Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 3 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Prefácio/Preface

Prefácios/Prefaces

 

Uma recomendação aos cientistas e sanitaristas:

leiam e vivenciem a obra de Lutz

Leônidas de Mello Deane me recomendou várias vezes – sem sucesso -que eu lesse, enquanto estudante, os trabalhos de Lutz sobre ancilostomose e esquistossomose, pelos quais ele nutria grande respeito científico. Dizia-me que se eu quisesse mesmo ser parasitologista, deveria lê-los. Leônidas valorizava a pertinácia e a disciplina experimental de Lutz, mas mais do que isto, sua capacidade de transitar a cavaleiro sobre todos os aspectos dessas parasitoses. Partindo de Leônidas Deane, protozoologista incurável, não posso imaginar maior elogio a um pesquisador do que considerar modelares seus trabalhos em helmintologia.

Samuel Pessoa, ao aposentar-se, migrou para o Instituto Butantan e passou a dedicar seu tempo ao estudo de hematozoários de cobras. À época, o Prof. Pessoa me contou sua surpresa com a qualidade das observações de Lutz sobre o mesmo tema: “você não pode deixar de lê-las,” foi sua recomendação (bem sucedida).

Comum a ambos, Deane e Pessoa, era a admiração pela versatilidade não superficial de Lutz e sua insaciável curiosidade de naturalista, que eu acredito fosse, em realidade, comum aos três.

Essa curiosidade compulsiva levaria Lutz a estudar tudo o que a natureza proveu, houvesse tempo para isso. Consta que desde criança ele queria ser “naturalista” e que, ainda adolescente, teria lido a Origem das espécies.

Essa saudável curiosidade irrestrita, comum a Cuvier, Darwin, Russell, Humboldt e Agassiz, e tão apreciada na cultura européia do século XIX, seria objeto de censura dos adversários pessoais ou científicos de Lutz. Acusavam-no de volubilidade e inconstância ao saltar, mesmo que com eficiência e propriedade, de um tema a outro: bronquite, hanseníase, ancilostomose, esquistossomose, crustáceos, anfíbios, pássaros, cobras, ‘febres intestinais’, febre amarela, malária e sobretudo insetos.

Porém seus detratores, à época e agora, acho que não compreenderam o cenário da ciência médica no qual Lutz atuava.

Na tradição ocidental, até o século XVIII, as doenças eram vistas como predominantemente decorrentes de alterações dos “humores” do corpo. Causas externas, só as macroscópicas: malformações, traumatismos, e, entre os parasitas, só os piolhos, sarnas e vermes maiores. O mundo microscópico não existia.

Para corrigir os desvios humorais nada como uma boa sangria, um vomitivo eficaz ou um poderoso clister, sem falar nas poções de mercúrio e arsênico. Pacientes já debilitados morriam mais do tratamento que das doenças.

A introdução da quina para o tratamento da febre palúdica causou uma revolução na medicina dois séculos antes de serem descobertos os agentes causais da malária. O que a quina mostrou foi que uma droga (il polveri dei gesuiti) podia curar uma doença sem que clisteres, sangrias e exorcismos fossem usados para disciplinar humores extraviados. Escolas médicas se defrontaram acerbamente. As disputas se estenderam até meados do século XIX, quando Pasteur revelou o papel das bactérias nas fermentações (1860) e Koch as revelou como causadoras do antraz (1876) e, depois, da tuberculose e do cólera. Pasteur seguiu com a descrição de pneumococos, estafilo e estreptococos. O sucesso da assepsia cirúrgica de Lister, até então empírica, encontrou a explicação que lhe faltava e, a partir daí, a cirurgia em todo o mundo alcançou novos patamares. Seguiram-se as vacinas e os soros curativos.

Tudo isso acontecia entre o nascimento de Lutz (1855) e seu retorno ao Brasil (1881). Antes de voltar ao país natal, visitou Londres e Paris onde certamente respirou o clima efervescente da descoberta e da curiosidade científica. Esse clima envolveu administrações públicas e toda a sociedade na febricitante tarefa de criar Institutos para o estudo dos microrganismos e para o combate às doenças por eles causadas.

A palavra de ordem não era a especialização, mas o arrojo e a curiosidade. Havia todo um universo a ser descoberto.

A tese de doutoramento de Lutz, em Berna, sobre o uso de uma anacardiácea (quebracho) no tratamento da bronquite foi-lhe entediante. Sua clínica em Berna, também. Tinha mais interesse no que acontecia no laboratório de Leuckart, em Leipzig, descobrindo parasitas e seus ciclos (tênias, triquinela, fascíolas), que em sua modesta atividade clínica. Compensava-se como naturalista, descrevendo nos lagos suíços espécies de copépodes, conhecidos vetores de parasitas. Não hesitou em voltar para o Brasil, onde descobriria o universo da patologia tropical praticamente inexplorado. Posso imaginar sua excitação ao querer tudo apreender e compreender. Admiro mais ainda sua disciplina helvécia ao controlar sua excitação e organizar persistente e metodicamente suas observações.

Sua curiosidade o leva, ao lado de sua clínica em Limeira (SP), a estudar a hanseníase, chegando a acompanhar, ao longo dos anos, mais de duzentos pacientes. Ao mesmo tempo, sistematiza o estudo da ancilostomose e descreve a estrongiloidose. Atento, descreve a pelagra antes que a avitaminose fosse conhecida. Além disso, remexe os anfíbios da região e acaba descrevendo um mixosporídeo em suas vesículas biliares. Procura doenças em animais domésticos e as encontra. Recomenda medidas contra a coccidiose dos coelhos. Irrequieto, vai estagiar em Hamburgo, com Unna, mergulhando no mundo da microbiologia. Volta ao Brasil e parte para o Havaí, a estudar a hanseníase e dirigir um leprosário. Enfim, sua curiosidade não tem limites.

Todavia, uma característica de Lutz chama a atenção: o marcado interesse na cadeia epidemiológica, nos ciclos de vida e transmissão dos parasitas mais do que na sua morfologia e estrutura. Ao estudar a ancilostomose no Brasil, nota que o aparelho bucal do Necator é diferente do Ancylostoma europeu, mas não se interessa por isso.

Enveredou muitas vezes pelo estudo dos protozoários, mas nunca foi seduzido pelo charme de sua morfologia. Nunca mergulhou na estrutura dos esporozoários e não chegou a reconhecer seu complexo apical nos inúmeros estudos que fez com Splendore sobre esses parasitas. Estudou a pebrina em borboletas por vários anos, mas não se conhece alguma contribuição significativa de Lutz sobre a estrutura dos esporozoários. Estudou amebas intestinais e, embora conhecesse bem a literatura, e chegasse até a aquecer a estativa de seu microscópio para mantê-las ativas, não chegou a se aprofundar em sua morfologia nem de seus cistos. Encontrou tripa-nossomos em ratos e anfíbios mas não se deteve neles. Registra pela primeira vez nas Américas a presença de hematozoários em pássaros, mas sem gastar muito tempo em seus detalhes morfológicos. Idem para os inúmeros hematozoários de anfíbios que encontrou. Apenas aos esporozoários de serpentes dá mais atenção.

Em compensação, mostrou especial interesse pela cadeia de transmissão das parasitoses. Pasteur, Koch e outros haviam pontificado na descrição de patógenos. Agora era a hora de abrir um novo mundo, o de sua transmissão. Em muitos casos foi fácil: água, alimentos etc. Em outros prevaleceu grande mistério. Leuckart esclareceu o ciclo de muitos vermes. Mas faltavam agentes e ciclos de muitas patologias, notoriamente da malária e da febre amarela.

Philip Manson em 1880 havia mostrado a transmissão da filária pelo pernilongo comum, dando origem à “mosquito theory” da transmissão de doenças (1878-1883), ridicularizada por muitos, mas de enorme peso científico e implicações epidemiológicas. Lutz deve ter se impressionado com a idéia, porque logo tentou ajustá-la à transmissão da hanseníase. Nunca abandonou inteiramente essa idéia, mas não insistiu nela por falta de evidências concretas.

O que o ocupará por muito tempo será a transmissão da febre amarela, na qual terá a oportunidade de confirmar, para os incréus brasileiros, a veracidade dos experimentos de Reed em Cuba.

Em seguida vem-lhe o grande desafio: a malária que ocorria na mata atlântica e nas florestas ancilares dos rios paulistas, hoje restrita às matas litorâneas do Sudeste e Sul brasileiros. Essa malária, tipo vivax, reincidente e branda, manifestou-se em surtos epidêmicos na Serra do Mar entre os trabalhadores da ferrovia São Paulo-Santos. Sua epidemiologia e sua história antecipavam a história da famigerada epidemia da Madeira-Mamoré, em Rondônia. Haveria entre elas, porém, uma feliz diferença: a de São Paulo era branda, não letal. Lutz a estuda clara e completamente. Descobre seus vetores (anofelinos, hoje do subgênero Kerteszia) e seu local de criação: os verticilos das bromélias sempre cheios de água.

Para desgosto de Lutz seu trabalho é contestado por entomologistas americanos em bases pouco consistentes.

Aliás, não foram poucas as vezes em que Lutz sentiu-se injustiçado. Em outra ocasião, distinguiu claramente as disenterias amebianas das disenterias bacterianas, indo além e descrevendo abscessos amebianos do fígado. De passagem pelos Estados Unidos, contou seus resultados a pesquisadores americanos que, mais tarde, descreveriam abscessos sem a menor menção a Lutz. Por sinal, Lutz foi citado internacionalmente muito menos do que merecia. Fosse hoje e um dos maiores cientistas brasileiros seria mal avaliado pelos cientometristas contemporâneos, preocupados menos com o conteúdo da pesquisa do que com os índices de impacto e citações.

Aborreciam também a Lutz as inúmeras críticas a seu trabalho, veiculadas na imprensa leiga de São Paulo e Rio. Lutz, que não gostava de publicidade, ficava autenticamente magoado com essas diatribes, muitas vezes de fundo político.

Penso que, aliado ao seu interesse real pela entomologia, esse dissabor crônico com as políticas públicas o levou, nas últimas décadas de sua vida, ao silêncio de seu laboratório em Manguinhos, para onde fora convidado por Oswaldo Cruz e onde conduziu a taxonomia dos dípteros brasileiros a níveis incomparáveis no cenário científico.

A publicação dos presentes volumes sobre Adolpho Lutz será um marco na historiografia científica brasileira por prover informações valiosíssimas antes dispersas e praticamente inacessíveis. A lista bibliográfica e os resumos comentados são absolutamente pertinentes e cuidadosamente arranjados. Tudo isso é acompanhado por Apresentações históricas de Jaime Benchimol e equipe com invejável solidez e propriedade.

Se eu tivesse à minha disposição essas publicações no início de minha carreira certamente teria atendido à sugestão de Leônidas Deane, além de ter sido mais fácil atender à recomendação de Samuel Pessoa. Agora cabe a mim recomendar a todos os cientistas tropicalistas e sanitaristas brasileiros, iniciantes e veteranos: leiam e vivenciem as Obras Completas de Adolpho Lutz.

Prof. Erney Felício Plessmann de Camargo

Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e

Tecnológico Instituto de Ciências Biomédicas/Universidade de São

Paulo