A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 26 de 29

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A Loja dos Sonhos

Vinte e seis

 

 

Suzanna estava deitada na cama em que dormira quando criança, enquanto os sons de sua infância ecoavam através da parede. Era capaz de ouvir o cachorro de sua mãe chorando, as unhas arranhando o chão de pedra no andar de baixo, o frenesi de latidos entrecortados proclamando algum desaforo invisível. Ela absorveu o barulho abafado da televisão de Rosemary, ligada no jornal da manhã. O índice FTSE subiu quatro pontos, a precisão é de céu nublado com chuvas esparsas, ela ouviu, sorrindo com ironia da incapacidade do forro de madeira e estuque oferecer qualquer resistência ao óbvio problema de audição de Rosemary. Do lado de fora, no acesso da frente, ouvia o pai falando com um dos homens, discutindo algum problema com um duto de grãos. Barulhos que, até então, sempre lhe diziam que ela era estranha a esse ambiente. Pela primeira vez, Suzanna foi reconfortada por eles.

Ela chegara tarde duas noites antes, tendo embalado os seus pertences quando Neil estava no trabalho. Apesar do que ele tinha dito, Suzanna sabia que ele esperava que ela mudasse de ideia depois que ele fosse embora. Que o que ela falara talvez tivesse sido um efeito colateral infeliz da dor. Mas ela sabia. E achava que, no fundo, ele também sabia, que a dor tinha atrasado a decisão, confundido a sua certeza de que essa decisão tinha que ser tomada.

Vivi encontrara-a à porta, escutara sem dizer uma palavra quando ela anunciara chorosa (tendo pensado que sairia de casa sem olhar para trás, ela se admirara de quão emotiva ficara ao pôr as roupas na mala) porque estava lá. Para sua surpresa, Vivi não lhe suplicara que fizesse mais uma tentativa, nem lhe dissera que homem maravilhoso Neil era — mesmo quando ele apareceu, como ela sabia que havia chances de acontecer, bêbado e incoerente mais tarde aquela noite. Vivi fizera café para ele e o deixara reclamar, divagar e soluçar. Dissera-lhe, contou depois, que lamentava muito, que não só ele era bem-vindo para continuar morando na casinha, mas que faria parte da família deles pelo tempo que quisesse. Depois, levara-o em casa de carro.

— Lamento ter feito você passar por isso — dissera Suzanna.

— Não há nada que lamentar — retrucou Vivi, e lhe fez uma xícara de chá.

Era como se ela tivesse passado anos estática, pensou Suzanna, contemplando os botões de rosa no papel de parede, notando o canto ao lado do armário onde rabiscara à caneta quando era adolescente, seu ódio aos pais. Agora, como se desencadeadas por seus atos, as coisas estavam andando depressa, como se o próprio tempo tivesse decidido que ela tinha muito para compensar.

Houve uma batida à porta.

— Sim? — Suzanna se endireitou, e viu, chocada, que eram quase quinze para as dez.

— Vamos, preguiçosa. Está na hora de se sacudir. — A cabeça loira de Lucy entrara, olhando com um sorriso tímido no rosto.

— Oi. — Suzanna sentou-se, esfregando os olhos. — Desculpe. Não sabia que você vinha tão cedo.

— Cedo? Você não demora a voltar aos velhos hábitos. — Ela se adiantou e abraçou a irmã. — Você está bem?

— Tenho vontade de me desculpar com todos por não estar um lixo. — O pior foi como tinha sido fácil sair de casa. Ela se sentia culpada, é óbvio, por ter sido a causa da infelicidade dele, e triste por ter que quebrar um hábito, mas não tinha nada do esmagador sentimento de perda que previra. Se perguntara por um instante se isso significava algum tipo de deficiência moral de sua parte. — Doze anos, e tão pouco choro e ranger de dentes. Acha que sou estranha?

— Não, só honesta. Isso significa que é o certo — disse Lucy, pragmática.

— Fico esperando sentir alguma coisa... outra coisa, quero dizer.

— Talvez sinta. Mas não adianta procurar por isso, tentar provocar um sentimento que não existe no momento. — Ela se sentou na cama de Suzanna e remexeu na bolsa. — Está na hora de seguir em frente. — Segurou um envelope no alto. — Falando nisso, estou com suas passagens aqui.

— Já?

— Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje. Acho que você deve ir logo, Suze. Podemos resolver o problema da loja. Acho que não é justo com Neil ter que cruzar com você por aí. É uma cidade pequena, afinal, e a fofoca rola solta.

Suzanna pegou as passagens e ficou olhando para a data.

— Mas são para daqui a menos de dez dias. Quando falamos, pensei que você tivesse se referindo ao mês que vem. Talvez até daqui a uns dois meses.

— O que prende você aqui?

Suzanna mordeu o lábio.

— Como vou reembolsar você? Nem vou ter tempo para liquidar o estoque.

— Ben vai ajudar. Ele também acha que você devia ir.

— Deve estar feliz por eu sair de casa. Acho que ele anda bastante chateado por eu estar aqui de novo.

— Não seja ridícula. — Lucy riu para a irmã. — Adoro a ideia de você fazendo um mochilão. Hilário. Estou quase tentada a ir também. Só para ver.

— Eu queria que você viesse. Estou bem nervosa, para ser sincera.

— A Austrália não é o fim do mundo. — Elas riram. — Tudo bem, é o fim do mundo. Mas, sabe, poderia ser pior.

— Já falou com a sua amiga? Ela ainda está feliz de me hospedar por uns dias?

— Lógico. Vai te mostrar Melbourne. Ajudar você a começar. Está ansiosa para te conhecer.

Suzanna tentou se imaginar em horizontes estrangeiros, sua vida, pela primeira vez, um espaço em branco, esperando ser povoada de gente nova, experiências novas. Parecia apavorante.

— Não faço nada sozinha. Há anos. Neil organizava tudo.

— Neil te infantilizou.

— Isso é meio forte.

— É. Talvez seja. Mas ele deixou, sim, você se comportar um pouco feito uma criança mimada. Não fique irritada comigo por eu dizer isso — ela logo acrescentou — enquanto estamos tendo o nosso encontro para promover a nossa união como irmãs.

— É o que isso significa?

— Sim. Com quase quinze anos de atraso. Vamos lá, me mostre onde estão as suas malas e vou começar a separar as coisas para você. — Lucy abriu rapidamente o grande saco preto, decidida. — Caramba! Quantos pares de sapatos de salto alto você tem, Imelda? — Fechou o saco e arrastou-o para o outro lado do quarto. — Você não vai precisar de nenhum desses. Mande o papai botá-los no sótão. Cadê as suas roupas?

Suzanna puxou os joelhos para cima embaixo do edredom e abraçou-os, pensando nas infinitas possibilidades à sua frente. E nas que perdera. Tentou lutar contra a sensação de que estava se precipitando, de que devia ficar quieta por um tempo e fazer um balanço. Mas sua irmã tinha razão. Ela já havia prejudicado muito Neil. Era o mínimo que podia fazer.

— Vai se levantar hoje, sua preguiçosa?

Suzanna deitou o rosto nos joelhos, observando a cabeça loira da irmã subindo e descendo enquanto separava suas roupas — roupas que subitamente pareciam não ser suas.

— Eu disse à mamãe que não tinha outra pessoa — falou por fim.

Lucy parou, um par de meias embolado na mão. Colocou-as numa pilha à sua esquerda. Quando ergueu os olhos, seu rosto tinha uma cautelosa expressão vazia.

— Não posso dizer que estou surpresa.

— Ele foi o primeiro.

— Eu não quis dizer isso. Só pensei que ia ser preciso uma coisa bem radical para tirar você da sua zona de segurança.

— Acha que foi isso? — Suzanna se deu conta de que se sentia vagamente na defensiva em relação a seu casamento. Durara muito, sobrevivera a mais percalços do que muitos relacionamentos.

— Não só isso.

Suzanna ficou olhando para a irmã.

— Não foi só uma aventura casual.

— Acabou?

Suzanna hesitou.

— Sim — disse por fim.

— Você não parece muito segura.

— Houve uma época em que... em que pensei que pudesse dar certo... mas as coisas mudaram. E, afinal, eu devia passar um tempo sozinha. Botar a cabeça no lugar. Uma coisa que Neil disse me fez pensar um pouco.

— Você contou a Neil sobre ele?

— Nossa, não. Já o magoei o suficiente. Você é a única que sabe. Acha que sou uma pessoa horrível? Sei que gostava de Neil.

— Nem por isso eu achava que vocês eram certos um para o outro.

— E não achava?

Lucy balançou a cabeça.

Suzanna sentiu-se aliviada e, no entanto, meio traída pela aparente convicção da irmã. Mas, por outro lado, mesmo que Lucy tivesse dito qualquer coisa, raciocinou, ela não teria levado em conta. Passara anos sem ligar muito para as opiniões da família.

— Neil é uma alma singela — disse Lucy. — Só um cara simples e bom.

— E eu sou uma vaca velha complicada.

— Ele precisa de alguma mina dos Home Counties com quem levar uma boa vidinha simples.

— Como você.

É isso mesmo que você pensa?, perguntavam os olhos de Lucy, e Suzanna descobriu que não sabia porque nunca tinha prestado muita atenção.

Lucy parou, como se medindo cuidadosamente as palavras.

— Se isso te deixa mais feliz, Suze, talvez um dia eu jogue a minha própria bombinha na mamãe e no papai. Minha vida pode parecer simples para você, mas isso não significa que eu seja simples.

A afirmação tinha sido feita de um jeito brincalhão, mas Suzanna, olhando para a jovem à sua frente, pensou na ambição furiosa da irmã, sempre ciosa da própria privacidade, sempre sem namorado. E, à medida que o germe de uma ideia se desenvolvia, pensou em como fora cega e egocêntrica.

Deslizou para fora da cama, agachou-se ao lado da irmã e despenteou o cabelo loiro curtinho dela.

— Bem, minha irmã pródiga — disse —, só jogue quando tiver certeza de que estou por perto para saborear a cena.

* * *

Ela encontrou o pai ao lado dos celeiros Philmore. Tinha feito a pé o percurso longo, subindo pela trilha equestre e passando pelo bosque Rowney, carregando a cesta que Vivi preparara e pretendia levar de carro para eles. Não tinha problema, dissera Suzanna, ela estava a fim do passeio. E caminhara pensativamente, sem fazer caso da chuva fina, consciente da intensificação resplandecente das cores outonais no terreno em volta.

Ouviu, antes de ver, o rangido e o solavanco do trator, o estalar de madeiras, e teve que fechar os olhos por um segundo: tais barulhos nem sempre significavam desastre. Depois de ter recuperado o fôlego, continuara andando, mais para perto da casa. E então, deparando-se com a cena, ficou parada à beira do que já tinha sido um pátio e observou o trator se chocando com a madeira podre, derrubando, em meio ao que ainda estava em pé, as construções centenárias quase em ruínas que, até mesmo para o agente do patrimônio que mais defendia o que era antigo, já não mereciam ser salvas.

Seu pai e seu irmão estavam do outro lado, fazendo gestos para os homens nos tratores, mas seu pai deixava de gesticular de vez em quando para falar com dois outros, um dos quais parecia estar encarregado das caçambas.

Quando Suzanna chegou, dois prédios já tinham ido abaixo, transformando-se de abrigo em escultura com uma rapidez quase aflitiva. No chão, com as madeiras enegrecidas se projetando como um derradeiro protesto obsceno, observou que, para estruturas tão grandes, tinham produzido uma quantidade surpreendentemente pequena de escombros.

Ben a vira e apontou para o pai, como quem faz uma pergunta, e ela fez que sim com a cabeça, observando o irmão se aproximando para interromper a conversa dele. Ben e ele tinham o mesmo andar rígido, ombros encurvados à frente, como se permanentemente preparados para travar uma batalha. Seu pai, inclinando o ouvido para o filho, terminou a conversa e, acompanhando a mão de Ben, apontou para ela. Ela ficou imóvel, sem querer jogar conversa fora. Finalmente, talvez sentindo sua reticência, o pai foi até ela, vestido com uma camisa de algodão fina que desde menina ela se lembrava de ver nele, alheio, como aparentemente sempre fora, ao clima.

— Almoço — disse ela, entregando a cesta. E depois, quando ele ia lhe agradecer, acrescentou: — Tem um minutinho?

Ele indicou o celeiro remanescente e passou alguns sanduíches para Ben no caminho.

Eles não tinham se visto nas vinte e quatro horas em que ela permanecera na casa. Ele estivera ao ar livre com a equipe da demolição, e ela passara quase o tempo todo no quarto, dormindo. O pai apontou para sacos velhos de fertilizante, puxando um para si enquanto ela se encostava com cautela no seu.

Houve uma pausa cheia de expectativa. Ela não tocou nas circunstâncias do seu nascimento, nem no fato de estar se separando Neil, embora soubesse que Vivi teria discutido os dois assuntos com o marido. Até onde Suzanna sabia, Vivi não escondia nada dele.

— Fica estranho, sem os celeiros do meio.

Ele ergueu os olhos para os buracos no telhado.

— Também acho.

— Quando você começa a obra das casas novas?

— Vai demorar um pouco. Vamos ter que nivelar o terreno primeiro, construir um novo sistema de drenagem, esse tipo de coisa. As que ainda estão em pé terão quase todas as madeiras substituídas. — Ele lhe ofereceu um sanduíche, e ela fez que não com a cabeça. — É uma pena — disse ele. — Tínhamos pensado inicialmente que podíamos converter tudo. Mas às vezes a gente tem que aceitar que vai ter que começar do zero.

Sentaram-se lado a lado, o pai parando de comer o sanduíche para beber do cantil de chá. Ela se pegou olhando para as mãos dele. Lembrou-se de Neil lhe dizer que, quando o pai dele morreu, ele se dera conta, chocado, de que nunca mais tornaria a ver as mãos do pai. Tão familiares, tão corriqueiras, no entanto desaparecidas de forma tão chocante.

Ela olhou para as suas. Não precisava ver um retrato para saber que eram de sua mãe.

Colocou-as entre os joelhos e olhou para onde os homens tinham parado para o almoço. Depois, finalmente, virou-se para o pai.

— Eu queria perguntar uma coisa a você. — Suas palmas faziam pressão uma contra a outra, a pele surpreendentemente fria. — Eu queria saber se você se importaria se eu pegasse uma parte do meu quinhão do dinheiro da propriedade agora.

Suzanna viu, pelo jeito como o pai olhou para ela, que ele não sabia o que vinha pela frente. Que talvez ele estivesse esperando por algo pior. Os olhos dele estavam interrogativos e aliviados, verificando se era isso que ela queria. Ela entendeu que, ao perguntar, dissera-lhe o que agora achava aceitável.

— Você está precisando disso agora?

Ela fez que sim.

— Ben vai fazer coisas boas com a propriedade. Está... no sangue dele.

Houve um breve silêncio enquanto as palavras se assentavam entre eles. Sem dizer nada, ele pegou um talão de cheque do bolso traseiro e rabiscou um número, depois entregou-o a ela.

Suzanna ficou olhando para o cheque.

— Isso é muito.

— É seu direito. — Ele fez uma pausa. — Foi o que gastamos pagando a universidade de Lucy e de Ben.

Ele tinha terminado o sanduíche. Amassou o papel impermeável que o embrulhara e colocou-o de volta na cesta.

— É bom você saber — disse ela — que eu vou para o exterior com esse dinheiro. Abrir as asas. — Ela estava consciente do silêncio dele, dos silêncios com que ele falara com ela a vida toda. — Lucy comprou uma passagem para mim. Vou para a Austrália. Vou ficar com uma amiga dela por uns tempos, só até eu me familiarizar com o ambiente.

O pai mudou de posição.

— Não fiz muita coisa com a minha vida, pai.

— Você é igualzinha a ela — disse ele.

Ela se sentiu ferver.

— Eu não sou uma desertora, pai. Só estou tentando fazer o que é certo para todo mundo.

Ele balançou a cabeça, e Suzanna se deu conta de que o olhar em seu rosto não tinha sido de condenação.

— Eu não quis dizer isso — falou ele lentamente. — Você... você precisa começar. Encontrar o seu jeito de fazer coisas. — Ele balançou a cabeça, como que se tranquilizando. — Tem certeza de que esse dinheiro vai bastar?

— Nossa, tenho. Fazer um mochilão é bem barato, pelo que Lucy diz. Aliás, estou esperando não gastar muito. Vou deixar a maior parte do dinheiro aqui no banco.

— Ótimo.

— E o padre Lenny vai liquidar o estoque remanescente para mim. Para que entre um pouco mais, se Deus quiser.

— Ele consegue?

— Acho que sim. Todo mundo me diz que não seria possível me livrar de tudo sem ele.

Eles observaram enquanto Ben andava entre os dois tratores, aparentemente dando instruções, se interrompendo uma vez para atender o celular e rir com estardalhaço.

O pai olhou para ele um instante, depois virou-se para ela.

— Sei que as coisas não foram fáceis entre nós, Suzanna, mas quero, sim, que você saiba de uma coisa. — Os nós dos dedos dele estavam brancos em volta do cantil. — Eu nunca fiz o exame, sabe... naquela época não existia DNA e essas coisas... mas eu soube desde o início que você era minha.

Mesmo no celeiro escurecido, Suzanna conseguiu ver a intensidade do olhar dele, ouvir o amor no que ele estava dizendo. Percebeu que até ele era obstinado em sua relação com o passado, convicções profundamente arraigadas sobre sangue e herança. Havia maneiras de ter certeza em relação a essas coisas. Mas, de repente, ela entendeu que eram irrelevantes.

— Está bem, pai — disse.

Ficaram em silêncio um instante, conscientes de uma distância aumentada por anos de palavras duras e equívocos, do fantasma que sempre se colocaria entre eles.

— Talvez a gente faça uma visita. Quando você estiver na Austrália — disse ele, se chegando mais, já quase com o braço encostando no dela. — Sua mãe sempre gostou de viajar. E eu não gostaria de ficar muito tempo... sem te ver, quero dizer.

— Não — disse Suzanna, deixando o calor dele se infiltrar nela. — Nem eu.

* * *

Ela encontrou Vivi na galeria de quadros, olhando para o retrato.

— Você vai para a sua loja?

Minha loja, pensou Suzanna. Esta já não parecia a expressão correta para descrevê-la.

— Vou pegar o resto das minhas roupas na casa do Neil primeiro. Acho que é mais justo com ele fazer isso enquanto ele não está lá.

— Só roupas?

— Alguns livros. Minhas joias. Vou deixar o resto. — Ela franziu o cenho. — Você vai ficar de olho nele enquanto eu estiver fora?

Vivi fez que sim com a cabeça.

Talvez ela já tivesse decidido isso, pensou Suzanna.

— Não sou completamente desalmada. Eu gosto dele, sim, você sabe — disse.

Teria gostado de acrescentar: quero que ele seja feliz. Mas achava bom não estar por ali para ver isso. O altruísmo não chegava a tanto.

— Você vai ser feliz?

Suzanna pensou na Austrália, um continente desconhecido do outro lado do mundo. Pensou em seu próprio mundinho, naquilo que, um dia, fora a sua loja. Em Alejandro.

— Mais feliz do que fui — disse, incapaz de explicar bem o que sentia. — Definitivamente mais feliz.

— É um começo.

— Acho que é.

Suzanna se adiantou, e elas ficaram lado a lado, olhando para o quadro de moldura dourada.

— Ela devia ficar aqui — disse Vivi. — Se você concordar, Suzanna, querida, é provável que eu fique na parede em frente. Seu pai, velho bobo, acha que eu também devia estar aqui em cima.

Suzanna passou o braço em volta da cintura de Vivi.

— Sabe de uma coisa? Talvez deva ser só você. Talvez do outro jeito fique meio estranho. E aquela moldura dela não combina muito com o que tem em volta.

— Ah, não, querida. Athene tem direito. Ela merece ter o lugar dela também.

Suzanna ficou paralisada por um instante pelos olhos faiscantes da mulher no retrato.

— Você sempre foi muito boa — disse —, tomando conta de todos nós.

— Isso não tem nada a ver com bondade — disse Vivi. — É a natureza da gente... a minha natureza.

Suzanna se virou do retrato para a mulher que a amou, que sempre a amara.

— Obrigada, mãe — disse.

— Ah, por sinal — disse Vivi, quando se encaminhavam para as escadas —, chegou uma coisa para você enquanto você não estava. Foi entregue por um velho extraordinário. Ficou sorrindo para mim como se me conhecesse.

— Um velho?

Vivi estava examinando a madeira de uma mesa, esfregando o tampo com a ponta do dedo.

— Ah, sim. Com mais de sessenta anos. Um sujeito de bigode com aspecto estrangeiro. Nunca o vi na cidade.

— O que é?

— Ele não quis me explicar de quem vinha. Mas é uma planta. Roscoea purpurea, acho que esse é o nome.

Suzanna ficou olhando para a mãe.

— Uma planta? Tem certeza que é para mim?

— Talvez seja de um dos seus clientes. Enfim, está na despensa. — Ela desceu as escadas, depois falou por cima do ombro: — Conhecíamos essa planta aqui na cidade como olho de pavão. Não era uma das minhas preferidas, devo confessar. Dou para Rosemary se você não quiser.

Com um ruído que parecia um grito suprimido, Suzanna quase empurrou a mãe ao passar e desceu correndo as escadas.