A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 9 de 30 · parte 2/3

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A Manilha e o Libambo

7. Os lançados

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Dongo — e estabelecendo vínculos entre eles e as com unidades sefardins dos Países Baixos, onde vários tinham fam ília e am igos, expulsos de Portugal por D.

Manuel.45 E não só com elas, m as tam bém com a diáspora nas ilhas atlânticas, nas Am éricas e em outras partes da Europa. Graças a esses contatos, os seus negócios prosperaram , e de tal form a, que há quem diga que controlaram , a partir da segunda m etade do século XVI e por bastante tem po, boa parte do

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com ércio. Quando os barcos holandeses passaram a frequentar com m aior

assiduidade a Costa, m uitos desses lançados neles seguiam para Flandres, a fim de espairecer ou de fechar negócios. E não faltaram tam pouco aqueles que

foram aproveitar nos Países Baixos os seus dias de riqueza.47

Alguns tornaram -se donos de grossos cabedais. Ou hom ens poderosos. Com o um certo João Ferreira, natural do Crato. Esse cristão-novo, após em brenhar-se no continente, ganhou a confiança do senhor de Casão (ou Cação), sobre o rio Gâm bia, a um as 60 léguas do m ar. Fez-se seu valido e foi por ele m andado, com m ais gente sua, servir na capital do im pério do Grão-Fulo, que então com preendia o Tacrur, no vale m édio do Senegal. Lá, a fortuna ou o engenho o fizeram casar-se com um a das filhas do im perador, da qual teve um a m enina, e conquistar a am izade e a confiança do sogro. Tornou-se um dos hom ens m ais poderosos do im pério, a ponto de interferir nas disputas dinásticas. Conta-se, com efeito, que, no últim o lustro do século XVI, tendo falecido o im perador, abriu-se a disputa sucessória, na qual se opunham um irm ão e um sobrinho do m orto. João

Ferreira apoiou o prim eiro e o colocou no poder. 48 A esse lançado, a gente da terra deu-lhe o nom e de Ganagoga, que significa, no idiom a dos beafadas, “hom em que fala todas as línguas”, pois consta que João Ferreira podia atravessar a Guiné, fazendo-se entender por todos os grupos e a todos entendendo. Desej oso de volver aos portos do m ar (talvez para m elhor vigiar o escoam ento do m arfim que m andava do interior), o grão-fulo perm itiu-lhe que

levasse a filha consigo,49 o que revela a alta conta em que o tinha.

Não form avam os j udeus a m aioria entre os lançados, e suas com unidades deviam ser pequenas. Algum as, contudo, cum priam a condição do m iny an, isto é, eram com postas por m ais de dez indivíduos do sexo m asculino, com idade superior a 13 anos, o que lhes perm itia erigir um a sinagoga. Com o a que havia —

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o testem unho é de 1629 — em Recife, hoj e Rufisque, no Caior. Ou as que um

antigo governador de Cabo Verde, Jorge de Castilho, dizia, em 1641, existirem

em Joal.51 O m ais com um é que os j udeus vivessem entre católicos, com o eles igualm ente prófugos. Entre católicos que, em bora ciosos de sua condição, nem sem pre seriam tão cum pridores e devotos que não aderissem , parcial ou paralelam ente, aos cultos locais. Havia exceções, claro: os que continuavam a rezar diariam ente, a acender velas em oratórios dom ésticos e a ter saudades da com unhão na igrej a e dos ritos públicos da fé.

A origem dos lançados, quer vivessem nas aldeias africanas sem a com panhia de iguais, quer form assem nelas, ou fora delas, pequenas com unidades, era a m ais heterogênea possível. Havia entre eles de tudo: nobres, plebeus e ex-escravos, portugueses reinóis, cabo-verdianos de nascim ento e europeus de diferentes nações, brancos, m ulatos e negros aportuguesados ou m estiçados culturalm ente. Nem todos m ereciam os insultos que lhes dirigiu, no início do século XVII, o padre Manuel Álvares, nem se aj ustariam ao retrato que deles faria, trezentos anos m ais tarde, um escritor britânico, J.W. Blake. O prim eiro cham ou-lhes “idólatras, perj uros que desobedecem ao Céu, assassinos, debochados, ladrões da reputação, do crédito e do nom e dos inocentes e de seus bens, traidores” e “gente sem qualquer lei, sem respeito por nada que não os seus

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próprios apetites, sem entes do Inferno”. O segundo escreveu que form avam

um a antologia nada recom endável de aventureiros sem princípios, m ercadores

de escravos, exilados políticos e fugitivos da Justiça. 53 Prófugos, de um a form a ou de outra, quase todos eram . Mas nem sem pre por causas que hoj e seriam vistas com o m erecedoras de castigo. Alguns desertavam por m otivos religiosos — para recuperar o exercício da fé, no caso dos falsos cristãos-novos, ou para fugir do labéu de ím pios ou hereges. Outros, porque não tinham sido suficientem ente solícitos com os poderosos ou haviam reagido a seus abusos. Este, sim plesm ente porque desej ava m udar de vida ou tentar a sorte no encalço da riqueza. Aquele, para corrigir ou sepultar um desgosto, bem longe de tudo o que lhe dera m otivo. E um terceiro, porque as contingências da vida o levaram àquela form a de ganha-pão — dura, difícil e perigosa. Quanto a serem traficantes de escravos, isto, na época, não enodoava ninguém : reis, clérigos e nobres tam bém o eram , nos portos do Mediterrâneo, do Cáspio, do m ar Negro, do Atlântico, do Pacífico e do Índico. E todos os que iam de com ércio à África traziam escravos com o carga.

Fidalgo era Diogo Henriques de Sousa, que se estabeleceu, no início do século XVII, entre os beafadas, em Guinala, próxim o ao rio Grande. Vivia com os seus num conj unto de sobrados caiados, possivelm ente de adobe, cobertos de palha, e

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com alpendres frescos e som breados, onde recebia as visitas e os fregueses. De sua m orada, construída, com o se dizia na Costa, à portuguesa — um tipo de arquitetura m estiça, que viria a caracterizar, j untam ente com a fala em crioulo e o cristianism o, as com unidades de luso-africanos —, afirm ava-se que era um a casa-forte, talvez porque possuísse um a plataform a com canhões, operados por um artilheiro flam engo. É provável que D. Diogo tivesse, de início, as suas atividades am paradas por licença real, porém se tornou lançado, ao perm anecer

m ais de dois anos a com erciar na Costa. 55 É o que se pode deduzir do que sobre ele escreveu seu sobrinho-neto, o capitão Francisco de Lem os Coelho, na

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segunda das suas interessantíssim as descrições da Guiné. Conta Lem os Coelho

que um corregedor, no governo interino da ilha de Santiago do Cabo Verde, saiu a percorrer num a galé os litorais do continente, com o fito de capturar todos os portugueses que por lá achasse em situação irregular. Encontrando D. Diogo num navio, quis prendê-lo, com o fazia aos dem ais. Deve ter-se logo desculpado, ao sabê-lo fidalgo, m as não sem antes estranhar que ele devesse 600 cativos a duas naus ancoradas no porto. D. Diogo não tardou, porém , em saldar seus com prom issos com os capitães das em barcações. Tinha m eios de sobej o para isso, pois, de partida para Portugal, deixou com um prim o bastardo 22 navios.

O seu lugar na área foi tom ado por um outro português, tam bém branco, m as plebeu. Este levantou, pertinho de Guinala, num porto sobre o rio Balola, um a grande aldeia que recebeu o seu nom e: posto de Sebastião Fernandes. Ali enriqueceu, e tanto, que, ao decidir em igrar para a Índia, se dirigiu a Cacheu com 18 em barcações e um a carga de 1.800 escravos, m uito m arfim e algum

âm bar. 57 Não deve ter sido lem brada a sua condição de ex-lançado, quando recebeu em Portugal o hábito de Cristo e foi m andado de volta a Cacheu, com o capitão daquela praça, posto que não chegou a assum ir, porque m orreu.

Rico tam bém ficou Diogo Vaz, de quem sabem os que, em 1639, em Rufisque, adquiriu ao capitão norm ando Guibert, por 25 m il libras (um a som a enorm e para

a época), um a caravela que este tom ara aos espanhóis.58 O seu destino de lançado contrasta com o de outros, com o o do tam bém branco João Machado,

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que foi m orto na Guiné, aí pela quarta década do século XVI, ou o daquele

sovina a quem apodavam de Triste Vida e que viveu na Casam ansa, um pouco antes. Magérrim o, talvez fosse ainda m ais pobre do que avaro, pois não tinha

condição de oferecer às visitas um a noz-de-cola com um copo d’água. 60 Já Gaspar Vaz e Dam ião eram negros. O prim eiro, um m andinga, volvera, ao m enos exteriorm ente, ao islam ism o. André Donelha o conhecera cristão, na ilha de Santiago, escravo de um vizinho, o alfaiate Francisco Vaz, com quem Gaspar aprendeu a profissão. Depois, lançara-se no continente, sabendo com que apoios contaria, pois era sobrinho do chefe de Casão, um vassalo do bur de Salum , o

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borçalo das fontes portuguesas. Com o herdaria do tio, devia necessariam ente

m ostrar-se m uçulm ano. Vestindo o cam isão m andinga, levava sobre si num erosas nôm inas com palavras do Alcorão, m as dentro da roupa trazia,

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pendurado ao pescoço, um rosário de Nossa Senhora. Graças a Gaspar Vaz, Donelha pôde recolher, em 1585, várias inform ações sobre o curso do rio Gâm bia, do m esm o m odo que de um outro tangom ão, “hom em honrado, de ser e verdade”, Luís Lopes Rabelo, aprendeu o que pôde sobre o com ércio que no rio

do Nuno (ou Nuñez) faziam os sossos.63

Dam ião, escravo de um m orador da ilha de Santiago, Rodrigo Álvares de Óbidos, fora, no início do Quinhentos, para a Costa (ou para lá voltara, no caso de ser africano), num navio arm ado pelo seu am o. Chegado ao continente, desertou, se é que o dono não o fez ficar em terra, com o agente de seus negócios. Dam ião perm aneceu a serviço do rei de Casam ansa por cerca de 20 anos. Mas um dia quis voltar, com um filho, à ilha de onde partira, propondo-se a pagar o preço de am bos, a fim de que regressassem forros. Conservando-se católico, cansara-se de viver na Guiné, entre infiéis. O rei de Portugal atendeu-lhe o desej o e lhe

passou carta de alforria em 28 de m arço de 1548.64

Fidelidade sem elhante ao catolicism o dem onstrou um príncipe sape, cuj o pai fugira dos m anes para a ilha de Santiago. O filho retornou, em 1583, à Guiné, com o nom e de Ventura da Siqueira e se fez chefe de um bairro próprio, onde todos os negros se diziam católicos, num a vila próxim a a Cacheu. Em bora sem um pingo de sangue lusitano, ele, e não só ele, que falava o português ou o crioulo e sabia ler e escrever, m as tam bém os de sua com panhia eram voluntária e culturalm ente luso-africanos, consideravam -se portugueses, m as pertenciam a um conj unto de com unidades abertas, nas quais os que viviam ao derredor podiam incorporar-se sem dificuldade, assim com o facilm ente retornavam às

suas origens, se é que delas de todo se apartavam .65

As duas últim as histórias contrastam com a de Jorge Vaz, um branco saído tam bém de Santiago. Este j am ais m anifestou a m enor vontade de retornar à ilha ou ao convívio dos europeus, com os quais apenas com erciava. Rendeu-se inteiram ente aos costum es locais e abj urou o cristianism o, para adotar a religião

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dos negros.

Em bora obedecido por m ais de três m il sapes, Bento Corrêa da Silva não abandonou a crença de sua infância. Natural da ilha de São Tom é, ele se instalou, na com panhia de um irm ão, num dos esteiros logo após o cabo da Verga, na segunda m etade do século XVI. E para lá foi, pouco a pouco, trazendo a fam ília

e alguns am igos. A com unidade cresceu e chegou a cerca de 500 cristãos.67 Brancos, a viver protegidos pelos negros. E tam bém , naturalm ente, m uitos m ulatos.

Bento Corrêa da Silva devia gozar da confiança dos chefes sapes. Interm ediar os seus negócios. E até representá-los. Com o tantas vezes sucedia. E sucedeu com um certo cabo-verdiano que falava em nom e do dam el de Caior, na aldeia de Gaspar, no cabo Verde. Conform e observou o padre Alexis de Sainct-Lô, quando esteve a pregar na Petite Côte, entre 1634 e 35, esse lançado se

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africanizara de tal form a, que quase havia esquecido a língua m aterna. Tam bém bastante africanizado, ainda que m enos, devia estar aquele espanhol de nom e Juan Felipe, que vivia, na segunda m etade do século XVII, em Gueregue,

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casado com a filha do rei e com o se fosse um rei.

O êxito de um com erciante branco ou m ulato na Costa da África dependia não só de sua habilidade para copiar os m ercadores africanos, m as tam bém para vencer os riscos, sem pre grandes por toda a parte, de com erciar com os poderosos e em nom e deles. A alguns, os reis encarregavam que os abastecessem de produtos europeus, indianos e islâm icos. De quase todos, esperavam que com petissem com os uângaras e que dessa com petição resultasse um m elhor e m ais variado afluxo de m ercadorias e a m ais baixo preço. Para o lançado, o rei sob o qual vivia era geralm ente, a um só tem po, soberano político e parceiro com ercial. Em cada porto, o rei controlava as transações — quando delas não detinha o m onopólio — por m eio de um preposto, que, em geral, com binava os encargos de agente m ercantil com os de coletor de im posto. O nom e desse funcionário podia m udar — alcairos (alcatis ou alcaides) entre os j alofos, m axim in (ou m assa-j um ) entre os banhuns, j agarefes entre os pepéis — m as suas incum bências eram sem elhantes. Entre os j alofos, os alcaides recebiam os presentes (que correspondiam aos tributos devidos ao rei) e com pravam e vendiam em seu nom e, assegurando-se de que o bur tivesse a precedência nas trocas. Fundeado um navio, o alcaide e seus auxiliares subiam a bordo e autorizavam a ancoragem , após receber em m ercadorias o im posto devido. Assim se passava, por exem plo, na angra de Bezeguiche, no Caior, no

fim do século XVI.70 E j á por essa época, ou logo depois, alguns soberanos com eçaram a investir nessa função lançados de confiança. Com o aquele cabo-verdiano de Gaspar, que foi alcaide do dam el do Caior.

Os reis e os aristocratas recebiam o forasteiro com o hóspede e, com o hóspede, o protegiam . Dele esperavam , contudo, não só que lhes dem onstrasse reconhecim ento e fidelidade, m as tam bém que obedecesse às leis da terra e, de certa form a, lhes retribuísse a acolhida, pagando com presentes os tributos de vassalagem e, sobretudo, fazendo com que para seus portos afluísse o com ércio. Caso esta últim a expectativa se cum prisse, a presença do lançado, ou dos lançados, m ais do que j ustificaria o ter de aguentar gente grosseira, sem m odos, ignorante das coisas m ais sim ples e que dem onstrava pouca inteligência, pois resistia em aceitar o que era óbvio.

Os africanos sabiam , por experiência, que o aum ento do com ércio a distância acrescentava o poder de seus reis e de suas elites. Da atividade dos negociantes estrangeiros derivava para os detentores do m ando político um a série de rendim entos. Um navio, um batel ou um a canoa que chegasse tinha de pagar ao rei a ancoragem e a estadia, a água, a lenha e os víveres que recebesse, a autorização para com erciar, para cruzar um rio e para prosseguir viagem , bem com o um im posto por todas e cada um a das m ercadorias que viesse a

transacionar, im posto este que podia atingir, entre os j alofos, até 1/4 de seu

valor.71 E reis havia que som avam às taxas e aos im postos que auferiam os lucros de um com ércio que era exclusivo deles ou se realizava parcialm ente em seu nom e e benefício. Por isso, régulos pobres, senhores de povos que viviam nas regiões litorâneas, afastadas até então das grandes rotas m ercantis, puderam , pouco após a chegada dos estrangeiros, tornar-se, para os padrões africanos, ricos e poderosos.

A m aioria deles tinha am bição sem elhante à do m onarca português: m onopolizar o com ércio. Por isso, cada qual procurava controlar os m ovim entos dos lançados que protegia e tinha com o seus. Não fossem os tangom ãos favorecer, ainda que sem o desej ar, os inim igos dele, rei, ou agir em detrim ento de seus interesses. Quanto ao lançado, não se iludia sobre sua condição de dependente, m as tam pouco ignorava que num a aldeia de um rei, ou no com pound de um aristocrata, estava seguro. A sua pessoa não seria agredida nem seus bens tocados, sem castigo. Estava seguro, m as era, de certo m odo, em m uitos casos, um prisioneiro. Havia reis que se opunham a que deixasse a terra. Podia sair a m ercadej ar, m as se esperava que voltasse. Se resolvesse partir para outro destino, todos os seus bens ficavam com o soberano. E o m esm o se passava, quando m orria.

Essas regras aplicavam -se a todos, e não apenas aos estrangeiros. Nada do que existia deixava de ser propriedade do rei, por ser ele a fonte prim eira de toda riqueza. Os que viviam ao am paro de sua força só detinham dos bens o usufruto ou a posse passageira, durante a vida. Quando se finavam , tudo devia voltar ao soberano. Este podia, ou não, redistribuir o espólio, reservando m uitas vezes a sua m aior parte para os irm ãos ou, conform e fosse a sociedade, patrilinear ou m atrilinear, os filhos ou sobrinhos do falecido. Era assim que se efetivava e j ustificava a cobrança pelo estado, personificado no seu chefe suprem o, de um rigorosíssim o tributo sobre as heranças. Mas nisso podia ver-se tam bém um a

m otivação política: 72 im pedia-se que algum as fam ílias se fizessem tão ricas, que se pudessem erigir em polo alternativo de poder.

Na m aioria das vezes, o acordo tácito entre a chefia local e o estrangeiro funcionava. Este era acom odado num a cubata, quase sem pre na parte da aldeia onde viviam os adventícios, recebia um a m ulher por com panheira e ficava livre para contratar auxiliares ou adquirir escravos para seu serviço. Em geral, adaptava-se depressa à nova situação. Passava a banhar-se diariam ente ou m ais de um a vez por dia. Aligeirava as roupas, a fim de m elhor enfrentar a um idade e o calor, ou vestia-se à africana. Aprendia a proteger-se dos m osquitos, untando-se de óleo. E aderia às com idas locais, ainda que, de vez em quando, a saudade da terra natal, caso fosse um português e não um cabo-verdiano, assum isse, com o sói suceder com os exilados, o desej o de um a sardinha na brasa, de um pão de trigo quentinho ou de um a colher de azeite de oliva, tão distinto do de dendê no gosto e no odor.

Quase sem pre eram as m ulheres do lançado que lhe iam m oldando os novos com portam entos. Mas, se elas o africanizavam , ele — repito — as aportuguesava. E não só a elas, m as tam bém ao grupo de servidores que ia reunindo ao pé de si. Alguns eram sócios, com o os irm ãos das esposas, por exem plo. Outros seriam auxiliares a soldo ou trabalhando por com issões. Mas m uitos não passavam de escravos. E escravas podiam tam bém ser algum as das m ulheres que o lançado punha ao seu redor.

No com eço, tinha poucos aj udantes: o suficiente para rem ar um a canoa. Aos rem eiros cham avam grum ete, porque, rem ando, principiavam a carreira de em barcados. De iniciantes, porém , a m aioria não tinha nada. Na realidade, alguns eram excelentes barqueiros, acostum ados a todo tipo de rios ou a navegar com habilidade e segurança pela costa. O nom e pegou e passou a aplicar-se aos hom ens e às m ulheres que serviam aos lançados e m oravam ao lado deles, e vestiam -se à europeia, e construíam casas com o reboco pintado de branco, e falavam o português ou, m ais geralm ente, os crioulos que se iam desenvolvendo ao longo da Costa e nas ilhas de Cabo Verde. Os grum etes com eçaram com o rem eiros, carregadores, guias e criados, m as pronto se fizeram com pradores e vendedores em nom e dos patrões, e intérpretes, e m ensageiros, e pilotos, e construtores de barcos. Muitos deles j á sabiam com o escavar um a canoa, m as som aram os seus conhecim entos aos dos lançados, para fabricar batéis e navios a vela à europeia. Com o o com ércio dos tangom ãos se fazia ao longo do litoral e pelas águas das rias e dos rios, o seu êxito dependia necessariam ente das boas em barcações.

É certo que os lançados adquiriam dos europeus que frequentavam a Costa todo tipo de barcos. Em 1582, por exem plo, um capitão cham ado Fenton recebeu um a excelente oferta: trocar um pequeno veleiro de três m astros por um a boa

quantidade de arroz e de m arfim . 73 E em 1622, o governador das ilhas de Cabo Verde inform ava o seu governo do em penho que punham os lançados em

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adquirir lanchas aos franceses. Havia até os que com pravam caravelas, com o

aquele Diogo Vaz, que traficava no Rufisque. 75 Não podiam , entretanto, sem pre contar com essas aquisições, por m uito tem po clandestinas. Tiveram de construir seus pequenos navios a vela e suas galés. Para isso, dispunham de m ão de obra experiente e de m atéria-prim a de qualidade. A com eçar pela caboupa (a m esm a árvore que dava as folhas largas com que se envolviam as nozes-de-cola), que resistia aos verm es e dava ótim as pranchas.

A habilidade dos grum etes com o barqueiros aum entou a eficiência das

esposas africanas dos lançados. As tangom as, com o eram cham adas, 76 ou tungum as, passaram a frequentar m ercados m ais distantes e a m ovim entar-se m ais rapidam ente entre eles, não m ais apenas com o vendedoras de alim entos, m as para colocar e arrecadar alguns dos produtos que com erciavam os seus m aridos, com o a cola, a cera, o alm íscar, os panos, e o algodão com que os teciam , e o índigo com que os tingiam . As m ulheres tinham , aliás, um a vantagem de grande peso sobre os hom ens: até m esm o durante conflitos arm ados, não lhes

era negado, nem às crianças, o acesso aos m ercados dos adversários.77 Com isso im pedia-se a interrupção do abastecim ento norm al de víveres às com unidades em luta. Mas essa prerrogativa podia ser usada às avessas pelas m ulheres, para castigar um a cidade, um vilarej o ou um conj unto de aldeias. Ao se afastarem voluntariam ente das feiras de um a povoação sitiada, negavam -lhe parte dos alim entos que esta se acostum ara a receber e contribuíam para sua rendição.

Tam bém os lançados foram ganhando m aior m obilidade. Deslocavam -se, pelo m ar, de um esteiro a outro, arrastavam seus barcos por sobre a terra que separava um rio do que lhe ficava m ais próxim o e, dessa m aneira, passavam de um a bacia fluvial para a seguinte. Foram -se ligando a redes m ercantis africanas cada vez m ais am plas e atando nós de interesses com m andingas, niom incas, beafadas, banhuns, sapes e crus. Muitos aprenderam a guardar parte das m ercadorias com que trabalhavam em sítios que consideravam m ais seguros, às escondidas dos reis sob os quais viviam e fora do controle deles. E passaram a contratar com o auxiliares gente da terra, os cham ados grum etes.

Estes últim os usavam quase sem pre o sobrenom e do lançado que os protegia e era por eles protegido. E cingiam -se entre si por profundas obrigações de fidelidade. Lem bro um exem plo sangrento que nos dá Francisco de Lem os Coelho: havendo o capitão de um navio cabo-verdiano m atado à traição um lançado, os “negros do m orto deram em todos os brancos do dito navio, e sem

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ninguém os poder defender, m ataram dezessete” e m ais o assassino.

Os grum etes cham avam -se a si próprios “cristãos” e com este nom e, e tam bém com o de “portugueses”, ficaram conhecidos, em bora o cristianism o de alguns se reduzisse ao batism o, e o de outros, a nem isto, pois todos ou quase todos continuaram a sacrificar às divindades tradicionais, ainda que tam bém rezassem ao Deus e aos santos a que se haviam nom inalm ente convertido.

Quando o lançado m orria ou retornava à terra de origem , a sua clientela geralm ente continuava unida e a praticar o com ércio. Os escravos consideravam -se libertos, e a com unidade passava a ser com andada pela viúva que tinha sido a “m ulher grande” ou pelo grum ete m ais velho ou com m aior prestígio.

Algum as viúvas e filhas de lançados m antiveram e até am pliaram as aldeias e entrepostos criados por seus falecidos m aridos ou pais. E ficaram conhecidas com o grandes signares ou senhoras. Do século XVII, algum as nos acenam , vestidas à portuguesa, das portas de suas grandes casas caiadas e cobertas de palha. Com o a rica Senhora Filipe, de Rufisque, em cuj a residência, em 1635,

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havia um a capela onde se rezava a m issa. Ou com o um a outra que, 30 anos

m ais tarde, em nom e do rei de Caior, controlava o com ércio naquele m esm o

porto.80 Não lhe sabem os o nom e, a m enos que sej a a m esm a Senhorinha ou

Dona Catarina que, em 1681, acolheu em Rio Fresco Jean Barbot,81 e a m esm a Senhora Catti (um a abreviatura carinhosa de Catarina), com quem André Brue

se encontrou em 1697.82 Dona Catarina é descrita por Barbot com o um a negra de bela presença e tem peram ento alegre, e qualificada com o pessoa da m ais alta posição. No desenho que ele fez de Rufisque, a casa daquela signare se destaca, ao lado da habitação do alcaide e do aloj am ento dos franceses. Nessa casa, ela recebeu Barbot para um j antar. O visitante m ais do que estranhou a m aneira com o com iam a dona da casa e as outras personalidades sentadas nas esteiras — fazendo bolinhos nas m ãos —, com o se ignorasse que com as m ãos com iam não só os africanos, m as tam bém , por essa época, o com um dos portugueses. Já da Senhora Catti, diz-nos Brue que era m ulata e agente com ercial do dam el em Rufisque. E um outro visitante francês, o engenheiro Froger, descreve-a com o bela de rosto, desem baraçada e insinuante, aduzindo que exercia um dos cargos

m ais im portantes do reino.83 Quanto à inom inada que negociava pelo rei em Caior em 1665, é possível que fosse a m ãe daquela Dona Catarina ou Senhora

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Catti, a quem teria legado o patrim ônio e a posição.

Tam bém rica e influente era Dona Maria Mar, senhora de num erosíssim os escravos e de grande rebanho de bois. Vivia em Julufre, no reino da Barra, de Nium i ou Nhom i, às m argens do Gâm bia. Segundo François de Paris, que a

conheceu em 1682, ela era a segunda pessoa do país, só ficando abaixo do rei. 85

Na aldeia de Bintan, num afluente do Casam ansa, o Sungrugru (Songrougrou ou São Gregório), vivia e com erciava, sobretudo em noz-de-cola, algodão e panos, Madam e Agis. Essa m ulata detinha im enso prestígio não só entre os tangom ãos que lá m oravam , m as tam bém entre os banhuns. Fora casada com um português, de quem , ao enviuvar com m enos de 30 anos, herdou um bom patrim ônio. Para segundo m arido escolheu um capitão inglês, a cuj o nom e, Agis,

deu fam a.86

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Há tam bém o caso de Bibiana Vaz. Sua história, porém , não se passa num

contexto de poder africano. Vivia ela, na segunda m etade do século XVII, num a Cacheu com regras de conduta e com ando político portugueses, em bora a m aior parte da vila fosse, pela arquitetura e população, africana. Filha de um a pepel com um branco, Bibiana circulava com desenvoltura em am bos os am bientes e em outros m ais, pois, além de possuir um barco de dois m astros e outros m enores para percorrer a Guiné, estava estabelecida não só em Cacheu, m as tam bém , por m eio de um sobrinho, no rio do Nuno e, entre os m andingas, em Farim , e entre os banhuns, em Quim quim , e entre os ingleses, no estuário do rio da Serra Leoa, ou, m ais precisam ente, na ilha de Bance (ou Bence, Bunce ou George), onde a Roy al African Com pany havia construído, em 1670, um forte e um a

feitoria.88

Bibiana prosperou a vender, contrariando a legislação portuguesa, escravos e produtos da terra aos ingleses e a outros estrangeiros; e ficou m uitíssim o m ais rica, ao casar-se com um ex-capitão-m or de Cacheu, Am brósio Gom es (que acum ulara no cargo, com abuso de poder e peculato, um a das m aiores fortunas da Costa), e ao apropriar-se, ao m orrer o m arido, de toda a sua herança, esbulhando o filho que o finado deixara de seu m atrim ônio europeu.

Essa nhara Vaz deixou o nom e ligado a um a rebelião, em 1684, dos m ulatos luso-africanos e de seus associados, com o apoio dos pepéis, contra a política da Coroa portuguesa que lhes vedava o com ércio com navios de outras nações. Foi em torno dela que se aglutinaram os insurretos. Com o o capitão-m or José Gonçalves d’Oliveira se em penhasse em im pedir os negócios com os ingleses, foi ele preso e m antido com o refém , durante 14 m eses, na casa que Bibiana tinha em Farim . A revolta não se dirigia apenas contra esse funcionário da Coroa, m as tam bém contra a reorganização, sob outro nom e, da antiga Com panhia de Cacheu, que, desde 1676, pretendera deter o m onopólio do tráfico de escravos. Para tornar isto claro, os revoltosos em itiram um a proclam ação, na qual, “em nom e do povo”, se recusavam a reconhecer qualquer capitão-m or designado por Cabo Verde ou Portugal, enquanto não fossem ouvidos pelo m onarca português; se negavam a aceitar que fosse o com ércio de novo exclusivo de um a com panhia real; e reivindicavam que nenhum português pudesse doravante negociar com os africanos, a não ser por interm édio dos m ercadores estabelecidos na Costa. Do triunvirato escolhido para reger Cacheu, fazia parte um irm ão de Bibiana, Am brósio Vaz. Com o resposta, Lisboa enviou, em m aio de 1685, dois navios e um a sum aca, com tropas frescas e novas autoridades. Os cem soldados desem barcaram sem resistência. Bibiana, Am brósio e outros líderes do levante foram m andados para a ilha de Santiago. A nhara não ficou lá por m uitos m eses, pois, em j unho de 1688, j á estava vivendo em Quim quim . Frustraram -se tam bém os intentos para sequestrar os seus bens, pois os de m aior valia encontravam -se protegidos pelos reis africanos. Estes reagiram negativam ente à sua detenção. E tornaram tão claro o descontentam ento, que os funcionários portugueses encarregados de punir os revoltosos tiveram de conter-se, para não desatar um a resposta violenta dos soberanos e da nobreza da terra.

No início, os lançados buscavam o isolam ento, pois o isolam ento era um a form a de evitar a concorrência. Dispersando-se ao longo de um rio, cada qual procurava preservar a sua área de atuação e garantir a sua segurança, que passava a ser do interesse da clientela circundante. Assim , no fim do século XVI,

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viam -se, espalhadas ao longo do rio Grande, um as 50 casas de brancos, enquanto, no rio do Nuno, cada m ercador construía para os seus um pequeno

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povoado, com suas m ulheres, filhos e as fam ílias dos seus grum etes. Pouco a

pouco, porém , os lançados foram reconhecendo as vantagens de se vincularem com ercialm ente e de se reunirem em aldeam entos próprios, para m elhor proteção contra o que consideravam abusos da parte dos reis e dos nobres. E tam bém , para se resguardarem da discrim inação e da m arginalização de que se sentiam vítim as, em certas áreas, j untam ente com suas m ulheres e filhos m ulatos.

Os africanos não podiam deixar de reagir com decepção, desgosto, desconfiança, ressentim ento e hostilidade a essas tentativas dos lançados de se subtraírem ao pacto de hospedagem . Sentiam que, à m edida que aum entavam em núm ero e perm aneciam por m ais tem po na Costa — e calcula-se que só os cristãos-novos estabelecidos na Guiné e na Serra Leoa fossem , j á em 1546,

cerca de 200, alguns deles com m ais de 15 ou 20 anos de estada 91 —, os lançados se m ostravam m ais resistentes a cum prir as norm as sociais, a obedecer aos prepostos do rei, a acom panhá-los nas guerras, a pagar os im postos e taxas na form a de presentes, tendendo a considerá-los com o dádivas em vez de obrigação. Quando o rei ou o aristocrata que protegia um tangom ão m andava retirar de seus depósitos as m ercadorias que lhe eram devidas, esse se j ulgava furtado. E quando o lançado se preparava para partir de vez ou adoecia, não queria aceitar que seus bens voltassem ao rei, com o de norm a, e procurava escam oteá-los, escondendo-os neste e naquele navio que andasse por perto. Havia até m esm o alguns que, ao se sentirem enferm os, se refugiavam , com seus haveres de m enor volum e e m aior valor (ouro em pó ou em form a de j oias, m arfim , alm íscar, âm bar e tecidos), a bordo de algum barco. Para prevenir-se disto, tão logo, entre os j alofos, um estrangeiro adoecia, o alcaide local lhe

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m andava cercar e guardar a casa, dela não perm itindo que se tirasse nada. E

em m uitas outras partes da Costa fazia-se o m esm o. Em toda a Guiné, esclarece

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André Álvares d’Alm ada, exceto no rio de São Dom ingos.

Havia, além disso, o problem a da descendência dos lançados com as m ulheres africanas. Onde o regim e fam iliar era o da m atrilinearidade, os pais europeus tendiam a querer reter os filhos e, o que era pior, as filhas, um patrim ônio que, a rigor, não lhes pertencia. Muitos desses m ulatos sentiam -se parte de suas linhagens africanas e obedeciam ao rei. Outros aderiam ao lado paterno, consideravam -se portugueses e engrossavam as suas com unidades. Alguns deles com portavam -se, no trato com os africanos, com m aior em páfia e atrevim ento do que seus pais. Outros, com grande flexibilidade, astúcia e graça. Cham ados “filhos da terra” ou “do chão” (fidj us di tchon, em crioulo), fizeram -se, com o tem po, a m aioria dos tangom ãos. No porto de Julufre, por exem plo,

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restavam , na segunda m etade do século XVII, apenas “filhos da terra”.

Parte da culpa pelos crescentes desacertos cabia à parte africana. Vej a-se o caso da troca de presentes. Era de praxe que um súdito ou visitante que fosse ver o rei ou um a alta personagem lhe levasse um regalo, de acordo com suas posses, e recebesse outro em troca, geralm ente de m aior valor. O rei interpretava a dádiva recebida com o sinal de subm issão e respeito e, ao reciprocá-la, m ostrava sua grandeza e m unificência. O costum e aplicava-se não só aos com erciantes em trânsito, m as tam bém aos lançados da aldeia. Sendo estes últim os tidos por ricos, um a vez que dispunham , em m aior ou m enor quantidade, de m ercadorias que todos desej avam , o intercâm bio de dádivas tendeu a fazer-se em seu desfavor. Os próprios reis passaram a esperar receber m ais do que aquilo que davam . O costum e voltara-se às avessas. Com o com entou, num m anuscrito de 1616, o padre Manuel Álvares, quando um africano presenteava com um a galinha, queria de volta um bode, e quando dava um bode, era para receber um a

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vaca.

Tornou-se tam bém m ais rigorosa, geralm ente para obter com pensações m aiores, a apuração das ofensas dos lançados aos costum es locais. Anteriorm ente, antes ou após os ritos expiatórios, perdoava-se o estrangeiro que cortara um a árvore, por ignorar que abrigava um espírito. Agora, aum entava-se a im portância do agravo. Chai era a palavra que se em pregava, nos Rios da Guiné, para significar a quebra de um a proibição. Caso alguém com etesse um sacrilégio, podia provocar a ira grupal e ser m orto na hora. Mas, nas faltas m enores (e até nas sérias, com o o adultério), o costum e era levar-se o ofensor a j uízo, a um a corte em que o principal j ulgador era geralm ente o próprio rei. A ganância dos reis e dos nobres fez com que se abusasse do chai e se aum entasse o rigor dos castigos, não só a fim de extorquir bens dos estrangeiros, m as tam bém — o que era m ais com um e m ais grave — de aplicar aos locais a pena da escravização e, em seguida, vendê-los. O resultado foi que a própria palavra sofreu alteração sem ântica: chai passou a significar tam bém “ardil”, “intriga”, “engodo”, “trapaça”, “achaque”, “falsa acusação”, “calúnia”, “perfídia” e

Continuar: parte 3 de 3