A Loja dos Sonhos
Vinte
A construtora levou dois dias escorando a frente da loja para a equipe de inspeção fazer a avaliação oficial do estrago, e mais três para começar a obra de reconstrução. (A companhia de seguro não discutira: ao que parecia, em casos de grave dano estrutural, aceitava-se que os reparos fossem feitos o mais depressa possível.) Embora a moldura da porta tivesse sido gravemente danificada, com a alvenaria em volta dela e das janelas parcialmente destruída, a avaliação inicial mais severa envolvendo vigas de aço e vários meses de fechamento provara ser excessivamente pessimistas. Dois dias depois, Suzanna foi autorizada a entrar para começar o trabalhoso processo de limpeza.
Durante este tempo, uma procissão vacilante e irregular de gente viera trazendo flores, pequenos buquês e ramalhetes embrulhados em celofane, que eram colocados do lado de fora da fita da polícia. Muitos acharam mais fácil marcar o súbito fim de Jessie com um tributo floral do que com o recurso mais complicado de palavras. A princípio, foram só dois, amarrados tristemente no poste de luz no dia seguinte ao acidente, as mensagens fazendo as pessoas que paravam para lê-las se entreolhar e murmurar tristes a respeito da injustiça daquilo tudo. E então, quando a notícia se espalhou pela cidade, as flores vieram em quantidades maiores. O florista local esforçou-se para dar conta, e elas formaram um buquê, depois um tapete na frente da loja.
Foi como se, pensou Suzanna, sua dor tivesse se espelhado na da cidade. O clima voltara ser de céu azul e temperaturas amenas, a quermesse fizera sua visita bianual ao campo municipal, mas não havia alegria na atmosfera de Dere Hampton, não havia prazer na agitação da praça do mercado. Um vilarejo sentia ondulações, que talvez não fossem notadas na cidade, como uma onda de maré. E Jessie, pelo visto, conhecia muita gente, fazendo com que o choque de sua morte não passasse rapidamente. O jornal local colocou a matéria na primeira página, tomando o cuidado de só dizer que um conterrâneo de vinte e oito anos estava sendo interrogado pela polícia. Mas todo mundo sabia: quem a conhecia e quem dizia conhecê-la especulava sobre uma relação que agora virara propriedade comum. A diretora da escola de Emma Carter apelara por duas vezes aos repórteres para que deixassem as instalações. Suzanna examinara os relatórios e observara com indiferença que seu pai ficaria feliz por só terem se referido a ela como Peacock.
Naquela primeira semana, ela fora duas vezes à loja, uma na companhia do inspetor, que queria conversar sobre arranjos de segurança, e outra com Neil, que observara repetidamente que aquilo era “inacreditável, simplesmente inacreditável”. Em determinado momento, ele tentara lhe falar sobre as implicações financeiras para a loja e ela gritara obscenidades até ele sair da sala, a mão como um escudo sobre a cabeça. Ela sabia que a reação tinha a ver com culpa. De que tipo específico, não podia dizer. Agora recebera as chaves e fora autorizada a fazer a limpeza, até mesmo a reinaugurar. Mas, parada na porta de moldura de aço, ladeada pelas janelas cobertas com tapumes e com a placa que Neil fizera para ela, declarando que a loja estava “aberta para negócios”, não sabia ao certo por onde começar. Era como se isso fosse um trabalho para Jessie, como se a única forma de se aproximar daquilo fosse com ela, rindo de banalidades, empunhando juntas vassouras e pás.
Suzanna abaixou-se para pegar sua placa danificada, que alguém encostara com cuidado na porta. Segurou-a um instante. O Empório Peacock era a sua loja. Só sua. A extrema dificuldade da tarefa pela frente a esmagou e seu rosto se franziu.
Atrás dela, alguém tossiu.
Era Arturro, o corpo bloqueando a luz.
— Achei que você poderia precisar de ajuda.
Ele segurava uma caixa de ferramentas na mão e trazia uma cesta embaixo do braço, contendo o que pareciam sanduíches e várias garrafas de refrigerante. Ela se sentiu desabar um pouco, imaginou por um instante o que seria deixar-se envolver por aqueles braços quentes enormes, soluçar naquele avental, ainda impregnado de aromas de queijo e café da loja dele. Ter, só por um momento, o conforto daquela solidez.
— Acho que não consigo fazer isso — murmurou.
— Temos que fazer — disse ele. — As pessoas vão precisar de algum lugar para vir.
Ela já tinha entrado, sem registrar o que ele dissera. Em algumas horas, entendeu. Apesar do aspecto desagradável, apesar dos obstáculos de arranjos florais e cones da polícia do lado de fora, a loja ficou mais movimentada do que nunca. Não havendo outro lugar, tornara-se o ponto focal para aqueles que haviam conhecido Jessie, aqueles que queriam dividir seus sentimentos pela perda dela. As pessoas vinham para tomar café, para chorar lágrimas disfarçadas diante dos vestígios da vitrine que ela montara, para deixar presentes para a família dela e, em alguns casos menos altruísticos, simplesmente para olhar.
Suzanna não tinha escolha senão deixar.
Arturro posicionara-se atrás do balcão e encarregara-se de fazer o café, aparentemente tentando evitar conversas diretas. Nas poucas ocasiões em que as pessoas tinham falado com ele, ela o observara ficar cada vez mais desconfortável, piscando com força e se ocupando com a máquina. Suzanna, com olhos vidrados e a sensação esquisita de operar de dentro de uma bolha, limpava, respondia a perguntas, dizia o quanto sentia, recolhia os cartões em tons pastel e os bichos de pelúcia destinados a Emma e deixava as pessoas que pareciam não enxergar a natureza caótica do ambiente satisfazerem uma necessidade incontrolável de falar, com vozes engasgadas, sobre a bondade, a honestidade de Jessie em tudo, e sobre Jason, com sussurros ferozes, acusatórios. Falavam num tom especulativo sobre Alejandro: tinham ouvido como ele havia passado vinte minutos tentando salvá-la, como fora encontrado, coberto de sangue, espremido com metade do corpo embaixo da caminhonete, enquanto tentava, em vão, ressuscitá-la. Quem morava na vizinhança falava de como ele tinha sido apartado, agitando os punhos e gritando de um jeito incoerente em espanhol, de um Jason meio petrificado, ao se dar conta de que seu esforço era em vão. As pessoas se sentavam, choravam e conversaram — do mesmo jeito que costumavam fazer com Jessie.
No fim do dia, Suzanna se sentia exausta. Estava atirada num banco enquanto Arturro andava em volta dela, arrumando cadeiras, colocando as últimas prateleiras no lugar.
— Você devia fechar agora — disse ele, deslizando o martelo para dentro da caixa de ferramentas. — Você já fez o suficiente. E sabe que amanhã vai ter mais.
Pela porta aberta, as flores embrulhadas em celofane brilhavam à luz do sol da tarde, algumas suando ali dentro. Ela se perguntou se devia tirá-las da embalagem para deixá-las respirar. Isso de certa forma parecia uma intrusão.
— Quer que eu venha de novo?
Havia algo na voz dele... A mente de Suzanna se desanuviou por um instante e ela se virou para ele, a cara angustiada.
— Ai, meu Deus, Arturro, tenho uma coisa horrível para lhe contar.
Ele estava limpando as mãos num pano de prato. “O que podia ser mais horrível?”, dizia sua expressão.
— A Jess... a Jess e eu — corrigiu-se ela —, nós íamos lhe contar... mas... — Desejou estar em qualquer lugar menos ali. — Os chocolates, os que deixaram Liliane tão perturbada. Os que te levaram a demitir os rapazes. Foi a gente que mandou. Jessie e eu mandamos para a Liliane para ela pensar que eram da sua parte. Queríamos aproximar vocês, sabe. Jess... ela achava... ela dizia que vocês eram feitos um para o outro... — Parecia quase ridículo agora, como se isso tivesse acontecido em outra vida, com outras pessoas, como se a frivolidade daquilo fizesse parte de outra existência. — Sinto muito. A nossa intenção era boa, de verdade. Sei que o tiro meio que saiu pela culatra, mas, por favor, não pense mal dela. Ela só achou que vocês seriam felizes juntos. Ela ia lhe contar a verdade, mas... mas alguma coisa aconteceu e... bem, agora é comigo. Sei que foi uma ideia idiota e insensata, mas eu a encorajei. Se quiser culpar alguém, culpe a mim.
Ela não ousou olhar para ele, até se perguntou, enquanto falava, se devia ter lhe contado. Mas Arturro fora muito bom, muito generoso. Ela não poderia ter sobrevivido ao dia sem ele. O mínimo que ele merecia era a verdade.
Esperou, temerosa, pela lendária explosão que a Sra. Creek descrevera, mas Arturro continuou a guardar as últimas ferramentas na caixa, e tampou-a. Depois pôs a mão no ombro de Suzanna.
— Vou dizer a Liliane — falou, engolindo em seco. Deu-lhe uma palmadinha, e então encaminhou-se pesadamente para a porta e abriu-a. — Até amanhã, Suzanna.
Ela fechou a loja às quatro e meia, depois foi a pé para casa, deitou-se na cama toda vestida e dormiu até as oito do dia seguinte.
Alejandro não fora lá. Ela ficou feliz. Havia um limite para o que ela era capaz de enfrentar em um único dia.
* * *
O funeral era para ser em St. Bede, a igreja católica no lado leste da praça. Inicialmente, Cath Carter dissera ao padre Lenny que queria uma cerimônia privada, não queria curiosos especulando sobre a morte prematura da filha, com a investigação da polícia ainda em andamento. Mas o padre Lenny passara dias lhe falando delicadamente da força do sentimento na cidadezinha, das numerosas pessoas que lhe perguntaram se podiam render suas homenagens. De como isso ajudaria a pequena Emma, nas circunstâncias, a ver quão amada era a mãe dela.
Suzanna sentou-se diante da penteadeira, amarrando o cabelo preto num coque firme. O padre Lenny dissera que a cerimônia seria uma celebração da vida de Jessie, que não queria que fosse uma ocasião sombria. Suzanna não se sentia em condições de celebrar e isso se refletia em sua aparência. Sua mãe, que dissera que iria com seu pai, tanto por Suzanna quanto por Jessie, emprestara a ela um chapéu preto.
— Acho que é importante você fazer o que considera correto — disse, pousando a mão no rosto de Suzanna —, mas o formal nunca é inadequado.
— Você disse que tinha me comprado uma gravata preta? — Neil se abaixou, já calejado, ao entrar pela porta baixa. — Não estou conseguindo achar.
— Minha bolsa — disse Suzanna, enfiando os brincos, olhando seu reflexo. Normalmente, não usava brinco, perguntou-se se sugeririam uma alegria inadequada.
Neil estava no meio do quarto, como se na esperança de que a bolsa pulasse em cima dele.
— No patamar. — Ela mais o ouviu do que o viu saindo do quarto, pisando nas tábuas do assoalho rangentes do topo da escada.
— Dia lindo para isso, quero dizer, não um dia lindo propriamente dito — corrigiu-se ele —, mas não há nada pior do que um enterro quando chove a cântaros. Não pareceria certo para Jessie, de alguma maneira.
Suzanna fechou os olhos. Toda vez que pensava em chuva torrencial agora, associava-a a imagens de caminhonetes derrapando e freios chiando, de estrondo de vidro se estilhaçando. Alejandro tinha dito que não ouvira nenhum grito, mas, na imaginação de Suzanna, Jessie tinha contemplado sua morte iminente e...
— Achei. Ah, nossa, olha... acho que merecia uma repassada rápida antes de eu colocá-la.
Ela afastou a imagem e abriu a gaveta para pegar o relógio. Ouviu Neil cantarolando consigo mesmo, resmungando alguma coisa sobre a tábua de passar, e depois um breve silêncio.
— O que é isso?
Ela torceu para que Jessie não tivesse sentido nada. Alejandro dissera que não via como, que acreditava que ela já estava morta mesmo quando ele passou por cima da madeira e do vidro para chegar a ela.
Neil estava ao seu lado.
— O que é isso? — ele tornou a dizer. Estava com uma expressão diferente no rosto.
Ela se virou no banco e olhou para o cartão com o lembrete da consulta médica que ele estendia à frente, com as palavras: “Clínica de Planejamento Familiar”. Ela sabia que seu rosto tinha um ar resignado, culpado, mas, de certa forma, não conseguia fazer uma expressão que se provasse mais satisfatória.
— Eu ia te contar.
Ele não disse nada, limitou-se a ficar com o cartão estendido.
— Marquei uma consulta.
O cartão era rosa, de repente uma cor inadequada.
— Para...
— Para botar um DIU. Sinto muito.
— Um DIU?
Ela assentiu, constrangida.
— Um DIU?
— Olha, eu ainda não fui. Com o que aconteceu com Jess e tudo, acabei faltando à consulta
— Mas você vai. — A voz dele era desanimada.
— Vou — disse ela, e ergueu os olhos. Desviou a vista quando encontrou os dele. — Vou, sim. Olha, eu não estou pronta, Neil. Pensei que estivesse, mas não estou. Tem muita coisa acontecendo. E preciso resolver algumas questões primeiro.
— Você precisa resolver algumas questões?
— Sim. Com meu pai. Com minha mãe... minha mãe biológica, quero dizer.
— Você precisa resolver umas coisas com a sua mãe biológica.
— Sim.
— E quanto tempo acha que isso vai levar?
— O quê?
Ele estava furioso, ela percebeu. Virou-se para encará-la com uma atenção doentia.
— Quanto. Tempo. Acha. Que. Isso. Vai. Levar? — O tom dele era sarcástico.
— Como vou saber? O tempo necessário.
— O tempo necessário. Nossa, eu já devia saber.
Ele andou de um lado para o outro no quarto, como um detetive de um programa de televisão explicando a gênese de um crime antigo.
— O quê?
— A única coisa que eu queria. A única coisa em relação à qual achei que estivéssemos de acordo. E, ah, olha, de repente, depois de conseguir tudo que quer, Suzanna mudou de ideia.
— Eu não mudei de ideia.
— Não? Não? Então o que é isso, botar um DIU? Porque com certeza não está indicado na lista de coisas apropriadas, assim como ostras e champanhe, para quem quer engravidar.
— Eu não mudei de ideia.
— Então que diabo é isso?
— Não grite comigo. Olha, me desculpe, ok? Me desculpe, Neil. Não posso engravidar agora. Não posso engravidar agora.
— É óbvio que não pode...
— Não faça isso, está bem?
— O quê? Que diabo estou fazendo?
— Me intimidando. Estou prestes a enterrar a minha melhor amiga, certo? Estou confusa...
— Sua melhor amiga? Não tem nem seis meses que você a conheceu.
— Agora tem limite de tempo para amizade?
— Você nem tinha certeza a respeito dela quando ela começou na loja. Achava que estava se aproveitando de você.
Suzanna se levantou e foi para a porta, empurrando-o da sua frente.
— Não acredito que a gente esteja tendo essa conversa.
— Não, Suzanna, não acredito que, justo quando pensei que finalmente estivéssemos nos entendendo, você arranjou um jeito de sabotar tudo de novo. Quer saber? Acho que tem uma outra coisa acontecendo aqui. Uma sobre a qual você não está sendo franca comigo.
— Ah, não seja ridículo.
— Ridículo? Então o que é para eu dizer, Suzanna? Ah, você não quer um bebê afinal. Não se preocupe, querida, eu simplesmente vou suspender os meus sentimentos por um tempo... como sempre faço.
— Não comece, Neil. Não agora. — Ela esticou o braço para pegar o casaco atrás dele e aconchegou-se no agasalho energicamente, sabendo que sentiria muito calor mais tarde.
Ele estava parado, e recusou-se a sair da frente quando ela se adiantou.
— Então, quando é a hora certa, Suzanna? Quando essa decisão deixa de ser só sua, hein? Quando os meus sentimentos finalmente têm alguma chance?
— Por favor, Neil...
— Eu não sou santo, Suzanna. Já tentei ser paciente com você, tentei ser compreensivo, mas estou perdido. De verdade. Simplesmente não vejo como seguimos em frente daqui...
Ela ficou olhando para o rosto confuso do marido. Adiantou-se, pôs a mão em sua face, um eco inconsciente do gesto de sua mãe.
— Olha, conversamos sobre isso depois do funeral, certo? Prometo...
Ele retirou a mão dela e foi abrir a porta quando o táxi chegou, buzinando para se anunciar.
— Tanto faz — disse ele. Não olhou para trás.
* * *
O consenso é que foi um funeral horrível. Não que o padre Lenny não tivesse feito um esforço com o seu elogio fúnebre — que foi lindo e apropriado e inteligente e com humor suficiente para despertar um ou outro sorriso corajoso entre os enlutados — ou que a igreja não estivesse linda, com as senhoras do supermercado tendo feito tamanho esforço para decorá-la com flores, permitindo que um observador de fora pensasse que um casamento estava prestes a ser celebrado ali. Não era que o sol não brilhasse num céu azul infinito, como se para oferecer a esperança de que o lugar para onde Jessie tinha ido fosse sem dúvida maravilhoso, claro, luminoso e cheio de canto de pássaros — todas as coisas que se poderia esperar de um paraíso.
Porém, por mais que se disfarçasse, havia um sentimento de algo muito terrível, de muito errado em enterrá-la. No fato de, todos disseram depois, alguém como ela ter partido quando havia tantos menos merecedores da vida. Na pequena figura que estava imóvel no banco da frente, segurando a mão da avó, e no lugar vazio ao seu lado, o que significava que ela era efetivamente órfã ainda que só um dos pais tivesse morrido.
Suzanna fora convidada por Cath a ir à beira do túmulo. Respondera que se sentiria honrada, e ocupara seu lugar ao lado dos parentes distantes de Jessie e dos mais antigos amigos de escola, tentando não se sentir uma impostora, tentando não pensar em onde Jessie encontrara a morte.
Ele nem tentara ir, pelo visto. O padre Lenny lhe contara no dia anterior. Fora ver o rapaz no hospital. Embora isso fosse contra todos os seus instintos, disse ele, seu trabalho era confortar o pecador. (E não era como se mais alguém fosse visitá-lo. Isso fora tudo que ele conseguiu fazer para impedir os vizinhos de Jessie de se reunirem para linchá-lo.)
Na verdade, o padre Lenny ficara abalado com a aparência do rapaz. Aquele rosto, suturado e inchado depois de ele ter sido atirado pelo para-brisa, a pele contundida e roxa, ferimentos que se assemelhavam, de forma desconfortável, aos de Jessie em semanas anteriores. Ele se negara a dizer qualquer coisa além de que a amava e que a caminhonete não quis parar. O médico disse não ter certeza se o estado mental dele lhe permitia ser capaz de assimilar o que havia feito.
— Teria sido melhor para todo mundo se ele tivesse morrido também — dissera o padre Lenny, a voz incomumente amarga.
A liturgia familiar do pó ao pó, das cinzas às cinzas, terminara. Suzanna viu Emma com as mãos da avó nos ombros, amparando-a e aconchegando-a. Perguntou-se quem ganhava mais conforto com aquele contato físico aparentemente interminável. Pensou no primeiro dia em que reabrira a loja, quando a menina e a avó haviam ido e ficado na frente da loja. Elas não fizeram nada, tinham recusado o seu convite para entrar. Limitaram-se a ficar ali, de mãos dadas, os rostos cinzentos, os olhos arregalados absorvendo a fachada destruída.
Emma vai crescer sem mãe, pensou. Como eu cresci. E depois, olhando para Vivi, que estava parada ao lado do carro, sentiu a costumeira pontada de culpa por ser capaz de pensar assim.
Foi quando se afastavam da sepultura que ela o viu. Parado um pouco mais para trás, depois do padre Lenny, afastando-se de Cath, com quem evidentemente andara trocando algumas palavras em voz baixa. Cath segurava suas mãos, balançando a cabeça enquanto ouvia, o rosto dignificado e curiosamente compreensivo na dor. Ele ergueu os olhos quando Suzanna olhou, e, por um momento, eles se encararam, trocando naqueles breves segundos toda a dor, a culpa, o choque... e a alegria secreta da semana anterior. Ela se adiantou, como se para ir até ele. Parou quando sentiu uma mão no ombro.
— Seus pais nos convidaram para ir até a casa deles, Suze. — Era Neil. Ela ergueu os olhos para o marido, como se estivesse tentando registrar quem ele era. — Acho que seria uma boa ideia.
Ela se obrigou a continuar olhando para ele, esforçou-se para se controlar.
— Para a casa da minha mãe? — E depois, quando assimilou as palavras dele: — Ah, não, Neil. Lá, não. Acho que não consigo enfrentar isso hoje.
Neil já tinha virado as costas.
— Estou indo. Você pode fazer o que quiser.
— Está indo?
Ele continuou andando, rígido naquele terno preto, deixando-a parada na relva.
— É um dia para a família — disse por cima do ombro, alto apenas o suficiente para ela ouvir. — Seus pais foram legais o bastante para te apoiar hoje. E, para ser franco, não acho que seria muito bom você e eu ficarmos sozinhos no momento. Você acha?
Alejandro caminhara de uma ponta a outra do cemitério com Cath e Emma. Suzanna se virara justo a tempo de vê-lo alcançar os portões. Quando chegou lá, ele se agachou para falar com a menina e pôs uma coisa na mão dela. Quando a criança saiu, ele talvez tivesse feito um aceno de cabeça para Suzanna. Daquela distância, era difícil ter certeza.
* * *
— Quase seiscentas pessoas vieram quando seu pai morreu. A igreja estava tão cheia que tiveram que acomodar gente lá fora, na grama. — Rosemary aceitou uma segunda xícara de chá. Dirigia-se ao filho, que estava recostado na cadeira. — Sempre achei que devíamos ter usado uma catedral. Acho que, se houvesse mais espaço, haveria mais gente ainda.
Vivi apertou o braço de Suzanna ao sentar-se ao lado da filha no sofá. Ela de fato estava terrivelmente pálida.
— Bolo ótimo, Sra. Cameron — disse. — Molhadinho. Leva raspas de limão?
— O arcebispo se ofereceu para fazer o sermão. Lembra, Douglas? Aquele homem horroroso que ciciava.
Douglas assentiu.
— E quatro ovos — disse a Sra. Cameron. — De galinha criada solta. É o que dá o amarelo.
— Achei que seu pai iria preferir o vigário. Ele era um grande amigo da família, entende. E Cyril nunca foi de pompa e circunstância, apesar da posição que ocupava. — Ela balançou a cabeça, como se confirmando isso para si mesma, depois olhou para a Sra. Cameron enquanto esta levava o bule de chá para ser reabastecido.
— Não gostei daquele presunto nos sanduíches. Não era de pernil.
— Era, Rosemary — disse Vivi, com uma voz conciliadora. — Comprei um inteiro no açougue.
— O quê?
— Era presunto de verdade — disse ela, a voz elevada.
— Tinha gosto de coisa reconstituída. Pedaços de carne descartados na fábrica e colados sabe-se lá com quê.
— Eu trinchei pessoalmente do osso, Sra. Fairley-Hulme. — A Sra. Cameron virou-se da porta, com uma piscadela para Vivi. — Da próxima vez, trincho na sua frente, se quiser.
— Eu não confiaria em você perto de mim com um trinchante — disse Rosemary, fungando. — Já ouvi sobre vocês, cuidadoras. Depois vão me fazer mudar meu testamento enquanto eu estiver dormindo...
— Rosemary! — Vivi quase cuspiu o chá.
— ... e aí vão me fazer sofrer um suposto “acidente”, como a amiga da Suzanna.
Houve um silêncio perplexo na sala enquanto os presentes tentavam decidir qual das afirmações de Rosemary tinha sido mais ofensiva. Tranquilizados pela gargalhada espontânea da Sra. Cameron entrando na cozinha, todos os olhares tinham caído sobre Suzanna, mas ela pareceu não estar ouvindo. Encarava o chão, presa na mesma infelicidade que seu marido calado.
— Mãe, acho que isso não é adequado... — Douglas inclinou-se à frente.
— Tenho oitenta e seis anos, digo o que quero — falou Rosemary, acomodando-se de novo na cadeira. — Até onde vejo, é a única vantagem de ter tanta idade.
— Rosemary — disse Vivi delicadamente —, por favor... a amiga da Suzanna acabou de morrer.
— E eu vou ser a próxima a ir, portanto, acho que isso me dá mais direito que a maioria das pessoas de falar de morte. — Rosemary pôs as mãos no colo, depois olhou em volta para os rostos mudos à sua frente. — Morte — disse, afinal. — Morte. Morte. Morte. Morte. Morte. Pronto, viu?
— Ah, pelo amor de Deus — disse Douglas, levantando-se da cadeira.
— O quê? — Ela ergueu os olhos para o filho, a expressão desafiadora sob as trilhas inflexíveis de veias e rugas. — Morte. Morte. Morte. — Terminava cada palavra bruscamente, fechando a boca tal qual uma tartaruga zangada.
— Hoje, não, mãe. Por favor. — Ele se aproximou dela. — Quer que a Sra. Cameron leve você para o jardim? Para ver as flores?
— O que você disse? Não quero aquela mulher perto de mim — disse ela.
— Acho que um pouco de ar puro seria ideal — disse Douglas. — Sra. Cameron!
— Não quero ir para o jardim — reclamou Rosemary. — Douglas, não me bote no jardim.
Vivi virou-se para a filha, ainda consentindo languidamente em que lhe segurassem o braço.
— Querida, você está bem? Anda muito calada desde que voltamos.
— Estou bem, mãe — disse ela apaticamente.
Vivi olhou para Neil.
— Mais um pouco de chá, Neil? — perguntou, esperançosa. — Mais um sanduíche, talvez? É de presunto com osso mesmo. Eu não compraria aquela coisa quadrada.
Ele pelo menos tentou dar um sorriso.
— Estou bem, obrigado, Vivi.
Lá fora, eles ouviam os protestos furiosos de Rosemary por estar sendo levada na cadeira de rodas para passear em volta do jardim do pátio pontuados pelas exclamações alegremente tranquilas da Sra. Cameron.
— Desculpem-me — disse Douglas, voltando para a sala, limpando a cabeça. — Ela está meio... difícil agora. Não é a mesma desde a queda.
— Acho que ela simplesmente fala a verdade — disse Neil.
Vivi podia ter jurado que ele lançou um olhar significativo para Suzanna, mas o genro se virou tão depressa que não deu para ela ter certeza. Olhou para Douglas, tentando dar a entender que não sabia ao certo o que fazer em seguida. Ele foi até o sofá, pegou a mão dela.
— Aliás — disse, pigarreando —, chamamos você aqui por uma razão, Suzanna.
— Qual?
— Sei que foi um dia muito ruim para você. Sua mãe e eu... nós queríamos te mostrar uma coisa.
Vivi sentiu uma onda de esperança. Pegou a mão da filha e apertou-a, depois começou a tirar do colo a xícara vazia com o pires.
Suzanna olhou para Neil, depois para seus pais. Deixou-se ser levada do sofá, como uma sonâmbula. Vivi, consciente de que a parte de Neil nisso era importante, passou o braço em volta da cintura do genro, desejando ver Suzanna fazer o mesmo de vez em quando.
— Para o andar de cima — disse Douglas, indicando-lhes com um gesto.
Subiram em silêncio para a galeria. Pelas janelas, era possível que Vivi distinguisse com nitidez Rosemary balançando a cabeça quando a Sra. Cameron virou na direção de um canteiro.
— Estamos pensando em colocar lâmpadas novas aqui em cima, não é mesmo, querida? — A voz de Douglas vinha da frente dela. — Alegrar um pouco esse andar. Sempre foi meio triste — disse ele a Neil.
Eles pararam no alto das escadas e ficaram reunidos, Suzanna com um ar pouco receptivo e Neil olhando para a cara de Vivi à procura de alguma pista.
— O quê? — disse Suzanna, por fim, num fio de voz.
Douglas olhou para a filha e sorriu.
— O quê? — tornou ela a perguntar.
Ele apontou para a parede do fundo. E foi então que Suzanna viu.
Os olhos de Vivi não a deixaram enquanto ela estava imóvel e olhava o quadro a óleo da mãe, intacto apesar do atrito com Rosemary, agora excessivamente iluminado por uma estreita arandela de latão. O perfil fino de Suzanna, tão parecido com o de Athene, estava tão imóvel e branco quanto o de uma estátua grega. Seu cabelo, puxado para trás, fez Vivi contrair o rosto. Mesmo depois desses anos todos. Ela se lembrou das coisas boas que tinha, especialmente as mais recentes. Isso é por Suzanna, disse a si mesma. Pela felicidade de Suzanna.
Sentiu Douglas ao seu lado, o braço deslizando em volta de seus ombros, e esticou os dedos para os dele, extraindo conforto do gesto. Era o certo. O que quer que Rosemary dissesse, era o certo.
Mas, quando Suzanna virou-se para eles, estava rubra, com o olhar furioso.
— E isso... isso é para fazer tudo ficar bem?
Vivi assimilou a boca contraída de Suzanna, o eco da pior parte, aquela mais prejudicada de Athene. E percebeu, tarde demais, que a mágoa ia muito mais fundo que a colocação de um quadro podia alcançar.
— Nós apenas achamos... — começou Douglas, a confiança habitual abandonando-o. — Achamos que isso podia fazer você se sentir melhor.
Os olhos de Neil moviam-se entre os três, sua expressão anterior substituída por algo menos certo.
— Sentir-me melhor? — perguntou Suzanna.
— Ver o quadro aqui, quero dizer — continuou Douglas.
Vivi estendeu a mão para ela.
— Pensamos que seria uma boa lembrança...
A voz de Suzanna atravessou a galeria silenciosa.
— De outra pessoa cuja morte, sem querer, eu causei?
Douglas estremeceu, e Vivi segurou-o com mais força.
— Você não...
— Ou, que tal, eu superei o que aconteceu com ela portanto vou superar o que aconteceu com Jess também? É isso?
A mão de Vivi pressionava a boca.
— Não, não, querida.
— Ou até “vamos fazer uma coisa realmente sem sentido para compensar o fato de não acharmos que Suzanna valha mais a pena que o irmão caçula dela”.
Douglas tinha se adiantado.
— Suzanna, você...
— Eu não posso ficar aqui — disse Suzanna e, as lágrimas brilhando nos olhos, dirigiu-se para a escada empurrando-os da sua frente. Após uma fração de segundo de hesitação, Neil foi atrás dela.
— Me solte! — gritou ela, quando ele a segurou no meio da escada. — Me solte! — A ferocidade em suas palavras o fez recuar.
Não era sempre que Vivi se sentia verdadeiramente solidária com a sogra, mas, consciente da mágoa perplexa no rosto de Douglas ao seu lado, ouvindo agora o barulho abafado da gritaria entre a filha e o genro lá fora, no caminho de acesso, contemplando, na parede do fundo, aquele sorrisinho, aqueles olhos azuis gelados, maliciosamente divertidos, como se soubessem do problema que ainda causavam, Vivi achou que finalmente poderia ter entendido o que Rosemary sentia.
* * *
Suzanna fez a pé todo o perímetro do campo de dezesseis hectares. Caminhou pela floresta, ao longo da trilha conhecida como Brejo Curto, subiu o morro cuja parte de trás dava no campo de beterraba e sentou-se no topo onde tinha se sentado com Alejandro menos de duas semanas antes.
A noite trouxera uma brisa fresca e suave da costa, baixando as elevadas temperaturas do dia. O terreno estava se aquietando devagarinho para o anoitecer, abelhas zumbindo preguiçosamente pelos prados, patos se alvoroçando e grasnando na água, sementes sopradas da relva da campina pairando por um instante no ar quase parado, depois flutuando suavemente em direção à terra.
Suzanna sentou-se e pensou em Jessie. Pensou em Arturro e Liliane, a quem tinha visto juntos do lado de fora da igreja, o braço de Liliane enganchado no dele quando ele parou para lhe oferecer um lenço, e desejou que Jessie também pudesse ter visto a cena. Pensou em como seu pai fechara os olhos quando ela lhe virara as costas, um olhar de desespero mudo, tão fugaz que era provável que só ela o tivesse visto. Ela o identificara bem: era a mesma expressão que vira em Neil naquela manhã.
A alguns passos dali, um estorninho bicava o solo, suas penas lisas reluzindo ao sol da tarde enquanto ele saltitava pela terra rachada. Do outro lado do vale, ela ouviu o ruído distante do sino da praça do mercado: bateu cinco horas, seis, sete, como batera em todos aqueles anos em que ela estivera ausente, criando uma vida para si mesma a muitos quilômetros dali, como batera nos anos antes de ela sequer existir. Hora de se levantar. Hora de seguir em frente.
Suzanna deitou a cabeça nos joelhos e respirou fundo, se perguntando a quantas pessoas em sua vida precisava pedir perdão.
Só algumas delas algum dia a ouviriam.