Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 20 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Febre amarela. Arthur Mendonça

Carrol, Carlos Finlay, and Major Walter Reed. These scientists

investigated the mosquito transmission theory of diseases

following the end of the Spanish-American War. Wyeth

Laboratories, Philadelphia. In: Lyons, A. S.; Petrucelli, R. J.

Medicine. An Illustrated History. New York: Library of Congress

Cataloging-in-Publication Data, 1978. p.560.

 

Febre Amarela*

 

Arthur Mendonça

Na Revista de medicina e cirurgia de La Habana, número 20 e 21, de outubro do corrente ano, encontramos a seguinte carta do Sr. Dr. Adolpho Lutz:

Profesor Perroncito:

Presidente de la Real Academia de Medicina de Turin.

En respuesta a su encargo, le envío un resumen de las

investigaciones hechas en mi instituto en 1898, que acaban de

imprimirse.

Usted verá como, de perfecto acuerdo con todos los

observadores no sugestionados, yo considero que el suero de

Sanarelli no ha dado resultado alguno favorable en los

enfermos tratados por este método.

Es, además, bien sabido, que su acción preventiva ha fallado

completamente en la mayor parte de los casos en que se ha

hecho el experimento. Y diré, además, que en nuestras

experiencias hechas con el bacilo aislado en San Carlos y

reconocido como genuino por Sanarelli, el suero no ha

prevenido contra los efectos de la inoculación a los animales

sobre los cuales se experimentaba.

Cuando los cultivos de San Carlos son tratados por el suero de

Sanarelli, se aglutinan en la proporción de 1 á 4000, y aún en

mayor.

El bacilo no se desarrolla en el suero puro, pero mezclado este

con una o dos partes de caldo, su desarrollo es abundante, el

bacilo solo crece en el fundo del tubo, formando largas cadenas

muy parecidas a las que forma el bacilo de Yersin. Usted puede

fácilmente repetir este experimento, que fue hecho por uno de

mis ayudantes.

De todo esto resulta, como ya he dicho a un representante de la

compañía manufacturera del suero, que este suero no tiene

poder bactericida ni antitóxico para el bacilo usado en su

producción, y que su empleo no debe recomendarse.

En cuanto a la regla etiológica del bacilo, que fue descubierta y

muy bien estudiada por el profesor Sanarelli, no creo que se

halle enteramente fuera de duda. Muchos hechos

epidemiológicos no están de acuerdo con la teoría bacilar. En

los tejidos de 60 cadáveres de fiebre amarilla que examiné por

los mejores métodos de inyección, no pude encontrar de una

manera evidente el bacilo. La sangre, siempre estéril en el

primer periodo de la enfermedad, con rareza da una franca

aglutinación. El bacilo no puede hallarse por los métodos

conocidos de investigación, en más de la mitad de los casos.

Cuando está presente, solo se obtiene en raras colonias,

caracterizándose la enfermedad por la facilidad con que el

organismo es invadido por microbios que nada tienen que ver

con ella. Es posible que la presencia del bacilo de Sanarelli se

deba simplemente a una infección secundaria, que varia con

frecuencia según la estación y la localidad donde se hace la

observación.

En algunos escritos se hace referencia a observadores que han

encontrado el bacilo en todos los casos y que creen son

capaces de hacer el diagnóstico por la acción aglutinadora de la

sangre. Pero estoy absolutamente cierto de que sus informes

son el resultado de la con el resultado de la confusión y de

graves errores. Y aún admitiendo que el bacilo de Sanarelli sea

la causa de la fiebre amarilla, todavía queda por descubrir la

transmisión y mecanismo de la enfermedad. La prevención de

la enfermedad continua siendo uno de los trabajos más arduos.

Como miembro corresponsal que soy de la Academia de

Medicina de Turin, me siento obligado a hacer estas

manifestaciones, como hube de hacerlas cuando era Director

del Instituto Bacteriológico, donde el estudio de la fiebre

amarilla ha sido continuado con gran cuidado por largos anõs.

Yo he visto personalmente más de 500 casos y cerca de cien

autopsias; de modo que la enfermedad me es completamente

familiar. He visitado también veinte centros independientes

epidémicos de la enfermedad.

Si no he publicado más sobre este asunto, es porque, en mi

opinión, todavía está tan lejos de dilucidarse, que no puede ser

discutido con provecho.

Y termino mi carta con los mejores deseos para la Academia y

sus miembros.

Muy atentamente.

Adolpho Lutz, M. D.

Como se vê, o Sr. Dr. Lutz declara que o soro de Sanarelli nenhum resultado favorável deu nos doentes tratados por esse método, que não tem ação profilática quer no homem, quer nos animais, e que as culturas do bacilo isolado em São Carlos do Pinhal, quando tratadas pelo soro, se aglutinam na proporção de 1:4000.

[Estou] de pleno acordo com S.S. em todos esses pontos, e quando publiquei meu trabalho sobre “A pesquisa do bacilo icteróide em São Carlos do Pinhal” (julho de 1898) declarei que não havia relação entre a ação aglutinativa e a ação curativa e que a terapêutica da febre amarela não encontrava solução na soroterapia. Estava aí, pois, a condenação formal desse método de tratamento.

Para justificar a ineficácia do soro de Sanarelli apelou o Sr. Dr. Lutz para o fato de não ter ele poder bactericida nem antitóxico. S. Sa não podia fazê-lo melhor; mas o que me surpreende, o que não posso compreender é como o soro de Yersin, de que S. S. é grande apologista, não tendo poder bactericida nem antitóxico, tem, entretanto, poder curativo!!!

A lógica, parece, atualmente não anda muito pelos arraiais da medicina.

Quando esta verificou a ação específica dos sais de quinina no impaludismo, começaram logo os médicos a abusar dessa medicação em todas as pirexias, e quando se perguntava em que se baseavam para assim proceder, diziam que os sais de quinina eram antizimóticos. Assim faz, atualmente, a bacteriologia com os soros, que não têm ação bactericida nem antitóxica, e que, por conseguinte, não têm ação curativa, dizendo que eles são excitadores da fagocitose!!! Expressão vaga, verdadeiro sofisma.

O Sr. Dr. Calmette chegou a ponto de declarar que após as injeções do soro os bacilos apresentam-se englobados pelos leucócitos na linfa do bubão pestoso.

Quem já fez esses exames sabe que esse fato não é verdadeiro; pois em doentes em que nunca se aplicaram tais injeções observa-se o fato do mesmo modo.

O procedimento que teve o Sr. Dr. Sanarelli na América, fazendo a apologia de um soro ineficaz na febre amarela, é o mesmo que teve o Sr. Dr. Yersin nas Índias, exaltando as virtudes de um soro absolutamente ineficaz contra a peste.

A propaganda feita pelo Dr. Calmette traz o tom de uma imposição científica, e agora como o consumo parece não corresponder a essa propaganda, querem obrigar os comandantes de navios a ter sempre um bom stock de soro para garantia dos passageiros. É assim que se continua a obra de Pasteur…

Depois se revoltam contra a comédia soroterápica do Sr. Dr. Felipe Caldas, que desprezando os preceitos científicos, preparou um soro que, agora nas mãos de um médico bacteriologista, está fazendo prodígios no México, a ponto de o governo mexicano oferecer cem mil dólares pelo segredo. É provável que o mecanismo da cura seja também explicado pelo fato de possuir o soro o poder de excitar a fagocitose.

Em relação à etiologia da febre amarela, continua o Sr. Dr. Lutz, “não creio que esteja inteiramente fora de dúvida, muitos fatos epidemiológicos não estão de acordo com a teoria bacilar”. Não sei quais sejam esses fatos epidemiológicos e por isso deixo de comentá-los. O sangue, diz ainda S. S., sempre estéril no primeiro período, dá raramente franca aglutinação, e o bacilo não pode isolar-se pelos meios conhecidos, em mais de metade dos casos.

Nada de estranho apresentam essas considerações de S. S. Na febre tifóide, que é da mesma natureza da febre amarela, não se encontra o germe no sangue no começo da moléstia e é a regra falhar também nesse período a reação da aglutinação.

Quanto ao fato de não se isolar o bacilo de todos os casos isso não fala contra o papel desse germe na febre amarela.

O isolamento do bacilo de Eberth é tarefa banal e no entanto S.S a sabe que em diversas autópsias de casos de febre tifóide, perfeitamente caracterizados, não se pode isolar o bacilo dessa moléstia pelos meios conhecidos. Seria mais razoável explicar esse fato em relação à febre amarela, por não termos ainda um meio de cultura apropriado e tanto que diz S. S. – quanto está presente só se obtém em raras colônias”. No entanto, quando cultivado por algum tempo nos meios de cultura ele cresce abundantemente, o que prova que a princípio o meio não lhe era favorável.

É possível que a presença do bacilo de Sanarelli, diz ainda o Sr. Dr. Lutz, se deva simplesmente a uma infecção secundária que varia com freqüência segundo a estação e localidade em que se faz a observação.

Me parece ser esse um fato novo em bacteriologia, que a prática não sanciona: pois os exames aqui feitos em casos de febre amarela, varíola, febre tifóide etc. mostram que a flora microbiana das infecções secundárias não está sujeita às condições apontadas por S. S a.

Em relação à febre amarela as observações aqui feitas concordam com as de Stenberg, Sanarelli e muitos outros, que encontram o bacilo coli, estreptococos, estafilococos, piociânico etc. Apesar de os exames serem feitos em localidades e estações diversas, não foram notadas as diferenças citadas pelo Sr. Dr. Lutz.

Mais do que minhas palavras fala o relatório do Sr. Dr. Lutz apresentado em 1° de janeiro de 1899 ao dr. diretor do Serviço Sanitário.

Referindo-se à falta do poder aglutinativo e à impossibilidade de isolar o bacilo do sangue de muitos doentes, diz o Sr. Dr. Lutz: Entretanto não fornecem razão suficiente para pôr em dúvida o papel etiológico deste organismo, até hoje só encontrado na febre amarela e cujas propriedades patogênicas são bem estabelecidas.

Há como se vê uma contradição formal entre os termos da carta ao professor Perroncito e o trecho do relatório a que acima me referi.

Na minha opinião, o problema etiológico da febre amarela está clara e perfeitamente estabelecido pelo Dr. Sanarelli, e se há obscuridades, estas também se encontram em estudos muito mais antigos e mais trabalhados como os da febre tifóide.

 

* Artigo do dr. Arthur Mendonça publicado na Revista Medica de São Paulo (ano 4, n.1,15.jan.1901, p.2-5). Motivou resposta indignada de Adolpho Lutz, que republicamos em seguida. Um dos editores daquele periódico médico (junto com Victor Godinho), Mendonça, que chegara a ser vice-diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, viajara com Lutz, seu diretor, a Montevidéu para assistir, a 10.jul.1897, à demonstração pública da descoberta do bacilo icteróide por Giuseppe Sanarelli, então diretor do Instituto de Higiene Experimental daquela capital. Sete meses depois, o bacteriologista italiano testou um soro contra a febre amarela em São Carlos do Pinhal (SP). [N.E.]