A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 16 de 29

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A Loja dos Sonhos

Dezesseis

 

Douglas fechou a porta e olhou frustrado para o cachorro de sua mulher. Andara à procura de Vivi, passeara com o cachorro em volta dos jardins na esperança de que o animal a encontrasse, continuara em volta dos escritórios novos descendo para o pátio de laticínios e até para o outro lado do bosque, nos fundos dos galpões dos grãos. O cachorro não captara nada.

Talvez eu precise de um cão farejador, pensou, e suspirou diante da ironia. Preciso de um cão farejador para localizar a minha mulher. Ela andara muito ocupada ultimamente, deixava as refeições dele com bilhetes educados, ia se deitar tarde depois de descobrir inúmeras tarefas urgentes em partes da casa que não eram muito usadas. Ele não conseguia mais saber muito bem onde ela estava. Nem como estaria o seu humor quando a encontrasse. Sentia-se perturbado com o desacerto disso tudo.

O cachorro ficou embaixo de seus pés e ganiu quando Douglas tropeçou nele. Sua mãe, de trás da porta do anexo, chamou duas vezes para ver se era ele. Sentindo-se uma pessoa ruim, fez ouvidos de mercador: não queria receber mais nenhuma incumbência. Estava cansado por ter levado Rosemary de carro à cidade duas vezes aquela manhã — a terceira vez que tivera que fazer isso em uma semana. Sua mãe, ainda ressentida com a explosão de Vivi na semana anterior, já não perguntava por ela, como se a insurreição da nora tivesse infringido uma regra tácita, tornando-a, de certo modo, invisível. Se não estivesse com pena de si mesmo, ele poderia ter rido disso. A mãe, ele entendia, sentindo-se mal, tinha sido a queixa de sua mulher nos últimos meses. E o leve, mas tipicamente desagradável, aroma que não saía mais do banco do carona do Range Rover.

Douglas não deu bola para o cachorro, que estava sentado obedecendo a algum comando inexistente, pedindo sobras em silêncio, e pegou o bilhete na mesa da cozinha. O papel não estava lá quando ele saíra de manhã, nem uma hora antes, quando voltara para deixar Rosemary em casa, e sentiu-se irritado e triste ao vê-lo, como se seu casamento tivesse sido requisitado por duas estranhas infantis.

Vivi, informava o bilhete com uma letra caprichosa, havia saído e ia demorar. Tinha almoço no forno para ele e para Ben, e bastava aquecer por vinte minutos. Já ela, pelo visto, não podia garantir a mesma pontualidade.

Depois de reler o bilhete, Douglas o amassou e o atirou para o outro lado da cozinha, e o cachorro saiu correndo atrás da bolinha de papel.

E então, notando que as chaves do carro dela estavam no pino, olhou pela janela, enfiou o boné na cabeça e saiu de casa pela porta da cozinha, ignorando a voz imperiosa abafada gritando o seu nome às suas costas.

* * *

Alejandro puxou a carta aérea de seu escaninho, registrou o selo familiar e enfiou-a no bolso enquanto, cansado, atravessava o terreno do hospital rumo à sua cama, cerca de vinte e duas horas depois da última vez em que a vira. Ele podia ainda estar relegado aos plantões noturnos, embora o hospital frisasse, sempre que podia, ser uma organização que oferecia oportunidades iguais, mas, graças a seu sexo, tivera sorte com o alojamento. Tinha sido acordado que as enfermeiras e as parteiras não se sentiriam confortáveis dividindo a acomodação com um homem, por mais educado que este fosse. Quando ficou evidente que seria um problema encontrar para ele acomodações na cidade (a maioria dos proprietários esperava algo diferente quando ficavam sabendo a profissão do potencial inquilino), alguém encontrara a solução de lhe dar o que teria sido o apartamento do zelador, que o hospital não empregava mais para a manutenção do prédio das enfermeiras. Ele poderia ter que de vez em quando desentupir uma pia ou trocar um fusível, brincou a responsável pelas acomodações, e Alejandro encolhera os ombros. Não tivera condições de arcar com a despesa do próprio apartamento em sua terra. Não sabia o que esperar quando chegou, mas dois quartos e uma cozinha onde cabia uma mesa pareciam uma boa troca por alguns bicos.

No entanto, passados vários meses vivendo ali, Alejandro descobriu que o apartamento o deprimia, mesmo num dia como aquele, quando o sol o inundava de luz. Nunca entendera a aptidão, tão comum entre as mulheres, de imprimir a própria personalidade num espaço e, numa situação de vida que poderia ser temporária, faltava-lhe a vontade de tentar. Com a decoração bege sem graça e a mobília resistente, aquilo parecia desprezível e estéril. Seu vazio era constantemente realçado pelo barulho das pisadas fortes, das conversas e das risadinhas das mulheres indo e vindo nos degraus do lado de fora. Só duas outras pessoas tinham visto o seu interior: a enfermeira que ele insensatamente levara para casa em suas primeiras semanas (e que desde então o ignorava toda vez que se cruzavam) e, mais recentemente, uma espanhola da escola de línguas local que ele conhecera num trem e que lhe informara, num momento em que normalmente ele poderia ter esquecido quem era, que tinha namorado — antes de passar mais de quarenta minutos chorando. O dinheiro que ele pagara de táxi para ela voltar para casa, refletiu, poderia ter alimentado uma família Argentina de quatro pessoas por um mês.

Quando fui embora, pensava ele com frequência demais para seu gosto, só me lembrava do que eu estava fugindo.

Serviu-se de um copo de chá gelado e deitou-se no sofá, colocando uma almofada embaixo do pescoço, consciente do ranço de suor em suas roupas. Seus ossos doíam de cansaço: a segunda mãe de seu plantão estava muito acima do peso e rodava pelo quarto enlouquecidamente enquanto ele a seguia, arrastado, supostamente lhe dando apoio. Como sempre, Alejandro não sentira nada senão alívio no momento do parto. Só agora, várias horas depois, que as dores e as contusões estavam se revelando. Sacou a carta do bolso e estudou o endereço. Recebia poucas correspondências, e ver o próprio nome contra essas desconhecidas palavras inglesas ainda tinha o poder de afligir.

Filho, eu ia escrever que está tudo bem aqui, mas me dou conta, com

sinceridade, que isso só é verdade para um grupo seleto. No qual seu

pai, felizmente, ainda está incluído. Fala-se num novo governo, mas não

consigo ver como as coisas serão diferentes. Agora há dois “conselhos

de bairro” perto de nós, e muitos de nossos vizinhos estiveram nos novos

protestos — acenando chaves para os prédios do governo. Não vejo o

que isso vai adiantar, mas Vicente Trezza, que tinha o consultório perto

do meu, está lá entra dia sai dia com as chaves, as panelas, qualquer

coisa que faça barulho. Tenho medo de que ele fique surdo. Sua mãe se

recusa a sair de casa desde o dia em que o nosso supermercado foi

assaltado por uma multidão de favelados. Não interprete mal o meu

relato, filho. Estou satisfeito de poder dizer que você está se dando bem

na Inglaterra. Estou ansioso por nossa viagem de pesca de salmão.

Seu pai.

P.S. Uma senhora que marcou comigo pede que eu lhe mande

lembranças: Sofia Guichane. É casada com aquele safado do Eduardo

Guichane, da televisão. Queria fazer uma lipo e aumentar os seios. Só

concordei com a lipo por ora, uma vez que ela acha que pode

engravidar em breve. E tinha um par de seios fantástico. Não conte à

sua mãe que eu disse isso.

Garoto, minha querida mãe (que Deus a tenha) dizia: “Na Argentina,

você cospe no chão e uma flor cresce e desabrocha.” Agora, eu digo a

Milagros, faz as malas e desaparece. Choro por você todos os dias.

Santiago Lozano conseguiu arranjar um emprego num banco suíço e

manda dinheiro todo mês para o pai em dólar. Ana Laura, a garota

Duhalde, está indo para os Estados Unidos morar com a irmã do pai.

Você provavelmente não se lembra dela. Acho que daqui a pouco não vai

sobrar nenhum jovem aqui.

A nora da Milagros está esperando gêmeos. Rezo para que, quando

voltar para a Argentina, você me dê um neto. Não sobra muito amor na

minha vida, tudo que eu peço é uma coisa para fazer minha existência

valer a pena.

Vou lhe mandar uns pacotes de mate, como você pediu (mandei Milagros

ao supermercado, mas ela disse que as prateleiras estavam vazias).

Enquanto isso, através dos oceanos que nos separam, eu lhe mando um

presente precioso. Para você poder se lembrar da sua família. Se cuide.

E cuidado com as inglesas.

Beijos,

Sua mamá.

Alejandro se perguntou se sua mãe estava ficando esquecida. Tentou se lembrar se havia algum pacote em seu escaninho, mas, privado de sono como estava, tinha certeza de que lá só havia aquela leve carta. Meio que torceu para que ela tivesse esquecido: sentia-se culpado quando ela lhe enviava presentes, mesmo os pacotes baratos de sua bebida preferida. Virou a carta nas mãos e esfregou os olhos ressecados. Depois alcançou o envelope e, quase como se tivesse se lembrado disso depois, abriu-o.

Ali, aninhado no canto, leve como uma pluma, tão inconsistente que ele quase não vira. Enrolado com uma fitinha rosa. Um cacho do cabelo de Estela.

Alejandro fechou o envelope e o colocou de volta na mesa, o coração disparado. Esquecido o cansaço, levantou-se, sentou-se, depois tornou a se levantar e foi até a televisão, praguejando baixinho. Fitou a tela durante um bom tempo, depois olhou em volta do quarto, como se à procura de algum sinal que pudesse ter deixado de ver. E então, pegando as chaves, saiu do apartamento.

* * *

Vivi protegeu os olhos do sol, enquanto a figura familiar trotava em sua direção, ficando maior e mais nítida à medida que se aproximava, seu andar apenas ligeiramente mais rígido do que o do homem com quem se casara uns trinta anos antes.

Ele parou, como se pensando se pedia permissão, depois sentou-se ao seu lado, limpando sementes das calças.

— Seu almoço está no forno — disse ela.

— Eu sei. Obrigado. Vi o bilhete.

Ela estava de óculos escuros. Virou-se novamente para a paisagem, puxando a saia para cobrir os joelhos como se embaraçada por ser flagrada com a pele exposta.

— Dia bom para isso. Sentar-se ao ar livre, quero dizer.

Ela franzia os olhos para alguma coisa ao longe, depois abanou a mão para espantar uma mosca a vários centímetros do seu nariz.

A voz de Douglas estava animada, descontraída.

— A gente não costuma ver você por aqui.

— Não, acho que não.

— Você fez um piquenique ou coisa assim?

— Não. Só pensei em ficar sentada aqui um pouco.

Douglas digeriu isso durante vários minutos, olhando um pássaro que voava em círculos no alto.

— Olha esse céu. — Ele falou para o silêncio. — Pega a gente de surpresa a cada verão, não? Um céu azul assim.

— Douglas, você veio até aqui para me falar sobre o tempo?

— Hã... não.

Ela ficou esperando.

— Acabei de sair de casa... Minha mãe quer saber se você vai conseguir levar o gato dela no veterinário em algum momento.

— Ela marcou consulta?

— Acho que estava esperando que você marcasse.

— E há alguma razão para ela, ou mesmo você, não poderem ter executado essa tarefa?

Ele olhou para ela, pego de surpresa pelo tom, depois para os campos pardos abaixo.

— Tenho um monte de coisas no momento... querida.

— Eu também, Douglas.

No campo de baixo, uma enorme fera agrícola vermelha andava sem parar para cima e para baixo, grandes braços jogando para o alto nuvens de poeira das caprichadas fileiras plantadas. Quando ela se virou, o motorista avistou as figuras sentadas e ergueu o braço em saudação.

Distraidamente, Douglas também ergueu o seu. Ao tornar a abaixá-lo, suspirou.

— Sabe, Vivi, você não pode simplesmente ditar como nós todos devemos agir. — Abaixou a cabeça para se certificar de que ela tinha ouvido. — Vi?

Ela levou os óculos escuros para o alto da cabeça, revelando olhos vermelhos, cansados.

— Eu não dito nada aqui, Douglas. Não dito para você nem para Rosemary nem para Suzanna e nem mesmo para o raio do cachorro.

— Eu não tive intenção...

— Só tento manter tudo correndo bem. E isso funcionou por um tempo.

— Mas?

— Mas agora não está bom.

Ele esperou um pouco.

— O que quer que eu faça?

Ela respirou fundo, como alguém se preparando para recitar um discurso muito ensaiado.

— Quero que você aceite que sua mãe é sua responsabilidade também e a faça entender que eu não consigo lidar com os... os problemas dela sozinha. Quero ser consultada sobre questões que afetam essa família, quer você e sua mãe achem que eu tenha um direito automático a ser ou não. Quero me sentir... de vez em quando... como se eu não fosse apenas um móvel da casa. — Estudou a expressão dele, o olhar penetrante e feroz, como se desafiando-o a sugerir que essa reação fosse alguma coisa hormonal.

— Eu... eu nunca pensei em você...

Ela afastou o cabelo do rosto.

— Quero que você abra mão de mais um pouco da administração da propriedade.

— O quê?

— Eu gostaria que você e eu passássemos um tempo juntos. Sozinhos. Antes que eu fique muito velha para aproveitar. — E se não quiser isso, disse a si mesma no silêncio que se seguiu, você estará me dizendo o que, lá no fundo, eu sempre temi.

Ele ficou sentado, olhando para o vazio. Vivi fechou os olhos, tentando não interpretar nada no silêncio do marido, tentando juntar forças para continuar.

— O mais importante, Douglas, é que você traga Suzanna de volta — disse, devagar. — Precisa fazer com que ela se sinta tão importante quanto os outros.

— Vou garantir que Suzanna tenha igualdade financeira...

— Não, você não está me entendendo. Não se trata de dinheiro. Você precisa dar a Suzanna o mesmo sentimento de família, de pertencimento.

— Eu nunca discriminei...

— Você não está me ouvindo, Douglas...

— Eu sempre amei Suzanna da mesma forma... você sabe que sim. — A voz dele era zangada, tentando se justificar.

— É a Athene.

— O quê?

— Você tem que parar de agir como se Athene fosse um palavrão.

Eu não consigo ser uma pessoa boa, disse Vivi em silêncio. Rosemary me mostrou isso. Mas num único ponto, pelo menos, posso fazer a coisa certa. Posso engolir meus sentimentos e fazer a coisa certa. Lembrou-se, de repente, de como fora apresentada a Athene formalmente no primeiro casamento de Douglas. De como a moça, exótica e estranhamente fantasmagórica vestida de noiva, dera um sorriso vago e a ignorara. Como se Vivi fosse invisível.

Abaixo deles, o rugido agrícola morrera, deixando apenas o ruído da brisa, o zumbido distante de abelhas e pássaros e do tráfego ao longe.

As mãos dele se insinuaram nas delas. Vivi abriu os olhos, sentindo a aspereza familiar, os dedos rígidos rodeando os dela. A seu lado, Douglas tossiu sem jeito na outra mão.

— Não sei se isso vai ser fácil de explicar, Vi... mas você me entendeu mal. Eu não a odeio. Mesmo com o que ela fez. — Olhou para a mulher, cerrando a mandíbula ao lembrar-se da dor. — Você tem razão... eu nunca quis falar sobre Athene... não porque ela me deixasse desconfortável, mas porque eu tinha medo de fazer Suzanna se sentir diferente dos outros... Bom, talvez em parte fosse isso, mas principalmente porque eu não queria magoar você. Quer pretendesse ou não, ela prejudicou muita gente. Você... você nos protegeu esses anos todos. Botou tudo em ordem... eu... — Ele vacilou e levou a mão aos cabelos ralos. — Eu te amo, você sabe. — Seus dedos apertaram os dela. — Mesmo. E eu simplesmente não queria que ela tivesse a oportunidade de... te prejudicar, também.

* * *

Ela passou um tempo sentada sozinha ao ar livre, as brancas pernas compridas esticadas ao sol, o rosto inclinado para o céu azul sem fim, paradoxalmente aproveitando a ausência de clientes. A Sra. Creek tinha passado quase meia hora diante de seu café com leite resmungando num tom sinistro sobre a falta de biscoitos, enquanto Jessie não parava de falar sobre algum traje para uma peça da escola que era para ela ter feito até Suzanna mandar as duas embora juntas para continuar fazendo o que estava fazendo. Não era o tipo adequado de tarde para trabalhar. Muito quente. Muito úmida. Como se até pensar em fazer qualquer movimento com aquele sol exigisse muito esforço. Perdi meus hábitos londrinos em algumas coisas, refletiu, notando como os outros comerciantes também tinham colocado cadeiras do lado de fora, como se entretinham nos degraus da entrada, aparentemente sem se preocupar com a falta de clientes, satisfeitos de aproveitar o momento, suas conversas com pessoas que poderiam ou não, em algum momento no futuro talvez, escolher consumir alguma coisa ali. Ela ainda estava tendo dificuldade de explicar isso a Neil: na capital, as lojas subiam e decaíam baseadas em lucro e prejuízo, eram julgadas por suas colunas de números, interessavam-se por noções de números de clientes, faturamento e exposição. Aqui, pensou, lembrando-se de sua conversa com Jessie, eles eram como um serviço público. Um ponto focal para pessoas que, frequentemente, viviam vidas isoladas.

Quando o viu, a passos largos, muito rápido, muito determinado para a tarde sonolenta, recolheu as pernas para baixo do corpo, ajeitou a camisa, como se flagrada fazendo uma coisa que não deveria. Do fim da rua, ele lhe fez sinal como se para indicar que ela não precisava se levantar, mas, quando ele chegou na loja, Suzanna já tinha entrado e abastecia a máquina de café na penumbra fresca.

Teve dificuldade de erguer os olhos quando o ouviu entrar. Quando ergueu, de expressão neutra, viu que ele tinha uma aparência horrível, a barba por fazer, os olhos cansados.

— Expresso?

— Sim. Não. Você ainda tem chá gelado?

(Ela introduzira a bebida quando as vendas de café começaram a cair com o calor.)

— Tenho.

Para alguém cujos movimentos eram normalmente tão contidos, cujo comportamento era tão calmo, ele pareceu distraído, irrequieto.

— Se importa se eu fumar? — perguntara, quando ela lhe serviu o copo alto.

— Não se você levar o copo lá para fora.

Ele olhara para o maço de cigarros fechado na mão, depois para a rua luminosa, e aparentemente decidiu não fazer isso.

— Nada de Jessie?

— Foi para casa fazer uma fantasia de margarida.

Alejandro erguera as sobrancelhas, mas não parecera inclinado a continuar o assunto, de tal maneira que Suzanna sentiu-se vagamente tola por mencioná-lo. Ele tomou o chá gelado em goles sedentos, depois pediu mais.

Talvez fosse por causa da claridade lá fora, mas, na penumbra, a loja parecia ter encolhido. Suzanna se viu profundamente consciente dos próprios movimentos, do jeito que andava em volta do balcão, das sombras que seus dedos fizeram quando ela serviu o segundo copo de chá gelado. Olhou para ele disfarçadamente, registrando a camiseta amassada, o leve indício de suor masculino. Em contraste com os sabonetes delicadamente perfumados e o vaso de frésias ao lado da caixa, aquilo era tão masculino, de uma forma agressiva e perturbadora. Ela desejou, subitamente, que houvesse outros clientes, afinal.

— Fume aqui se quiser — disse alegremente. — Deixo a porta aberta.

Ele coçou o queixo.

— Você está com cara de que precisa de um cigarro.

— Não. Não, mesmo. Eu não fumo mais. Não sei por que comprei os cigarros.

— Você está bem? — perguntou ela, empurrando o copo para ele.

Ele soltou um longo suspiro.

— Plantão ruim?

— Tipo isso.

— Vou estar lá fora — disse ela e, sem saber direito por que precisou deixá-lo ali, voltou devagar para o sol.

Aos olhos de um passante, se tivesse algum ali, Suzanna teria parecido relaxada, debruçada na mesa, bebericando um copo de água gelada, observando os habitantes da cidade andarem de um lado para outro a caminho da praça do mercado. Mas ela estava dolorosamente consciente de cada minuto, sentia, ou imaginava sentir, nas costas quentes cada olhar da figura sombria dentro da loja. Tanto que quando ele finalmente foi para fora e sentou-se ao seu lado, ela teve que resistir ao impulso de soltar a respiração, como se tivesse passado por um teste que exigisse muito esforço.

— Quem é ela?

Ele pareceu mais à vontade, Suzanna notou. O brilho quase alucinado em seus olhos se dissipara.

— A moça no quadro. Não é você. Sua irmã?

Suzanna balançou a cabeça.

— Não, é minha mãe. Minha mãe biológica. — As palavras, pela primeira vez, saíram com facilidade.

— Você não guarda o quadro em casa?

— É complicado. — Alejandro estava olhando para ela. — Ele estava na casa da minha família. Na casa do meu pai. Ele se casou de novo. Mas quando me mudei para cá, me deram.

— Não o queriam em casa?

— Não sei se é bem isso.

— Você não o quer em casa.

— Também não exatamente... Tem uma... É só que o quadro no fundo não se encaixa mais em lugar nenhum.

A conversa já não estava tão agradável. Ela desejou ter deixado o quadro virado para a parede. Mexeu-se na cadeira, esticou o braço para pegar o chapéu de aba larga que mantinha por perto para lhe proteger a pele e o pôs, ficando com o rosto na sombra.

— Me desculpe. Não tive intenção de ofender...

— Ah, tudo bem. Jessie deve ter lhe contado. Sei que Jessie lhe conta... — Corrigiu-se. — Conta tudo para todo mundo. Mas é só que eu e meu pai temos uma relação complicada. E as coisas estão meio difíceis entre nós no momento.

Ele chegara a cadeira para ficar de frente para ela, que se virou um pouco na sua, consciente de que pareceria grosseiro ficar de costas para a parede. Lutava com sensações conflitantes de querer deixá-lo e ao mesmo tempo uma necessidade quase fundamental de se explicar.

— Tem a ver com herança — disse por fim. — Quem fica com o quê.

Ele a encarou.

— Minha família possui uma grande propriedade aqui. Meu pai não quer que eu a herde. Vai para o meu irmão mais novo. Talvez você tenha a mesma coisa na Argentina?

— Na Argentina isso não é um problema. — Ele sorriu com ironia. — Os filhos homens ficam com tudo.

— É óbvio que eu nasci no país errado. Ou meu pai nasceu.

— Isso incomoda você?

Ela ficou um pouco constrangida.

— Você acha que é ganância, não é? A pessoa se incomodar tanto por uma coisa que não ganhou?

— Não...

Suzanna prestou atenção para ouvir o eco das próprias palavras, como se fosse capaz de julgar como soaria para ele.

— Não sou uma pessoa gananciosa.

Ele esperou.

— Quero dizer, gosto de coisas boas, lógico, mas a questão não é o dinheiro. A questão é... como ele me vê.

Ela achou a intensidade da atenção dele quase excessiva. Baixou os olhos, percebeu que tinha terminado sua água.

— Às vezes acho que é porque sou parecida com ela. Já vi outros retratos, sabe, fotografias, e sou igualzinha a ela. — Ficou olhando para as pernas brancas, que nunca se bronzeavam, para as pontas do lustroso cabelo liso escuro, caídas em seus ombros.

— Então?

— Acho que ele está me fazendo pagar.

Ele tocou em sua mão, tão de leve que depois ela se pegou olhando para o ponto em que a pele deles havia se encostado, como se não soubesse direito se aquilo realmente havia acontecido.

— Por não ser a sua mãe?

Os olhos de Suzanna se encheram de lágrimas, inexplicavelmente. Ela mordeu o lábio, tentando segurá-las.

— Você não entenderia. — Ela meio que riu, constrangida com essa demonstração de emoção.

— Suzanna.

— Por... por ser responsável. Pela morte dela. Foi por minha causa que ela morreu, afinal. — Sua voz ficara dura, forçada, seu rosto tenso sob o sorriso. — Ela morreu no parto, sabe. Ninguém fala nisso, mas aí está. Ela ainda estaria aqui se não fosse por mim. — Esfregou com desdém o nariz. — Me desculpe — disse de repente. — Não sei por que estou lhe contando isso. Por você ser parteiro, talvez. Já viu isso acontecer... Enfim. Essa história geralmente não me afeta assim.

A rua estava deserta, o sol reverberando metálico nos paralelepípedos. Ela tornou a se virar para ele, o sorriso corajoso e alegre.

— Que herança, hein?

Por razões que ela não entendeu, ele pegou-lhe delicadamente a mão e pousou a cabeça ali, como que numa atitude de súplica. Ela sentiu a pele da testa dele, a dureza elétrica do osso por baixo, e suas lágrimas evaporaram diante da estranheza do que ele estava fazendo.

Quando Alejandro por fim ergueu os olhos, ela achou que ele poderia se desculpar. Mas ele apenas balançou com leveza a cabeça, como se já soubesse daquilo, como se estivesse esperando esse tempo todo que ela dissesse.

Suzanna, esquecendo a polidez, retirou a mão, mantendo-a junto ao peito como se tivesse sido queimada.

— Vou... vou buscar mais chá — disse, e correu para a segurança de sua loja.

* * *

Alejandro voltou a pé para o hospital, mas foi uma caminhada penosa. Andou quase dois quilômetros e meio e já estava tão cansado que se sentiu nauseado. Pegou o atalho pela propriedade Dere, os pés se movendo automaticamente nos calçamentos quentes. Ela já tinha gritado seu nome três vezes quando ele a ouviu.

— Nossa, você está com uma cara de arrasado. — Jessie e a filha estavam de mãos dadas, as expressões alegres e radiantes como o sol.

Ele se sentiu aliviado de vê-las, tão leves e bem.

— Estávamos fazendo roupas para a peça de fim de semestre. A Sra. Creek ajudou.

Emma mostrou uma sacola de plástico.

— Agora vamos para o parque. Pode nos acompanhar se quiser. Empurrar Emma nos balanços. Eu não estou muito bem para empurrar no momento — disse Jessie. — Machuquei o braço.

Ele talvez tivesse ficado tentado a dizer alguma coisa, pensara nisso muitas vezes, mas seu cérebro não estava organizado e ele não se garantia em dizer o que queria.

— Me desculpe. Não te ouvi muito bem.

O cabelo dela tinha um brilho preto-azulado no sol da tarde. Quando olhou para ele, tinha os olhos cor de mar zangados, como se estivesse ralhando com ele por alguma transgressão anterior. Ele ainda podia sentir sua pele na dele, aquele brilho fresco como orvalho.

— Você mal se aguenta em pé, coitado. — Jessie pôs o braço no dele. — Olha para ele, Ems. Dormindo em pé. Por que você não vai para casa?

— Seu queixo está com a barba grande. — A criança se balançou em volta de uma coluna, jogando as pernas para o alto com a exuberância da juventude, balançando em direção ao equipamento colorido do parquinho, visível apenas para além das árvores.

Eu nunca a vi antes, pensou. Sei que nunca a vi antes. Então, por quê...?

— Que bebês saíram hoje?

Jess afagou o cabelo da filha.

— Deixa ele, Ems. Ele está muito cansado para falar de bebês agora. Vai, Ale. Vai para a sua casa. Durma um pouco.

— Eu não sei... — murmurou, entre dentes, tão baixinho que, como ela disse à mãe mais tarde, não soube direito o que ele tinha dito. E, mesmo então, não soube direito o que queria dizer. — Acho que não sei onde é a minha casa.

* * *

Suzanna chegou em casa bem depois de Neil, justo quando as sombras começavam a se alongar, a luminosa tarde de verão tendo se estendido quase indecentemente até tarde. A casa, apesar de sua falta de esforço, estava idílica, clematites jorrando em cima do pórtico com vigas, a luz dourada cobrindo as pontas das plantas perenes que persistiam em sair à força dos canteiros, pulsatila, alchemilla, dedaleira, violeta brilhante, cor-de-rosa e azul, não afetadas pela falta de capina ou de fertilizante.

Ela não viu nada disso. Entrou, encontrou-o, os pés esticados na mesa de centro, olhos fixos na televisão.

— Eu já ia ligar para você — disse ele, levantando o controle remoto. — Você está (a) presa no trânsito, (b) fazendo uma liquidação de Natal sobre a qual não me contou, ou (c) presa embaixo de um móvel pesado sem conseguir alcançar o seu telefone? — Tirou os olhos da televisão e sorriu para ela, soprando um beijo. — Tem jantar no forno. Achei que você talvez chegasse com fome. Me desculpe, eu já comi.

— O que tem para o jantar?

— Nada empolgante. Espaguete à bolonhesa de mercado. Eu não estava muito inspirado.

— Na verdade, não estou com muita fome.

Ela começou a descalçar os sapatos, se perguntando o que se passava consigo mesma para se irritar só de vê-lo sentado ali tão satisfeito, mesmo tendo lhe preparado uma refeição. “Ele não é bom?”, podia ouvir seus pais exclamando um para o outro. “Cozinha para ela também. Acho que ela não se dá conta da sorte que tem.” Ficou parada na cozinha por um instante, encostada no aparador, desejando com todas as forças ser simpática, repreendendo-se por notar, como sempre notava, as migalhas do café da manhã, as cortinas floridas que odiava mas não conseguia se forçar a substituir (porque isso significaria fazer um investimento emocional na casa), as panelas e bancadas engorduradas e salpicadas que denunciavam as aventuras culinárias de Neil. Vou ser sempre tão ruim assim?, perguntou a si mesma. Vou estar sempre tão insatisfeita?

— Se quiser, pego uma taça para você — gritou ele, da sala. — Tem uma garrafa de vinho aberta.

Ela abriu o armário, pegou uma pela haste e entrou na sala. Sentou-se ao lado dele no sofá e ele lhe deu um tapinha na coxa.

— Dia bom? — perguntou, os olhos ainda na televisão.

— Tudo certo.

— Como esteve o tempo aqui? Estava maravilhoso em Londres. Na hora em que consegui sair, pelo menos.

— Ótimo. Bem quente.

— Estava lindo quando cheguei aqui. Olha esse cara. Está histérico. — Neil riu.

Tinha pegado sol, ela se deu conta. As sardas estavam ressaltadas.

Suzanna sentou-se, insensível ao comediante na tela, bebericando o vinho que o marido lhe servira.

— Neil — disse por fim —, você às vezes se preocupa com a gente?

Ele virou o rosto da tela após uma hesitação imperceptível, como se entendendo com relutância que estavam prestes a ter Uma Daquelas Conversas e, no íntimo, desejando não fazer parte disso.

— Não me preocupo mais. Por quê? Eu deveria?

— Não.

— Não está prestes a fugir com o fazendeiro vizinho, né?

— Estou falando sério. Você alguma hora se pergunta... se é só isso? Se isso é o máximo que a gente consegue?

— Máximo em termos de quê?

— Sei lá. De felicidade? Aventura? Paixão? — Ela disse a última palavra consciente de que ele poderia ouvir ali algum tipo de convite.

Viu-o tentando conter um suspiro. Ou talvez um bocejo. Os olhos dele ficavam deslizando furtivamente para a televisão.

— Não sei se estou acompanhando seu raciocínio.

— Olha para a gente, Neil. Parecemos um casal de meia-idade, e não acho que tenhamos passado pela fase boa antes de chegarmos aqui. — Esperou, monitorando a reação dele, desafiando-o a tornar a olhar para a televisão.

— Você está dizendo que está infeliz?

— Não estou dizendo nada. Só... só me perguntei o que você pensava sobre isso. Sobre nós. Se estava feliz.

Ele levantou o controle remoto e desligou a televisão.

— Estou feliz? Sei lá. Estou mais feliz do que eu era.

— Isso é bom o bastante?

Ele balançou ligeiramente a cabeça, um movimento provocado pela exasperação.

— Acho que não sei que tipo de resposta você está esperando.

Ela fez uma careta, insegura também.

— Você não acha, alguma hora, Suze, que pode ser responsável pela sua própria felicidade? Ou infelicidade?

— O quê?

— Esse interrogatório todo. Essa autoanálise toda. Estou feliz? Estou triste? Isso basta? Não acha que pode estar se preocupando demais com isso? Parece que... você vive procurando motivos para se preocupar, vive se julgando pelos padrões dos outros.

— Não vivo nada.

— Isso tem a ver com Nadine e Alistair?

— Não.

— Há anos eles são um acidente pronto para acontecer. Você não pode dizer que não notava cada vez que íamos lá. A certa altura, só se comunicavam por meio da babá.

— Não tem a ver com eles.

— A gente não pode se limitar a curtir o momento? Pela primeira vez em séculos, estamos sem dívidas, estamos os dois empregados, temos um lugar legal para morar. Quero dizer, ninguém está doente, Suzanna. Não há nada ruim no horizonte, só coisas boas, a sua loja, o bebê, o nosso futuro. Acho que a gente deveria pensar no que tem de bom.

— Eu penso.

— Então será que não podemos focar nisso e parar de procurar problemas? Uma vez na vida?

Suzanna olhou fixamente para o marido, até que, tranquilizado, ele tornou a se virar para a televisão e ligá-la com o controle remoto.

— Sim — disse ela. Levantou-se e foi andando devagar para a cozinha.