A Manilha e o Libambo

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 11 de 30 · parte 3/3

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A Manilha e o Libambo

9. O Benim e o delta do Níger

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Um a “casa” que tivesse um grande êxito em suas operações m ercantis crescia em núm ero de gente que a ela livrem ente se j untava, e de escravos, e de alm adias. Quando algum de seus m em bros, fosse filho, parente ou escravo do chefe da casa, acum ulava riqueza suficiente para ter a sua própria canoa de guerra, ele se separava da wari, com o consentim ento de seu pai de sangue ou de seu “pai” de adoção, e ia fundar um a nova “casa”, vinculada àquela em que se havia form ado, com o se fosse um a filial em relação à m atriz. Com punham -se assim verdadeiras constelações de “casas”, cada um a dessas constelações a lutar contra as outras, m uitas vezes de arm as na m ão, por um a parcela m aior do com ércio e pelo m ando na cidade-estado.

Tam bém num passado m enos recente, quando “casa” e fam ília se confundiam , um a wari não podia crescer indefinidam ente. Ela j á continha, nas subcasas das diferentes esposas e m ães, a sem ente da separação. Ao atingir um certo tam anho, era habitual que se dividisse, um ou m ais filhos do cabeça da fam ília indo form ar um a nova “casa”, ainda que guardando um a posição de dependência em relação àquela da qual saíra. Na nova estrutura, m anteve-se o vocabulário do parentesco e, com ele, a ficção ou, m elhor, a ideologia dos laços

de fam ília. 116 Só que esses laços, quando reais, perderam a força: o m érito passara a prevalecer sobre o parentesco.

A “casa” buscava o êxito. E é possível que nela se tenham desenvolvido as novas form as que tom ou, a fim de m elhor responder ao im pacto do com ércio transatlântico. Era em grande parte para atender à dem anda dos navios europeus que as alm adias subiam os rios e iam buscar no interior (sobretudo, ao que parece, na Ibolândia) escravos, m arfim e até alim entos. Com o as transações com os navios europeus eram controladas pelos reis de Nem be, Bonny ou Elem Kalabari, o prestígio desfrutado por um chefe de “casa” j unto ao rei determ inava, em últim a análise, a sua participação no com ércio.

Significativam ente, em Bonny, as tradições colocam o início do com ércio transoceânico no período de Asim ini, um rei que teria sacrificado a própria filha aos deuses do rio, a fim de que esses abrissem o estuário à navegação dos

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grandes barcos europeus. Muito tem po m ais tarde, m al se avistava um navio

na entrada do rio Real, o régulo m andava ao seu encontro um a canoa, com pilotos que falavam um pouco de português, inglês ou holandês, para conduzi-lo

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em segurança águas acim a. No seu diário, o irm ão de Jean Barbot, Jam es,

descreve-nos com o, em 1699, se processou a intensa negociação entre ele e alguns de seus com panheiros e o rei William , de Bonny, acom panhado por seu irm ão, Pepprell, e por m ais uns poucos dignitários, alguns dos quais eram

possivelm ente chefes de “casa”. 119 Duraram oito dias as discussões sobre o preço e a qualidade das m ercadorias. O rei e seu irm ão desej avam que os ingleses pagassem 13 barras de ferro por um escravo hom em e dez por um a m ulher, alegando que, com o a procura no litoral crescera m uito, haviam aum entado os preços nos m ercados do interior. Os visitantes contrapropuseram 13 barras de ferro pelos hom ens e nove pelas m ulheres, o que foi aceito. Mas as negociações não term inaram aí. Adotou-se com o m oeda a barra de ferro e se estabeleceram os preços dos principais produtos a serem m ercadej ados. Assim , um a barra de ferro equivaleria a um a penca de contas, a seis inham es de qualidade, a quatro barras de cobre e a 40 “anéis” ou pequenas m anilhas do m esm o m etal. Por um bezerro pagavam -se oito barras de ferro, e por um a j arra de azeite de dendê, um a barra e um quarto. Só depois de todos os valores acordados, foi o rei visitar Jam es Barbot a bordo e, dali, com toda a cerim ônia, m andou tocar os olifantes e autorizou os seus súditos a com erciar com o navio. As “casas”, que não contavam com m ais de 150 escravos em seus depósitos, j á tinham , m al o navio inglês entrara no rio, m andado às pressas suas alm adias adquirir cativos no interior. O rei pessoalm ente vendeu aos ingleses 23 indivíduos e, além de um chapéu, um a espingarda de pederneira e nove pencas de contas, com o presentes de praxe — j á então, essa form a de agrado para abrir cam inho j unto às autoridades se cham ava dash, possivelm ente um a corruptela do português “dá-se” ou “dádiva” —, recebeu o pagam ento do com ey ou im posto pelo exercício do com ércio (m il m anilhas de cobre) e um em préstim o, em bens, no valor de 150 barras de ferro. Em préstim os m enores foram concedidos aos capitães que acom panhavam o rei, provavelm ente chefes de “casa”, a fim de que fossem com suas alm adias adquirir no interior o inham e necessário para

alim entar os 500 escravos que seguiriam no navio para a Jam aica.120

Durante a estadia da em barcação de Jam es Barbot em Bonny, a unidade de valor foi a barra de ferro. Em outras cidades e em outras ocasiões, a m oeda seria diferente. Na m etade do século XVI, por exem plo, a barra e a m anilha de cobre e latão tinham sido o m eio de pagam ento preferido em Bonny e guardariam essa posição por m uito tem po em Old Calabar e no rio Cross, dividindo-a com a barra de ferro em Elem Kalabari. Mesm o onde a barra de ferro se im pôs, serviam de m oeda divisionária os cauris e a pequena m anilha de cobre ou latão — tão pequena que não cabia no pulso de ninguém e, por isso, m ais parecera a Jam es

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Barbot um anel.

Entre os efiques do delta do Cross, a sociedade secreta Ekpe ou do Leopardo condicionava o funcionam ento das instituições políticas. Esse pequeno povo, originário possivelm ente dos territórios ibibios, fundou, talvez no início do século

XVI,122 123 ou só cem anos m ais tarde, no delta dos rios Cross e Old Calabar, um conj unto de povoações a que os europeus deram o nom e de Oudt Calbary, Old Calabar ou Antigo Calabar. Por que o cham aram assim não se sabe, um a vez que os efiques não têm parentesco com os calabares de Elem Kalabari, falando o

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m esm o idiom a que os ibibios. O prim eiro desses estabelecim entos deve ter

sido o de Ikoritunggko (Obio Oko ou Creek Town), seguindo-se, sem pre na direção do oceano, Obutong (ou Old Town), Atakpa (ou Duke Town) e Isidung (ou Henshaw Town). Ao contrário do que sucedia com Nem be, Bonny, Elem Kalabari e Okrika, as aldeias efiques erguiam -se em terra firm e e, por isso, não dependiam do com ércio com o interior para se proverem de alim entos. Os seus escravos eram colocados em roças nas proxim idades das povoações e ali cultivavam inham es, bananas e feij ões, que os efiques vendiam aos navios europeus. Talvez fosse a abundância de alim entos um dos m otivos que explicam terem tido os ingleses, no fim do Seiscentos, um a certa inclinação a com erciar em Old Calabar, apesar dos inconvenientes da área, pois lá o m ercadej o era lento: as em barcações tinham m uitas vezes de perm anecer entre oito e dez m eses para carregar os porões de escravos e de m arfim , o que significava

perder um bom núm ero de m arinheiros, atacados de m alária e disenteria.125

Old Calabar adotou tam bém o sistem a da “casa da canoa”, m as de form a bastante m odificada, um a vez que os escravos não eram absorvidos pelas linhagens nem podiam aspirar a m ais nada do que a sobreviver em seus duros trabalhos. A Ekpe tinha, por sinal, entre suas funções, a de im pedir que levantassem a cabeça. E a Ekpe era poderosíssim a entre os efiques. Tanto os chefes de linhagem quanto aqueles que chegavam a régulo ou opong fundavam os seus poderes no fato de pertencerem aos m ais altos graus da sociedade secreta, aos quais só chegavam os que fossem m uito ricos e bem -nascidos. E era por m eio dela que exerciam o m ando.

Não se sabe se, j á então, os iniciados na Sociedade do Leopardo se com unicavam entre si por m eio de um a escrita, criada talvez entre os ecóis, cham ada nsibidi ou nsibiri. Cada um dos seus sím bolos é um ideogram a — representa um obj eto, um fato, um conceito — e pode ser lido por quem fale um idiom a inteiram ente distinto daquele de quem o escreveu. Os sinais da nsibidi eram gravados em cabaças, na m adeira e no caule das palm eiras, pintados nas paredes das casas e em tecidos, rabiscados no solo e escarificados ou tatuados no corpo hum ano. Sabe-se que os iniciados podiam , a apontar com diferentes dedos para os ideogram as, m anter longas conversas em silêncio, e que o núm ero desses sinais devia ser enorm e. Deles conhecem -se m ais de 500, quase todos, porém , referentes ao am or e ao sexo, o que j á fez supor-se que, sendo um a escrita sagrada e arcana de um a sociedade secreta que regulava todas as relações sociais e tinha poderes de vida e de m orte, não se revelassem aos europeus que tentaram estudá-la senão os signos que se j ulgavam m enos com prom etedores. De que se descreviam acontecim entos com essa escrita, dão testem unho dois relatos de casos j udiciais com ela registrados. E se im agina que certas inscrições em nsibidi, encontradas em altares de ancestrais, possam ser referências a seus

feitos.126

Ignora-se a antiguidade da escrita nsibidi. Com o tam bém se ignora de que época datariam os m ais antigos dos m onólitos que se conhecem com o akwanshi,

alaptal, atal e netal,127 tão num erosos nos grupos de aldeias ecóis de Nnam , Abany om , Agba, Akaj u, Nde, Nnam e Nselle, na banda direita do m édio rio Cross. Suspeita-se, porém , de que os prim eiros deles datariam do século XVI, quando aquela área não só se tornou passagem do com ércio do interior com Old Calabar, m as tam bém passou a fornecer-lhe escravos, m arfim , m adeiras corantes e outros bens.

Na região são com uns, tanto em terra quanto nos rios, m atacões de basalto. Eram eles cuidadosam ente desbastados, para assum ir um a form a cônica, com o topo arredondado. Alguns poucos desses m ais de 300 m onólitos sim ulam falos, com a glande indicada de form a clara. Nos outros, o sulco que a separa do resto do m em bro representa o pescoço e a barba de figuras hum anas, hieráticas, solenes, de boca aberta, com o se falassem ou estivessem prestes a gritar. Nas m ais expressivas, não deixo de identificar tristeza, assom bro ou espera de um a im inente epifania. Em alguns casos, escavou-se no m atacão apenas um um bigo alto. Noutros, além do um bigo, olhos, nariz, boca, barba e um a touca no alto da cabeça. Noutros, ainda, o artista pôs orelhas, m am ilos, braços e m ãos. E não são poucas as pedras que, além dos traços hum anos, se apresentam profusam ente decoradas, com círculos concêntricos, ondas, triângulos e espirais, a figurarem as escarificações, tatuagens e pinturas corporais com uns entre os ecóis.

As im agens, predom inantem ente de basalto, m as algum as de pedras m oles com o o calcário e o arenito, com entre 90cm e 1,80m de altura e podendo pesar até m eia tonelada, dispunham -se, ao que tudo indica, num a am pla circunferência, na praça central da aldeia. Num caso, em Old Nto, o circo era

com posto por 29 m onólitos, com dois deles no m eio. 128 Sobre quem representam , as tradições locais são im precisas e, às vezes, contraditórias. Seriam ancestrais. Ou os fundadores da aldeia e de suas linhagens. Ou altos m em bros de sociedades secretas. Ou ntoons, os sacerdotes que, em bora cada aldeia ecói fosse regida por seu conselho de anciãos, exerciam um a espécie de chefia ritual e eram investidos e sepultados entre os m onólitos. O ntoon vivia recluso em seu com pound, de onde não podia sair. Lá, no m eio da coleção de caveiras dos inim igos m ortos, cuidava dos j uj us ou obj etos sagrados e cum pria os ritos que garantiam a caça ao caçador, o peixe ao pescador e a safra de inham e a quem o cultivara. Para convocar a chuva, o ntoon enchia a boca de água e,

invocando as divindades, esguichava-a no chão.129

Não é incom um que se enclausurem aqueles em quem se encarna a divindade ou que a ela se devotam , ou para se afastarem das im purezas do quotidiano, ou para se dedicarem por inteiro à oração e aos ritos que asseguram o funcionam ento e a harm onia do universo, ou para evitar que o desm esurado poder de que dispõem possa involuntariam ente causar dano aos hom ens ou ao convívio entre eles. Tam pouco é raro que determ inadas elites, religiosas, aristocráticas ou m ilitares, utilizem a condição divina ou sagrada de um rei para, ao recluí-lo no palácio, afastá-lo do dia a dia da política e subtrair-lhe poder. Assim se passou com o dantes poderosíssim o obá do Benim , durante a m aior parte do século XVII.

Ozolua, Esigie e Orhogbua tinham sido grandes guerreiros. Não só conservaram o que lhes deixara Euare, m as tam bém am pliaram os territórios cobertos pela suserania do Benim ou sob sua esfera de influência. Se Akure e Ado Ekiti continuaram a pagar-lhes tributo, acrescentaram aos avassalados o reino de Ondo e, talvez, o de Ij ebu. É certo que não dom aram todos os edos — m uitos deles, com o os urrobos, os isocos e os irredutíveis edos nortistas continuaram fora do Benim —, m as lograram suj eitar a gente de Ishan. Im puseram -se sobre um a parcela dos ibos que viviam a oeste do Níger e é possível que tenham subm etido Onitsha e outras com unidades ibos da m argem esquerda do rio. Atravessaram -no m ais de um a vez, um a delas para derrotar os igalas do reino de Idah. Expandiram -se tam bém pelo sul do delta, e a Orhogbua,

que reinou provavelm ente entre 1550 e 1570 ou 1578, 130 atribui-se o ter estendido o dom ínio benim sobre a franj a litorânea até onde hoj e é Lagos.

Segundo os benins, Lagos teria nascido de um acam pam ento m ilitar de Orhogbua — daí o nom e que teve, Eko, “acam pam ento” em edo. As tradições iorubanas fazem -na m ais antiga, com um a outra denom inação, Oko, que quer dizer “fazenda” — um a fazenda de pim enta, situada precisam ente onde hoj e fica o palácio do rei de Lagos, o Iga Idu Ingaran. Teria sido nesse local que se instalou Arom ire, quando ele e nove de seus irm ãos tom aram posse daquela ilha pouco propícia à ocupação hum ana, pois seus solos secos se alternavam com pântanos e m anguezais. A ilha era desabitada e, por isso, esses im igrantes, filhos de Olofin e

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netos de Odudua, o antepassado m ítico dos iorubás, dela se fizeram donos, transm itindo essa condição aos que são tidos por seus descendentes, os ilej os ou chefes do gorro branco, que continuaram a ser, em Lagos, os “senhores da

terra”. Arom ire e seus irm ãos seriam iorubás auoris, 132 que, vindo de Isheri, se estabeleceram em Ebute Metta e na ilha de Iddo, antes de se instalarem no que viria a ser Oko, Eko e, com os portugueses, prim eiro Onim e depois Lagos.

Na segunda m etade do século XVI, não só a cidade, m as toda a área até Isheri passou a ser vassala do Benim . As versões de com o isso se deu variam conform e quem as conta. São num erosas e conflitantes. Segundo um a delas, os ilej os pediram ao obá que lhes enviasse alguém para servir de árbitro nas disputas entre eles, e o obá lhes m andou Ashipa, um iorubá de Isheri, a quem os europeus tom aram por rei, m as era apenas um m ediador entre os vários chefes da cidade. Nesta, assevera-se que o obá não enviou com o árbitro Ashipa, m as, sim , um filho deste com um a m ulher benim , Addo. Nesta outra, que houve a invasão benim , m as que a luta se prolongou por m uito tem po, dada a resistência do olofin, e que nela m orreu, de febre, um dos generais do Benim , Asheru. Ashipa teria levado o cadáver a enterrar no Benim e de lá retornado com a espada de m ando, o tam bor real gbedu e o título de olugorun. Para os lagosianos, Ashipa seria um auori; para os edos, um neto do obá do Benim . O que é certo é que, desde o fim do Quinhentos até a m etade do Novecentos, o olugoron, ologun, eleko ou obá de Lagos foi vassalo, em bora às vezes apenas form alm ente, do rei

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do Benim .

A um filho de Orhogbua, o obá Ehengbuda, atribui-se o ter colocado o reino de Ij exá na esfera do Benim , bem com o o ter im pedido que os oiós se

im pusessem sobre o Ekiti. 134 As tradições referem um a guerra entre o obá e o alafim ou rei de Oió, que teria term inado com a fixação em Otun, no norte do

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Ekiti, das fronteiras entre os dois estados. A m enos que se tenha tratado de

um a incursão nupe, 136 seria a essa guerra que aludiria um a outra história, corrente no Benim , na m etade do século XVII. Ela nos diz que, algum as décadas antes, um obá teria derrotado um num eroso exército a cavalo, que bem poderia ser o de oió. Ao que parece, o alafim tentou som ar aos seus dom ínios o Iorubo oriental, m as esbarrou não só com a oposição do exército do obá do Benim , m as tam bém com a do terreno: a região era m ontanhosa e boscosa, o que dificultava

o uso da cavalaria, que era o nervo das arm as oiós. 137

Com o seus m aiores, é provável que Ehengbuda com andasse pessoalm ente algum as de suas cam panhas m ilitares. Outras teriam por chefe o iy ase, o

principal dos chefes da nobreza da urbe, ou Egaevbo n’Ore.138 No regresso de um a delas, o y iase, de nom e Ekpennede, desentendeu-se com o obá, levantou-se contra ele, m as, vencido, foi obrigado a enforcar-se. A partir de então, proibiu-se a entrada na cidade de um iy ase que retornasse vitorioso do cam po de

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batalha.

Talvez tenha sido por causa da arrogância de Ekpennede que Ehengbuda tom ou a decisão de dirigir pessoalm ente o que talvez fosse um a cam panha

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pacificadora no Mahin ou em Lagos. Voltava em sua flotilha de pirogas, rem adas provavelm ente por itsequiris ou ij ós (um a vez que os benins pouco sabiam de canoas), quando aquela em que ia em borcou. A m orte por afogam ento de Ehengbuda foi, ao que tudo indica, usada pelos grandes chefes benins para, prim eiro, desaconselhar e, depois, vetar que os obás voltassem a

chefiar em pessoa as suas tropas. 141 Os chefes ou egaevbos despiram , assim , o obá da sua condição de líder m ilitar, de grande conquistador, de com andante de hom ens ansiosos por vitórias e butins. Em consequência, os obás, ou os egaevbos em nom e deles, desinteressaram -se pelo Iorubo, onde a presença do Benim se

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foi lentam ente, ao longo do século, esm aecen-do. O reino, por assim dizer,

desm ilitarizou-se, sem que se desfizesse, contudo, a fam a do poderio das arm as do obá, nem de sua espantosa força espiritual. De tal m odo os benins confiavam em que ninguém se atreveria a atacar-lhes a capital, que deixaram secar o fosso profundo que acom panhava os m uros da cidade, e nele passaram a crescer

árvores.143

No obá, o soldado foi encolhendo diante de quem personalizava a divindade. E não só o soldado, m as tam bém o governante. Um ser divino, dono de poderes sobrenaturais incontrastáveis e tem ibilíssim os — assim os benins o invocavam : “Filho do Céu, a quem rezam os para que não caia sobre nós, e Filho da Terra, a quem im ploram os que não nos engula” —, ele sem pre fora tam bém um rei

político, engaj ado na com petição pelo poder.144 Longe das tropas, foi-se diluindo a sua condição de guia tem poral de seu povo. O obá, em quem se concentrava um a enorm e potência espiritual e de quem dependia, pelo cum prim ento sistem ático dos ritos religiosos, o próprio bom cam inhar da natureza, devia ser poupado dos afazeres do estado. Assim argum entavam os egaevbos, que o trancaram no seu enorm e palácio, do qual só saía em ocasiões especiais, um a ou duas vezes por ano. O poder político passou a ser exercido, em seu nom e, pelos chefes das duas ordens de nobreza criadas por Euare, a do palácio, ou Egaevbo n’Ogbe, e da cidade, ou Egaevbo n’Ore. Esses lograram até m esm o, para se robustecerem frente ao rei, alterar o sistem a sucessório: substituíram o princípio da prim ogenitura por um outro, aberto a todos os filhos e irm ãos do obá. Teoricam ente, era este últim o quem escolhia o sucessor: antes de finar-se, cochichava ao ouvido do uwangue, o chefe da nobreza do palácio, o nom e do futuro obá, que devia ser guardado em segredo. Anunciada a m orte do soberano, o uwangue ia ver o iy ase, que tinha o com ando do exército, e lhe com unicava a decisão do rei. O iy ase saía então em busca do escolhido, para que fosse sagrado. Na realidade, com o a palavra do uwangue valia pela do obá, e aquele não revelava a ninguém , antes de encontrar-se com o iy ase, o nom e do escolhido, o novo rei em ergia de um entendim ento entre os dois chefes da aristocracia, entre

o palácio e a cidade.145

Até m esm o o com ércio foi retirado das m ãos do obá. Dantes, os capitães dos navios europeus tinham de deslocar-se até a cidade do Benim e negociar diretam ente com o rei as condições de troca. Agora, ficavam em Ughoton ou Arbo — nesta aldeia, os holandeses haviam estabelecido um entreposto antes de 1633, e os ingleses, logo depois — e transacionavam com dois chefes do palácio,

que se faziam acom panhar por m ercadores benins. 146 Deles adquiriam pim enta-de-rabo, m arfim , copal e principalm ente tecidos. Os panos m anufaturados no Benim e os trazidos de Ij ebu-Ode, de outras cidades iorubanas e até, talvez, de bem m ais longe, de Nupe, foram -se tornando, à m edida que avançava o Seiscentos, a principal m ercadoria. Só raram ente se em barcavam

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alguns escravos.

Após cerca de 80 anos, durante os quais se sucederam sete obás, em geral velhos e apagados, praticam ente prisioneiros dos egaevbos — um desses reis,

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Ahenkpay e, chegou a ser deposto —, a situação com eçou a reverter-se. Na

últim a década do século, um novo obá, possivelm ente Ewuakpe, 149 com eçou a explorar as rivalidades entre o Egaevbo n’Ogbe e o Egaevbo n’Ore e a utilizar sua faculdade de criar títulos de nobreza. Os egaevbos não haviam logrado tornar os seus títulos hereditários: dependiam , para ter seus filhos neles confirm ados, da vontade do obá. E este não podia, em princípio, ser contestado em suas decisões, porque era a encarnação divina. Quando o iy ase e a nobreza da cidade, alarm ados, tentaram im por-se sobre o palácio, estourou um a guerra civil, que duraria uns 20 anos. Durante ela, é possível que o obá tenha contado com o apoio dos holandeses e da gente de São Tom é. De qualquer form a, ao findar o século,

foi um português quem negociou um a trégua entre o obá e o iy ase,150 um a trégua que, na realidade, abriu cam inho para a rendição honrosa deste últim o.

O m onarca saiu da guerra fortalecido. Ewakpe restaurou o princípio da

prim ogenitura,151 e um seu sucessor, Akenzua, retirou para sem pre do iy ase o

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com ando das forças arm adas, que entregou a um novo titular, o ezom o. Os reis continuaram reclusos no palácio, m as, tendo aprendido a m anipular politicam ente o sistem a de títulos e o tem or que infundiam por seus poderes sobrenaturais, retom aram as rédeas do governo e fizeram com que refluíssem

para eles as rendas do estado e do com ércio.153

Em consequência da longa guerra civil, o escravo reapareceu, na últim a década do século XVII, com o um im portante item de exportação do Benim . Não só os sucessivos encontros arm ados geraram um núm ero considerável de cativos, com o entre estes não poucos eram adversários políticos perigosos. Para afastá-los de vez, ou lhes davam m orte, ou os vendiam aos europeus. Escravizar para fora da África tornou-se o m ais eficaz dos desterros políticos.

O Benim , no século XVII, deu volta atrás em seu destino im perial. Não consta de sua história, após Ehengbuda, um a só cam panha de conquista. O que não im pediu que seu prestígio e influência continuassem a perm ear os povos vizinhos. A oeste do rio Níger, m esm o entre aquelas com unidades ibos que nunca tinham experim entado a força das arm as dos obás, surgiram pequenos estados a im itar o Benim , a copiar suas instituições e o cerim onial de sua corte. Em vários deles, as tradições afirm am que foram fundados por grupos de aristocratas benins que se

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im puseram sobre as populações ibos. É possível que tenha sido assim em alguns casos. Noutros, terá havido im pregnação política e cultural. Ignoram os se o prim eiro oni ou rei de Onitsha em igrou fisicam ente ou não do Benim , m as sabem os que de lá veio a form a que assum iu o seu estado e o de Aboh, bem com o m uitas das instituições de Oguta.

Já o reino de Osom ari sairia de m olde igala.155 A aldeia ficava à beira-rio e cedo tornou-se um bom porto e m ercado para as alm adias que vinham de Idah em dem anda do delta. Tal com o fizeram em m uitas outras cidades e vilarej os ao longo do Níger, alguns igalas j untaram -se aos habitantes ibos e criaram um novo estado, ainda no século XVI ou j á no início do XVII, com um rei cuj o título, atam ania, deriva do de Idah, o ata.

As tradições ibos dão por m uito m ais antigos os nexos entre o rei divino igala e o eze unri, um grande sacerdote e chefe sagrado de um grupo de aldeias do clã

Um uedi (ou Um undri), no norte da Ibolândia.156 Um a delas, Nri, ocupa um a posição central no im aginário ibo: a rua que a corta é a rua dos deuses e por ela

passam todos os que m orrem , a cam inho da terra dos espíritos. 157 Quem a controlava não podia deixar de ter altíssim os poderes espirituais, e os eze unris os utilizaram para exercer um a enorm e influência sobre toda a região, por cim a dos lim ites dos clãs e dos grupos de aldeias, dentro dos quais, entre os ibos, se organizava politicam ente a vida. Pacifistas e pacificadores, os agentes do eze unri, cham ados ichis, por causa das profundas escarificações que traziam nas faces, circulavam por toda parte, a com por diferenças, a resolver pleitos, a explicar e interpretar as tradições, a lim par as com unidades das consequências dos pecados que tivessem com etido contra a ordem social ou contra a natureza e a conceder os títulos de eze e ozo, que não só investiam de autoridade e prestígio os hom ens m ais ricos e m ais bem -sucedidos de cada vilarej o, m as tam bém os

tornavam im unes a qualquer ataque corporal. Com o j á se escreveu,158 os acólitos do eze unri detinham um poder negativo: podiam recusar-se a realizar os ritos despoluidores e deixar um povoado coberto de culpa e im pureza. Tanto os ichis quanto os ozos estavam protegidos pelo eze unri: ninguém se atrevia a m altratá-los nem a cortar-lhes o cam inho, pois o castigo podia ser a m aldição de um a com unidade. Anatem atizada, ela sofria um bloqueio ritual e econôm ico: fechava-se o seu m ercado e passava a ser evitada pelos vizinhos.

Os com erciantes protegidos pelo eze unri transitavam com tranquilidade e segurança por todo o país ibo. Form aram , assim , extensas redes a vincular entre si as m ais distantes aldeias. Mas não foram os únicos. Os ferreiros de um vilarej o que ficava a nordeste de Nri, Awka, saíram igualm ente terra afora, a se estabelecerem onde se necessitasse de seus serviços. Tam bém eles, senhores de um a profissão envolvida em ritual e m istério, podiam viaj ar por toda parte sem

tem er ser m olestados.159 Mais tarde — disso só tom am os conhecim ento no século XIX —, aum entaria ainda m ais o prestígio ou tem or que os cercava, ao som ar ao ofício de ferreiro a condição de em issário de um oráculo existente em

Awka, o de Agbala ou Agbara.160

No fim do Seiscentos, um a outra grande confraria, a dos aros, j á devia estar a

estender-se por toda a região entre os rios Níger e Cross.161 Tivera origem provavelm ente num conj unto de aldeotas, Arochukwu, estrategicam ente bem colocado entre a Ibolândia e os territórios ibibios. Diz a história oral, num a de suas versões, que a com unidade tom ou form a com um a revolta de escravos ibos contra seus senhores ibibios. Aqueles cham aram em seu apoio um grupo de guerreiros, os akpas, de quem nada se sabe, em bora em Arochukwu se conservem dois bacam artes que teriam pertencido a seus chefes. Arochukwu, até bem pouco dividido em 19 vilarej os, cinco dos quais invocavam descendência desses prim eiros ibos, dois dos ibibios, seis dos akpas e seis de ibos que chegaram depois, tinha por ponto de convergência um a caverna com um oráculo ibibio, Ibritam ou Ibini Okpabe.

Para esse oráculo afluíam pessoas de toda a região, em busca de am paro ou conselho, ou para lhe subm eter querelas. A partir de seu controle, os aros ganharam prestígio e im unidade para os seus agentes, que se foram estendendo, a criar com unidades com erciais próprias, por um a am plíssim a área, entrando pelas fronteiras dos ecóis, dos efiques, dos ibibios, dos ij ós e até dos igalas e idom as. Pelo m enos, era assim , quando deles tom am os conhecim ento, no século XIX. Mas tudo indica que os aros, entre duzentos e cem anos antes, perceberam com acuidade e rapidez as oportunidades que se abriam com a chegada dos europeus. Desde então, com erciavam com tudo, em grosso e em pequeno, e sabiam com o e onde m elhor colocar as suas m ercadorias, graças à m alha de agentes e inform antes de que dispunham . Pronto tornaram -se fornecedores de escravos. Segundo as tradições, aqueles que recebiam sentença desfavorável do oráculo eram por ele “devorados”: entravam na caverna e dela saíam para o em barque no navio negreiro. Na realidade, eram poucos os cativos assim feitos ou derivados de procedim entos j udiciários. O grosso provinha de sequestros, razias e guerras, que com frequência atiçavam . E tinham entre seus aliados ou m ercenários grupos guerreiros ibos, com o o abam e o ohafia, que exigiam de um j ovem que dem onstrasse sua coragem trazendo para casa um a cabeça inim iga. Esses grupos estavam sem pre dispostos a castigar um a com unidade que desobedecesse ao oráculo. Caíam sobre ela de arm as nas m ãos e entregavam os sobreviventes aos aros, para que os vendessem no delta, no rio Cross ou nos m ercados ao norte de Idah.

Os igalas tinham em Idah a capital de um reino que j á devia ser, no fluir dos

séculos XVI e XVII, grande e poderoso. 162 Tanto assim , que tentara expandir-se na direção do Benim e se perm itira avançar com seus exércitos pelo norte da

Ibolândia.163 164 Seu soberano era um daqueles reis ditos divinos, um rei sagrado

investido de um prestígio político e religioso que se derram ava sobre os povos vizinhos, com o provaria a influência que exerceu sobre as estruturas políticas dos

idom as e dos igbiras, 165 bem com o a presença, em m uitas aldeias do norte da Ibolândia, de sacerdotes, os atam as, que a ele se ligavam e que cultivavam , ao que parece, com o m esm o zelo a religião e o com ércio. Do ata, os súditos não deviam ver o rosto — um rosto que, m esm o se de um rapazola, teria de ser terrível. Talvez o rei j á vivesse, com o o encontrarem os bem m ais tarde, recluso num palácio controlado por eunucos. E j á tivesse por prim eiro-m inistro o ashadu. Am bos seriam tidos por estrangeiros — o ashadu era de origem escrava —, sendo contrabalançados pelos igala m ela, os nove “senhores da terra”, que elegiam o rei. É possível tam bém que, j á então, o poder circulasse entre quatro subclãs do clã real: ao falecer um ata, seu substituto devia ser o filho m ais velho

do últim o soberano do subclã a que cabia a vez.166

O território do reino cobria provavelm ente a forquilha da confluência do Benué com o Níger. O ata devia ser senhor da passagem pelas águas — em bora

lhe fosse interdito pôr o pé num a canoa167 — e dom inaria as trocas que ali se processavam entre povos distintos e diferentes paisagens econôm icas. Não só ele em barcava para o litoral escravos capturados nas áreas próxim as, sobretudo na Ibolândia e a nordeste do Benué, m as tam bém cobrava direitos de trânsito para os que vinham dos rios acim a e podiam provir da Hauçalândia, de Nupe, das terras dos j ucuns e de m uito m ais longe. Na volta, as alm adias podiam ter por carga outros escravos, trazidos das áreas costeiras e que se vendiam no país igala ou se encam inhavam para os m ercados hauçás e bornus, onde se incorporavam às cáfilas transaarianas.