A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 23 de 29

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A Loja dos Sonhos

Vinte e três

 

O gato de Rosemary estava morrendo. O fato de todos saberem que isso ia acontecer, de estarem esperando esse desfecho havia vários dias, não o tornava menos triste. O bicho, cansado, ossudo, agora leve como uma pluma, definhado com os vários tumores internos, dormia quase continuamente, despertando só para cambalear pela cozinha até a tigela de água, muitas vezes sujando o chão no caminho. Vivi não tinha se queixado de limpar a sujeira, apesar das expressões dissimuladas de nojo do marido. Ela sabia que Rosemary estava ciente de que o gato tinha que ser sacrificado, mas vendo sua tristeza apenas contida, não quis tornar maior a pressão que a sogra visivelmente sentia para mandar fazer isso.

Depois do café da manhã após a visita dos filhos, com o vento uivando lá fora e o frio incomum significando que as lareiras seriam acesas pela primeira vez naquele outono, Rosemary tinha aparecido na porta do anexo para perguntar a Vivi se ela se importaria de chamar o veterinário. Quando este chegou, ela pediu a Vivi para pôr o gato em seus braços, e segurou o bicho ali, acariciando-o com dedos artríticos. E, então, disse à nora secamente que desejava ficar a sós. Ainda era capaz de falar com um veterinário sozinha, muito obrigada.

Vivi tinha saído de costas, o veterinário por um instante encontrando o seu olhar, e fechado a porta atrás de si, sentindo-se triste de uma forma que não podia explicar.

Depois de um espaço de tempo quase curto demais, o veterinário tinha aparecido, dito que mandaria a conta e anunciado que, por instruções de Rosemary, tinha deixado o corpo numa sacola especial ao lado da porta dos fundos. Ele havia se oferecido para se desfazer do animal pessoalmente, mas a velha senhora dissera que gostaria que seu gato fosse enterrado em seu jardim.

— Vou chamar Ben para ajudar — disse Vivi e, naquela manhã, ignorando a chuva e o vento, ela e o filho vestiram um casaco corta vento, cavaram um buraco de profundidade apenas suficiente para manter as raposas afastadas e enterram o velho animal, observados pelo rosto impassível de Rosemary à janela.

— Suponho que você ache que fui egoísta, mantendo o gato vivo — disse ela depois, enquanto Vivi servia o chá na sala, as orelhas ainda cor-de-rosa do vento.

Vivi colocou a xícara com o pires na mesa ao lado dela, certificando-se de que estivessem perto o suficiente para Rosemary alcançá-los sem mudar de posição na cadeira.

— Não, Rosemary. Acho que você era a única que podia saber quando ele estava pronto para partir. — Ela se perguntou se devia pedir a Lucy para ligar para Suzanna. As meninas pareciam mais próximas do que nunca. Quem sabe Suzanna talvez se abrisse com a irmã.

— Este é o problema, viu. Nenhum de nós está.

Vivi foi arrancada de seus pensamentos.

— Ele sabia que era um chato — começou Rosemary, a cara virada para as janelas francesas —, sabia que se metia embaixo dos pés de todo mundo, que fazia a maior sujeira. Mas às vezes é muito difícil... desapegar das coisas.

O bule de chá estava queimando a mão de Vivi. Ela o pousou com cuidado na bandeja, esquecendo-se de se servir de uma xícara.

— Rosemary...

— Só porque uma coisa é velha não quer dizer que é inútil. Talvez pareça mais inútil do que é.

Lá fora, um dos tratores estava entrando de ré pelo portão da frente, preparando-se para entrar no celeiro atrás da casa. Elas podiam ouvir o leve arranhar de marchas, revestido dentro de casa pelo reconfortante rugido do fogo, o tiquetaquear constante do relógio de pé.

— Ninguém achava que seu gato era inútil — disse Vivi, com cautela. — Acho que... nós apenas preferimos nos lembrar dele saudável e feliz.

— Sim. Bem. — Rosemary pousou a xícara na mesa. — Ninguém nunca imagina que vai acabar assim.

— Não.

— Um estado horroroso.

— É.

Rosemary empinou o queixo.

— Ele me mordeu, sabe, quando a agulha entrou.

— O veterinário me contou. Disse que isso era bastante raro.

A voz trêmula de Rosemary era desafiadora.

— Fico feliz que ele ainda tenha tido forças... para mandar todo mundo para o inferno. Até o último minuto... ele ainda tinha alguma coisa dentro dele. — Seus velhos olhos reumosos fixavam Vivi atentamente com um significado que ela não deixou escapar.

— Sabe de uma coisa, Rosemary? — Vivi viu que estava com um nó na garganta. — Eu também fico muito feliz.

* * *

Rosemary adormecera na cadeira. Provavelmente foi a emoção daquilo tudo, dissera a Sra. Cameron sabiamente. A morte podia fazer isso com as pessoas. Quando o poodle de sua irmã tinha morrido, eles tiveram que segurá-la para ela não se atirar na sepultura. Mas, por outro lado, ela sempre fora apaixonada pelo cachorro, tinha emoldurado fotos dele e lhe comprado casacos e coisas do gênero. Mandara enterrá-lo num daqueles cemitérios especiais, dá para acreditar? Sabia que se podia enterrar até um cavalo nesses lugares? Vivi tinha assentido, depois balançado a cabeça, sentindo a tristeza da sogra se entranhando, como o tempo úmido, nos ossos da casa.

Ela tinha dezenas de coisas para fazer, várias delas na cidade, inclusive um convite para uma reunião da obra de caridade local que administrava os abrigos de acolhimento da cidade, para a qual Douglas a indicara quando se casaram. Mas, de alguma maneira, Vivi estava relutante em sair da sala, como se a fragilidade de Rosemary desde a morte de seu amado gato a deixasse temerosa por ela. Não dissera nada disso à Sra. Cameron, mas a moça vira alguma coisa:

— Quer que eu passe as roupas aqui dentro? Fique de olho nas coisas? — perguntara ela com tato.

Teria parecido bobagem explicar sua perturbação. Vivi lhe dissera, com uma energia determinada na voz, que achava isso uma ideia esplêndida. E, tentando não fazer caso do mau pressentimento, fora para a despensa separar as maçãs que tinha deixado de lado para congelar.

Ela estava ali sentada no velho caixote de chá havia quase vinte minutos, separando os sacos plásticos de maçãs boas para cozinhar dos de maçãs podres demais para guardar, encontrando consolo no mecânico ritual anual, quando ouviu a campainha da porta e os passos enérgicos da Sra. Cameron assoviando no corredor ao ir abri-la. Houve um breve diálogo abafado, e Vivi, jogando uma fruta especialmente bichada numa caixa de papelão, tinha se perguntado se a senhora que deixava as sacolas da obra de caridade para serem enchidas tinha chegado um dia antes.

— Aqui? — Ouviu a voz, imperiosa e exigente, do outro lado da porta, e Vivi estremeceu, subitamente se endireitando.

— Suzanna?

A porta abriu e Suzanna ficou ali parada. Seus olhos ardiam escuros num rosto que era mortalmente branco. Havia discos azuis em volta de seus olhos e seu cabelo não tinha sido escovado, indicando uma tumultuada noite em claro.

— Querida, você...

— É verdade? Ela fugiu do papai e teve um filho?

— O quê?

Vendo o conhecimento abrasador naquele rosto, Vivi sentiu a história dar um pulo para soterrá-la e entendeu que aquela apreensão que sentira nada tivera a ver com o gato. Levantou-se e tropeçou à frente, fazendo maçãs rolarem pelo chão.

— Minha mãe? Era da minha mãe que ela falava?

As duas estavam em pé no quartinho impregnado do cheiro de detergente e de maçãs em decomposição. Vivi ouviu a voz de Rosemary, sem saber ao certo se era imaginação sua.

— Viu? — dizia. — Ela cria problema até depois de morta.

Com as mãos ao lado do corpo, respirou fundo e imprimiu à voz uma firmeza que não sentia. Sempre soubera que este dia podia chegar, mas nunca previra que, quando chegasse, poderia ter que enfrentá-lo sozinha.

— Suzanna, seu pai e eu já queríamos lhe contar isso há algum tempo. — Procurou o lugar para se sentar de novo. — Aliás, nós queríamos lhe contar na quinta-feira. Devo chamá-lo? Ele está lavrando na Page Hill.

— Não. Conte você.

Vivi queria dizer que a história não era dela para contar, que o peso daquilo sempre fora excessivo para ela. E, confrontada com o febril olhar acusativo de Suzanna, dizer que não teve culpa. Mas ser mãe era isso, não? As declarações de amor, a garantia de que todo mundo havia feito o que fez na melhor das intenções, achando que tudo ficaria bem... a consciência de que muitas vezes o amor não é o suficiente.

— Me conte você.

— Querida, eu...

— Aqui. Agora. Já. Eu simplesmente quero saber — disse Suzanna. Havia uma espécie de desespero em seus olhos, em sua voz, um tom que Vivi nunca vira mais triste ou mais estranho.

A mulher chegou para o lado com cuidado, fazendo sinal para a filha ocupar a metade vaga do caixote.

— Está bem, Suzanna — disse. — É melhor você se sentar.

* * *

A ligação tinha chegado quando ele menos esperara, numa das poucas ocasiões em que voltara para a casa que, por dois breves anos, chamara de lar. Entrara no hall ecoante à procura do casaco de tweed, tentando não pensar muito no que o rodeava, quando o telefone na mesa do hall tocara estridentemente. Ficara algum tempo olhando para o aparelho, depois adiantou-se timidamente. Ninguém mais ligaria para ele naquele número. Todo mundo sabia que já não morava lá.

— Douglas — dissera a voz, e, diante daquela indagação surda, devastadora, ele descobriu que perdera a capacidade de ficar em pé.

— Onde você está? — perguntara ele, deixando-se cair na cadeira do hall.

Foi como se não tivesse falado.

— Ando tentando falar com você há semanas — disse ela. — Você é um farrista impossível.

Como se eles fossem duas pessoas flertando numa festa. Como se ela não o tivesse destruído, partido o seu coração e transformado o seu futuro, a sua vida, em pó.

Ele engoliu em seco.

— Está na época do feno. Dias longos. Você sabe.

— Achei que você tinha ido para a Itália, afinal — disse ela levianamente. — Para fugir desse clima inglês horroroso. — A voz dela parecia estranha, abafada pelo tráfego, como se ela estivesse numa cabine telefônica. — Não é horrível? Você não odeia esse clima?

Ele tinha imaginado por tanto tempo este momento, ensaiara tantos argumentos, pedidos de desculpas, reconciliações na cabeça, e agora ela estava do outro lado da linha. Respirar era só o que ele conseguia.

— Douglas?

Ele notou que a mão tremia encostada na perna.

— Senti sua falta — grunhiu.

Houve uma pausa imperceptível.

— Douglas, querido. Não posso falar muito, mas preciso te encontrar.

— Venha para casa — disse ele. — Venha para cá.

Ela respondera docemente que, se ele não se importasse, ela realmente preferiria não ir até lá. Em Londres, talvez? Algum lugar onde pudessem falar em particular?

— O restaurante de peixes Huntley’s — sugerira ele, a mente hesitante, começando a funcionar. Lá havia mesas isoladas, onde podiam falar praticamente sem ser observados.

— Você é tão esperto, querido — dissera ela, aparentemente sem perceber como uma frase, descartada com tanta facilidade, podia atiçar as chamas da esperança.

Seria no Huntley’s, então. Quinta-feira.

Agora, quatro intermináveis dias depois, ele estava sentado à mesa nos fundos do restaurante, a mais discreta da casa, garantira-lhe o garçom, que piscara para ele de um jeito impertinente, como se ele estivesse encontrando uma amante.

— É para a minha mulher — dissera Douglas.

Com frieza, o garçom respondera:

— Certo, senhor, é lógico que é.

Ele chegara quase meia hora antes, passara a pé pelo restaurante várias vezes, disposto a resistir à tentação de entrar, sabendo que os operários no andaime acima deviam tê-lo achado transtornado. Mas havia uma parte dele que temia talvez sentir falta dela, temia que o destino interviesse e descruzasse os seus caminhos, então comprou um jornal e sentou-se lá sozinho, tentando conter o suor da palma das mãos e desejando poder entender alguma coisa nas notícias à sua frente.

Na rua, um ônibus de dois andares afastou-se penosamente do meio-fio, suas vibrações fazendo as janelas chacoalharem. Garotas passavam vestindo saias curtas, os casacos coloridos destoando dos tons de cinza do céu e do calçamento de Londres, provocando assobios abafados. Por um instante, ele se sentiu tranquilizado por ela ter concordado em se encontrar com ele ali, um lugar onde seu terno não parecia provinciano, careta, em jargão moderno, um lugar onde ele não tinha que se sentir como um amálgama de todas as coisas que a irritavam.

— Gostaria de alguma bebida, senhor, enquanto espera?

— Não. Aliás, sim. Só uma água, por favor.

Ele olhou quando a porta abriu e mais uma mulher magra entrou. O raio do restaurante parecia não atender a nenhum outro tipo de cliente.

— Gelo e limão, senhor?

Douglas sacudiu o jornal com irritação.

— Ah, pelo amor de Deus — disse secamente —, do jeito que vier... está bom — disse, controlando-se. Afastou o cabelo do rosto, ajustou a gravata e tentou normalizar a respiração.

Não tinha contado aos pais que estava indo — sabia qual seria a resposta da mãe. Ela não permitia que o nome de Athene fosse pronunciado na casa desde o dia que ele lhe contara sobre a partida da esposa. Ele se mudara para lá vários meses antes, deixando a Casa Philmore como o Mary Celeste, exatamente como ela a tinha deixado, até o cinzeiro que a esposa enchera de bitucas marcadas de batom. Os empregados receberam instruções estritas de não mudar nada.

Até ele ter certeza.

Até ele ter certeza absoluta.

— Aliás — disse ele ao garçom, quando este chegara trazendo um copo de água numa bandeja de prata —, me traga um conhaque, sim? Duplo.

O garçom tinha olhado para ele um segundo a mais do que sugeria um serviço completamente atencioso.

— Como queira, senhor — dissera, e se retirara.

Ela se atrasara, como ele já imaginara. Ele terminara o conhaque e mais outro na meia hora que se arrastara depois do horário combinado para o encontro. Quando ele ergueu os olhos do jornal e a viu à sua frente, o álcool já começara a suavizar a sua ansiedade.

— Douglas — dissera Athene, e ele ficara olhando vários minutos para ela, não se sentindo capaz de lidar com a esposa em carne e osso, com a versão definida do espectro que, durante quase um ano, assombrara seus sonhos. — Como você está elegante.

Ele olhara para o terno, temendo ter derramado alguma coisa nele. E, depois, olhara para ela, ciente de estar transpondo um limite invisível, mas incapaz de se deter.

— Vamos sentar — dissera ela, com um sorriso nervoso, provocante. — As pessoas estão começando a olhar.

— De fato — murmurou ele, e tornou a entrar no reservado.

Ela parecia alterada, também, embora fosse impossível dizer se isso era porque a Athene de sua lembrança, de sua imaginação, era uma criatura perfeita. Esta mulher à sua frente, embora linda, embora indiscutivelmente a sua Athene, não era bem a deusa que ele se acostumara a imaginar. Tinha um rosto fatigado, a pele um pouco menos lisa, um pouco mais cansada do que já fora. Seu cabelo estava preso num coque desleixado. Vestia, notou ele com espanto, um tailleur que ela comprara na lua de mel deles, que ela decidira, após usá-lo uma única vez, ser “uma coisa abominável” e jurara jogar fora. Ao lado do estilo colorido das garotas na rua, tinha um aspecto antiquado. Ela acendera um cigarro. Ele notou, com certo alívio, que as mãos dela tremiam.

— Posso beber alguma coisa, querido? — disse Athene. — Sabe, estou morrendo de sede.

Ele acenou para o garçom, que olhou para ela com interesse moderado. Foi quando pegou o homem olhando ostensivamente para a mão esquerda da mulher que Douglas levou um susto ao perceber que ela já não usava a aliança. Deu um gole na bebida, tentando não pensar no que isso poderia significar.

O importante era que ela estava lá.

— Você está... você está bem? — perguntou ele.

— Maravilhosa. Tirando esse tempo horrível.

Ele tentou descobrir alguma pista pela aparência dela, arranjar coragem para lhe fazer as perguntas que davam voltas implacavelmente em sua cabeça.

— Você vem muito a Londres?

— Ah, você me conhece, Douglas. Teatro, uma boate de vez em quando. Isso não pode me manter afastada da velha Fumaça. — Por trás de sua voz, havia uma alegria frágil.

— Fui ao casamento do Tommy Gardner. Achei que poderia ver você lá.

— Tommy Gardner? — Ela soprou a fumaça com desdém pelos lábios pintados. — Eca. Não suporto nenhum deles.

— Acho que você devia estar muito ocupada.

— Sim — disse ela. — Estava, sim.

O garçom trouxe a bebida de Athene e dois cardápios encadernados em couro. Ela tinha pedido um gim-tônica, mas, quando a bebida chegou, pareceu se desinteressar por ela.

— Você gostaria de comer? — perguntou Douglas, rezando para ela não querer sair imediatamente, para já não a ter desapontado.

— Peça para mim, querido. Não quero me preocupar em ler essas opções todas.

— Vou querer o linguado — disse ele ao garçom, tirando com relutância os olhos da mulher por tempo suficiente para devolver os cardápios. — Dois linguados. Obrigado.

Havia nela um estranho desassossego, notou ele. Embora estivesse absolutamente silenciosa, lânguida como sempre, havia uma tensão visível nela, como se estivesse pendurada entre dois fios esticados. Talvez ela esteja tão nervosa quanto eu, pensou ele, e tentou conter o acesso de esperança provocado por essa ideia.

Houve um silêncio penoso enquanto eles estavam sentados um em frente ao outro, os olhares de vez em quando se cruzando, e esboçando sorrisos tensos, constrangidos. Na mesa ao lado, um grupo de homens de negócio caiu na gargalhada, e ele captou o ligeiro levantar de sobrancelhas de Athene, o olhar que dizia que não se podia imaginar nada mais ridículo que eles.

— Você nem falou comigo — disse, tentando usar um tom leve, como se fosse uma crítica moderada. — Deixou apenas um bilhete.

Ela cerrou ligeiramente a mandíbula.

— Eu sei, querido. Sempre fui inútil para esses tipos de conversas.

— Esses tipos de conversas?

— Não vamos fazer isso, Douglas. Hoje, não.

— Por que não nos encontramos em Dere? Eu teria ido à casa dos seus pais, se você quisesse.

— Não quero vê-los. Não quero ver ninguém. — Ela acendeu um segundo cigarro no primeiro e amassou o maço agora vazio em sua mão. — Douglas, seja um amor e peça mais uns cigarros para mim? Acho que estou sem trocado.

Ele pediu sem protestar.

— Você é um amor — murmurou Athene, e ele nem tinha certeza se ela sequer se dava conta do que estava dizendo.

A comida chegou, mas nenhum deles tinha apetite para comer. Os dois peixes ficaram sinistramente sentados na manteiga que se solidificava até Athene empurrar o prato e acender outro cigarro.

Douglas temeu que isso sugerisse a partida iminente dela. Não conseguiu esperar mais. Não tinha nada a perder.

— Por que você me ligou? — perguntou, a voz falhando.

Os olhos dela encontraram os dele e se arregalaram ligeiramente.

— Não posso mais falar com você? — disse ela.

Sua tentativa de sedução foi prejudicada pela tensão em volta de seus olhos, pelos olhares fugazes que ficava lançando para a frente do restaurante.

— Está esperando alguém? — perguntou ele, subitamente temendo que ele pudesse estar lá também. Que isso pudesse ser algum estratagema elaborado para fazê-lo mais ainda de bobo.

— Não seja tolo, querido.

— Não me chame de querido, Athene. Não consigo fazer isso. Não consigo mesmo. Preciso saber por que você está aqui.

— Sabe, é ótimo ver você com uma cara tão boa. Você sempre ficou maravilhoso com esse terno.

— Athene! — protestou ele.

Chegou uma mulher à mesa deles, a atendente do vestiário. Douglas se perguntou, por um instante, se ela já ia lhes dizer que havia uma ligação para Athene e o que faria se a mulher dissesse isso. Seria ele, é óbvio. Devia passar a mão no telefone? Mandar o outro homem deixar a sua mulher em paz? Ou o quê?

— Desculpe, madame, mas a sua bebê está chorando. A senhora precisa pegá-la.

Passaram-se vários segundos até ele registrar o que a outra mulher havia dito.

Athene olhou para ele, um traço cru e desprotegido no rosto. Depois, composta, virou-se de novo para a mulher, o sorriso perfeitamente sereno.

— Sinto muito — disse. — Seja um amor e traga-a para mim? Não vou demorar muito.

A moça desapareceu.

Athene deu uma longa tragada no cigarro. Os olhos dela eram brilhantes e insondáveis.

— Douglas, preciso que você faça uma coisa para mim — disse tranquilamente.

— Uma bebê? — disse ele, a mão no alto da cabeça.

— Preciso que você tome conta da Suzanna para mim.

— O quê? Uma bebê? Você nunca...

— Eu não posso mesmo discutir sobre isso. Mas ela é uma boa bebê. Sei que vai adorar você.

A moça chegou com a criança, quase escondida por mantas, choramingando como se tivesse acabado de cair uma terrível tempestade. Athene apagou o cigarro e esticou o braço para pegá-la, sem olhar para o rosto da menina. Embalou-a distraidamente, observando Douglas.

— O carrinho dela está na frente do restaurante. Tem tudo de que ela precisa por um tempinho. Ela não dá problema, Douglas, mesmo.

Ele não estava acreditando.

— Isso é... isso é algum tipo de piada? Não sei o que fazer com um bebê. — A criança tinha começado a ficar nervosa de novo, e Athene deu tapinhas no traseiro dela, ainda sem olhar para seu rosto. — Athene, não posso acreditar que você...

Ela se levantou e empurrou a bebê por cima da mesa, e ele não teve muita opção senão pegar o pacote. A voz dela era urgente, insistente.

— Por favor, por favor, Douglas, querido. Não posso explicar. Mesmo. — Os olhos suplicantes dela eram um eco de um tempo passado. — Ela ficará muito melhor com você.

— Você simplesmente não pode me deixar com um bebê...

— Você vai amá-la.

— Athene, não posso...

A mão fria dela estava no braço dele.

— Douglas, querido, eu já te pedi alguma coisa? De verdade?

Ele mal conseguia falar. Estava vagamente consciente dos ocupantes da mesa ao lado olhando para eles.

— Mas e você? — Ele balbuciava, sem sequer saber ao certo o que dizia. — E você e eu? Eu não posso simplesmente ir para casa com um bebê.

Mas ela já tinha lhe virado as costas. Estava arrumando a bolsa, brincando com alguma coisa dentro dela, um estojo de pó de arroz, talvez.

— Tenho que ir agora. Depois nos falamos, Douglas. Muito obrigada.

— Athene, você não pode me deixar com...

— Sei que você vai ser maravilhoso com ela. Um pai maravilhoso. Muito melhor que eu nesse tipo de coisa.

Ele estava olhando para o rosto inocente embrulhado nas mantas à sua frente. A menina conseguira encontrar o polegar e chupava furiosamente, uma expressão de concentração extasiada no rosto. Tinha os cílios pretos de Athene, seus lábios com um arco de cupido.

— Não quer nem dizer adeus? — perguntou ele.

Mas ela já estava na metade do caminho de saída do restaurante, os sapatos de salto alto repicando como alfinetes no piso cerâmico, os ombros retos no tailleur abominável.

— O carrinho dela está com a moça da chapelaria — falou. E, sem olhar para trás, desapareceu.

Ele nunca mais a viu.

* * *

Ele contara esta história a Vivi alguns meses após o acontecido. Até então, disse ela, a família de Douglas simplesmente falara a todo mundo que Athene estava “passando uma pequena temporada no estrangeiro”, mas que considerava o clima inglês melhor para o bebê. Diziam “o bebê” levianamente, como se todo mundo devesse saber que havia um. Uns achavam que talvez já tivessem lhes contado e, de algum jeito, eles tivessem esquecido. Quem porventura não tivesse aceitado esta versão dos acontecimentos ficou quieto. O pobre homem já tinha sido humilhado o suficiente.

Ele contara a Vivi com firmeza, sem olhar para ela, pouco depois de terem sabido da morte de Athene. E ela o abraçara enquanto ele chorava lágrimas de raiva, humilhação e perda. Depois, ela se deu conta de que ele nunca perguntara se o bebê era dele.

Suzanna, paralisada no caixote de chá, estava mais pálida, se possível, do que quando chegara. Ficou sentada ali por algum tempo, e Vivi não disse nada, dando-lhe espaço para digerir a história.

— Então ela não morreu me dando à luz? — disse por fim.

Vivi estendeu a mão.

— Não, querida, ela...

— Ela fugiu de mim? Simplesmente me entregou? No raio de um restaurante de peixe?

Vivi engoliu em seco, querendo que Douglas estivesse ali.

— Eu acho que ela sabia que não conseguiria ser a mãe de que você precisava. Eu a conheci um pouco na juventude, e ela era uma pessoa bem rebelde. Tinha uma relação difícil com os pais. E talvez o homem com quem ela fugiu a tenha forçado... Alguns homens ficam incomodados com crianças, especialmente se... se não são filhos deles. Douglas sempre achou que aquele homem poderia ter sido bastante cruel com ela. Então, veja bem, você não deve julgá-la com muita severidade. — Desejou que as palavras soassem mais convincentes do que soaram. — As coisas eram diferentes naquela época.

Tão logo Athene fora embora, Vivi voltara a Dere. Não na esperança de fisgá-lo: sempre soubera que Douglas queria Athene de volta, que ele nunca aceitaria mais ninguém enquanto a possibilidade persistisse. Mas ela o adorava desde que eram crianças e achava que pelo menos podia oferecer certo apoio.

— Tive que escutar muitas histórias do quanto ele amava sua mãe — disse ela friamente —, mas ele precisava de ajuda. Não podia cuidar de um bebê com tudo que tinha que fazer. E, para começar, os pais dele não eram muito... — estava tentando encontrar a palavra adequada — prestativos.

Dois meses depois da morte de Athene, ele tinha pedido Vivi em casamento.

Ela afastou o cabelo do rosto.

— Sinto muito não termos lhe contado a verdade antes. Durante muito tempo, nós todos achamos que estávamos protegendo seu pai. Ele tinha passado por muita humilhação e muito sofrimento. E depois... não sei... talvez achássemos que estávamos protegendo você. Na época, não se insistia tanto quanto hoje em que todo mundo soubesse de tudo. — Ela deu de ombros. — Simplesmente fizemos o que julgamos que fosse melhor.

Suzanna chorava havia vários minutos.

Timidamente, Vivi levantou a mão para ela.

— Sinto muito.

— Mas você devia ter me odiado — disse Suzanna, soluçando.

— O quê?

— Aquele tempo todo eu estava atrapalhando, sempre fazendo com que ela fosse lembrada.

Vivi, enfim cheia de uma espécie de coragem, envolveu a filha nos braços e apertou-a com força.

— Não seja boba, querida — disse. — Eu amei você. Quase mais do que a meus próprios filhos.

Os olhos de Suzanna estavam embaçados de lágrimas.

— Não entendo.

Vivi segurou os ombros muito magros da filha e tentou transmitir ao menos uma parte daquilo que sentia. Sua voz, quando saiu, estava determinada, incomumente segura:

— Eu amei você porque você era o bebê mais lindo que eu já tinha visto — disse, e abraçou-a ferozmente. — Amei você porque nada disso foi sua culpa. Amei porque, desde que coloquei os olhos em você, foi impossível não te amar. — Parou, os olhos agora também cheios d’agua. — E, de alguma maneira, Suzanna, te amei porque, sem você, criança adorada, ele nunca teria sido meu.

Mais tarde, quando tinha se soltado dos braços de Suzanna, Vivi lhe contou como sua mãe realmente morrera, e Suzanna tornou a chorar, por Emma, por Alejandro e, sobretudo, por Athene, por cuja morte ela não tinha sido responsável, afinal.