcionar você.

Ele sorriu. Apesar do frio que invadia o vagão, Vivi sentiu-se mais aquecida.

— Você não vai ficar sozinha — disse, colocando os pés no assento perto dela. — Mas danço, sua boba. É óbvio que danço.

* * *

Framlington Hall não era uma das joias da herança arquitetônica da Inglaterra. A impressão de antiguidade que dava à primeira vista era enganosa: qualquer um com conhecimento básico de arquitetura deduziria rapidamente que seus torreões góticos não harmonizavam bem com suas colunas palladianas, que os vitrais estreitos destoavam do telhado de duas águas do enorme salão de baile, que o vermelho gritante de seus tijolos parecia ter sido afetado pela exposição por não mais que algumas estações. Era, em resumo, um vira-lata estrutural, um híbrido de todos os piores desejos nostálgicos de um passado mítico, seu próprio senso de importância impondo alguma categoria na paisagem rural plana ao redor.

Seus jardins, quando não cobertos por vários palmos de neve, eram estritamente formais. Os gramados eram muito bem tratados e densos como o pelo de um tapete caro, o roseiral plantado não numa confusão delicadamente emaranhada, mas em fileiras idênticas de arbustos brutalmente podados, cada qual uma imitação em tamanho e forma do seguinte. Suas cores não eram rosa e pêssego desbotados, mas vermelho-sangue, meticulosamente cultivadas ou enxertadas em laboratórios na Holanda ou na França. De cada lado, erguiam-se fileiras de ciprestes de Leyland uniformemente verdes, preparando-se, mesmo na extrema juventude, para isolar a casa e o terreno do mundo lá fora. Era menos como um jardim e mais como uma espécie de curral de horticultura, como notara um visitante.

Não que essas considerações incomodassem o fluxo constante de convidados que, com bolsas de viagem em punho, foram despejados no acesso circular na frente da casa, repleto de sal para derreter a neve. Alguns tinham sido convidados pessoalmente pelos Bloomberg, que haviam projetado a mansão (e foram desencorajados de última hora a comprar um título para combinar com ela), outros foram convidados pelos amigos mais bem relacionados dos Bloomberg, com a permissão expressa de criar a atmosfera ideal. E uns simplesmente tinham aparecido, torcendo, sabiamente, para que, na escala geral das coisas, alguns penetras com a feição e o sotaque certos não incomodassem ninguém. Os Bloomberg, com uma fortuna recém-cunhada no ramo bancário e a determinação de manter a tradição da festa de debutantes viva para suas filhas gêmeas, tinham fama de anfitriões generosos. E as coisas estavam mais tranquilas nessa época — ninguém jogaria ninguém na neve. Especialmente quando havia um interior recém-decorado para exibir.

Vivi pensara nisso por um bom tempo enquanto estava sentada em seu quarto (com direito a toalhas, artigos de toalete e secador de cabelos de duas velocidades), a pelo menos dois corredores do de Douglas. Fora uma das felizardas, convidada graças à relação profissional do pai de seu acompanhante com David Bloomberg. A maioria das garotas estava alojada num hotel a vários quilômetros dali, mas ela ficaria num quarto com quase o triplo do tamanho do seu e duas vezes mais luxuoso.

Lena Bloomberg, uma mulher alta, elegante e com o ar de quem estava cansada de saber que a única atração verdadeira do marido por ela era financeira, tinha erguido as sobrancelhas para as saudações mais extravagantes dele e dito que havia chá e sopa na sala para quem precisasse se esquentar. Além disso, afirmou que, se Vivi precisasse de qualquer coisa, ela deveria avisar — embora não a Sra. Bloomberg, era de se supor. Depois instruíra um funcionário a conduzi-la ao seu quarto, longe da ala dos homens —, e Vivi, tendo experimentado cada pote de creme e cheirado cada frasco de xampu, ficara algum tempo sentada antes de se trocar, deleitando-se com a liberdade inesperada e se perguntando como deveria ser viver assim todo dia.

Enquanto entrava no vestido (corpete justo, saia comprida lilás, feito pela mãe a partir de um molde Butterick) e trocava as botas por sapatos, ouvia o rumor distante de vozes das pessoas passando por sua porta, um ar de expectativa se infiltrando nas paredes. Do andar de baixo, era possível escutar os sons dissonantes da banda se aquecendo, os passos apressados do pessoal preparando quartos e as exclamações de conhecidos se cumprimentando nas escadas. Vivi passara semanas ansiosa pelo baile. Agora que o momento chegara, estava com o mesmo tipo de pavor bobo que sentia quando ia ao dentista. Não só porque a única pessoa que provavelmente conhecia era Douglas, nem porque, depois de sentir-se incrivelmente livre e sofisticada no trem, agora estava se achando muito jovem, mas porque, diante das garotas magras e radiantes que haviam chegado em seus vestidos de baile, sentiu-se de repente uma pobretona desengonçada, as botas novas já sem brilho. Porque, para Veronica Newton, glamour não era uma coisa assim tão fácil. Apesar dos acessórios femininos, dos bobes de cabelo e das cintas, ela era obrigada a admitir que seria sempre bem comum. Era curvilínea numa época em que a beleza era medida pela magreza. Era corada e tinha um aspecto saudável quando deveria ser pálida e ter olhos arregalados. Ainda usava saias rodadas e blusas de botão quando a moda era silhueta evasê e moderna. Até seu cabelo, loiro natural, era cheio, ondulado e ressecado feito palha, recusando-se a cair em linhas geometricamente retas como as das modelos da Honey ou da Petticoat; em vez disso, contornava seu rosto em mechas esvoaçantes. Hoje, com cachos artificiais, parecia mais rígido e armado do que a criação charmosa que Vivi havia imaginado. Para piorar, seus pais, num rompante atípico de imaginação, tinham-na apelidado de Vivi, o que significava que as pessoas tendiam a parecer decepcionadas quando eram apresentadas a ela, como se seu nome sugerisse algum exotismo que ela não tinha. “Nem todo mundo pode ser a mais bela do baile”, dissera sua mãe, tentando tranquilizá-la. “Você vai ser uma esposa encantadora para alguém.”

Não quero ser a esposa encantadora de alguém, pensou Vivi, olhando para o espelho e sentindo a usual carga de insatisfação. Só quero ser a paixão do Douglas. Permitiu-se uma breve reprise de sua fantasia, agora tão repassada quanto as páginas de seu livro favorito — aquela em que Douglas, balançando a cabeça de um lado para outro diante de sua beleza inesperada naquele vestido de baile, conduzia-a para a pista de dança, e os dois valsavam até ela ficar tonta, a mão forte do rapaz firmemente colocada em suas costas, o rosto colado no dela... (Precisava admitir que a fantasia se devia em grande parte a Cinderela, de Walt Disney. E assim tinha que ser, já que as coisas tendiam a ficar meio confusas depois do beijo.) Desde que chegara, sua fantasia vinha sendo interrompida por réplicas magras e enigmáticas da modelo Jean Shrimpton, que tentavam Douglas com sorrisos deliberados e cigarros Sobranie — portanto, Vivi começara uma nova, em que, no fim da noite, Douglas a acompanhava de volta a um quarto enorme, aguardava com expectativa à porta aberta e depois, finalmente, com ternura, acompanhava-a até a janela, olhava para seu rosto iluminado pelo luar e...

— Vi? Você está decente? — Vivi sobressaltou-se de um jeito meio culpado quando Douglas bateu com força na porta. — Pensei que talvez pudéssemos descer cedo. Encontrei um antigo amigo da escola e ele está guardando umas taças de champanhe para nós. Você já está terminando de se arrumar?

O prazer de ser chamada por Douglas entrou em conflito com sua consternação por ele já ter encontrado outra pessoa com quem conversar.

— Dois segundos — gritou, passando rímel nos cílios, e rezando para que essa fosse a noite em que ele seria obrigado a olhar para ela de outro jeito. — Já estou indo.

* * *

Ele estava perfeito de smoking, é lógico. Ao contrário do pai dela, cuja barriga se estufava de maneira deselegante por cima da faixa, como uma vela inflada pelo vento, Douglas simplesmente parecia mais alto e mais aprumado, os ombros quadrados sob o tecido encorpado escuro do paletó, a pele vibrante e viva contrastando com o aspecto sóbrio da camisa branca. Vivi pensou que ele provavelmente sabia que estava atraente. Quando lhe disse isso — de brincadeira, para disfarçar a intensidade do desejo que sua aparição lhe provocara —, ele deu uma risada seca e disse que estava se sentindo um idiota todo amarrado. Depois, como que envergonhado por ter esquecido, também elogiou Vivi.

— Você caprichou, mulher — disse, envolvendo-a com o braço e lhe dando um apertão fraternal.

Não era bem o Príncipe Encantado, mas já era alguma coisa. Vivi sentiu o toque queimar na pele nua.

— Sabia que agora estamos oficialmente isolados pela neve?

Alexander, o amigo pálido e sardento dos tempos de escola de Douglas, trouxera outra bebida para ela. Era sua terceira taça de champanhe, e a paralisia que ela sentira no início, quando confrontada pelo mar de rostos glamorosos, evaporara.

— O quê? — perguntou Vivi.

Ele se inclinou para que ela pudesse ouvi-lo em meio ao barulho da banda.

— A neve. Voltou a nevar. Pelo visto, ninguém vai passar do fim do acesso à propriedade até trazerem mais cascalho amanhã.

Ele, como muitos dos homens, usava um paletó vermelho (“cor-de-rosa”, ele a corrigiu), e sua loção pós-barba era fortíssima, como se tivesse exagerado por não saber dosar direito a quantidade.

— Onde você vai ficar?

Vivi de repente visualizou mil corpos acampados no chão do salão de baile.

— Ah, para mim não tem problema. Estou hospedado aqui, como você. Mas não sei o que os outros vão fazer. Virar a noite, provavelmente. Alguns desses caras já iam fazer isso de qualquer maneira.

Ao contrário de Vivi, a maioria das pessoas que ela via ao redor tinha cara de quem ficava acordada até o amanhecer tranquilamente. Todas pareciam muito confiantes e seguras, sem se intimidar com o ambiente imponente. A pose e as conversas sugeriam que não havia nada de muito especial em estar naquela casa majestosa, embora houvesse uma frota de lacaios cujo único desejo era lhes servir comes e bebes, ou ainda que não tinham ninguém para supervisioná-las naquela noite em que rapazes e moças provavelmente teriam que dormir na mesma casa. As moças se mostravam à vontade nos vestidos, com a indiferença de quem estava tão acostumada com um elegante traje a rigor quanto com um sobretudo.

Elas não tinham cara de figurantes de filmes da Disney. Entre as tiaras e as pérolas, havia olhos excessivamente delineados, cigarros e, de vez em quando, uma saia Pucci. E, apesar da elegância incongruente do salão, dos muitos vestidos de baile e de noite rodopiando, não demorou muito para a banda ser convencida a deixar o repertório de danças tradicionais e tocar algo um pouco mais moderno — uma versão instrumental de “I Wanna Hold Your Hand” levara as garotas aos gritos para a pista de dança, sacudindo a cabeça com penteados elaborados e remexendo os quadris, deixando de lado as damas de companhia, que balançavam a cabeça num gesto de perplexidade e censura. Outra excluída era Vivi, que concluía, com tristeza, ser improvável conseguir sua valsa com Douglas.

Não que tivesse certeza de que ele se lembrava da promessa. Desde que tinham entrado no salão, ele parecera distraído, como se farejasse algo que ia além da compreensão de Vivi. Aliás, Douglas parecia outra pessoa, fumando charutos com os amigos e contando piadas que ela não entendia. Vivi estava bem segura de que ele não falava do colapso iminente do sistema de classes — pelo contrário, parecia perturbadoramente à vontade entre as gravatas pretas e paletós de caça. Várias vezes, ela tentara dizer algo em particular para ele, algo que restabelecia sua história compartilhada, um grau de intimidade. A certa altura, tomou coragem e fez uma brincadeira sobre ele estar fumando charuto, mas Douglas não parecera particularmente interessado — apenas ouvira com o que sua mãe sempre chamava de “metade do ouvido”. Depois, da maneira mais educada que pôde, voltara-se para a outra conversa.

Tendo começado a se sentir ridícula, Vivi ficara quase agradecida quando Alexander lhe deu atenção.

— Está a fim de um twist? — perguntou, e ela teve que confessar que só havia aprendido os passos de dança clássicos. — É fácil — disse ele, conduzindo-a para a pista —, é só apagar um cigarro com o dedo do pé e esfregar uma toalha na retaguarda. Entendeu?

Ele parecera tão cômico que Vivi explodiu em gargalhadas, depois olhou para trás no intuito de ver se Douglas tinha notado, mas ele havia desaparecido, e não pela primeira vez naquela noite.

Às oito, o mestre de cerimônias anunciou que havia um bufê, e a garota, um pouco mais zonza do que quando chegara, entrou numa longa fila para conseguir uma sole véronique ou um boeuf bourguignon, se perguntando como harmonizar sua fome extrema com a percepção de que nenhuma das moças à sua volta estava comendo mais do que alguns palitos de cenoura excessivamente cozidos.

Quase por acaso, tinha se inserido num grupo de amigos de Alexander. O rapaz a apresentara dando uma ligeira impressão de que ela lhe pertencia, e Vivi dera por si puxando o corpete, ciente de que estava revelando um bom pedaço de decote corado.

— Já foi ao Ronnie Scott’s? — perguntou um deles, inclinando-se tanto em sua direção que ela teve que afastar o prato.

— Não sei quem é. Sinto muito.

— É um clube de jazz na Gerrard Street. Deveria fazer o Xander levar você lá. Ele conhece o Stan Tracy.

— Não conheço mesmo.

Vivi recuou e se desculpou quando esbarrou na bebida de alguém.

— Nossa, estou faminto. Fui à festa dos Atwood semana passada e eles só serviram musse de salmão e consommé. Tive que pagar às meninas para me darem os delas. Pensei que fosse desmaiar de fome.

— Não existe nada pior que um bufê ruim.

— Concordo plenamente, Xander. Vai esquiar esse ano?

— Verbier. Alfie Baddow emprestou a casa para os meus pais. Lembra do Alfie?

— Em breve vamos todos precisar de esquis para sair daqui.

Vivi percebeu que se afastava obsequiosamente enquanto várias conversas continuavam à sua volta. Começava a se sentir desnorteada com o jeito como a mão de Xander roçara “por acaso” o seu traseiro diversas vezes.

— Alguém viu Douglas?

— Conversando com alguma loira na galeria. Enfiei o dedo no ouvido dele quando passei.

O sujeito simulou lamber o dedo e enfiá-lo no ouvido do amigo.

— Outra dança, Vivi? — Alexander estendeu a mão, fazendo menção de levá-la de volta para a pista.

— Acho... acho que vou esperar essa acabar.

Vivi pôs a mão no cabelo e percebeu, com desânimo, que seus cachos não pareciam mais estar macios e definidos, tendo desmoronado em frondes duras.

— Então vamos dar uma volta pelas mesas — disse ele, oferecendo-lhe o braço. — Seja o meu amuleto da sorte.

— Posso encontrar você daqui a pouco? Preciso muito... retocar a maquiagem.

Uma fila de mulheres tagarelas saía serpenteando do banheiro do andar de baixo, e Vivi, sozinha no meio daquele burburinho todo, percebeu que estava bem apertada quando chegou ao início da fila. Sentiu-se bastante desconfortável quando de repente...

— Vivi! Querida! É a Isabel. A Izzy? Da Sra. de Montfort? Você está um espetáculo! — O espaço agora limitado entre ela e a porta do banheiro foi ocupado.

A menina, de quem Vivi se lembrava apenas vagamente (fosse por já ter bebido demais, fosse por realmente não a reconhecer), apareceu na sua frente, levantando sem a menor elegância a longa saia cor-de-rosa com uma das mãos, e lhe plantou um beijo bem atrás da orelha.

— Querida, será que eu poderia passar a sua frente? Estou morrendo de vontade. Vou me desgraçar se... Ai, maravilha.

Assim que a porta abriu diante delas, Isabel entrou, e Vivi se pegou cruzando as pernas, a noção de antecipação frustrada de sua bexiga transformando uma vaga necessidade numa urgência desconfortável.

— Que vaca — disse uma voz atrás dela. Vivi corou, cheia de culpa, imaginando que o xingamento se dirigisse a ela. — Ela e aquela garota Forster andam monopolizando completamente o Toby Duckworth e a Cavalaria Real a noite inteira. A Margaret B-W está chateadíssima.

— Athene Forster nem gosta do Toby Duckworth. Ela só fica de gracinha porque sabe que ele é caidinho por ela.

— Ele e metade daquele maldito quartel de Kensington.

— Não sei como eles não enxergam quem ela é de verdade.

— Podem não enxergar, mas certamente não tiram os olhos dela.

Uma risada percorreu a fila, e Vivi reuniu coragem para olhar para trás.

— Dizem que os pais mal falam com ela.

— Não é nenhuma surpresa. Ela está ganhando fama.

— Dizem as más línguas que ela...

As vozes se transformaram num murmúrio, e Vivi se virou para a porta temendo que pensassem que ela estivesse escutando a conversa alheia. Tentou, sem sucesso, não pensar na bexiga. Então procurou, com menos sucesso ainda, não pensar no paradeiro de Douglas. Receava que ele pudesse ter a impressão errada do seu contato com Alexander. E se sentia decepcionada ao ver que o baile não estava tão divertido quanto previra. Quase não tinha visto Douglas e, nas poucas vezes em que viu, ele parecera um estranho inalcançável, totalmente diferente do seu Douglas.

— Vai entrar?

A garota atrás dela apontava para a porta aberta. Isabel deve ter deixado o cubículo vago sem dizer uma palavra. Sentindo-se irritada e estúpida, Vivi entrou no banheiro, depois praguejou quando a bainha de sua saia roçou uma poça não identificada no chão de mármore.

Ela fez xixi, deu um puxão no cabelo, insatisfeita, aplicou com pequenos toques o pó compacto para tirar o brilho de suor da pele, tentou desajeitadamente acrescentar rímel aos cílios já meio grudados. Sua aparência no momento não tinha mais nada de conto de fadas, refletiu. A menos que contassem as Irmãs Feias.

As impacientes batidas na porta tinham ficado insistentes demais para serem ignoradas. Ela saiu no corredor, preparada para se desculpar pelo tempo que levou lá dentro. Mas ninguém olhava para ela.

A fila de garotas olhava para a sala de jogos, onde uma comoção as deixara sem ar. Vivi demorou um pouco para se situar, mas depois, com as demais, acompanhou lentamente os tinidos e as exclamações esporádicas, sentindo a atmosfera ficar gelada de repente. Ouviu-se o som de uma trompa esganiçada, e Vivi percebeu que a competição de sopro de trompas de caça, da qual Xander lhe falara, devia ter começado. Mas aquela trompa não estava sendo tocada com nenhuma delicadeza. Eram sopros forçados, como se alguém estivesse ofegante ou rindo.

Vivi parou na entrada da sala de jogos, atrás de um grupo de homens, e olhou em volta. Do outro lado da enorme sala, alguém abrira a janela francesa que dava para os gramados da frente, e um ou outro floco de neve entrava na diagonal. Ela se encolheu toda, sentindo um arrepio na pele. Percebeu que pisara no pé de alguém e chegou para o lado, encarando o homem pronta para pedir desculpas. Mas ele nem notou. Olhava para a frente, a boca entreaberta, como se, em sua embriaguez, não estivesse convencido do que via.

Pois ali, entre a roleta e as mesas de blackjack, estava um enorme cavalo cinza, andando, nervoso, para trás e para a frente, narinas infladas e olhos revirados, os cascos ainda cobertos de neve, rodeado por um mar de faces que misturavam espanto e alegria. Na garupa do animal, estava a garota mais branca que Vivi já tinha visto, o vestido levantado, revelando pernas longas de porcelana, os pés ainda calçados com sapatilhas de paetê de festa, o cabelo escuro e comprido flutuando às costas, um braço nu em riste conduzindo o animal pela guia presa à cabeça, fazendo-o se aproximar e se afastar das mesas, o outro erguendo uma trompa de metal à boca. Meio distraída, Vivi notou que, ao contrário de seus braços já vermelhos, os da outra garota não demonstravam o menor indício de frio.

— Raposa à vista! — Um dos rapazes de paletó cor-de-rosa no canto tocava a própria trompa.

Outros dois haviam subido em mesas para ter uma visão melhor.

— Não acredito nessa porcaria.

— Pule as mesas de roleta! Vamos juntar todas elas!

Vivi viu Alexander no canto, rindo e erguendo um copo como que fingindo uma saudação. Ao lado dele, várias damas de companhia discutiam com ansiedade, gesticulando em direção ao centro da sala.

— Posso ser a raposa? Deixo você me pegar...

— Eca. Nossa, essa garota é capaz de qualquer coisa para chamar atenção.

Athene Forster. Vivi reconheceu o tom de desdém da garota na fila do banheiro. No entanto, como os demais, estava totalmente absorta pela visão improvável à frente. Athene parara o cavalo e se abaixara sobre seu pescoço, pedindo a um grupo de rapazes num sussurro grave:

— Alguém tem bebida, amores?

Havia em sua voz uma espécie de reconhecimento, como se soubesse de coisas tristes e estranhas demais para qualquer um entender. Um tom de dor que daria para ouvir mesmo quando ela estivesse na maior felicidade possível. Um mar de copos foi estendido em sua direção, reluzindo sob o brilho de mil watts dos lustres de cristal. Ela deixou cair a trompa, ergueu um copo e virou o conteúdo em um só gole, sob aplausos.

— Agora, qual de vocês vai me acender um cigarro? Deixei o meu cair quando pulei o roseiral.

— Athene, você não toparia fazer uma Lady Godiva para a gente, toparia?

Houve uma gargalhada geral, que cessou abruptamente. A banda se calou, e Vivi olhou para trás, acompanhando o ruído de uma exclamação sussurrada.

— Mas que diabo você acha que está fazendo? — Lena Bloomberg se dirigiu até o centro da sala e parou na frente do cavalo, o vestido esmeralda solto no corpo empertigado e as mãos, com os nós dos dedos brancos, plantadas nos quadris.

Estava com o rosto vermelho de fúria contida, os olhos brilhando tanto quanto as pedras esculturais em seu pescoço. De antemão, Vivi sentiu um aperto no estômago.

— Você me ouviu?

Athene Forster nem de longe pareceu intimidada.

— É um baile de caça. O velho Forester aqui estava se sentindo meio excluído.

Outra gargalhada geral.

— Você não tem o direito...

— Pelo que sei, ele tem mais direito de estar aqui do que você, Sra. Bloomberg. O Sr. B me disse que você nem caça.

O homem ao lado de Vivi praguejou baixinho com admiração.

A Sra. Bloomberg abriu a boca para falar, mas Athene lhe fez um aceno displicente com a mão.

— Ah, não fique irritada. Eu e Forester só pensamos que poderíamos tornar as coisas um pouquinho mais... autênticas. — Athene esticou o braço para pegar outra taça de champanhe e bebeu-a com uma languidez fatal, depois acrescentou, tão baixinho que só quem estava mais perto conseguiu ouvir. — Ao contrário desta casa.

— Desça... desça imediatamente do cavalo do meu marido! Como se atreve a abusar assim da nossa hospitalidade?

Lena Bloomberg teria sido uma figura imponente mesmo em circunstâncias normais. Sua altura e o ar de autoridade conferido por uma enorme riqueza nitidamente a haviam feito perder o hábito de ser contrariada. Embora não tivesse se mexido desde que falara pela primeira vez, a sugestão de fúria controlada havia drenado qualquer resquício de alegria da sala. As pessoas se olhavam com ansiedade, perguntando-se qual das duas cederia primeiro.

Fez-se um silêncio doloroso.

Parecia ser Athene. Ela encarou a Sra. Bloomberg com um olhar firme por uma breve eternidade, depois se inclinou para trás e começou a guiar lentamente o cavalo por entre as mesas, parando apenas para aceitar um cigarro.

A voz da mulher mais velha cortou a sala silenciada:

— Tinham me avisado para não convidá-la, mas seus pais me garantiram que você tinha crescido um pouquinho. Estavam redondamente enganados, e prometo que, tão logo a festa termine, hei de informá-los disto sem deixar margem a dúvidas.

— Pobre Forester — cantarolou Athene, deitando-se ao longo do pescoço do cavalo. — Ele estava muito ansioso por um poquerzinho.

— Enquanto isso, não quero vê-la pelo resto da noite. Você deveria se considerar uma pessoa de sorte pelo fato de o tempo não me permitir botá-la para fora à força, senhorita.

O tom gelado da Sra. Bloomberg acompanhou Athene enquanto ela levava o cavalo em direção às janelas francesas.

— Ah, não se preocupe comigo, Sra. Bloomberg. — A garota virou o rosto com um sorriso preguiçoso, encantador. — Já fui expulsa de estabelecimentos com muito mais classe que este.

Então, com uma cutucada com a ponta da sapatilha cravejada, ela e o cavalo saltaram os pequenos degraus de pedra e galoparam, quase sem emitir sons, para o escuro e a neve.

Houve um silêncio carregado e, depois, seguindo as instruções da rígida anfitriã, a banda recomeçou a tocar. Grupos de pessoas exclamavam uns para os outros, apontando para as marcas de casco sujos de neve no chão polido, enquanto o baile lentamente voltava a animar. O mestre de cerimônias anunciou que, em cinco minutos, a competição de trompa se realizaria no Salão Grande e que, para quem estivesse com fome, as refeições ainda estavam sendo servidas na sala de jantar. Em questão de minutos, tudo que restara da aparição de Athene era uma impressão fantasmagórica na imaginação daqueles que a tinham visto — já sendo apagada pela perspectiva da próxima atração — e algumas poças de neve derretida no chão.

Vivi olhava para Douglas. Em pé ao lado da enorme lareira, ele continuava com os olhos nas janelas francesas agora fechadas, assim como havia encarado Athene Forster sentada naquele cavalo enorme, a alguns passos distância. Enquanto os que o rodeavam tinham ficado apavorados ou chocados, dando risadinhas nervosas, a expressão de Douglas Fairley-Hulme demonstrava outra coisa. Uma mistura de serenidade e êxtase que deixou Vivi temerosa.

— Douglas? — chamou ela, encaminhando-se na direção dele, tentando não escorregar no chão molhado.

Ele não pareceu ouvir.

— Douglas? Você me prometeu uma dança.

Passaram-se vários segundos até que ele notasse sua presença.

— O quê? Ah, Vi. Tudo bem. — Seu olhar foi atraído mais uma vez para as janelas. — Eu... eu só tenho que pegar uma bebida primeiro. Trago uma taça para você. Já volto.

* * *

Foi ali — e Vivi só percebeu depois — que se viu obrigada a reconhecer que não haveria final de conto de fadas em sua noite. Douglas não voltara com as bebidas, e ela ficara ao lado da lareira por quase quarenta minutos, um sorriso vago e vidrado no rosto, tentando parecer decidida e não uma pessoa que tinha sido esquecida como uma peça de reposição. No início, não quisera sair do lugar, porque havia muita gente, a casa era grande demais e não estava segura de que Douglas, caso se lembrasse, seria capaz de encontrá-la. Mas, quando percebeu que o grupo ao lado do arranjo de flores estava comentando sobre todo o tempo que passou sozinha e que o mesmo garçom passara três vezes, duas para oferecer bebidas e a terceira para perguntar se ela estava bem, aceitou o segundo convite de Alexander para dançar.

À meia-noite, ocorreu um brinde e começou um jogo estranho, não oficial, que envolvia um jovem com uma cauda de raposa pregada no paletó correndo pela casa, ferozmente perseguido por vários amigos de paletó cor-de-rosa com trompas de caça. Um havia escorregado e caído feio no chão encerado, perdendo os sentidos ao lado da escada principal. Mas outro lhe despejara o conteúdo de um copo estribo na boca, e ele voltara a si, cuspindo e engasgando, e se levantara para continuar a perseguição como se nada tivesse acontecido. À uma hora, Vivi, que adoraria poder voltar ao quarto, disse que acompanharia Alexander à mesa de blackjack, onde, inesperadamente, ele ganhou sete libras. Num acesso de exuberância, disse-lhe que ela deveria ficar com parte do prêmio. Ele disse que ela era o seu “amuleto da sorte” de um jeito que a deixou meio nauseada — ou então foi a quantidade de champanhe. À uma e meia, viu a Sra. Bloomberg numa discussão calorosa com o marido no que parecia o escritório particular dele. Era possível ver apenas um par de pernas estiradas, calçadas com uma meia-calça cor de pérola cintilante. Vivi reconheceu que eram de uma garota ruiva que vira mais cedo, vomitando pela janela.

Às duas, quando o relógio de uma torre de igreja confirmou a hora, Vivi teve que reconhecer que Douglas não cumpriria a promessa, que ela não se veria delicadamente envolvida em seus braços, que não haveria o beijo tão desejado no fim da noite. No meio do caos — as garotas gritando, os rostos agora afogueados e sonolentos, os garotos esparramados de porre em sofás ou, de vez em quando, envolvendo-se em brigas desengonçadas —, tudo o que ela queria era ficar sozinha em seu quarto e chorar sem se preocupar com o que os outros pensavam dela.

— Xander, acho que vou para o quarto.

Ele estava com o braço pendurado de forma despretensiosa em volta de sua cintura e falava com um dos amigos. Virou com uma expressão surpresa para ela.

— O quê?

— Estou muito cansada. Espero que não se importe. Tive uma noite bastante agradável, muito obrigada.

— Você não pode ir se deitar agora. — Ele recuou de um jeito teatral. — A festa está só começando.

Ela percebeu que as orelhas dele estavam rubras e as pálpebras caíam, deixando os olhos apenas entreabertos.

— Sinto muito. Você foi incrivelmente simpático. Se encontrar com o Douglas, se importaria de dizer a ele que já... já me recolhi?

Uma voz atrás de Alexander rosnou:

— Douglas? Acho que ele não vai se incomodar muito.

Vários dos homens se entreolharam e deram uma gargalhada rápida.

Alguma coisa na expressão deles a deixou sem vontade de pedir que se explicassem. Ou talvez, tendo se sentido como a prima ingênua e antiquada de todo mundo a noite inteira, apenas não desejasse reforçar essa visão de si mesma. A garota saiu da sala de jogos com os braços cruzados e sentindo-se péssima, já não se importando com sua aparência. Em todo caso, as pessoas à sua volta estavam bêbadas demais para prestar alguma atenção. A banda fazia uma pausa, os músicos estavam sentados comendo uma bandeja de canapés, os instrumentos apoiados em cadeiras, enquanto Dusty Springfield cantava nos alto-falantes uma canção melancólica que fez Vivi crispar o rosto para conter as lágrimas.

— Vivi, você não pode subir ainda.

Alexander, que estava bem atrás dela, estendeu a mão e a virou pelo ombro. O ângulo entre a cabeça e o pescoço não deixavam dúvida sobre o quanto ele tinha bebido.

— Sinto muito mesmo, Alexander. Sinceramente, me diverti bastante. Mas estou cansada.

— Vem... vem comer alguma coisa. Vão fazer kedgeree na sala de café da manhã daqui a pouco. — Ele estava segurando seu braço com uma força que já causava desconforto nela. — Sabe... você está muito bonita com esse... esse vestido. — Os olhos dele agora estavam fixos em suas formas generosas, e o álcool retirara qualquer sinal de reticência de seu olhar. — Muito bonita — repetiu. E acrescentou, caso ela ainda não tivesse entendido: — Muito, muito bonita.

Vivi ficou numa indecisão angustiante. Afastar-se dele agora seria o cúmulo da indelicadeza com alguém que fizera tamanho esforço para entretê-la. E, no entanto, o modo como ele olhava para o seu busto a deixava tensa.

— Xander, talvez a gente possa se encontrar no café da manhã.

Ele pareceu não ter ouvido.

— O problema com mulheres magras — dizia ele, diretamente para seu busto —, e como tem mulher magra, hoje em dia...

— Xander?

— ... é que elas não têm seios. Seio nenhum.

Enquanto falava, ele ergueu, hesitante, a mão na direção dela. Só que não era sua mão que ele desejava tocar.

— Ah! Seu...

A educação de Vivi a deixara sem resposta adequada. Ela deu as costas e saiu com um passo enérgico da sala, a mão sobre o peito, num gesto protetor, ignorando as súplicas um tanto sem entusiasmo atrás de si.

Tinha que achar Douglas. Não conseguiria dormir antes disso. Precisava se certificar de que, por mais inacessível que ele tivesse sido durante a noite, quando fossem embora dali, ele seria o seu Douglas de novo: o rapaz gentil, sério, que ajeitara os pneus furados de sua primeira bicicleta, que, como dizia seu pai, era um “garoto absolutamente decente” e que a levara para ver Tom Jones duas vezes no cinema, mesmo que não tivessem se sentado nem perto da última fila. Ela queria lhe dizer como Alexander tinha sido horrível (e nutria uma esperança secreta inteiramente nova de que esse comportamento vil pudesse ser o estímulo para ele perceber seus verdadeiros sentimentos).

Era mais fácil procurar naquele momento, com as aglomerações já diluídas em pequenos grupos, em geral parados, as rodinhas ficando menos amorfas e se transformando em amontoados exaustos. Os convidados mais velhos haviam voltado para seus quartos, alguns arrastando sob protestos pessoas por quem eram responsáveis, e do lado de fora ouvia-se pelo menos um trator tentando abrir um caminho afastado da casa. Ele não estava na sala de jogos, nem no salão de baile principal, nem no corredor contíguo, embaixo da imponente escadaria, nem bebendo com os paletós cor-de-rosa no bar Reynard. Ninguém mais a notava; a hora avançada e o consumo de álcool a tornaram invisível. Mas parecia que ele havia ficado invisível também. Ela se perguntara várias vezes, naquela exaustão, se, justo quando expressava sua antipatia por tais ocasiões pomposas e classistas, ele poderia ter ido de fininho para casa afinal. Vivi fungou com tristeza, percebendo que não lhe perguntara onde era o quarto dele. Estivera tão envolvida na própria fantasia, na perspectiva de fazê-lo acompanhá-la ao quarto, que não considerara a ideia de que talvez precisasse saber onde ficava o dele. Vou encontrá-lo, decidiu. Vou encontrar a Sra. Bloomberg e ela vai me dizer. Ou vou simplesmente bater em cada porta da outra ala até alguém achá-lo para mim.

Passou a escadaria principal, pulando os casais sentados que se apoiavam na balaustrada, escutando os gritinhos das garotas quando a banda bravamente recomeçou a tocar. Cansada, passou por fileiras de retratos de ancestrais, as cores esmaecidas pelos anos, as molduras douradas brilhando de um modo suspeito. Sob seus pés, o tapete vermelho luxuoso agora apresentava marcas de cigarros apagados e um ou outro guardanapo descartado. Do lado de fora das cozinhas, das quais emanava o cheiro de pão no forno, passou por Isabel, rindo sem parar no ombro de um rapaz atencioso. Já não parecia mais reconhecer Vivi.

Um pouco mais além, o corredor terminou. Vivi ergueu os olhos para a pesada porta de carvalho, olhou para trás a fim de se assegurar de que ninguém a observava e deu um enorme bocejo. Abaixou-se para tirar os sapatos, várias horas depois de terem começado a apertar seus pés. Tornaria a calçá-los quando encontrasse Douglas.

Foi quando levantou a cabeça que ouviu: um som de algo se arrastando, um grunhido intermitente, como se bêbados tivessem caído do lado de fora e tentassem se levantar. Ficou olhando para a porta que a separava do ruído e percebeu que estava apenas entreaberta, uma correnteza glacial deslizando pela lateral do corredor. Vivi, descalça, andou furtivamente até lá, um braço curvado na frente do corpo para se proteger do frio cada vez maior, sem saber por que não se limitara a gritar para ver se as pessoas estavam bem. Parou, depois abriu a porta, pôs a cabeça para fora e olhou a lateral da casa.

Em um primeiro momento, pensou que a mulher devia ter caído, porque ele parecia ampará-la, tentando encostá-la na parede. Então se perguntou se deveria oferecer ajuda. Devido aos sentidos nebulosos pelo cansaço, ou ao choque, só depois entendeu, estremecendo, que os sons ritmados que tinha ouvido emergiam daquelas pessoas. Que as pernas longas e pálidas da mulher não estavam sem forças, não eram as pernas inúteis de uma bêbada, mas estavam enroscadas nele, como uma cobra. Quando sua vista se adaptou à escuridão, Vivi, com um sobressalto, reconheceu à distância o cabelo comprido e escuro da mulher, caindo-lhe todo bagunçado no rosto, a sapatilha de paetê solitária, sobre a qual se assentavam flocos de neve perdidos.

Vivi se sentiu ao mesmo tempo repugnada e petrificada, sem tirar os olhos por um bom tempo até se dar conta, morta de vergonha, do que estivera presenciando. Ficou encostada na porta entreaberta, aquele barulho grotesco ecoando em seus ouvidos, chocando-se com o palpitar do seu coração.

Ela fizera menção de se mexer, mas, quanto mais permanecia ali em pé, mais paralisada ficava, colada à superfície áspera da porta, ainda que estivesse tiritando de frio e com os braços arrepiados. Em vez de fugir, encostou na superfície gelada da porta de carvalho e sentiu as pernas perderem os sentidos: percebera que, embora os tons lhe fossem desconhecidos, a voz do homem não era. Que a parte de trás da cabeça do sujeito, suas orelhas coradas e a linha definida onde seu cabelo encontrava o colarinho lhe eram familiares: tão familiares quanto tinham sido doze anos atrás, quando se apaixonara por elas.