Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Mosquitos da floresta e malária silvestre
Mosquitos da floresta e malária
silvestre *
(com 7 figuras)
Dr. Adolpho Lutz
Diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo
Quando, há alguns anos, comecei a dedicar-me ao estudo dos mosquitos da malária, quis o acaso que, não muito distante de São Paulo, começasse a se desenvolver um surto epidêmico dessa doença em circunstâncias de interesse excepcional. Construía-se naquela época uma segunda linha da estrada de ferro de São Paulo a Santos. A parte principal dessa estrada, o trecho da serra, vai da planície, que se eleva muito pouco acima do nível do mar, ao espigão da cadeia de montanhas, cujo ponto menos elevado mede uns 900 metros, sendo dominado pelos picos laterais que o sobrepujam por mais algumas centenas de metros.
Essa cadeia de montanhas separa a faixa litorânea baixa do planalto em que está situada a capital do estado, numa altitude de 700 a 800 metros. O traçado da estrada de ferro corta uma escarpa em forte declive, coberta de mata ininterrupta e completamente desabitada. Vista do mar, dá a impressão de uma serra elevada e íngreme e não pôde ser vencida senão por uma estrada de ferro de montanha, sendo empregado em ambas as linhas o sistema de cabos. Para a nova linha foi preciso construir, além do leito propriamente dito, cinco casas de máquinas, assim como vários túneis e viadutos. Estes tornaram-se necessários devido aos numerosos boqueirões e ravinas pelos quais diversos riachos conduzem as águas dessa zona pluvial e nebulosa. Mercê do forte declive são bastante freqüentes as quedas d’água grandes e pequenas. Nessas condições, é fácil compreender a ausência de águas paradas no sentido usual da palavra.
A estrada de ferro inicial fora construída há mais de trinta anos, pelo sistema de cabos, oferecendo grande interesse tanto aos turistas quanto aos engenheiros. É consideravelmente mais curta e, portanto, mais íngreme que a linha nova. Conforme fui informado por testemunhas oculares, já durante a construção dessa linha reinou a febre intermitente entre os trabalhadores, desaparecendo, porém, completamente, após a conclusão das obras. Há muitos anos não se tinha conhecimento de caso algum de impaludismo entre as poucas famílias do pessoal que residem à beira da estrada, assim como em nenhum dos viajantes que transitam diariamente por ali.
Na construção da linha nova foram empregados milhares de operários, alojados em ranchos localizados em plena mata e comunicando-se uns com os outros por meio de picadas provisórias, abertas na ocasião. Não tardou muito em surgirem numerosos casos de febre intermitente entre os trabalhadores. Foram atingidos, de preferência, os moradores dos ranchos da zona mais baixa e mais quente, mas a moléstia alastrou-se durante a estação cálida até o alto da serra. O número de vítimas foi considerável, atingindo, muitas vezes, em poucos dias, a maioria dos moradores de um rancho. Devido ao caráter benigno da doença e ao uso abundante de quinino, a incapacidade para o trabalho era geralmente passageira. As recaídas eram muito freqüentes, mesmo depois de abandonados os focos de infecção, surgindo ocasionalmente estados anêmicos e caquéticos, mas praticamente não houve casos fatais.
Os engenheiros, que não dormiam nas zonas infectadas, escaparam todos, tanto quanto eu saiba, ao mal.
Tive oportunidade de examinar bom número de operários doentes e pude verificar que se tratava verdadeiramente de malária e quase sempre (se não sempre), da forma benigna, comprovada pelos resultados dos exames microscópicos, mostrando plasmódios grandes e relativamente escassos. Só nos lugares mais fundos, onde a mata atinge a baixada pantanosa, verificaram-se alguns casos de febre tropical (estivo-outonal). Nestes últimos lugares foi encontrada uma espécie de Anopheles cujas larvas vivem nos charcos. Nos ranchos, cujas paredes não eram de madeira, mas sim de esteiras trançadas, deixando vãos largos e numerosos, não eram encontrados mosquitos de dia, embora incomodassem muito à noite. É que os mosquitos abandonavam os ranchos ao amanhecer. Conforme já eu observara alhures, em circunstâncias semelhantes os mosquitos crepusculares também enxameiam de madrugada, fato este que me foi dado observar, de maneira deveras interessante, em Anopheles argyritarsis, por exemplo.
A fim de esclarecer as circunstâncias da epidemia, resolvi passar algumas noites no próprio local e escolhi para esse fim uma casa situada no meio da estrada antiga, pertencente a um engenheiro meu amigo cuja senhora contraíra ali a febre intermitente. Logo na primeira noite, que sucedeu a um dia muito quente, surgiram, enquanto estávamos sentados junto a um lampião, numerosos insetos picadores. Incluíam o Simulium pertinax Kollar, alguns culicídeos, mais ou menos banais e meus conhecidos, e uma espécie que ainda não vira, caracterizada pelas asas maculadas e pela posição perpendicular esquisita que tomava ao sugar. Apesar da sua delicadeza e tamanho diminuto, deu provas de ser um sugador de sangue voraz, pousando sem hesitação alguma nas pessoas presentes e num cãozinho que também ali se achava, sem fazer zumbido prévio. As picadas desse mosquito são menos dolorosas que as de algumas outras espécies. Devido a estas circunstâncias, deixam de ser sentidas por certas pessoas de modo que a espécie, que voa principalmente durante o crepúsculo, passa facilmente desapercebida.
Tive imediatamente a certeza de ter encontrado o mosquito que procurava, muito embora naquela época ainda não fossem conhecidos os característicos dos transmissores da malária. Ao ser descoberto, pouco depois, que estes deveriam ser procurados entre as espécies do gênero Anopheles, vi com satisfação que a nova espécie era, de fato, um Anopheles. Trata-se da que foi posteriormente descrita por Theobald sob o nome de A. lutzii, sendo uma das menores e mais delicadas. Verifiquei, mais tarde, que possui uma distribuição ampla, limitada, porém, às matas serranas marítimas e parte das terras contíguas, acompanhando as águas que emergem das serras. Tenho exemplares dessa espécie provenientes de vários pontos situados na zona compreendida entre Santos e Conceição, e, graças à gentileza do Sr. Schmalz, de
Joinville (Estado de Santa Catarina), desta última região também. 1
Até agora, nunca foi vista mais para o interior.2
Uma vez de posse da espécie suspeita e, conforme se verificou mais tarde, com razão, era preciso encontrar também os criadouros de suas larvas. Já era de meu conhecimento que em todas as matas úmidas do nosso torrão enxameiam grandes quantidades de mosquitos pertencentes a espécies que não são encontradas em outros lugares. Também sabia que nestas matas os brejos e poças ocorrem apenas em condições inteiramente excepcionais. Assistia-me, pois, o direito de esperar peculiaridades biológicas quanto ao modo de vida larval. Não seria lógico duvidar de que as larvas fossem aquáticas, como as dos outros mosquitos. O problema resumia-se, pois, em encontrar depósitos de água apropriados para a sua criação. À custa de alguma meditação e aproveitando a experiência adquirida no campo, consegui, em breve, achar a solução.
Não ignorava o fato de que algumas plantas possuem a propriedade de armazenar água, a qual é, por sua vez, utilizada por outros organismos. Eu mesmo observara nas ilhas do Havaí uma pandanácea, Freycinetia arnottii, a qual acumula regularmente água
que serve de 3 habitat exclusivo e constante de um crustáceo pequeno (Orchestia), muito semelhante ao Gammarus pulex pela forma e pelo tamanho.
No Brasil, são principalmente as bromeliáceas4 epífitas que armazenam água, a qual pode ser aproveitada até para beber, embora surpreenda mais vezes o naturalista, especialmente o colecionador de orquídeas, com uma ducha inesperada e nem sempre muito limpa.
Também não me era desconhecido o fato de viverem nas águas de bromélias diversos seres miúdos, e lembrei-me que Fritz Müller nelas havia encontrado um Ostracode muito interessante. Ora, onde esse podia manter-se e prosperar, as larvas de mosquito, naturalmente, também poderiam viver. Sendo as bromeliáceas muito abundantes naquelas matas, dispus-me a examiná-las, cheio de esperanças.
Logo de início, tive uma desilusão, não conseguindo encontrar
material apropriado. 5 É verdade que todas as árvores grandes ostentavam um número importante de bromeliáceas nos galhos inferiores, grossos e mais ou menos horizontais. Acontece, porém, que mesmo os mais baixos ainda ficavam a uns trinta pés (mais ou menos dez metros) acima do solo, fora de alcance, portanto. Se resolvesse mandar cortar as árvores, a água se derramaria. Encontrei, também, bromeliáceas em rochas escalvadas, mas estas só continham larvas de pererecas. Se os mosquitos desovavam de
fato na água das bromeliáceas,6 deviam fazê-lo muito acima das nossas cabeças.
No fim de algum tempo, consegui, porém, encontrar na mesma zona bromélias de acesso mais fácil e examinar a água abundante nelas
colhida.7 Foram, então, encontradas não só numerosas larvas de outras espécies de mosquitos como também as do novo Anopheles. Hoje em dia, após vários anos de observação, posso afirmar que os mosquitos típicos da floresta, quase sem exceção, passam a fase larval na água das bromeliáceas.
Gradualmente, fui elaborando uma técnica apropriada para a
colheita e criação dessas larvas, 8 sobre a qual parece-me útil fornecer algumas explicações. Aproveitando o ensejo, incluo alguns
dados sobre as próprias bromélias ou gravatás. 9
A família monocotiledônea das bromeliáceas, cujo representante
melhor conhecido é o ananás, ou abacaxi,10 contém grande número de espécies, na sua quase totalidade oriundas da América tropical. Também no Estado de São Paulo ocorrem numerosas espécies, vivendo na maioria como epífitas. As folhas, geralmente em forma de gládio, são estreitas como as das gramíneas em algumas formas, mas em outras alcançam a largura de um decímetro; o comprimento pode atingir um metro, mas na maioria não passa de alguns decímetros a cinqüenta centímetros. Essas folhas são dispostas em espiral, geralmente muito apertada e baixa; também possuem, geralmente, desde a base, a largura máxima. Em conseqüência desta disposição, circundam a haste florífera e as folhas internas, formando bainhas. Surge assim um funil central rodeado de numerosas cavidades externas, em forma de cartuchos que retêm todas as águas pluviais, que nelas penetram escorrendo pela concavidade interna das folhas. Conservam a água por muito tempo, desaparecendo ela somente após uma seca muito prolongada. Muitas vezes, até o orvalho é suficiente para impedir a evaporação total. Não há dúvida que a própria planta utiliza a água que contém, como também o húmus abundante que nela se forma.
As espécies que mais nos interessam pertencem a diversos gêneros, tais como Vriesia, Nidularium, Billbergia, Aechmea, Bromelia etc.
Embora as formas menores também possam ser fartas, são naturalmente os exemplares maiores que prometem colheita mais abundante. O seu exame apresenta, contudo, várias dificuldades
devidas ao formato e tamanho. 11 Entornando-as, simplesmente, diversas folhas se esvaziam simultaneamente e a água que delas
escorre perde-se em todas as direções. 12 Virar a planta, depois de deslocada, sobre um pano grande de borracha é mais útil, mas
ainda 13 assim muitas larvas e quase todas as ninfas ficam retidas, presas à superfície das folhas. Os melhores resultados são obtidos podando-se, no próprio local onde a planta cresce, as folhas mais longas com uma tesoura ou uma faca bem afiada, de modo a ficar apenas um toco, com um palmo, aproximadamente. Solta-se, então, a planta com todo o cuidado e despeja-se a água que, em
exemplares grandes, pode alcançar mais de14 meio litro. Depois disso, enxágua-se o toco inteiro em vasilhame apropriado. Reunidas as águas, elas contêm a fauna toda, que pode então ser separada de acordo com as conveniências do pesquisador.
A água proveniente das bromeliáceas contém muitas folhas secas e galhinhos, assim como grande quantidade de húmus muito fino e limpo, formado à custa de umas e outros. Nela se encontram crustáceos miúdos (Ostracodes, Copepodes, Lynceides), assim como larvas de tipulídeos, culicídeos e também de Corethra, Chironomus e de outros nematóceros semelhantes. Também são vistas larvas de Coleópteros aquáticos e de anfíbios. Os hilídeos e as planárias terrestres gostam de viver nestas plantas que reúnem as vantagens dos aquários às dos terrários. Alguns dos inquilinos alimentam-se de húmus enriquecido pela presença de organismos microscópicos (rotíferos, infusórios, diatomáceos, desmidiáceas e outras formas semelhantes); outros, como as larvas de coleópteros, caçam animais miúdos. As larvas de Megarhinus fazem uma boa limpeza entre os pequenos culicídeos e devem ser isoladas para serem criadas à parte, sendo alimentadas com as larvas consideradas inúteis.
As formas capturadas por esse processo podem continuar a viver na própria água das bromeliáceas. Convém colocá-las em vasos rasos e juntar algumas plantas aquáticas verdes, pois do contrário os cogumelos esquizomicetos formam camadas espessas na
superfície.15 É provável que as folhas vivas das bromeliáceas desprendam bolinhas de oxigênio na água, conservando-a fresca. Deve ser este o motivo pelo qual as larvas das espécies bromelícolas só aparecem raras vezes na superfície, deitando-se no fundo de costas, como se ali procurassem o ar, com o sifão respiratório voltado para baixo. Esse fato observa-se também, mas é mais raro, nas habitantes dos pântanos.
A maioria das larvas de mosquitos das bromeliáceas 16 correspondem ao tipo Culex; são muito parecidas, distinguindo-se umas das outras principalmente pela forma do sifão respiratório e, não raro, também pelo colorido. Quase todas são distintamente verdes, azuis, vermelhas ou lilases. Esses matizes, às vezes muito apagados, parecem estar ligados ao corpo adiposo e ao modo de vida das larvas. Podem ir desmaiando quando as larvas são colocadas em ambiente diverso. Cores semelhantes também são
vistas, freqüentemente, em larvas dos pântanos como da espécie 17 de Anopheles e Uranoteaenia, mas são desprovidas de significação específica.
Em duas espécies de larvas bromelícolas observa-se um colorido vermelho intenso que as diferencia das outras espécies que ocorrem no mesmo habitat. São elas Anopheles lutzii Theobald e Magarhinus violaceus Hfmnsg (purpureus Theo.). A primeira participa do tipo Anopheles, sendo, porém, mais robusta, isto é, proporcionalmente mais larga e curta; à medida que vai envelhecendo, torna-se de um carmim cada vez mais carregado. A outra tem conformação peculiar, mais cilíndrica, com sifão respiratório muito dilatado, que a separa tão bem das larvas das espécies de Anopheles quanto a forma da tromba dos respectivos adultos. Essa larva atinge o tamanho descomunal de 12 a 15mm. O colorido é distribuído em salpicos vermelhos, ao passo que a cor da ninfa é vermelho difuso mais amarelado, com colorido escuro nas palhetas natatórias. Além destas espécies, encontra-se freqüentemente uma larva de Corethra, de cor vermelho vivo, cujos hábitos lembram muito os de Anopheles mas que dele se distingue pela forma da cabeça. Também estas larvas podem exibir um enfraquecimento do colorido quando são alteradas as suas condições de vida.
O número de larvas encontradas em cada planta18 é variável, mas nunca é bastante elevado para que seja verossímil que perfaçam a postura inteira. As larvas maiores de Megarhinus são sempre encontradas bastante isoladas, mas também as das outras espécies são tão escassas que a postura não pode deixar de ter sido
repartida por diversos plantas.19 É provável que os ovos das espécies bromelícolas amadureçam em lotes pequenos e atinjam tamanho um pouco maior. Observei que Trichoprosopon nivipes deposita os seus ovos na água, um por um, como fazem os Anopheles e Stegomyia fasciata, não pondo mais de uma dúzia de cada vez. Neste caso o desenvolvimento foi muito rápido, ao passo que em Megarhinus violaceus pode ser bem demorado.
Os mosquitos das florestas parecem viver bastante tempo, porque mesmo depois de uma estiagem longa são encontrados numerosos exemplares, alguns bem surrados. Consegui manter vivos, por dois meses, espécies de Trichoprosopon nivipes. Na falta de absorção de líquidos tornam-se, porém, muito sensíveis ao ar seco, nele vivendo apenas algumas horas. Tenho observado estes mosquitos
sugando orvalho ou água, mas preferem água com açúcar. 20 O mel é uma alimentação excelente para estes mosquitos, como, aliás, também para a maioria dos outros, desde que sejam tomadas as precauções necessárias para evitar que nele fiquem grudados. Para esse fim, embebe-se um pedacinho de esponja ou de algodão em mel, envolvendo-o a seguir em tela de arame que se seca por fora com mata-borrão, de modo que os mosquitos só possam alcançar o mel com a ponta da tromba. As bananas e tâmaras, que empreguei com êxito em outras espécies, segundo o processo ideado por Bancroft, não se prestam tão bem para os mosquitos silvestres. Muitos destes são muito ávidos de sangue e importunos. É o caso de Wyeomyia longirostris e luteoventralis, cujas picadas são muito dolorosas. Sabethes e Trichoprosopon são um pouco mais tímidos. Culex serratus e confirmatus, assim como as espécies de Janthinosoma, são picadores bem atrevidos, atacando também os cavalos e cães e aceitando isca de aves. A tromba comprida de Wyeomyia longirostris atravessa facilmente a pelagem e as
roupas. 21
Salvo precauções especiais, em algumas22 matas a permanência redunda em molestação constante pelos mosquitos, porque os habitantes da floresta picam a qualquer hora. Esta observação se aplica a Anopheles lutzii, embora ele, como o Culex confirmatus, prefira de muito o crepúsculo. Não obstante, em certas localidades,
estando o céu encoberto ou sendo o local23 sombrio, aparece em número considerável, mesmo nas horas quentes. A caçada noturna com lanterna produzia sempre as mesmas espécies. Dentre as formas características das bromeliáceas, nunca observei o vôo de
Megarhinus violaceus 24 e Culex imitator nem o do raro Culex ocellatus nov. spec., sendo necessário recorrer à criação. Caso piquem seres humanos e animais maiores, só o podem fazer à
noite. 25
Também é curioso o fato de que os mosquitos silvestres aparecem a princípio isolados (aparentemente orientados pelo olfato, já que
procuram sobretudo 26 as pessoas e os animais que transpiram), aumentando, porém, pouco a pouco, até parecer que a população inteira da floresta foi alertada. É o que deve ocorrer, porque os mosquitos se congregam mesmo em lugares onde não só as larvas mas as próprias bromeliáceas são bem escassas. A visão nada pode contribuir para o ajuntamento, mas o zunido parece ser reciprocamente perceptível a longa distância. Às vezes ocorrem também os machos, embora não piquem, mas nunca me foi dado presenciar a cópula, que só deve ter lugar nas horas do crepúsculo.
Todas as espécies que possuem cerdas no metatórax têm o hábito, semelhante ao dos Syrphideos, de pairar no ar, durante muito tempo, no mesmo lugar, com as pernas traseiras, longas, curvadas em arco sobre o dorso. Com boa luz pode-se distinguir os alvos tarsos de diversas espécies, entre as quais Trichoprosopon nivipes, Janthinosoma lutzii e Sabethes remipes, e mesmo as partes luzentes dos pés de Wyeomyia longirostris; outras espécies são reconhecíveis pelo seu brilho verde ou azul. Ao passo que os outros mosquitos costumam zunir durante bastante tempo nos ouvidos das vítimas, o Anopheles silvestre pousa logo e quase que silenciosamente, passando assim desapercebido graças ao seu tamanho diminuto e posição vertical, sendo muitas vezes notado apenas depois que picou.
As larvas exclusivamente bromelícolas devem perfazer aproximadamente um quinto das cerca de quarenta espécies dessa região. Somando, porém, também as que às vezes desovam nos brejos, a proporção ascende a um terço pelo menos. Ao primeiro grupo pertencem os gêneros Wyeomyia, Sabethes, Trichoprosopon e provavelmente também Limatus, bem como as espécies já citadas de Magarhinus, Anopheles e Culex; provavelmente também Stegomyia silvestre nov. esp. e Janthinosoma lutzii Theo., possivelmente também I. musica Say., Culex confirmatus Arr. Cria muitas vezes, mas não exclusivamente, em bromeliáceas, o mesmo ocorrendo com C. serratus e C. crinifer nov. esp., que são encontrados ora entre os mosquitos da floresta, ora entre os dos brejos. Várias espécies pequenas, como Culex humillis, C. atratus Theo. e C. pleuriscriptus nov. esp., preferem a vizinhança de lugares pantanosos, mas utilizam as plantas armazenadoras de água que crescem nesses lugares. Também as bromeliáceas de solo seco e as das rochas podem conter larvas de mosquitos, mas não as estudei detidamente.
Devo acrescentar que a família das Eriocauláceas também inclui plantas que abrigam larvas de mosquitos. Por duas vezes, foram
encontradas27 numa espécie de brejo, determinada pelo Sr. Edwall
como 28 Eriocaulon vaginatum KÖrn. As larvas, bastante numerosas,
pertenciam a 29 Culex cingulatus Fabr.-Theo. e viviam associadas a pequenos ciclopídeos, embora a lagoazinha onde cresciam as
plantas estivesse livre de larvas de mosquitos.30 São evidentes as vantagens do habitat vegetal que lhes assegurava proteção contra os predadores comuns.
O número de indivíduos pertencentes às espécies que criam nas bromeliáceas é enorme, devendo superar de muito ao das outras espécies em muitas localidades. Acresce que a área ocupada por matas é bem extensa. Também as águas salobras, brejos e margens de rios auxiliam a praga de mosquitos, mesmo quando não se prestam diretamente para criadouros das larvas. Tais acúmulos de água favorecem as bromeliáceas, que revestem as árvores dessas paragens e, conjuntamente com outras plantas armazenadoras de água, cobrem os solos secos ou brejentos.
É de suma importância o estudo dessas condições. A possibilidade da destruição das larvas que vivem em epífitas por meio das substâncias recomendadas para esse fim é mais teórica que prática. O extermínio das bromeliáceas também é raramente exeqüível. Geralmente, só a abertura de clareiras dá resultados como medida de proteção contra a malária silvestre e fluvial, conforme foi verificado várias vezes entre nós. Confirmada a existência da malária em regiões pantanosas, convém não deixar esquecidas as plantas que armazenam água.
Circunstâncias semelhantes às nossas devem ser bastante freqüentes em outros lugares. Nutro a esperança de que os resultados das observações aqui descritas concorram para a elucidação das trevas que em muita parte ainda envolvem as origens da malária endêmica.
Resta acrescentar alguns dados de ordem geral sobre as plantas armazenadoras de água que podem servir de focos de larvas. Os reservatórios constituídos pelas bases de folhas largas que circundam o caule são os mais comuns. Esse dispositivo é mais característico das monocotiledôneas, mas há plantas dicotiledôneas que também o exibem, haja visto o cardo das florestas, Dipsacus sylvester. Às vezes são as brácteas que acumulam água, por exemplo, nas helicônias. Em outras formas, a folha toda ou apenas a sua parte terminal se transforma em reservatório em forma de jarra; é o que ocorre nas Sarracennia e nas Nepenthes. Quanto à água, ora provém de precipitações atmosféricas, como nas bromeliáceas, ora é secretada pelas próprias plantas, como em Nepenthes. Há casos em que não é muito clara a sua origem, podendo ocasionalmente provir de ambas as fontes. Do ponto de vista do seu papel como foco de larvas de mosquitos, a origem é relativamente indiferente, mesmo quando se trata de secreção que
possui a propriedade de digerir organismos mortos.31 O essencial é que a água, que não precisa ser abundante, esteja bem protegida contra a evaporação total, deixe penetrar ar e luz suficiente e ofereça algum elemento nutritivo. Para que seja possível a adaptação das larvas, as plantas também não podem pertencer a espécies por demais escassas.
Nenhuma planta européia conhecida por mim preenche essas condições. O continente americano possui, ao menos, duas famílias apropriadas, discutidas acima. Seria bem interessante examinar as Sarracennias norte-americanas deste ponto de vista. Nos outros continentes, aponto as Nepenthaceae e as Freycinetiae, amplamente representadas em muitas ilhas e regiões litorâneas dos Oceanos Pacífico e Índico.
A árvore do viajante, Ravenala madagascariensis Sonn., tanto quanto a pude estudar aqui, não parece preencher as condições exigidas para criadouro de larvas. Não obstante possuir na base das folhas reservatórios muito amplos, que servem até para matar a sede, estes só se comunicam com o exterior muito esporadicamente e ainda assim por orifícios exíguos. A água neles contida apresentou-se sempre muito límpida e desprovida de organismos maiores.
Nas plantas armazenadoras de água nas quais foram vistas repetidamente as larvas de mosquitos, convém investigar se algumas das espécies presentes estão exclusivamente adaptadas a esse habitat.
São Paulo, 16 de setembro de 1902.
Legendas das ilustrações (ver p.755-57)
Fig. 1 Aechmea tinctoria Mez., uma das bromeliáceas epífitas mais comuns e que freqüentemente abriga larvas de mosquitos. Atinge cerca de 75 cm. Repr. de Martius, Flora Brasiliensis.
Fig. 2 Nidularium ampullaceum E. Morr., espécie epífita pequena mas que acumula grande quantidade de água. Altura apr. 20 cm. De Martius, Flora brasiliensis.
Fig. 3 Corte de uma bromeliácea grande, passando pelo centro. Na base dos tocos das folhas vêm-se as numerosas bolsas onde se acumula água. Tirado do natural.
Fig. 4 Eriocaulon vaginatum Koernk. Planta brasileira de brejo que abriga larvas de mosquitos. Comprimento máximo das folhas, cerca de 30 cm. Tirado do natural.
Fig. 5 Freycinetia Arnotti Gaud. Pandanácea das Ilhas do Havaí, que acumula água. A figura representa um ramo florido desta trepadeira enorme, bastante reduzido. Comprimento natural das folhas de 45 a 75 cm. De Sinclair, Indigenous Plants of the Hawaiian Islands.
Fig. 6 Nepenthes gracilis Korth., exemplo de planta com reservatório em forma de jarrinha. De Engler e Prantl, Die natuerlichen Pflanzenfamilien.
Fig. 7 Anopheles Lutzii Theob., espécie típica de vida larval bromelícola e transmissora da malária silvestre. Tirado do natural. Comprimento sem a tromba de 3 a 4,5 mm., com a tromba de 6 a 6,5 mm.
* Publicado originalmente como “Waldmosquitos und Waldmalaria,” Centralblatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten, v.33, n.4, 1903, p.282-92, com sete figuras. Este trabalho que Lutz escreveu em São Paulo, e no qual apôs a data 16.set.1902, foi republicado em 30.abr.1950 pela Revista Brasileira de Malariologia, v.II, n.2, em português (“Mosquitos da floresta e malária silvestre,” p.91-100) e em inglês (“Forest mosquitoes and Forest Malaria,” p.101-10). A tradução do alemão para o português foi realizada por Olga Fehr, tendo sido revista e modificada por Bertha Lutz. A versão para o inglês é, provavelmente, de seu irmão, Gualter Adolpho Lutz. No Fundo Adolpho Lutz (BR. MN., caixa 23, pasta 85 maço 6) constam os originais datilografados das traduções e ainda um exemplar da Revista Brasileira de Malariologia com numerosas correções feitas a lápis, por Bertha ou Gualter, de erros encontrados no texto da Revista ou de trechos que julgavam, agora, inadequados à versão original do trabalho, em alemão. Na presente edição, além da atualização ortográfica, registramos em nota as correções feitas pelos filhos de Adolpho Lutz ou por nós mesmos, com base no cotejo com “Waldmosquitos und Waldmalaria”. Este trabalho foi objeto de várias resenhas: na Grã-Bretanha, saiu longo comentário (“Forest mosquitoes and Forest Malaria”) em Journal of Tropical Medicine, 1903, v.6, p.111-23. O Bulletin de l'Institut Pasteur deu menos importância à contribuição fundamental de Lutz (1903, v.1, p.183); resenhas foram publicadas também em Archiv für Schiffs-und Tropenhygiene (v.7, p.339-40), Münchener medizinische Wochenschrift [v.50, n.6, p.264], Hygienische Rundschau [v.13, n.18, p.937-8]; Rif. Med. [v.19, n.15, p.418] e, ainda, em Allgemeine Zeitschrift [für Entomologie], v.8, n.18-19, p.377, esta última de autoria de Paul Gustav Eduard Speiser. [N.E.]
1 Trecho modificado por nós, conforme original; na revista constava “e também, graças à gentileza do Sr. Schmalz, de Joinville (Estado de Santa Catarina) daquela região”. [N.E.]
2 Durham (Thompson Yates Laboratories Rept., v.IV, n.2, p.534) anuncia ter encontrado Anopheles lutzii no Pará, o que é bem possível; mas os seus dados não combinam com os caracteres da espécie. As larvas da sua espécie foram procuradas em águas estagnadas, em vão. [N.A.]
3 Acréscimo feito por Bertha/Gualter. [N.E.]
4 Modificação nossa, conforme original. Em várias outras passagens, a Revista Brasileira de Malariologia registra “bromélias” quando no original consta bromeliáceas. Consertamos sempre. [N.E.]
5 Correção feita por Bertha/Gualter. Na Revista Brasileira de Malariologia, consta “material bom”. [N.E.]
6 Na original, em alemão, e em correção de Bertha/Gualter consta: “se os mosquitos desovavam nas bromeliáceas, fato este irrefutavelmente comprovado a seguir, deviam fazê-lo…”. [N.E.]
7 Nessa pesquisa foi muito proveitosa a colaboração de diversos amigos. Aos srs. Aehringsmann e professor v. Wettstein, agradeço o fornecimento de água de bromeliáceas de diversas localidades, contendo larvas de mosquitos. O sr. Schmalz, de Joinville, a partir da água de bromélias, criou para mim grande número de mosquitos cujos caracteres combinavam perfeitamente com os das nossas matas. Aos srs. Loefgren e Edwall, da Comissão Geográfica de São Paulo, sou devedor de auxílio quanto à literatura botânica. [N.A.]
8 Correção nossa, conforme original. Na Revista lê-se “dessas larvas de bromélias”. [N.E.]
9 No original, consta somente bromeliáceas. [N.E.]
10 Acréscimo do tradutor; não consta do original. [N.E.]
11 No original se lê “O seu exame apresenta, contudo, dificuldades devidas ao seu grande tamanho”. [N.E.]
12 A Revista publicou frase truncada em virtude da omissão do trecho “e a água que delas escorre perde-se em todas as direções. Virar a planta, depois de deslocada”. [N.E.]
13 Correção de Bertha/Gualter. Na Revista consta “mesmo”. [N.E.]
14 Acréscimo de Bertha/Gualter, como no original. [N.E.]
15 No original não consta “na superfície,” mas mantemos. [N.E.]
16 No original lê-se “na água das bromeliáceas”. [N.E.]
17 Como no original; “como da espécie” não está na Revista. [N.E.]
18 Como no original. A Revista dá “bromélia” em vez de planta. [N.E.]
19 Como no original. A Revista dá “gravatás”. [N.E.]
20 Esta frase foi omitida pela Revista. [N.E.]
21 Na Revista lê-se “roupas leves;” este adjetivo não consta do original. [N.E.]
22 Conforme o original; na Revista encontra-se “muitas”. [N.E.]
23 Na Revista lê-se “ponto” [N.E.]
24 Conforme o original. [N.E.]
25 Em 1939 o Dr. Lutz e sua filha mostraram que o Culex imitator pica batráquios também adaptados às bromélias de restinga, notadamente Corythomantis brunoi e Trachycepalus nigromaculatus (An. Ac. Bras. Sc. v.XI, n.3, p.254-6). [N.T. riscada por Bertha/Gualter].
26 Conforme o original. [N.E.]
27 Como no original; na Revista consta “encontrei”. [N.E.]
28 Na Revista lê-se Koernke. No original consta “Kek,” mas com correção manuscrita à margem da fotocópia existente no Fundo Adolpho Lutz. [N.E.]
29 Como no original, tendo sido omitido na Revista e acrescentado à mão por Bertha/Gualter. No original consta sempre “Theob.” [N.E.]
30 Como no original; na Revista encontra-se frase independente: “A lagoazinha onde cresciam as plantas estava livre de larvas de mosquitos”. [N.E.]
31 Depois de terminadas as minhas observações, vim a saber que Haberlandt observara a presença de larvas vivas de mosquitos em Nepenthes ampullaria e rafflesiana. Haberlandt: Eine botanische Tropenreise, p.37. [N.A.]