A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 19 de 29

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A Loja dos Sonhos

Dezenove

 

 

Suzanna tinha passado quase uma hora e quarenta minutos, intermitentemente, na sala com o inspetor de polícia. Soube que ele tomava café preto, que estava quase sempre com fome, embora escolhesse o tipo errado de comida, que achava que as mulheres sempre deviam ser chamadas de “madame”, com um tipo de deferência exagerada que sugeria que não acreditava de verdade nisso. Ele não lhe contaria, inicialmente, o que havia acontecido, como se, apesar da insistência dela em dizer que a loja era sua e que seus amigos estavam lá dentro, só lhe transmitiriam as informações que julgavam que ela precisava saber. Davam a ela apenas dados soltos, apresentados de má vontade quando o detetive voltou para mesa dele depois de ter sido chamado aos sussurros por subordinados. Ela ficou sabendo dessas coisas todas porque o único de seus sentidos que parecia estar funcionando com eficiência era a capacidade de registrar detalhes sem importância. Na verdade, achou que era capaz de recordar de cada faceta da sala, das cadeiras de plástico laranja, das mesas empilháveis de instalações públicas, dos cinzeiros de metal barato fornecidos aos montes ao lado da porta.

O que ela não conseguiu fazer foi absorver o que eles disseram.

Eles quiseram saber de Jessie. Há quanto tempo ela trabalhava na loja? Tinha algum — aqui ele hesitou, olhou para ela significativamente — problema em casa? Eles não lhe contavam o que tinha acontecido, mas, pela direção sem sutileza das perguntas, ela percebeu que devia ter a ver com Jason. Suzanna, pensando em mil possibilidades, relutara em dizer muito antes de poder falar com Jessie, consciente de que o ódio da amiga aos atos de Jason só era igualado por seu horror de que as pessoas ficassem sabendo.

— Ela está muito ferida? — perguntava constantemente. — O senhor tem que me dizer se ela está bem.

— Tudo a seu tempo, Sra. Peacock — disse ele, escrevendo com uma letra ilegível no bloco à sua frente. Tinha uma barra de chocolate Mars fechada no bolso. — Agora, a Srta. Carter tinha... — hesitação, olhar significativo... — amigos homens que a senhora soubesse?

No fim, ela resolvera lhes contar o que sabia, racionalizando que talvez fosse o melhor caminho para Jessie. Fez o inspetor prometer que, se lhe desse as informações, ele teria que lhe contar a verdade sobre o que tinha acontecido com sua amiga. Ela não devia lealdade alguma a Jason, afinal. Contara-lhe, com certa pressa, sobre os ferimentos de Jessie, sobre sua dedicação e suas reservas em relação ao parceiro, sobre a determinação em levá-lo a terapia. Contou-lhes, temendo fazer Jessie parecer uma vítima, como ela era determinada, corajosa e querida por quase todo mundo na cidadezinha. Tinha ficado ofegante ao terminar, como se as palavras tivessem se forçado a sair um tanto irrefletidamente, e ficara sentada em silêncio por vários minutos tentando calcular se havia algo incriminador no que acabara de lhes contar.

O inspetor anotara o que ela dissera com cuidado, olhara para a policial ao lado dele e, depois, justo quando ela já ia perguntar onde era o banheiro, dissera-lhe, com uma voz que há muito havia aprendido a disfarçar o choque e o horror sob uma aparência de interesse calmo, que Jessie Carter tinha morrido instantaneamente naquela noite quando alguém entrara com uma caminhonete pela frente da loja.

Suzanna sentira um nó na barriga. Olhara sem enxergar para os dois rostos à sua frente, dois rostos, ela percebeu, numa parte distante ainda funcionando da mente, que estavam estudando a sua reação.

— Perdão? — disse, quando conseguiu fazer a boca formar palavras. — Pode repetir o que acabou de dizer?

Quando ele repetiu, ela experimentou uma súbita sensação de queda, a mesma que tivera quando rolava o morro com Alejandro, a confusão vertiginosa de um mundo fora do eixo. Só que dessa vez não havia alegria, nada de euforia, só o eco repulsivo das palavras do policial voltando para ela.

— Acho que o senhor deve ter cometido um equívoco — disse.

Depois, o inspetor tinha se levantado, lhe oferecido o braço e dito que precisavam ir até a loja verificar se faltava alguma coisa. Ligariam para qualquer pessoa que ela quisesse. Se fosse da vontade dela, podiam esperar enquanto ela tomava uma xícara de chá. Eles entendiam que seria um choque. Ela notou que ele tinha cheiro de queijo e salgadinho de cebola.

— Ah, por sinal, conhece Alejandro de Marenas?

Ele lera o nome num pedaço de papel, pronunciara-o com um “J”, e ela apenas assentira, se perguntando por um instante se eles achavam que Ale tinha feito aquilo. Feito o quê?, corrigiu-se. A polícia vive cometendo erros, disse a si mesma, sentindo as pernas levantarem-na como se não estivessem ligadas ao resto do corpo. Olhe os Quatro do Guildford, os Seis de Birmingham. Quem disse que a polícia sempre sabia do que estava falando? Era impossível Jessie ter morrido. Morrido, morrido.

E depois eles saíram para o corredor, com aqueles ecos rançosos de antisséptico e fumaça de cigarros antigos, e ela o vira, sentado numa cadeira de plástico, a cabeça escura nas mãos, a policial ao lado dele pousando a mão em seu ombro, estranhamente consoladora.

— Ale? — chamou Suzanna.

Quando ele levantou a cabeça, o choque oco, a nova paisagem de desolação crua no rosto dele quando seus olhos encontraram os dela confirmaram tudo que o policial tinha dito, e ela deu um grande soluço gutural, levando automaticamente as mãos à boca enquanto o barulho ecoava no corredor vazio.

* * *

Depois disso, a noite virara um borrão. Ela se lembrava de ser levada à loja, de ficar parada tiritando atrás da fita amarela com a policial murmurando atrás dela, de contemplar a fachada desmoronada, as janelas estilhaçadas, cujas fileiras superiores ainda conservavam o vidro georgiano como que negando a realidade do que acontecera embaixo. A parte elétrica aparentemente sobrevivera ao impacto, e a loja brilhava de um jeito incongruente, como o interior de uma enorme casa de boneca, as prateleiras ainda intactas e cuidadosamente empilhadas ao longo da parede do fundo, ao lado dos mapas da África do Norte, tudo ainda colado com capricho, como que se recusando a aceitar a carnificina ali embaixo.

A certa altura, tinha parado de chover, mas os calçamentos ainda brilhavam com reflexos de néon dos refletores posicionados pelos bombeiros. Dois estavam parados embaixo do que fora o marco de uma porta, apontando para a madeira e murmurando baixinho para o policial encarregado. Pararam de falar quando a policial conduziu Suzanna por ali.

— Fique aqui — disse a policial no ouvido dela. — Não dá para chegar mais perto.

Em volta dela, havia grupos de policiais e bombeiros murmurando em rádios, tirando fotos com câmeras com flash, advertindo os poucos curiosos a se afastarem da cena, dizendo-lhes que não havia nada para ver ali, absolutamente nada. Suzanna ouviu o relógio na praça do mercado marcar dez horas, e se aconchegou no casaco, pisando com cuidado na calçada, onde seus cadernos forrados de camurça e os guardanapos bordados à mão jaziam encharcados, cercados de estilhaços de vidro, etiquetas de preço borradas de chuva. Acima dela, a placa balançava pela metade, o fim da palavra “Empório”, pelo visto, arrancado pelo impacto. Ela avançou inconscientemente, como se para colocá-la no lugar, depois se deteve ao ver vários rostos olharem com cautela para ela, as expressões lhe dizendo que ela já não tinha direito. Já não era a loja dela.

Era prova.

— Já retiramos o máximo que conseguimos do estoque da frente — dizia a policial —, mas, obviamente, até os andaimes chegarem, não podemos garantir a segurança do prédio. Infelizmente, não posso deixá-la entrar.

Ela estava parada, percebeu distraída, numa parte da vitrine de Sarah Silver. O catálogo da MFI que Jessie achara tão engraçado. Abaixou-se e pegou-o, limpando a própria pegada molhada com a mão.

— Mas se a chuva parar de vez, você não deve perder muita coisa. Imagino que tenha seguro.

— Ela não devia estar aqui esta noite — disse Suzanna —, só se ofereceu para ficar porque tive que levar minha avó ao hospital.

A policial olhou para ela com compaixão, pousou a mão em seu braço.

— Você não deve se culpar — disse, a voz estranhamente confidencial. — Isso não foi sua culpa. Pessoas boas sempre se acham responsáveis de alguma maneira.

Boa?, pensou Suzanna. Depois viu o guincho que, a uns dez metros dali, levava a caminhonete branca amassada como uma carga preciosa, seu para-brisa destruído por uma força invisível. Suzanna aproximou-se dela, tentou ler a inscrição na lateral.

— É a caminhonete do Jason? A caminhonete do namorado dela?

A policial ficou sem jeito.

— Sinto muito. Não sei. Mesmo se soubesse, não poderia lhe dizer. Oficialmente, isso é uma cena de crime.

Suzanna olhou para o catálogo em sua mão, medindo mentalmente as palavras da mulher, tentando imbuí-las de algum tipo de significado. O que Jessie diria sobre isso?, pensou. Imaginou o rosto dela, animado com a empolgação daquilo tudo, olhos arregalados pelo puro prazer de ter algo realmente acontecendo em sua cidade natal.

— Ele está vivo? — disse ela de repente.

— Quem?

— Jason.

— Sinto muito, Sra. Peacock. Não posso lhe dizer nada no momento. Ligue para a delegacia amanhã, tenho certeza de que conseguirá mais informações.

— Não entendo o que aconteceu.

— Acho que neste momento ninguém consegue ter certeza absoluta do que aconteceu. Mas vamos descobrir, não se preocupe.

— Ela tem uma filhinha — disse Suzanna. — Ela tem uma filhinha.

Ela ficou parada enquanto o guincho, acompanhado de vários gritos não identificados e um policial fazendo movimentos circulares com o braço, começou a rebocar sua infeliz carga lentamente pela rua iluminada de um jeito anormal, acompanhado pelo estridente comando de alertas de marcha à ré e o assobio interrompido dos rádios da polícia.

— Há alguma coisa pessoal aí dentro? Algum objeto vital que queira que a gente tire para a senhora? Chaves? Carteira?

Suzanna sentiu a mordida das palavras dela, ouvindo pela primeira vez o pedido que agora jamais poderia ser respondido com satisfação. Seus olhos estavam muito secos para chorar. Virou-se lentamente para a policial, colocou o catálogo cuidadosamente na parede ao lado da loja.

— Eu gostaria de ir embora agora, por favor — disse.

* * *

A polícia ligou para Vivi em algum momento para dizer que Suzanna talvez ficasse um tempo na delegacia. Depois de confirmar, aflita, que a filha não a queria lá e que Douglas não podia ir buscá-la, Vivi prometera ligar para Neil e lhe contar o que aconteceu. Até o dia seguinte, disseram, Suzanna estaria liberada. Poderiam lhe dar uma carona para casa, se ela quisesse, até mesmo mandar alguém lhe fazer companhia se ela estivesse se sentindo um pouco abalada. Já era quase meia-noite.

— Eu espero — disse ela.

E quarenta e cinco minutos mais tarde, quando ele apareceu, a cabeça ainda curvada, o rosto, normalmente bronzeado, cinzento e envelhecido pela dor, o sangue de Jessie ainda grotescamente visível nas roupas, ela pegou com delicadeza o seu braço enfaixado e disse que o acompanharia até em casa. Não conseguiria ter que explicar isso para ninguém. Não havia ninguém com quem suportaria ficar. Pelo menos esta noite.

Eles seguiram em silêncio a caminhada de dez minutos pela cidade iluminada a vapor de sódio, seus passos ecoando nas ruas desertas, as luzes das janelas quase todas apagadas enquanto, acima deles, seus habitantes dormiam felizes, sem saber dos acontecimentos da noite. A chuva trouxera à tona o cheiro orgânico doce de relva e flores rejuvenescidas, e Suzanna inspirou, inconsciente do prazer que havia nisso, notando com um sobressalto que Jessie não sentiria o cheiro doce daquela manhã. Era assim que parecia, como pareceria de agora em diante, o prosaico misturado com o surreal: um estranho sentimento de normalidade barbaramente interrompido por grandes soluços de horror. Talvez sejamos incapazes de absorver completamente, pensou Suzanna, refletindo sobre como se sentia calma naquele momento. Talvez só se possa aguentar um tanto. Ela não sabia, afinal, não tinha nenhum termo de comparação. Não tinha perdido nenhum conhecido até então.

Perguntou-se, por um instante, como sua família poderia ter reagido à morte de sua mãe. Era impossível imaginar. Vivi era o núcleo materno da família fazia tanto tempo que Suzanna não era capaz de imaginar um sentimento de perda numa família que existisse sem Vivi. Alejandro e Suzanna alcançaram o alojamento da enfermagem e um segurança, patrulhando o perímetro com seu cachorro que puxava e rosnava, acenou uma saudação quando Alejandro a conduziu pelo caminho de asfalto para o prédio. Provavelmente uma cena não muito inusitada, pensou ela distraída, enxergando-os com os olhos do segurança, uma enfermeira e o namorado voltando de uma noitada regada a álcool. Alejandro se atrapalhou com a fechadura, aparentemente incapaz de localizar suas chaves. Ela pegou o molho de chaves da mão dele e abriu a porta para que entrassem no apartamento silencioso. Registrou aquele vazio, aquela impessoalidade, como se ele estivesse determinado a ser apenas um visitante temporário. Ou talvez não se sentisse no direito de causar impacto ali.

— Vou preparar um café para a gente.

Ele tinha tomado um banho e mudado de roupa, seguindo as instruções dela, depois sentou-se no sofá, obediente como uma criança. Suzanna o observara por um instante, se perguntando que horrores ele havia visto, pensando sobre acontecimentos a respeito dos quais ela ainda não tinha coragem suficiente para perguntar.

Foi a paralisia dele que lhe deu uma espécie de força. Ela o deixou ali e começou a organizar o café, lavando a louça, limpando as bancadas de sua cozinha já em ordem, arrumando com uma loucura leve, como se, ao fazer isso, pudesse impor ordem na noite. E depois, saindo da cozinha, sentou-se ao lado dele, entregou-lhe um café adoçado e esperou que ele falasse.

Ele não disse nada, perdido em algum lugar inacessível.

— Sabe de uma coisa? — perguntou ela baixinho, como se estivesse falando sozinha. — Jess era a única pessoa que parecia gostar de mim por quem eu era. Nada a ver com a minha família, com o que eu tinha ou deixava de ter. Passou meses sem nem saber qual era o meu nome de solteira. — Encolheu os ombros. — Acho que não entendia isso até hoje à noite, mas ela não parecia me considerar problemática. Todo mundo considera, sabe. Minha família, meu marido. Eu mesma, metade do tempo, vivendo à sombra da minha mãe. Aquela loja era o único lugar onde eu podia ser simplesmente eu. — Ela alisou um vinco imaginário na calça. — Estava na sua cozinha dizendo a mim mesma que Jess morreu e a loja morreu. Tudo. Dizendo isso em voz alta. Mas o esquisito é que não consigo acreditar.

Alejandro não disse nada.

Na rua, a porta de um carro bateu, e o barulho de passos e de vozes murmurando ecoou nas pedras do calçamento, desaparecendo lentamente.

— Vou lhe contar uma coisa engraçada. Durante um tempo, tive inveja dela. Por causa do jeito que vocês se davam — disse ela, quase tímida. — Jess era assim... sabe? Ela se dava bem com todo mundo. Achei que eu estava com ciúme, mas ciúme é a palavra errada. Não se podia ter ciúme de Jessie, podia?

— Suzanna... — Ele levantou a mão, como se para detê-la.

— A certa altura, hoje à noite — prosseguiu ela, persistente, determinada —, achei que fosse minha culpa. O que aconteceu. Porque ela ficou até tarde por minha causa. Mas até eu sei que assim vou enlouquecer...

— Suzanna.

— Porque, se a gente analisar friamente, ela ficou lá por minha culpa. Então eu a coloquei no caminho da caminhonete. Eu. Porque saí cedo. Posso escolher ver isso ou posso escolher dizer a mim mesma que não podia ter feito nada para mudar o que aconteceu. Que, com Jason, isso teria acontecido de um jeito ou de outro. Talvez até pior. — Ela segurou uma lágrima. — Vou ter que acreditar nisso, não vou? Para conservar algum tipo de sanidade. Para ser sincera, não sei até que ponto isso vai dar certo.

— Suzanna...

Finalmente, ela ergueu os olhos.

— A culpa é minha — disse ele.

— Ale, não...

— A culpa é minha. — Ele falou com certeza, como se tivesse conhecimento de algo que ela não entendesse.

Ela balançou a cabeça com cansaço.

— Isso não foi culpa de nenhum de nós, no fim das contas. Você sabe tão bem quanto eu que foi culpa de Jason. O que ele fez foi decisão dele, foi culpa dele, não minha nem sua.

Ele não pareceu ouvi-la. Afastou-se dela novamente, os ombros encurvados. Observando-o, Suzanna sentiu uma inquietude crescente, como se ele estivesse à beira de um grande abismo que ela não pudesse ver. Compulsiva, começou a falar de novo, depressa, sem saber o que ia dizer mesmo enquanto falava.

— Jess amava Jason, Ale. Nós sabemos disso, e fizemos tudo que podíamos para tentar convencê-la a se afastar dele. Ela estava decidida a fazer as coisas darem certo. Olha, estivemos na casa dela não tem nem uma semana, não? Não havia nada que você pudesse ter feito. Nada. — Ela não sabia se acreditava no que dizia, mas estava determinada a tirar algum peso de cima dele, desesperada para forçá-lo a externar o que quer que fosse, algo como raiva ou incompreensão, qualquer coisa que não essa certeza ruim. — Acha que Jessie iria querer que você pensasse assim? Ela não estava confusa. Tinha bastante clareza quanto ao que achava que estava acontecendo. E nós confiamos no julgamento dela. Ela não teria pensado um minuto que isso tinha alguma coisa a ver com você. Ela te adorava, Ale. Ficava sempre muito feliz quando te via. Olha, a policial mesmo disse que pessoas boas sempre tentam se culpar...

Os lábios dele estavam contraídos.

— Suzanna...

— A culpa não é sua. É burrice continuar com isso na cabeça.

— Você não entende...

— Eu entendo. Ninguém entende melhor que eu.

— Você... não... entende. — A voz dele ficara seca.

— O quê? Que você tem o monopólio da desgraça? Olha, entendo que você viu isso acontecer, certo? Entendo que estava lá. E, pode acreditar, a ideia do que você viu ainda me assombra. Mas isso não está ajudando. Não vai ajudar a nenhum de nós.

— Foi minha culpa.

— Ale, por favor — A voz dela tremeu. — Você tem que parar de dizer isso.

— Você não está me ouvindo!

— Porque você está errado! Você está errado! — Ela disse isso com uma espécie de desespero. — Você não pode simplesmente...

— Carajo! Você tem que me escutar! — A voz dele explodiu no quartinho. Ele se levantou de repente e andou até a janela.

Suzanna estremeceu.

— Você está dizendo que dirigiu a caminhonete? Você bateu nela? O quê?

Ele fez que não com a cabeça.

— Então você tem que...

— Suzanna, eu dou azar para todo mundo.

Ela parou, como que para se certificar de tê-lo ouvido direito.

— O quê?

— Você me ouviu. — A cara dele estava virada para o outro lado, seus ombros rígidos com uma fúria contida.

Ela se aproximou dele.

— Está falando sério? Ah, pelo amor de Deus, Ale. Você não fez isso. Isso não envolve azar. Você não pode...

Mas ele a interrompeu, a mão levantada.

— Você se lembra que Jess me perguntou por que eu resolvi ser parteiro? — Ela assentiu sem dizer nada. — Não precisa de psicanalista, sabe. Eu tive uma irmã gêmea. Quando nasceu, ela estava azul. O meu cordão umbilical tinha se enroscado no pescoço dela.

Suzanna sentiu o familiar aperto interno.

— Ela morreu? — murmurou.

— Minha mãe nunca se recuperou. Manteve o berço dela montado, comprava roupas para ela. Até abriu uma conta bancária para ela. Estela de Marenas. Ainda existe, não sei para quê. — A voz dele era amarga.

As lágrimas se acumularam nos olhos de Suzanna. Ela piscou tentando escondê-las.

— Nunca me disseram isso na minha cara. Mas o fato é que ela assombra a minha casa, a minha família. Somos todos sufocados pela ausência dela. — Sua voz acalmou. — Sei lá... Talvez se minha mãe tivesse conseguido ter outro filho... quem sabe... — Ele esfregou os olhos e a raiva se insinuou de novo em sua voz. — Eu só queria um pouco de paz, entende? Pensei, por algum tempo, que tinha encontrado. Pensei que, por criar vida, por dar vida, eu podia fazer... fazer com que ela fosse embora. E, em vez disso, tenho essa coisa, esse fantasma me seguindo.... Eu devo ter sido um idiota. — Olhou para ela. — Na Argentina, Suzanna, os mortos vivem entre nós. — Sua voz agora era lenta, com a paciência controlada de um professor, como se lhe explicando coisas que mal se podia esperar que ela entendesse. — Os fantasmas deles andam entre nós. Estela está comigo o tempo todo. Eu a sinto, uma presença, sempre me lembrando, sempre me culpando...

— Mas não foi sua culpa. Você, mais que ninguém, devia entender isso.

Ela pegou o braço dele, querendo fazê-lo enxergar.

Mas ele ficou balançando a cabeça, como se não conseguisse entender o que ela dizia, e levantou a mão para afastá-la.

— Eu nem quero chegar perto de você, entende?

— É apenas uma superstição...

— Por que você não quer ouvir? — disse ele com desespero.

— Você era um bebê. — Houve um longo silêncio. — Você... era... apenas... um... bebê — insistiu ela, a voz engasgada. Depois, lentamente, pousou a sua xícara de café na mesa. Inclinou-se para a frente e, com timidez, pousou os braços em volta de Alejandro, sentindo o corpo dele rígido contra o seu, desesperada para diminuir um pouco do que ele sentia, como se, por pura proximidade, ela pudesse dividir a carga. Ouviu a voz dele de algum lugar ao lado de seu cabelo.

Depois, ele recuou, e ela sentiu sua determinação vacilar sob o peso visível do sofrimento dele, da dor e da culpa em seus olhos.

— Às vezes, Suzanna — disse ele —, a pessoa pode fazer mal aos outros só por existir.

Suzanna pensou em sua mãe. Nos cavalos brancos e nas sapatilhas brilhantes ao luar. Por um instante, contagiada pela noite e pela loucura, se perguntou se tinha a alma da mãe, se era isso que perturbava seu pai. Inclinou a cabeça, a voz embargada com uma dor que até então não conhecia.

— Se for assim... sou tão culpada quanto você.

Ele pegou o rosto dela nas mãos, então, como se só agora a estivesse vendo, levantou a mão enfaixada e enxugou o rosto dela uma, duas vezes, com o polegar, sem conseguir estancar o fluxo de lágrimas. Franzindo o cenho, aproximou o rosto do dela, os olhos tão perto que ela via neles os pontinhos dourados, ouvia a natureza irregular de sua respiração. Alejandro parou e, lentamente, encostou os lábios na pele dela, onde as lágrimas tinham passado, fechou os olhos e beijou o outro lado, apropriando-se do caminho salgado, enrolando as mãos no cabelo dela enquanto tentava afastar lágrimas com beijos.

E Suzanna, com os olhos bem fechados, chorando, levou as mãos à cabeça dele, sentindo o macio cabelo escuro, os ossos embaixo. Sentiu a boca dele nela, aspirou o eco antisséptico da delegacia e do casaco velho de couro dele, e depois seus lábios estavam nele, procurando os dele com uma espécie de urgência, um desespero para apagar o que acontecera antes. Ouvindo suas próprias palavras ecoando no silêncio em volta dela, os furiosos espíritos deslocados rodeando-os enquanto eles se abraçavam.

Sou tão culpada quanto você.