Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 14 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Capítulo 1897

 

Instituto Bacteriológico de São Paulo em fins do século XIX.

Acervo Museu Emílio Ribas.

Instituto Bacteriológico de São Paulo at the end of the 19th

century. Museu Emílio Ribas.

Parecer do Instituto Bacteriológico

sobre o soro apresentado pelo sr. dr.

Felipe Caldas*

 

São Paulo, 24 de maio de 1897

O soro, cujo exame faz o assunto deste relatório, segundo as informações dadas pelo autor, é obtido pelo processo seguinte:

Fragmentos da mucosa do estômago de cadáveres de vítimas de febre amarela, provenientes do Hospital de São Sebastião, do Rio de Janeiro, foram colhidos “com precauções anti-sépticas” e mandados para o laboratório do Sr. Dr. Caldas, no Rio Grande do Sul, onde foram inoculados em tubos de soro líquido “esterilizado por filtração”. Diz o Dr. Caldas que, nessas condições, só se desenvolve um germe, cujos caracteres bacteriológicos não descreveu, mas que julga ser um bacilo ou um espirilo, mais largo numa das extremidades e tendo “movimentos rotatórios bem acentuados”. Acrescentou que com essas culturas imunizava cavalos e, depois de julgá-los imunizados, retirava o sangue e preparava o soro. Diz que o seu soro tem ação preventiva e curativa, “bastando 15 centímetros cúbicos para produzir uma imunidade que perdura, fazendo injeções de quarenta em quarenta dias”.

As instruções para o emprego terapêutico constam do seguinte,

Para o tratamento da febre amarela, o soro a injetar varia

segundo o período da moléstia e a sua gravidade. No começo

da moléstia, tendo o doente mais de 38° de febre, língua

saburrosa, náuseas, cefalalgia supra-orbitária, olhos injetados,

dores lombares e nos membros e a análise mostrar albumina

nas urinas, deve-se fazer uma injeção de trinta centímetros

cúbicos, a qual será repetida doze horas depois se a

temperatura não se aproximar da normal e a análise das urinas

ainda mostrar traços de albumina e diminuição de cloruretos.

Em geral, três ou quatro injeções bastam para fazer abortar a

moléstia.

Nos casos mais graves (período hemorrágico e período

atáxico), tendo o doente repetidos vômitos biliosos e misturados

com sangue (vômito preto), grande ansiedade epigástrica,

urinas raras e muito albuminosas e grande abatimento, a dose

do soro a injetar deve ser de sessenta a oitenta centímetros

cúbicos, guardadas as proporções das idades, a qual será

repetida de doze em doze horas.

Nestes casos, é de toda a conveniência, ao mesmo tempo que

se faz uso do soro, praticar a lavagem do estômago, por meio

do tubo de Fancher, com uma solução de 1/3.000 de furfurol.

Nos casos gravíssimos, em que o doente apresenta anuria,

adinamia profunda e temperatura abaixo do normal, antes da

injeção do soro faça-se uma de clorureto de sódio a 6/1.000, na

dose de quatrocentos a seiscentos gramas.

No emprego do soro, o médico deve guiar-se pela marcha da

temperatura, estado de pulso, análise das urinas e estado geral

dos enfermos.

Desse exame é que ele poderá concluir qual a dose a aplicar. É, porém, preferível sempre empregar a dose alta em vez de várias doses pequenas.

Perguntado se não empregava um dos métodos conhecidos para isolar o germe, respondeu negativamente, pois que “só dispunha do soro líquido, no qual,” segundo sua opinião, “só nasciam unicamente germes que julga ser os da febre amarela”. Perguntado se os animais inoculados apresentavam os sintomas da febre amarela, respondeu que não. As experiências feitas no homem, segundo o autor, limitavam-se, nessa ocasião, a quatro observações feitas no Hospital de São Sebastião pelo Dr. Seidl (na ausência do Dr. Caldas) e que deram uma mortalidade de um sobre quatro. Considerando que os dados fornecidos pelo Dr. Caldas não garantiam, de forma alguma, um produto constante, inócuo e eficaz, propusemos proceder em primeiro lugar ao exame do soro, com o fim de verificar se estava livre de germes e se era inócuo para os animais. Sua senhoria consentiu no nosso pedido, entregando, além do soro, uma amostra de “furfurol” que empregava para a sua conservação e para lavagem do estômago. Recebemos seis vidros do soro com trinta gramas cada um. Apresentava-se como um líquido transparente, de cor escura, assemelhando-se ao vinho de Málaga. Tem um cheiro pronunciado de furfurol. Os frascos, munidos de tampas de vidro, são selados com parafina e cobertos com algodão protegido por um impermeável. O vidro é acompanhado de uma instrução impressa, que juntamos a este parecer.

Indagamos os seguintes pontos:

1° se o soro continha algum germe vivo;

2° se continha anti-sépticos e se estes, nas doses empregadas, podiam produzir efeitos nocivos;

3° se era inócuo para os animais nas proporções indicadas;

4° no caso em que contivesse germes, se estes eram virulentos ou não.

1° Dos quatro vidros examinados, dois não forneceram culturas

e os dois outros deram uma espécie de estafilococo branco.

Tratamos de verificar se esses estafilococos eram virulentos e,

para esse fim, fizemos injeções subcutâneas, de um centímetro

cúbico de cultura em caldo de 24 horas, em duas cobaias.

Estas não apresentaram fenômenos de infecção ou intoxicação.

Julgamos que se trata de um germe não virulento, ou atenuado.

2° O soro contém adição de furfurol; uma amostra analisada

pelo laboratório de análises químicas deu a proporção de

0,176%. Verificamos, em outra amostra, que a proporção do

anti-séptico adicionado era suficiente para inibir o crescimento

de vários germes, ficando isso comprovado pelas experiências

seguintes:

Tomamos cinco tubos com soro do Dr. Caldas nos quais foram inoculados os micróbios megatherium, mesentericus, vulgaris, subtilis, coli-commune, cólera e febre tifóide. Nessas culturas não houve proliferação, conquanto os mesmos germes crescessem abundantemente nos tubos de caldo, inoculados no mesmo tempo. Depois de um contato de quatro dias foram feitas novamente inoculações dos tubos do soro em novos tubos de caldo, e não houve desenvolvimento.

3° As experiências feitas em três cobaias e dois cachorros

demonstraram que esses animais suportavam, sem sintoma de

intoxicação, doses iguais ou superiores às aconselhadas pelo

Dr. Caldas, tomando-se em consideração a proporção entre o

peso do animal e a quantidade do soro. Na suposição de que o

soro do Dr. Caldas tenha sempre uma composição idêntica, o

que, na falta de qualquer fiscalização, não é garantido, pode-se

antecipar que o emprego cauteloso, nas quantidades indicadas,

provavelmente não será nocivo para o homem são.

O fato de não ser nocivo nada provaria em favor da eficácia do soro, e não podemos aconselhar o seu emprego pelas razões a seguir.

O processo empregado pelo Dr. Caldas é tão defeituoso que não se pode esperar dele qualquer resultado seguro e constante. É absurdo falar em precauções anti-sépticas quando, numa sala de autópsia, se removem pedaços da mucosa do estômago de cadáveres; mesmo supondo que se pudesse evitar qualquer contaminação exterior, o estômago contém saliva engolida, alimentos e medicamentos e, tendo havido repetidos vômitos, até conteúdo intestinal regurgitado. Em todas essas substâncias encontra-se uma grande variedade de germes saprófitos e até patogênicos. Nessas condições os fragmentos da mucosa, sem desinfecção ou dessecação prévia, não poderiam chegar até o Rio Grande do Sul sem entrar em completa putrefação. Verificamos em algumas experiências feitas de propósito que isso ocorre em muito menos tempo que o prazo necessário para essa viagem. Sabemos que, nos processos de putrefação, os germes sucedem-se uns aos outros, conforme o grau de decomposição, e, supondo que, num momento dado, a inoculação produzisse um só germe, qualquer diferença de temperatura ou de tempo poderia produzir um resultado completamente diferente.

A probabilidade seria a de encontrar uma mistura de várias espécies de germes e, mesmo prevalecendo uma forma, nunca a cultura deveria ser considerada pura. O único meio de obter uma cultura pura nessas condições seria separando os germes pelos processos geralmente adotados.

Inocula-se em meios nutritivos como a gelatina e o ágar. Estes têm a propriedade de liquefazerem-se pelo calor e, nesse estado, podem ser inteiramente misturados com o líquido a examinar; depois de algum tempo solidificam-se, fixando os germes separadamente, dos quais cada um produz uma colônia. Depois de isolados, como ficou dito, é que se estudam os caracteres próprios de cada germe. Há unanimidade completa por parte de todos os autores sobre a necessidade de seguir esses métodos, sobre os quais se baseia todo o desenvolvimento da bacteriologia moderna.

4° O processo do Dr. Caldas não só não oferece garantia de

que os germes inoculados por ele tenham qualquer relação com

a febre amarela como, segundo ele mesmo admite, não

reproduziu nos animais em experiência os sintomas da

moléstia. Não há razão para supor que as culturas empregadas

eram virulentas ou patogênicas, visto terem sido perfeitamente

toleradas pelos animais. Nessas condições, nada se pode

concluir quanto a uma imunização que consiste em tornar

refratário um organismo contra quantidades de germes ou

toxinas fatais para qualquer animal da mesma espécie.

Também não era possível determinar o grau de imunização do

soro, pois faltava todo e qualquer termo de comparação, de

modo que são completamente arbitrárias as indicações e

asserções referindo-se à ação preventiva e curativa.

Passando às experiências clínicas sobre as quais se baseia o Dr. Caldas, sabemos que, na ocasião da sua conferência, o soro apenas tinha sido empregado em quatro doentes, dos quais um faleceu. Esse número é demasiadamente diminuto para tirar qualquer conclusão sobre o valor curativo. Mesmo argumentando com esse número, a porcentagem é menos favorável do que a observada em várias epidemias, quer deste país quer do estrangeiro. Não tem sido raro obter-se resultados muito melhores empregando um novo método de tratamento, numa série de casos muito maior e, apesar disso, este método ser, mais tarde, considerado sem eficácia. Está verificado que a mortalidade, na febre amarela, é extremamente variável e no fim das epidemias pode se tornar insignificante.

 

Conclusões

Chegamos às conclusões seguintes:

1 a O Dr. Caldas não provou que isolou o germe da febre

amarela.

2 a Não provou que suas culturas, posto que impuras,

contivessem o germe produtor dessa moléstia.

3 a Não provou que os animais inoculados apresentassem uma

infecção ou intoxicação análoga à da febre amarela.

4 a Não provou que dispunha de um método de verificação da

propriedade ou valor imunizante do soro nesses animais.

5 a Não provou que os dados indicados nas suas instruções

tenham qualquer base racional.

6 a Não provou que as experiências clínicas (quatro casos)

demonstrassem uma ação terapêutica do soro.

Julgamos que estas provas eram absolutamente indispensáveis para estabelecer suas pretensões à solução de um problema científico, consistindo na descoberta da causa da febre amarela e de um tratamento baseado nessa descoberta.

O diretor,

Dr. Adolpho Lutz

Os ajudantes:

Dr. Arthur Mendonça e Dr. Bonilha de Toledo

Confere. O chefe da 2a a seção da 1 subdiretoria, Fernando

Werneck Junior

Conforme. T. Mondin

 

* O parecer datado de 24 de maio de 1897 foi publicado com o título Parecer do Instituto Bacteriolo-gico do Estado de São Paulo sobre o Serum, apresentado pelo sr. dr. Phelippe Caldas pelo governo do Estado (São Paulo, Typographia do “Diario Official,” 1897) e em O Brazil-Medico, Revista Semanal de Medicina e Cirurgia, v.11, n.30, ago. 1897, p.268-9. [N.E.]