A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 22 de 29

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A Loja dos Sonhos

Vinte e dois

PARTE TRÊS

Vinte e dois

 

Dizem, entre os poucos que foram ressuscitados de um afogamento, que os últimos momentos antes da asfixia são bastante agradáveis. Quando a luta termina e a água inunda os pulmões, a vítima entra num estado passivo de aceitação, até vê uma espécie de beleza despropositada naquela situação.

Suzanna pensou nisso com frequência durante as semanas seguintes. Às vezes, tinha uma sensação de afogamento. Às vezes, parecia sonâmbula, como se executasse cegamente movimentos pré-determinados, sem muito controle do que dizia ou fazia. Diriam, pensou com ironia, que isso era um progresso. Em casa, mantinha tudo arrumado e a geladeira bem abastecida, e já fazia tempo que não reclamava das vigas. Ela e Neil eram delicados um com o outro, solícitos, reconhecendo que as últimas semanas haviam prejudicado a eles dois de alguma forma e não querendo ser responsáveis por mais sofrimento. Ela dizia a Neil que o amava uma vez por dia e, justiça seja feita, era um sentimento que ele sempre retribuía com prontidão. Engraçado como, no casamento, uma frase que começara como uma pergunta, até mesmo uma provocação no início do relacionamento, podia, em última instância, tornar-se uma espécie de garantia benévola.

Ela pouco pensava em Alejandro. Conscientemente, pelo menos. À noite, muitas vezes acordava chorando e se perguntava, temerosa, o que tinha dito enquanto dormia. Neil colocara esses episódios noturnos na conta da morte de Jessie, e constantemente ela se sentia culpada, pedindo desculpas em silêncio à amiga, por ainda não ter falado a verdade.

Alejandro não ia mais à loja. Mas, por outro lado, poucas pessoas iam. Quando o impacto da morte de Jessie se dissipou, as flores foram retiradas e o sentimentalismo e a curiosidade haviam se dissolvido, Suzanna ficara apenas com alguns clientes assíduos. Havia a Sra. Creek — que vinha, Suzanna desconfiava, porque já tinha abusado da hospitalidade nos outros lugares. Uma vez entreouvira o nome da mulher mencionado no café do mercado, onde houve um subsequente revirar de olhos e, por um instante, sentira pena dela. Só que as histórias em todo momento autocentradas e as exigências inadequadas da Sra. Creek faziam com que a compaixão nunca durasse muito.

Havia o padre Lenny, que lhe disse solenemente que, se ela quisesse falar, falar mesmo (aqui ele ergueu uma sobrancelha significativa), ele estava sempre à disposição. Ah, e se ela quisesse luminárias de miçangas por um bom preço, bonitas, veja bem, ele sabia onde encontrar. Liliane vinha de vez em quando, resplandecente com o que talvez fosse um novo amor, e comprou, entre outras coisas, uma carteira de couro de porco para Arturro e vários cartões de felicitações feitos à mão. Ela não falava com Suzanna mais que o estrito necessário e, apesar do desfecho aparentemente feliz dos atos seus e de Jessie, Suzanna sabia que, de alguma maneira, ela não tinha sido perdoada pelos chocolates do jeito que Jessie poderia ser sido.

Arturro ia lá, pelo menos uma vez por dia, para comprar um expresso de que ela desconfiava que ele já não precisava. Um passarinho tinha lhe contado que ele pensava em mandar instalar a própria máquina, mas estava adiando só por lealdade a Suzanna, talvez achando que a loja já tinha sofrido o suficiente. Ele era sempre bondoso, verificando se havia algum serviço precisando ser feito, oferecendo-se para olhar a loja para que ela pudesse sair para almoçar. Suzanna não aceitava a oferta dele com muita frequência. Era raro, naquela época, sentir fome suficiente para fazer o esforço de comprar alguma coisa, e temia que, se ele passasse muito tempo por ali, Liliane a olhasse de um jeito mais malévolo do que já olhava.

De vez em quando, percebia que ele a olhava com olhos tristes, preocupados, então ela dava um sorriso forçado. Um sorriso que dizia: “Estou bem, mesmo.” Um sorriso que ela se via usando tantas vezes que já tinha esquecido como era o verdadeiro.

Neil lhe disse que a loja não estava dando certo. Não falou com todas as palavras. Provavelmente não queria deixá-la mais triste do que ela já estava. Limitava-se a olhar os livros a cada poucos dias, e o jeito como ele pousava a cabeça na mão enquanto examinava os recibos lhe dizia tudo de que ela precisava saber.

Suzanna percebeu que devia se importar mais do que se importava, mas a fachada vistosa pintada de novo e os cartazes que alguém havia colocado para esconder os feios tapumes nas janelas não eram tão atraentes como no passado. As mesas de cores alegres de repente tinham um ar triste e improvisado, os copos deixando círculos coloridos nos tampos que ela não havia secado bem. Os trechos nus nas paredes, cujas fotografias e imagens, que haviam colado ali juntas, ela não tinha coragem de substituir; a emulsão branca com que, com uma urgência estranha, ela cobrira todos os mapas em uma única tarde; a ausência de vitrine — tudo, de alguma forma, conspirava para fazer a loja parecer diferente. Menos acolhedora. Falando menos ao seu público. Menos parecida com o que, quase um ano antes, ela imaginara.

Suzanna sabia disso. Como as outras pessoas todas sabiam. De alguma forma, por mais piegas que isso parecesse, o coração da loja tinha morrido.

* * *

O clima estava definitivamente querendo mudar, assim as boas senhoras do mercado do Instituto das Mulheres disseram a Vivi naquela manhã, quando ela foi lá pegar a encomenda semanal de vegetais. As semanas de céu azul suave e calor sem vento que pareciam intermináveis tinham sido substituídas, primeiro por algumas horas, mas agora durante dias inteiros, por ventos fortes, céu cinzento e pancadas de chuva. As flores já tinham perdido o viço havia muito, as cabeças marrons e murchas, aguardando a dissolução gradual na terra de onde tinham vindo, enquanto árvores perdiam prematuramente as folhas, cobrindo ruas e calçadas de verde e dourado desbotados. Talvez, para um verão como o que tinham tido, pensou Vivi, sempre tivesse que haver um preço. Desistiu de pôr a roupa para secar fora de casa.

— Tudo pronto? — Douglas estava atrás dela, as mãos em sua cintura, e beijou seu rosto.

— O máximo possível. Aceitei o que você disse sobre não querer um almoço de verdade.

— Um sanduíche está ótimo — disse ele. — Imagino que nenhum deles queira demorar muito. Bem, Lucy talvez queira, se tirou o dia de folga.

— Não, ela me disse que vai tomar o trem de volta hoje à tarde e vai retornar ao escritório.

— A garota é uma viciada em trabalho — disse Douglas, chegando para o lado para conferir os sanduíches. — Não consigo imaginar a quem ela saiu.

Os celeiros estavam cheios de feno e palha. Os campos de trigo e cevada tinham sido arados e cobertos. Vivi observou o marido olhando distraidamente pela janela da cozinha, monitorando o céu que escurecia para ver se ia chover, como tinha feito, várias vezes por dia, por toda a sua vida adulta. As primeiras gotas esparsas caiam na janela, e ela se sentiu melancólica com o fim do verão. O inverno era muito mais longo no interior. Era só escuridão e frio, lama sem fim e terra marrom nua, um se agasalhar e se desagasalhar sem fim para enfrentar o frio severo. E, no entanto, este ano, a perspectiva dos dias menores, do avanço da escuridão, de certa forma, não tinha o peso que parecia ter antes.

— Você conversou com a sua mãe? — perguntou ela, tirando o embrulho de um bolo comprado em loja. Não se deu ao trabalho de baixar a voz: a audição de Rosemary agora era tão ruim que ela raramente captava qualquer coisa dita numa conversa normal.

— Sim — respondeu Douglas. — Eu disse a ela que, apesar do que ela achava, não estávamos ignorando os desejos dela. E que isso é mais ou menos um meio-termo feliz e que, se olhasse bem, devia ser capaz de enxergar isso.

— E?

— E eu disse a ela que a felicidade da família era a coisa mais importante. Incluindo a dela.

— E?

— Ela fechou a porta na minha cara — disse ele.

— Coitado — falou Vivi, adiantando-se para dar um abraço no marido, depois deu um tapa na mão dele quando ele enfiou um dedo áspero no glacê.

* * *

Suzanna foi a primeira a chegar, e Vivi pisou no gato quando corria pelo corredor para abrir a porta. O pobrezinho deu um gemido tão fraco que ela se deu conta de que o animal provavelmente já não tinha energia suficiente para reclamar.

— Acho que acabei de esmagar o gato da Rosemary — disse, ao abrir a porta.

Suzanna não pareceu ter ouvido.

— Não posso ficar muito tempo — disse, dando um beijo no rosto da mãe. — Preciso abrir a loja de novo à tarde.

— Eu sei, querida, e você faz muito bem de se esforçar. O seu pai não vai demorar, prometo. Fiz uns sanduíches para vocês poderem comer enquanto ele fala. Quer dar uma olhada no gato da Rosemary e me dizer se acha que eu quebrei alguma coisa?

— É difícil dizer. — O sorriso de Suzanna era forçado. — Ele sempre teve as pernas meio tortas. Olha, está andando. Eu não me preocuparia.

A filha estava magra, notou Vivi, seguindo-a até a cozinha, onde a Sra. Cameron preparava uma bandeja. Mas não era só a magreza: Suzanna estava cinzenta, abatida, como se a sua essência de certa forma tivesse se diluído. Vivi desejou que, na infelicidade, a filha pudesse ter encontrado mais conforto em Neil. Mas, por outro lado, ela não sabia ao certo o quanto Neil era parte do problema.

— Quer que a gente prepare mais alguma coisa para a Sra. Fairley-Hulme? Se bem me lembro, ela não é muito fã de sanduíche — indagou a Sra. Cameron.

— Já conhece a Suzanna, Sra. Cameron? A minha filha mais velha. Suzanna, esta é a Sra. Cameron. Aliás, eu ia lhe perguntar se você se importava de fazer uns ovos mexidos. — Baixou a voz. — Ela não vai sair do anexo hoje, pelo visto.

— Isso é um protesto? — perguntou Suzanna, encostando-se no fogão, como se pudesse absorver o seu calor.

— Acho que a vida inteira da Rosemary é um protesto — disse Vivi, e se sentiu desleal. — Vou só terminar as camisas e aí faço uma bandeja para ela.

Passados uns minutos, levou a bandeja para o anexo, depois fez outra com um bule e quatro canecas. Quando voltou à cozinha, Suzanna olhava pela janela. A tristeza em seu rosto, subitamente, fez Vivi sentir-se deprimida e consciente de que esta era uma emoção que tinha sentido com muita frequência, durante muito tempo. Não existe felicidade, pensou, se um dos seus filhos estava infeliz. Secou as mãos no avental, depois desamarrou-o e pendurou-o atrás da porta, resistindo ao impulso de abraçar a filha assim como acabara de abraçar o marido.

— Você pensou, querida, sobre querer ou não que a gente deixe o quadro de Athene na galeria lá em cima?

— Não — disse Suzanna. — Não tive muito tempo para isso.

— Não, é lógico que não. Bem, se quiser dar mais uma olhada, sabe onde ele está.

— Obrigada, mãe, mas hoje, não.

Vivi, ouvindo a vozinha gelada, controlada, se perguntou se ela ainda estava chorando a morte da amiga. A perda ainda era relativamente recente, afinal. Lembrou-se do impacto da morte de Athene — o choque daquilo reverberando pelas famílias deles, o número limitado de pessoas que conhecia a verdade sobre as “férias estendidas de Athene no exterior”. Embora fosse provável que Vivi não tivesse ficado tão triste quanto poderia (quem havia ficado?, pensou com culpa), ainda se lembrava do choque esmagador de uma pessoa tão jovem e tão linda — uma mãe — tendo sido arrancada da vida com tanta brutalidade.

Perguntou-se, com o familiar sentimento de inadequação, o que podia fazer para aliviar um pouco do sofrimento da filha. Queria lhe perguntar o que havia de errado, oferecer algum remédio, apoiá-la. Mas sabia, por experiência amarga, que Suzanna só falava quando estava pronta. E isso, no caso de Vivi, era bem provável ser nunca.

— Lucy deve chegar em um minuto — disse, pegando guardanapos na gaveta de toalha de mesa. — Ben acabou de buscá-la na estação.

* * *

Vivi não ia participar da pequena reunião deles: sabia o que ia ser dito, afinal. Mas, como Douglas dissera que a queria ali, ela se colocou no fundo da sala, encostada na estante de livros, saboreando com uma vaga satisfação maternal a visão das cabeças dos três filhos à sua frente. Ben ficara com o cabelo bem loiro durante o verão, trabalhando ao ar livre o dia inteiro, e parecia a caricatura de um filho de fazendeiro alimentado a milho. Lucy, à direita dele, estava bronzeada e em forma, tendo acabado de voltar de suas férias exóticas. Suzanna, à direita, não podia parecer mais diferente dos outros, com a pele leitosa, o cabelo escuro e os olhos sombrios. Sempre seria linda, pensou Vivi, mas hoje parecia alguém tentando não ser.

— Eu ia ligar para você, Suze — disse Ben, enfiando um sanduíche na boca. — Dizer a Neil que estou preparando uma lista para aquela primeira caçada. Tenho um lugar para ele, se ele quiser vir.

— Não tenho certeza se a gente tem dinheiro — disse ela baixinho.

— Mas eu não quero que ele pague — disse Ben. Sua indignação pareceu forçada, sua atitude natural, jovial demais para confirmá-la. — Olha só, se ele está preocupado, diga a ele que pode me pagar limpando os chiqueiros velhos.

— Ou arrumando o seu quarto — disse Lucy, cutucando-o. — Não consigo ver muita diferença. Quando você vai se mudar, filhinho da mamãe?

— Quando você vai arranjar um namorado?

— Quando você vai arranjar uma namorada?

— Você não tem coisa melhor para fazer?

— Humm — disse Lucy, de um jeito teatral. — Oitenta mil por ano mais bônus, uma sala dando para o Tâmisa, meu apartamento próprio, título de dois clubes privados e férias nas Maldivas. Ou mesada da mamãe e do papai, o quarto que você tem desde os doze anos, um carro tão imprestável que você acaba sempre pegando o da mamãe e a melhor noitada sendo a discoteca Young Farmers de Dere. Humm, me pergunto quem realmente precisa ter coisa melhor para fazer?

Era o jeito como eles se reapresentavam uns aos outros, Vivi sabia, o jeito como restabeleciam seus vínculos. Mas, enquanto Lucy e Ben continuavam aquela briga amigável, Suzanna não dizia nada, só olhava para o relógio e depois para o pai, que procurava os óculos no meio dos papéis.

— Então, o que é, pai? — disse Lucy por fim. — O Rei Lear? Eu vou ser a Cordélia?

Douglas encontrou os óculos, colocou-os com cautela no nariz e olhou para a caçula por cima da fina armação de prata.

— Muito engraçado, Lucy. Aliás, achei que estava na hora de consultar vocês um pouco mais sobre a administração da propriedade. Já alterei meu testamento para que, enquanto ela for administrada por Ben, cada um de vocês tenha finalmente um interesse financeiro nela, bem como alguma voz em seu futuro. Acho que é melhor vocês terem alguma noção do que está acontecendo por aqui antes que me aconteça alguma coisa.

Lucy pareceu interessada.

— Posso ver a contabilidade? Sempre me perguntei quanto essa propriedade rendia.

— Duvido que leve você às Maldivas — disse o pai secamente. — Já fiz cópias. Estão ali na pasta azul. Só peço que não as leve daqui. Me sinto mais confortável sabendo que todas as informações financeiras estão num lugar só.

Lucy dirigiu-se à mesa e começou a estudar as planilhas que Vivi sempre achou impenetráveis. Sabendo que algumas mulheres de fazendeiros agiam como contadoras dos maridos, ela avisara a Douglas desde o início que não localizava a diferença entre débito e crédito.

— O mais importante que eu queria contar para vocês é que nós temos autorização para transformar os celeiros ao lado da Casa Philmore em casas de fim de semana.

Ben mexeu-se na cadeira, deixando óbvio que já sabia disso. Lucy assentiu com a cabeça vagamente. A cara de Suzanna era inexpressiva.

— Acho que existe um mercado potencial e que, com níveis de ocupação razoáveis, podemos recuperar o custo da transformação em poucos anos.

— Hóspedes de fim de semana — disse Lucy. — Atenda o alto público do segmento e você vai rir.

— E pessoas que querem uma semana inteira. Menos roupa para lavar e menos faxina — disse Ben.

— Meu chefe diz que não há casas realmente boas de fim de semana para quem tem dinheiro para gastar. Diz que só encontra talher de plástico e lençóis de náilon.

— Mãe, anote que a gente não quer lençóis de náilon.

Vivi se inclinou.

— Acho que nem se vende mais isso. É uma coisa horrível. Fazia a pessoa transpirar muito.

— Ben vai supervisionar e administrar a obra. — Douglas examinou os três filhos. — Ele vai cuidar das reservas, da limpeza e da entrega das chaves, bem como da parte do dinheiro. Se ele fracassar, mandamos dar um tiro nele.

— O que vai poupar na criação de faisões.

— Imaginei agora o Ben correndo pelado pela mata, perseguido por banqueiros vestidos de tweed — disse Lucy, rindo. — Até perdi a vontade de almoçar.

— Bruxa — disse Ben. — Me passa um queijo com picles.

— Há mais algumas questões, uma das quais tem a ver com subsídios. Não vou aborrecê-los com elas agora, pois sei que nenhum de vocês tem muito tempo. Mas, Suzanna, tinha uma coisa que eu queria conversar com você, em especial.

Suzanna estava sentada com a caneca de chá no colo. Vivi notou que a filha não tinha comido nem um pedacinho do sanduíche.

— Quando eu estava discutindo o que fazer com os celeiros, tive uma longa conversa com Alan Randall... sabe, o agente imobiliário. Ele me disse que o proprietário da sua loja está pensando em vender. Nós nos perguntamos se você gostaria que tivéssemos uma participação financeira.

Suzanna pousou a caneca com cuidado na mesa a seu lado.

— O quê?

— No Empório Peacock. Neil me disse que as coisas não estão muito boas para você no momento, e sei que você anda trabalhando muito na loja. Acho que é um bom negócio, ou tem potencial para ser, e gostaria de ajudar para que tenha futuro.

Vivi, observando a filha, viu que, mais uma vez, eles tinham feito a coisa errada.

Suzanna engoliu em seco, depois levantou a cabeça, a expressão penosamente controlada.

— Você não tem que fazer isso, pai.

— Fazer o quê?

— Me compensar. Pela nossa relação. Pelas casas de fim de semana do Ben. O que for.

— Suzanna... — disse Lucy, exasperada.

— É uma oferta de negócios legítima — disse Douglas.

— Eu não estou sendo grosseira. De verdade. Mas prefiro que vocês fiquem fora do meu negócio. Eu decido o que acontece com ele.

— Nossa, Suzanna — disse Ben, irritado. — Eles só estão tentando ajudar.

A voz de Suzanna era glacial, educada.

— Eu sei. E é muita bondade de vocês pensarem em mim, mas não quero nenhuma ajuda. Mesmo. Eu preferiria que vocês me deixassem em paz. — Olhou em volta da sala. — Não estou sendo difícil — disse ela, com uma voz, agora, equilibrada. — Eu preferiria que vocês se limitassem a deixar isso comigo e com Neil.

Douglas tinha fechado a cara.

— Ótimo, Suzanna — disse, abaixando a cabeça sobre a papelada. — O que você quiser.

* * *

Lucy encontrou Suzanna onde imaginava que a irmã estaria, nos degraus de pedra que davam para os escritórios. Suzanna andara fumando, curvada sobre os joelhos como alguém tentando combater uma dor de estômago. Quando Lucy fechou a porta ao passar, a irmã balançou a cabeça reconhecendo sua presença.

— Gostei do cabelo — disse Lucy.

Suzanna levou a mão a ele.

— Por que você cortou? Pensei que gostasse dele comprido.

Suzanna franziu o nariz.

— Precisava dar uma mudada. Aliás — disse, apagando o cigarro —, isso não é estritamente verdade. Enjoei de ter as pessoas me dizendo que pareço com aquele quadro idiota.

— Ah.

Lucy esperou por mais alguma coisa. Estendeu a mão e pegou um cigarro do maço da irmã.

— O Neil gostou — disse Suzanna, por fim. — Sempre gostou de mim com o cabelo curto.

O céu estava nublado, ameaçando mais chuva, e as duas se aconchegaram nos casacos, mexendo-se à medida que o frio do degrau de pedra penetrava implacavelmente por suas roupas.

Lucy deu uma longa tragada.

— Faz dois anos que parei, mas, quando fumo um de vez em quando, ainda é delicioso.

— O maço que eu fumo de vez em quando também — disse Suzanna.

Havia algo estranho na voz dela. Lucy, mudando de ideia, apagou o cigarro e jogou a prova num vaso de flor, como se elas ainda fossem adolescentes.

— Vai brigar comigo?

— Por quê?

— Por recusar a ajuda do papai. Como Ben brigou.

— Por que eu brigaria?

— Bem, foi o que todo mundo fez.

Elas ficaram em silêncio, cada uma sozinha com seus pensamentos, observando as nuvens correrem pelo céu, de vez em quando revelando um trecho azul.

— O que está havendo, Suze?

— Nada. — Suzanna olhava reto para os celeiros.

Houve uma longa pausa.

— Ouvi falar do que aconteceu na loja. Tentei ligar umas duas vezes... para ter certeza de que você estava bem.

— Eu sei. Desculpa. Eu sempre esqueço de retornar as ligações.

— Você voltou a trabalhar a todo vapor?

— Em tese. Neil diz que não vou durar muito neste ritmo. Não estou ganhando dinheiro. É difícil... é difícil saber o que fazer para atrair gente para a loja. — Ela sorriu para a irmã como quem se desculpa. — Acho que não sou a pessoa mais acolhedora no momento. Não sou uma grande atração mesmo em circunstâncias normais. Por isso realmente não vejo sentido algum em papai investir nela.

Lucy inclinou-se à frente, trazendo os joelhos até o peito.

— E você e Neil?

— Estamos bem.

— Estou presumindo que os cigarros significam que o bebê Peacock ainda não está a caminho...

— Acho que a expressão aceita é “se vier, vem”. Talvez tente com mais afinco quando estiver me sentindo um pouco... mais alegre. — A voz dela sumiu.

— Tentar com mais afinco? — Lucy fez uma careta. — Em que você está tentando se transformar? Em algum tipo de mulher de Stepford? — Ela estudou o perfil da irmã, o sorriso se apagando quando viu que não haveria resposta jocosa. — Você está diferente, Suze. Está parecendo... — Não conseguiu achar as palavras certas. — Casada, para variar?

Quando Suzanna tornou a se virar para ela, Lucy ficou chocada de ver que ela tinha os olhos cheios d’água.

— Não zombe de mim, Luce. Estou fazendo o meu melhor. Mesmo. Estou tentando fazer o meu melhor — disse, seu cabelo em pé de um lado por conta do vento, parecendo tosado e bruto.

Lucy Fairley-Hulme hesitou por apenas um segundo, depois colocou os braços em volta da irmã linda, perturbada e complicada e apertou-a com mais força do que a apertara desde que eram crianças.

* * *

Suzanna já ia fechar a loja. Não precisava ter voltado depois do almoço na casa dos pais. Provavelmente gastou mais em gasolina para voltar do que lucrou com o café. Com o passar das horas, o céu ia ficando cada vez mais cinza, anunciando um crepúsculo prematuro, e o vento aumentara, empurrando ao longo dos bueiros latas de estanho que chocalhavam desconsoladas.

Ela sabia que a loja parecia tão pouco acolhedora quanto ela achava. Apesar das promessas dos operários, as janelas novas ainda não tinham chegado, e os tapumes que ocupavam seu lugar estavam cada vez mais desbotados e encardidos, um lembrete desagradável do destino de Jessie. Na véspera, ela tivera que remover da fachada vários adesivos, que ofereciam a chance para “quem trabalhava em casa” de ganhar “dezenas de milhares” se ligasse para o número de celular divulgado, e um cartaz grosseiro anunciando uma venda em frente ao White Hart.

Parecia que ela não conseguia arranjar energia para expulsar os operários. Olhava em volta para o estoque indesejado, os espaços vazios na estante que ainda não tinham sido preenchidos com os produtos das caixas novas, se perguntando até que ponto aquilo lhe faria falta quando acabasse. Se ela se importasse o suficiente, a oferta do pai poderia ter parecido uma tábua de salvação. Em vez disso, parecia a última numa longa fila de afrontas, pela qual ela já não tinha forças para se alterar.

Suzanna conferiu as caixas de leite na geladeira e, mais por hábito que por necessidade, reabasteceu a máquina de café, notando que era improvável ela ter mais algum cliente naquele dia, uma vez que as mães que levavam os filhos de carro para a escola já tinham ido para casa. Não se importava. Estava cansada. Pensou em sua cama agradável, no consolo anestesiante de ir para casa e se enfiar debaixo dos lençóis. Programaria o despertador para as sete e meia naquela noite, para estar acordada de novo antes de Neil voltar. Parecia funcionar muito bem assim

A porta abriu.

— Já viu o engarrafamento na praça do mercado? — perguntou a Sra. Creek.

— Eu já estava fechando a loja.

— Os carros deram um nó no trânsito. Tudo por causa de uma vaga. As pessoas estão todas gritando umas com as outras lá. — Ela tirou o chapéu e sentou-se à mesa azul. — Os comerciantes do mercado estão rindo deles. Velhos bobos. Tudo porque não estão a fim de pagar quarenta pence para estacionar atrás da igreja. — Ela se pusera à vontade e apertava os olhos para a lousa como se ela tivesse mudado desde a véspera, como se Suzanna algum dia tivesse oferecido alguma coisa senão sete tipos de café diferentes. — Vou querer um cappuccino, por favor, com aqueles cubos de açúcar marrom do lado. Os da caixa bonita. Eles têm um gosto bem diferente dos que a gente compra no mercado.

Não adiantava protestar. Suzanna nem sabia direito se era capaz de levantar a voz o suficiente para fazer isso. Pensou em mostrar a Neil os recibos do caixa do dia, no total impressionante de três cafés que teria vendido naquela tarde, um para cada hora em que a loja estivera aberta.

Começou a preparar a máquina, ouvindo mais ou menos a tagarelice da Sra. Creek, assentindo com a cabeça como se exigia. A Sra. Creek de vez em quando precisava de um pequeno estímulo: Jessie e Suzanna tinham decidido havia muito que ela simplesmente era desesperada por uma plateia. “Balance a cabeça e sorria”, Jessie a aconselhara uma vez. Isso fazia parecer que a pessoa estava ouvindo.

— Me pediram para costurar um vestido de noiva, eu lhe contei?

Suzanna nunca perguntara a Jessie se ela queria se casar. Podia imaginá-la vestida de noiva. Uma criação maluca cor-de-rosa forte, repleta de contas e plumas e flores. Pensou no que Cath Carter tinha dito no funeral sobre as unhas de Jessie e, de repente, desejou que ela pudesse ter tido a chance de usar um vestido de noiva também. Só que isso teria envolvido ela estar mais ligada ainda a Jason. Pensar nele trouxe a caminhonete entrando loja dentro de novo, como trazia várias vezes por dia, e Suzanna se esforçou para tirar a imagem da cabeça.

—Você esqueceu os torrões de açúcar. Os daquela caixa, por favor.

— O quê?

— Os torrões de açúcar, Suzanna. Eu pedi dois.

Ela achou que talvez tivesse entrado num estado em que quase nada era capaz de afetá-la. A dor da morte de Jessie não tinha diminuído, mas ela sabia que estava sendo protegida dela cada vez mais por um aturdimento que se alastrava, um sentimento de que pouca coisa importava, de que a situação estava de fato além do seu controle. As coisas pareciam estar fugindo aos poucos, e ela já não se importava o suficiente para lutar. Era mais fácil apenas se deixar ser carregada com essas estranhas marés novas. Era irônico, pensou, que, bem quando entrava neste estado passivo, Alejandro tinha saído do dele. Ela ainda sentia o eco nos ouvidos de quando ele batera na tábua ao lado de sua cabeça, o barulho do ar que lhe disse que ele tinha virado outra pessoa. Mas, por outro lado, ela não pensava em Alejandro.

— É para a moça da biblioteca. A com os dentes... você a conhece? Cabelo medonho, mas as moças não parecem se importar tanto com isso como a gente se importava. A gente fazia o cabelo duas vezes por semana, sabe.

— É mesmo? — Suzanna colocou o café na frente da Sra. Creek e andou em direção à janela remanescente, olhando os passantes, cabisbaixos, casacos voando atrás.

— Sabe, não faço um vestido de noiva há... nossa, deve ter uns trinta e cinco anos. Eu estava falando com ela sobre um livro na biblioteca. Todas as estrelas de Hollywood dos anos 1950, sabe? E ela disse que aquele era o tipo de visual que ela queria, mas não tinha visto um vestido assim em nenhum lugar. Então eu disse a ela que podia fazer. Mais barato do que nessas lojas de noiva, pelo menos. É incrível o que cobram por um vestido de noiva hoje.

Estava chovendo de novo. Como chovera no dia em que Alejandro entrara e as fizera beber mate. Ela olhou para a prateleira às suas costas e viu que a cuia dele continuava lá, metida atrás de um monte de coisas que esperavam para serem separadas depois do que todo mundo educadamente chamava de “o acidente”. Ela mal podia acreditar que não a tinha notado até agora.

— Sim, trinta e cinco anos. O último foi para um casamento nesta cidade, também.

— Hum — disse Suzanna.

Ela pegou a cuia com cuidado e segurou-a com as duas mãos, sentindo o seu peso, seus contornos de prata lisos. Sinto muito, Ale, disse silenciosamente.

— Era lindo. Seda branca, godê. Muito simples, meio como as moças gostam hoje. Tirei o modelo de um vestido que Rita Hayworth usou em... Ah, qual era aquele filme em que ela era uma verdadeira vamp? Gilda, é?

— Não sei — disse Suzanna. Ergueu a cuia e encostou-a no rosto, deixando o frio penetrar na pele, depois sentindo-a esquentar gradualmente em contato com ela. A transformação foi reconfortante.

— Imagine só, Rita Hayworth não era um modelo ruim. A noiva também era uma mulher dada. Fugiu... o quê... dois anos depois do casamento?

— Ah. — Suzanna tinha fechado os olhos.

— Como era o nome dela mesmo? Era um nome incomum. Atalanta? Ariadne? Athene alguma coisa. Era isso. Casada com um Fairley-Hulme.

O nome levou vários segundos para ser registrado. Suzanna virou a cabeça para a Sra. Creek, que estava despreocupadamente mexendo a xícara, o chapéu de lã ao seu lado na mesa.

— O que acabou de dizer?

— Uma moça bonita. Teve um caso com um vendedor, logo um vendedor, e largou o marido com o bebê. Só que o bebê não era dele. Ah, eles não falaram nada sobre isso, mas todo mundo soube.

O tempo parou. Suzanna teve a sensação de que a loja estava correndo para trás, para longe dela, enquanto as palavras da Sra. Creek caíam pesadamente no espaço entre elas.

— Era isso. Athene Forster. Você talvez não vá se lembrar dos Fairley-Hulme, por ter morado muito tempo em Londres, mas eles eram uma grande família de agricultores aqui quando eu era menina. — Ela tomou um gole de café, alheia à figura paralisada ao lado da janela. — Era um vestido lindo. Fiquei muito orgulhosa dele. Acho que até tenho um retrato dele em algum lugar. Mas eu me senti péssima depois, porque, na pressa de terminá-lo, esqueci de pregar um pedaço de fita azul na bainha. A gente fazia isso, sabe. Para dar sorte. Uma coisa velha, uma coisa nova. — A mulher começou a gargalhar. — Anos depois, quando descobri que a moça tinha fugido, falei para o meu marido: “Pronto. Deve ter sido minha culpa...”