A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 11 de 30 · parte 2/3

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A Manilha e o Libambo

9. O Benim e o delta do Níger

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Mina provinha de São Tom é. 65 Um núm ero, contudo, pequeno, se com parado ao dos escravos que, j á então, seguiam da ilha para as Índias de Castela. Adquiridos no continente, eles eram arrecadados na ilha, que funcionava com o depósito e centro distribuidor. Lá, só alguns ficavam para sem pre: os m elhores, aqueles que com pensassem o risco da fuga para as m ontanhas. Os que aguardavam revenda e em barque, eram , enquanto não chegava o dia da partida, postos a cortar cana e

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a carregá-la para os engenhos, e a plantar inham e, e a roçar as m atas. Essa

estada em São Tom é valorizava os escravos, pois funcionava com o um período de adaptação ao tipo de vida que passariam a ter na Am érica e de aprendizado das tarefas a que se destinavam . Muitos deles ali aprendiam o português ou, m elhor, o crioulo do português que se falava em São Tom é e que servia de língua

franca com ercial em boa parte dos Rios dos Escravos 67 — provavelm ente m uito sem elhante à “língua de guiné” ou “língua de preto”, na qual os escravos se

expressavam em Lisboa e era ali obj eto de m ofa. 68 A esse crioulo, que o padre Alonso de Sandoval, no início do século XVII, ouviu entre os negros de Cartagena de Índias e identificou com o um português “m uito corrom pido e arrevesado”, cham ava-se, nos litorais da atual Colôm bia, “língua de São Tom é”. Era nele que escravos de distintas procedências, após a passagem pela ilha, se com unicavam

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entre si.

A m udança na política portuguesa favoreceu por algum tem po os interesses dos m oradores de São Tom é, m as não corrigiu o detetioro nas relações com o Benim . Os são-tom enses desej avam adquirir hom ens, e o obá só consentia em vender m ulheres. Só de vez em quando rom pia a regra e lhes entregava ele próprio, com o especial favor, um a ou duas dúzias de cativos m achos, possivelm ente indivíduos de quem desej ava desfazer-se. Para o obá, senhor de um reino tradicionalm ente m ercantil, o controle das trocas com os estrangeiros parecia-lhe m ecanism o essencial de sua estrutura de poder. Não tinha por prudente o depender de um só grupo de fregueses e via com péssim os olhos a pretensão lusitana de açam barcar o com ércio. O m onopólio das trocas e a im posição de regras sobre com o, quando e com quem deviam efetuar-se, era apanágio dele, obá, que procurava estender a sua presença política e econôm ica para leste, ao longo da costa, até Eko (ou Lagos), onde instalara um rei vassalo. Na verdade, a com binação dos dois m onopólios — o de com pra, do m onarca de Portugal, e o de venda, do soberano do Benim — só funcionara, e de m odo im perfeito, e por pouco tem po, no com ércio da pim enta-de-rabo. Da experiência, o obá saíra a sentir-se lesado, porque, de um m om ento para outro, o rei de Portugal cortara de todo as suas com pras.

Do m esm o m odo que favorecera as transações com os habitantes de São Tom é, quando estes subiam o rio às escondidas dos representantes da Coroa lusitana, o obá procurava agora, para irritação dos portugueses, abastecer equanim em ente, ou até com certo grau de favorecim ento, os barcos franceses, ingleses e holandeses que buscavam , em núm ero cada vez m aior, com erciar com o Benim .

Quando, em 1553, o feitor português em São Tom é, num acesso de indignação, proibiu todo e qualquer com ércio dos ilhéus com o Benim e instou

Lisboa a punir m ilitarm ente o obá,70 ele pregava aos peixes. A capital beninense ficava fora do alcance dos canhões dos navios portugueses, e um a cam panha por terra seria um convite ao desastre. Além do m ais, nem sequer pagava a pena. Prim eiro, porque, não podendo ali obter escravos do sexo m asculino, os são-tom enses haviam com eçado a buscá-los noutras partes. Segundo, porque, com o florescim ento do com ércio de especiarias com a Índia, o rei de Portugal se havia desinteressado pela pim enta-de-rabo beninense e, j á em 1506, proibido que seus navios com ela m ercadej assem , a fim de im pedir o barateam ento da pim enta

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indiana e um a com petição que para esta últim a podia ser perigosa, em virtude dos custos m enores de transporte. Com o se não bastasse, os portugueses iam perdendo as ilusões com o Preste João e não m ais tinham esperanças de converter ao catolicism o o obá do Benim .

Deve ter havido esforços para recom por o que se im aginara, no passado, com o um a possível aliança entre o Benim e Portugal. De um a dessas diligências tem os um a tênue indicação, num as poucas palavras com que João de Barros descreve um pedaço de conversa que teve, em 1540, com um enviado

diplom ático do obá. 73 Ainda que tenham sido várias, nenhum a dessas em baixadas produziu os efeitos esperados. Do diálogo a distância entre, de um lado, Ozolua, Esigie e Orhogbua, e de outro, D. João II, D. Manuel e D. João III, e da presença continuada, ao longo de 70 anos, de portugueses em terras dos edos, o que de m ais perm anente ficaria seriam , além de algum as m em órias, as im agens de hom ens de nariz com prido, longos cabelos e profusas barbas, que povoam os m arfins e os “bronzes” do Benim , e a língua portuguesa, que alguns continuaram a falar, por m ais dois séculos, na corte do obá.

Resultados m ais auspiciosos, porém igualm ente frustrantes a longo prazo, seriam obtidos num outro reino próxim o, bem m enor do que o Benim e que dele foi vassalo. Os itsequiris vivem nas m atas, m anguezais e alagados do curso inferior dos rios dos Escravos, Forcados e Benim , na parte ocidental do delta do Níger. Suas tradições coincidem com as do Benim , ao sustentar que o reino, conhecido pelos europeus com o Oere, Ouwerre, Ugueri ou Warri, e que tinha por

capital Ode Itsekiri, teria sido criado por um filho do obá Olua.74 Esse príncipe, de nom e Ginua ou Iginua, seria im popular no Benim . Para resguardá-lo, o pai fê-lo descer o rio, com m ais 70 com panheiros, os prim ogênitos dos grandes chefes edos, para que fosse estabelecer-se com o rei j unto ao m ar, isto é, perto das salinas e da secagem do pescado. Isso ter-se-ia verificado no início do últim o terço do século XV, de m odo que é m uito provável que os portugueses, antes m esm o de chegarem a Ughoton, tenham lidado com os itsequiris, com o tam bém com os ij ós.

Os itsequiris falam um dialeto do iorubano, m as suas instituições e insígnias políticas decalcam as do Benim . Na m em ória histórica deles, Ginua, ao descer do barco para fundar o reino, traj ava com o o obá, seu pai, que com ele tinha repartido os corais de que se cobria. Não contava o reino m ais de 50 anos quando recebeu os portugueses, e talvez por isto, por ser tão recente, ainda que defluindo de tradições bastante antigas, foi m uito m ais aberto às influências de além -Atlântico e à catequese cristã. É possível que nele m onarquia e religião tradicional não estivessem ainda, com o estavam no Benim , tão entretecidas, que se confundiam . Mas é possível tam bém que o olu, ou rei de Oere, tivesse resolvido pagar o preço do aportuguesam ento para libertar-se da tutela do Benim . E que se quisesse afastar das divindades edos e ter um protetor próprio, ao adotar o deus dos cristãos.

Desde o início, os itsequiris devem ter-se dedicado ao com ércio. Faziam o sal e o peixe seco subir os rios. E deles desciam os inham es, as bananas, as pim entas, o azeite de dendê e o gado m iúdo. Com pravam dos ij ós canoas e lhes vendiam potes de barro. Mandavam de um a região para outra, ao longo das lagunas, furos e esteiros que acom panham a linha do oceano, tecidos, cestaria, contas de pedra e vasilham es de cerâm ica. Reconheceram nos portugueses novos e bons fregueses. E tornaram -se seus fornecedores de escravos. De escravos que lhes chegavam nos barcos ij ós ou que vinham do interior — predom inantem ente

urrobos, isocos,75 ibos e iorubás. Não eram m uitos os que vendiam . Não m ais do que poucas centenas por ano. Mas, j untam ente com algum a pim enta, os panos azuis e listrados e as coris, os escravos constituíam as poucas divisas externas com que contavam , para adquirir os bens de prestígio com que o senhor de um estado com tão pouco tem po de existência m anifestava o seu prestígio e garantia fidelidades. Nisto tam bém o olu do pequenino Oere se diferençava do obá do poderoso Benim , para quem as transações com os portugueses, não incluindo as arm as de fogo, careciam de m aior im portância.

Já nos prim eiros contatos, o soberano itsequiri deve ter m anifestado interesse

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ou, ao m enos, curiosidade pela religião dos brancos. Pois o príncipe herdeiro, o futuro Olu Atorongboy e, foi batizado, por volta de 1570, com o nom e de Sebastião, em hom enagem ao rei de Portugal, e aprendeu a ler e a escrever em português. Os textos que dele ou sobre ele restam indicam que foi um fervoroso cristão e que se preocupou com a ausência de padres católicos em Oere e com a necessidade de form ar um clero nativo, para que houvesse constância na evangelização. Os sacerdotes para lá m andados pouco duravam : sem recursos para se m anterem — por breve tem po, tiveram de sustentar-se com a venda de escravos — e atacados de febres ou diarreia, em barcavam de volta ou m orriam . Na falta de padres, era o olu quem dirigia as preces na igrej a que m andou construir, para nela pôr o crucifixo, as im agens e os param entos trazidos pelos m issionários, e tam bém quem organizava as procissões e em preendia a catequese. É isso o que nos diz um relatório escrito em 1620 pelo bispo Pedro da Cunha. Nesse texto, o olu, j á velhinho, é apresentado com o “um verdadeiro

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cristão”, a dar constante testem unho de sua fé.

Foi na esperança de ter um filho padre que D. Sebastião m andou para Portugal, em 1600, o seu prim ogênito, batizado com o Dom ingos e que m ais tarde

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seria rei, provavelm ente Olu Oy enakpagha. Os docum entos portugueses

m ostram que ele estudou latim e teologia em Coim bra e em Lisboa, sustentado por um a pensão anual de 200 m il réis, concedida por Filipe II de Portugal (e III de Espanha), e nem sem pre paga a tem po, e pelas letras de câm bio, m ercadorias e escravos que lhe enviava o olu, seu pai; e que deve ter feito algum com ércio; e que solicitou e obteve do Habsburgo que se perm itisse a qualquer navio português com erciar em Oere; e que, antes de regressar à sua terra, em 1610, acom panhado de dez serviçais e com o hábito da Ordem de Cristo, se casou com um a dam a lusitana, filha de Cristóvão Pereira e neta do conde da Feira. Num e noutro texto, diz-se que não tiveram filho e que a m ulher de D. Dom ingos m orreu no parto. Mas as tradições e outros escritos da época afirm am que houve um rebento do m atrim ônio: o futuro olu Antônio de Mingas (ou m elhor, Antônio

Dom ingos, ou ainda Olu Abej ioy e79), que era m ulato. E é com o um m ulato, vestido à portuguesa e de espada à cinta, que ele vem descrito no livro de 1668 do

holandês Olfert Dapper. 80

O m esm o bispo Pedro da Cunha, que fez o elogio do olu D. Sebastião, teve, ao aum entar o seu cam po visual, palavras cépticas ou desanim adas sobre o cristianism o em Oere. Ele diz-nos que, fora da capital (Santo Agostinho, para os portugueses, e Ode Itsekiri ou Ale Iwari, para a gente da terra), não havia católicos, e que m esm o na capital estes eram poucos e a m aioria só de nom e, para agradar ao rei. O catolicism o era um a religião apenas da corte, da m esm a form a que a língua portuguesa só nela era conhecida e falada, ainda que m uitas de suas palavras — m ais de um a centena — ganhassem os m ercados e as ruas e se incorporassem ao vocabulário itsequiri. Ainda hoj e, os itsequiris usam norm alm ente os term os “cam isa”, “m esa”, “capela” e “espada”. Dizem “canaca” em vez de “caneca”, “j anel” em vez de “j anela”, “garafa” e “chafe”.

E “herege” é o nom e que dão a um inglês. 81 Tratei com um itsequiri em Lagos, e ele m e desfiava um rosário de palavras, para que entre elas eu reconhecesse as portuguesas; e eu as reconhecia, e delas perdia a conta.

O início do cristianism o em Oere não teria sido, assim , diferente dos com eços do islam ism o em tantos reinos africanos. Entre os itsequiris, a nova crença j am ais chegou, porém , a perm ear o resto da sociedade e acabou por diluir-se na própria aristocracia. Destituído de clérigos durante a m aior parte do tem po e, portanto, sem quem , pelo exem plo e pela pregação, difundisse a fé, o catolicism o se foi reduzindo a gestos, para a m aioria dos que se diziam seus adeptos. Enquanto, próxim o ao litoral, os padres europeus se sentiam faltos de recursos para sobreviver em terra para eles de todo estranha e não apresentavam resistências contra o im paludism o, a febre am arela e as diarreias, os catequistas m oslins, quase todos africanos, uniam , nas savanas, a propagação da fé ao com ércio e m oviam -se com facilidade em territórios que deles se iam tornando paulatinam ente m ais conhecidos e sobre os quais iam estendendo sua rede de entrepostos, cada qual com sua m esquita ou, pelo m enos, um a casa de oração.

O que espanta é que o catolicism o em Oere, ainda que só exercido pela elite, tenha durado, no desam paro, tanto tem po. Até o final do século XVIII, todos ou

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quase todos os olus receberam o batism o e se tiveram por cristãos. Só na m etade do Setecentos é que um deles, desiludido, se reconverteu aos antigos deuses.

Para um bispo com o Pedro da Cunha, cioso da pureza da fé, era fácil achar carências e defeitos na prática religiosa dos itsequiris. Muito distinto do seu retrato

foi o que nos deixaram os protestantes holandeses, 83 na pena de Olfert Dapper: havia em Ode Itsekiri um a igrej a — um a igrej a com um altar com o Cristo crucificado e im agens de Maria e dos Apóstolos, ladeadas por dois candelabros — e nela os africanos entravam contritos, a rezar, de rosário na m ão, com o se fossem papistas portugueses. Aos flam engos, não lhes cham ou a atenção apenas o parecerem católicos devotos. Estranharam tam bém que soubessem ler e escrever, e procurassem com em penho obter livros portugueses, penas, tinta e

papel.84 Eram cristãos pios à m aneira deles e com o podiam ser. Cheios de fervor, ainda que lhes faltassem as m issas e estropiassem os textos das orações. Não seriam distintos de outros fiéis, em com unidades pequenas e esquecidas nas serranias ibéricas. O que neles é com ovedor é a fidelidade à crença a que se haviam convertido os seus m aiores. E dessa fidelidade ficou-nos um docum ento pungente: a carta que um olu, possivelm ente D. Antônio Dom ingos, escreveu, em 20 de novem bro de 1652, ao papa, em Rom a, a pedir que lhe m andasse sacerdotes, para espalhar a fé entre o seu povo e im pedir que a perdessem os que j á eram crentes. Na m issiva, o olu, sem m encionar que repetia o exem plo de seu avô, indica que, na falta de padres, ele próprio, apesar de suas lim itações, se

transform ara em pregador.85

Não foi apenas no plano religioso que se sucederam e acum ularam na elite itsequiri os desencantos entrem eados de m alfundadas esperanças, e o sentim ento de abandono, e os desalentos, e as desilusões. O m esm o deu-se na política e no com ércio. Os portugueses não contribuíram com o esperado apoio m ilitar à quebra da vassalagem que subordinava o olu ao obá, nem aos esforços itsequiris para controlar o tráfego no rio Benim . Ainda que o olu lhes abrisse sem restrições o com ércio, lhes vendesse rapazes e hom ens, e, graças à atuação de D. Dom ingos, qualquer navio português, vindo da Metrópole, de São Tom é, do Príncipe, do Brasil ou da Índia, estivesse autorizado a m ercadej ar em Oere, os que ali chegavam eram poucos, o que fazia o volum e total das transações m edíocre. Na verdade, Oere não tinha m uito o que oferecer. Foram sem pre relativam ente poucos os escravos que pôde pôr a bordo. Mesm o no auge do

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tráfico negreiro, no século XVIII, a região não os forneceu em grande núm ero — talvez não m uito m ais do que m eio m ilhar por ano. Mas a aristocracia itsequiri não pensava assim e talvez alim entasse, ao procurar converter-se aos valores culturais dos portugueses, a ilusão de ser deles a aliada de confiança. O que essa elite ignorava é que j á perdera ím peto o expansionism o português. O im pério dilatara-se m ais do que podiam as forças, ainda que excepcionais, de um povo pequenino. Portugal, no início do século XVII, não tinha m ais com o gerir e controlar, ainda que de m odo im perfeito, o com ércio que se fazia no Atlântico a partir da África. Dada a escassez de recursos, sobretudo hum anos — a população portuguesa andava pelos dois m ilhões —, tinha de concentrá-los onde punha prioridade, isto é, na Índia e no Brasil. Os Rios dos Escravos ficaram entregues aos cuidados de São Tom é, de um a ilha cuj a econom ia tam bém entrou em declínio, a partir da sétim a década do Seiscentos, por causa de um a praga que

deu nos canaviais87 e porque foi palco de violentos ataques de com unidades de

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escravos fugitivos instalados nas m ontanhas da ilha.

Em São Tom é, a m aioria dos engenhos e canaviais concentrara-se no norte e no nordeste da ilha. Na costa sul tam bém os havia, m as em m enor núm ero, enquanto que as densas florestas que cobriam o centro m ontanhoso tinham escapado da penetração portuguesa. Nessas áreas que não tinham sido abertas pela econom ia do açúcar refugiaram -se os escravos fugidos e ali refizeram as suas Áfricas. E dali iam fustigar as plantações m ais próxim as. Em 1574, a população da antiga Povoação, que j á se cham ava Cidade de São Tom é, viu-se obrigada a repelir um forte ataque de “negros vindos do m ato”. E, em 1595, cerca de 2.500 negros e m ulatos, sob o com ando de um escravo natural da terra, Am ador, que se proclam ara rei da ilha, iniciou um a guerra total contra os portugueses e seus aliados m ulatos e negros, prom etendo dar liberdade a todos os cativos. Os incêndios e com bates se propagaram pela ilha, até que, diante da evidência da derrota, os cinco lugares-tenentes de Am ador o entregaram aos

lusitanos, que lhe cortaram as m ãos, enforcaram e esquartej aram .89

As autoridades portuguesas enfrentavam adem ais problem as com os cham ados “filhos da terra” ou m ulatos. O princípio da segunda m etade do século XVI assistiria, entre eles, a um a agitação nativista, inconform ados com as discrim inações sociais em favor dos reinóis. E, com o se não bastasse o clim a de insegurança, os canaviais foram atacados por pragas. Em 1578, São Tom é

produzia 175 m il arrobas de açúcar; em 1591, apenas entre dez m il e 12 m il.90

O açúcar em igrara para o Nordeste brasileiro. E com ele, os principais proprietários são-tom enses. A ilha passou a viver sobretudo da interm ediação do com ércio de escravos para o Brasil e o resto das Am éricas, tendo a região que com preendia os portos de Loango, Pinda e Luanda com o principal fornecedora.

Com o principal fornecedora, repito. Mas não a única. Escrevendo na terceira década do século XVII, Garcia Mendes Castelo Branco, que conhecia bem a região, diz-nos que os navios de São Tom é iam resgatar negros em Aladá, em

Ij ebu, no Benim e entre os ij ós e os efiques.91 E o padre Alonso de Sandoval o confirm a, pois, na cuidadosa recolha que fez, entre dez e 15 anos antes, de dados sobre os negros de Cartagena de Índias, então o m ais im portante dos portos de escravos da Am érica Espanhola, enum era, com o descidos de navios de São Tom é, além dos angolas e congos, que entre eles predom inavam , “m inas, popoos, fulaos, ardras ou araraes, (...) offons, (...) lucum ies (...), barba, tem nes, binis, m osiados, agares, gueres, zarabas, iabus, caravalis naturales o puros (...) y caravalis particulares”, incluindo entre esses últim os, “innum erables y que no se entienden unos con los otros, (...) verbi gratia, (...) am bos (...), abalom o, bila, cubai, coco, cola, dem be, done, evo, ibo, ido, m ana, m oco, oquem a, orm apri, quereca, tebo, teguo, y así van diferenciando innum erables en nom bres, así

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com o en lenguas”. É possível que navios portugueses vindos da Índia ou da

costa oriental africana deixassem tam bém cativos em São Tom é, para que de lá fossem reem barcados para as Am éricas, pois o padre Sandoval diz que da ilha provinham alguns negros m oçam biques e m elindes, bem com o escravos

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cingaleses e indianos de Travancor e Manar.

Pela lista do j esuíta, as em barcações são-tom enses, em bora se concentrassem nos litorais que hoj e pertencem aos dois Congos e a Angola, não deixavam de recolher escravos desde o Gâm bia até o atual Gabão, pois no seu inventário reconhecem os facilm ente os m inas, os popôs, os hulas (que seriam os “fulaos”), os ardras, os fons, os iorubás, os baribas, os tim enés, os benins, os ij ebus, os calabaris ou calabares (que poderiam ser não só efiques, m as tam bém ij ós e ibibios) e os ibos. Entre aqueles que denom ina de “caravalis particulares”,

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podem os identificar os cocos, os colas, os idos e os m ocos, e arriscar que

os dones poderiam ser os andonis, 97 e os abalom os, os abulom as. Quanto aos bilas, seriam provavelm ente os oriundos da aldeia ij ó de Bile ou Billa, com tradição no com ércio de escravos.

Se, tendo defronte, a poucos dias de vela, os litorais que vão do início do delta do Níger até além do Ogué, os barcos de São Tom é iam buscar, na passagem do século XVI para o XVII, escravos em portos tão distantes quanto Luanda e Popó Pequeno, é porque em Luanda e em Popó se abasteciam com m aior facilidade. Em Luanda, os portugueses não eram apenas com pradores, m as tam bém vendedores e, com suas razias e cam panhas m ilitares, produtores de escravos. Em Luanda, um navio que chegasse j á encontrava dezenas de cativos em barracões ou paliçadas à sua espera, e, caso não houvesse núm ero de peças suficiente, podia-se, com um ataque a um a póvoa vizinha, com pletar a carga em relativam ente pouco tem po. Já na região que se estendia do rio Forcados ao rio Cross, cada aldeia era capaz, quando m uito, no fim do Quinhentos, de produzir um a dúzia de cativos.

Entre a m aior parte dos que viviam nessa área, com o os ij ós, urrobos, isocos,

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ucuanis, ogonis, ibibios, efiques, ecóis e ibos, a ordem social era m antida pelos cabeças de linhagens, pelos conselhos de anciãos, pelos grupos de idade, pelos sacerdotes e pelas sociedades de titulados, às quais só tinham acesso aqueles que se destacavam por suas qualidades (os m elhores guerreiros e os grandes oradores, por exem plo) ou por sua riqueza, um a vez que se cobravam taxas elevadas para nelas ingressar e galgar cada um de seus vários graus. A unidade básica da vida política era, portanto, a aldeia ou o grupo de aldeias, a linhagem ou o clã, ainda que algum as dessas confrarias de titulados pudessem agir num âm bito m uito m ais am plo e ultrapassar os lim ites grupais, com o era o caso da poderosa sociedade Ekpe, Egbo, Ngbe ou do Leopardo. Essa sociedade secreta de m ascarados, tendo com eçado entre os ecóis, foi adotada pelos efiques, os ibibios e alguns clãs ibos, e provavelm ente fortalecia as suas funções de

controle político com um a dim ensão religiosa, de natureza m ística.100 Se esse era o quadro político prevalecente, alguns grupos ij ós, efiques e ibos j á estavam ,

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no entanto, organizados em cidades-estados ou em pequenos reinos, antes que

com eçasse o século XVI.

É provável que um dim inuto com ércio de escravos datasse, na região, de antes da chegada dos portugueses. Muitas vezes, desentendim entos entre clãs e

linhagens,102 bem com o disputas por zonas de pesca ou pelo controle do com ércio, degeneravam em luta arm ada e dela saíam alguns prisioneiros, que se vendiam o m ais longe e o m ais depressa possível, pois não havia condições de guardá-los em segurança. Não faltava, além disso, quem tivesse a violência com o m eio de vida. Os ij ós, por exem plo, que vivem em ilhas e m anguezais que as m arés inundam diariam ente, eram reputados piratas e caçadores de cabeças

— suas flotilhas de canoas funcionavam com o a cavalaria103 — e em cada um de seus vilarej os, construíam um santuário para guardar as caveiras. Os ecóis do m édio rio Cross não lhes ficavam atrás e j ulgavam os hom ens pelo núm ero de

cabeças dos inim igos que trouxessem com o troféus para a aldeia. 104 Tão logo se expandiu a dem anda de escravos, uns e outros tiveram por tentador poupar o pescoço do adversário para dele vender o corpo inteiro.

Não seria, contudo, som ente com esse tipo de cativos, produzidos em pequenos encontros arm ados, que a gente do litoral poderia carregar, com o

ocorreu em 1480, dois navios portugueses com m ais de 400 alm as. 105 Provavelm ente foram elas com pradas no interior e trazidas para a costa. Este, aliás, foi o retrato que nos deixou Duarte Pacheco Pereira, em seu livro escrito nos prim eiros anos do século XVI: as grandes alm adias, que podiam levar até 80 hom ens, viaj avam cem léguas ou m ais pelo rio Real, carregadas de m ercadorias e de “m uitos escravos”, que vendiam aos negros de um a grande aldeia, com cerca de dois m il habitantes — seria Bonny ? —, e aos barcos portugueses. Aqueles davam em troca sal; estes, m anilhas de cobre (oito a dez por um a boa peça), as m anilhas que talvez j á fossem a m oeda local e que m uitas vezes, transform adas em colares “grossos com o um dedo”, eram quase tudo com que

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se vestiam .

Quando a presença dos navios europeus incentivou o tráfico de escravos, este provavelm ente se serviu de um a rede com ercial extensa e antiga, com m ercados

de grande m ovim ento, nas bacias do Níger e do Cross.107 Os barcos levavam para o interior sal, peixe seco e m ariscos, e traziam inham es, azeite de dendê, legum es, frutas, galinhas, vacas, cabras, carneiros e utensílios de ferro. Pelas águas internas paralelas à costa, lá iam eles escam bar corantes, tecidos, contas, conchas, cerâm ica e obj etos de cobre e latão. Os ij ós da parte central do delta do Níger (com o os apóis, os arogbos, os egbem as, os furapaghas e os olodiam as) faziam e vendiam canoas. Os itsequiris forneciam os m elhores potes de cerâm ica. Os egbem as levavam para m ercados distantes suas m adeiras tintórias. E os ibos, seus artigos de ferro. Os panos ij ebus chegavam até o Níger. E, tão pronto a m andioca foi introduzida em Oere pelos portugueses, a sua farinha ou caçava ganhou os m ercados da parte oriental do delta. Com o era m uito durável, leve e de fácil transporte, os viaj antes a levavam consigo num a cestinha, num bornal ou num em brulhado de folhas. E os soldados tam bém , para m atar a fom e a qualquer hora, por isso que receberia o nom e de farinha de guerra.

Um com ércio dessa extensão e intensidade tinha de ser protegido e regulado. Para resolver e com por disputas e para garantir a integridade dos m ercadores, surgiram , entre os ibos, a ultrapassar os lim ites das aldeias, instituições j urídicas com força religiosa, tendo por base oráculos com o os de Awka, Um onoha, Ozuzu e Aro. Entre os povos do delta, organizaram -se, em torno de corporações poderosas, o com ércio e a sociedade. E aqui e ali, im puseram -se reis, talvez por influxo dos igalas ou, diretam ente ou por via dos itsequiris, do Benim .

Foi o que se deu em Nem be (ou Brass), nos m angues da parte central do delta

do Níger. 108 Segundo as tradições, um grupo de sangue real proveniente de Oere teria, por volta da m etade do século XVI, substituído no poder um chefe (talvez um am anianabo ou “senhor da terra”) que j á havia concentrado em si o m ando político, as atribuições j udiciárias e possivelm ente certas funções religiosas e seria, assim , um a espécie de rei. Com a tom ada do poder pelos aristocratas itsequiris, m uitos dos sím bolos de poder e instituições benins perm earam o tecido social nem be. Com os itsequiris veio até m esm o um a nova deusa, Ogidiga, que tom ou sob sua proteção toda a área. A Ogidiga subordinaram -se, com o “esposas” e “filhos”, as divindades que protegiam as várias aldeotas circunvizinhas, que

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passaram a form ar ou que j á form avam o reino de Nem be.

Essa cidade-estado teve um régulo de origem itsequiri até cerca de 1639, quando, vindo do norte, um novo forasteiro, Ogie, se apossou do poder, dando início a um a nova dinastia. Sucederam -no seu filho, Peresuo, e seus netos, Obio e Basuo, e foi com eles que Nem be ascendeu à condição de m aior centro com ercial daquela parte do delta. Grande construtora de alm adias e canoas, além de produtora de sal e peixe seco, Nem be tornou-se igualm ente um a redistribuidora dos bens que os portugueses traziam da Europa, da Ásia e de outros pontos da África, abastecendo os europeus de escravos e de alim entos

para os seus navios.110 111 Teria sido tam bém na época de Peresuo, que se foi difundindo em Nem be um a nova concepção da organização fam iliar tradicional; e essa nova concepção alteraria profundam ente a sociedade ij ó e faria de

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algum as de suas cidades verdadeiros estados m ercantis.

Num a cidade ou aldeia, cada bairro ou polo, que, em princípio, abrigava um a linhagem , reunia vários grupos habitacionais, correspondendo cada um deles, ou wari, a um a fam ília extensa, nela se incluindo os agregados e os escravos. A prosperidade de um a wari dependia do núm ero de pessoas que a com punham e do esforço e habilidade com que pescavam , secavam o peixe, extraíam sal das raízes dos m angues, rem avam os grandes barcos e os protegiam dos piratas e dos ataques dos ribeirinhos, guardavam os escravos recém -adquiridos e com erciavam com os estrangeiros. Aqueles que acum ulavam recursos, procuravam enriquecer ainda m ais, am pliando a fam ília. Para isso, valiam -se da circunstância de haver entre os ij ós dois tipos de contratação de m atrim ônio. Pelo prim eiro, o do dote pequeno ou egwa, pagava-se pouco pela m ulher, m as as crianças que viesse a ter pertenceriam à fam ília dela; pelo segundo, o do dote grande ou ey a, o preço da noiva era alto, porém os filhos se incorporariam à

wari do pai.113 Um chefe de fam ília am bicioso e com haveres procurava desposar um grande núm ero de m oças, pagando por elas o dote grande. E, para aum entar com m aior rapidez o núm ero dos que com punham a sua wari ou “casa”, procurava aliciar clientes e, sobretudo, adquirir os escravos que pudesse.

Tradicionalm ente, nas sociedades ij ós, o escravo só se incorporava à fam ília do senhor após algum as gerações. A necessidade de contar depressa com um m aior núm ero de fam iliares ativos fez, entretanto, com que, nas cidades com crescente atividade m ercantil, com o Nem be, Bonny, Elem Kalabari (Owam e ou New Calabar) e Okrika, se tornasse m uito m ais expedito o processo de conversão e assim ilação do estrangeiro e do escravo. Tanto um quanto o outro eram entregues a um a das principais esposas do chefe da fam ília, que se tornava sim bolicam ente a sua “m ãe”. Essa senhora, que tinha sob seu controle um a das subcasas em que se dividia a wari, m andava raspar a cabeça do escravo e lhe dava um novo nom e. O escravo com o que renascia. Dele, esperava-se que se aculturasse o m ais rapidam ente possível, que se tornasse um ij ó, um ij ó do ibe ou clã e da linhagem de quem o com prara, um m em bro da fam ília. Com o tal, podia adquirir propriedade e, por seus m éritos, ascender na “casa”. Isso não significa que não estivesse suj eito a m aus tratos. Os escravos recém -adquiridos sofriam todo tipo de violências. Mas não dem oravam m uito tem po para serem reum anizados e reconhecidos com o sem elhantes no novo m eio em que haviam sido introduzidos à força. Não lhes negavam sequer a possibilidade de participar de sociedades, que para eles funcionavam com o agentes de aculturação, com o a Ekine, de dançarinos m ascarados, à qual qualquer hom em , livre ou escravo, podia ter acesso, dele só se exigindo um pequeno pagam ento e que soubesse

dançar. 114 Na Ekine, aprendia-se a linguagem dos tam bores, o que pressupunha um bom conhecim ento do idiom a ij ó, essencial ao processo de aculturação. Num a outra sociedade, de guerreiros e caçadores, a Peri Ogbo, um escravo tam bém podia entrar, desde que praticasse um a grande façanha, com o m atar um inim igo ou um elefante. Em contrapartida, ao m enos em Elem Kalabari, se o escravo não se ij oizasse, podia sofrer o m ais duro dos castigos: um grupo especial, o “clube dos fortes” ou koronogobo, tinha por função perseguir os escravos desaj ustados; se, em determ inadas noites, encontravam um deles que

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lhes respondesse com sotaque estrangeiro, im ediatam ente o m atavam .

Ignoram os quanto tem po foi necessário para que a wari passasse de um a organização fam iliar para a corporação de natureza com ercial, política e m ilitar que conheceríam os no século XIX, um a corporação capaz de fazer de escravos aculturados “filhos adotivos”, e dentro da qual todos com petiam aberta e livrem ente, podendo um escravo que se revelasse um grande com erciante, um hábil político ou um excelente guerreiro assum ir o seu com ando, em bora a m aioria nunca chegasse a largar o rem o.

É fácil entender que, num a geografia de rios, furos, canais, igapós, m angues e ilhas e terras cobertas boa parte do dia pelas águas, os hom ens se m edissem pela canoa e que em torno da canoa se fossem alterando as estruturas sociais. Até porque era a canoa o principal instrum ento do enriquecer coletivo, pelo com ércio. Um a wari devia ser capaz de arm ar um a canoa de guerra, com pelo m enos 30 hom ens, arm ados de escudos e azagaias, e colocá-la à disposição da grei. Ao fazer isso, um chefe daquilo a que os britânicos cham aram canoe house, a “casa da canoa”, passava a integrar o conselho real, a tom ar parte nas deliberações sobre a paz e a guerra e a disputar espaço no com ando da cidade.

Continuar: parte 3 de 3