Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Resenhas/Reviews
Nota explicativa
Década e meia após a derrocada da hipótese de Giuseppe Sanarelli sobre o agente microbiano da febre amarela, a mais sofisticada dentre as numerosas teorias propostas desde 1880, o mundo científico foi sacudido pelas descobertas de Hideyo Noguchi (1876-1928), bacteriologista do Rockefeller Institute for Medical Reserach, em Nova York. A febre amarela foi objeto de 34 trabalhos publicados por este notável cientista entre 1919 e 1928. Noguchi chegou a ela por via da sífilis, como mostramos na apresentação histórica deste livro, e com o Leptospira icteroide desenvolveu uma vacina que despertou grandes esperanças até ser atirada ao cemitério onde jaziam as de Freire, Carmona y Valle e outros precursores. A primeira vacina eficaz seria desenvolvida pela Fundação Rockefeller somente nos anos 1930, após a comprovação de que a febre amarela era causada por um vírus passível de ser replicado em ovos embrionados (Benchimol, 2001).
Apresentamos a seguir “Trabalhos de Hideyo Noguchi sobre a etiologia da febre amarela” (A Folha Medica, 1919, p.174-6). São resumos elaborados por Bertha Lutz de onze comunicações publicadas pelo bacteriologista japonês entre julho e outubro de 1919, quando deu os arremates finais, em Nova York, às investigações iniciadas no ano anterior em Guayaquil, no Equador, cidade considerada um dos focos de irradiação da febre amarela no continente americano. À época em que escreveu estas resenhas, Bertha, recém-chegada da Europa, trabalhava como assistente do pai no Instituto Oswaldo Cruz. Reproduzimos, também, resumo manuscrito pelo próprio Adolpho Lutz de um dos primeiros trabalhos publicados por Noguchi após a estada no Equador como integrante da comissão médica enviada pela International Board of Health, da Rockefeller Foundation: “Contribution to the Etiology of Yellow Fever,” Journal of the American Medical Association, v. 72, n.3. Lutz comenta que a solução proposta aí por Noguchi dava lugar a “várias dúvidas e objeções … parece melhor esperar a publicação completa e definitiva antes de discutir os pontos duvidosos”. Noguchi esteve em Salvador, em 1923. Assim que foram anunciados os resultados por ele obtidos em Guayaquil, Carlos Chagas, diretor do Instituto Oswaldo Cruz enviou diversos pesquisadores à capital baiana, onde a febre amarela era endêmica. Esperava que confirmassem a descoberta do bacteriologista japonês, mas não conseguiram observar nada que confirmasse o que ele havia descrito. Mas tamanho era seu prestígio — observa Fonseca Filho (1974, 33-6), — que todos atribuíram aquele insucesso à inexperiência dos pesquisadores de Manguinhos num campo de trabalho novo, o dos leptospíras. Adolpho Lutz foi uma exceção. Embora estivesse voltado para outros objetos de pesquisa — anfíbios, esquistossomose, entomologia etc. — tinha grande experiência com a febre amarela, e estudara já a biologia das Spirochetaceae. Afirmava que se a doença tivesse por agente um microrganismo daquela família, ele o teria visto.