A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 8 de 29

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A Loja dos Sonhos

Oito

 

 

A senhora estava parada à porta usando seu bom casaco de tweed, um chapéu de palha com cerejas inclinado num ângulo estiloso, segurando a bolsa de couro envernizado à frente com dedos nodosos.

— Eu gostaria — anunciou — de ir a Dere.

Vivi virou-se, a gordura da assadeira espirrando de um jeito letal em suas mãos enluvadas, e procurou freneticamente um lugar vago no fogão para colocá-la. Registrou o chapéu e a bolsa e sentiu um aperto no coração.

— O quê?

— Não diga “o quê”. É grosseiro. Estou pronta para ir para a cidade. Se você não se importar de buscar o carro.

— Não podemos ir à cidade, Rosemary. As crianças vêm almoçar.

Um tremor de confusão percorreu as feições de Rosemary.

— Que crianças?

— Todas elas. Vêm todas. Para o almoço de aniversário da Lucy, lembra?

O gato de Rosemary, tão magro e decrépito que já tinha sido várias vezes confundido com um bicho atropelado quando estava deitado na frente da casa, subiu na bancada da cozinha e se encaminhou cambaleante na direção do rosbife. Vivi tirou uma das luvas térmicas e delicadamente colocou o bicho, que protestava silenciosamente, de volta no chão — e, na mesma hora, se queimou na assadeira.

— Nesse caso, vou me limitar a dar um pulinho rápido antes que elas cheguem.

Vivi abafou um suspiro. Deu um sorriso forçado e tornou a se virar para a sogra.

— Sinto muito, Rosemary, mas ainda tenho que preparar e servir o almoço. E não tirei o pó da sala. Quem sabe você podia pedir...

— Ah, ele está muito ocupado para me levar. Você não quer incomodá-lo. — A idosa ergueu a cabeça imperiosamente e olhou para a janela. — Então me leve só até as Tall Trees. O resto do caminho, eu faço a pé. — Esperou, depois acrescentou, incisiva: — Com a minha bengala.

Vivi verificou a carne e deslizou a assadeira de volta para o forno. Foi até a pia e deixou a água fria cair nos dedos que latejavam.

— É urgente? — perguntou, a voz cuidadosamente alegre. — Não dá para esperar até depois do chá, quem sabe?

A sogra se empertigou.

— Ah, não se preocupe comigo. Minhas incursões nunca são urgentes, são, querida? Não, sou muito velha para ter alguma coisa importante para fazer. — Olhou com desdém para a outra assadeira na bancada. — Nada é tão importante quanto as necessidades de umas batatas.

— Ora, que é isso, Rosemary, você sabe que eu...

Mas com uma enfática batida da porta, cujo volume não refletia sua aparente fragilidade, Rosemary tinha desaparecido de novo no anexo.

Vivi fechou os olhos e respirou fundo. Pagaria por isso mais tarde. Não que fizesse muita diferença, já que quase diariamente acabava pagando por alguma coisa.

Normalmente, teria capitulado, teria largado o que quer que estivesse fazendo para atender a sogra, só para evitar qualquer aborrecimento, para manter as coisas correndo bem. Mas aquele dia era diferente: fazia vários anos que não reunia os três filhos em casa e, tendo chegado até ali, não ia pôr em risco o almoço de aniversário de Lucy servindo de motorista para Rosemary enquanto deveria estar regando as batatas com a gordura da carne. Porque, com a sogra, nunca era só uma questão de levá-la à cidade — Rosemary ia sugerir um desvio, talvez para o novo centro comercial a vários quilômetros dali, ou que Vivi estacionasse em algum lugar e a acompanhasse para pegar alguma coisa na lavanderia (e Vivi podia carregar). Ou anunciar que o que ela precisava mesmo, afinal, era ir ao salão de beleza, e Vivi se importava de esperar? Ela se tornara particularmente dependente desde que a haviam convencido de que não podia mais dirigir. Ainda estavam lutando com a seguradora por causa da cerca destruída na fazenda de Paget.

De trás da porta do anexo, dava para Vivi ouvir a televisão quase no volume máximo — a única maneira, insistia Rosemary, que ultimamente vinha conseguindo ouvir alguma coisa que os apresentadores diziam.

— Me dê meia hora — murmurou Vivi para si mesma, examinado os dedos vermelhos e preparando-se para se aventurar novamente no forno. — Se ela ficar lá dentro meia hora, vou ter de novo tudo sob controle antes que eles cheguem.

* * *

— Alguma chance de uma xícara de chá? Falsificar as contas sempre me dá sede.

Vivi estava sentada à mesa da cozinha. Tendo encontrado a coleção não alquímica de lápis gastos e pó compacto que era sua bolsa de maquiagem, tentava dar uma ajeitada no rosto, suavizar o rubor e o leve brilho que sempre apareciam quando ela passava muito tempo cozinhando.

— Vou trazer — disse, depois de um olhar derrotado no espelhinho. — O papai quer também?

— Sei lá. Espero que sim. — Seu filho, com seu metro e noventa e dois, abaixou-se mecanicamente sob o lintel ao sair da cozinha e tornou a descer o corredor. — Ah, esqueci de dizer — gritou. — Esquecemos de pegar as flores. Desculpa.

Vivi se calou, largou o pó compacto na mesa, depois foi energicamente atrás dele.

— O quê?

— Não diga “o quê”. É grosseiro. — O filho riu, imitando a avó. — Papai e eu esquecemos de pegar aquelas flores hoje de manhã. Ficamos meio presos na loja de ração. Desculpa.

— Ah, Ben. — Ela estava parada à porta do escritório, braços caídos, exasperada.

— Desculpa.

— Uma coisa. Foi só uma coisa que eu pedi para vocês dois fazerem para mim, e vocês deixam para dizer que esqueceram cinco minutos antes de eles chegarem.

— O que a gente esqueceu? — Seu marido levantou a cabeça dos livros. Estendeu a mão para pegar um lápis. — Do chá? — perguntou, esperançoso.

— Os arranjos da mesa. Vocês não pegaram como eu pedi.

— Ah.

— Eu arrumo umas flores para você, se quiser. — Ben olhou pela janela. Tinha passado mais de uma hora no escritório e estava irrequieto, aflito para sair de novo.

— Não tem flor nenhuma, Ben. É fevereiro, caramba. Ah, estou decepcionada.

— Para que arranjo de mesa? A gente não é disso.

— Para o almoço. — Um tom de irritação inusitado se insinuara em sua voz. — Eu queria que tudo fosse perfeito hoje. É um dia especial.

— Lucy não vai ligar se não tiver arranjos na mesa. — Seu marido deu de ombros e riscou um traço embaixo de uns números.

— Pois eu ligo. E é um tremendo desperdício de dinheiro gastar em flores que a gente nem se incomoda de ir buscar. — Vivi não conseguiria nada com eles. Olhou o relógio, se perguntando em vão se podia dar um pulo na cidade para buscá-las. Com sorte, e uma vaga decente, poderia ir e voltar em vinte minutos.

Depois lembrou-se de Rosemary, que ou iria querer ir também ou trataria a breve visita de Vivi como mais uma prova de que suas necessidades não só eram consideradas sem importância mas também podiam ser ignoradas de uma maneira bárbara.

— Bem, você pode muito bem pagar por elas — disse, enxugando as mãos no avental e em seguida desamarrando o laço às suas costas — e explicar ao Sr. Bridgman por que estamos encomendando flores que aparentemente não queremos.

Os dois homens se entreolharam com a mais vazia das expressões.

— Olha só — disse Ben. — Eu vou. Se você me deixar pegar o Range Rover.

— Pegue o carro da sua mãe — veio a voz do marido. — Traga também uma garrafa de xerez para a sua avó... Você não vai esquecer daquela xícara de chá, querida, vai?

* * *

Vivi estava casada fazia exatamente nove anos quando a sogra foi morar com eles e quinze quando o marido se rendeu e concordou em construir um anexo para ela, para poderem assistir de vez em quando a uma série policial norte-americana sem ter que pausar a cada cinco minutos para explicar o enredo, colocar alho e especiarias na comida e, só esporadicamente, ler os jornais na cama numa manhã de domingo sem ter uma pessoa imperiosa batendo à porta exigindo saber por que o suco de laranja não estava na prateleira de sempre da geladeira.

Nem se cogitou mandá-la para uma casa de repouso. A casa tinha sido dela e, como gostava de dizer: podia não ter nascido lá, mas não via por que não deveria morrer. Embora as terras agora fossem cultivadas por arrendatários e já não houvesse muito em termos de gado, ela gostava de olhar pela janela e lembrar o passado. Servia de grande consolo. E alguém precisava estar por ali para ensinar à geração mais jovem sobre a história da família e os hábitos do passado. Com quase todos os seus amigos já falecidos, a família era tudo que tinha. Além disso, Vivi de vez em quando refletia, num raro pensamento rebelde, por que haveria ela de se mudar para outro lugar quando tinha uma cozinheira-faxineira-motorista permanentemente à sua disposição? Nem um hotel cinco estrelas lhe ofereceria isso.

As crianças, criadas com a vovó no fim do corredor, deixavam, como o pai, que a mãe lidasse com ela, e tratavam-na com um misto de benevolência e humor irreverente, que, felizmente, era raro a idosa conseguir ouvir. Vivi os repreendia por caçoar de suas frases favoritas ou pelas insinuações veladas de que ela não recendia a violetas de Parma mas sim a algo bem mais pungente e orgânico — ainda não tinha certeza de como ia tocar neste assunto —, mas os amara, também, por colocar Rosemary em perspectiva nos dias desalentadores, quando suas exigências eram assustadoras e impossíveis.

Até mesmo o filho tinha que admitir que Rosemary não era fácil. Irascível e dogmática, firmemente apegada à tradição e frequentemente deixando evidente sua decepção com a incapacidade da família de fazer o mesmo, pelo visto ainda considerava Vivi uma espécie de trabalhadora hóspede da casa, mesmo após uns trinta anos de casamento.

E, mesmo frágil e esquecida, não seguiu calada por aquele longo corredor. As emoções já exaltadas de Rosemary com a construção do anexo posteriormente tinham oscilado entre um ressentimento obstinado por estar sendo “posta para fora” e um orgulho secreto da nova independência e do novo ambiente. Os novos aposentos foram cuidadosamente decorados por Vivi com uma mistura de listras cereja e toile de Jouy francesas (a única coisa em que Vivi sempre fora boa, Rosemary fora obrigada a reconhecer, era com tecidos) e não estavam contaminados com a música incompreensível dos jovens, chorrilhos intermináveis de seus amigos monossilábicos, cães, estrondos e botas enlameadas.

Isso não a impedia de fazer furtivas e repetidas referências a Vivi de que tinha sido “expulsa” ou “posta para fora”, às vezes na frente das amigas remanescentes. Sua própria avó, dizia incisiva, pelo menos uma vez por semana, fizera da sala boa sua residência quando ficou idosa, e as crianças eram autorizadas a cortejá-la uma vez por dia e, às vezes, a ler para ela.

— Eu tenho The Clubber’s Guide to Ibiza aqui — dissera Ben, animado. — Este e Basic Tractor Maintenance.

— Quem seria capaz de desencavar The Joy of Sex? — Lucy rira. — Lembra que mamãe e papai costumavam esconder esse no guarda-roupa?

— Quem está se escondendo no guarda-roupa? — perguntara Rosemary, irritada.

— Lucy! — havia exclamado Vivi, corando.

Ela comprara o livro quando fizera trinta anos, numa tentativa desesperada de ser uma sedutora, na época em que andavam “tentando” Ben. Seu marido ficara um tanto chocado, depois desanimado com as ilustrações. “Não admira que ele tenha deixado crescer todo aquele pelo no rosto”, dissera ele com desdém na época. “Eu iria querer me disfarçar depois daquilo.”

Vivi fez o possível para não se importar. Lembrava-se constantemente de todas as coisas boas que tinha: uma bela casa, filhos maravilhosos, um marido amoroso; então suportava as farpas e exigências caprichosas de Rosemary e o deixava sem saber a verdadeira extensão delas. O marido não gostava de discórdia familiar: isso o fazia recolher-se em uma concha, como um caramujo, de onde ficava à espreita, ligeiramente irritado, até todo mundo ter “se entendido”. Por isso, ele não gostava do negócio com Suzanna e os outros.

— Bem, acho que você deveria se sentar e explicar a ela — Vivi aventurara-se a sugerir, em mais de uma ocasião.

— Eu já lhe disse, não quero ressuscitar aquele negócio todo de novo — respondia ele de repente. — Não quero ter que me explicar para ninguém. Especialmente para alguém que acabou de receber uma casa para morar. Ela vai ter que aprender a conviver com isso.

* * *

Começara a chuviscar. Suzanna estava parada no degrau, abrigando-se como podia embaixo do lintel, enquanto Neil pegava a garrafa de vinho e as flores da traseira do carro.

— Você comprou cravos — disse ela, com uma careta.

— E?

— São horríveis. Flor de defunto.

— Caso você não tenha notado, Suze, não estamos exatamente em condições de comprar orquídeas raras. Sua mãe ficará feliz com o que quer que a gente dê.

Suzanna sabia que era verdade, mas isso não impedia seu mau humor. Estava assim desde que haviam entrado na garagem e ela vira a esparramada casa de fazenda cor de mostarda, a enorme porta de carvalho de sua infância. Não conseguia se lembrar de uma época em que a casa tivesse representado algo descomplicado e reconfortante para ela. Sabia que em algum momento havia sido, sim, antes que as diferenças entre ela e os irmãos ficassem gritantes, antes que ela pudesse vê-las refletidas no olhar complicado do pai, nos esforços exagerados da mãe para fingir que elas eram invisíveis. Antes de terem sido escritas, legalmente, no futuro de sua família. Agora a casa parecia manchada, sua mera existência colorindo sua vida, atraindo-a de volta e repelindo-a com um único puxão desconcertante. Seu estômago ficou embrulhado, e ela olhou para o carro.

— Vamos para casa — sussurrou, quando Neil chegou ao seu lado.

— O quê?

Do interior veio o barulho distante de latidos histéricos.

— Vamos embora... vamos logo.

Neil olhou para o céu, batendo as mãos nas pernas de um jeito exasperado.

— Ah, pelo amor...

— Vai ser horrível, Neil. Eu simplesmente não sou capaz de lidar com eles em massa. Não estou preparada.

Mas era tarde demais. Ouviu-se um passo, depois alguém pelejando com o trinco e a porta se abriu, deixando sair o cheiro de carne assada e um Jack Russel superanimado. Vivi enxotou de volta para dentro o cão que latia, depois se endireitou e sorriu radiante. Limpou as mãos no avental e abriu os braços.

— Olá, meus queridos. Ah, como é bom ver vocês. Bem-vindos ao lar.

* * *

— Não me dê nada com crustáceos. Aqueles camarões fizeram meus lábios incharem como os de um hotentote.

— Não fale “hotentote”, vó. Não é politicamente correto.

— Quase fui parar no hospital. A pele esticou toda. Fiquei dois dias sem poder sair.

— Você ficou muito mal. — Vivi estava servindo batatas. Tinha raspado as pontas com um garfo e notou com satisfação que a gordura da carne as deixara rendilhadas e douradas.

— Algumas mulheres pagam um bom dinheiro por isso agora, vó — disse Ben. — Pode me dar mais umas duas batatas? Aquela ali, mãe. A queimadinha.

— Preenchimento — disse Lucy.

— O quê?

— Mulheres. Botam nos lábios para deixá-los mais cheios. Talvez bastasse elas comerem um pouco do camarão em conserva da mamãe. Nada de carne para mim, mãe. No momento não estou comendo carne vermelha. Você não fez isso uma vez, Suze?

— Você nunca fez preenchimento.

— Preenchimento, não. Injeções. Nos lábios. Na sua fase de autoaperfeiçoamento.

— Muito obrigada, Lucy.

— Você aplicou injeções nos lábios?

— São temporárias. — Suzanna olhou para o prato. — É só colágeno. É para deixar a gente com um beicinho.

Vivi, apavorada, virou-se para o genro, a colher da batata erguida na mão.

— E você deixou ela fazer isso?

— Acha que tenho alguma voz no assunto? Você lembra como ela era na época. Era aplique no cabelo, unhas postiças... eu nunca sabia se estava indo para casa encontrar a Cher ou Anna Nicole Smith.

— Ah, não exagere, Neil. Eram só procedimentos temporários. E eu nem gostava. — Suzanna, irritada, revirava os legumes no prato.

— Eu vi você com isso. Achei que parecia que tinham enfiado dois balões de ar na sua cara. Muito assustador.

— Balões de ar? — disse Rosemary. — Na cara dela? Para que ela quer fazer isso?

Suzanna olhou para o pai, que, de cabeça baixa, fingia não ter ouvido o diálogo. Tinha passado a maior parte do tempo falando com Neil, a quem, como sempre, tratava com uma cortesia absurda, como se ainda lhe fosse grato pelo enorme favor de tomar Suzanna de suas mãos. Neil sempre dizia que absurdo era dizer isso, mas ela não conseguia entender por que seus pais sempre faziam tamanho alvoroço por ele estar preparado para fazer coisas como passar as próprias camisas, tirar o lixo ou levá-la para jantar. Como se ela de certa forma tivesse uma predisposição genética para fazer todo o trabalho doméstico.

— Pois acho que Suzanna é muito bonita sem quaisquer... realces. — Vivi, sentada, passou o molho. — Acho que ela não precisa de ajuda nenhuma.

— Seu cabelo está bonito, Suze — disse Lucy. — Gosto quando está na cor natural.

O cabelo de Lucy, de um tom muito mais claro que o de Suzanna, estava com um corte chanel bem reto e entremeado de luzes.

— Igual ao da Morticia Addams — disse Ben.

— Quem? — Rosemary debruçou-se no prato. — Alguém vai me servir batatas? Pelo visto não ganhei nenhuma.

— As batatas estão a caminho, vó — disse Lucy.

— Morticia Addams. Da Família Addams.

— Os Adams de Stoke-by-Clare?

— Não, vovó. Uma pessoa da televisão. Você viu o show do Radiohead, Luce?

— Ele era fascista, sabe? Na guerra. Família horrorosa.

— Sim. Foi excelente. Tenho o CD no carro se quiser fazer uma cópia.

— Serviam frios toda noite no jantar. Nunca uma refeição decente ali. E criavam porcos.

Vivi virou-se para Suzanna.

— E você tem que nos contar tudo sobre a sua loja, querida. Estou louca para ouvir. Já tem data para inauguração?

Suzanna fitou o prato, respirou fundo e olhou para Neil, que continuava falando com seu pai.

— Na verdade, está aberta.

Houve um breve silêncio.

— Aberta? — perguntou Vivi, sem entender. — Mas pensei que você fosse dar uma festa de inauguração.

Suzanna olhou sem jeito para Neil, que contemplou o prato com uma expressão de “me deixe fora dessa”. Ela engoliu em seco.

— Foi só uma coisinha.

Vivi olhou para a filha e corou, tão delicadamente que só os que observavam com atenção, como seu filho, seu genro e sua outra filha, notariam.

— Ah — disse, servindo metodicamente colheradas de molho no prato. — Bom. Você não quis a gente entupindo o lugar, tenho certeza. Quer clientes de verdade, não? Gente que vai comprar coisas... Foi... Correu bem?

Suzanna suspirou, acovardada pela culpa e ao mesmo tempo com raiva de ter sido levada a sentir-se assim logo nos primeiros minutos do almoço. Soara perfeitamente sensato quando ela justificara a decisão para si mesma. Já bastava ter sido forçada a voltar para a sombra da família… sem dúvida não era demais pedir que criasse um pouco de espaço para si, afastada deles. Do contrário, não seria a loja dela, só mais uma extensão dos interesses da família. No entanto, agora, ouvindo Vivi tentando disfarçar a mágoa na voz com uma série de observações frívolas, consciente do peso dos olhares acusadores dos irmãos, parecia, de alguma forma, menos fácil de explicar.

— Onde é, Suze? — Dava para ouvir uma polidez cortante na voz de Ben.

— Perto da Water Lane. Duas ruas abaixo do lugar de comida para viagem.

— Que bom — disse ele friamente.

— Vocês têm que passar lá qualquer hora — convidou ela, sorrindo bravamente.

— Estamos meio ocupados no momento. — Ele olhou para o pai. — Temos uns projetos em andamento nos celeiros, não é, papai?

— Tenho certeza de que vamos todos achar tempo para dar um pulinho lá em breve. — O tom do pai era neutro.

Os olhos de Suzanna inexplicavelmente ficaram cheios d’água.

Vivi saíra da mesa para cumprir alguma tarefa indeterminada na cozinha. Eles podiam ouvi-la no corredor, murmurando alguma coisa para o cachorro.

— Bom, isso foi simpático da sua parte, Suze. — A voz de Lucy cruzou a mesa.

— Lucy... — A voz do pai continha um alerta.

— Ora, que mal faria a ela convidar a mamãe? Mesmo se mais ninguém de nós fosse, ela podia ter convidado a mamãe. Ela estava muito orgulhosa, sabe? Contou para todo mundo sobre sua maldita loja.

— Lucy.

— Você fez ela parecer uma idiota para as amigas.

— Quem é idiota? — Rosemary ergueu a cabeça da refeição. Olhou em volta, procurando Vivi. — Por que não ganhei mostarda? Sou a única sem mostarda?

— Eu não tive intenção de magoá-la.

— Não, você nunca tem.

— Nem foi uma inauguração de verdade. Não servi bebidas nem nada.

— Mais um motivo pelo qual convidá-la não teria tirado pedaço. Nossa, depois de tudo que a mamãe e o papai fizeram por você...

— Lucy...

— Olha, não vamos... — interrompeu Neil, apontando para a porta, onde Vivi surgia de novo. — Agora não...

— Eu quase esqueci de trazer a sobremesa. Não foi tolice minha? — disse Vivi, tornando a se sentar e olhando em volta da mesa com o vago olhar avaliador de anfitriã experiente. — Todo mundo se serviu de tudo? Está tudo bem?

— Delicioso — disse Neil. — Você se superou, Vivi.

— Eu não ganhei mostarda — disse Rosemary, num tom acusador.

— Ganhou, sim, vó — disse Lucy. — Está à parte, no seu prato.

— O que você disse?

Ben debruçou-se na mesa, apontando com a faca.

— Aí — disse, revelando a ela. — Mostarda.

Vivi estava quase chorando. Suzanna podia ver a vermelhidão reveladora em volta dos olhos. Olhou para Neil do outro lado da mesa e soube que ele também tinha visto. Descobriu que perdera o apetite.

— Tenho uma novidade — disse Neil.

Vivi sorriu para ele.

— Ah, tem? Qual?

— A Suzanna resolveu pensar em outra pessoa além de si mesma — disse Lucy. — Isso, sim, seria novidade.

— Ah, pelo amor de Deus, Lucy. — O pai largou os talheres na mesa.

— Vamos ter um bebê. Não agora — acrescentou Neil depressa. — Ano que vem. Mas decidimos que seria a hora certa.

— Ah, queridos, isso é maravilhoso — disse Vivi, o rosto se iluminado.

Saltou de seu lugar à mesa e deu a volta para abraçar a filha.

Suzanna, rígida como uma tábua, permaneceu sentada, olhando furiosa para o marido, que se recusava a encará-la.

— Ah, estou tão feliz por vocês. Que bom!

Lucy e Ben se entreolharam.

— O que está havendo? Eu queria que vocês todos falassem alto.

— Suzanna vai ter um bebê — disse Vivi, bem alto.

— Ainda não. — Suzanna conseguiu falar. — Não vai ser agora. Só ano que vem. Na verdade, era para ser surpresa.

— Pois acho isso ótimo — disse Vivi, tornando a se sentar.

— Ela está grávida? — Rosemary debruçou-se na mesa. — Já era hora também.

Discretamente, Suzanna sussurrou para Neil: “Vou te matar.”

— Isso não é maravilhoso, querido? — Vivi pôs a mão no braço do marido.

— Mais ou menos — disse ele.

A sala ficou em silêncio, a não ser pela ponta onde Rosemary estava sentada, onde uma espécie de explosão gástrica interna provocara em Ben e Lucy risadas que eles mal conseguiam abafar.

O pai colocou a faca e o garfo no prato.

— Eles ainda estão praticamente falidos. Morando de aluguel. Suzanna acabou de montar um negócio, sem ter nenhuma experiência em gerenciar nada, nem mesmo um orçamento doméstico, com sucesso. Acho que a última coisa que eles deveriam fazer era adicionar um filho à equação.

— Querido — censurou Vivi.

— O quê? Agora a gente não pode dizer a verdade? Para que ela não decida se ausentar da família de novo? Sinto muito, Neil. Em outras circunstâncias, seria uma notícia maravilhosa. Mas até que Suzanna cresça um pouco e aprenda a aceitar as próprias responsabilidades, acho que é uma péssima ideia.

Lucy parara de rir. Olhou para Suzanna e depois para Neil, que ficara vermelho que nem um tomate.

— Isso foi meio pesado, pai.

— Só porque uma coisa não é fácil de ouvir, Lucy, não quer dizer que seja maldosa. — Seu pai, tendo aparentemente excedido sua cota diária de palavras faladas, voltara a comer.

Vivi alcançou os Yorkshire puddings, o rosto crispado de ansiedade.

— Não vamos falar sobre isso hoje. É tão raro a gente reunir todo mundo. Vamos simplesmente tentar ter um almoço agradável, sim? — Ergueu o copo. — Vamos fazer um brinde à Lucy, que tal? Vinte e oito. Uma idade maravilhosa.

Só Ben juntou-se a ela.

Suzanna levantou a cabeça.

— Achei que você ficaria feliz por eu ter montado um negócio, pai — disse ela lentamente. — Achei que você ficaria feliz por eu estar fazendo alguma coisa por mim.

— Estamos felizes, querida — disse Vivi. — Estamos muito felizes, não estamos? — Pousou a mão no braço do marido.

— Ah, pare de tentar fingir, mãe. Nada do que eu faço é bom o bastante para ele.

— Você está distorcendo as minhas palavras, Suzanna. — O pai continuou comendo, em pequenos bocados regulares. Sua voz não se elevara.

— Mas não o significado. Por que você nunca pode me dar uma trégua? — Foi como falar sozinha. Suzanna levantou-se bruscamente, esperando que ele erguesse os olhos para ela. — Eu sabia que isso ia acontecer — disse, caiu em prantos e saiu correndo da mesa.

O som de seus passos foi morrendo no corredor, seguido pelo barulho de uma porta distante batendo.

— Feliz aniversário, Luce — disse Ben, erguendo um copo com ironia.

Neil chegou a cadeira para trás e limpou a boca com o guardanapo.

— Me desculpe, Vivi. Estava delicioso. Delicioso mesmo.

O sogro não levantou a cabeça.

— Sente-se, Neil. Você não vai ajudar ninguém correndo atrás dela.

— O que há com ela? — perguntou Rosemary, virando-se rigidamente para a porta. — Enjoo matinal, é?

— Rosemary... — Vivi afastou uma mecha de cabelo da testa.

— Você fica — disse Lucy, pousando a mão no ombro de Neil. — Eu vou.

— Tem certeza? — Neil olhou a comida, incapaz de esconder o alívio por poder terminar seu almoço em paz.

— É óbvio que ela ia estragar a comemoração da Lucy.

— Não seja cruel, Ben — disse Vivi, e olhou melancólica para as costas de Lucy, que se retirava.

Rosemary esticou o braço para se servir de outra batata.

— Acho que é melhor assim. — Espetou uma com um garfo trêmulo. — Desde que ela não saia à mãe.

* * *

Os celeiros todos tinham mudado. Nos fundos da fazenda, onde antes resistiam três abrigos — a madeira tratada com creosoto para preservação — servindo como depósito de feno, palha e equipamentos agrícolas ociosos enferrujando, havia agora duas construções de vidros duplos de frente para estacionamentos de cascalho, com placas discretas indicando-os como “salas com tudo incluso”. Pela janela do que no passado havia sido a tulha, Suzanna via um homem passeando de um lado para outro enquanto falava animadamente ao telefone. Passara vários minutos procurando um lugar para se sentar onde não desse para ele vê-la chorar.

— Você está bem?

Lucy apareceu à sua esquerda e sentou-se ao seu lado. Por alguns instantes, observaram o homem andando e falando. Suzanna notou que a irmã tinha a tez lisa e luminosa que denunciava sol de inverno e férias de esqui caras, depois, com um sobressalto, notou que Lucy entrara para a lista sempre crescente de pessoas que ela invejava.

— Então, quando isso tudo aconteceu? — Suzanna pigarreou e apontou para as construções.

— Há uns dois anos. Agora que papai está alugando a terra, ele e Ben estão estudando maneiras de ganhar mais dinheiro com o resto da propriedade.

Alguma coisa no “ele e Ben” fez Suzanna ficar novamente com os olhos cheios d’água.

— Estão fazendo caçadas do outro lado da mata também. Criando faisões.

— Nunca imaginei papai caçando pássaros.

— Ah, ele mesmo não caça. Manda o Dave Moon caçar. Tem cachorros e tudo. E mamãe faz o almoço. Os homens que vêm caçar não passam de playboys de Londres que querem tirar onda com uma arma. Papai e Ben cobram uma fortuna — acrescentou Lucy, aprovando. — A última temporada pagou o carro novo do papai. — Arrancou um líquen perto do sapato, depois levantou a cabeça e sorriu. — Você nunca vai adivinhar... quando papai era mais moço, por um tempinho, ficou obcecado com a ideia de doar tudo. A terra toda. Vovó me contou. Consegue imaginar o papai, o grande defensor da tradição, como uma espécie de Robin Hood comunista?

— Não.

— Nem eu. Primeiro, achei que ela estivesse com um princípio de Alzheimer, mas vovó jura que é verdade. Ela e vovô o dissuadiram disso — disse Lucy, e abraçou os joelhos. — Cara, eu adoraria ter sido uma mosquinha para ver essa conversa.

Ao longe, salpicadas no campo estreito ao lado do rio, havia cerca de vinte ovelhas pretas e brancas, aparentemente paradas. Seu pai nunca fora particularmente bem-sucedido com ovelhas. Muito propensas a doenças repulsivas, dizia ele. Sarna e queimaduras, miíase e fasciolose, nomes medievais e sintomas macabros dos quais, quando criança, eles ouviam falar com horror e fascínio.

— Eu quase não reconheço isto aqui. — A voz de Suzanna era fraca.

Lucy foi enérgica em resposta.

— Você deveria vir para cá com mais frequência. Não é como se você morasse a quilômetros de distância.

— Bem que eu queria morar. — Suzanna tornou a esconder a cara nos braços. Chorou mais alguns minutos, depois, fungando, olhou de soslaio para a irmã caçula. — Ele é horrível comigo, Luce.

— Ele só está puto por você ter magoado a mamãe.

Suzanna enxugou o nariz.

— Sei que eu deveria tê-la convidado. Eu só... Só estou cansada de viver à sombra deles. Sei que eles vêm ajudando desde que a gente faliu e tudo mais, mas tudo mudou, agora que...

Lucy virou-se para ela, depois abanou a cabeça.

— É o testamento, não é? Você ainda está com o testamento na cabeça.

— Não estou falando disso.

— Você tem que desapegar desse assunto, sabe? Não quer administrar a propriedade. Nunca quis. Você me disse que isso a enlouqueceria.

— A questão não é essa.

— Você está deixando esse assunto envenenar tudo. E isso está deixando mamãe e papai muito infelizes.

— Mas eles estão me deixando infeliz.

— Não posso acreditar que você esteja obcecada com o que vai acontecer com o dinheiro do papai depois que ele morrer. Não posso acreditar que esteja preparada para dividir a família por uma coisa que nem é sua para início de conversa. Ele não vai deixar nenhum de nós na pior, você sabe.

— O problema não é o dinheiro do papai. O problema é ele acreditar num sistema antiquado que valoriza mais os homens que as mulheres.

— Primogenitura.

— O que for. É simplesmente errado, Lucy. Eu sou mais velha que o Ben. É errado, é desagregador e não deveria acontecer hoje em dia.

Lucy levantou a voz, exasperada.

— Mas você não quer administrar a propriedade. Nunca quis.

— Isso não vem ao caso.

— Então o lugar deveria ser dividido e vendido só para você receber um quinhão igual?

— Não... Não, Lucy. Eu só quero um reconhecimento de que sou... de que nós somos... tão importantes quanto Ben.

Lucy fez menção de se levantar.

— Essa é uma questão sua, Suze. Eu me sinto tão importante quanto Ben.

O homem tinha terminado o telefonema. Elas viram sua silhueta contornar a mesa e desaparecer. Então a porta do escritório se abriu e ele saiu para a luz do dia. Assentiu para elas, depois entrou no carro.

— Olhe, mais ninguém vai lhe dizer isso, mas acho que você precisa colocar a situação em perspectiva, Suzanna. Nada disso mostra o que papai pensa de você. Pelo contrário, você recebeu mais atenção do que eu ou Ben quando éramos jovens. — Ela ergueu a mão, calando o protesto de Suzanna. — E tudo bem. Provavelmente você precisava mais. Mas não pode culpá-lo por tudo que aconteceu desde então. Ele deu uma casa para você, caramba.

— Deu, não. Estamos pagando aluguel.

— Um aluguel simbólico. Você sabe tão bem quanto eu que pode ficar com a casa para sempre, se quiser.

Suzanna resistiu a um impulso infantil de dizer que não a queria. Odiava aquela casinha com seus cômodos acanhados e suas vigas rústicas.

— É porque ele se sente culpado. Está tentando compensar com bens materiais.

— Nossa, que mimada. Não consigo acreditar que você tenha trinta e cinco anos.

— Trinta e quatro.

— Que seja.

Talvez consciente de que seu tom fora um pouquinho duro, ela cutucou Suzanna com o cotovelo, um gesto de conciliação. Suzanna, que começara a se sentir gelada, abraçou os joelhos e se perguntou como a irmã, aos vinte e oito, atingira este nível de segurança, de serenidade.

— Olhe. É direito do papai dividir as coisas como quiser. Direito dele. E as coisas podem mudar, sabe… Você só precisa ocupar um pouco mais sua vida e aí isso não vai ter importância.

Suzanna engoliu a réplica amarga. Era particularmente irritante ser tratada com condescendência pela irmã caçula, ouvir um eco de discussões de família que haviam acontecido sem ela. Em especial sabendo que Lucy estava certa.

— Faça sucesso com essa loja e papai vai ter que olhar para você de outra forma.

— Se eu fizer sucesso com essa loja, papai vai morrer de surpresa.

Ela agora tiritava. Lucy estava se pondo de pé com a facilidade de alguém cuja atividade esportiva era um ritual diário. Suzanna, levantando-se, achou ter ouvido os próprios joelhos rangerem.

— Me desculpe — disse. E após uma pausa: — Feliz aniversário.

Lucy estendeu o braço.

— Vamos, vamos entrar. Vou mostrar a lata de biscoitos que vovó me deu de aniversário. É a mesmíssima que a Sra. Popplewell deu a ela de Natal dois anos atrás. Além do mais, se ficarmos aqui mais um pouco, ela vai achar que você já está em trabalho de parto.

* * *

Vivi desabou no banco, pegou um pote e começou a limpar o dia do rosto. Não era uma mulher vaidosa — só havia dois potes em sua cômoda, um de loção de limpeza e um de hidratante vendido em supermercado — mas, naquela noite, olhou para o reflexo à sua frente e sentiu-se cansadíssima, como se alguém tivesse lhe colocado um peso insuportável nos ombros. Eu podia ser invisível, pensou, a julgar pela influência que tenho nesta família. Quando mais moça, tinha conduzido os três filhos pelo condado, supervisionado suas leituras, sua alimentação, a higiene dental, arbitrara suas brigas e ditara o que deveriam vestir. Cumprira suas tarefas maternas com segurança, rechaçando seus protestos, impondo limites, confiante nas próprias habilidades.

Agora era impotente, incapaz de intervir em suas brigas, de ajudar a aplacar a infelicidade deles. Tentou não pensar na inauguração da loja de Suzanna: aquela descoberta quase a deixara sem ar de tão irrelevante que se sentiu.

— Esse seu cachorro andou pegando os meus mocassins.

Vivi se virou. O marido examinava o salto do mocassim de couro, visivelmente roído.

— Acho que você não deveria deixar que ele subisse. Lugar de cachorro é lá embaixo. Não sei por que a gente não bota ele num canil.

— É muito frio lá fora. O coitadinho congelaria. — Ela tornou a se virar para o espelho. — Vou rapidinho à cidade amanhã e compro outro par para você.

Terminaram suas abluções em silêncio. Vivi, enfiando a camisola, desejou não ter terminado um livro recentemente. Naquela noite, uma pequena fuga viria a calhar.

— Ah. Minha mãe quer saber se você pode lhe arranjar uma assadeira. Ela quer fazer scones amanhã e não sabe onde a dela foi parar.

— Ela deixou no jardim murado. Usou para alimentar os pássaros.

— Bem, talvez você possa levar para ela.

— Querido, acho que você foi um pouco severo com Suzanna hoje. — Manteve o tom leve, tentou evitar qualquer sinal de recriminação.

Seu marido fez um som de desdém, uma espécie de exalação gutural. A falta de resposta verbal deu coragem a ela.

— Sabe, ter um filho talvez seja a chave do sucesso dela. Suzanna e Neil passaram por tantos problemas. Isso daria a eles um novo foco. — O marido olhava os pés descalços. — Douglas? Ela está se esforçando muito. Os dois estão.

Foi como se ele não tivesse ouvido.

— Douglas?

— E se a minha mãe tiver razão? E se ela acabar, sim, como Athene?

Era muito raro ele sequer dizer o nome dela. Vivi sentiu a palavra se cristalizar na atmosfera entre eles.

— Você precisa pensar nisso, Vivi. Mesmo. Pense nisso. Porque quem vai sobrar para consertar o estrago?