A Loja dos Sonhos
Vinte e oito
A moça de terno de buclê azul desceu de costas do trem, lutando com o enorme carrinho de bebê, cujas rodas tinham prendido em alguma saliência. Era um carrinho pesado, datando dos anos 1940, e, enquanto agradecia com um aceno de cabeça ao guarda-freios que a ajudara no esforço de trazê-lo para a plataforma, pensou na senhoria, que passara semanas reclamando da presença daquele elefante branco em seu hall estreito. Por duas vezes, tentara exigir que fosse retirado, mas a moça sabia que seu sotaque intimidava a velha, e o usara para conquistar resultados devastadores. Assim como havia feito com o guarda-freios, que sorriu para ela, confirmando que ela não trazia junto outras malas que também necessitassem ser carregadas, e olhou com apreço para suas pernas esguias quando ela se afastou.
Era um dia com muito vento e, do lado de fora da estação, ela se inclinou à frente e prendeu melhor as mantas nas laterais do carrinho. Depois, alisou o cabelo e puxou a gola para cima, observando nostalgicamente o último de vários táxis passar rugindo. Eram pelo menos dois quilômetros e meio até o restaurante, e seu dinheiro só dava para a passagem de volta. E para um maço de cigarros.
Ela ia precisar daqueles cigarros.
Quando chegou em Piccadilly, talvez como era previsível, começou a chover. Ela abaixou a capota do carrinho e apressou o passo, a cabeça baixa para se proteger do vento. Porque estava sem meias, seus sapatos ridículos roçavam seus calcanhares. Ele lhe dissera para não usá-los, que estaria melhor com o outro par. Mas um vestígio de vaidade significara que ela não queria ser vista usando um par de sapatilhas baratas. Hoje, não.
O restaurante era numa travessa atrás de um teatro, a fachada verde-escura e as janelas de vitral anunciando sua discrição, conhecido como um lugar de almoço de quem tinha dinheiro e sabia o que era bom. Ela diminuiu o passo ao se aproximar, como se relutasse em chegar ao destino, e ficou parada do lado de fora olhando o cardápio, como se tentando se decidir a entrar. Havia uma fila de operários encostados num andaime acima dela, abrigando-se temporariamente da chuva leve, um assoviando para acompanhar Dionne Warwick em “Walk On By”, que saía com um som abafado de um rádio de pilha. Eles observaram sem disfarçar o interesse quando ela tentou tornar a prender o cabelo, sabotada pelo vento e pela falta de espelho, depois se olhou numa janela próxima para tentar ver se a maquiagem tinha borrado.
Acendeu um cigarro e fumou-o em tragadas curtas e urgentes, trocando de pé e olhando distraidamente a rua, como se ainda não tivesse decidido onde queria estar. Finalmente, virou para o carrinho ao seu lado e olhou para o bebê adormecido lá dentro. De repente, ficou imóvel, com o olhar parado e estranho, alheia aos operários, ao mau tempo. Era um olhar bem diferente dos olhares casuais, amorosos das outras mães. Esticou uma das mãos como se para tocar no rosto da criança, segurando firme a alça do carrinho com a outra, como se tentasse se equilibrar. Depois, inclinou-se sob a capota, abaixando-se de tal maneira que não se via seu rosto.
Passado algum tempo, endireitou-se, deu um longo suspiro trêmulo e murmurou alguma coisa baixinho. Depois, empurrou o carrinho lentamente em direção à porta do restaurante.
— Anime-se, amor — gritou uma voz do alto, quando ela entrou. — Pode não acontecer nunca.
— Ah — murmurou ela, não alto o suficiente para ser ouvida —, é aí que você se engana redondamente.
* * *
A moça gorda com permanente no cabelo colocara muitas restrições em relação a se encarregar temporariamente do carrinho, bufando sobre a política do restaurante, portanto Athene, usando seu sotaque mais pedante, tinha sido obrigada a gratificá-la com o dinheiro do cigarro e a prometer que não demoraria mais de meia hora.
— Ela está dormindo, querida — disse, com um sorriso forçado. — Você não vai ter que fazer nada. E estarei logo ali se precisar de mim.
Em face da potência plena de seu charme decidido, a moça não tivera coragem de recusar, mas lhe lançara aquele tipo de olhar que sugeria saber que Athene não era tudo o que parecia: que qualquer pessoa usando um tailleur de duas estações passadas e levando um carrinho de bebê para um restaurante como aquele não era tudo que seu sotaque poderia sugerir.
Athene ficara quase dez minutos sentada no banheiro feminino até conseguir controlar a respiração.
No início, tinha sido divertido. Ela nunca tinha vivido daquele jeito, contando cada moedinha, sem saber ao certo onde ia dormir, nem mesmo em que cidade estaria: tinha sido uma aventura. E ela, aconchegada no casulo do começo da paixão que encobria as partes menos agradáveis — os quartos péssimos, a comida horrível —, tinha se deliciado com a pura travessura daquilo tudo. Rira de pensar na mãe tentando desesperadamente explicar sua ausência no jogo de bridge das quartas-feiras, no pai, pigarreando na frente do jornal enquanto pensava no último ultraje dela, em Rosemary, a Rosemary de cara azeda, reprovadora, que sempre fora tão clamorosa em seu julgamento, que dissera a Athene com o primeiro olhar que sabia bem que tipo de garota ela era, mesmo quando Athene tinha decidido que não era.
Tentara não pensar em Douglas. Ela e Tony eram farinha do mesmo saco. Soubera disso desde o instante em que lhe abrira a porta e ele lhe dera uma risadinha, como se ela devesse saber muito bem que estava no lugar errado. Porque estava, não?
Terminou o cigarro, saiu devagar do banheiro e entrou no ambiente ruidoso do restaurante onde ele estava sentando, contemplando o jornal.
Ele sempre ficava atraente vestido com um bom terno. O corte e a cor daquele fazia um eco desconfortável ao dia do casamento deles. Quando ele se virou, Athene viu que novas rugas de experiência (ou sofrimento?) tinham dado ao seu rosto uma maturidade atraente.
— Douglas? — disse ela, e ele estremeceu, como se a própria palavra o ferisse. — Como você está elegante — falou, desesperada para preencher o silêncio, para alterar a intensidade ardente do olhar dele. Sentou-se: estava desesperada por uma bebida.
O garçom, ao trazê-la, esbarrara em sua perna.
— Você está... você está bem? — perguntou Douglas, e ela fez um esgar diante da dor na voz dele.
Dera alguma resposta sem sentido e eles começaram a gaguejar uma horrível conversa fiada. Ela estava admirada por não conseguir falar nada.
— Você vem muito a Londres?
Ela se perguntou, vagamente, se ele estava caçoando dela. Mas, por outro lado, Douglas nunca tinha sido sagaz assim. Não como Tony.
— Ah, você me conhece, Douglas. Teatro, uma boate de vez em quando. Não posso ficar longe de Londres. — Sua cabeça doía. Seus ouvidos se aguçavam, desde que ela se sentara, para detectar o choro de Suzanna, o sinal de que ela acordara.
Ele tinha feito o pedido para ela: linguado. Ela estava morta de fome no trem, não tendo comido no dia anterior. Agora via que não era capaz de olhar para o prato: a manteiga que coagulava, o cheiro intenso de peixe a enjoavam. Ele tentava falar com ela, mas ela estava tendo dificuldade de ouvir o que ele dizia. Pensou, por um instante, observando a boca dele se mexer, que não tinha que ir até o fim com aquilo. Que podia simplesmente sentar-se, comer uma refeição com Douglas e voltar para casa. Ninguém a estava forçando a fazer nada. Tudo acabaria dando certo, não? Depois, pensou na conversa que tivera com os pais pelo telefone no início daquela semana, um dia antes de ter ligado para ele. “Você trouxe isso para si, Athene”, dissera sua mãe. “Agora aguente.” Ela não tiraria uma moeda deles. Seu pai tinha sido ainda menos indulgente: ela desgraçara a família, dissera ele, e não precisava se dar ao trabalho de achar que podia voltar. Como se ele, por seus atos, não tivesse feito o dobro do estrago. Ela não se dera ao trabalho de lhes contar sobre o bebê.
Pensou na gaveta de baixo da cômoda de pinho bem horrorosa que Suzanna tinha como berço, nas fraldas penduradas pelo quarto para secar, nas repetidas ameaças de despejo da senhoria. No desespero de Tony por não ser capaz de encontrar outro emprego.
Era melhor assim.
— Douglas, seja um amor e peça mais uns cigarros para mim? — disse, esforçando-se para dar um sorriso. — Acho que estou sem trocado.
Quando voltara com o maço, o garçom deixara o troco de Douglas na mesa, e ela ficara olhando, consciente de que o dinheiro dava para mantê-los alimentados por vários dias. Ou para pagar um banho. Um banho quente de verdade, com um pouco de espuma. Ficou olhando para o dinheiro, pensando numa época, não fazia tanto tempo assim, em que não o teria notado, em que aquele trocado seria irrelevante. Como seu casaco, seus sapatos, um chapéu novo teriam sido irrelevantes, fáceis de conseguir, fáceis de repor. Ficou olhando para o troco, e depois para Douglas, percebendo que havia outra resposta para seus problemas que ela ainda não considerara. Ele era um homem atraente, afinal. E era óbvio que ainda gostava dela — mesmo a curta conversa telefônica que tiveram lhe dissera isso. Tony sobreviveria sem ela. Ele sobreviveria sem ninguém.
— Por que você ligou?
— Não posso mais falar com você, querido? — disse ela alegremente.
Olhara — olhara mesmo — para ele então, para a mágoa e o desespero em seu rosto. Para o amor. Mesmo depois de tudo o que ela fizera. E soube por que nunca poderia fazer a coisa que resolveria tudo de uma vez.
— Não me venha com essa de querido, Athene. Não posso fazer isso. Realmente não posso. Preciso saber por que você está aqui.
Ele estava irritado agora, o rosto ficando vermelho. Ela tentou focar no que ele dizia, mas tinha se dado conta de um tilintar dentro dela, sintonizado com alguma frequência maternal invisível. E perdeu o fio da conversa.
— Sabe, é ótimo ver você tão bem — disse corajosamente, se perguntando se devia simplesmente se levantar e ir embora. Podia correr agora, pegar Suzanna no carrinho velho horroroso e sumir. Ninguém saberia de nada. Podiam ir para Brighton, talvez. Pedir dinheiro emprestado e ir para o exterior. Para a Itália. Adoravam bebês na Itália. A voz de Athene saiu de sua boca como se fosse de outra pessoa, enquanto seus pensamentos se misturavam em sua cabeça:
— Você sempre ficou maravilhoso com esse terno.
Ela ouvia Suzanna ao longe agora, o que tornava todo o resto irrelevante.
— Athene! — protestou ele.
E, então, a moça gorda estava ali, parada na frente dela com aquela cara insolente, assimilando a inexistência de aliança, a comida intacta no prato.
— Desculpe-me, madame — disse —, mas sua bebê está chorando. A senhora precisa pegá-la.
Depois, ela descobriu que pouco se lembrava dos minutos seguintes. Lembrava-se vagamente do choque no rosto de Douglas, de vê-lo empalidecer; lembrava-se de lhe entregarem Suzanna e, enquanto a segurava, perceber, pelo que sabia ser a última vez, que já não conseguia olhar para o rosto dela. Suzanna, talvez com algum terrível pressentimento, ficara agitada, e Athene ficara feliz de precisar balançá-la — o gesto disfarçava o tremor compulsivo de suas mãos.
Depois, a parte que ela desejava poder esquecer, a parte que assombraria seus momentos despertos, seus sonhos, que deixaria seus braços vazios, um buraco do tamanho de uma criança ao lado de seu coração.
Quase incapaz de acreditar no que fazia, Athene Fairley-Hulme pegou a criança que ela amava com uma paixão pura e descomplicada, de que não se julgara capaz, e jogou aquele pesinho macio, aquelas pernas e braços enrolados na manta, para o homem em frente.
— Athene, não acredito que você...
— Por favor, por favor, Douglas, querido. Não posso explicar. Mesmo. — Suas palavras eram como chumbo em sua boca, suas mãos, agora vazias, uma traição venenosa.
— Você simplesmente não pode me deixar com um bebê...
— Você vai amá-la.
Ele a segurou com cuidado, notou Athene com uma leve gratidão pungente. Sabia que ele o faria. Ah, meu Deus, me perdoe por isso, disse em silêncio, e se perguntou, por um instante, se desmaiaria ali mesmo.
— Athene, não posso simplesmente...
Então, ela sentiu um pânico vago de que ele pudesse recusar. Não havia alternativa. Tony lhe dissera isso, muitas vezes.
Ela tinha trazido isso para si.
Pousou a mão em seu braço, tentando passar tudo com um único olhar suplicante.
— Douglas, querido, eu já lhe pedi alguma coisa? De verdade?
Então ele olhara para ela, a confusão tímida, a breve transparência de sua expressão dizendo-lhe que ela o dobrara. Que ele iria cuidar dela. Iria amá-la, como fora amado na infância. Era melhor assim, disse ela a si mesma em silêncio. Como se, repetindo isso uma quantidade de vezes suficiente, acabasse se convencendo. Obrigou-se a levantar-se então, e começou a andar, tentando não se deixar tropeçar, tentando manter a cabeça erguida. Tentando manter a mente vazia para não ter que pensar no que estava deixando para trás, concentrando-se apenas em colocar um pé na frente do outro, enquanto os ruídos do restaurante se perdiam no vazio. Ela gostaria de ter deixado alguma coisa para a menina, qualquer coisa. Um pequeno sinal de que fora amada. Mas eles não tinham nada. Tudo fora vendido pela simples necessidade de comer.
Até logo, querida, disse em silêncio, enquanto a porta do restaurante se aproximava, seus saltos ecoando no chão de cerâmica. Volto para te buscar, quando as coisas melhorarem. Prometo.
Era melhor assim.
— Não quer nem dizer adeus? — A voz dele vinha de trás. E Athene, sentindo o resto de sua determinação começar a se desfazer, fugiu.
Foi a coisa mais estranha, disse a moça do vestiário ao sommelier depois. Aquela moça esnobe, a de cabelo escuro, tinha dobrado a esquina, sentado na calçada e chorado como se o seu coração fosse se partir. Ela a vira quando saíra para tomar um ar. Toda encolhida encostada na parede, uivando como um cachorro, nem se importando com quem a via.
— Eu a animaria — disse o sommelier, com uma piscadela lasciva, e a moça do vestiário balançou a cabeça fingindo desespero e voltou para seus casacos.
* * *
Quando ela voltou, Tony estava deitado na cama. Não era de surpreender, embora fosse apenas fim de tarde: não havia onde sentar no quartinho. Eles tinham pedido uma cadeira, achando que podiam espremer uma ao lado da janela, mas a senhoria dissera que já estavam com o aluguel atrasado havia duas semanas, e uma a mais do que haviam dito originalmente. Ela não ia começar a lhes dar extras, ia?
Athene abriu a porta. Ele se assustou, como se ela o tivesse acordado, e se endireitou, piscando enquanto ela examinava seu rosto. O quarto cheirava a umidade: havia várias semanas, eles não tinham dinheiro para levar os lençóis na lavanderia, e a janela não abria o suficiente para arejar o quarto direito. Ela observou-o esfregando o cabelo com as mãos largas, lisas.
— Tudo bem? — perguntou ele.
Ela não conseguiu falar. Dirigiu-se para a cama, sem se dar ao trabalho de afastar o jornal da colcha de chenile amassada, e deitou-se, de costas para ele, os sapatos escorregando dos calcanhares ensanguentados.
Ele pôs a mão em seu ombro, apertou-o com hesitação.
— Você está bem?
Ela não disse nada. Fitava a parede em frente, o papel de parede verde texturizado que começava a descascar desde o rodapé, o aquecedor que eles não tinham moedas para alimentar, a cômoda, a gaveta de baixo acolchoada com suéteres velhos de Athene, forrada com sua única blusa de seda, a coisa mais macia que podia pensar em colocar ao lado da pele de Suzanna.
— Você fez o certo, sabe — murmurou Tony. — Sei que é difícil, mas você fez o certo.
Ela achava que jamais conseguiria tornar a levantar a cabeça do travesseiro. Sentia-se muito cansada, como se nunca tivesse entendido antes o que era cansaço.
Estava vagamente consciente de Tony beijando sua orelha. Sua reticência o deixara carente.
— Amor? — Ela não conseguiu responder. — Amor? — disse ele de novo.
— Sim — sussurrou ela. Não conseguia pensar em mais nada para dizer.
— Andei dando uma olhada em algumas vagas de emprego — disse ele, como se tentando oferecer uma coisa boa, tentando cumprir a sua parte do trato. — Tem uma firma em Stanmore procurando vendedor. Comissão e bônus. Pensei em dar uma ligada para eles mais tarde. Nunca se sabe, hã?
— É.
— As coisas vão melhorar, Thene. Mesmo. Eu te garanto.
Suzanna já estaria quase chegando em Dere Hampton a essa altura, se ele tivesse pegado o trem. Douglas teria tido problemas com o carrinho do mesmo jeito que Athene. Ela podia imaginá-lo agora, exigindo que o guarda-freios o ajudasse a colocá-lo dentro do trem, pelejando com a capota, a alça exagerada. Depois, dentro do vagão, inclinando-se para ver se a bebê estava bem. Inclinando-se, vestido com aquele terno elegante, uma expressão suave de preocupação no rosto. Por favor, não a deixe chorar muito sem mim, pensou, e uma grande lágrima solitária escorreu pelo seu rosto em direção ao travesseiro.
— Ela vai ficar melhor com ele. Você sabe disso. — Tony estava acariciando seu braço frio, branco, como se isso pudesse consolá-la. Ela ouviu a voz dele em seu ouvido, urgente, persuasiva, mas distante. — Nunca conseguiríamos lidar com dois aqui. — Mal temos o que comer... Athene? — disse ele quando o silêncio ficou demais.
Ela jazia em cima dos anúncios classificados, o rosto frio no travesseiro de algodão rançoso, ainda olhando para a porta.
— Não — disse.
* * *
Athene passou quatro dias e quatro noites deitada na cama, sem deixar o quartinho, chorando sem poder fazer nada, recusando-se a comer ou falar, os olhos abertos, inquietos, até que, no quinto dia, temendo por sua saúde, se não por seu estado de espírito, Tony tomou as rédeas da situação e chamou o médico. Quando o médico chegou, a senhoria, que gostava de um pouco de drama, estava no patamar superior e proclamou ruidosamente que tinha uma casa respeitável, limpa e decente.
— Não há doença neste lugar — disse. — Nada sujo. — Espiava com a cabeça no canto da porta, esperando ter alguma indicação do que havia de errado com a moça.
— Tenho certeza disso — respondeu o médico, olhando o tapete pegajoso do hall com aversão.
— Nunca tive uma não casada antes — disse ela —, e esta será a última. Não tenho paciência para esse inconveniente.
— Ela está aqui dentro — disse Tony.
— Não quero nada contagioso no meu estabelecimento — gritou a mulher, animada. — Vou querer ser informada se houver alguma coisa contagiosa.
— Fique tranquila, a menos que ser uma linguaruda seja contagioso — murmurou o rapaz, e fechou a porta.
O médico olhou o quartinho com as paredes úmidas e as janelas encardidas, torcendo o nariz para o balde malcheiroso onde se via a marca entranhada do nível da água cheio de roupa suja de molho no canto, se perguntando quantas pessoas neste bairro habitavam moradias que eram mais adequadas para bichos como aquela. Ouviu a explicação apressada do rapaz, depois dirigiu-se à mulher na cama.
— Sente dor em algum lugar? — perguntou, descobrindo-a para apalpar a barriga que começava a inchar.
Quando ela respondeu, ele ficou meio surpreso com o jeito refinado como ela falava, após o tom meio grosseirão de nortista do outro. Mas hoje em dia era assim. A chamada sociedade sem classes.
— Algum problema com seu aparelho urinário? Dor de garganta? Dor de estômago?
O exame não demorou: evidentemente, não havia nenhum problema físico. O médico diagnosticou depressão, o que não era de surpreender quando se consideravam as circunstâncias em que ela estava vivendo.
— Muitas mulheres ficam meio perturbadas durante a gravidez — disse ele ao rapaz, fechando a maleta. — Tente mantê-la calma. Leve-a para passear no parque, talvez. Um pouco de ar puro vai fazer bem. Vou lhe dar uma receita para uns comprimidos de ferro. Veja se consegue botar uma corzinha nas bochechas dela.
O rapaz o acompanhou até a saída, depois ficou parado à porta do quartinho, as mãos enfiadas de forma desagradável nos bolsos, visivelmente despreparado para aquela situação.
— Mas o que eu faço? — ficava dizendo. — Ela parece que não me ouve.
O médico acompanhou o olhar ansioso do jovem até a cama, onde a moça adormecera. Ele tinha uma suspeita de tuberculose no número 47, precisara fazer curativo numa escara e tinha os joanetes da Sra. Baker que sobraram da véspera, e, por mais compreensivo que fosse, não podia perder mais tempo ali.
— Algumas mulheres acham a maternidade mais difícil que outras — disse, pôs o chapéu firmemente na cabeça e saiu.
* * *
— Mas me disseram que a minha mãe morreu no parto — tinha dito Suzanna, quando Vivi lhe contara o que sabia sobre os últimos dias de Athene. Este tinha sido mais um motivo para suas reservas em relação a ser mãe.
— Morreu, querida. — Vivi pegara sua mão, um gesto delicado, maternal. — Só que não no seu.