A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 9 de 30 · parte 3/3

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A Manilha e o Libambo

7. Os lançados

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“fraude”. 96

Aos reis e aos j agras convinha que os estrangeiros vivessem dentro das aldeias, com a gente da terra. Era com grande relutância que consentiam em ceder-lhes terrenos para que neles construíssem povoações próprias. E punham -se preocupados quando os tangom ãos cercavam suas casas de paliçadas ou as arm avam com canhões. Tem iam , com bons m otivos, que seus hóspedes se

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transform assem em ocupantes indesej ados. Aqui o eram ; ali, não. Conform e o

j ogo de interesses. Conform e o m atrim ônio ou o divórcio das conveniências. A um soberano em cuj as terras os europeus e m estiços erguiam um a aldeia na qual se arm azenariam as m erces vindas do interior e de outros pontos da Costa, e para a qual afluiriam os navios, podia ser bem -vinda a concentração de forasteiros. Para esse rei talvez valesse a pena correr o risco de autorizar os tangom ãos a fortificarem o povoado, sob o pretexto de protegê-lo dos piratas europeus.

As facilidades do com ércio e o bom entendim ento com os locais transform aram em bases de operação dos tangom ãos a angra de Bezeguiche, onde ficava a ilha do m esm o nom e (depois Goréa), Recife (ou Rufisque), Porto de Ale (ou Portudal), Joal, Barracunda, Casão, rio Grande, o alto Cacheu, a foz do Pongo e a em bocadura do Nuno. Outras localidades tornaram -se prósperas, depois que os tangom ãos, para escapar ao controle dos príncipes locais e da hostilidade da gente da terra, saíram das aldeias africanas, onde se sentiam inseguros e suj eitos a repetidas rixas e até a m ortes, e se instalaram em povoações próprias, com o Farim (Tubodaga ou Tubabodaga) e Cacheu.

Os fundadores de Cacheu m oravam antes num a aldeia pepel, “debaixo da palavra e guarda” de seus hospedeiros. Por volta de 1590, cansados dos controles sob os quais viviam , obtiveram perm issão do rei para erguer ali perto um forte de m adeira, a fim de proteger o entreposto das arrem etidas dos navios ingleses e franceses. Construída a paliçada, fortificaram -na “com algum a artilharia”. Depois, foram paulatinam ente am pliando a área protegida e nela levantando casas, algum as assobradadas, para as quais acabaram por m udar-se. O rei pepel, Chapala, indignado com o que não podia deixar de qualificar com o engodo e traição, planej ou atacar de surpresa o estabelecim ento. Os seus planos foram , entretanto, revelados por duas tangom as aos portugueses. E estes, prevenidos, puderam resistir com êxito a um ataque que durou três dias. Não dem orou m uito, porém , e o interesse em m anter vivo o com ércio fez com que os pepéis buscassem a paz. Voltaram a ser am igos e sócios. E ficaram sendo duas as povoações, a nativa e a portuguesa. Os desta podiam , contentes e seguros, viver

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naquela; e os daquela, nesta.

Um outro caso: alguns anos antes, em 1581, vendo que os lançados da aldeia de Bugendo, um pouco m ais ao sul, estavam perdendo a paciência com a opressão dos banhuns, os quais tinham por hábito tom ar-lhes os chapéus e dar-lhes bofetadas, o sargento-m or da ilha de Santiago negociou com o m ansa de Casa, Masatam ba, a transferência daqueles portugueses e cabo-verdianos, acom panhados por suas m ulheres, filhos e grum etes, para um porto daquele rei,

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no rio Cacheu, onde ergueram um povoado, que tom ou o nom e de São Filipe.

Com o se pode ver pela intervenção do sargento-m or da ilha de Santiago, nem sem pre distinguiam as autoridades portuguesas os lançados dos com erciantes regulares. Nem estes, em geral, se com portavam de m odo diferente daqueles, em suas relações com os navios de outros países europeus que passaram , com m aior frequência, a partir da m etade do século XVI, a percorrer a Costa. Jean Boulègue, lendo os textos escritos em 1594 por André Álvares d’Alm ada, com enta que, enquanto em Joal, era clara a rivalidade entre os lançados e os com erciantes portugueses form alm ente habilitados, em Cacheu, praça-forte sob a bandeira de Portugal, os últim os atuavam com o se fossem aqueles e faziam o

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com ércio proibido com franceses e ingleses.

Alguns desses vilarej os dentro dos quais se entrincheiraram os lançados — quase sem pre à vista das águas e dos barcos nos quais podiam , com algum as dezenas de rem adas, refugiar-se — tornaram -se feitorias sem ioficiais ou oficiais, com o Guinala, Cacheu e Farim , ou passaram , no século XVII, a receber proteção e assistência, ainda que inconstante e desigual, das autoridades portuguesas. Mudaram estas lentam ente a m aneira de ver os tangom ãos. Ao se resignarem a contragosto com a concorrência de outras potências europeias, com eçaram a ver nos lançados e em seus descendentes luso-africanizados ou afro-aportuguesados elem entos de que se podiam valer para garantir o fluxo do com ércio e preservar seus interesses na Senegâm bia e nos Rios da Guiné. Em consequência, a legislação contra eles deixou de ser aplicada por volta de

1606.101

Em Cacheu, a paliçada erguida pelos lançados foi substituída, em 1641, por um a fortaleza de pedra. O vilarej o bem o m erecia, pois se tornara o principal porto para o em barque de escravos com destino às Am éricas. Era para ali que se dirigiam todos os navios negreiros com autorização e registro na Casa da Mina ou do contratador dos asientos de Castela. Sua prosperidade tam bém se devia a ter-se tornado o principal ponto de escoam ento no Atlântico da escravaria e outros produtos do im pério do Gabu. Os m andingas levavam para o porto de Farim os cativos de que queriam desfazer-se, bem com o um a grande quantidade de alim entos, que os tangom ãos e grum etes adquiriam , para abastecer Cacheu e as

em barcações negreiras. 102

As paliçadas, os m uros de pedra e a artilharia não libertavam de todo os m ercadores europeus e cabo-verdianos da tutela dos reis e dos nobres africanos. Até m esm o Cacheu pagava, com presentes periódicos ao rei local, o que se

poderia considerar o aluguel da terra. 103 Além disso, a praça-forte dependia de seu entorno para abastecer-se de m antim entos, e das estradas e dos rios controlados pelos africanos, para efetuar o seu com ércio — estradas e rios que podiam ser fechados a qualquer m om ento. Não pesava sobre os estrangeiros apenas a am eaça m ilitar, a que podiam fazer face com seus canhões e com a aj uda de um ou outro navio que defronte da feitoria estivesse ancorado. Os europeus encontravam -se, ainda quando à beira do oceano, cercados por todos os lados, exceto o do m ar. E, num m om ento de crise, bastava que as autoridades locais proibissem as m ulheres de ir vender na aldeia dos forasteiros, para fazer com que estes tivessem de voltar às boas com os da terra. Na m aioria dos casos, ao m udar-se de dentro de um a aldeia africana para um a povoação fortificada, apenas se trocava de hospedeiros. E, às vezes, pagava-se caro pela m udança. Cito um exem plo. Os m oradores de Guinala, talvez insatisfeitos com o controle que sobre eles exerciam os geralm ente am áveis beafadas, ou para se protegerem , com o alegaram , dos franceses, fortificaram nas proxim idades um a aldeia, na qual se congregaram ; m as, tão logo deixaram de viver nos com pounds dos nobres, para j untar-se e entrincheirar-se no que tom ou o nom e de Porto da Cruz, viram aum entar o preço dos escravos e de tudo o m ais que ao redor se vendia. Passaram , além disso, a ser m altratados pelos negros, que os acusavam de prevalecerem -se da força para estar indevidam ente na terra deles. E

sucederam -se os conflitos e as m ortes. 104

Ao longo de dois séculos e m eio, não houve um a evolução sim étrica no relacionam ento entre os nativos e os lançados. As atitudes recíprocas variaram no espaço e no tem po. Os diolas e os balantas j am ais perm itiram que os tangom ãos se instalassem entre eles. Os casangas e os sossos sem pre lhes foram favoráveis. Os beafadas daqui, bons hospedeiros, não m udaram j am ais de com portam ento, m as os dali passaram da acolhida cordial à hostilidade. E alguns outros povos, que eram reticentes ou até agressivos, renderam -se às conveniências do com ércio e deram aos lançados todas as facilidades. André

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Álvares d’Alm ada procurou explicar com o aprofundar do conhecim ento

m útuo a m udança verificada em m uitos lugares nas relações entre lançados e africanos. O prolongado convívio com os tangom ãos fez com que os da terra lhes descobrissem e até exagerassem os defeitos. Não só passaram a conhecê-los m elhor, com o não m ais ignoravam o que diziam entre eles. Pois o português acrioulado havia-se tornado a língua franca, ao longo do litoral e no espinhaço dos rios.

O êxito de um m ercador que se lançava nas costas da África não dependia, porém , som ente de suas relações com os africanos. Resultava tam bém dos laços que j á tivesse ou lograsse estabelecer com as praças europeias, com os navios portugueses e de outras nações que percorriam os litorais africanos e com os negociantes e arm adores das ilhas de Cabo Verde. Era graças a esses vínculos que ele obtinha os produtos e os créditos com que alim entava o com ércio e encontrava escoadouro para os escravos e dem ais artigos que trazia do interior para a beira-m ar. Quer atuasse com o agente de europeus ou cabo-verdianos, quer trabalhasse por conta própria, necessitava não só de parceiros externos que lhe vendessem e com prassem as m ercadorias que escam bava ao longo dos rios e nos desvãos da costa, m as tam bém que lhe levassem e aplicassem os lucros em Portugal, nos Países Baixos ou em outras partes do Velho Continente. Havia, claro, aqueles que transform avam em ouro os seus ganhos e o guardavam (com o faria, séculos m ais tarde, na Abissínia, o poeta Arthur Rim baud) em sacos com pridos que am arravam ao redor da cintura, ou em botij as enterradas em lugar seguro, m as m uitos preferiam investir em bens de raiz nas suas terras de origem ou no lugar para o qual lhes apontava o destino. A m aioria dos que sonharam com um a aposentadoria confortável ou opulenta longe da África não tirou proveito, ao que parece, das aplicações em quintas do Alentej o ou casas em Am sterdã. Os beneficiários dos que m orriam antes desses regressos cuidadosam ente urdidos foram geralm ente as esposas e os filhos que os aventureiros tinham deixado na terra natal, e os irm ãos, e os sobrinhos.

Durante m uito tem po, a aventura dos lançados não teve sentido prático sem a cum plicidade dos m oradores de Santiago. Até aqueles tangom ãos que nada m ais pediam do que um a vida africana e m ediam o seu sonho de riqueza pelos padrões locais — um a casa de taipa m aior do que a dos outros, várias m ulheres, m uitos escravos e num erosa clientela, vastas lavouras, tulhas cheias, currais com vacas e cabras, depósitos repletos de cerâm ica, cestaria, panos e contas — dependiam , para cum pri-lo e para engrandecer-se, do com ércio com a ilha. Isto não ignoravam as autoridades portuguesas, com o o dem onstra a série de m edidas legais para coibi-lo — m edidas que visavam tanto ao lançado quanto ao m orador cabo-verdiano que era seu sócio, patrão, credor ou agente.

As interdições da Coroa geraram o contrabando. Barcos cabo-verdianos saíam clandestinam ente do arquipélago — ou às claras, enquanto os funcionários reais se faziam de m íopes ou olhavam para o outro lado — e corriam os litorais africanos, a entregar aos tangom ãos, quase sem pre a crédito, m ercadorias proibidas e a receber deles não só os escravos que tinham acum ulado, m as tam bém as peles, os couros, o âm bar, o m arfim , as ceras e as gom as. Frequentem ente, o contrabando se em buçava de tráfico legal, e os barcos levavam escondidos nos porões tecidos da Índia, conchas, contaria, m anilhas de cobre e até ferro, a com pletar um a carga ostensiva de produtos de Cabo Verde com m ercado certo na Costa da África — o sal, os cavalos e o algodão.

O sal era obtido a custos ínfim os na ilha que por isso m esm o tom ou o nom e de ilha do Sal. E tam bém nas ilhas de Boa Vista e Maio. Em pequenos barcos — isto escreveu, pouco antes de 1623, o flam engo Dierick Ruiters —, os cabo-verdianos transportavam todo o sal que podiam para a Serra Leoa, onde com ele adquiriam ouro, m arfim e cola. Levavam a cola — um a m ercadoria, acrescenta o holandês, tão apreciada pelos negros que, entre eles, era com o ouro ou dinheiro sonante no bolso — para a Petite Côte e lá trocavam parte dela por panos. Seguiam depois para Cacheu, onde com pravam escravos com o resto da cola e os tecidos. Term inavam a viagem com entre 50 e 60 cativos, conseguidos com

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um sal que, de partida, praticam ente não lhes custara nada.

Quanto aos cavalos, fora a dem anda africana o que estim ulara a sua criação no arquipélago. Já num erosos na Santiago das prim eiras décadas do século XVI, os equinos de Cabo Verde não dem oraram em substituir, no escam bo, os europeus, graças não só às boas condições de pastagem e clim a da ilha, m as tam bém à proxim idade ao continente africano. Sendo curta a viagem , saía m ais barato o transporte dos anim ais, e quase todos chegavam vivos ao destino.

Foi tam bém em Santiago que se deu início, no arquipélago, ao cultivo do algodão. Logo depois, os algodoeiros ganharam a ilha do Fogo, onde as condições lhes eram ainda m ais propícias. Em bora antigo e am plam ente cultivado no continente — j á no século XI, ao sul do m édio rio Senegal, no Futa Toro, não

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havia casa sem seu pé de algodão —, o que ali se produzia deixara de ser suficiente para atender a um increm ento da dem anda por tecidos, a qual se vinha acelerando desde antes da chegada dos portugueses. Estes acom panharam essa expansão da procura e dela retiraram bom proveito.

Entre 1067 e 1068, Al-Bakri esboçava um retrato da Corte do gana. Nele, o rei e o herdeiro presuntivo traziam túnica e usavam um gorro bordado de ouro, envolto em turbante do m ais fino algodão, enquanto os súditos enrolavam -se,

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conform e suas posses, em longos cortes de brocado, seda ou algodão. O andaluz não m enciona com o traj ava a plebe, m as esta provavelm ente não se m ostrava com m ais do que um pano am arrado à cintura ou um a tanga de couro. De qualquer m odo, um século antes, o iraniano Ibn al-Fakih, na versão abreviada de sua enciclopédia sobre o m undo islâm ico, escrevia que em Gana a gente

usava, para vestir-se, couro de pantera109 e, duzentos anos após Al-Bakri, o geógrafo granadino Ibn Said afirm ava que a m aioria dos habitantes do Tacrur se cobria com peles de anim ais, enquanto que os que viviam m ais afastados, no m eio do m ato, andavam nus. Aduzia Ibn Said que som ente aqueles que tinham

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contatos com os árabes e os berberes traj avam roupas de lã ou de algodão.

O quadro não seria m uito distinto no im pério do Mali, em bora os testem unhos, centrados na vida da corte do m ansa, m ostrem quase todos os figurantes vestidos — e vestidos com requinte. Al-Um ari, escrevendo na m etade do século XIV, nos fala dos traj es brancos de algodão tecido localm ente e dos turbantes à m aneira árabe que usavam , e das largas calças que traziam o rei e os hom ens de m aior

prestígio. 111 Ibn Batuta confirm a o esboço: toda a corte aparece coberta com tecidos preciosos, até de seda bordada. Mas há um a exceção, para a qual o grande viaj ante reserva palavras de censura: as j ovens escravas serviam inteiram ente nuas a com ida no palácio do m ansa, e as que acom panhavam os

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seus hóspedes tam bém vinham despidas, sem cobrir sequer suas vergonhas.

É m ais do que provável que a m oda dos bubus, das túnicas e dos cam isolões tenha atravessado o deserto com os m ercadores islam itas. De roupagem restrita aos m uçulm anos, ela conquistou a aristocracia pagã e se foi depois estendendo aos que frequentavam as cortes e os m ercados. Em m uitos lugares, o traj e distinguia os grupos sociais, sendo vedada à plebe outra vestim enta que não a tanga de palha, de entrecasca de árvore, de pele ou de pano. Assim , em 1455, Cadam osto descreve o com um dos j alofos usando apenas um tapa-sexo de couro, m as acrescenta que os aristocratas e “aqueles que podiam algum a coisa”

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vestiam cam isas de algodão, tecidas por suas m ulheres. Cerca de 70 anos depois, a situação j á havia, porém , m udado, conform e podem os verificar em Valentim Fernandes. Narra ele que os grandes senhores j alofos usavam m arlotas de bons panos, enquanto que os hom ens com uns traziam bragas m uito largas e cam isas de algodão que desciam até os j oelhos. As m ulheres andavam em casa com um pano atado à cintura, m as, para sair à rua, punham um vestido longo que

lhes caía dos om bros. 114

Ao longo do litoral, predom inava ainda a situação descrita por Cadam osto: a aristocracia vestia calças e cam isolões de algodão; a arraia-m iúda cobria-se com

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saiotes de palha ou de pele de cabrito ou de outro anim al. No prim eiro ano do

século XVII, pouco havia m udado, pois Pieter de Marees ainda encontrou, na terra firm e defronte à ilha da Goréa, a gente com um a esconder as vergonhas com um pedaço de pano, enquanto que a elite traj ava bubus de algodão listrados

de azul.116 Em outros lugares, porém , desde havia m uito, j á se notavam alterações. Na Casam ansa do início do Quinhentos, por exem plo, os hom ens passavam por entre as pernas um a pele de cabra e assim andavam em seus com pounds. Se saíam da vizinhança, não deixavam de pôr sobre a tanga sum ária

um a cam isa curta e sem m angas. 117

Pouco a pouco, foram -se difundindo, nos m ais diferentes pontos da região, os costum es não só de vestir os vivos, m as tam bém os m ortos e os espíritos. Não se sabe quando — m as os telens das escarpas de Bandiagara j á o faziam no século X — se com eçou a inum ar os cadáveres envoltos em grande quantidade de tecidos, quase sem pre com padronagens especiais. Nem tam pouco em que época alguns grupos passaram a substituir por panos feitos para tal fim as roupas de palha ou de folhagem que cobriam os corpos dos que levavam as m áscaras dos espíritos. Com os plebeus podendo ter acesso a im itações baratas das roupagens da nobreza, e as novas vestes com petindo até m esm o com o prestígio das dantas dos acãs e com as tangas de contas das m ulheres pepéis, aum entara a procura pelas roupas feitas (os alquicés, as alj aravias e os alam béis) e pelas lãs m ouriscas, as sedas da China, os brocados da Pérsia, as m antas do Alentej o, os algodões leves que os portugueses traziam do golfo de Cam baia e de outros pontos da Índia e, com intensidade ainda m aior, pelos panos que se teciam localm ente, em toda a África Ocidental, e pelos cam isolões que se faziam na Petite Côte. Com o consequência da crescente pressão da dem anda sobre a produção dos tecelões africanos, expandiram -se as necessidades de algodão em ram a.

O arquipélago de Cabo Verde pronto se tornou o fornecedor externo da m atéria-prim a necessária à expansão das m anufaturas têxteis do continente. Com o algodão em ram a com prava-se de tudo, a com eçar por escravos. Mas o grande negócio não era o escam bo direto, que se podia fazer sem sair dos navios. Era, com o algodão, adquirir em vários pontos do litoral e nos portos dos rios os

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diferentes panos que ali se teciam e ir trocá-los m ais adiante por escravos,

couros, m arfim e outras m ercadorias. Nesse com ércio, a vantagem dos lançados, a andarem de esteiro em esteiro, de furo em furo, de enseada em enseada, era enorm e. Aqui, no rio do Nuno, os bagas lhes vendiam pães de tinta

azul, obtidas pelo pisam ento das folhas largas de um a trepadeira. 119 Ali, no país dos sapes, com pravam dos sossos, que a traziam de longe, um a palha que servia

de tinta, o m aroque.120 Acolá, sortiam -se de índigo em bastões. E iam redistribuindo por terras próxim as e distantes essas e outras tinturas, j untam ente com o algodão cabo-verdiano e com panos de diferentes encorpaduras e desenhos. Podiam encontrar m ercado para fazendas de especial beleza ou originalidade até m esm o entre os banhuns e os casangas, habilíssim os tecelões e tingidores, m as o grosso do que lhes vendiam , e aos j alofos, aos sereres, aos m andingas, aos fulas e aos beafadas, eram as m atérias-prim as com que esses produziam os tecidos que, por sua vez, os tangom ãos iriam com prar, para em diferentes m ercados obter os produtos que em barcariam para Cabo Verde, ou para bem m ais longe, e entre os quais o principal era o escravo.

Não tardou m uito para que os m oradores do arquipélago percebessem a vantagem de, em vez de vender o algodão em ram a, produzir com ele, nas próprias ilhas, tecidos idênticos aos que se m anufaturavam em distintas partes do continente. Possuíam algodão em abundância. Com eçaram a cultivar as plantas que davam anil. E foram selecionando em sua num erosa escravaria aqueles que conheciam as técnicas africanas da fiação, da tecelagem e da tintura, e que deviam ser m uitos, pois, se entre os fulas, os tecelões form avam um a casta — e os castados não se escravizavam — e, entre outros povos, o ofício estava reservado aos cativos — e um bom tecelão quase nunca se vendia —, na m aior parte das sociedades da África Ocidental, fiava-se e tecia-se em quase todas as casas. Em algum as poucas, hom ens e m ulheres entregavam -se igualm ente à

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tarefa, ainda que em teares de tipos diferentes; nas outras, as m ulheres fiavam e os hom ens teciam , não faltando pessoas e fam ílias que fizessem disso a ocupação principal.

O início da produção de tecidos em Santiago e em Fogo deve datar dos

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prim eiros anos do século XVI. De antes de 1517, afirm a Antônio Carreira. As

técnicas de tecelagem e os m odelos de tear não foram para ali levados de

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Portugal, m as da costa africana. Pelos escravos. Quando um senhor perguntou aos seus quem sabia tecer, possivelm ente m ais de um se apresentou. E dispôs-se a construir o tipo de tear que conhecia — sim ples, leve e eficiente — com alguns paus e algum as cordas. É tam bém provável que algum as m ulheres tom adas com o esposas ou com panheiras pelos portugueses, j á forras ou ainda escravas, levantassem no quintal, nas varandas ou no interior de suas casas os teares a que estavam acostum adas — os m ais toscos de todos: duas hastes verticais cravadas no solo, a sustentar as duas barras horizontais nas quais se enrolava, teso, o fio do urdum e — para a prática de um a tarefa que tinham por rotineira nas lides dom ésticas.

O trabalho nesses teares fem ininos era lento e dem andava grande habilidade e atenção, por isso que, em geral, eles atendiam apenas, na Costa da África, às necessidades caseiras. No arquipélago, im puseram -se os teares m asculinos — quatro estacas de m adeira fincadas na terra, às quais se aj ustam duas traves horizontais, pelas quais correm as varas de suporte dos liços e da roldana, bem com o duas travessas transversais, a prim eira para o correr horizontal da urdidura e a segunda funcionando com o enrolador —, e neles com eçaram a ser feitos tecidos idênticos aos m anufaturados no continente: brancos, tingidos de um a só cor, listrados ou com desenhos. Pronto se m ostraram extrem am ente variados o encorpado, o brilho, a m aciez e a padronagem dos panos produzidos em Cabo Verde, porque os artífices provinham de povos e regiões diferentes e cada um deles continuava nas ilhas a sua própria tradição.

Não devia haver tecelões portugueses entre os que viviam no arquipélago e, se algum houvesse, provavelm ente consideraria im próprio ou indigno de um branco aproxim ar-se de um tear. O fato é que ali se adotaram os aparelhos africanos, sem que nada se fizesse para m elhorá-los, aum entando, por exem plo, a largura de seus pentes. Continuou-se, em Cabo Verde, a confeccionar longas tiras de tecido, com entre 12 e 15cm de largura, que depois, para form ar um pano com cerca de um m etro de largura e dois de com prim ento, se cosiam um as às outras — e com tam anha habilidade que a costura, em m uitos casos, podia passar despercebida. Para tingir os fios de algodão e os panos inteiros ou em faixas, usavam -se os m esm os processos que a gente da Costa. Em pregava-se preponderantem ente o anil para lograr todas as gam as de azul, desde as m ais claras até a que se poderia tom ar por negro. Mas tam bém usavam -se outras cores, pois era abundante no arquipélago um líquen, a urzela, com o qual se obtinham tintas azul, violeta, púrpura e escarlate.

Não creio que Antônio Carreira estivesse certo, quando sugeriu que na Costa da África só se conheciam os tecidos de cor única ou listrados e que as fazendas com desenhos geom étricos (os panos d’obra) teriam sido introduzidas no

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arquipélago pelos portugueses. Restos de fazendas de lã e de algodão com

lavores geom étricos foram descobertos pelos arqueólogos, em depósitos do

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século XI, nas escarpas de Bandiagara, no Mali. Panos com desenhos j á

seriam , assim , recebidos dos berberes e m anufaturados na África Ocidental pelos telens, m uito antes que os portugueses e os cabo-verdianos os com eçassem a produzir para vender ao continente. O que esses fizeram foi am pliar a gam a de

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padronagens, introduzindo desenhos novos e m ais elaborados, a partir de

m odelos m ouriscos de antiga e am pla aceitação entre os africanos. Esses desenhos figuravam nos panos que os uângaras traziam dos portos do deserto e os

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navios portugueses adquiriam nas costas do Marrocos. É difícil acreditar que

os tecelões africanos de Cabo Verde fossem capazes de copiar esses m otivos m uçulm anos e de inventar, a partir deles, novos, im aginosos e elaboradíssim os desenhos, se j á não soubessem as técnicas de introduzir lavores na sua tecelagem .

Não sabem os, aliás, com precisão com o eram , nos séculos XVI e XVII, os desenhos dessa panaria de Cabo Verde que tanto êxito teve na Costa. Todos os tecidos que chegaram até nós são de fabrico recente e representam o am adurecer de um a tradição. Quanto aos escritos quinhentistas e seiscentistas, referem -se eles a panos brancos, negros, azuis, verm elhos e listrados e dão aos outros, possivelm ente os com desenhos geom étricos, nom es que não definem nem explicam , talvez porque corriqueiros e conhecidos de sobej o por seus leitores. Ignoram os até m esm o se os panos lavrados de Cabo Verde eram então todos em branco, azul e negro, ou se neles se incluíam fios de outras cores, com o viria a ocorrer nos produzidos pelos pepéis e m anj acos do rio de São Dom ingos, que herdaram ou copiaram as técnicas e os m odelos cabo-verdianos. No continente, para se obterem o negro, o am arelo, o verm elho, o verde e o castanho pilavam -se e m aceravam -se diferentes folhas e frutos, usando-se as cinzas de certos ram os de árvores ou determ inados m inerais em pó, para fixar os corantes.

Tornaram -se esses panos quase que indispensáveis ao com ércio na Costa. Num m ercado em expansão, havia, é bem verdade, lugar para toda espécie de tecidos, m as as fazendas africanas e cabo-verdianas eram preferidas às da indústria europeia e às do Magrebe. Em alguns lugares, um pano de Cabo Verde era um item im prescindível no pacote de m ercadorias com o qual se obtinha um escravo. Daí que os têxteis cabo-verdianos fossem vendidos pelos tangom ãos não só à gente da terra, m as tam bém , apesar das proibições portuguesas, aos ingleses e franceses, que deles necessitavam para o seu com ércio. Sem pano não se conseguia escravo.

Deveu-se provavelm ente aos lançados boa parte da rápida e am pla aceitação que teve a panaria cabo-verdiana. Eles a colocaram nas aldeias ao longo do litoral com o m esm o à vontade com que lhes vendiam os tecidos j alofos, casangas e beafadas. Levaram -na para o noroeste e para o sudeste, para Bezeguiche, Rufisque, Porto de Ale e Mina, e para as feiras de Brucam a, na Casam ansa, e de Bij orei, na Guinala, dois m ercados enorm es — no segundo se

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reuniam , a com prar e a vender, m ais de 12 m il pessoas —, com am pla oferta

de escravaria. Na foz do Gâm bia, os lançados convenceram os seus sócios ou fregueses uângaras, que desciam o rio com os panos m anufaturados pelos fulas e pelos m andingas, a levar tecidos de Cabo Verde para o interior, j untam ente com o sal que tinham vindo buscar. As m esm as caravanas que traziam os têxteis de Kano para a Costa carregavam de volta alguns fardos de fazendas cabo-verdianas, principalm ente as com lavores, que tão bem com binavam com o gosto das que lá se faziam . E o m esm o se passava com as pirogas que levavam até a foz do Senegal a produção dos teares de Futa Toro.

Os tangom ãos não ficaram , contudo, no litoral ou nos portos fluviais onde viviam e com erciavam , à espera dos clientes. Entraram rios acim a e foram oferecer os novos panos nos m ercados do sertão. Com o, por exem plo, nos de Cantorá, no Gâm bia, que j á m ereciam , no início do século XVI, a atenção de

Duarte Pacheco Pereira, no seu Esm eraldo De Situ Orbis. 130 Ele anota ali, rodeadas de paliçadas, quatro aldeias com erciais, das quais a principal seria Sutucó, com sua grande feira, na qual os m andingas vendiam ouro. As caravanas uângaras e diacanquês — isto nos dirá, 150 anos depois, Francisco de Lem os Coelho — para ali levavam , e tam bém para Barracunda, o últim o porto a que iam ter os navios dos brancos, além do m etal dourado, m uito couro e m uito

m arfim , e panos, e um a enorm e quantidade de escravos.131

Os tangom ãos com pravam aos uângaras o que estes traziam dos ser-tões, e aos europeus e cabo-verdianos, a carga dos seus barcos. Mal um navio chegava a um porto de lançados e dava os tiros de aviso, lá vinham eles em suas alm adias

para o resgate.132 Não lhes im portava a nacionalidade da em barcação. Tinham , no correr do tem po e até com o reação defensiva à hostilidade que lhes votou, durante um século, a Coroa portuguesa, desenvolvido interesses próprios, sem elhantes aos dos uângaras e aos dos reis africanos. Perseguidos pelos portugueses, eles se fizeram , a partir sobretudo da m etade do século XVI, agentes e interm ediários dos ingleses e dos franceses. Não quer isso dizer que tenham afrouxado os laços com o arquipélago de Cabo Verde. Continuaram ativam ente a contrabandear das ilhas e para as ilhas. E provavelm ente m uitos

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deles para lá se deslocavam regularm ente. Às escondidas.

Quando, nos prim eiros anos do século XVII, as autoridades portuguesas deixaram de aplicar a legislação punitiva contra os lançados, j á era tarde. Os tangom ãos vendiam e com pravam , na costa e no interior, para ingleses e franceses. O Tratado breve de André Álvares d’Alm ada, ele próprio um m ulato cabo-verdiano, está cheio de queixas contra o que qualifica de traição dos lançados, aos quais atribui a culpa de terem os portugueses perdido os m elhores

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resgates para os outros europeus. Porque só tinham a ganhar com a

concorrência e não para tirar desforra, é que assim se com portavam os tangom ãos e seus descendentes.

Estes últim os, no final do Seiscentos, j á eram m ais que m aioria. Filhos, netos e bisnetos de lançados, m uitos deles não se diferençavam fisicam ente da gente da terra. Tinham -se por portugueses, apesar de negros e de m uitos descenderem de grum etes, e cham avam -se cristãos (ou kriston, em kriol ou crioulo), em bora o cristianism o deles se reduzisse m uitas vezes ao crucifixo pendurado ao pescoço e a um eventual batism o. Mas todos ou quase todos, orgulhosos de sua diferença e da identidade que seus pais e avós tinham construído, im itavam a m aneira de vestir europeia e falavam entre si um crioulo do português. Aqui, chefiava a com unidade um velho com erciante branco, cercado de várias m ulheres e num erosa prole. Ali, era um a nhara, negra ou m ulata, conhecida por Dona, quem dirigia a fam ília ou o bairro. Esta e aquele eram ricos, tinham sob suas ordens um a grande clientela e não m enor escravaria, e negociavam com cativos e tudo o m ais. Um outro era apenas rem ediado e tinha de com prar e vender m uitos couros, antes de am ealhar o suficiente para adquirir um ou dois escravos e entrar no tipo de com ércio que dava prestígio e lucro. E havia alguns que, pobres, se agregavam aos outros e se contentavam com as pequenas transações que sobravam no m ercado.

Os m ais prósperos m andavam seus grum etes em caravanas ou em flotilhas de alm adias adquirir escravos aos uângaras nos em pórios do interior. Estes os traziam às vezes de m uito longe. E, não raro, os trocavam com os reis e nobres por cativos que estes faziam nas guerras com os vizinhos, e os alienavam aos lançados. Ninguém queria um escravo da vizinhança, porque facilm ente podia escapar e hom iziar-se num a geografia conhecida. Por isso, talvez, houvesse nos rios Grande e de São Dom ingos tanta escravaria à venda, gente da própria terra e dos arredores, banhuns, casangas, felupes, pepéis, balantas, m andingas e nalus,

cativados uns pelos outros e pelos beafadas e bij agós. 135 Os que produziam esses cativos tinham pressa em desfazer-se deles, antes que m orressem , se rebelassem ou fugissem .

Há notícias antigas da resistência escrava. Não só no continente, m as tam bém no arquipélago de Cabo Verde. São poucas, m as significativas. Na prim eira m etade do Quinhentos, conform e escreve ao rei de Portugal um a com issão de pretos livres e forros, as serras das ilhas de Santiago e do Fogo j á abrigavam

com unidades de escravos fugidos. 136 No fim do século, Álvares d’Alm ada anotava, num a ponta da terra firm e cortada com o se fora um a ilha, em pleno rio Grande, a presença de refúgios de negros que tinham conseguido escapar de seus senhores africanos e portugueses. E acrescenta serem esses foragidos tão num erosos que haviam povoado a península, onde se m antinham insubm issos e

em arm as. 137 Sete décadas m ais tarde, o capitão Lem os Coelho contar-nos-ia que m uitos escravos fugitivos se hom iziavam na aldeia de Buj é, na Casam ansa, cuj os m oradores não os devolviam por dinheiro algum , talvez porque os egressos

do cativeiro e suas fam ílias form assem a m aioria da gente do vilarej o. 138

Havia com certeza rebeliões. Algum as vezes, os que vinham am arrados pelo pescoço, em caravanas ou no boj o de alm adias, ou os que esperavam novo destino dentro das paliçadas tom avam de surpresa os m ercadores e os m atavam . E não seria raro que um tangom ão ou até m esm o um am o africano fosse m orto por um ou m ais de um de seus escravos. Os m ais insubm issos eram os recém -escravizados em idade de portar arm as. Daí que, desde o início, os com pradores procurassem com por os lotes de cativos que adquiriam com alta proporção de crianças e adolescentes. Se os europeus preferiam os de sexo m asculino, para vender aos acãs e para os trabalhos na Am érica, os uângaras desej avam m ulheres, para os haréns e as labutas dom ésticas no Magrebe, no Egito e na Arábia. E a Senegâm bia e os Rios da Guiné dessangravam -se em gente para atender às duas dem andas: a do Atlântico e a do deserto.