A Loja dos Sonhos

Jojo Moyes · Capítulo 25 de 29

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A Loja dos Sonhos

Vinte e cinco

 

Os passageiros procedentes de Buenos Aires saindo do voo BA7902 pelo portão de chegadas eram um grupo que se destacava pela beleza. Não que os argentinos em geral não fossem bonitos, observou Jorge de Marenas depois (especialmente quando comparados com aqueles galegos espanhóis), mas era talvez inevitável que cento e cinquenta membros de uma convenção de cirurgiões plásticos — e suas esposas — fossem um pouco mais agradáveis esteticamente que a maioria: mulheres bronzeadas com cinturas de vespa e cabelos da cor de bolsas caras, homens de fartos cabelos uniformemente escuros e queixos extraordinariamente firmes. Jorge de Marenas era um dos poucos cuja aparência tinha relação com sua idade biológica.

— Martin Sergio e eu fizemos um joguinho — contou ele a Alejandro no táxi seguindo a toda para Londres. — Você olha em volta e descobre quem fez o quê. As mulheres, é fácil. Segurou um par de bolas de futebol imaginárias no peito e fez bico. — Elas começam a exagerar. Primeiro é uma puxadinha aqui, depois querem ficar igual à Barbie. Mas os homens... Estávamos tentando espalhar o boato de que o avião tinha ficado sem combustível para ver quem ainda era capaz de franzir a testa. A maioria deles disse... — Ele imitou uma expressão congelada de aquiescência benevolente: — “Tem certeza? Mas isso é terrível. Vamos morrer!” — Ele riu com vontade e deu uma palmada na coxa do filho.

A viagem de avião e a perspectiva de ver seu amado filho Alejandro o tinham deixado loquaz, e ele falara tanto desde que se abraçaram no saguão de desembarque cheio de eco que, só quando chegaram nos arredores de Chiswick e o táxi diminuiu a velocidade na autoestrada, ele se deu conta de que o filho quase não abrira a boca.

— Quanto tempo você tem de folga? — perguntou. — Vamos mesmo fazer a nossa viagem de pescaria?

— Tudo reservado, papá.

— Aonde vamos?

— A um lugar a mais ou menos uma hora de carro do hospital. Reservei para quinta-feira. Você disse que a conferência acabava na quarta, certo?

— Perfeito. Buenísimo. E o que vamos pescar?

— Truta salmonada — disse Alejandro. — Comprei uns anzóis em Dere Hampton, o lugar onde estou morando. E peguei emprestado um par de caniços com um dos médicos. Você não precisa de nada além do seu chapéu e as suas botas altas.

— Tudo na mala — disse Jorge, apontando para o porta-malas. — Truta salmonada, hein? Vamos ver se elas são boas de briga. — Seguiam sem prestar atenção na zona oeste plana de Londres, que ficava mais densa à medida que passavam, a mente já em rios ingleses transparentes, barulho da linha ao ser arremessada e pousar na água à sua frente.

— Como vai a mamá?

Jorge pesarosamente deixou para trás as águas borbulhantes. Tinha passado grande parte do voo se perguntado o quanto lhe contar.

— Você conhece a sua mamá — disse com cautela.

— Ela foi a algum lugar recentemente? Chegou a sair de casa com você?

— Ela... ela ainda está preocupada com a criminalidade. Não consigo convencê-la de que as coisas estão melhorando. Ela assiste demais à Cronica, lê El Guardian, Noticias, esse tipo de coisa. Não é bom para os nervos dela. Milagros está morando conosco em tempo integral por um período, eu lhe contei?

— Não.

— Acho que sua mãe gosta de ter outra pessoa na casa quando eu não estou. Isso a deixa... mais calma.

— Ela não quis vir com você? — O filho estava olhando pela janela do táxi, portanto era difícil dizer por seu tom voz se ele estava pesaroso ou feliz.

— Hoje em dia ela não gosta muito de avião. Não se preocupe, filho. Milagros e ela se dão muito bem.

A verdade era que ele estava feliz por ter um pouco de descanso da esposa. Ela ficara obcecada com a ideia do suposto caso que ele estava tendo com Agostina, sua secretária, e ao mesmo tempo censurava o desinteresse dele por ela. Se ao menos ele concordasse em lhe diminuir a cintura, lhe levantar as bochechas, poderia achá-la mais atraente. Ele tendia a não contestar muito, anos de experiência tinham lhe mostrado que isso geralmente fazia com que ela ficasse pior, mas nunca podia articular a verdade: que não só ele estava tendo sucesso, como também já não sentia a grande necessidade de reafirmação física que antes sentia. Após anos abrindo essas jovens, remodelando-as, preenchendo-as e depois puxando-as, esculpindo com cuidado suas partes mais íntimas, já não tinha muito mais do que um apetite imparcial de artista por carne feminina.

— Ela sente sua falta — disse. — Não estou lhe contando isso porque quero que se sinta culpado. Deus sabe que você está na idade de se divertir, ver o mundo um pouco. Mas ela sente sua falta. Colocou mate na minha mala para você, umas camisas novas e umas coisas que achou que você talvez quisesse ler. — Fez uma pausa. — Acho que ela gostaria que você escrevesse com mais de frequência.

— Eu sei — disse Alejandro. — Desculpe. — Tem sido... um período estranho.

Jorge olhou duramente para o filho. Ia sondar um pouco, mas mudou de ideia. Eles tinham quatro dias juntos, e pelo menos um dia de pescaria combinado. Se Alejandro tivesse algo em mente, ele logo descobriria.

— Então, Londres, hein? Você vai gostar do Hotel Lansdowne. Sua mãe e eu estivemos aqui nos anos 1960, quando nos casamos, e fomos a um baile. Dessa vez reservei para nós um quarto com duas camas. Não faz sentido ficar separados depois desses meses todos. Eu e meu filho, hã?

Alejandro sorriu para ele, e Jorge sentiu o prazer familiar de estar na companhia de seu belo filho. Pensou no abraço apertado com os dois beijos que recebera de Alejandro nos portões do aeroporto, um grande progresso em relação aos apertos de mão reservados que ele habitualmente dava, mesmo quando o garoto voltava do internato. Diziam que viajar mudava a pessoa, Jorge pensou. Talvez, nesse clima frio, seu filho estivesse finalmente derretendo um pouco.

— Vamos nos divertir juntos como garotos, hein? Vamos aos melhores restaurantes, a umas boates. Viver um pouco. Tem muita coisa para pôr em dia, Turco, e muitos bons momentos para aproveitar fazendo isso.

* * *

A conferência de Jorge terminava todo dia às quatro e meia, e enquanto os outros delegados se encontravam em bares, admiravam fotografias brilhosas do trabalho uns dos outros e murmuravam sobre o suposto trabalho atamancado dos colegas pelas costas, ele e o filho começavam um período frenético de atividades noturnas. Visitaram um amigo de Jorge que morava numa casa de fachada de estuque em St. John’s Wood, foram ver uma peça no West End, embora nenhum dos dois gostasse de teatro, tomaram drinques no bar do Savoy e chá no Ritz, onde Jorge insistiu para que o garçom tirasse uma foto deles (“Foi o único pedido da sua mãe”, disse, quando Alejandro tentou se esconder debaixo da mesa). Falaram de prática médica, da política argentina, de dinheiro e de amigos em comum. Bêbados, batiam nas costas um do outro e diziam que estavam se divertindo à beça, como era bom estar juntos, como os melhores momentos eram aqueles vividos por homens sozinhos. Depois, mais bêbados, ficaram chorosos e sentimentais, expressando a sua tristeza pelo fato de a mãe de Alejandro não poder estar lá também. Jorge, embora gratificado de ver estas raras demonstrações de emoção do filho, estava ciente de que ainda havia algo a ser dito. Alejandro contara que uma amiga tinha morrido, e isso explicava um pouco da sua mudança de personalidade, um pouco da tristeza que pairava sobre ele, mas não explicava a tensão, a ansiedade sutil, mas crescente que até Jorge, um homem com as emoções de um cavalo de tração, como sua mulher sempre lhe dizia, podia sentir no ar.

Não perguntou nada diretamente.

Não sabia bem se queria saber a resposta.

* * *

Cath Carter vivia a duas casas de distância da casa da falecida filha, uma volta à época em que a política da municipalidade tentava colocar os membros da família próximos uns dos outros. Jessie contara a Suzanna histórias de famílias cujos membros ocupavam vielas inteiras, avós ao lado de mães, irmãs e irmãos cujos filhos tinham se fundido num grupo familiar amorfo entrando e saindo correndo das casas uns dos outros com o sentimento de posse confiante da família estendida.

A casa de Cath, no entanto, não podia ter sido mais diferente da de sua filha. Enquanto a porta da frente de Jessie e as cortinas de guingão passavam a imagem de um gosto esotérico, de um amor ao brilho e ao chamativo, de uma irreverência refletida em sua personalidade, a de Cath mostrava uma mulher convicta da própria posição. Seus canteiros florais caprichados e sua pintura impecável traíam uma determinação de manter as coisas em ordem. E isso de uma mulher inserida no caos, pensou Suzanna, desviando a vista da porta da frente da amiga. Não queria pensar na última visita àquela casa. Não estava nada convencida de querer estar lá. As crianças tinham acabado de ser deixadas na escola pela manhã, e a rua estava salpicada de mães empurrando carrinhos, outras levando jornais e caixas de leite compradas no mercadinho da rua. Suzanna continuou andando, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, sentindo o envelope que preparara meia hora antes. Se Cath não estivesse lá, ela se perguntou, devia empurrá-lo por baixo da porta? Ou este era um tipo de conversa que se tinha de ter cara a cara?

Uma fotografia de Jessie estava na janela da frente, maria-chiquinha no cabelo, o sorriso conhecido no rosto. A fotografia tinha a borda preta, havia o que pareciam cerca de quarenta santinhos de luto em volta dela. Suzanna desviou a vista deles e tocou a campainha, consciente dos olhares curiosos dos passantes.

O cabelo de Cath Carter estava branco. Suzanna ficou olhando para ele, tentando se lembrar de que cor era antes, depois se deu conta.

— Olá, Suzanna — disse Cath.

— Me desculpe por eu andar sumida — respondeu Suzanna. — Eu queria vir. Eu só...

— Não sabia o que dizer?

Suzanna corou.

— Tudo bem. Você não é a única. Pelo menos você veio, o que é mais que a maioria. Entre. — Cath recuou, segurando a porta, e Suzanna entrou, o passo pesado no tapete impecável do hall.

Foi conduzida à sala da frente e direcionada a um sofá, de onde via a parte de trás da foto emoldurada e dos santinhos, alguns dos quais virados para a pequena sala. Era a mesma disposição da casa de Jess, o interior igualmente imaculado, mas o ambiente carregado de dor.

Cath atravessou pesadamente a sala e sentou-se na cadeira em frente, dobrando a saia embaixo do corpo com mãos aflitas.

— Emma está na escola? — perguntou Suzanna.

— Voltou esta semana. Meio do semestre.

— Eu vim... ver... se ela está bem — disse Suzanna sem jeito.

Cath fez que sim, olhou inconscientemente para a foto da filha.

— Ela está enfrentando — disse.

— E para dizer... se existir alguma coisa em que eu possa ajudar...

Cath inclinou a cabeça de um modo interrogativo.

Havia uma fotografia atrás dela no consolo da lareira, Suzanna notou, da família inteira junta, com um homem que devia ter sido o pai de Jessie segurando Emma, ainda bebê, no colo.

— Eu... eu me sinto responsável — disse ela.

Cath balançou a cabeça energicamente.

— Você não é responsável. — Havia um peso enorme nas palavras que ela deixou por dizer.

— Eu realmente só me perguntei... talvez se eu pudesse... — Suzanna meteu a mão no bolso e estendeu o envelope à frente — ... contribuir com alguma coisa. — Cath ficou olhando para a mão estendida de Suzanna. — Financeiramente. Não é muito. Mas pensei que se houvesse um fundo ou alguma coisa... para Emma, quero dizer...

Cath levou a mão ao pequeno crucifixo de ouro pendurado no pescoço. Sua expressão pareceu endurecer.

— Não precisamos do dinheiro de ninguém, obrigada — disse secamente. — Emma e eu vamos nos virar bem.

— Desculpe-me, não tive intenção de ofender. — Suzanna meteu o envelope no bolso, censurando-se pela falta de tato.

— Você não me ofendeu. — Cath se levantou, e Suzanna se perguntou se ela já ia mandá-la embora, mas a mulher dirigiu-se à bancada no fundo da sala, esticou o braço e ligou o botão na chaleira do outro lado. — Há uma coisa que você podia fazer — disse, de costas para a sala. — Estamos criando uma caixa de lembranças para Emma. A professora dela sugeriu. A gente pede que as pessoas escrevam as lembranças que elas têm da Jessie... boas recordações, sabe? Coisas boas que aconteceram. Dias bons. Para que, quando ficar mais velha, Emma ainda possa ter... um retrato completo de como a mãe dela era. O que cada um achava dela.

— É uma ideia ótima. — Suzanna pensou na prateleira da loja que tinha um pequeno santuário de coisas de Jessie.

— Achei que fosse.

— Um pouco como as nossas vitrines, suponho.

— Sim. Jessie era boa nisso, não era?

— Melhor do que eu. Acho que não vão lhe faltar lembranças desse tipo. Boas, quero dizer.

Cath Carter não disse nada.

— Vou... vou tentar fazer alguma coisa que esteja à altura, que faça jus a ela.

A senhora se virou.

— Jessie fazia tudo plenamente, sabe? — disse ela. — Não foi uma grande vida, foi uma vida bem insignificante para alguns. Sei que ela não realizou nada de fato, nem chegou a lugar nenhum. Mas ela amava as pessoas, amava a família dela e era autêntica. Não escondia o que sentia. — Cath olhava para a foto acima do console da lareira.

Suzanna estava imóvel.

— Não... nunca escondia. Dividia as pessoas em sumidouros e radiadores. Sabia disso? Sumidouros são o tipo que está sempre infeliz, que querem lhe contar os seus problemas, sugar a sua vida... Radiadores são como Jess era. Ela aquecia a todos nós.

Suzanna percebeu, com algum desconforto, em que grupo talvez estivesse enquadrada. Cath já não parecia estar falando com ela: dirigia-se à foto, o rosto distendido.

— Apesar daquela tola, vou ensinar Emma a fazer o mesmo. Não quero que ela cresça assustada, cautelosa com tudo, só por causa do que aconteceu. Quero que ela seja forte e corajosa e... igual à mãe. — Arrumou a moldura, movendo-a imperceptivelmente na prateleira. — É isso que eu quero. Que ela seja igual à mãe dela.

Espanou um pelo inexistente da saia.

— Agora — disse — vamos tomar uma xícara de chá.

* * *

Alejandro levantou-se de repente no barquinho, fazendo-o balançar perigosamente, e, desgostoso, jogou o caniço no fundo. Na outra ponta, seu pai olhou para ele sem compreender.

— O que houve? Você vai assustar os peixes!

— Não tem nada beliscando. Nada.

— Já tentou uma dessas moscas? — Jorge mostrou uma das iscas artificiais muito coloridas. — Parece que eles mordem melhor nas iscas menores.

— Eu já tentei.

— Então uma linha de fundo. Acho que a sua flutuante não serve.

— Não é a linha. Nem a isca. Hoje eu só não estou conseguindo.

Jorge puxou o chapéu para trás.

— Odeio te lembrar, filho, mas é o único dia que tenho.

— Não sei mais pescar.

— É porque você fica se mexendo como um cachorro pulguento. — Jorge se inclinou e prendeu o caniço de Alejandro dentro do barco, depois pousou o seu ao lado do puçá do filho, com peixes atônitos, brilhantes. Estava quase completando a cota de seis a que seu bilhete dava direito. Ia ter que entrar na do filho em breve.

Mexeu-se no banco e pegou uma cerveja no cooler, segurando-a como uma oferta de paz.

— O que está havendo? Você sempre pescou melhor que eu. Hoje está parecendo um menino de cinco anos. Cadê a sua paciência? — Alejandro sentou-se, ombros encurvados. Seu ar antes abatido desaparecera nos últimos dias com a mesma segurança que as ondulações que ele causara no lago. — Venha — disse Jorge, com a mão em seu ombro. — Venha. Coma alguma coisa. Mais uma cerveja... Ou algo mais forte? — Deu um tapinha no cantil de uísque no bolso do colete de pesca. — Você mal tocou na comida.

— Não estou com fome.

— Bem, eu estou. E se você continuar saracoteando desse jeito, não vai sobrar nada na água num raio de milhas.

Eles comeram os sanduíches que Alejandro fizera em silêncio, deixando o barco à deriva no meio do lago. Não era um apartamento ruim, contou-lhe Jorge. Espaçoso. Leve. Seguro. Muitas enfermeiras jovens passando. (Ele na verdade não tinha dito a última parte.) Sim, ele ficara bastante impressionado com a região, a paisagem ondulada, as casas pitorescas, os pubs ingleses de pé-direito baixo. Gostou da tranquilidade desse lago, do fato de os ingleses terem consideração suficiente para reabastecê-lo de peixes todo ano. A Inglaterra parecia continuar a mesma, disse. Era tranquilizador, quando se via um país que já fora glorioso como a Argentina afundando, saber que havia alguns lugares onde padrões civilizados, um pouco de dignidade, ainda importavam. Alejandro lhe contara dos senhorios que o tinham rejeitado por ter a pele mais “escura”, e Jorge, bufando, dissera que o lugar obviamente estava cheio de imbecis e ignorantes.

— Se diz um país civilizado — murmurou. — E tem metade das mulheres usando sapatos masculinos...

Alejandro ficou olhando para a água durante algum tempo, depois virou-se para ele.

— Pode dizer à mamá — falou, e deu um suspiro profundo —, que estou indo para casa.

— O que tem de errado com um bom sapato feminino? Por que as mulheres deste país acham que precisam parecer homens? — Jorge parou e engoliu o último bocado do sanduíche. — Como disse?

Jorge se perguntou se o tinha ouvido direito.

— Sua mãe vai ficar feliz — disse com cautela. Depois limpou o bigode e tornou a guardar o lenço no bolso. — O que aconteceu? O salário não é bom?

— O salário é legal.

— Você não gosta do trabalho?

— O trabalho é bom. É bem universal, sabe. — Alejandro não sorriu.

— Você não consegue sossegar? É a sua mãe? Ela está te azucrinando? Ela me falou do cacho de cabelo... Sinto muito, filho. Ela não entende. Não vê isso como as outras pessoas. É porque ela não sai muito, sabe? Pensa demais nas coisas... — Jorge de repente foi massacrado pela culpa. Por isso sentia-se mais confortável com a reticência. As conversas inevitavelmente criavam constrangimento. — Você não devia deixá-la te perturbar.

— É uma mulher, pa. Ela está me matando.

O fato de eles estarem no meio de um lago de cento e vinte e um mil metros quadrados significava que ninguém viu os olhos de Jorge se arregalarem ligeiramente, depois se levantarem para o céu quando dele pronunciou um “Graças a Deus!” quase inaudível.

— Uma mulher! — disse, tentando não imprimir uma alegria evidente na voz. — Uma mulher!

A cabeça de Alejandro caiu para os joelhos.

Jorge endireitou o rosto.

— E isso é um problema?

Alejandro falou encostado nos joelhos:

— Ela é casada.

— E?

Alejandro ergueu os olhos, a expressão perplexa.

As palavras brotaram da boca de Jorge.

— Você está ficando mais velho, filho. Não é provável encontrar alguma que não tenha uma pequena... história — Estava resistindo ao impulso de dançar uma gigazinha em volta do filho. Uma mulher.

— História? Isso é só uma parte do problema.

Uma mulher. Ele poderia ter cantado isso, deixado o som irromper de seus pulmões. Repercutir na praia do outro lado do lago e voltar para ele. Uma mulher!

Alejandro tinha a cara escondida, as costas encurvadas como se estivesse sentindo uma dor profunda. Jorge se recompôs, tentou focar na tristeza do filho, incutir um tom mais sóbrio na voz.

— Então, essa mulher...

— Suzanna.

— Suzanna. — Jorge disse o nome com reverência. Suzanna. — Você gosta dela?

Era uma pergunta idiota. Alejandro levantou a cabeça, Jorge se lembrou de como era ser jovem, a agonia, a certeza e a incerteza do amor.

A voz do filho estava entrecortada, quebrada:

— Ela... ela é tudo. Não consigo enxergar nada a não ser ela, sabe? Mesmo quando estou com ela. Nem pisco quando estou perto dela, para o caso de perder...

Talvez, se Jorge fosse outra pessoa, poderia ter dito algumas platitudes sobre o primeiro amor, sobre como essas coisas ficam mais fáceis, sobre como tinha muita mulher por aí... e algumas, ele sabia, com seios parecendo melões maduros com cicatrizes imperceptíveis. Mas era o seu filho, e Jorge, ainda se esforçando para se conter, sabia que não devia dizer essas coisas.

— Papá? O que eu faço? — Parecia que Alejandro ia estourar de frustração e tristeza, como se o ato de revelar a causa de sua infelicidade não lhe tivesse trazido alívio, mas sim intensificado a sua dor.

Jorge de Marenas se endireitou, os ombros um pouco mais retos, a expressão digna e paternal.

— Você disse a ela o que sente?

Alejandro assentiu, triste.

— E você sabe o que ela sente? — O rapaz olhou para o outro lado da água. Por fim, tornou a olhar para o pai e encolheu os ombros. — Ela quer ficar casada?

Alejandro fez menção de falar, mas fechou a boca antes de lhe dar chance de formar palavras.

Se eles estivessem sentados lado a lado, Jorge teria passado o braço em volta do filho. Um tipo de abraço reconfortante, espontâneo, de homem para homem. Em vez disso, inclinou-se à frente e pousou a mão no joelho do rapaz.

— Então, você tem razão — disse. — Está na hora de ir para casa.

A água lambia o costado do bote. Jorge ajustou os remos, abriu mais uma cerveja e entregou-a ao filho.

— Eu ia te contar. Essa Sofia Guichane... a que mandou lembranças. — Ele se recostou no bote, dando graças a Deus em silêncio pela alegria da pesca. — A Gente diz que ela e Eduardo Guichane vão se separar.

* * *

Quando saiu, Suzanna encontrou com padre Lenny. Ele estava andando na calçada, com uma sacola embaixo do braço, a batina balançando.

— Como ela está? — perguntou, indicando a casa de Cath com um gesto de cabeça.

Suzanna fez uma careta, incapaz de transmitir o que sentia.

— Que bom que você a visitou — disse ele. — Pouca gente vai. Uma pena, mesmo.

— Não sei se ajudei — disse ela.

— O que está acontecendo com a loja? Você está indo para lá agora? Notei que ultimamente tem andado quase sempre fechada.

— Está... difícil.

— Aguente — disse ele. — Talvez você ache as coisas mais fáceis depois do inquérito.

Ela sentiu o aperto familiar de desconforto. Não queria depor.

— Já passei por alguns — disse ele, fechando o portão às suas costas. — Não é tão ruim quanto parece. De verdade.

Ela deu um sorriso forçado, mostrando mais coragem do que sentia.

— Acho que o seu amigo também não estava querendo muito, pelo que ele me disse.

— O quê?

— Alejandro. Disse que ia voltar para a Argentina.

— Ele está voltando?

— Uma pena, não é? Bom sujeito. No entanto, não posso dizer que o culpo. Não é a cidade mais fácil para a pessoa se adaptar. E ele passou mais perrengues do que a maioria.

* * *

Suzanna quase não pregou o olho à noite. Pensou em Cath Carter, em Jessie e em sua loja falida, vazia. Assistiu ao dia raiar, a luz azul entrando pela brecha nas cortinas de que ela jamais gostara, e observou o rastro prateado dos jatos dissecando silenciosamente o céu.

Depois, enquanto Neil catava as abotoaduras nas bancadas sentado na cozinha e metendo torradas na boca, ela lhe disse que estava indo embora.

Ele pareceu não ouvi-la.

— O quê? — disse.

— Estou indo embora. Desculpe, Neil.

Ele ficou imóvel, um pedaço de torrada se projetando da boca. Ela se sentiu bastante constrangida por Neil.

Por fim, ele retirou a torrada.

— Isso é uma piada?

Ela fez que não com a cabeça.

Eles se entreolharam por alguns minutos. Depois, ele se virou e começou a guardar coisas na pasta.

— Não vou discutir isso agora, Suzanna. Tenho um trem para pegar e uma reunião importante nesta manhã. Vamos falar sobre isso à noite.

— Não vou estar aqui — disse ela, calma.

— O que é isso? — disse ele, a incredulidade estampada no rosto. — É por causa da sua mãe? Olha, sei que tudo foi um choque para você, mas você tem que olhar pelo lado bom. Você não tem mais que viver com aquela culpa toda. Achei que vocês todos estavam se entendendo melhor agora. Você me disse que achava que as coisas talvez melhorassem.

— Eu acho.

— Então o quê? Tem a ver com filhos? Porque eu desisti, você sabe que desisti. Não comece a fazer com que eu me sinta mal por isso.

— Não é...

— É burrice tomar decisões drásticas quando não se está pensando direito.

— Eu estou.

— Olha, sei que você ainda está perturbada por causa da sua amiga. Eu também estou triste por ela. Ela era uma boa moça. Mas você vai se sentir melhor com o tempo, garanto. — Balançou a cabeça para si mesmo, como se confirmando o que disse. — Tivemos uns meses difíceis. A loja te deixa exausta, você sabe disso. Deve ser deprimente ter que trabalhar com o espaço parecendo... bem, com aquilo tudo ainda no ar. Mas as janelas vão entrar... quando?

— Terça-feira.

— Terça-feira. Sei que você está infeliz, Suzanna, mas não exagere, está certo? Vamos ver as coisas como elas são. Não é só por Jessie que você está chorando, é pelo que pensou que fosse a história da sua família, provavelmente até pela sua mãe. É pela sua loja. É pelo seu modo de vida.

— Neil... não é a loja que eu queria.

— Você queria a loja, sim. Ficava falando nela sem parar. Não pode me dizer agora que não queria.

Ela ouvira uma ponta de pânico na voz dele. A sua estava calma de um jeito quase anormal quando ela falou:

— Sempre envolve outra coisa. Eu sei disso agora. Envolvia... tapar um buraco.

— Tapar um buraco?

— Neil, eu sinto muito. Mas estamos nos enganando. Nos enganando há anos.

Finalmente, ele a levava a sério. Sentou-se com dificuldade na cadeira da cozinha.

— Tem outra pessoa?

A hesitação dela foi breve justo o suficiente para a resposta ser convincente.

— Não.

— E então? O que você está dizendo?

Ela respirou fundo.

— Eu não estou feliz, Neil, e não estou te fazendo feliz.

— Ah — disse ele com sarcasmo. — A grande conversa não-é-você-sou-eu. Então fomos reduzidos a isso.

— Somos nós dois — disse ela. — A gente não combina mais.

— O quê?

— Neil, você consegue dizer que é feliz? De verdade?

— Isso de novo, não. O que está esperando, Suzanna? Tivemos um momento difícil. Anda sendo um ano difícil. Tem gente que foi parar no hospício por menos tensão do que a que enfrentamos. Não se pode esperar ser feliz o tempo todo.

— Não estou falando de alegria. De ser feliz-feliz.

— Então é o quê?

— Estou falando... sei lá, de uma espécie de satisfação, um sentimento de que as coisas estão certas.

— Suzanna, as coisas estão certas. Mas somos casados... nem sempre vai ser um mar de rosas. — Ele se levantou, começou a andar de um lado para o outro na cozinha. — Você não pode simplesmente jogar tudo para o alto, fazer comparações, só porque não acorda cantando toda manhã. Tem que tentar melhorar alguma coisa, insistir em alguma coisa na sua vida. A vida é isso, Suze, é persistência. É um ficar com o outro. E esperar os bons momentos voltarem. Nós tivemos bons momentos, Suzanna, e vamos ter de novo. Você só precisa ter um pouco de fé. Ser realista nas suas esperanças.

Quando ela não falou, ele tornou a se sentar, e eles ficaram algum tempo em silêncio. Na rua, um dos vizinhos bateu a porta de um carro e gritou uma instrução para uma criança, depois saiu com o veículo.

— Você formará uma família, Neil — ela disse calmamente. — Tem muito tempo, mesmo que ache que não.

Neil levantou-se e aproximou-se dela. Agachou-se e pegou suas mãos.

— Não faça isso, Suze. Por favor. — Seus olhos castanhos estavam sofridos e ansiosos. — Suze.

Ela continuou olhando para baixo.

— Eu te amo. Isso não significa nada? Doze anos juntos? — Ele abaixou a cabeça, tentando ver o rosto dela. — Suzanna?

Ela levantou o rosto até o dele, os olhos firmes, não pesarosos o suficiente. Balançou a cabeça.

— Isso não basta, Neil.

Ele olhou para ela, ouvindo nitidamente a certeza em sua voz e vendo algo definitivo em sua expressão, e deixou as mãos caírem.

— Então nada vai ser suficiente para você, Suzanna. — Eram palavras amargas, cuspidas depois da constatação de que aquilo era realmente o fim. De que ela falava sério. — A vida real nunca vai bastar. Você está atrás é de um conto de fadas. E isso vai te fazer muito infeliz.

Ele se levantou e abriu a porta com força.

— E quer saber? Quando você cair em si, não venha correndo para mim, porque já estou farto. Está bem? Já estou farto.

Como já o magoara o suficiente, ela ficou quieta. Não disse que preferia correr este risco a viver com o que, finalmente percebeu, já sabia que seria uma vida de decepção.