Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 12 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Ueber den methodischen Salolgebrauch bei Phthisis florida und bei gelbem Fieber

Sobre o uso metódico do salol no

combate à tísica florida e à febre

amarela*

 

Foram tantas as decepções no tocante à terapia da tuberculose nos últimos anos que é compreensível que um observador sensato tenha receio de apoiar novos métodos de tratamento. Por isso eu evitava relatar um método de tratamento da tuberculose aguda dos pulmões que emprego há dois anos, não obstante os resultados fossem melhores do que os obtidos com outros métodos. No entanto, como foram divulgados resultados semelhantes obtidos com tratamento similar (conforme li num jornal médico), achei melhor não retardar mais a divulgação provisória de meus resultados; aguardo um exame cuidadoso de outra parte, confiante de que seus sucessos venham confirmar a pertinência de meus dados.

A forma de tratamento por mim adotada consiste na aplicação

metódica e contínua de doses maiores de salol.1 A dose diária total era, na maioria dos casos, de seis gramas, eventualmente elevada para oito, sendo cada uma de 1,5 a 2 gramas. Recentemente, convenci-me de que uma dose de 4,5 gramas já pode produzir resultados semelhantes. Quanto à forma, o ideal é ministrar o pó em drágeas ou levemente socado em cápsulas, o que favorece sua ingestão, pois engolir uma grande quantidade de pó insolúvel não é agradável para certos doentes, apesar de outros não se incomodarem com isso. Também ministrei salol em tabletes comprimidos, que o paciente, entretanto, costuma mastigar um pouco primeiro.

Não contesto o fato de que parte dessas doses não seja absorvida; mas tampouco há dúvida de que uma parcela não insignificante atua em todos os casos, o que demonstra que esta parcela – coeteris paribus – é bem constante. A eliminação dos produtos de decomposição química na urina torna-se evidente não apenas pelo fato de esta se encontrar estéril, como pela reação do cloreto de ferro. Pude constatar a reação até oito dias após suspender a medicação num caso em que seu uso foi de longa duração. Não queremos contestar a possibilidade de que quantidades bem pequenas já sejam suficientes; entretanto, as condições são muito semelhantes às do tratamento da sífilis com mercúrio, indiscutivelmente eficaz. Aliás, parte do ácido salicílico também fica retida no organismo por bom tempo quando se usa o salicilato de sódio na mesma dosagem.

As doses que aqui indiquei, ministradas a muitos pacientes, alguns até mesmo em estado grave, não se mostraram preocupantes, desde que se tenha certo cuidado no início. Isto, naturalmente, supondo-se que não exista nenhuma contra-indi-cação importante como, por exemplo, uma forte nefrite. Em casos isolados ocorreram náusea, zunido nos ouvidos, mouquidão ou vertigem, mas estes sintomas nunca atingiram níveis mais elevados, e os exantemas provocados pelo medicamento são, na pior das hipóteses, raros. Interrompendo-se a ministração, é restabelecido o status quo ante. No mais, não observamos reação adversa em caso de uso contínuo por muitos meses. Pelo contrário, observou-se com freqüência notável melhoria da condição nutricional, em decorrência do desaparecimento da febre e do aumento do apetite; em compensação, o aumento do tecido adiposo pareceu ser também uma reação direta ou indireta ao medicamento.

Enquanto a maioria dos novos métodos de tratamento da tísica são recomendados principalmente nos casos iniciais e afebris, o efeito do salol é mais notável justamente na tísica florida, de maneira que parece estar destinado a preencher uma lacuna. A base de minhas pesquisas foram casos de tísica florida, já que, em meu antigo território de observação, quase todos apresentavam essa característica. Foi precisamente nesses casos que o efeito positivo do salol se revelou com muita nitidez.

Não pretendo relatar aos leitores uma série de histórias de doentes. Limito-me a divulgar os efeitos regularmente observados em cerca de vinte casos. Acredito estar seguro de minhas conclusões, uma vez que os dados imparciais sobre os efeitos do salol nos pacientes e as condições objetivas destes repetiram-se uniformemente. Baseado nisso, sintetizo da seguinte maneira o facit:

Quando são tratados metodicamente com salol os doentes nos quais a tuberculose pulmonar transcorre com febre alta e farta expectoração, não se observa, a princípio, nenhuma ação antipirética considerável. Mas a febre e a conseqüente sudoração noturna diminuem pouco a pouco até desaparecer por completo após algum tempo, que em geral varia de poucos dias a uma a duas semanas. Nestes casos, não há modificação notável na carga de bacilos, sempre abundante no esputo, mas a quantidade de esputo, antes tão farta, reduz-se de forma tão acentuada que todos os doentes o notam facilmente. Alguns têm até mesmo dificuldade de fornecer a quantidade mínima exigida para um exame. A tosse também diminui, mesmo que esse sintoma não seja tratado, o que eu, no começo, costumava fazer com pequenas doses de codeína

ou pó de Dover.2

Acredito poder concluir que o uso do salol reduz incontestavelmente a decomposição do tecido tuberculoso. Contudo, ainda tenho dúvida se isso é conseqüência de uma ação antituberculosa. De maneira geral, tive mais a impressão de que teriam sido influenciadas sobretudo as complicações antibacterianas [sic], e de que poderiam ser obtidos efeitos semelhantes em casos de influenza aguda, bronquite e doenças semelhantes. Não é certo que se possa evitar o aparecimento de leve hemoptise, mas não foram observados sangramentos fortes, mesmo em casos em que já haviam ocorrido antes. Em alguns casos muito graves, persistiram as manifestações circunscritas de pleurisia, o que parece indicar um lento progresso da infiltração tuberculosa, embora as manifestações de decomposição tenham sido quase nulas. A virulência dos bacilos contidos no esputo infelizmente ainda não pôde ser verificada. Não posso me furtar à impressão de que a verdadeira ação do medicamento seja converter uma infecção mista grave e de desenvolvimento rápido em uma tuberculose simples, de desenvolvimento mais lento.

Após uso prolongado, a ação do salol ainda pode ser constatada por longo tempo após a interrupção do tratamento e, em caso de recaída, este pode ser reiniciado. Mesmo em casos aparentemente irreversíveis, em que parecia iminente o desfecho fatal, a vida pôde ser prolongada por mais tempo, em um caso por bem mais de um ano.

Aproveito a oportunidade para mencionar que a utilização do salol no combate à febre amarela mostrou-se muito promissora em grande número de casos, quando ministrado de forma metódica desde o início, numa dosagem de até cerca de doze gramas. Em aproximadamente cinqüenta casos tratados dessa forma, a grande maioria abortou, fato que não raro se observa. Minhas primeiras experiências foram realizadas há quatro anos, durante a epidemia em Campinas, que apresentou caráter bem brando em grande número de casos, e os resultados foram, em média, favoráveis. Neste ano tive de lidar com casos de caráter maligno. Apesar disso, nenhum dos doentes tratados com salol veio a falecer, se bem que, por diversas vezes, chegaram a um segundo estágio bem definido, com sintomas assustadores. Ainda hesito em afirmar que a utilização do medicamento dê bons resultados em casos de desenvolvimento tempestuoso, ou em estágios já bastantes avançados, pois tive receio de utilizá-lo em caso de albuminúria iminente.

Apesar de estar consciente de que o número de casos observados das duas doenças citadas ainda não é suficiente para que seja emitido um parecer seguro sobre a eficácia desse tratamento, os resultados aqui apresentados parecem-me favoráveis o bastante para incentivar novas observações. O leitor há de concluir que a publicação deste trabalho não é de todo precipitada e acrítica, pois se baseia em observações realizadas ao longo de vários anos. Chamo, ainda, atenção para o fato de que o tratamento à base de salol se mostrou completamente ineficaz em alguns casos de tifo-malária, que transcorreram como de costume e sem abreviação, até, por fim, convalescerem espontaneamente.

 

* Este trabalho, realizado em São Paulo, à época em que Lutz era diretor ainda interino do Instituto Bacteriológico recém-fundado naquela capital, foi publicado com o título “Ueber den methodischen Salolgebrauch bei Phthisis florida und bei gelbem Fieber,” Fortschritte der Medicin (Berlin), v.11, n.23, dez. 1893, p.925-9. Progressos da Medicina é o título em português desse periódico quinzenal em que colaboravam “notórios especialistas”. Fundado pelo Dr. Carl Friedlãnder, era editado por dois nomes muitos respeitados da medicina alemã: o patologista Carl Joseph Eberth (1835-1926), que lecionava em Halle e que havia descoberto o bacilo causador da febre tifóide (atual Salmonella typhi); e O. Vierordt, professor de medicina da Universidade de Heidelberg. A empresa responsável pela publicação era a Editora da Livraria Fischer, especializada em medicina, com sede em Berlim (Charitéstrasse 6, esquina de Carlstrasse). [N.E.]

1 Salol [C H O ]: substância resultante da mistura de ácido 13 10 3

salicílico com fenol, empregada como analgésico, anti-reumático e antipirético. Era usado como antisséptico de uso externo em feridas crônicas (na forma de pó aromatizado), e no tratamento da gonorréia. Também denominado éster salicílico do fenol e salicilato de fenil.

2 Pó composto por ipecacuanha e ópio, batizado com o nome do médico inglês Thomas Dover (1660-1742). [N.E.]