A Manilha e o Libambo
23. A África Atlântica, ao norte do equador
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
ficavam os escravos, os anies.121
A posição especial dos cram os estava ligada, ao que parece, ao dom ínio da escrita. Cabia-lhes registrar num a lista form al os nom es dos antigos chefes e de
seus im am es e lê-los nas grandes cerim ônias.122 E porque foram eles que
puseram no papel a história de Gonj a, é de suspeitar-se123 que nela se tenham reservado um desem penho im portante, ao insistir na aj uda que os m oslins deram às cavalarias de Nabaga e Jakpa. Nas crônicas em árabe, Nabaga contou com a assistência de um xeque de Bigu, Ism ail, e um filho deste, Muham m ad al-Aby ad, tornou-se o conselheiro de Jakpa, a ele se atribuindo o ter aum entado o poder das
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arm as com o poder da fé. O prestígio desses letrados não se traduziu, porém ,
na islam ização de Gonj a. O rei e a nobreza tinham -se por m uçulm anos, m as não abandonaram as crenças antigas e cum priam os ritos devidos à terra e aos ancestrais. Já o povo, este não se apartou da religião tradicional. (Ver o m apa “A Costa do Ouro antes da expansão axante”.)
O m aom etanism o não ganhou espaço na floresta. Até porque o grosso do com ércio que, de ponta a ponta, nela se fazia acabou por ficar em m ãos acãs. Se alguns diulas continuavam a atravessá-la, a m aioria tinha por m enos custoso ou problem ático adquirir nos m ercados da beira da m ata o ouro, a cola e os artigos europeus e asiáticos. De levá-los até lá, encarregavam -se os negociantes acãs,
sobretudo aqueles a que os europeus cham aram acanes,125 os quais, a partir de Assin, um daqueles estados surgidos, ao norte da confluência dos rios Offin e Pra, nas clareiras abertas nas selvas pelos abirem pons (ou aberem pons), form aram um a rede com ercial eficientíssim a, sem elhante à dos diulas, a cortar toda a j ângal.
No início do Quinhentos, os acanes eram um dos vários grupos de m ercadores que transacionavam na Costa da Mina; um século m ais tarde, eles praticam ente
açam barcaram o com ércio do ouro entre os rios Com oé e Volta.126 Por volta de
1650, estim ava-se que eles vendiam 2/3 de todo o ouro obtido pelas companhias europeias naquela parte da costa. E não devia ser distinta a sua participação no com ércio com as savanas nortistas, um a vez que não se restringiam a oferecer as suas m ercadorias na orla da floresta. Com petindo com os diulas, suas caravanas iam ter a Bigu, Bono Mansu, Taky im an e possivelm ente até além de Kafaba, Yendi-Dabari e Gbuipe.
Um a caravana acane, a atravessar em fila indiana a selva, era com posta por cerca de um a vintena de com erciantes ou batanis, cada qual acom panhado por 20 ou m ais carregadores, além de guardas, serviçais e tocadores de trom pa. Alguns desses batanis podiam ser escravos de confiança de seus donos, m as a norm a era que fossem hom ens livres. Quanto aos carregadores, estes, sim , eram todos escravos, alguns cedidos em aluguel por seus senhores. Cabia igualm ente aos escravos batear o ouro, cavar as m inas, recolher as nozes-de-cola, derrubar as m atas e cuidar das lavouras, ainda que dessas tarefas participasse tam bém a plebe livre. A econom ia de Assin, com o de outros estados acãs, era m ovida a escravo.
Um conselho central decidia em Assin não só o fluxo, a com posição e a organização das caravanas, m as a política com ercial do que era um a grande corporação de m ercadores controlada pelo Estado. Esse conselho determ inava com o devia atuar cada um dos num erosos agentes com erciais estabelecidos nos principais m ercados, ao longo das rotas terrestres e fluviais e nos centros de produção aurífera. Assim com o eles deviam , nos entrepostos do Atlântico, saber falar português, é provável que, na zona lim ítrofe entre a floresta e a savana, fossem fluentes em m andinga. Num a e noutra área, e tam bém no interior da floresta, cabia-lhes providenciar o bom acolhim ento das caravanas, resolver conflitos, aj uizar sobre créditos e ser m estres nos diferentes sistem as de m edidas adotados no com ércio do ouro.
Eram estes os distintos sistem as correntes na região: o do m itical, o da onça islâm ica ou uqiy a, am bos de uso antigo e introduzidos na área pelos uângaras, o da onça portuguesa, o do peso troy holandês e o do peso troy inglês. Cada m ercador tinha de dispor, j untam ente com um a pequena balança e dos dem ais obj etos característicos do com ércio aurífero (com o as pequeninas colheres, as pás côncavas e as belas caixinhas de latão para o ouro em pó), de várias coleções de pesos, porque podia ser cham ado, conform e as circunstâncias e os fregueses, a negociar segundo um ou outro sistem a. Os sistem as eram vários, m as, dentro deles, as m edidas de peso m ostraram -se uniform es em toda a área, ao longo de m ais de quatro séculos. Do refinam ento desses m ercadores, dão testem unho os m ilhares de pequeninos pesos de cobre ou latão hoj e recolhidos aos m useus ou em coleções particulares, pesos extrem am ente precisos — num a gradação que vai de frações de um gram a a várias centenas de gram as —, ainda que se m ostrem , im aginativam ente, sobretudo a partir do século XVII, em form as que, de tão variadas, parecem que não se repetem : placas decoradas com zigue-zagues, espirais, labirintos ou suásticas, pirâm ides que se engatam , peixes, aves, lagartos, elefantes, caracóis, escorpiões, m úsicos com seus instrum entos, casais a se enlaçarem , hom ens a cavalo, m achadinhas de arrem esso, espadas rituais e tam boretes de chefes. Muitos, além de m edir o ouro, dão lições de vida, pois
representam figurativam ente provérbios. 127
Em algum as áreas, sobretudo na direção do Atlântico, a rede com ercial acane era protegida pelas arm as. Pois Assin tinha a reputação de ser um estado aguerrido. E com o tal, colocou em sua esfera de influência, no correr do século XVI, Abrem , os pequenos estados fantes e os régulos guans de Fetu, Com enda e Asebu. Dessa form a, garantia a obtenção dos escravos, das coris, dos tecidos de Quaquá (na Costa do Marfim ), de Ij ebu e do Benim , do sal, do peixe seco e de outros produtos que com erciava no interior.
Assin era um dos 30 e tantos estados que existiam , no Seiscentos, entre os rios Com oé e Volta, envolvendo não só acãs, m as tam bém gãs, guans, adangbés e evés. Entre os acãs, cada um a dessas estruturas políticas — om an, em tuí (ou twi, o idiom a dos acãs orientais) — era form ada por um a cidade capital e os territórios por ela dom inados, nos quais podia haver outras cidades e aldeias dependentes.
No início do século XVII, não se percorriam 25km do litoral sem encontrar um a dessas cidades capitais ou seu centro m ercantil, às vezes j unto a feitorias e fortalezas europeias. Cem anos m ais tarde, não era necessário cam inhar-se sequer a m etade da distância. Outros estados desenvolveram -se em plena selva, nas proxim idades dos cam pos auríferos, e suas capitais se cercaram de paliçadas ou de m uralhas de terra ou de pedra. Essas cidades interioranas eram m aiores do que as banhadas pelo m ar, não obstante os estím ulos dos 32 fortes que os
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europeus m antinham naquela parte da costa. Aquelas eram tam bém m uito m ais ricas, a crer-se em Pieter de Marees, pois nelas m oravam os grandes
m ercadores, que controlavam o grosso das transações.129 Até m esm o as capitais de estados cuj a prosperidade dependia em grande parte do com ércio atlântico ficavam a um a ou duas dezenas de quilôm etros das praias, longe dos canhões dos navios europeus. Portos com o Assinie, Axim , Takoradi, Sam á (ou Sham a), Cabo Corso (m ais tarde, Cape Coast), Mouri e Winneba não tinham , na segunda m etade do século XVII, m ais de quatro m il habitantes. A exceção era Mina, com
1.200 fogos por volta de 1680.130 Mesm o assim , estava longe de com parar-se a urbes do interior com o Abotaky i, com suas 70 ruas e 75 m il hom ens capazes de pegar em arm as. Ou com o Grande Acra, da qual j á se disse, talvez com
exagero, que abrigava, por essa época, entre 40 m il e 50 m il pessoas. 131 O Estado gã de Acra, de que era capital, contaria com m ais de 120 m il habitantes,
em suas 14 cidades.132
O principal em pório de Acra ficava, aliás, no interior, em Abonse, e atraía com erciantes de terras distantes. Próxim o dele, em Ny anaoase, haviam -se
instalado, no fim do século XVI, com o vassalos do rei de Acra, os acuam us, 133 cuj as tradições os fazem originários das florestas nortistas. Delas, eles teriam ido ter às proxim idades da fortaleza da Mina, de onde se foram deslocando para
oriente, até o norte dos territórios gãs. 134 Com erciantes com petentíssim os, esses acãs com pravam em Abonse o sal e o peixe seco produzidos na costa e os escravos e as m ercadorias que os europeus desem barcavam no porto de Aprag (ou Acra Pequena) e os iam trocar por ouro em Adanse (ou Adansie), Am ansie e outros estados nortistas. Deviam tam bém com erciar o que se produzia nos cam pos auríferos das nascentes do rio Birim .
Mercadores, eram tam bém soldados e não dem oraram a controlar os acessos à Grande Acra, fechando-os aos acanes, e a se im por aos grupos de agricultores e pescadores, fossem gãs, guans, adangbés ou evés, que viviam nas fronteiras de um Acuam u que continuam ente se expandia e passara a incluir até m esm o este e aquele om an acã. As suas elites enriqueceram e não podiam deixar de sentir-se incôm odas com a subordinação a Acra. Não se estranhará, por isso, que, em 1677, com a provável cum plicidade de m ercadores da Grande Acra, o chefe acuam u Ansa Sasraku, num a ação que j á foi im aginada com o um golpe de
estado, 135 arrancou o poder de seu suserano gã, Okai Koi. O rei m orreu durante a luta, enquanto que a fam ília real, acom panhada pelos que a ela se conservaram fiéis, se abrigou em Acra Pequena, para dali organizar a retom ada do poder. Malograda em seu intento, deslocou-se para Fetu, m as, depois, atravessou o rio
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Volta e foi instalar-se em Popó Pequeno.
A partir de então, pode-se falar de um im pério de Acuam u. Os seus exércitos dilataram -lhe as fronteiras para o sul até os m uros dos fortes europeus; para o norte, até as planícies de Afram ; e, para o nascente, até os lindes do reino de Aj udá, onde, com o aliadas ou m ercenárias, as suas tropas irão envolver-se nas lutas entre huedás, fons e guns. Para oeste e noroeste, a sua expansão será contida pelos exércitos de Aky em . Este era um país rico e m ilitarm ente poderoso, ainda que, durante todo o século XVII, estivesse dividido em dois ou
três reinos.137
Segundo William Bosm an, os acuam us podiam pôr no cam po de batalha m ais
de 25 m il hom ens. 138 A sua vantagem m ilitar derivava, contudo, principalm ente
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de suas novas m aneiras de organizar as tropas e fazer a guerra. Tradicionalm ente, na região, a m aioria dos soldados ia à luta com escudos, lanças curtas, espadas, punhais, m achadinhas e m aças de arrem esso, o que im plicava enfrentar corpo a corpo o inim igo, tendo os arqueiros um papel secundário ou auxiliar. Diante do adversário, as tropas form avam em falanges ou colunas com pactas e profundas, porém de frente estreita, para agir com o m áquina de choque, ficando os arcos atrás dos lanceiros. Os acuam us abandonaram essa m aneira de com bater e passaram a fundar a sua força nos arqueiros, procurando, portanto, dizim ar o adversário a distância, antes de engaj ar-se, se necessário, na luta corporal. Alargaram o m ais possível a frente, para o que dispuseram a tropa em três alas, sem profundidade, com os arqueiros separados uns dos outros. Form avam eles um am plo sem icírculo, com o intento de envolver o adversário e pô-lo no centro de um a chuva de flechas. A m esm a técnica continuou a ser adotada, depois que, a partir da m etade do século, os arcos foram substituídos por arcabuzes e m osquetes. E não tardou para que tam bém em pregassem canhões. Além disso, enquanto os dem ais estados se apoiavam m ilitarm ente nos soldados da nobreza e nas m ilícias das cidades — portanto, em soldados-escravos e em soldados profissionais e sem iprofissionais — os acuam us adotaram o princípio do recrutam ento universal: todos os hom ens válidos deviam acudir ao exército. E m udaram a dim ensão da guerra. Em vez de com bates localizados, nos quais, após um certo núm ero de baixas, um dos lados se dava por vencido e se subm etia ou pagava ao outro forte indenização, os acuam us faziam a guerra total e aspiravam ao aniquilam ento do adversário. Durante as repetidas guerras contra os gãs de Acra, entre a m orte de Okai Koi e 1681, as tropas de Ansa Sasraku destruíram os principais centros urbanos do reino e m ataram , escravizaram e dispersaram o grosso de sua população, a tal ponto que o m atagal retom ou a área ao redor da Grande Acra. Não foi diferente o destino das m ontanhas de Akuapem , quando os acuam us as invadiram , nas duas
últim as décadas do século XVII.140
Os gãs refugiados em Popó Pequeno adotaram os m étodos de guerra dos acuam us. Já dos acãs de Denquira (ou Denky ira), com o as novas técnicas bélicas ali apareceram pela m esm a época que entre os acuam us, não se pode afiançar se destes foram discípulos ou m estres. O m ais provável é que tenham sido
m estres, e não só no plano m ilitar m as tam bém na organização política.141
Denquira era um dos vários estados que faziam parte da cham ada confederação Adanse, na região riquíssim a em ouro im ediatam ente ao norte e ao sul da confluência dos rios Offin e Pra. Sua capital, Abankesieso, ficava praticam ente em cim a de grandes j azidas auríferas. Rico, fez-se poderoso, retirou-se da confederação, após um a série de guerras entre cerca de 1650 e 1670, e se im pôs com o o poder dom inante na área. Além de subm eter Adanse, conquistou Twifo, Wassa, Aowin e Sefwi, e fez de Assin um estado vassalo, assum indo o controle da rede com ercial acane e das rotas que levavam aos portos costeiros entre Assinie e Axim . É possível que tenha tam bém se apoderado
da m elhor fatia do com ércio com Bono Mansu e Bigu.142 Ao entrar na últim a década do século, os dom ínios de Denquira se estendiam por todo o sudoeste da atual Gana e parte do sudeste da Costa do Marfim .
O ouro com andava Denquira. Não só era o seu grande produto de exportação, m as tam bém o sím bolo por excelência do poder. Rei e nobreza cobriam -se dele. Chapeados de ouro eram os escudos e as espadas reais. E o próprio em blem a da realeza, o tam borete sagrado, que dantes era de contas valiosas, passou a ser revestido de ouro. Do alto de seu orgulho, o denky irahene (ou rei de Denquira) taxava duram ente suas conquistas, em vez de procurar integrá-las num grande
estado acã. Tanto as tradições locais quanto os escritos europeus143 ressaltam que Denquira tratava os povos dom inados de form a tirânica e arrogante.
A hostilidade dos vencidos debilitava a posição de Denquira face a seus adversários a leste, Aky em e Acuam u. As contínuas lutas entre eles acabaram , porém , por enfraquecer a todos e a perm itir a ascensão de um novo poder, que acabaria por unificar os acãs, o reino de Axante.
Em algum m om ento do Seiscentos, grupos provenientes de Adanse com eçaram a instalar-se na região de Kwam an, de abundantes terras virgens e m atas ricas em noz-de-cola, onde se entrecruzavam cam inhos m ercantis vindos do litoral com as rotas diulas para o Saara Ocidental e as hauçás para o Sudão Central. O fluxo m igratório acentuou-se no últim o terço do século, dando origem a várias cidades-estados, ou am antos, com o Kum asi, Juaben (ou Dwaben), Bekwai, Mam pon, Kokofu e Nsuta. Todas pagavam tributo a Denquira e enviavam , com o sinal de vassalagem , alguns de seus m elhores j ovens para servirem de paj em na corte do denky irahene. Assim sucedeu com o sobrinho do m ais im portante chefe do clã Oy oko, o régulo de Kum asi, Oti Akenten, que foi obrigado a partir para Denquira, com sete com panheiros. Esse rapaz, de nom e
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Osei Tutu (ou Ossay Atu), após ser o carregador do escudo do denky irahene,
brigou com este, fugiu de Abankesieso, e se pôs sob a proteção do soberano de Acuam u. Passado algum tem po, quando Oti Akenten j á havia sido sucedido com o kum asehene por seu irm ão Obiri Yeboa, Osei Tutu retornou à terra natal, não só acom panhado pelos seus sete cam aradas e, segundo certas tradições, por um grupo de soldados acuam us, m as im buído de um a nova m entalidade m ilitar. Tam bém am plo conhecedor do funcionam ento do poder em Denquira e Acuam u seria quem se j untou a Osei Tutu desde o prim eiro instante: Okom fo Anoky e, um sacerdote de origens guans, que respondia pelo santuário do deus Otutu, em Akwapin, e a quem se atribuem as 77 leis que form am o substrato do direito axante e levam o seu nom e.
Após a m orte de Obiri Yeboa num a cam panha m ilitar, Osei Tutu, com a aj uda de seu contingente acuam u, assum iu o poder. Auxiliado por um grande general, Am ankwatia, e pelos poderes sacerdotais e fina diplom acia de Okom fo Anoky e, ele deu início ao processo integrador dos diferentes am antos num a confederação axante, tendo Kum asi com o ponto de confluência e o tam borete revestido de ouro com o m ais do que o sím bolo da unidade, pois nele, o Sikadwa, o Golden Stool, que se afirm a ter baixado do céu, m ora a sunsum ou alm a do povo
axante. 145 O fato de quase todos os chefes das cidades-estados pertencerem a um m esm o clã, o Oy oko, facilitou o processo aglutinador, durante o qual os que faziam parte de um outro clã de chefes, o Bretuo, foram apaziguados. Assim , o rei de Mapon, ou m am ponhene, que pertencia ao clã Bretuo, ficou com o direito a um tam borete de prata, passou a liderar a ala direita do exército e dele assum ia o com ando em chefe na ausência do rei de Kum asi, que deixou de ser apenas o kum asehene, para se transform ar tam bém em asantehene, ou soberano suprem o
de todos os axantes.146
A aceitação de um sistem a confederativo, no qual cada estado m antinha sua autonom ia, m as reconhecia no rei de Kum asi o guardião e o sím bolo do interesse nacional axante, deve ter sido facilitada pela identificação de Denquira, cuj a tirania todos sofriam , com o a inim iga com um . Ao findar-se o século XVII, quando o choque com Denquira se tornara inevitável, os que se consideravam axantes se uniram em torno de Osei Tutu. Este soube explorar a rivalidade entre as potências que dom inavam as partes ocidental, central e oriental da Costa do Ouro, respectivam ente, Denquira, Aky em e Acuam u, bem com o os ressentim entos dos vassalos do denky irahene. A guerra de 1698-1701 travar-se-ia tendo, de um lado, Axante e Acuam u, e do outro, Denquira e Aky em , enquanto que m uitos dos que deviam assistência a Denquira a isto se furtaram — consta, por exem plo, que os tributários litorâneos lhe dificultaram o recebim ento de arm as de fogo e de pólvora —, quando não se som aram a seus adversários. Alterou-se assim a correlação de forças, disto resultando a derrota de Denquira, na batalha de Fey iase.
Na costa, as várias cidades-estados procuraram , apoiadas ou não pelos fortes europeus, resistir às tentativas de conquista pelas potências do interior. Os fantes, que eram tam bém acãs e falavam o tuí, lograram perm anecer insubm issos, ainda que fragm entados em cidades, aldeias e grupos de povoados independentes. É bem verdade que possuíam um líder civil e m ilitar com um , o brafo, m as este, ao que parece, só era plenam ente obedecido em épocas de
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crise. Se os fantes estivessem unidos — isto escreveu William Bosm an — seriam adversários form idáveis, pelo núm ero e pela disposição de luta. E é possível que j á então, com o m uitos pensam , existisse entre eles o sistem a do
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asafo, em bora sem todas as características que posteriorm ente adquiriria, por
influência europeia.149
O asafo era um a instituição com um aos estados acãs, m as foi especialm ente robusta entre os fantes, talvez porque estes não possuíssem estruturas políticas centralizadas. Em cada cidade-estado fante havia um a m ilícia perm anente ou sem iperm anente bem -organizada, sob um com andante-geral, o tufohen, e dividida em com panhias (atsikuw ou kuw), que correspondiam , grosso m odo, aos diversos quarteirões urbanos. Muito em bora os acãs estivessem organizados em clãs rigidam ente m atrilineares, um m eninote, ao atingir a idade de poder pegar em arm as, entrava para a atsikuw do seu pai e olhava para as dem ais com panhias com o, ao m esm o tem po, aliadas e adversárias. Pois cada atsikuw com petia perm anentem ente com as dem ais, as frequentes lutas entre elas podendo ser consideradas com o a m aneira que tinham de se m anterem sem pre em boas condições de com bate. De que eram eficientes, ainda que de aparência indisciplinada — talvez a eles se referisse De Marees, quando nos conta que grupos de rapazes solteiros saíam à noite, bêbedos, a fazer um a barulhada
enorm e e a lutar com outros grupos que encontravam150 —, dá testem unho Bosm an. Segundo ele, os fantes obrigavam , de vez em quando, os ingleses a se confinar em seus fortes, sem coragem para dar um passo fora de suas
m uralhas.151
As três dezenas de fortes europeus existentes na Costa do Ouro — alguns deles a m udar de vez em quando de dono — tornaram -se, com o era de esperar-se, fatores de m udanças políticas. Na m aioria dos casos, os com andantes ou feitores europeus continuaram , na segunda m etade do século XVII, a pagar tributo aos régulos das terras onde estavam fincados, m as em outros lograram um a posição de predom ínio, que inverteu a prática, passando, assim , a cobrar im posto aos chefes africanos da vizinhança. Houve ainda casos, com o o da cidade j unto à qual se erguia a fortaleza de S. Jorge da Mina. Ali, a presença do forte, quando ainda estava sob os portugueses, perm itiu que ela se independentizasse de Fetu e de Com enda.
A presença das fortalezas europeias teve, claro, outros efeitos. Muitos africanos, por exem plo, passaram a nelas trabalhar com o assalariados e nelas não só adquiriram novos ofícios ou adaptaram os que j á tinham ao gosto do branco, com o tam bém aprenderam as m anhas deste. Outros as aprenderam em casa, pois nasceram de uniões entre europeus e m ulheres da terra. E alguns aproveitaram esse conhecim ento para se tornarem interm ediários ágeis e sagazes entre os brancos, de um lado, e os reis, chefes e batanis acãs. Não faltou quem fosse além e construísse sua própria estrutura de poder.
Altam ente hierarquizadas, as sociedades acãs não eram , contudo, estratificadas, porque as perm eava a ideologia dos abirem pons, dos self-m ade m en, da identificação do status aristocrático com a posse e a acum ulação de
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riqueza, derivada do com ércio ou do trabalho escravo. Quem tinha sangue
fidalgo, o ofahene, estava no tope de tudo, m as partilhava os privilégios e, de certa form a, o poder com aqueles que, em bora saídos da plebe — um a plebe paupérrim a e explorada duram ente —, logravam , por habilidade, persistência, sorte ou falta de escrúpulos, enriquecer. O acúm ulo de bens e de dependentes livres ou escravos lhes perm itia cobrir os elevados custos das cerim ônias em que
se nobilitavam .153 E passava pelas portas dos fortes europeus um dos cam inhos de acesso ao enriquecim ento e, consequentem ente, ao grupo dos que podiam m uito.
O papel de interm ediário com ercial estava às vezes associado a um a função política, o que acelerava o processo. Com o parece ter sido o caso de um plebeu, Jantie Snees, falecido em 1675 ou 1676. Snees com eçou a subir socialm ente com o funcionário da Com panhia holandesa das Índias Ocidentais. Casou-se com um a filha do rei de Fetu, que o fez coletor-chefe de im postos em Cabo Corso. Não dem orou m uito e tornou-se um dos m aiores com erciantes da região, transacionando com os fortes europeus e com os acanes, que lhe forneciam tecidos de Bigu. Suas atividades com preendiam o com ércio de cabotagem até Aladá e, talvez, até o Benim . Falam de sua prosperidade 40 esposas e pelo m enos
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cem escravos a lhe servirem a casa.
Na falta de um a função pública, o enriquecim ento podia ser facilitado pelas conexões pessoais que um m ercador tivesse com o poder político. Vej a-se o “capitão” Quacounoe Abracon, que se tornou o hom em m ais rico de Pequena Com enda, porque soube utilizar a sua condição de m em bro de um a im portante
fam ília ofahene. 155 Há exem plos, porém , de hom ens de êxito ainda m aior que ficaram à m argem das estruturas políticas locais ou transitavam incessantem ente de fora para dentro delas e de dentro para fora. Entre esses que j á foram
cham ados “príncipes m ercadores”, 156 estavam m ulatos com o aquele Edward Barter, que foi educado na Inglaterra às expensas da Roy al African Com pany, retornou à África a seu serviço, m as se fez num grande com erciante por conta própria, ainda que, sem pre grato, não tivesse deixado de dar preferência nos negócios, quando possível, aos antigos patrões. Ou com o John Kabes, um negro de Com enda, que, sendo agente dos holandeses e dos ingleses, se tornou um grande em presário, com interesses na produção e venda de alim entos, de sal e de canoas, e um chefe político de im portância, fam oso pela habilidade com que se m ovia entre as intrigas dos reinos costeiros, dos estados interioranos e dos fortes europeus.
As personagens m encionadas pertencem todas à segunda m etade do Seiscentos, período durante o qual o com ércio da Costa do Ouro com o Atlântico experim entou um a m udança substancial: os acãs tornaram -se, de im portadores,
exportadores de escravaria. 157 Ainda que continuassem a ter um a econom ia baseada no trabalho escravo, o volum e de cativos gerado pelas guerras expansionistas de Denquira, Aky em , Acuam u e Axante não tinha com o ser absorvido, sem enorm es perigos, por esses estados. Im punha-se vender para longe os prisioneiros acãs, adangbés e gãs, com o que tam bém se geravam recursos para adquirir escravos de lugares distantes. Os portos do Atlântico encheram -se de cativos. E dar ouro em troca de gente passou a ser para os acãs um m au negócio. Até porque as j azidas auríferas da região m ostravam -se cansadas, enquanto o ouro se voltava cada vez m ais no sím bolo por excelência de riqueza, prestígio e poder: um chefe im portante usava colares, braçadeiras, pulseiras, tornozeleiras e vários anéis de ouro; de figuras de ouro adornava os seus bonés, e suas sandálias, e sua roupa; de ouro era o cabo de seu espanta-m oscas e de seu bastão, e a ponta do guarda-sol com que se cobria. Explicam -se assim as queixas dos capitães de navios e encarregados dos fortes europeus sobre as dificuldades em obter o m etal am arelo naquela parte do litoral, algum deles estranhando que ela se cham asse Costa do Ouro, quando o que lá m ais
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encontravam eram escravos. Não será de estranhar-se que, m al transcorrido
o últim o dia do século, os acãs j á trocassem gente por ouro do Brasil.159
Suspeito que tenha havido, no início da exploração aurífera no Brasil, um a dem anda específica por escravos afeitos ao batear nos rios e à escavação de m inas, com o eram os acãs. Ainda que m ais tarde a gente trazida das atuais repúblicas do Congo e de Angola tenha predom inado no trabalho das lavras, com o indicariam as ressonâncias que se guardaram em O negro e o garim po em
Minas Gerais, de Aires da Mata Machado Filho, 160 no prim eiro m om ento teria havido um a preferência pelos escravos que provinham de áreas auríferas com o Bam buk, Burê, o Gâm bia, Zam fara, Kangom a, Lobi e o país acã. Luís Viana Filho e Charles Boxer registram -na claram ente: as lavras pediam negros da Costa
da Mina. 161 Da Costa da Mina, talvez m ais no sentido africano do que no sentido m ais am plo (a abarcar tam bém fons, guns e iorubás) que predom inava no Brasil. Não porque fossem m ais vigorosos ou dessem sorte, com o argum entou, em 1726, num ofício enviado à Corte, o governador do Rio de Janeiro, Luís Vahia Monteiro, m as porque sabiam catar o ouro nos rios e cavar os túneis das m inas.
Num m anuscrito da época162 encontro m ais alim ento para as m inhas suspeitas. Leio nele que “os negros m inas (...) são os m elhores m ineiros das m inas do ouro do Brasil, e talvez fossem eles os que ensinaram os portugueses daquelas m inas o m étodo grosseiro de tirar o ouro, de que ali se usa, com o parece sem elhança de um e outro m étodo”.
Os navios vindos do Brasil com pravam com ouro, portanto, aqueles que iriam produzir m ais ouro. E talvez fosse graças a essa m oeda de pagam ento que os portugueses conseguiam obter, na Costa do Ouro, os escravos m ineradores que desej avam , estim ulando os africanos a eludir os controles dos fortes e dos barcos holandeses, ingleses, suecos, dinam arqueses e brandem burgueses, que tinham passado a dom inar aquela parte do litoral. Esses, por sua vez, logo com eçaram a adquirir ouro dos portugueses, porque aprenderam que as transações se facilitavam enorm em ente, quando se incluía o m etal no pacote de m ercadorias com que se adquiriam os escravos, um pacote que com preendia alguns destes artigos: cauris, espingardas, pólvora, cutelaria, tecidos de linho e de lã, algodões da Índia, panos feitos em tear estreito de Cabo Verde, Quaquá ou Ij ebu, coris, m içangas de vidro, coral, espelhos, panelas, caldeirões, chaleiras e bacias de cobre e latão, utensílios de ferro, tabaco e aguardente. Podia-se pagar um escravo apenas com cauris, m anilhas de latão ou arcabuzes, m as em geral era ele trocado por um conj unto de m ercadorias com o essas. Assim , em certo m om ento, em determ inado ponto da Costa, com pravam -se rapazolas por um a espingarda, cem espoletas, cem balas de chum bo, um barrilete de pólvora, duas espadas ou catanas, duas barras de ferro, dois cortes de m orim indiano, um a caixa de contas de vidro, um rolo de fum o e um a pipa de cachaça, rum ou bagaceira.
Dado o predom ínio que tinham na Costa do Ouro, era de prever-se que a m aior parte dos escravos lá em barcados se destinasse aos estabelecim entos holandeses e ingleses nas Am éricas. Ao Surinam e. A Curaçao, de onde eram contrabandeados para as possessões espanholas. À Guiana Inglesa. À Jam aica. A Barbados. Às outras ilhas das Caraíbas.
Ao aum ento da procura por m ão de obra cativa nas plantações am ericanas correspondia, naquela parte da África, o increm ento do núm ero de cativos, devido não só aos prisioneiros das m últiplas guerras que lá se travavam entre reinos expansionistas e cidades-estados que procuravam preservar a independência, m as tam bém aos tributos que os estados avassalados deviam
pagar aos seus novos suseranos e que eram saldados sobretudo em escravos. 163 Os conflitos de origem e fins políticos pareciam , porém , no final do século, não produzir um núm ero de cativos suficiente para atender à dem anda atlântica. Alguns reinos, até m esm o para conseguir arm as de fogo, com eçaram a fazer guerra e a prom over razias com o obj etivo precípuo de obter prisioneiros. E alguns chefetes passaram a se dedicar à captura arm ada de gente. Grupos de bandidos, form ados por cam poneses em pobrecidos, escravos fugidos e indivíduos am biciosos, que sabiam que a ascensão social entre os acãs dependia da acum ulação de riqueza, passaram a atacar caravanas, a sitiar aldeias, a sequestrar m ulheres, rapazolas e crianças, para vendê-los aos europeus.
De todos os estados que se transform aram em preadores de gente, o que deixou pior fam a foi Acuam u e, entre os seus reis, o akwam uhene Ansa Kwao, que m antinha um contingente de cerca de m il rapazes (aos quais se dava o nom e de sika den, ou “ouro negro”, e cuj a coragem era aguçada a álcool), dedicados em tem po integral à produção de escravos, sem , ao que parece, poupar sequer os
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próprios acuam us.
As novas dim ensões que tom ou o tráfico de gente na Costa do Ouro não devem distrair-nos da percepção de que o escravo era um dos m uitos itens de um a am pla pauta com ercial. Para as caravanas que dem andavam os m ercados da savana e do Sael, a noz-de-cola era decerto o produto por excelência e possivelm ente proporcionava m aiores ganhos do que os escravos ou o próprio ouro. O m arfim , principal artigo de exportação da área entre os rios Bandam a e Ankobra, as peles, as ceras e as m adeiras tintórias com punham , com os víveres para a m arinhagem e a escravaria dos navios, a lista do que se transacionava com os europeus, lista encabeçada pelo ouro, em bora este j á tivesse sua posição am eaçada, no final do século XVII, pelos escravos. Além disso, é preciso não esquecer que as vendas para o exterior do m undo acã deviam estar longe de em parelhar com o com ércio que dentro dele se fazia, entre a região costeira, as diferentes áreas da floresta, os cam pos cobertos e as fím brias da savana, entre os rios e os m ontes, entre as aldeotas, as aldeias e as cidades. De um a ponta à outra, chegavam aos m ercados sal, peixe e m arisco seco, inham es, m andioca, arroz, sorgo, diferentes m ilhetes, m ilho m aiz, azeite de dendê, pim entas, m el, frutas, tweapea (o pauzinho de m ascar, para lim par os dentes), aves, gado m iúdo, cerâm ica, cestaria, esteiras, artigos de couro, obj etos de m adeira, utensílios de ferro, tam bores, esculturas e j oias. Até num porto im portante com o Axim , as vendas para as regiões vizinhas, de canoas, sal e arroz, seriam equivalentes em valor, na últim a década do século XVII, ao ouro que lá se fornecia aos
europeus. 165