A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 3 de 29

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A Loja dos Sonhos

Três

 

Ela podia não ter sido a Debutante do Ano (e, agora que era “respeitável”, ninguém discutia por que aquilo tinha acontecido), mas havia alguns observadores da sociedade que duvidavam que as núpcias de Athene Forster, descrita por uns como a Última Debutante, it girl, ou, entre algumas das mais inclementes damas da sociedade, algo bem menos elogioso, e Douglas Fairley-Hulme, filho dos Fairley-Hulme da agricultura de Suffolk, podiam ser aclamadas como o Casamento do Ano.

A lista de convidados ostentava uma quantidade suficiente de herdeiros e sobrenomes de “sangue azul” para garantir-lhes uma posição de destaque em todas as colunas sociais, ao lado de algumas fotografias em preto e branco um tanto granulosas. A recepção foi realizada num dos melhores clubes de cavalheiros em Piccadilly. O habitual ar de pompa e jactância com notas de tabaco do local foi, temporariamente, abafado por flores de primavera e tecidos de seda branca. Graças à convicção repetida à exaustão de que a sociedade estava desmoronando desde a renúncia de Profumo, o pai da noiva decidira que sua melhor linha de defesa contra a anarquia moral era reunir uma muralha de companheiros respeitáveis para desmentir essa ideia. Isso poderia ter resultado numa recepção um tanto antiquada e sóbria, com aquele punhado de estadistas, velhos camaradas de guerra, um ou outro bispo e referências suficientes em seu discurso à “firme defesa dos valores morais” para fazer rir alguns dos convidados mais novos. Mas os jovens, era consenso, haviam alegrado bastante a cerimônia. E a noiva, que alguns poderiam ter esperado que tomasse a cerimônia como um desafio e se comportado de forma escandalosa, apenas sorria de um jeito vago na mesa principal e olhava com adoração para o novo marido.

Lá estava o noivo, universalmente definido como “um bom partido”, cujo jeito sério, a beleza e a fortuna de família deixaram de coração partido potenciais sogras em diversos condados. Mesmo enquanto estava em pé, formal e rígido naquele fraque, a ocasião lhe pesando nos ombros largos, a felicidade era visível em seus olhos, que procuravam a noiva a todo momento, a expressão se suavizando quando a encontrava. Além de ficar evidente que ele preferiria que os dois estivessem sozinhos, apesar da presença de sua família, de seus melhores amigos e de centenas de outras pessoas, todos querendo transmitir os melhores votos e felicitações.

E então lá estava a noiva, cujos olhos inocentes e o vestido godê de seda, envolvendo a silhueta que facilmente poderia ter parecido magra demais, levaram até seus mais fervorosos detratores a notar que, independentemente do que mais ela fosse (e não eram poucas as opiniões nesse departamento), certamente era uma grande beldade. Seu cabelo, em geral mais visto ao natural, descendo em cascata pelas costas, fora hidratado e domado, e estava majestoso, arrumado no alto da cabeça e preso por uma tiara de diamantes verdadeiros. A pele de outras moças poderia ficar cinzenta ao lado da seda branca, mas a dela refletia sua maciez acetinada. Seus olhos, de um tom água-marinha claro, foram delineados por um maquiador profissional e cintilavam sob uma camada prateada. Sua boca formava um sorrisinho reservado que não revelava nenhum dos dentes, a não ser quando ela se virava para o marido e esboçava um sorriso largo, desinibido, ou quando, vez ou outra, prendia seus lábios nos dele numa sugestão de desesperada paixão íntima, fazendo os convidados ao redor rirem de nervoso e desviarem o olhar.

Se o rosto da mãe dela, quando os convidados diziam que era realmente “um dia lindo, uma ocasião maravilhosa”, expressava um pouco mais de alívio que o normal, ninguém comentou nada depois. Teria sido inadequado lembrar num dia daqueles que, vários meses antes, sua filha havia sido considerada por muitos como “incasável”. E se alguém se perguntava o motivo de um casamento enorme como aquele ter sido planejado tão às pressas — apenas quatro meses depois do primeiro encontro — quando a noiva certamente não se encontrava no estado que em geral provoca tais coisas, quase todos os homens se cutucavam uns aos outros e comentavam que, se o casamento era a única maneira de obter certos prazeres de modo legítimo, e a noiva parecia uma promessa mais que encantadora, por que se dar ao trabalho de esperar?

Justine Forster, agora sentada à mesa principal, abria um sorriso corajoso. Antes, havia tentado ignorar que seu marido, já normalmente colérico, ainda estava irritado porque a data do casamento interrompera sua viagem anual de soldados veteranos a Ypres (como se fosse culpa dela!) e mencionara isso em pelo menos três ocasiões até então (inclusive durante o discurso!). No momento, ela procurava ignorar a filha, que, a duas cadeiras de distância, parecia fazer ao próprio marido um relato literal da conversa “de mulher para mulher” em que tivera a insensatez de embarcar na noite anterior.

— Ela acha a pílula imoral, querido — sussurrava Athene, dando risada. — Disse que, se formos ao velho Dr. Harcourt para pegar uma receita, na mesma hora vão conseguir uma linha direta com o novo papa e, aos gritos, vamos ser lançados no fogo do inferno.

Douglas, que ainda não estava acostumado a conversar com tanta franqueza sobre assuntos de alcova, fazia o possível para manter a compostura enquanto continha uma onda já familiar de desejo pela mulher ao seu lado.

— Eu disse a ela que achava que o papa talvez estivesse meio ocupado para se preocupar com a minha pessoa tomando balinhas anticoncepcionais, mas, pelo visto, não. Assim como Deus, Paulo VI... VIII ou o que quer que ele seja... sabe tudo: se estamos tendo pensamentos impuros, se estamos considerando copular só por prazer, se não estamos colocando o suficiente no cesto da oferta... — Ela se inclinou para o marido e disse, sussurrando alto o suficiente apenas para a mãe ouvir: — Douglas, querido, ele deve até saber onde você está com a mão agora.

Da esquerda de Douglas, veio um súbito engasgo, e ele tentou, sem sucesso, calar a esposa. Em seguida, perguntou à nova sogra se podia pegar um copo de água para ela, com as mãos bem à mostra.

Como não era lá muito sincero, o embaraço de Douglas pouco durou: ele logo concluíra que amava a imprudência de Athene, seu desinteresse pelos costumes e limites sociais que haviam ditado vidas até então. Athene compartilhava suas opiniões embrionárias de que a sociedade era cada vez menos importante, que eles podiam ser pioneiros, expressando-se como quisessem, fazendo o que quisessem, sem ligar para convenções. Ele tinha que encaixar isso tudo no trabalho, na propriedade do pai, mas Athene estava feliz de fazer o que gostava. Não estava muito interessada em arrumar a casa nova deles — “As mães são excelentes nesse tipo de coisa” —, mas adorava montar seu cavalo novo (o presente pré-nupcial que ganhara dele), ler deitada na frente da lareira e, quando ele não estava trabalhando, ir a Londres para um baile, ver filmes no cinema e, principalmente, passar o máximo de tempo na cama.

Douglas não sabia que era possível se sentir assim: passava os dias num estado distraído de excitação, pela primeira vez incapaz de se concentrar no trabalho, nas obrigações familiares e na herança profissional. Em vez disso, suas antenas estavam sintonizadas numa frequência de curvas delicadas, tecidos diáfanos e odores picantes. Por mais que tentasse, parecia não conseguir se entusiasmar pelas coisas que já o haviam inspirado nem alimentar sua preocupação crescente com os erros das classes dominantes e com a controversa questão a respeito do significado da redistribuição da riqueza, se deveria ou não abrir mão de parte de suas terras. Nada mais era tão relevante, tão interessante se comparado aos encantos carnais de sua noiva. Douglas, que uma vez confessara aos amigos que nunca ficara mais envolvido com uma mulher do que ficaria com um carro novo (com a confiança rasa da juventude, ele dissera que o melhor era substituir anualmente tanto a mulher quanto o carro por um modelo novo), agora se via sugado para um turbilhão de sensações dentro do qual não havia substituição para uma pessoa específica. O rapaz, que sempre mantivera uma distância cética das confusões amorosas e se orgulhava de suas habilidades como observador imparcial, agora se via arrastado para um vácuo de... bem, o que era aquilo? Luxúria? Obsessão? As palavras pareciam de alguma forma inadequadas para a irracionalidade cega da situação, a necessidade física, a volúpia em sua gloriosa avidez. A dura, impositiva...

— Não vai tirar a velha para uma dancinha?

— O quê? — Douglas, corando, olhou para o pai, que aparecera de repente ao seu lado.

Baixo e magro, o homem postava-se dentro do fraque com o aprumo que o caracterizava, e a expressão, normalmente alerta, estava suavizada pelo álcool e pelo orgulho.

— Sua mãe. Você prometeu a ela uma dança. Ela quer um agito, se eu conseguir fazer com que eles toquem um quickstep. Vá cumprir com suas obrigações, meu garoto. Seu carro logo vai estar aqui, afinal.

— Ah. Certo. Claro. — Douglas ficou parado, tentando pôr as ideias em ordem. — Athene, querida, você me dá licença?

— Só se seu maravilhoso pai prometer tirar essa garota aqui para um quickstep também. — Seu breve sorriso, por trás de inocentes olhos arregalados, fez Douglas estremecer.

— Seria um prazer, minha querida. Só não se incomode se eu passar com você pelo velho Dickie Bentall algumas vezes. Gosto de mostrar a ele que ainda existe vida no velho amigo aqui.

* * *

— Estou indo, mamãe.

Serena Newton largou o escalope à Viena (maravilhosamente bem-feito; já quanto aos cogumelos com creme, não tinha tanta certeza assim) e olhou surpresa para a filha.

— Mas você não pode sair antes dos noivos, querida. Ainda nem trouxeram o carro deles.

— Prometi à Sra. Thesiger que tomaria conta das crianças para ela hoje à noite. Quero passar em casa antes para me trocar.

— Mas você não disse nada. Pensei que fosse voltar comigo e com seu pai.

— Esse fim de semana, não, mamãe. Prometo que volto daqui a uma ou duas semanas. Foi ótimo ver você.

A face macia e gentil de sua mãe estava levemente empoada, com textura de marshmallow. Ela usava os brincos de safira que o pai comprara na Índia, quando foram transferidos para lá nos primeiros anos de casamento. Ela sempre dizia com orgulho que o marido ignorara o conselho do lapidador e deixara de lado pedras supostamente mais valiosas em favor de duas que combinariam exatamente com os olhos de Serena Newton. Rodeadas de diamantes, as safiras ainda conservavam uma profundidade exótica, cara, enquanto a idade e, agora, uma preocupação constante tinham feito desbotar o azul dos olhos que as inspirara.

Atrás dela, houve uma salva de palmas quando o jovem noivo levou a noiva para a pista de dança. Vivi, evitando o olhar inquiridor da mãe, não estremeceu. Tinha desenvolvido uma ótima habilidade de esconder os sentimentos nesses últimos meses.

Sua mãe estendeu a mão.

— Há séculos você não para em casa. Não dá para acreditar que esteja indo embora correndo assim.

— Não estou correndo. Já lhe disse, mamãe. Tenho que tomar conta das crianças hoje à noite. — Deu um largo sorriso, tentando tranquilizá-la.

A Sra. Newton inclinou-se para a frente, colocou a mão no joelho de Vivi e diminuiu o tom de voz.

— Sei que isso vem sendo muito difícil para você, querida.

— O quê? — Vivi não conseguiu disfarçar o rubor súbito.

— Eu já fui jovem, você sabe.

— Tenho certeza de que foi, mamãe. Mas tenho mesmo que ir. Vou me despedir do papai na saída.

Com uma promessa de telefonar e uma pontada de culpa diante da expressão magoada da mãe, Vivi se virou e cruzou a sala, conseguindo manter o rosto voltado para as portas. Entendia a preocupação da mãe: ela parecia mais velha, sabia disso, a perda entalhando novos ecos sombrios de experiência em seu rosto, a dor deixando anguloso aquele contorno que já fora rechonchudo. Era de fato irônico, refletiu, que começasse a adquirir as características que tanto desejara — magreza, uma espécie de sofisticação blasé — devido à perda justamente do que lhe dera motivo para querê-las.

E, apesar de ser naturalmente caseira, Vivi fizera de tudo para voltar o menos possível para sua família ao longo dos últimos meses. Encurtara as conversas telefônicas, evitando referências a qualquer pessoa fora da família e preferindo entrar em contato com os pais através de mensagens breves em cartões-postais brincalhões. Insistira repetidas vezes que provavelmente não poderia voltar para o aniversário do pai, para a quermesse do vilarejo, para a festa de tênis anual dos Fairley-Hulme, alegando compromissos de trabalho, cansaço ou uma leva imaginária de convites sociais. Em vez disso, tendo conseguido trabalho na administração de uma companhia de tecidos bem perto de Regent’s Park, atirara-se de cabeça numa carreira nova com um zelo missionário que diariamente deixava seus patrões espantados com sua capacidade de trabalho árduo, as famílias para as quais trabalhava como babá agradecidas por sua eterna disponibilidade e a própria Vivi quase sempre exausta, ao voltar para o apartamento compartilhado, para pensar. O que lhe era bem conveniente.

Após o baile de caça, Vivi se dera conta de que sempre que mencionava o nome de Douglas com qualquer coisa senão um afeto fraterno, seus pais delicadamente faziam com que se distanciasse dele, talvez sabendo que ele tinha desejos que não podia satisfazer. Vivi não lhes dera ouvidos; talvez, concluiu depois, não dera ouvidos a Douglas. Afinal, ele nunca lhe dera indicação alguma de que sua afeição por ela tivesse qualquer outra coisa além do mais inocente afeto fraterno.

Agora, depois de ter sido completamente ignorada por ele, a garota se resignara à sua sorte. Não que fosse ter que encontrar outra pessoa, como a mãe sempre sugerira. Não. Vivi Newton sabia que pertencia a uma minoria infeliz: uma garota que perdera o único homem a quem amaria e que, após considerar com cuidado as alternativas, preferia não se conformar com mais ninguém.

Não fazia sentido contar isso para seus pais, que ficariam aflitos, protestariam e lhe garantiriam que ela era jovem demais para tomar uma decisão daquelas, mas ela sabia que nunca se casaria. Não porque estava tão magoada que seria incapaz de amar novamente (embora tivesse ficado magoada — ainda achava difícil dormir sem a “ajudinha” de remédios), ou porque, no fundo, se via como uma heroína romântica condenada. Vivi apenas concluíra, com a mesma objetividade com que chegava a quase todas as suas conclusões, que preferia viver sozinha com sua perda a passar a vida tentando encontrar outra pessoa à altura.

Ficara apavorada com aquela viagem, considerara mil vezes que desculpa legítima podia encontrar para não ir. Só falara com Douglas uma vez, quando ele combinara de encontrá-la em Londres. Ela achara aquela felicidade evidente dele e aquele ar, que só podia atribuir a uma segurança sexual recém-conquistada, quase insuportáveis. Sem ligar para seu desconforto, ele segurara suas mãos e a fizera prometer que iria.

— Você é minha amiga mais antiga, Vi. Eu gostaria muito que estivesse presente no dia. Você não pode faltar. Por favor, seja camarada.

Então ela foi para casa, chorou por vários dias e depois foi camarada. Sorrira quando queria chorar, bater no peito como as mulheres em tragédias gregas, arrancar os brocados e as flâmulas de casamento dos mastros, arranhar a cara daquela garota horrorosa, horrorosa! E tentar bater na cabeça, nas mãos, no coração dela para destruir tudo de que Douglas mais gostava. E depois, chocada por ser capaz de tais pensamentos sombrios em relação a um ser humano (certa vez passara uma tarde inteira chorando depois de matar sem querer um coelho), sorrira de novo. Um sorriso alegre, bondoso, torcendo para que, se apresentasse feições tranquilas por tempo suficiente, se continuasse se convencendo a viver uma vida aparentemente normal, um dia de cada vez, um pouco desse suposto equilíbrio poderia se tornar real.

* * *

A mãe de Athene flagrara a filha fumando nas escadas. Vestida de noiva, pernas abertas, soltando baforadas como um marinheiro, com um cigarro que ela pedira a um dos atendentes do bar. Ela informou ao marido a respeito dessa descoberta com uma voz baixa e escandalizada, e conseguiu até surpreendê-lo quando lhe contou sobre a reação expressiva de Athene.

— Bem, ela não é minha responsabilidade agora, Justine. — O coronel Forster recostou-se em sua cadeira dourada e apertou o fumo no cachimbo, recusando-se a olhar no rosto da esposa, como se ela também fosse cúmplice desta indiscrição. — Cumprimos a nossa obrigação em relação à garota.

Justine ficou olhando para ele um instante, depois se virou para Douglas, que estava balançando uma dose de conhaque, refletindo sobre o ar de maturidade que a taça parecia impor.

— Você entende com o que se comprometeu? — Seu tom sugeria que a filha não fora perdoada por sua indiscrição de outrora.

— A melhor garota da Inglaterra inteira, ao que me consta.

Douglas, alcoolizado, cheio de cordialidade e anseio sexual, sentia-se magnânimo, mesmo para os sogros de cara fechada. Vinha se lembrando da noite em que a pedira em casamento, um dia que dividira sua vida numa espécie de Antes e Depois de Athene, sendo esse Depois menos as consequências de um rito de passagem do que de uma mudança fundamental em quem ele era, em como se sentia parte deste mundo. Para ele, agora um homem casado, aquele dia parecia significar uma mudança de estilo: um grande divisor de águas que de um lado o colocava como alguém procurando, experimentando timidamente novas atitudes e opiniões, novas maneiras de ser, e, do outro, o marcava simplesmente como Um Homem. Pois Athene lhe concedera isso. Ele se sentia como uma rocha para o ser cambiante e impulsivo de sua esposa, a independência dela lhe dando um sentimento de solidez, de segurança. Ela trepou nele como hera, aferrada e bela, uma fada bem-vinda, parasitária. Ele soubera desde a primeira vez em que a viu, naquela noite, que ela era feita para ele: ela provocara uma dor, um sentimento inesperado de que faltava alguma coisa, de que alguma parte fundamental dele estava, sem que ele tivesse percebido, insatisfeita. Ela o fez pensar assim, de uma maneira lírica, fatalista. Ele sequer sabia que tais palavras existiam em seu vocabulário. Antes, quando pensara em casamento, fora com uma espécie de esperança moribunda: era o que a pessoa fazia quando encontrava uma moça adequada. Era o esperado, e, como sempre, Douglas atenderia aquelas expectativas. Mas Athene ficara parada no elevador do restaurante de Londres onde eles haviam acabado de comer e, a despeito das pessoas que faziam fila atrás deles, encaixara o pé infantil nas portas do elevador e, morrendo de rir — como se ele tivesse sugerido algo engraçadíssimo com aquelas palavras inesperadas —, tinha dito sim. Por que não? Que divertido. Então se beijaram, alegres, ávidos, com as portas do elevador se arrastando para trás e para a frente num frenesi de um desejo represado, enquanto a fila crescia, as pessoas resmungavam irritadas e acabavam indo de escada. E ele percebera que sua vida já não estava num curso predestinado, mas havia sido desviada por uma possibilidade fantástica.

— Você precisa dar umas palmadas para ver se ela cria juízo — disse o coronel Forster.

A cabeça de Douglas deu uma sacudida para trás.

— Anthony. — Justine Forster contraiu os lábios. Abriu o pó compacto e examinou a maquiagem dos olhos. — Ela... Ela só é uma pessoa meio difícil às vezes.

— Gosto dela assim — retrucou Douglas, tentando conter a beligerância na voz.

Ela o arrastara para salões de dança dirigidos por pessoas negras em algumas das partes mais pobres de Londres, repreendendo-o se ele manifestava preocupações mesquinhas, obrigando-o a deixar isso de lado para dançar com ela, beber, rir, viver. E como ela parecia inteiramente à vontade naqueles lugares, os piores temores dele raramente se materializavam, e Douglas foi forçado a confrontar suas concepções a respeito dos pobres, dos negros ou, em resumo, de pessoas diferentes dele. Juntamente com seus temores, ele se obrigara a abandonar algumas inibições, fumava e bebia rum escuro e, quando estavam a sós, permitia-se aproximar-se sexualmente de Athene de uma forma que, segundo sua criação, não era apenas ousada, mas quase ilegal.

Porque ela não se importava. Ela não ligava para compras, moda, decoração nem para as coisas que o entediavam em tantas garotas que conhecia. Talvez ela fosse descuidada com seus pertences — no fim de uma dança, tirava os sapatos, reclamando que eram uma chatice, e acabava se esquecendo de levá-los para casa. Depois, quando chamavam sua atenção por estar descalça, ela nem de longe expressava o sentimento choroso de perda que outra garota poderia fazer, nem qualquer preocupação a respeito de como chegaria em casa. Limitava-se a dar de ombros e rir. Sempre haveria outro par de sapatos, dizia aquela risada. Preocupar-se era muito chato.

— Sim. Bem, querido, não diga que não lhe avisamos.

Justine Forster olhava um pedaço de bolo de casamento como se ele pudesse pular e dar uma mordida nela.

— Garota muito boba — disse o coronel Forster, acendendo o cachimbo.

— O quê?

— Nossa filha. Não adianta fazer rodeios. Ela é muito sortuda por ter se casado.

— Anthony. — A Sra. Forster olhou com receio para Douglas, como se o comentário condenatório do marido pudesse levar seu novo genro a anunciar subitamente uma mudança de intenções.

— Ah, não venha com essa, Justine. Ela está rodeada de gente jovem irresponsável, e isso a tornou irresponsável. Mal-agradecida, irresponsável e boba.

— Não acho que ela seja irresponsável. — Douglas, que ficaria horrorizado de pensar que seus pais poderiam discutir sobre ele dessa maneira, sentiu que precisava defender a noiva. — Ela é corajosa, única e linda.

O pai de Athene o encarou como se o genro tivesse acabado de admitir ser um comuna.

— Sim. Bem, você não vai querer dizer isso tudo para ela. Não sei aonde isso pode levar. Só veja se consegue sossegá-la um pouco. Do contrário, ela vai acabar não prestando para ninguém.

— Ele não está falando sério, Douglas querido. Só quis dizer que nós... Nós talvez tenhamos sido um pouquinho permissivos com ela de vez em quando.

— Permissivos com quem? — Athene apareceu ao lado de Douglas. Ele notou o cheiro de Joy e de cigarro e sentiu um aperto nas entranhas. O pai dela resmungou e virou as costas. — Estão falando de mim?

— Acabamos de dizer que estamos muito felizes por você estar sossegando. — O tom de Justine Foster era conciliador. Um aceno com a mão sugeriu que ela gostaria de encerrar a conversa.

— Quem disse que estamos sossegando?

— Não seja obtusa, querida. Você entendeu o que eu quis dizer.

— Não, não entendi. Douglas e eu não temos nenhuma intenção de sossegar. Temos, querido? — Douglas sentiu a mão fria dela em sua nuca. — Não se isso quer dizer viver como vocês.

— Não vou falar com você, Athene, se você vai ser grosseira de propósito.

— Não estou sendo grosseira de propósito, mãe. Não tanto quanto você estava sendo comigo na minha ausência.

— Garota muito boba — murmurou o pai.

Douglas estava extremamente desconfortável.

— Acho que vocês estão sendo bastante injustos com Athene — arriscou ele.

— Douglas, querido, por mais bem-intencionado que seja, você não tem ideia de tudo que Athene já nos fez passar.

Athene inclinou-se e pegou sua taça de conhaque, examinando a bebida como se fosse indiferente, depois engoliu o líquido âmbar de um trago.

— Ah, Douglas, não dê ouvidos a eles — disse, repondo o copo e puxando-lhe o braço. — Eles são uns chatos. Este é o nosso dia, afinal de contas.

Depois de minutos na pista de dança, ele praticamente esquecera o diálogo, perdido em sua apreciação particular daquelas curvas cobertas de seda, do perfume daquele cabelo, do toque daquelas mãos em suas costas. Ela o fitou com os olhos marejados, brilhando.

— Agora que estamos casados, não precisamos mais vê-los. — Não era uma pergunta, mas ela parecia exigir algum tipo de garantia. — Não temos que passar metade do nosso tempo que nem uns engomadinhos, sentados em encontros horríveis de parentes velhos.

— Podemos fazer o que quisermos, minha querida — sussurrou ele em seu pescoço. — Somos só nós agora. Podemos fazer o que quisermos. — Douglas gostou do som da própria voz, da autoridade e do conforto que prometia.

Ela o apertara mais, com uma força surpreendente, o rosto enterrado em seu ombro. Em meio à música, ele não conseguira distinguir sua resposta.

* * *

— Não demora nada — disse a garota no vestiário. — Algumas das etiquetas se soltaram dos casacos. Só precisamos de um minutinho para arrumar todos eles.

— Ótimo — disse Vivi, batendo o pé com impaciência para ir embora.

Os ruídos da recepção já estavam mais fracos, abafados pela extensão de carpete que recobria as galerias e a escada. Atrás dela, senhoras idosas eram conduzidas a toaletes e criancinhas descalças derrapavam para lá e para cá sob o olhar silencioso e indignado de funcionários rigorosos e uniformizados. Ela só voltaria para casa no Natal. Era provável que Douglas e aquela mulher — ainda não conseguia se forçar a dizer o nome dela, muito menos a descrevê-la como “esposa dele” — passassem o Natal fora. Afinal, a família dele sempre achara esquiar muito importante.

Poderia ser mais fácil, agora que estava evidente que sua mãe compreendia. E se não aguentasse de saudade dos pais, podia muito bem convidá-los a ir a Londres, convencer seu pai a passar um fim de semana lá. Podia lhes mostrar o mercado de antiguidades atrás de Lisson Grove, levá-los ao zoológico, chamar um táxi para ir aos salões de chá vienenses em St. John’s Wood e lhes dar café com espuma de leite e doces condimentados. A essa altura, talvez não pensasse mais em Douglas. Talvez não sentisse nada semelhante a uma dor física.

Estavam demorando um século para achar seu casaco. Reparou que ao lado dela dois homens fumavam, entretidos numa conversa, segurando os tíquetes com displicência.

— E o Alfie frisou que vai para Wimbledon. Mesmo assim, você tem que admitir, ele fez bem. Quer dizer, se alguém te levar para o altar...

Ela nem estremeceu. Vivi fez de conta que estava concentrada numa talha na parede, perguntando-se novamente quanto tempo ainda levaria até esse silêncio exterior ser ecoado dentro dela.

* * *

Quase vinte minutos depois, sua mãe parou na frente dela com aquele seu bom tailleur de buclê, a bolsa-carteira estendida à frente como um escudo.

— Sei que as coisas não andam fáceis, mas não acho que você deva fugir hoje. Venha para casa comigo e com o papai.

— Eu já disse...

— Não deixe que eles façam você evitar sua própria casa. O carro já foi. E eles vão passar pelo menos duas semanas fora.

— Não é isso, mamãe.

— Não vou mais tocar nesse assunto, Vivi. Eu só não podia deixar você ir embora sem conversarmos direito. Não fique evitando vir aqui. Não gosto de pensar em você, ainda tão jovem, sozinha em Londres. E, além disso, sentimos sua falta, papai e eu. Perdeu o seu tíquete?

Vivi olhava, sem realmente ver, para a mão vazia à sua frente.

— Pensei que você tivesse ido embora. Tenho quase certeza de que a gente sabe qual é o seu casaco.

Vivi balançou a cabeça, apática.

— Me desculpe. Tive que... que gastar um centavo.

— O papai quer muito ver você. Quer que você nos ajude a escolher um cachorro. Ele finalmente concordou em ter um, sabe, mas acha que seria bom para nós duas se fizéssemos isso juntas. — A expressão da mãe era de esperança, como se prazeres infantis ainda pudessem anular o sofrimento adulto. — Um spaniel, talvez? Sei que você sempre gostou dessa raça.

— É verde?

— Como?

A atendente tentou disfarçar a irritação com um sorriso.

— Seu casaco é o verde? Botões grandes?

Estava apontando para uma fileira atrás de si. Vivi viu a cor familiar de garrafa.

— É — murmurou.

— Ah, Vivi, querida, acredite, eu realmente entendo.

Os olhos da Sra. Newton estavam cheios de compaixão. Ela sentia os perfumes da infância da filha, que, por sua vez, resistiu ao impulso de se atirar aos braços da mãe e se permitir ser consolada. Mas não existia mais consolo.

— Sei o quanto você gostava de Douglas. Mas Douglas... Bem, agora acabou, ele encontrou o... Um rumo na vida, e você simplesmente tem que tocar seu barco. Deixar isso para trás.

A voz de Vivi estava estranhamente seca.

— Já deixei isso para trás, mãe.

— Odeio ver você assim. Tão triste... e... Bem, eu só quero que saiba... mesmo que não queira falar comigo... e sei que as meninas nem sempre querem se abrir com as mães... que eu entendo, sim. — Esticou o braço e afagou o cabelo de Vivi, afastando-o do rosto num gesto maternal espontâneo.

Não, mamãe, você não entende, pensou Vivi, as mãos ainda trêmulas, o rosto ainda pálido pelo que tinha escutado. Porque essa dor não tinha a origem que sua mãe presumia. Aquela dor tinha sido quase fácil de suportar. Pois era possível alcançar certa paz de espírito ao menos na ideia de que ele seria feliz. Porque amor é isso, não? Saber que, no mínimo, a gente quer que o outro seja feliz.

Embora talvez entendesse um pouco a sua dor, o seu desejo, o seu sentimento de dor por perdê-lo, sua mãe não teria entendido a conversa que Vivi tinha entreouvido a contragosto. Nem por que Vivi já sabia, com uma dor que queimava sua alma, que não a repetiria a ninguém.

— Mesmo assim, você tem que admitir, ele fez bem — dissera o homem. — Quer dizer, se alguém te levar para o altar...

— Verdade. Mas…

— Mas o quê?

— Vamos encarar os fatos. Ele vai precisar ficar de olho, não vai?

— O quê?

— Ora... A garota é meio galinha.

Vivi ficara imóvel. A voz do homem diminuíra até se tornar um murmúrio, como se ele tivesse contorcido a boca para falar.

— Tony Warrington saiu com ela na terça-feira. Tomaram uma pelos “velhos tempos”, ela lhe disse. Eles costumavam sair, quando ele morava em Windsor. Só que a ideia dela de velhos tempos era um tanto relacionada a bons tempos, se é que você me entende.

— Está de brincadeira.

— Menos de uma semana antes do casamento. Tony disse que nem queria. É errado e tudo mais. Só que ela partiu para cima dele.

Os ouvidos de Vivi começaram a zunir. Ela estendeu a mão para se equilibrar.

— Caramba.

— Exatamente. Mas fique de bico fechado, meu velho. Não tem por que estragar o dia. Mesmo assim... é de dar pena o coitado do Fairley-Hulme.