Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Sobre a questão da eficácia da vacinação contra a febre amarela
Sobre a questão da eficácia da
vacinação contra a febre amarela*
I.
Para podermos responder objetivamente à questão da eficácia da vacinação contra a febre amarela, é imprescindível que nos detenhamos, ainda que brevemente, sobre as características da vacinação preventiva de maneira geral. Esta baseia-se em dois princípios fundamentais, que, após anos de observações e experimentos, são considerados legítimos, a saber:
1) Inúmeras doenças atacam um mesmo organismo, via de
regra, uma única vez, deixando-o temporariamente imune a
doenças semelhantes.
2) A mesma doença pode ocorrer em diversos graus de
intensidade, que são determinados pela natureza do elemento
patogênico transmitido (e não pela natureza do indivíduo
atacado).
Um terceiro princípio, decorrente dos dois primeiros, é o seguinte:
3) Afecções mais fracas podem conceder imunidade contra um
elemento patogênico semelhante, porém mais intenso.
Nestes casos mais leves a imunidade não é nem tão certa nem tão duradoura quanto nos casos de enfermidade intensa. (De acordo com inúmeras experiências, isto também vale para a febre amarela.) Quando um elemento patogênico mais fraco é transmitido repetidamente em intervalos maiores de tempo, obtém-se imunidade permanente (vacinação antivariólica).
As experiências estão relacionadas apenas a doenças infecciosas, isto é, àqueles processos causados por micróbios – cuja presença pode ser comprovada ou é, ao menos, altamente provável – durante o tempo em que eles vivem e se multiplicam no organismo contaminado. Além de algumas epidemias observadas apenas entre animais, as principais doenças contra as quais a imunização mostra-se eficiente são, em primeiro lugar, aquelas cujos parasitas são geralmente conhecidos e estudados de forma mais ou menos rigorosa, como varíola, varicela e antraz, além de sarampo, escarlatina, rubéola e coqueluche, com as quais se dá o oposto. Em segundo lugar estão doenças como a febre tifóide – que é freqüente também no Brasil e cujo parasita é conhecido – e a febre amarela; nestes casos é, sem dúvida, adquirida alguma imunidade, embora com um grau menor de confiabilidade. As doenças infecciosas crônicas, entre as quais a pneumonia aguda, difteria, erisipela facial, malária e os diversos processos de supuração (cujos agentes patogênicos podem ser considerados conhecidos, com a exceção dos diagnósticos problemáticos no caso da malária e da difteria) em geral não proporcionam imunidade permanente. Algumas até, aparentemente, aumentam a susceptibilidade [do organismo].
Como se explicam os diferentes graus de intensidade da ação de agentes patogênicos que não apresentam diferenças em suas características externas? Sem dúvida, apenas pelo fato de existirem deles muitas variedades, cujas diferenças podemos comparar com as que ocorrem dentro de uma mesma espécie de legumes ou frutas, das quais algumas florescem e frutificam antes e outras depois, algumas profusamente e outras com moderação. (Tais variedades modificam-se um pouco ao serem cultivadas, sendo difícil cultivá-las por várias gerações quando colocadas em condições completamente diferentes.) De acordo com pesquisas mais recentes, as variedades ou raças mais perigosas de agentes patogênicos são aquelas que, ao se instalarem no corpo, multiplicam-se com maior rapidez e atingem os tecidos com maior facilidade, apresentando, dessa forma, um desenvolvimento sem limites. O corpo dos animais e dos seres humanos dispõe, em cada uma de suas partes constitutivas, de forças físicas e químicas que
reagem contra essas invasões, mas como elas [—], 1 antes que a vida do indivíduo seja interrompida.
O fato de a variabilidade dos microrganismos ser facilmente perceptível explica-se por ser ela proporcional à quantidade e ao tamanho das gerações produzidas e, enquanto nos nossos cultivos vegetais uma variedade é substituída por outra, no caso dos esquizomicetos pode ter ocorrido uma sucessão de dez a cem mil vezes maior.
As variedades dos agentes patogênicos são obtidas casual ou intencionalmente. Sua eficácia aumenta quando são cultivados em espécies de animais mais suscetíveis ou em meios de cultura apropriados, numa atmosfera adequada, em condições favoráveis de temperatura e umidade; diminui, entretanto, quando inoculados em espécies de animais menos suscetíveis, quando ressecadas, em temperaturas desfavoráveis (principalmente muito elevadas), quando substâncias nocivas são adicionadas ao meio de cultura e assim por diante. Esses métodos foram utilizados nos inúmeros experimentos sobre as epidemias dos animais domésticos (especialmente aquelas que também são transmissíveis ao homem: raiva e antraz); naturalmente, processos semelhantes também poderão ocorrer ao acaso. Assim, a vacínia (varíola) é uma variedade enfraquecida (pela inoculação fortuita em gado pouco sensível) do agente patogênico da varíola (ou melhor, dos organismos da varíola).
No caso do cólera, sempre são encontradas variedades muito fortes do bacilo vírgula de Koch (isto é, que se desenvolvem fácil e rapidamente no ser humano) no início das epidemias, e variedades mais fracas (isto é, menos capazes de se desenvolver) quando as epidemias estão próximas do fim. Ao ser cultivado por algum tempo em meio de cultura morto, o bacilo parece perder muito de sua força. De modo geral, podemos afirmar que, em média, a força e o perigo de um organismo patogênico dependem do grau de adaptação de sua raça às condições do corpo do animal atacado – quanto mais adaptado (o que ocorre quando suas condições de vida são semelhantes às das gerações anteriores), mais forte. Quando agentes patogênicos mais fracos penetram no corpo, seja por inoculação seja por contágio, sua ação também é menor, pois eles
[—]2 ao contrário do que ocorre nas epidemias. Portanto, uma possível explicação para a imunidade contra a febre amarela ser conseqüência de uma aclimatização – que, no entanto, só pode ocorrer em um único foco de infecção – é a de que pequenas quantidades de agentes patológicos tenham sido repetidamente introduzidas no corpo sem lhe causar nenhum mal. Em focos de febre tifóide, supõe-se que as condições sejam semelhantes.
(A inoculação em órgãos menos sensíveis também resulta numa eficácia reduzida. Assim, as vacas não sucumbem ao mortal carbúnculo sintomático quando são vacinadas na ponta do rabo; o fator de inibição é, provavelmente, a temperatura mais baixa do órgão.)
* Artigo publicado por Lutz, durante a epidemia de febre amarela em Campinas, em Freie Presse. Zeitung für Deutsche in Brasilien [Imprensa Livre. Jornal para alemães no Brasil], São Paulo, ano 1, n.66, 11 de maio de 1889 (sábado). O periódico fundado no ano da proclamação da República brasileira, com três edições por semana, tinha diversos representantes na província de São Paulo: em Araras: professor J. Voss; em Botucatu, professor Carlos Knüppel; em Campinas, Guilherme Trippe (Rua Lusitana, 99); em Piracicaba, J. J. Huffenbaecher; em Pirassununga, Gustav Beck; em Ribeirão Preto, Carl C. Petersen, em Rio Claro, Luiz F. Barthmann; em Santos, Paul Wilkens; em São Carlos do Pinhal, C. Priester e em Sorocaba, o fabricante de chapéus Th. Kaysel. No cabeçalho do tablóide constam ainda os nomes de Gottlieb Müller e S. Lauer, de Curitiba e Joinville, respectivamente. O jornal também tinha representante em Leipzig, a cidade das grandes casas editoras da Alemanha: a livraria de W. Diebener, situada na Eilenburgerstrasse. [N.E.]
1 Documento danificado neste trecho. [N.E.]
2 Documento danificado neste trecho. [N.E.]