A Loja dos Sonhos
Seis
PARTE DOIS
2001
Eles sempre brigavam a caminho de festas. Suzanna nunca soube direito por quê, embora sempre pudesse atribuir o motivo a alguma coisa: seu atraso, o hábito dele de esperar até o último minuto para verificar se a porta dos fundos estava trancada, sua eterna incapacidade de encontrar algo decente para vestir. Talvez fosse uma antecipação do esforço que fariam para serem agradáveis um com o outro durante uma noite inteira. Às vezes achava que, talvez, fosse só o jeito dela de afirmar logo que não haveria intimidade entre os dois mais tarde, quando chegassem em casa. Essa noite, porém, não tinham discutido. Mas não era uma grande vitória: tinham ido cada um por si à casa dos Brooke. Suzanna foi de carro, seguindo instruções da anfitriã cuidadosamente anotadas. Neil chegou tarde do trabalho, pegou um trem e depois um táxi, de modo que, ao cumprimentá-lo à mesa de jantar, Suzanna sentira o sorriso calcificar-se em seu rosto, aquele seu jocoso “pensamos que você não viesse mais” espremido entre dentes.
— Ah. Já conhecem a outra metade dos Peacock? Neil, certo?
A anfitriã o conduzira com delicadeza ao seu lugar. Pérolas caras, mas blusa de seda meio ultrapassada, saia estilo Jaeger. Suas roupas disseram a Suzanna tudo de que ela precisava saber sobre a noite que tinha pela frente. Que seus modos urbanos seriam mais julgados com condescendência do que admiração. Que provavelmente foram convidados apenas por causa de seus pais.
— Fiquei preso numa reunião — desculpara-se Neil. — Por que criar caso? — sussurrou mais tarde, quando ela o repreendeu no corredor. — Mais ninguém parece se importar com isso.
— Eu me importo — retrucou ela, depois abriu um sorriso forçado quando a anfitriã perguntou, evitando discretamente olhar muito para eles, se alguém queria reabastecer o copo.
Tinha sido uma noite interminável. Neil disfarçou o constrangimento com gracejos ligeiramente impróprios. Pelo visto, todas as outras pessoas ali se conheciam havia algum tempo, e as conversas quase sempre acabavam girando em torno de gente que Suzanna não conhecia, “personagens” da cidadezinha, com várias referências a acontecimentos do passado: a quermesse de dois anos atrás cancelada por causa da chuva, o torneio de tênis em que os finalistas brigaram, a professorinha que fugiu para Worcester com o marido da velha Patricia Ainsley, coitada. Alguém tinha ouvido dizer que ela teve um filho. Já outra pessoa ouviu que Patricia Ainsley tinha virado mórmon. A sala estava quente demais, e Suzanna ficara sentada de costas para a enorme lareira, de modo que, mesmo antes de servirem o prato principal, seu rosto tinha ficado corado e de vez em quando uma gota de suor lhe escorria pelas costas, escondidas por sua camisa excessivamente fashion.
Todos sabiam, ela tinha certeza. A sensação era de que, embora ela sorrisse e garantisse que sim, estava feliz de voltar a morar em Dere Hampton, que era ótimo ter um pouco mais de tempo, que era bom estar mais perto da família, eles provavelmente sabiam que estava mentindo. Sabiam que a infelicidade estudada de seu marido — corajoso, conversando com o veterinário dogmático e a monossilábica mulher do guarda-caça — devia irradiar como uma fulgurante placa de néon flutuando acima deles. SOMOS INFELIZES. E A CULPA É MINHA.
Ao longo do ano anterior, ela se tornara perita em avaliar o estado do casamento das pessoas, reconhecia os sorrisos tensos das mulheres, os comentários mordazes, as expressões vazias de retraimento dos homens. Às vezes, ela se sentia melhor quando via um casal que parecia muito mais infeliz que eles; às vezes, isso a deixava triste, como se provasse que a raiva explosiva e a decepção fossem inevitáveis em todo mundo.
O pior, no entanto, eram os que ainda se mostravam apaixonados. Não os que estavam juntos havia pouco tempo — Suzanna sabia que a cor em algum momento desbotaria —, mas aqueles que a relação a longo prazo havia aprofundado alguma coisa, deixando-os mais unidos. Ela conhecia todos os sinais: os “nós” nas conversas, os toques frequentes na cintura, na mão ou até no rosto, os sorrisos silenciosos de satisfação atenciosa quando o outro falava. Às vezes até a discussão combativa pontuada por gargalhadas, como se ainda pudessem flertar um com o outro, os toques furtivos que demonstravam algo a mais. Depois Suzanna se pegava olhando, pensando que cola estaria faltando a ela e a Neil. Queria saber se existia algo que ainda pudesse encontrar para mantê-los juntos.
— Achei que correu tudo bem — disse Neil, bravamente, dando a partida no carro.
Eram os segundos a ir embora da festa, perfeitamente aceitável. Ele se oferecera para dirigir para que ela pudesse beber. Um gesto conciliador, ela sabia, mas, de alguma forma, não se sentia generosa o suficiente para reconhecê-lo.
— Até que eles foram razoáveis.
— Mas é bom... quer dizer, conhecer os nossos vizinhos. E ninguém sacrificou um porco. Nem jogou a chave do carro no meio da sala. Já tinham me alertado sobre esses jantares rurais. — Ele se forçava a usar um tom alegre, ela sabia.
Suzanna tentou reprimir a irritação familiar.
— Eles não são nossos vizinhos. Moram a quase vinte minutos da nossa casa.
— Todo mundo mora a vinte minutos da nossa casa. — Ele fez uma pausa. — É que é bom ver você fazendo amizades na área.
— Falando assim, parece que é o meu primeiro dia de aula.
Neil olhou para a esposa, parecendo avaliar quão teimosa ela estava decidida a ser.
— Só quis dizer que era bom você estar... criando algumas raízes.
— Eu tenho raízes, Neil. Sempre tive as malditas raízes, você sabe muito bem. Só não quis ser plantada aqui, ponto final.
Neil suspirou. Passou a mão pelo cabelo.
— Hoje não, Suzanna. Por favor.
Ela sabia que estava sendo péssima, e isso a deixou ainda mais irritada, como se agisse assim por culpa dele. Olhou pela janela, observando as sebes negras passarem depressa. Sebe, sebe, árvore, sebe. A pontuação sem fim da paisagem rural. O consultor financeiro havia sugerido terapia de casal. Neil se mostrara receptivo à ideia, disposto a fazer. “Não precisamos disso”, dissera ela. “Estamos juntos há dez anos.” Como se isso fosse algum sinal de solidez.
— As crianças eram uns amores, não eram? — Meu Deus, como ele era previsível. — Achei um encanto aquela garotinha servindo os petiscos. Ela estava me contando sobre a peça dela da escola e como era injusto ela ter que ser uma ovelha em vez de uma campânula. Eu lhe disse que ela...
— Achei que você não quisesse discussão hoje...
Houve um breve silêncio. As mãos de Neil apertaram o volante.
— Eu só disse que achei as crianças simpáticas. — Olhou de soslaio para ela. — Foi um comentário completamente inocente. Só estava tentando puxar papo.
— Não, Neil. Não existe comentário inocente quando se trata de você e crianças.
— Isso é um pouco injusto de sua parte.
— Eu te conheço. Você é muito transparente.
— Ah, e se eu for? Isso é mesmo um pecado tão grande, Suzanna? Parece até que estamos casados há cinco minutos.
— E o que isso tem a ver? Desde quando há um limite de tempo para ter filhos? Não existe um manual de regras que diga “Vocês estão casados há sei lá quantos anos, melhor começarem a procriar”.
— Você sabe tão bem quanto eu que as coisas ficam mais difíceis depois dos trinta e cinco.
— Ah, não comece com isso de novo. E eu não tenho trinta e cinco.
— Trinta e quatro. Você tem trinta e quatro.
— Eu sei a minha idade, cacete.
Houve uma espécie de descarga de adrenalina entre os dois. Era como se a privacidade do carro os tivesse livrado do encargo de performar felicidade.
— É porque você tem medo?
— Não! E não se atreva a meter a minha mãe nisso.
— Se você não quer ter filhos, por que não pode só dizer? Pelo menos aí saberemos em que pé estamos... Saberei em que pé eu estou.
— Não estou dizendo que não quero.
— Bem, não faço ideia do que você está dizendo. Nos últimos cinco anos, toda vez que toco no assunto, você voa no meu pescoço como se eu estivesse sugerindo uma coisa horrorosa. É só um bebê.
— Para você. Para mim, seria uma vida inteira. Já vi como isso toma conta da vida das pessoas.
— Num bom sentido.
— Para o homem. — Ela respirou fundo. — Olha, eu não estou pronta, tá? Não estou dizendo que nunca vou estar. Só que, por enquanto, não estou. Ainda não fiz nada da minha vida, Neil. Não posso simplesmente pular para a parte dos filhos sem ter realizado nada. Não sou esse tipo de mulher. — Cruzou as pernas. — Para ser sincera, acho a perspectiva toda deprimente.
Neil balançou a cabeça.
— Desisto, Suzanna. Não sei o que preciso fazer para deixar você feliz. Lamento que a gente tenha sido obrigado a voltar para cá, está bem? Lamento que a gente tenha sido obrigado a ir embora de Londres, lamento que você não goste de onde estamos morando, que esteja entediada e que não goste das pessoas. Lamento por esta noite. Lamento ter sido uma decepção tão grande para você. Só que não sei mais o que dizer. Não sei o que dizer que não seja um completo erro.
Houve um longo silêncio. Em geral, ele não desistia com tanta facilidade, e isso deixou Suzanna inquieta.
Neil saiu da estrada principal para um caminho sem iluminação e ligou o farol alto, espantando coelhos para dentro das sebes.
— Deixa eu ficar com a loja.
Ela disse isso olhando para a frente, sem encarar Neil, para não ter que ver a reação dele. Ouviu seu suspiro fundo.
— Não temos dinheiro. Você sabe disso.
— Tenho certeza de que posso conseguir — comentou, esperançosa. — Andei pensando. Podemos vender o meu quadro para fazer o depósito.
— Suze, acabamos de nos livrar de uma dívida. Não podemos entrar em outra.
— Sei que você não quer, mas preciso disso, Neil — disse ela, encarando-o. — Preciso de alguma coisa para me ocupar. Alguma coisa minha. Algo que não seja cafés da manhã e fofocas da vizinhança nem a droga da minha família.
Ele ficou em silêncio.
— Isso vai me ajudar muito. — A voz de Suzanna assumira um tom suplicante, conciliador. Ela própria se surpreendeu com o fervor. — Vai nos ajudar.
Talvez fosse alguma coisa no tom. Ele encostou o carro e olhou para a esposa. Lá fora, descia uma névoa, e os faróis ofuscantes não iluminavam nada a não ser a umidade.
— Me dê um ano — pediu ela, pegando a mão dele. — Me dê um ano, e se não estiver dando certo, vou engravidar.
Ele ficou pasmo.
— Mas se estiver dando certo...
— Vou engravidar do mesmo jeito. Mas pelo menos vou ter outra coisa. Não vou virar uma delas. — Apontou para trás, referindo-se às outras mulheres no jantar, que haviam passado grande parte da noite comparando histórias horrorosas de parto e amamentação, ou falando com um desprezo velado sobre o terror que eram os filhos dos outros.
— Ah. As nazistas neonatais.
— Neil...
— Você está falando sério?
— Estou. Por favor, só acho que isso vai me deixar um pouco mais feliz. Você quer que eu seja mais feliz, não quer?
— Você sabe que quero. Sempre quis que você fosse feliz.
Quando ele a olhava assim, ela conseguia vislumbrar um pouco de como era no passado, um resquício de como era estar ligada a alguém não por irritação nem por um ressentimento cego, mas por gratidão e expectativa, além de um desejo sexual constante. Ele ainda era bonito: ela conseguia analisar esteticamente e ver que ele era o tipo que envelheceria bem. Não acumularia uma pança nem ficaria com entradas. Continuaria empertigado, rijo, as concessões à idade limitando-se ao grisalho do cabelo e a um atraente aspecto curtido da pele.
Em momentos como aquele, ela era capaz de lembrar como era a cumplicidade entre eles.
— Sabe, você não precisa vender o seu quadro. É muito pessoal. E seria melhor conservá-lo, guardá-lo como um investimento.
— Acho que não consigo suportar ver você trabalhando mais tempo do que já trabalha.
Não era viver sem ele que a assustava: era ver como isso estava ficando cada vez mais fácil para ela.
— Não quis dizer isso. — Ele pôs a cabeça de lado, os olhos azuis serenos e atenciosos. — Você podia muito bem pedir dinheiro ao seu pai. Para o depósito. Ele sempre disse que investiria em você.
Neil conseguiu quebrar o encanto. Suzanna afastou a mão que estava perto da dele, mudou de posição, virou o rosto.
— Não vou explicar tudo isso mais uma vez. Já tivemos que pegar o suficiente dele. E não quero o dinheiro do meu pai.
* * *
Primeiro, eles não haviam pensado naquilo como dívida: estavam apenas vivendo como todo mundo vivia, um pouquinho além dos seus meios. Renda dupla, sem filhos. Adotaram um estilo de vida anunciado nas revistas de qualidade, a vida que eles pediram a Deus. Compraram dois sofás enormes em tons elegantes de camurça, passavam fins de semana com amigos de mentalidade parecida em restaurantes barulhentos do West End e em hotéis discretos, julgavam que mereciam “alguns luxos” em compensação pelos desapontamentos mais insignificantes: um dia ruim no trabalho, não conseguir ingressos para um show, chuva. Suzanna, protegida pela renda de Neil e pelo fato de que, no íntimo, ambos achavam bom ela passar mais tempo em casa, pegou uma sucessão de serviços de meio expediente: trabalhou numa loja de roupas femininas, serviu de motorista para uma amiga que abriu uma floricultura, vendeu brinquedos de madeira personalizados. Nenhum atraiu o seu interesse a ponto de mantê-la por muito tempo, ou de fazê-la se privar dos encontros pela manhã com amigas em cafés, de passar tempo navegando na internet ou do prazer de cozinhar pratos elaborados. Então, aparentemente da noite para o dia, tudo mudou. Neil perdeu o emprego no banco, substituído por uma pessoa que posteriormente ele descreveu como a Arrancadora de Couro do Inferno. Neil perdeu o senso de humor, juntamente com o fluxo de caixa deles.
E Suzanna começou a comprar.
No começo, fazia isso só para sair de casa. O marido tinha se tornado uma pessoa deprimida e irritada, que começara a ver sinais de conspirações femininas em quase tudo: nas notícias de que na escola local as meninas tinhas notas melhores que os meninos, nos casos de assédio sexual que ele lia em voz alta no jornal, no fato de que tinha que ser mulher a gerente de recursos humanos que ligou dizendo que Neil só tinha direito a três meses de salário e não seis, como ele esperara. Alternando entre a indignação petulante e a patética autoabominação, ele se tornou a pior versão de si mesmo, um personagem insuportável para Suzanna. Então ela o deixava quieto e se mimava com sabonetes caros, refeições prontas, um ou outro arranjo de flores — lírios pelo perfume, amarillis e estrelítzias para sustentar sua necessidade de sofisticação. Dizia a si mesma que merecia, sentimento que ficava cada vez maior por conta do mau humor de Neil.
Convenceu-se de que havia coisas de que precisavam: roupa de cama nova — era um investimento, com certeza, comprar o mais caro algodão egípcio —, cortinas da mesma cor, ornamentos antigos de vidro. Inventou projetos necessários no apartamento, piso novo na cozinha, a reforma completa do quarto de hóspedes. Isso agregaria valor ao apartamento. Afinal, dava muito bem para conseguir o dobro do que se gastava num imóvel.
Dali à renovação de sua imagem foi um pulo. Ela não conseguiria arranjar um emprego novo com o guarda-roupa que tinha. Seu cabelo precisava de corte e de luzes. O estresse do trabalho de Neil deixara sua pele necessitando desesperadamente de limpezas especializadas. Como seus gastos viraram piada entre as amigas, comprava para elas também. O caminho da generosidade foi natural para Suzanna: dizia a si mesma que era uma das poucas fontes de prazer autêntico que lhe restavam.
Isso a princípio fizera com que se sentisse melhor, tinha lhe dado um objetivo. Preenchera uma lacuna. Mas, mesmo enquanto gastava, sabia que tinha sido contagiada por uma espécie de loucura, que os interiores tão iluminados e o armário cheio de suéteres de caxemira, as vendedoras aduladoras e os embrulhos lindamente embalados eram cada vez menos eficazes para distrair sua atenção da realidade que a esperava em casa. Suas aquisições não a satisfaziam muito: como a adrenalina da compra se dissipava cada vez mais depressa, ela ficava em casa, rodeada de sacolas novas, piscando, desconcertada, para seu carregamento ou, de vez em quando, chorando após tomar coragem de calcular o quanto gastara. Virou uma madrugadora, sempre de pé na hora em que o carteiro passava.
Não adiantava preocupar Neil.
Ele levou quase seis meses para descobrir. Era justo dizer, como eles mesmos concordaram algum tempo depois, que aquele não tinha sido o ponto alto do casamento, sobretudo quando ele, empurrado para além da própria depressão, questionara a sanidade dela e anunciara que era ela, e não a demissão, que o estava deixando impotente. Permitindo-se enfim extravasar a raiva reprimida havia tanto tempo — talvez levada ao extremo por seu subestimado senso de responsabilidade —, ela retrucara que, além de cruel, ele também era injusto e irracional. Por que os problemas dele tinham que impactar tão terrivelmente a vida dela? Teria ela deixado de cumprir alguma parte do trato? As mudanças que fizera foram por eles. Ainda encarava com uma ponta de orgulho o fato de não ter dito o que realmente pensava. Não ter usado a palavra “fracasso”, ainda que pensasse isso ao olhar para ele.
Depois seu pai mencionara a casa e, embora ainda estivesse furiosa com ele por causa do testamento, Neil a convencera de que eles não tinham escolha. A menos que quisessem declarar falência. O horror daquela palavra ainda tinha a capacidade de lhe dar calafrios.
E assim, quase nove meses antes, Suzanna e Neil tinham vendido o apartamento de Londres. Com o dinheiro, pagaram as dívidas nos cartões de crédito de Suzanna e a dívida menor que Neil contraíra antes de conseguir um emprego novo e compraram um carro pequeno e discreto, descrito pelo vendedor, com certo ar de desculpas, como “um bom custo-benefício”. Atraídos pela perspectiva de uma casa de fachada de pedra com três quartos, reformada pelo pai dela e com o aluguel quase de graça, voltaram para Dere Hampton, cidade onde Suzanna crescera e da qual passara os últimos quinze anos querendo o máximo de distância.
* * *
Quando eles entraram, a casinha estava fria: Suzanna esquecera de novo de programar a calefação. Ainda achava espantoso como fazia mais frio no campo.
— Perdão — murmurou, quando Neil assobiou e soprou nas mãos, e sentiu-se grata por ele não dizer nada.
Neil ainda estava entusiasmado com todos os aspectos da vida no interior, convencendo-se de que a mudança deles era mais em função da qualidade de vida do que do corte de gastos, escolhendo ver apenas as vantagens das belas casas e das extensões ondulantes de verde, ao contrário da realidade experimentada pela esposa: de gente que sabia, ou julgava saber, tudo a respeito dos vizinhos, a claustrofobia de anos de história compartilhada, o policiamento sutil de mulheres com muito dinheiro e pouco tempo.
A secretária eletrônica estava piscando, e Suzanna reprimiu um tremor de culpa por esperar que pudesse ser um de seus amigos de Londres. Agora, eles ligavam menos, já que a falta de disponibilidade dela para um café ou um drinque no início da noite desgastava aos poucos os nós da amizade que ela percebera serem bastante tênues. Nem por isso deixava de sentir falta da cumplicidade fácil, da naturalidade que diminuíra ao longo dos anos. Estava cansada de ter que pensar antes de falar. Quase sempre julgava mais fácil, como achara aquela noite, não dizer absolutamente nada.
“Oi, queridos. Espero que estejam se divertindo em algum lugar. Só queria saber se pensaram no almoço de aniversário da Lucy dia 16. Papai e eu adoraríamos se pudessem vir, apesar de entender perfeitamente se já tiverem outro compromisso. Me avisem.”
Sempre muito cuidadosa para não sugerir qualquer obrigação ou imposição. Aquela voz alegre, com um ligeiro tom de desculpa. O indício imperceptível de “sabemos que estão tendo problemas e estamos torcendo por vocês”. Suzanna deu um suspiro. Tinha consciência de que, depois de faltar a vários Natais e a muitas outras reuniões de família, havia poucas desculpas para evitar seus familiares agora que estavam, ao menos geograficamente, tão próximos.
— A gente devia ir. — Neil tirara o paletó e estava se servindo de um drinque.
— Eu sei.
— De qualquer maneira, seu pai provavelmente vai encontrar algum motivo para sair. Vocês dois são ótimos em evitar um ao outro.
— Eu sei.
Neil gostava de fazer parte da família dela. Ele não tinha quase ninguém, apenas a mãe a várias centenas de quilômetros de distância, que raramente visitava e de quem não tinha muitas saudades. Em parte, era por isso que ele assumia uma postura tão conciliadora com a da esposa.
Neil largou o copo e se aproximou dela. Abraçou-a e a puxou com delicadeza. Ela sentiu que cedia a ele, sem conseguir se livrar totalmente da rigidez natural.
— Isso significaria muito para sua mãe.
— Eu sei, eu sei. — Ela colocou as mãos na cintura dele, sem saber direito se o estava abraçando ou apenas o mantendo longe. — E sei que é infantil. É só a ideia de todo mundo falando sobre como a Lucy está bem e arrumou um trabalho maravilhoso, e olha que linda e blá-blá-blá, e todo mundo dizendo que nós éramos uma família superfeliz.
— Escute, para mim também não é fácil ouvir essas coisas. Não faz com que eu me sinta o melhor genro do mundo.
— Sinto muito. Talvez a gente simplesmente não deva ir.
Suzanna era a parte bonita da família. A mitologia genética do clã lhe atribuíra beleza e infelicidade financeira. Seu irmão mais novo, Ben, recebera muita sabedoria e maturidade precoce, ao passo que Lucy era a inteligente, capaz de recitar aos três anos grandes trechos de poemas, ou perguntar com toda a seriedade por que tal livro não era tão bom quanto o último do mesmo autor. Depois, lentamente, ocorrera uma espécie de metamorfose, e enquanto Ben se tornou, como todos esperavam, uma espécie de cópia mais jovem e mais alegre do pai franco, estoico e às vezes pomposo, Lucy, longe de virar a reclusa de óculos que todos previam, desabrochara, tornara-se tremendamente assertiva, e agora, com quase trinta anos, chefiava a seção de internet de um conglomerado estrangeiro de mídia.
Suzanna, enquanto isso, percebera aos poucos que ser bonita já não era suficiente quando se chegava à casa dos trinta, que seu estilo de vida e sua falta de tino financeiro não eram mais engraçados. Agora, pareciam apenas autocomplacentes.
Ela não queria pensar na família.
— Podíamos ver lojas amanhã — disse ela. — Vi uma casa na cidade que está para alugar. Era uma livraria.
— Você não perde tempo.
— Não adianta esperar. Não se só temos um ano.
Dava para ver que ele estava se deleitando com essa intimidade inusitada, apreciando estar abraçado com ela. Ela adoraria se sentar, mas ele não parecia disposto a soltá-la.
— É numa daquelas ruazinhas de calçamento de pedra perto da praça. E tem uma janela georgiana na frente. Como a Olde Curiosity Shoppe.
— Você não quer uma coisa assim. Já que vai fazer isso, faça direito, com uma vidraça grande. Para as pessoas poderem ver os seus produtos.
— Mas não vai ser esse tipo de loja. Eu já disse para você. Olha, vamos conhecer a casa antes dizer alguma coisa. Estou com o telefone dos corretores.
— Ora, isso é uma surpresa.
— Posso ligar para eles agora. Deixar um recado. Só para eles saberem que estou interessada. — Ela conseguia ouvir a animação na própria voz. Soava estranha a si mesma, como se viesse de outro lugar.
— Melhor telefonar de manhã. Ninguém vai fechar negócio às onze e meia da noite.
— Só não quero perdê-la.
— Mas também não vai querer decidir nada às pressas. Temos que ter cuidado, Suze. Talvez eles queiram muito dinheiro. Podem exigir um período de aluguel mais longo que o normal. Podem ter todo tipo de multas no contrato. Você precisa ir mais devagar e fazer algumas perguntas primeiro.
— Só quero levar isso adiante.
Ele a abraçou. Neil cheirava a sabão em pó e ao odor humano ligeiramente rançoso mas inofensivo de fim do dia.
— Sabe, Suze, a gente devia ir a esse almoço. Estamos bem. Estamos trabalhando de novo. Você pode lhes contar sobre a sua loja.
— Mas não sobre o assunto bebê.
— Assunto bebê, não.
— Não quero conversar com nenhum deles sobre isso. Vão começar a falar sem parar, e mamãe vai tentar disfarçar que ficou toda animada, e depois, se nada acontecer, todo mundo vai ficar pisando em ovos, pensando se pode dizer alguma coisa. Então, assunto bebê está fora de cogitação.
Ele falou com o rosto no cabelo dela.
— Aposto que a Lucy não tem esse assunto bebê.
— Neil, não.
— Só estou brincando. Olhe, ligue para eles de manhã. Nós vamos, e vamos estar superalegres e ter um dia agradável.
— Fingir ter um dia agradável.
— Você poderia se surpreender.
Ela bufou.
— Com certeza.
* * *
Surpreendentemente, considerando que já fazia quase oito meses, eles fizeram amor naquela noite. Depois Neil ficara quase choroso e lhe dissera que a amava muito, que sabia que aquilo significava que tudo ia dar certo.
Suzanna, deitada no escuro, só conseguindo ver o teto de vigas que tanto odiava, não experimentara nada da sensação de catarse do marido. Só sentira um ligeiro alívio pelo fato de terem feito. E uma esperança secreta, que relutava em admitir até para si mesma, de que agora ganhara alguns meses até precisar fazer de novo.