A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 5 de 30 · parte 3/3

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A Manilha e o Libambo

3. A escravidão entre os africanos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

vezes ele ali esteve144 — não tivessem coincidido com os m om entos em que se faziam im olações rituais de seres hum anos. Com o é possível que não tivesse o navegador e cabo de guerra português apreendido a sua verdadeira significação. Ou que, em bora delas tenha sabido, não considerasse oportuno incluí-las no seu relato. Afinal, o Esm eraldo, apesar de tantos trechos que a nós, hoj e, sabem feéricos, é um livro prático. Nele descrevem -se com a possível m inúcia os acidentes da costa, a profundidade dos ancoradouros, as entradas dos rios, o regim e das m arés, a incidência de febres, a natureza da flora, a riqueza anim al, a existência de ouro, gom as, pim enta e escravos, bem com o tudo o que podia ser útil à m arinhagem e ao com ércio, sem que o autor se detenha sobre os grupos hum anos, a não ser para fixar aqui e ali um a rápida vinheta. Em relação a eles, não m ostra m ais do que quatro preocupações: o saber se eram , ou não, islam itas, circuncisos, canibais e de trato que favorecesse os contatos e as trocas. Ao Benim dedica apenas m eia dúzia de parágrafos, m as um deles sintom ático: “Muitas abusões há no m odo de viver desta gente, e feitiços e idolatrias que deixo de

escrever por não fazer prolixidade.”145 Muita coisa viu e soube, portanto, sem delas deixar registro, porque não interessavam ao obj etivo de seu livro (ser um bom roteiro de navegação e guia de com ércio) e para “não fazer longo serm ão”, com o por várias vezes repetiu ao longo do texto.

Penso que os frades portugueses de 1539 denunciaram com o abom inável a decapitação de escravos, porque a reconheceram com o um sacrifício religioso. Se a tivessem tom ado — e isto pode ter sucedido com os seus antecessores — com o um castigo penal, não teriam tido diante dela m aior reação: estavam acostum ados aos crudelíssim os suplícios, às queim as nas fogueiras, aos enforcam entos, às decapitações e aos esquartej am entos que atraíam m ultidões às praças públicas da Europa. Ainda assim , as notícias sobre sacrifícios hum anos aparecem nos escritos dos viaj antes europeus. Eles sabiam com o reconhecê-los, m as sem espanto, leitores que eram das histórias da Bíblia e dos clássicos gregos e rom anos. Andrew Battel, um inglês que andou por Angola, na passagem do século XVI para o XVII, conta, por exem plo, que, antes de um a batalha, o chefe m ilitar dos im bangalas m atava a m achadadas um rapaz e dois hom ens. Dois outros indivíduos eram abatidos do lado de fora da cerca que protegia o cam po m ilitar, sendo em seguida sacrificados bodes, vacas e cães e servidos no que

seria um repasto sagrado. 146 Cem anos m ais tarde, os capuchinhos novam ente descreveriam essas cerim ônias, acrescentando-lhes cenas de antropofagia

ritual.147

Nas tradições de vários povos, o sacrifício de seres hum anos é lem brado com o a m ais alta oblação que se podia fazer às divindades. Entre os iorubás — e

a History of the Yorubas, 148 na qual o reverendo Sam uel Johnson recolheu as suas tradições, está, desde as prim eiras páginas, repleta de exem plos —, im olavam -se pessoas nos grandes festivais, antes das guerras, na fundação de um a cidade, para prevenir infortúnios, para acom panhar um obá m orto, para m andar recados e fazer pedido aos deuses. Havia até orixás, com o Ogum , que requeriam a oferenda anual de um ser hum ano. E povos, entre eles os ifés e os

ij ebus, 149 que tinham a fam a de virgular a vida da com unidade com sacrifícios hum anos.

Com o norm a, entre os vários grupos iorubanos, qualquer pessoa podia ser capturada para servir de oblata. Sendo de rigor, no entanto, anunciar-se a im inência do sacrifício, a gente da terra trancava-se em casa, e a m á sina caía sobre um forasteiro. Não faltavam ocasiões, porém , em que o oráculo nom eava a vítim a. E outras havia em que com punha o ritual ser ela fornecida por este ou aquele chefe. Quase sem pre, então, entregava-se um escravo, e o degolavam ,

enterravam vivo ou lhe am putavam os m em bros. 150 Tido com o o suprem o ato da liturgia, não era esse tipo de sacrifício frequente com o um padre-nosso. Reservava-se para as grandes cerim ônias, as grandes crises e os grandes m om entos. Se podiam ser num erosos os que acom panhavam no túm ulo um rei

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ou um fidalgo, os deuses eram m ais com edidos: não exigiam dos saôs, do sul do lago Chade, que sepultassem m ais do que um a criança ou um casal de

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adolescentes no alicerce de um m uro, para assegurar sua firm eza e inexpugnabilidade, e um escravo bastava com o em baixador. As im olações diárias ou em m assa de escravos e prisioneiros de guerra, que tornaram fam osos, no século XIX, os reinos do Daom é e do Benim , seriam exceções, em vez de regra. No próprio Benim , a m oderação em certos sacrifícios se im punha, até m esm o para valorizá-los. Afinal, o escravo tinha de continuar a ser considerado com o um bem de alta valia. Assim , se acreditarm os no que escreveu, entre 1786 e 1800, o capitão John Adam s, consagravam -se anualm ente apenas três ou quatro escravos a Olocum , o deus do oceano, a fim de que esse dirigisse os

navios europeus aos portos beninenses.153 E entre os ij ebus, um a única vítim a era sacrificada por ano, em honra ao ancestral deles, Obanita, um ancestral que teria sido tam bém , talvez no tem po m ítico, um a oferenda hum ana, feita aos

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deuses pelo olouo ou rei de Owo.

Nas regiões onde o islam ism o se im pôs com o religião dos m onarcas e das elites, os sacrifícios hum anos deixaram de ser públicos ou foram de todo abolidos. O escravo, entretanto, continuou a ser um a espécie de m oeda pia. Davam -se escravos de esm ola. E presenteavam -se com escravos os ulem ás. E os xerifes. E os hom ens tidos por santos. Um a espórtula do século XI ficou fam osa: a que Hum ai, o m aí de Canem , m andou entregar a quem o converteu ao m aom etanism o. A gratidão do rei valeu a Muham ed Mani cem escravos, cem

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cam elos, cem m oedas de ouro e cem m oedas de prata.

Utilizado com o vítim a sacrificial, dádiva, m oeda, bem de capital, ostentação, m ão arm ada, força de trabalho e reprodutor, era constante na m aioria das sociedades africanas a dem anda por escravos. Que podiam ser obtidos de diferentes m aneiras.

A prim eira fonte de escravos era a guerra. A m ais antiga e, com a razia ou gázua, que dela deriva, a atividade que m ais transform ou hom ens livres em cativos, ao longo da história. O vitorioso num a batalha ou num a série de batalhas, além de lograr o seu obj etivo principal — obter ou im pedir, por exem plo, o acesso a um rio ou ao m ar, abrir ou fechar um a estrada, vingar um a afronta, colocar um candidato à sucessão no poder, im por ou rom per vínculos de vassalagem —, arrastava consigo, com o butim , os derrotados ou, na m aioria das vezes, apenas suas m ulheres e crianças. Na África, o cativo, com o subproduto da vitória m ilitar, era um dos raros despoj os que não se consum iam no m esm o dia ou na m esm a sem ana da pilhagem . Ao ser capturado, era isto: um cativo. E,

com o advertiu Moses I. Finley, 156 só se convertia em escravo quando passava para as m ãos do traficante ou de quem o com prava.

Em certas regiões e em determ inados m om entos, conheceu-se, contudo, a guerra para gerar escravos. Tanto com fins econôm icos quanto políticos, pois,

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com o j á argum entou John Thornton, as operações m ilitares para recolher

cativos, na África, correspondiam às guerras por territórios na Europa. Era assim , som ando escravos a seu potencial hum ano, que os pequenos estados cresciam em poder e que os m édios e grandes se expandiam . Desde os séculos IX ou X, por exem plo, as tropas do reino de Canem e, depois, do de Bornu, que lhe sucedeu, atacavam periodicam ente os povos ao sul do lago Chade, com o obj etivo precípuo de escravizá-los. Outros reinos da savana faziam o m esm o, estabelecendo-se em alguns deles a rotina de um a grande cam panha anual para

prear cativos. Mas em Gana, no Tacrur, em Diafunu, entre os sossos,158 no Mali,

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em Songai, no Darfur, em Borgu, entre os j alofos, os nupes e os cuararafas,

nas cidades-estado hauçás e nos reinos fulos do Futa Toro e do Futa Jalom , os exércitos não se restringiam a produzir cativos em operações m ilitares de vulto, realizadas geralm ente após a conclusão das colheitas, quando se libertavam os braços das labutas agrícolas e os celeiros inim igos estavam cheios. Sem pre que houvesse necessidade de se conseguirem do com ércio transaariano cavalos, cotas de m alha, espadas, tecidos e outros bens para acrescentar o poder e o prestígio do soberano, lá saía um troço de cavaleiros para cercar um vilarej o e acom etê-lo de m adrugada, com o escopo de capturar os seus m oradores. Na razia, m atavam -se os velhos, os aleij ados, os que resistiam e, às vezes, todos os hom ens adultos. Os atacantes recolhiam as m ulheres, os rapazolas, as m ocinhas, os m eninos e as m eninas e os levavam , presos uns aos outros pelo pescoço, pelo libam bo ou por um a corda ou um a forquilha de pau.

Podia-se topar, num a trilha pouco frequentada, dois, três, quatro cavaleiros, cada qual com um a criança atravessada na sela, ou a puxar um garoto am ordaçado e de m ãos atadas. Ou quase a arrastar um adulto. Aquela brincava com as am igas do lado de fora da paliçada; aquela outra saíra de m anhãzinha para buscar água ao riacho; este se afastara da aldeia, em busca de gravetos para o fogo ou atrás de um cabrito que fugira; um acom panhava a m ulher a cam inho do roçado; outra punha a roupa a secar j unto ao riacho; e havia o que fora trocar cestos por m ilhete no m ercado m ais próxim o. Olaudah Equiano deve ter ouvido m ais de um a vez a história que nos contou com o sua: dois hom ens e um a m ulher o teriam arrancado, m enino, com sua irm ã, de dentro da própria casa. Na ausência dos pais, os ladrões de gente saltaram a cerca e os agarraram de

surpresa. 160 De surpresa tam bém teria sido capturado, em Ilexá ou Ilesha, o guri que viria a ser João Esan da Rocha, que enricou, ao voltar do Brasil para a

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Nigéria, e construiu em Lagos a fam osa “Water House”.

Os relatos de escravos, colhidos na África e nas Am éricas, no Novecentos, estão cheios de histórias com o estas: cum priam suas tarefas ou se divertiam perto da aldeia quando foram filhados por quem de tocaia. Dos ex-escravos adultos, quase todos hom ens, que S.W. Koeller entrevistou na Serra Leoa, na m etade do

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século XIX, 30% tinham sido sequestrados. Uns, por vizinhos; outros, por gente vinda de longe — e até de m uito longe. Os assaltantes tinham de ser rápidos: sair da área, com a presa, o m ais rápido possível, antes que os parentes e a aldeia dessem pela falta. Se possível, sem serem identificados, para evitar represálias. A prática, em bora viesse a m ultiplicar-se durante o tráfico transatlântico, era bem antiga e possivelm ente fora estim ulada pelas trocas transaarianas. Mas pode ter-se desenvolvido independentem ente do com ércio a distância. Para um grupo pequeno, obrigado a pagar com alguns poucos escravos o tributo a um outro m ais forte, o sequestro apresentava riscos m enores do que a

razia e, claro, a guerra. Já no século XII, o geógrafo Al-Idrisi 163 com entava, com certa aversão e m enosprezo, que, ao sul do Fezzan, os negros — ele usa a palavra sudan — costum avam roubar as crianças dos outros grupos, para vendê-las, e não viam nada de m al nisto.

Usavam -se artim anhas traiçoeiras para fazer escravos. Falsos am igos ou parentes invej osos ou ressentidos organizavam um passeio ou um a festa e, quando os convidados estavam distraídos, dorm itando ou sob efeito do álcool, eram am ordaçados, am arrados e conduzidos para longe. Por trilhas na m ata ou no fundo das canoas. E quase sem pre à noite, a fim de que não reconhecessem por onde eram levados. Nem sem pre, portanto, o escravo derivava da violência dos outros, do adversário ou do estrangeiro; algum as vezes, era produto da coação da sua própria gente.

Em m uitas sociedades africanas, tinha-se a escravização com o um dos castigos penais. Fazia-se escravo quem com etia assassinato, furto, sacrilégio, adultério ou ato de feitiçaria. E nem sem pre o culpado ou suspeito, m as, sim , em seu lugar, um a irm ã, um a sobrinha ou um m eninote da m esm a linhagem ou da m esm a aldeia. Ou, até m esm o, o indigitado com toda a fam ília.

Um devedor relapso ou um parente desse devedor podia ser escravizado, para saldar o com prom isso. Em m uitos lugares — e em alguns deles, com o entre os

fons 164 da Costa dos Escravos e os ij ós do delta do Níger, desde pelo m enos o

século XVII165 —, era com um em penharem -se pessoas. Um chefe de fam ília que necessitasse de recursos para cum prir um dever religioso, custear um funeral, pagar por um a nova m ulher ou até m esm o, num m om ento de crise, alim entar os seus, podia requerer um em préstim o a outrem , entregando-se a si próprio com o garantia, ou, o que era m ais com um , alguém que tivesse sob seu poder, geralm ente um a m enina ou m ocinha — sua filha, num a sociedade patrilinear, ou um a sobrinha, filha de sua irm ã, num a sociedade m atrilinear. A pessoa em penhada ficava em poder do credor, a prestar-lhe todo tipo de serviço, com o se fosse um escravo provisório. Se, m ulher, tivesse um filho, este pertenceria ao credor. A prole, do m esm o m odo que o trabalho, era tida com o um a espécie de j uros sobre o valor em prestado. Tirante isso, quem se dava ou era dado com o caução não perdia os seus laços de linhagem . Caso, porém , passado o prazo para o pagam ento da dívida, esta não se saldasse, a pessoa penhorada transform ava-se em escrava. Um credor podia tam bém , para corrigir a inadim plência, apoderar-se do devedor ou de um seu fam iliar ou dependente e fazê-lo escravo.

Nos casos de castigo penal e escravização por dívida, em bora o infeliz m orresse socialm ente para renascer em seu novo estado, continuava m uitas vezes em sua aldeia. Com o a com unidade não sentia ser im perioso vendê-lo e m andá-lo para longe, ficava escravo onde vivera com o hom em livre, pois dali não tinha para onde fugir de volta, condenado que fora por sua própria gente. Ou, pior, a obstar ainda m ais a fuga, pelas divindades, pela voz dos oráculos, com o entre os ibos. Levada um a disputa ou transgressão até os santuários de Arochuku, Agbala, Ibinokpabi, Kam alu ou Ozuzu, o áugure podia sentenciar o faltoso ou o

dem andado à escravidão.166

Distinta era a sorte das vítim as do abuso de poder. Não raro, um rei, um m aioral, um chefe de linhagem , um cabeça de fam ília, um tio ou irm ão m ais velho endereçava à escravidão e, assim , excluía do convívio do grupo, alguém que lhe era contrário, ou de quem desej ava a m ulher, um bem , um título ou um a posição, ou o parente incôm odo, ou aquele que lhe podia fazer som bra em qualquer atividade, ou sim plesm ente quem o aborrecia ou lhe desagradava. Tinham esses desventurados de ser rem etidos para o m ais longe possível.

Em m uitas sociedades africanas, cada vez que se findava um rei, um régulo ou um chefe, abria-se a disputa pelo poder. Os candidatos vencidos e suas m ães, m ulheres, filhos e principais partidários costum avam ser m ortos. Ou, quando m enos, em alguns lugares, a ter os m em bros am putados ou os olhos vazados. Com o aum ento do tráfico transaariano e, m ais tarde, do transatlântico, ao derrotado passou-se a dar com frequência um outro tipo de sum iço — e m ais lucrativo. Vendido com o escravo, era exilado para sem pre. A escravização funcionava, assim , com o desterro político.

Podia-se cair na escravidão por outros alçapões. O enj eitado, o órfão sem am paro de linhagem , a viúva sem prole e que não era acolhida entre as m ulheres do irm ão ou do filho herdeiro de seu ex-m arido, o irresponsável, o fraco de vontade, o que ficou sem fam ília ou perdeu seu apoio e, por isso, tornou-se indigente, tinham na escravidão a alternativa à fom e: vendiam -se a si próprios ou eram vendidos pela com unidade. Durante as grandes secas, o que sobrava de um a fam ília e até de um a aldeia podia, para sobreviver, pôr a corda no próprio pescoço. Um grupo que perdera sua colheita por causa de um a nuvem de gafanhotos, ou se vira sem reservas porque um a enchente ou um incêndio destruíra os seus celeiros, buscava salvar-se da fom e trocando suas crianças por

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com ida. Para alguns povos, com o os querebes da Tanzânia, não ter com o sustentar a si próprio era um a das m aiores ignom ínias que podia m arcar um ser hum ano, de tal form a que se tinha por um ato caritativo o transform á-lo em

escravo.168

Eram , no entanto, fáceis de contar, por serem poucos, aqueles que os castigos penais ou a extrem a pobreza reduziam à escravidão. Quase todos os escravos tinham origem na brutalidade arm ada ou j á nasciam em cativeiro. Herdavam estes últim os a condição dos pais, avós ou bisavós. E cresciam sob a violência ou, ao m enos, a tristeza de pertencer a outrem , a aprenderem a ser obedientes e dissim ulados, a rebaixarem -se, a apagarem -se, a se sentirem desprezados, a se saberem , em algum as regiões, um sem ovente que só valia pelo trabalho ou pelo prestígio que dele se tirava.

Talvez sej a aqui o m om ento de distinguir-se — com o ouço, desde há m uito, fazer Josué Montello, com a sua sensibilidade de grande rom ancista — entre escravo e escravizado, entre quem nasceu escravo, em fam ília escrava, e quem , sendo livre, foi reduzido ao cativeiro. Um e outro não podiam deixar de sofrer de m odo dolorosam ente distinto as suas respectivas condições. A captura, a desm oralização, a chibata, a corda ao pescoço e a peia, o desconhecim ento e o m edo do destino, a solidão, o desam paro e o desarraigam ento final, com a com pleta m udança de condição e de vida, deviam rasgar para sem pre a alm a do escravizado (sobretudo do adolescente e do adulto). Não eram poucos os que não suportavam o dilaceram ento e se m atavam .

Em m uitas partes da África, o filho do escravizado j á experim entava certa m elhora. Não podia ser vendido, a não ser, em alguns sítios, se com etesse falta grave. Ou gravíssim a. Nesses casos, contudo, corria outro risco: o de ser sacrificado aos ancestrais ou aos deuses. No processo de reum anização, de integração, geralm ente lenta, no m eio social que o cercava, o filho, o neto ou o bisneto do escravizado ia-se desvencilhando das am arras e dos vexam es. Mas nem sem pre de todo, pois, em m uitas com unidades, alongavam -se por várias gerações os deveres hum ilhantes que o vinculavam aos descendentes de quem fora dono de seus avós.

Tendo a escravidão, no continente africano, por principal finalidade o aum ento do tam anho, da riqueza e do poder do grupo, era natural que se incentivasse a escrava a ter filhos. Claude Meillassoux adverte-nos, porém , sobre a conveniência de distinguir-se entre a cativa escolhida para concubina e aquela

destinada aos trabalhos no cam po.169 No prim eiro caso, na África m uçulm ana ou tingida pelo islam e, os filhos nasciam livres. E o m esm o ocorria em algum as sociedades pagãs, nas quais o rebento da escrava com seu am o ou com um outro hom em livre acom panhava a condição do pai. Essas escravas, portanto, não geravam escravos, m as m em bros de pleno direito da linhagem paterna, e eram m uitas vezes, entre os m oslins, alforriadas após o parto. No resto do continente, prevalecia a regra de que era escravo o filho da escrava, ainda que de pai livre. Na m aioria das vezes, nas culturas de escravism o assim ilacionista, a prole da escrava com o am o não se confundia com o resto dos cativos e tendia a ser incorporada m ais rapidam ente à linhagem do senhor. E havia até casos, em sociedades m atrilineares, em que os rebentos de um hom em com sua concubina escrava, sendo livres, eram os únicos sobre os quais exercia a autoridade paterna, pois os outros filhos, que não pertenciam à sua linhagem , m as à da m ãe, obedeciam ao irm ão de cada esposa.

Os filhos da escrava concubina seriam sem pre desej ados pelo am o; os da escrava reservada aos trabalhos braçais, só quando não afetassem a produção. Daí que em algum as sociedades africanas não se incentivasse, entre os escravos, a form ação de uniões duradouras. Essas quase não se viam , durante o século

XIX, no reino de Bam um , em Mom baça e entre os axantes e os abrons. 170 Noutros grupos, de m atrim ônios inform ais m enos instáveis, quase não nasciam crianças. Ou estas m orriam pequeninas. Por falta de cuidados. Por desinteresse dos donos, que consideravam m enos caro com prar escravos do que criá-los, qual

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veio a suceder, durante o fastígio do café no vale do Paraíba, no Brasil. Os

bebês não deixavam as m ães trabalhar direito. E, para que ficassem quietos, em

Gum bu, no Mali, os enterravam na areia até o pescoço. 172

Não seria assim senão em alguns lugares. Chego a suspeitar de que as anotações oitocentistas europeias sobre com unidades nas quais as escravas não procriavam registram o que era invulgar, passando por cim a da regra. Só cham avam a atenção e m ereciam o apontam ento aqueles grupos nos quais as escravas evitavam a concepção, abortavam sistem aticam ente e m atavam ou abandonavam os recém -nascidos. Nas vilas agrícolas de escravos, por exem plo, seria com um a fam ília com m uitas crianças. Até m esm o em certas áreas rurais da Hauçalândia, onde os filhos e os netos de escravizados não m elhoravam de condição e podiam ser vendidos sem problem a, as taxas de nascim ento da população cativa não eram m ais baixas do que as prevalecentes entre as pessoas

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livres. Entre os ibos, os senhores tinham por dever costum eiro o encontrar

consorte para seus escravos. 174

Há quem pense, por sinal, que é tem po de arquivar-se a tese, que quase se teve por lei, de que não se reproduzem biologicam ente as populações escravas. Moses I. Finley, no seu fam oso artigo sobre a escravidão para a International

Ency clopaedia of the Social Sciences,175 j á nos advertira contra a falácia. E

Orlando Patterson 176 insiste, talvez com exagero: nas sociedades escravistas estratificadas, a m aternidade é a m aior fonte de escravos. Até m esm o naquelas regiões onde os escravos m achos eram três ou quatro vezes m ais num erosos do que as fêm eas, o núm ero de crioulos tendia, decorrido algum tem po após o início da im portação de cativos, a superar os chegados de fora. Para Patterson, seriam raros, nos anais da escravidão, aqueles casos em que os cativos, por desespero ou revolta, se recusaram a procriar. Isso em geral se dava onde e quando o regim e era particularm ente feroz. Na m aioria das vezes, sobre o abatim ento, a inconform idade, a indignação e a rebeldia, prevalecia o desej o de ter filhos, com o a robustecer no escravo a sua condição hum ana. Form ar fam ília, ainda que para lucro do senhor e sob o risco perm anente de vê-la desfeita, equivalia a construir um entorno de afeto e, assim , m itigar o desam paro e, sobretudo no caso do escravizado, rom per a solidão e desm anchar a estranheza da nova terra para a qual o levaram .

Há outra distinção por fazer, im plícita na de Meillassoux entre a escrava concubina e a escrava trabalhadora braçal. A escravaria podia procriar e, no entanto, não se reproduzir socialm ente, isto é, não gerar filhos que continuassem a ser classificados com o escravos. Em m uitas partes, os que nasciam e cresciam escravos não com pensavam as perdas com a alta m ortalidade (por doenças, m aus tratos e suicídios), nem respondiam a um a dem anda por braços que, nas sociedades escravistas, só raram ente deixava de crescer. Além disso, dos filhos gerados pelos escravos, não eram poucos os que j á vinham ao m undo livres ou eram alforriados ao nascer, na infância ou na idade adulta. Por isso, no Brasil da prim eira m etade do século XIX, em bora os escravos não se autorreproduzissem em núm ero suficiente com o escravos e os plantéis dependessem do tráfico transatlântico para se refazer, aum entou sem cessar, com o atestam os censos populacionais, o núm ero de negros e m ulatos, só que forros ou livres. Algo sem elhante se passava na m aior parte da África, onde a escravaria tinha de ser perm anentem ente renovada, para substituir os descendentes de escravos que, de geração em geração, iam deixando de ser escravos e se incorporando, parcial ou plenam ente, à fam ília do dono.

Se distinguirm os claram ente — com o faz Orlando Patterson — a reprodução biológica da reprodução social, podem os aceitar o que escreveu Marc Bloch

sobre o quão difícil seria a criação de gado hum ano.177 Para ele, nenhum a sociedade podia basear a sua econom ia no escravism o, a m enos que tivesse onde prear cativos com facilidade ou com o os adquirir a bom preço. Creio que dificilm ente os netos ou os bisnetos de um escravo continuam escravos, pois passam a ter acesso aos m eios de obter ou conquistar a liberdade, ainda que lim itada ou condicional. Contam -se as exceções, com o a do sul dos Estados Unidos, onde o ventre da escrava m ultiplicou a escravaria. Mas, no sul dos Estados Unidos, a m anum issão era incom um ou, dependendo do estado, proibida. Ali, era raro até m esm o que se alforriasse um filho de senhor com sua escrava.

Em boa parte da África, um hom em livre podia acrescentar aos seus escravos o que lhe desse o útero da cativa. Herdava escravos — do pai, do tio m aterno ou do irm ão, conform e o sistem a fam iliar, j untam ente com as m ulheres e os filhos do m orto. Aqui e ali, andando por terras que não as suas, recolhia do m ato — e os criava para escravos — os recém -nascidos que as m ães lançavam fora por m otivos religiosos, ou porque fossem gêm eos (com o entre os ibos da Nigéria e os querebes da Tanzânia, que os tinham por im puros e nocivos), ou porque apresentassem defeito ou m arca que os apontava com o física e espiritualm ente perigosos. Ele podia acolher com o escravo um estrangeiro à m íngua. Ou trocar por sorgo ou m ilhete algum a criança de um a com unidade próxim a acossada pela fom e. Se fosse um rei, um chefe ou um grande da terra, receberia escravos por tributo. Ou com o preço de um a noiva, caso cabeça da fam ília. Havia m esm o uns poucos grupos, com o os m endes, entre os quais devia obrigatoriam ente constar um escravo no pacote de bens com que a fam ília do

rapaz contrapesava a cessão da m oça. 178 Algum a vez, tom aria escravos por pagam ento. Se j ovem , am bicioso e audaz, talvez se j untasse a com panheiros e fosse prear os seus cativos a grande distância. Era essa um a aventura envolta em

euforia,179 louvada pelos poetas e que podia, se desse certo, enriquecer o atrevido, dar-lhe as m ulheres que os velhos de sua com unidade lhe negavam ou fazer dele um hom em im portante. Mas, a m enos que tivesse força e gana para capturar pessoalm ente os que punha em cativeiro, ou que esses nascessem de suas escravas, o m ais provável, se queria tê-los, é que os com prasse.

Estes eram -lhe oferecidos em sua porta. Ou os ia buscar no m ercado m ais próxim o, no qual o escravo era exposto em áreas próprias ou ao lado dos cones de pim enta pilada, dos m ontículos de quiabo, do inham e, do sorgo, dos m ilhetes, das cabaças de azeite de dendê, das peças de caça, dos cabritos, das galinhas, dos cestos, da cerâm ica, dos tecidos, das m içangas, das folhas, das nozes, das raízes e das pedras m edicinais. Os m ais caros vinham de sítios rem otos, para onde não pudessem voltar. Passavam frequentem ente por vários interm ediários. E j á podiam ter sido escravos, por algum tem po, em outra parte. A história de m uitos deles não seria, assim , diferente das recolhidas por Francis de Castelnau entre

escravos, na Bahia, no final da quinta década do século XIX. 180

Com o o escravo era, ao m esm o tem po, um a reserva de valor e um a reserva de m ão de obra, um a com unidade (sobretudo um a pequena com unidade) procurava adquiri-los para contar com o m ais gente, ter, com isso, m ais prestígio e m elhorar sua posição relativa nas cercanias. A dem anda não era, assim , desenhada, a não ser em casos excepcionais, pelas necessidades produtivas. Não se adquiria um escravo apenas porque dele se tinha necessidade, m as porque era um bom investim ento. Valia por si só. Era, por assim dizer, dinheiro em caixa. Durante um a fase de bom clim a e abundância, não se continha a sua procura: davam -se grãos, panos e contas por novos escravos, sobretudo m ulheres, que procriavam , e crianças, que m ais facilm ente se aj ustavam à cultura local e se faziam da terra. Se sobrevinham , porém , m aus m eses, de seca prolongada, nuvens de gafanhotos ou insuficiência de com ida, lá se m andava em bora, trocados por alim entos, boa parcela dos escravos. Os próprios donos os levavam a vender em terras próxim as. Ou, então, os passavam aos m ercadores. E, de interm ediário em interm ediário, iam os escravos se afastando cada vez m ais de seus pagos.

Levar um escravizado para longe de suas origens podia significar, em certas regiões de paisagem aberta, com concentrações populacionais esparsas ou com com unidades da m esm a língua e cultura ou de idiom as e costum es aparentados, fazê-lo viaj ar 300, 500 ou m ais quilôm etros, até o poder trocar em país que lhe fosse de todo estranho e com cam inhos de volta que não saberia percorrer. Em outras áreas, de geografia acidentada, de grande densidade populacional e onde se j ustapunham , com o num m osaico, sociedades de distintas línguas e variadas culturas, bastavam 60km de viagem à noite, para j ogar o escravizado no desconhecido. Entre sua nova m orada e seu ponto de origem podiam intercalar-se dois ou três territórios habitados por povos hostis e até m esm o grupos por cuj as m ãos poderia ter passado, num processo de repetida revenda. Se tentasse a fuga, o m ais provável é que viesse a cair nas m ãos de um desses grupos vizinhos, que prontam ente o reescravizaria. A boa regra, contudo, era levá-lo para o m ais longe possível. E tanto era assim , que provinha, por exem plo, da distante Hauçalândia a m aioria dos escravos que labutavam , no século XIX, no reino ibo

de Aboh, logo a m ontante do delta do Níger. 181

Não que os cativos não procurassem fugir. Certam ente, fugiam . Um ou outro, prem iado pela boa fortuna, lograva retornar ao país natal. Alguns seriam acoitados ou adm itidos com o estrangeiros em pequenas com unidades e nelas acabariam assim ilados. Outros se congregariam em aldeotas de foragidos e dariam origem a novos agrupam entos sociais e até m esm o — conj eturo — a m iniestados. Aqui e ali aparecem m enções, quase sem pre discretas, a essas com unidades de escravos foragidos, nos textos europeus e nas tradições africanas. André Álvares d’Alm ada, escrevendo no fim do século XVI, refere, por exem plo, que, no país dos beafadas, na Guiné, num a península quase separada da terra firm e, m oravam , levantados, escravos fugidos de diferentes

partes da região. 182 E dos ij ebus, diz o reverendo Sam uel Johnson que eram tidos com o descendentes de um escravo que escapara ao sacrifício e se refugiara na

floresta, ou de cativos que o obá do Benim destinara ao deus do oceano.183

Que escravos lhes fugissem ou m orressem era um risco que corriam os traficantes e os senhores. As fugas durante os deslocam entos de escravos e a estada deles nas feiras debitavam -se aos custos da em preitada. Aquela era m ercadoria que tinha sobre as outras grandes vantagens, além do preço elevado e da alta procura: transportava-se a si própria, sem cuidar das dificuldades dos cam inhos, e transportava à cabeça ou aos om bros todo tipo de outros bens que j untam ente com ela se levavam ao com ércio.

Em bora, em geral, os grandes m ercadores se fizessem , em suas constantes viagens, acom panhar de escravos, nem sem pre esses estavam à venda. Podiam ser carregadores e até agentes com erciais, dos quais os donos não se dispunham a desfazer-se. O m esm o se passava com os preadores de gente: m uitas vezes, finda um a batalha ou um a razia, os vitoriosos dividiam entre si os prisioneiros, m as não os encam inhavam posteriorm ente aos m ercados; levavam para as suas aldeias a riqueza que cam inhava e lhes aum entaria o núm ero de seguidores, de braços na lavoura e de arm as na guerra. Tinham , além disso, num conj unto de escravos um pecúlio confiável.

Se os cativos pertencessem a um povo vizinho e ali não tivessem sido escravos, o m ais provável é que fossem trocados por outros, que os m ercadores traziam de longe. A conveniência de afastar os escravizados de seus lugares de origem , a necessidade de desfazer-se deles em m om entos de agrura e a tentação de utilizá-los para a aquisição de cavalos, arm as e obj etos de prestígio m ultiplicaram os m ercados de cativos na m aior parte da África — m as não em toda a África, porque houve nela áreas que não conheceram a escravidão ou que, conhecendo-a, não praticaram o com ércio de escravos. Antes da expansão do com ércio atlântico, não eram m uitos os que se punham , de cada vez, à venda. Seis, oito, um a dúzia, duas dezenas, na m aior parte dos casos. Os núm eros só chegavam às centenas onde o grande m ercador era o rei e, em geral, nas zonas vinculadas de algum a form a ao com ércio com o Mediterrâneo, o m ar Verm elho e o Índico.