Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 49 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Capítulo 1904

Figures had to be reduced for the present edition. [N.E.]

Sobre a pebrina e microsporídios

afins*

 

Complemento à primeira comunicação

Faremos a seguir a correção de alguns erros da primeira comunicação. Eles são conseqüência da impossibilidade de revisar pessoalmente as provas de autor.

Em seguida fornecemos desenhos em tamanho natural dos diversos hospedeiros de pebrinas, com indicação das cores complementares.

Desde o envio da primeira comunicação, encontramos uma nova pebrina: Nosema heliotidis na Heliotis armigera. A borboleta pertence aos noctuídeos e sua voraz lagarta é polífaga; por aqui ela é encontrada principalmente nas espigas de milho verde, mas também é conhecida como praga do algodão. Devora também, eventualmente, outras lagartas. A pebrina apresenta uma forma oval mais ou menos alongada (ver figura). Comprimento do esporo 2,5-5,5, largura 1,7-2μ.

Na Dione juno podem-se diferenciar duas espécies de Nosema:

1) Nosema junonis α. Formato cilíndrico-oval mais ou menos

distendido.

2) Nosema junonis β. Ovóide bastante regular (comprimento

3,5-4,5, largura 1,7-2 μ).

α e β ocorrem separadas ou no mesmo inseto, de acordo com o local de origem e captura das lagartas.

O bombicídeo desconhecido, cuja pebrina é parecida com a Nosema lophocampae, pertence ao gênero Halesidotis; a espécie não pôde ser determinada.

Temos ainda algumas espécies de Nosema para apresentar, as quais foram encontradas recentemente na fase imago de alguns pequenos bombicídeos. Embora ainda não bem estudadas, são aqui citadas por tratar-se de espécies bem caracterizadas em forma e tamanho.

13) (19) Nosema Caeculiae. Formas aparentemente idênticas,

encontradas em duas espécies diferentes de Caeculia. Esporo:

forma oval regularmente alongada, freqüentemente com

vacúolo, comprimento 5-6, largura 2-2,5μ.

14) (20) Nosema hydriae. Esta pebrina foi descoberta em

Petrópolis pelo Sr. Foetterle numa espécie de Hydria. Os

esporos apresentam uma forma cilíndrica oval distendida que

lembra bacilos, mas são nitidamente diferentes da N. vanillae.

O esporo parece freqüentemente estar um pouco achatado no

seu comprimento, de maneira que o corte equatorial, em vez de

redondo, é elíptico. Comprimento 4-5,5, largura 1-1,5μ.

15) (21) Nosema micrattaci, da Micrattacus nanus, bombicídio.

Esporo: forma cilíndrica oval regular. Comprimento 3,5-4,

largura 1,5-2μ.

Com isso, o número das espécies de Nosema por nós observadas sobe para, pelo menos, 21. Destas, 17 ocorrem em lepidópteros, o restante é distribuído entre ortópteros, aracnídeos e peixes.

Além disso, temos ainda a mencionar que conseguimos infectar a lagarta da Papilio pompejus Fabricius, com material da Dione juno, enquanto os animais de controle permaneceram indenes. Examinamos várias vezes essa lagarta sociável, freqüente sobre as espécies Citrus, encontrando-a sempre livre de pebrinas. Com isso, o número de espécies de lagartas infectadas através da alimentação sobe para quatro (incluindo o bicho-da-seda).

Recentemente tivemos a oportunidade de observar algumas formas, que deveriam estar colocadas, de acordo com a nomenclatura normal, nos gêneros Pleistophora e Thelohania. Elas possuem muitas analogias com as espécies descritas da Nosema, apresentando, no entanto, algumas diferenças, de modo que não podem ser simplesmente classificadas da mesma forma.

Trata-se de parasitas que foram encontrados em larvas de Simulium por um de nós (Lutz), durante o estudo de dípteros hematófagos. Essas larvas provêm de duas localidades diferentes, bastante distantes uma da outra; um grupo continha apenas o Simulium venustum Say e o outro apresentava, junto com essa espécie, um número bem maior de Simulium ochraceum Walker. Apesar de apenas um pequeno percentual das larvas estarem afetadas, a obtenção do material é fácil, pois os cistos dos parasitas são facilmente visíveis como acentuados tumores brancos no abdome das larvas. Estão localizados, aparentemente livres, junto ao corpo gorduroso entre o intestino e a parede abdominal do hospedeiro em forma de cistos arredondados, isolados ou agrupados, com uma fina membrana, na qual estão inseridos numerosos cistos secundários, de paredes igualmente finas. Estes encontram-se em diversos estágios de desenvolvimento; os mais diferenciados contêm esporos pálidos ou brilhantes. Seu número é determinado (oito) ou indeterminado, todavia um cisto primário (pansporoblasto) contém, a cada vez, uma só espécie de esporoblasto em cistos secundários. Estando presentes vários pansporoblastos, as duas categorias

podem estar representadas, em geral porém, os octósporos1 são muito mais raros.

Acreditávamos a princípio ter feito uma observação nova, mas logo vimos que, baseado em Labbé, “Sporozoa” (p.107), Léger descreveu um parasita semelhante à larva do Simulium ornatum, sob o nome Glugea (Nosema) varians. Infelizmente não conseguimos obter o artigo, nem mesmo com o autor, mas as informações diziam que Léger também encontrou esporoblastos de múltiplos esporos e octósporos em cistos primários destacados, e que considerou estes como análogos e não como espécies particulares. Estamos inclinados a admitir essa visão do meritório pesquisador de esporozoários; em seu favor, podem ser mencionadas diversas ocorrências semelhantes em outros esporozoários, que observamos em parte há mais tempo e em parte mais recentemente.

Se concordarmos com Léger, que esta mesma espécie pode formar esporoblastos de múltiplos esporos ou octósporos, devemos admitir a ocorrência de pelos menos duas espécies em nossas espécies de Simulium, que se distinguem visivelmente na forma Pleistophora. Ainda não sabemos se uma delas é idêntica à forma descrita por Léger. Ela se parece mais com a forma a, que encontramos juntamente com os octósporos, quando não aparece isolada.

Sem querer entrar em todos os detalhes, forneceremos a seguir uma curta descrição e algumas figuras esclarecedoras, nos abstendo de comentar as condições do desenvolvimento, a serem consideradas posteriormente.

Forma α. Os esporos brilhantes são bastante diversos em forma e tamanho. Variam entre uma forma oval, curta, quase redonda, uma forma ovocilíndrica mais distendida e uma mais curta, onde o pólo dianteiro é mais pontudo e o traseiro mais arredondado. Eles contêm, na maioria, um vacúolo de tamanho variável, no qual não raramente pode ser encontrado encerrado um corpúsculo redondo. Ao lado surgem outras formas salientes, cujo conteúdo todo é claro e em cuja casca, no pólo pontiagudo, apresenta-se uma micrópila nítida. Desta, num desenvolvimento suficientemente avançado, pode ser ejetado um filamento polar pontiagudo, bastante longo e razoavelmente espesso. (Apesar de muitas tentativas, não foi possível encontrar um reagente específico para expulsão do filamento polar.) O envoltório externo pode se abrir em duas metades.

Freqüentemente surgem formas monstruosas, cujos volumes correspondem ao de dois ou mais esporos normais. Essas formas podem conter vacúolos ou serem bem claras, mas não foram observados nem filamentos polares, nem micrópilas.

Alguns pansporoblastos não permitem mais o reconhecimento de nenhum esporoblasto, mas apenas um aglomerado de esporos brilhantes, similares na forma aos descritos, mas consideravelmente diferentes em tamanho. As dimensões dos esporos são as seguintes: comprimento 5,5-8,5, largura 4,5-5,5μ; comprimento do filamento polar, até 120μ.

Forma b. Esta é bem mais estreita, mas quase do mesmo comprimento. Sua forma é mais regular, ovóide ou ovocilíndrica. A ocorrência de um vacúolo também foi observada. Aqui também se encontra um filamento polar nítido, que, porém, é mais curto e mais fino. Após a expulsão a casca se abre em duas metades. Comprimento dos esporos: 4,5-5,5, largura 2,5-3,5μ; comprimento do filamento polar 50μ.

Os octósporos foram encontrados isolados ou juntamente com a forma a; suas características morfológicas eram sempre as mesmas, de modo que não foi possível a distinção de uma segunda espécie. Trata-se de uma forma oval regular, na qual as calotas polares são notadamente planas e pouco abauladas. Comprimento dos esporos: 3,5, largura 2,5μ; comprimento do filamento polar 35μ.

O tamanho dos pansporoblastos das duas espécies não é constante. Os esporoblastos e esporos individuais estão sempre muito próximos entre si e os espaços intermediários são preenchidos por um meio transparente e sem estrutura.

Fig. 13 Nosema junonis. Esporos.

Fig. 14 Nosema armigerae. Esporos.

Fig. 15 Nosema halesidotidis. Esporos.

Fig. 16 Nosema caeculiae. Esporos.

Fig. 17-19 Parasitas de larvas de Simulium:

17 – Esporos da forma a;

18 – da forma b (formas de Pleistophora);

19 – Octósporos.

Fig. 20 Octósporos.

Fig. 21 Cisto de octósporos de lagartas e pupas de Sericaris mori.

Fig. 22 Cisto de Pleistophora de larva de Simulium, forma a.

Fig. 23 Idem, forma b.

Fig. 24 Cistos de octósporos de larva de Simulium.

Fig. 25 Esporos de Pleistophora da forma a com filamento polar

expelido.

Fig. 26 Nosema hydriae. Esporos.

Fig. 27 Nosema micrattaci. Esporos.

Fig. 28 Idem, forma b com filamento polar expelido e deiscência dos

envoltórios.

A ampliação para as figuras dos esporos é de 1.250 vezes, como nas ilustrações anteriores; para as figuras dos cistos, 500 diâmetros.

Os cistos foram encontrados até agora apenas em larvas, nunca na imago ou na pupa.

Junto com essas observações constatamos um fato importante, a existência de uma forma Thelohania, de cistos octósporos ou esporoblastos, em lagartas e pupas da espécie Sericaria mori, que foram infectadas com diversas espécies de Nosema. A primeira observação foi feita pelo Dr. Splendore, no exame de lagartas do bicho-da-seda que continham Nosema lophocamoae. Destas, muitas experimentaram uma metamorfose patológica, na qual

passaram a produzir tecidos2 incompletos ou até nenhum (paralelamente foram observados casulos normais). Posteriormente, foram também encontradas em lagartas e pupas do bicho-da-seda, que estavam infectadas com Nosema junonis e Bombycis, mas não nos animais de controle não infectados. As lagartas e pupas infectadas continham a forma comum, de esporos múltiplos em distribuição normal e com as respectivas características, enquanto os octósporos apresentavam uma localização especial. Estes encontravam-se em primeiro lugar na pele, em segundo lugar nas fibras musculares subcutâneas e nos corpos gordurosos, com exceção das fibras musculares e epitélios do canal intestinal e dos tubos de Malpighi, bem como dos órgãos sexuais e sericígenos. (Isso explica por que passaram despercebidas até agora.) Também não as encontramos até agora em lagartas novas.

Em todos os esporos agrupados em oito a forma era mais regular, de maneira que, mesmo com a presença da pebrina, não se diferenciavam entre si. Eles possuem formato oval regular com as seguintes dimensões: comprimento 3,5, largura 2μ. Os esporoblastos octósporos formam grupos, sem que se possa comprovar com clareza [a existência] de pansporoblastos císticos, como é o caso nas larvas de Simulium. Observa-se também aqui a existência de formas monstruosas, que correspondem a um número mínimo de esporos.

Um novo exame do material da Periplaneta americana mostrou que, entre os cistos multiesporos, existem alguns octósporos; mas nestes as formas dos esporos não se diferenciam das dos cistos multiesporos.

Como regra geral pode-se dizer que, onde os cistos multiesporos ocorrem junto com octósporos, os últimos são cada vez menos numerosos. Também não pudemos, até agora, observar nenhuma espécie animal na qual, depois da exclusão de todas as formas multiesporos, pudessem ser encontrados apenas cistos

octósporos. 3

 

Explicação das ilustrações 4

I – Hospedeiros naturais Fig. 1. Dione vanillae, Nymphalidae. Vermelho-amarelado com desenhos negros e uma área colorida mais clara nas asas dianteiras.

Fig. 2. Dione juno Cram. a) Lagarta cor marrom-chocolate claro, com pontos escuros e espinhos pretos; b) Pupa cor marrom-chocolate claro; c) Imago vermelho-laranja, com desenho preto. Na parte inferior, manchas pérola brilhantes, idêntico a Dione vanillae.

Fig. 3. Brassolis astyra Godt., Brassolidae. a) Lagarta de cor escura, com longas listras claras, cabeça e pés vermelho-escuro; b) Pupa amarelo-limão ou amarelo-avermelhado, com manchas marrom-escuro; c) Imago, exemplar bem grande, preto-aveludado, com cintilação vermelho-escura e manchas preto-amarelo-alaranjadas.

Fig. 4. Danais erippus Cram. Danaidae. a) Lagarta amarelo-claro, com listras transversais pretas; b) Pupa verde-mar, com pontos dourados brilhantes; c) Imago ?, laranja-amarronzado, com manchas brancas e pretas.

Fig. 5. Danais gilippus Cram. Imago ?, cores idênticas à 4c.

Fig. 6. Eueis isabella. Imago: base preto-aveludada, desenho amarelo-limão e laranja. (A borboleta, classificada como Mechanites lysimnia, foi descrita por um especialista como a espécie acima, de cor e desenho bastante semelhante. Assim, a consideramos Nosema isabellae, em vez de Nosema lysimniae.) a) Lagarta; b) Pupa; c) Imago.

Fig. 7. Catopsilia eubule Cram. Pieridae. Amarelo-enxofre, com manchas marrons e avermelhadas.

Fig. 8. Lophocampa flavosticta. Bombycidae. a) Lagarta marrom-esverdeado, com parte inferior mais clara e pêlos pretos; b) Pupa marrom-escuro; c) Imago claro, cor café-com-leite, com desenho escuro e alguns pontos amarelo-forte.

Fig. 9. Bombyx (sericaria E. Blanch) mori L. conhecida. Fig.10. Periplaneta americana. Blattidae. Amarelo-marrom até marrom-chocolate.

Fig. 11. Girardinus caudimaculatus Hens. Cyprinodontidae. Cores prateadas, listra transversal preta próxima à extremidade traseira na linha lateral. Pontos negros freqüentemente encontrados são depósitos de pigmentos patológicos de pebrina ou cistos trematódeos.

II – Animais de experimentação

Fig. 12. Pieris monuste L. a) Lagarta lilás, com listras amarelas ao comprido, pontos pretos e pêlos brancos. b) Pupa cor marfim, com desenho escuro. c) Imago ♂, desenho preto sobre base branca pura; d) ♀ a base é branco-amarelado.

Fig. 13. Attacus aurota Cram ♂. Área intermediária das asas amarelo-amarronzado, com quatro manchas transparentes. Os desenhos restantes mostram nuanças diversas de marrom-escuro, cor de carne acinzentada e branca.

III – Hospedeiros Naturais

Fig. 14. Heliotis armigera. Noctuidae. a) Lagarta cor oliva clara e escura; b) Imago amarelo-cinzento, com desenhos escuros.

Fig. 15. Halesidota sp.

Fig. 16. Caeculia sp. I. Imago marrom-amarelado, com desenhos escuros.

Fig. 17. Caeculia sp. II. Imago amarelo-amarronzado, com desenhos claros.

Fig. 18. Hydria sp. Imago cinza, com desenhos marrom-escuros.

Fig. 19. Micrattacus nanus. Imago preto-cinzento, com desenhos pretos.

Fig. 20. Larva de Simulium sp. com cistos no abdome. Coloração geral oliva; cor dos cistos marfim. Ampliação seis vezes.

IV – Animais de experimentação

Fig. 21. Papilio pompejus Fabricius. Imago preto aveludado com partes translúcidas e manchas vermelhas cintilantes nas asas traseiras.

* Trabalho de Adolpho Lutz e Alfonso Splendore publicado em 1904, com o título “Ueber Pebrine und verwandte Mikrosporidien,” CentralBlatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten (Jena), v.36, n.5, p.645-50, com 2 pranchas e 1 figura no texto. Trata-se de um complemento à primeira comunicação dos dois autores, que veio a lume em 1902, no mesmo periódico, com o título “Üeber Pebrine und verwandte Mikrosporiden. Ein Beitrag zur Kenntnis der brasilianischen Sporozoeen” (v.33, n.2, p.150-7, 1 ilust.). Essa comunicação também é reeditada no presente volume sob o título “Sobre a pebrina e microsporídios afins. Uma contribuição ao conhecimento dos esporozoários brasileiros”. Na de 1904, encontra-se a seguinte Nota da Redação do periódico de Jena: “Infelizmente, por um descuido, a publicação saiu muito atrasada”.

1 Octósporo é o nome que se dá a cada um dos oito esporos produzidos no mesmo esporângio de certas algas. [N.E.]

2 “Gespinste” pode designar teia, trama ou tecido. Trata-se, aqui, dos tecidos formados pelos filamentos seríceos (seda) que dão origem aos casulos. [N.E.]

3 No texto original, deste ponto em diante, Lutz enumera as correções que teriam de ser feitas na primeira comunicação, devidas a falhas de revisão e impressão. Optamos por incorporá-las diretamente ao artigo de 1902. [N.E.]

4 No original, as figuras estavam em tamanho natural, com exceção da fig. 20. [N.E.].