A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 5 de 30 · parte 2/3

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A Manilha e o Libambo

3. A escravidão entre os africanos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

poder lundas.57

As tradições, as crônicas com o o Tarikh al-Fattash e o Tarikh al-Sudan, os relatos dos viaj antes e os tratados dos geógrafos quase nada nos dizem sobre com o se organizava o trabalho dentro dessas plantações e aldeias agrícolas, nem sobre a vida dos escravos. O que podem os inferir é que seria grande a quantidade de pessoas sob canga e que essa num erosa escravaria perm itiu que se am pliasse consideravelm ente a produção de alim entos. Com o o escravo consum ia apenas aquele m ínim o que lhe assegurava a sobrevivência, com o que era subtraído do produto de seu trabalho não só se sustentavam as classes ociosas e os aparelhos adm inistrativo e m ilitar das cidades-estados, dos reinos e dos im périos, m as tam bém se expandia o com ércio de alim entos. Para continuar com Songai com o exem plo, o arroz, o sorgo e o m ilhete, cultivados nas m argens periodicam ente fertilizadas pelas inundações do Níger, tornaram -se artigos que se negociavam ao

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longo do rio e com os nôm ades do deserto.

A colheita devia ser levada até os celeiros do palácio do rei ou da cidade m urada, ao caravançará ou ao m ercado. Não se tratava m ais de m eia dúzia de cabaças, cestas ou am arrados — a produção da fam ília. Para escoar a safra, era necessário, num continente que não adotou a roda, m obilizar um a fieira de carregadores — um a fieira de escravos a levar o peso que aguentassem — ou um a flotilha de alm adias, em cuj os rem os se punham escravos. A vencer as águas, a conduzir, onde a tsé-tsé o perm itia, um a tropa de burros, ou a cam inhar a pé, cobriam -se enorm es distâncias. Chegado do deserto no dorso dos cam elos, era principalm ente à cabeça dos escravos que o sal em barras saía do Sael,

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atravessava a savana e entrava na floresta. E com o m esm o tipo de carrego

abasteciam -se de cereais, nas franj as da areia, os azenegues (ou sanhaj as) do Saara.

Se o com um da escravaria aguentava o peso da carga, não era raro que escravos de confiança fossem encarregados de com erciá-la. E não apenas nos m ercados locais e nas feiras das cidades próxim as — com o, no fim do século

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XV, em Tom buctu, onde, conform e nos inform a Leão Africano, a venda de alim entos estava nas m ãos das escravas — m as tam bém em terras distantes. Podia até suceder — e sucedia — que se incum bisse um escravo de acom panhar, num a caravana, os bens do dono, de defendê-los dos salteadores e de lhes dar destino.

Que certos escravos cum priam funções de prepostos do dono e eram incum bidos de transportar e com erciar as m ercadorias do am o — entre as quais podiam incluir-se outros escravos — é fato conhecido em quase todos os sistem as escravocratas, até m esm o naqueles m ais desum anizadores. Ibn Haj ar, escrevendo no Cairo m am eluco, conta, por exem plo, que os m ercadores locais costum avam em pregar escravos negros no com ércio a longa distância, acrescentando que não conhecia um só dentre esses que tivesse ficado no

estrangeiro. Todos voltavam à casa do dono, e um deles após 20 anos. 61 Correm histórias sobre escravos m andados do Brasil à África pelos seus senhores para com prar cativos e trazê-los nos navios negreiros. E relem bro o que narra Coelho Neto num belo rom ance, inj ustam ente esquecido, Rei negro, de todas as obras de ficção que li sobre os escravos no Brasil a que m elhor se levanta de um a realidade cuidadosam ente observada. Em Rei negro, o escravo Macam bira, além de ocupar-se dos pagam entos e das cobranças do dono, era quem , de adaga à ilharga e garrucha no cinturão, lhe com andava a tropa de burros com as sacas de café a vender na Corte e delas prestava conta.

Voltando da ficção para a história, reproduzo o que nos conta David Brion

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Davis sobre um escravo de nom e Sim on Gray, que, na m etade do século XIX,

foi capitão, para o seu dono, de um a chata no Mississípi. O am o confiava-lhe grandes som as de dinheiro, com o qual Gray pagava os salários de um a tripulação que incluía hom ens brancos. Gray andava de pistola à cinta e com erciava livrem ente em nom e de seu senhor. Não era um caso isolado: m uitos escravos conduziam barra adentro, com o pilotos, os barcos que dem andavam portos norte-am ericanos ou antilhanos, e alguns outros, poucos, com andavam escunas e chalupas que percorriam as ilhas das Caraíbas ou faziam a cabotagem

na costa leste dos Estados Unidos. 63 Capitães dos navios, com erciavam tam bém as cargas que levavam . De dois deles, que deixaram escritas as histórias de suas

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vidas, o capitão George Henry e o capitão Moses Grandy, sabem os que, apesar da independência e do m ando de que desfrutavam , não se conform avam com a condição de escravos. Se Grandy pôde com prar a liberdade, George Henry acabou por fugir de seu senhor, preferindo, a ser capitão, m as escravo, de

um a escuna, o lavar, subalterno, porém livre, o convés de um navio. 66

O escravo arm ado — vigia dos bens do senhor, capanga ou soldado — é personagem antigo. Com ele com punha-se o grosso das tropas de arqueiros do Mali e a guarda pessoal do m ansa ou rei. E j á devia ir à guerra não só nos exércitos de Querm a, Méroe, Axum e Gana, m as tam bém nos pequenos grupos com que as aldeias e os m iniestados se davam com bate entre si. Quando, para rom per a dependência das tropas que lhe trazia a nobreza, o ásquia de Songai criou um exército perm anente, encheu-o de escravos. De escravos que não tinham , por estrangeiros, outras obediências nem lealdades de fam ília, linhagem ou clã.

Foi provavelm ente graças às peregrinações a Meca que os reis africanos aprenderam a usar m aciçam ente escravos nos exércitos. Do que observaram no m undo islâm ico, devem ter tirado as lições de com o aplicar os escravos para reduzir a posições subalternas os régulos, os aristocratas e os chefes de linhagens de cuj as tropas dantes dependiam e que dantes lhes prestavam um a vassalagem quase nom inal. Sabe-se de sobej o o quanto do que aprendeu no Cairo o m ansa

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Musa procurou aplicar no Mali. A seus antecessores, qual o m ansa Uli, que

tam bém foi a Meca, na sétim a ou oitava década do século XIII, não terão escapado certos aspectos da adm inistração m uçulm ana. Com o m anter escravos com o servidores do palácio e gestores do estado. Forasteiros, sem laços com as fam ílias aristocráticas, vinculados apenas ao dono, tinham eles condições especiais para preencher os ofícios políticos de absoluta confiança do rei, que os usava para contrabalançar ou neutralizar a força da nobreza. Se fossem eunucos, ainda m elhor.

Suj eitos inteiram ente a quem se considerava o m ais poderoso de todos os hom ens, m uitos desses escravos, fossem castrados ou não, transform aram o cativeiro em poder e, quando o rei era fraco de personalidade, tutelaram -no e, por interm édio dele, exerceram o m ando. Em m om entos de crise podiam até m esm o assum ir a chefia do estado. Com o Sacura, um ex-escravo que usurpou, no fim do Duzentos, o lugar do m ansa. Em alguns sítios, os escravos de corte transform aram o rei, o sultão ou o em ir num a figura ritual ou protocolar, num títere, e se sucederam no poder, form ando um a verdadeira elite de governantes escravos. E noutros, tiveram alguns dos cargos m ais im portantes a eles reservados.

Apoiar-se em escravos para robustecer o poder pessoal ou tornar-se um déspota apresentava seus perigos. Sem contrapesos, os escravos faziam -se exigentes, voluntariosos, rebeldes. Contrariadas, as tropas revoltavam -se. E os altos funcionários tram avam contra o soberano ou se enredavam em perfídias. Os abusos da soldadesca e dos funcionários escravos ou a excessiva predileção de um soberano pelos escravos podiam , por sua vez, provocar reações da aristocracia ou do povo. Assim se deu, por exem plo, no século XVII, no Caior (ou Kay or), quando os súditos se levantaram contra o dam el, ou rei, que

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privilegiava os tiedos, os soldados e adm inistradores escravos que tiranizavam

as m assas.69

O alto funcionário escravo era acatado porque o viam com o a boca, os braços e as pernas de seu senhor. Não tinha autoridade própria; refletia a do dono. Quando se tornava evidente que o escravo exorbitava em suas ações, isso era tom ado, m ais do que com o iniquidade ou im pudicícia, com o ignom ínia ou abom inação. Pois, em bora parecendo form ar nas classes dom inantes e desfrutando de suas benesses, esses escravos de corte, com pouquíssim as exceções, não se libertavam j am ais da baixeza de suas origens. Ainda que m anej assem o poder, não pertenciam à grei, continuavam a ser considerados inim igos que haviam perdido, ao se tornar escravos, o que neles pudesse haver de honra e até m esm o a condição hum ana. Prim eiros-m inistros, generais, controladores do fisco, m ordom os dos palácios reais, podiam decair, e decaíam , das posições de autoridade, prestígio e fausto, pois essas derivavam unicam ente de serem escravos do soberano. De um m om ento para outro, um vizir podia ser despido de suas funções, se assim decidisse quem dele era dono, e ser decapitado, em palado ou posto a lavar cavalos e a revirar estrum e.

Nos altos cargos do estado, no m ando dos palácios, no governo das casas senhoriais do Mali, de Canem -Bornu, de Songai, de Kano, de Zazau-Zária, de Ifé, de Oió e do Daom é, houve escravos e eunucos. Do Mali, sabem os que m ansa

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Musa apreciava, adem ais dos etíopes, os castrados turcos. Em Zária, diz-se que

foi a rainha Am ina, quando a cidade-reino ainda se cham ava Zazau, quem

introduziu os escravos capados, 71 72 que recebia dos nupes. Em Kano, atribui-se a iniciativa de entregar aos eunucos im portantes cargos do estado, inclusive a gestão do tesouro, ao grande sarqui Runfa, na segunda m etade do

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Quatrocentos. E entre os m ossis, em Dagom ba, os eunucos, poderosíssim os,

acabariam por controlar a adm inistração, 75 enquanto que, em Uagadugu, um dos principais m inistros, o cansaoga na, viria a ser reiteradam ente um

castrado. 76

Já no fim do século XV, quando o ásquia Muham ed reorganizou os exércitos

de Songai, surgiria um a novidade: os regim entos de eunucos a cavalo.77 Deles, contaram -se dois m il, num a só cam panha, segundo um a crônica do

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Quinhentos, ou quatro m il, conform e outra. No prim eiro daqueles textos, diz-

se que o ásquia, nas suas audiências das sextas-feiras, era acom panhado por 700 eunucos. Se essas cifras são corretas, a escravaria castrada devia form ar, em Songai, um a pequena m ultidão, pois m ais num erosos do que os guardas de honra

do rei seriam , com certeza, os encarregados dos haréns.80 E não só em Songai, m as em todos os reinos onde fosse de regra o cule, purdah ou encerro das m ulheres.

Consta que os songais 81 capavam alguns dos prisioneiros inim igos. Mais com o

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punição ou vingança do que para produzir servidores. Os seus eunucos iam

buscá-los entre os m ossis e os gurm as — castradores, ao que se diz, habilíssim os —, assim com o os hauçás os adquiriam dos nupes e talvez de Bornu. Cada eunuco representava o investim ento de vários cativos, um a vez que poucos sobreviviam à operação. Gustav Nachtigal, que viaj ou pelo interior da África entre 1869 e 1874, soube que, de cem rapazotes castrados, só trinta continuavam vivos, m as há estim ativas m ais drásticas, que dão a sobrevivência de apenas

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20% ou até m enor: de dois a três por cento. As taxas de perdas nos séculos

anteriores deviam ser sem elhantes, e tanto entre os nupes quanto em Bornu, na Núbia, em Uadai, no Darfur, na Etiópia ou nas costas da Som ália.

Tal qual sucedia no Oriente Médio e no Norte da África, eunucos, funcionários do estado, concubinas e com andantes m ilitares seriam exceções em m eio à m assa escrava. Essas situações de privilégio não estavam abertas a todos os cativos. Desde a captura ou a com pra, determ inava-se o destino do escravizado. Se fosse rem etido para um a aldeia, term inaria os seus dias a cavar a terra, a rem ar um barco ou, quando m uito, com o capataz de outros escravos. Se tivesse sido adquirido por um m ercador, poderia acabar os seus dias com o um dos seus agentes com erciais de confiança, a viaj ar e traficar em nom e do am o. Podia até excepcionalm ente enriquecer e, em m uitos lugares, possuir os seus próprios escravos. Mas não m udava de um estrato da sociedade para outro. Só podiam aspirar aos altos cargos do estado aqueles desde o início reservados para servir ao palácio. Dos paços de um m onarca podia-se cair para o trabalho braçal de abrir estradas, m as quem curtia o couro ou tangia bois não tinha a m enor possibilidade de um dia vir a ser arrecadador de im postos.

Dos escravos, os m ais m iseráveis talvez se aj untassem nas m inas. Ao seu núm ero pertenciam aqueles que, desde o século X, cortavam o sal no oásis de Kawar. Dos que cum priam corveia sem elhante, quatrocentos anos m ais tarde, em Tagaza, aperreados pelas m oscas e a beberem água salobra, ficou um

registro em Ibn Batuta.85 O m esm o viaj ante encontraria escravos dos dois sexos

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a cavarem o cobre em Takedda. E é provável que outros consum issem rapidam ente as suas vidas nos cam pos auríferos da África Ocidental. Pois das

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m inas de onde saía o ouro que os uângaras levavam a Jené, diz-se, em

Valentim Fernandes, que eram trabalhadas pela escravaria real.88

Tecelões, tingidores, ceram istas e curtidores podiam ser escravos, a labutar lado a lado, no m esm o ofício, com hom ens ou m ulheres livres. E havia os que executavam tarefas para as quais os seus senhores não se sentiam aptos ou cuj as técnicas não dom inavam . A de rem eiro, por exem plo. Ou as de cordoeiro e pastor, com o sucedia entre os iorubás, no século XIX, que punham os cativos

hauçás a retorcer fibras e a cuidar do gado. 89 A m aior parte, porém , passava os dias a tratar das roças, dobrada sobre a terra, com o exigiam as suas enxadas de lâm ina pequena e cabo curto, e a gastar-se nas lides dom ésticas, a ralar m ilhete, pilar inham e, buscar água, cortar lenha e varrer o terreiro. O seu dia a dia e o seu destino dependiam da condição de seu senhor. E esta, na m aior parte dos casos, do núm ero e do uso de sua escravaria.

Em quase toda a África, era rico e poderoso quem tinha m uitas m ulheres e m uitos escravos. Em certas partes, quem possuía grande cópia de gado. E noutras, quem som ava aos bois as m ulheres e os escravos. Um rei, um chefe, um hom em forte (o big m an de tantos relatos) podia acum ular, nos seus paços, m oradas e tulhas, m ilhete, sorgo, inham e, panos finos, plum as, peles de anim ais, pontas de lança e enxadas de ferro, fios de cobre, ouro em pó, contas de vidro e conchas raras, m as tinha por bem de capital, aquele que lhe gerava nova riqueza, ou o rebanho bovino ou a escravaria.

Onde a criação de gado não predom inava com o atividade econôm ica, a poupança m ais segura e rem uneradora era o escravo. Envelhecia, é certo, e podia, tam bém é certo, m orrer a qualquer m om ento. Mas antes de perder o viço ou falecer, pagava quase sem pre o seu valor em trabalho. Além disso, se m ulher, dificilm ente se finava sem gerar filhos e, hom em , podia, de arm as na m ão, prear cativos para o seu am o. O escravo era um investim ento: o único tipo de bem de capital verdadeiram ente privado reconhecido pelas leis costum eiras de grande parte do continente africano. E um a reserva im portante para os dias difíceis: quando a seca, as inundações ou os gafanhotos traziam a fom e, era o escravo o que se trocava por grãos.

Principal form a de riqueza reprodutiva, o escravo, no continente africano,

correspondia à terra na Europa. 90 Na África, era o trabalho, e não o solo, o fator

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de produção escasso. Por quase toda parte, tinha-se a terra, tradicionalm ente, com o um bem grupal. Não era tida apenas com o fator de produção e para uso dos contem porâneos; era a guardiã dos m ortos, a servidora dos vivos e a prom essa dos vindouros. Pertencia a todos eles, sendo teoricam ente alocada a quem dela precisasse, pela fam ília, a linhagem , o clã, a aldeia, a tribo ou o rei. Não tinha valor econôm ico próprio, m as o do trabalho que nela se punha. Enquanto na Europa a propriedade da terra era a precondição para que se tornasse produtivo o uso de escravos — e de servos, e de assalariados —, na África passava-se o contrário: só tinha acesso a grandes tratos de solos quem dispusesse de gente para cultivá-los. Daí a im portância de ter-se o controle efetivo sobre m uitas m ãos, fossem de m ulheres, filhos, parentes, agregados ou escravos. Na Europa — e tam bém , até m esm o por continuidade cultural, na Am érica — disputava-se a terra. Na África, nem em áreas de alta densidade dem ográfica (com o o sul de Gana, do Togo, da atual República do Benim e da Nigéria) se conhecia o m esm o tipo de com petição pela gleba, m as, sim , por gente. A im portância do solo dependia de que houvesse quem o pudesse cultivar.

Mas — cuidado! — não era a terra destituída de valor. Tão im portante era o seu controle, que os donos do poder — o rei, o chefe, o cabeça de linhagem — se arrogavam o direito de ceder-lhe o uso, ainda que em nom e da grei, com o m elhor lhes parecesse ou politicam ente conviesse, aos súditos, seguidores, fam iliares ou estrangeiros. Por todo lado, as aristocracias baseavam os seus privilégios na ficção de terem sido os prim eiros a ocupar a terra e ali erguer os seus lares, ou de a terem conquistado aos que chegaram prim eiro. E em pregavam o controle sobre o solo com engenho e astúcia, para m anter e am pliar os vínculos de m ando. Pois ninguém fazia verdadeiram ente parte de um a com unidade, se dela não obtivesse o uso de um trato de terra.

Em quase toda parte, o percurso de ascensão social de um hom em am bicioso passava pela aquisição de escravaria. Era a posse de um crescente núm ero de escravos o que lhe abria as portas aos títulos de prestígio, às posições de influência nas sociedades secretas, às chefias honoríficas e às insígnias de m ando. Se, na Europa, com o prim eiro passo para ser adm itido na aristocracia, o burguês rico devia tornar-se proprietário de terras, na África, as portas das classes dom inantes eram abertas pelo plantel de escravos. O próprio hom em com um , de aspirações m ais sim ples, tinha na posse do escravo o m eio m ais rápido de m elhorar de vida. Com o escravo, desobrigava-se de canseiras e trabalhos, ao m esm o tem po que fazia um a poupança.

De que a riqueza se contava em gente, há sinais claros. Eis um deles: os potentados africanos, em bora lançassem outros im postos (sobre a produção, sobre o trânsito de pessoas e bens, sobre o com ércio e sobre a m orte), baseavam na capitação os seus sistem as tributários, em vez de assentá-los, com o entre os europeus, nas taxas sobre o solo. Sabem os por boas testem unhas que assim se

verificava nos reinos do Congo e do Benim , no século XVII. 92 A Huegbadj a, que reinou no Daom é entre 1650 e 1680, atribui-se o ter criado um tributo sobre cada

um de seus súditos.93 E tem os exem plos m ais recentes: nos séculos XVIII e XIX, entre os axantes, cobrava-se im posto sobre todos os hom ens casados ou

talvez som ente sobre aqueles que fossem chefes de fam ília.94

Pagava-se o que se devia ao rei, ao chefe e aos seus prepostos, em espécie ou em serviços. Em cereais, em gado grande ou m iúdo, em tecidos e em dias de trabalho, a plantar e colher nas terras dos poderosos, a refazer o teto das suas casas, a cavar poços, a erguer cercas e m uros, a abrir cam inhos. Era assim entre

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os tim enés da Serra Leoa, para ficar num só exem plo do fim do século XV.

E, quando o valor do que cabia saldar-se era alto, provavelm ente se utilizava o escravo.

Com a escravaria, os povos vencidos e os vassalos com pravam a paz. Um a

centena de escravos — diz-nos a Crônica de Kano — foi quanto os cuararafas97 pagaram ao sarqui Yaj i, que reinou na segunda m etade do século XIV, para que

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este os deixasse descer da m ontanha em que se tinham hom iziado. Seu filho,

Kanaj ej i, continuou a cobrar-lhes tributo, e em dobro: duzentas cabeças.99 Sem sair da Hauçalândia, m as j á na m etade do Quatrocentos, era de rigor que o sarqui de Katsina, ao assum ir o poder, enviasse cem escravos ao m aí de

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Bornu. E m uito caro custou, em 1591, ao ásquia Ishaq, de Songai, o render-se

ao sultão do Marrocos: 100 m il peças de ouro e m il cativos.101

Se com o escravo se quitavam tributos, com ele tam bém se satisfariam outros com prom issos de alta m onta. Além de equivaler a pecúlio e a reserva de valor, o escravo funcionava com o m eio de pagam ento. Era m oeda na África, com o foi

m oeda em m uitas outras áreas do globo.102 Um a m oeda para as grandes transações e com a qual, entre vários povos, se cobria o preço de noivas, se resgatavam parentes aprisionados, se saldavam m ultas e liquidavam dívidas. Nem lhe faltava, para encaixar-se de todo na definição clássica de m oeda, o servir de unidade de conta e de m edida de valor.

Pode-se argum entar, contra a efetividade dos escravos com o m oeda, não só com o custo de m antê-los, os riscos de fuga, doença ou m orte, m as tam bém com a ausência de uniform idade entre eles: eram diferentes em gênero, idade e com pleição. Cabe contraditar, porém , que essas restrições tam bém se aplicariam ao gado bovino, o que não im pediu que fosse dinheiro em tantas partes do m undo, inclusive em Rom a. Se a m oeda em form a de escravo corria o perigo de desvalorizar-se por doença e de desaparecer por fuga ou m orte, tinha a com pensação de gerar j uros — e, às vezes, altos j uros — em form a de trabalho

e eventualm ente de prole. 103

Utilizava-se o escravo com o m edida de valor em m uitas regiões da África: no

Sudão nilótico e no Daom é, por exem plo, e entre os m andingas, 104 105 os acãs,

os iorubás e os hauçás. Possivelm ente esses povos desenvolveram critérios para atenuar ou corrigir a ausência de uniform idade. Não lhes faltaria o m esm o tipo de im aginação de que deram prova, j á na época do tráfico transatlântico, os europeus. Estes não dem oraram em estabelecer um a unidade ideal de escravo para m edir o valor dos próprios escravos, a cham ada “peça da Índia” ou “peça

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do Brasil”, que j á foi definida com o um a m edida de trabalho em potencial.

Um a peça era um indivíduo adulto, entre 15 e 25 anos de idade, 107 alto e atlético; m as podia ser com posta de um escravo e m eio, ou de dois escravos que fossem m ais j ovens ou m ais velhos do que o padrão, ou m ais baixos, ou m agricelas, ou sem um dedo ou alguns dentes. Três m olecões, de seis a 18 anos,

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com punham , por exem plo, duas peças. E dois indivíduos entre 35 e 40 valiam

um a.109 110 Sem elhante à peça da Índia era, entre os m endes, a “cabeça” de dinheiro: só que um a “cabeça” era qualquer escravo em perfeitas condições,

fosse m ulher, hom em ou criança. 111

Metaforicam ente, o escravo era a m oeda do poder. Os reis, os sobas, os caudilhos, os chefes e os m aiorais, ao doar escravos, conquistavam seguidores, am ansavam ou convertiam descontentes, asseguravam fidelidades e consolidavam vassalagens. Ao exportá-los, não só adquiriam as arm as e os cavalos necessários ao fortalecim ento dos exércitos, m as tam bém se abasteciam dos bens suntuários com que exibiam grandeza, consolidavam a prim azia do m ando e conseguiam m ais escravos.

Ostentava-se o escravo. Pois era um bem valioso: em m uitos lugares, o m ais valioso dos bens. O holandês Olfert Dapper, escrevendo na m etade do século XVII, diz-nos, baseado num conterrâneo com m uitos anos de África, Sam uel Blom m aart, que as m oradas dos hom ens ricos e poderosos do reino do Congo se

viam nuas de obj etos de luxo, a riqueza se m ostrando nos escravos. 112 Por isso, em quase toda a África, j ulgava-se de bom -tom deixar que a escravaria se dem orasse no ócio, a conversar em grupos ao redor da casa do am o e a dorm ir escarrapachada nas varandas. Exibir grande núm ero de escravos na inatividade era prova de que se podia esbanj ar riqueza, e correspondia a consum i-los conspicuam ente. O que tam bém se fazia, m atando-os. Sirva de exem plo aquele chefete duala que, incapaz de façanhas guerreiras, m andava cortar a cabeça aos escravos, para, com o se fossem troféus de batalha, com elas adornar os seus

paços. 113

Um a form a elevada de consum o era im olá-los aos grandes que m orriam . Nos funerais do rei, do chefe ou de quem fora seu proprietário. Nos ritos para honrar ou aplacar os deuses. Nas cerim ônias propiciatórias das chuvas ou das colheitas. E até m esm o para levar m ensagens, no além , aos antepassados. Atesta-se o sacrifício do escravo às divindades e aos m ortos em quase toda a África subsaariana. Desde o II m ilênio a.C., às dezenas e às centenas, em

Querm a. 114 Pois talvez fosse esse um dos seus usos m ais antigos.

Em Méroe, em sepultam entos do início de nossa era, encontraram -se

esqueletos no chão dos túm ulos dos poderosos. 115 Seriam escravos? E seriam escravos os que foram sacrificados em grandes núm eros — para não sair da

Núbia — nos sepulcros, do século IV ao VI, de Balana e Custul? 116 Ou seriam m ulheres e hom ens livres, esposas e servidores aristocratas do rei e de seus palácios? Walter B. Em ery, um dos arqueólogos que escavaram as tum -bas de Balana e Custul, presum ia que cada m onarca m orto levava com ele não só a rainha, m as todos os que dele tinham estado próxim os, paj ens, guardas, escravos,

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cavalos e cachorros. A m aioria, pela ausência de adereços, talvez fosse

escrava.

Não é tam bém de todo claro o que se passava em Gana. Em 1068, o cordovês Al-Bakri registrou que o rei era inum ado sob um grande dom o, na com panhia de

todos aqueles que lhe costum avam servir os alim entos, 118 sem esclarecer se eram livres ou escravos. Mas Ibn Hawkal, que andou por Sij ilm essa e Audagoste em 951, assevera que em Gana os ricos ou notáveis eram sepultados com suas

escravas, 119 e Ibn Batuta, quatrocentos anos m ais tarde, refere que, no Sudão Ocidental, se enterrava o rei com alguns de seus íntim os e de seus escravos, além de trinta filhos e filhas de notáveis, após lhes partirem os ossos das m ãos e dos

pés. 120 Mais de 16 m il túm ulos em dom o, com o o descrito por Al-Bakri, foram encontrados nas atuais Repúblicas do Mali e do Senegal. Num dos prim eiros a serem trabalhados pela pá do arqueólogo, em Koi Gourrey, havia dois senhores, talvez o alto dignitário e seu m elhor am igo ou servidor, acom panhados por entre

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25 e 30 pessoas.

Esses côm oros artificiais, com suas câm aras funerárias, m isturam -se, na região de Sine-Salum , com outros tipos de sepulcro, característicos da bacia do rio Gâm bia: os m onólitos e crom lechs, ou círculos form ados por pedras

trabalhadas e em pé.122 Desses m onum entos líticos j á se localizaram , na Senegâm bia, quase sete m il. Os m ais antigos datariam da segunda m etade do

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prim eiro m ilênio de nossa era. Os m ais novos, talvez do século XVII, pois os

círculos de pedra, do m esm o m odo que os túm ulos em dom o, continuaram a ser erguidos por m uitíssim o tem po. De que os reis m andingas, no início do Quinhentos, ainda se enterravam sob dom os de terra e seguindo rituais

sem elhantes aos de Gana, ficou um registro em Valentim Fernandes.124

Estam os à beira de um crom lech recém -escavado. No fundo, há dois corpos hum anos, deitados de lado, as cabeças voltadas para o nascente. Estavam cobertos por um a cam ada de terra, sobre a qual se m isturavam , em desordem , outros esqueletos, com o se tivessem sido sacrificados ao pé da cova e lançados

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de qualquer j eito dentro dela. É evidente a diferença de tratam ento entre o

m orto e o seu ou a sua principal acom panhante, postos de form a respeitosa no túm ulo, e os que foram im olados em honra deles ou para segui-los na m orte. Inclino-m e a crer que fossem escravos. Com o escravos poderiam ter sido tam bém os cinco ou m ais indivíduos que se encontraram sobre o teto da câm ara funerária de um alto dignitário inum ado em Igbo-Ukwu, bem m ais ao sul, na

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Ibolândia, no sudeste da Nigéria.

Os europeus, ao chegarem à Costa da África, registraram , em distintos lugares, rituais de sepultam ento envolvendo sacrifícios hum anos. Os seus textos são claros: acom panhavam o rei ou m orto im portante não só alguns dos que lhe estavam próxim os, m as tam bém cativos. Volto a Valentim Fernandes e leio, por

exem plo, que, quando lhes m orria um régulo aos beafadas,127 do rio Grande, na Guiné, enterravam com ele “a sua m ulher principal e o m aior privado e o m elhor escravo e escrava que ele tinha e o m elhor cavalo e assim algum as

vacas, cães, cabras e galinhas”.128 Cem anos m ais tarde, o holandês Pieter de Marees escreveria sobre os povos da Costa do Ouro que, ao finar-se um rei, cada um dos nobres que o tinham servido oferecia um escravo para acom panhá-lo no túm ulo, enquanto que os hom ens com uns endereçavam ao sacrifício um a de suas m ulheres ou algum de seus filhos. Todas essas pessoas eram decapitadas, e seus corpos, salpicados de sangue, enterrados com o soberano. As cabeças,

arrum avam -nas à volta do sepulcro.129 Um outro holandês, Olfert Dapper, nos assegura que, no reino do Benim , as pessoas im portantes eram enterradas com um certo núm ero de escravos. Conta-nos, de um a m ulher, ter ela ordenado, antes de falecer, que 78 escravos fossem m ortos para servi-la. Não só se sacrificaram os 78, m as, para arredondar a conta, foram abatidos m ais um m enino e um a

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garota. Da m esm a época é o testem unho do capitão Francisco de Lem os

Coelho. Vivia ele em Bissau, quando m orreu um rei cham ado Mahana. Durante todo o ano que duraram as cerim ônias fúnebres, sacrificaram -se 104 m oças e rapazes, dos m ais form osos e que, em bora escravos, iam , talvez por efeito de

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bebidas, cantando e bailando para o pé do túm ulo onde seriam arroj ados.

Dessas im olações feitas nas tum bas dos poderosos, os arqueólogos, de vez em quando, descobrem novos exem plos. Até m esm o onde não os esperavam , com o num cem itério em Katoto, no alto Lualaba, em covas do fim do prim eiro

m ilênio.132 Mas há outras que lhes escapam inteiram ente: a daquelas pessoas que, em bora im portantes, não o eram em grau suficiente para receber túm ulos que pudessem m ais tarde destacar-se na paisagem . Isto sabem os: em m uitas sociedades desconhecedoras do poder centralizado e nas quais a escravidão era do tipo dom éstico, faziam -se, no século XIX, sacrifícios rituais no sepultam ento

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de chefes de linhagem e de outros hom ens de relevo. Entre os ibos, por exem plo, um ou dois escravos acom panhavam o antigo dono na cova. Caso,

porém , esse fosse m uito rico, as vítim as podiam atingir a m eia dúzia. 134 O que não sabem os é se j á era assim antes do século XVI ou se a prática foi adotada posteriorm ente, acom panhando o crescim ento do tráfico de escravos no Baixo Níger.

São igualm ente raras as cicatrizes arqueológicas deixadas por outros tipos de im olações rituais, expiatórias ou propiciatórias, antes e depois das guerras, na celebração anual dos m ortos, na sem eadura e na colheita, para convocar e agradecer as chuvas ou para revitalizar a com unidade, renovar as suas forças e alim entar espiritualm ente o seu chefe. Assim , durante escavações na cidade do Benim , encontraram -se, a 12m de profundidade, num poço estreito, 41 esqueletos. Os ossos datariam do século XIII e seriam todos de m ulheres, que

parecem ter sido nele j ogadas, num a espécie de sacrifício ritual coletivo. 135 É possível que tenham sido m ortas durante cerim ônias sem elhantes às assistidas, em 1736, pelo holandês Abram Raem s. Nessa solenidade em honra ao pai do obá (o ugierha-oba), duas dezenas de pessoas foram decapitadas e lançadas num

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poço profundo, com o oferendas ao espírito do rei defunto.

O arroj ar em cacim bas os corpos de vítim as sacrificiais é m encionado na Viagem de Lisboa à ilha de São Tom é, escrita, na m etade do século XVI, por um

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piloto português e publicada por Ram usio. A prática continuava vigente em

1897 138 139 e é bem lem brada ainda hoj e na corte do obá do Benim . Segundo as tradições, só os escravos podiam ser im olados. E o eram , em datas especiais, no

correr do ano.140 Na cerim ônia de consagração das m içangas do rei, por exem plo, um cativo era decapitado, para levar ao Espírito das Contas o pedido de que concedesse sabedoria ao obá e o resguardasse dos feitiços e dos m aus desej os. E três escravos perdiam a cabeça, ao inaugurar-se do festival da colheita do inham e. Na época das chuvas, se estas tardavam ou se m ostravam insuficientes, ou se eram por dem ais abundantes e dem oradas, um a m ulher, depois de m orta, era içada ao alto de um a árvore, para que a Chuva e o Sol a pudessem ver. Im olava-se um casal de escravos ao deus das doenças, em caso de epidem ia. E um certo núm ero de escravos era sacrificado, quando o reino se sentia sob qualquer espécie de am eaça. Quase não necessito acrescentar que, ao falecer o obá, os escravos o acom panhavam , para o servir, pois a servidão

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continuava até depois da m orte.

Em 1539, três m issionários portugueses escreveram do Benim ao rei D. João III. Essa carta contém um a das duas m ais antigas m enções que se conhecem a sacrifícios hum anos com o parte do cerim onial de corte daquele reino (a outra é a

do citado piloto anônim o português). Alan Ry der142 j ulga difícil que a prática tivesse passado despercebida aos religiosos e m ercadores portugueses que os antecederam e, sobretudo, ao atentíssim o Duarte Pacheco Pereira, que a não m enciona no seu Esm eraldo De Situ Orbis, em bora aponte o canibalism o dos

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ij ós. Sugere, por isso, que a im olação de escravos tenha sido introduzida pelo

obá então reinante, com o um m eio de am pliar os seus atributos divinos. Talvez. Mas o que fazer com os esqueletos arroj ados no poço, j á no século XIII? O silêncio de Pacheco Pereira não é, para m im , inexplicável. Não só a gente do Benim resguardaria dos forasteiros os seus ritos m ais im portantes — e há relatos que nos m ostram com o os visitantes eram im pedidos de a eles ter acesso ou se viam expulsos dos locais onde eram realizados —, com o as execuções não despertariam m aior interesse nos europeus, por ignorarem o seu real sentido. É possível que as passagens de Duarte Pacheco Pereira pelo Benim — e por quatro

Continuar: parte 3 de 3