Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Malária
1899
Detalhe de anúncio de quinino, medicamento para tratar
malária, da British Java Cinchona Growers, no periódico
Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and
Hygiene, May 1952, v.46, n.3.
Detail from an advertisement for quinine, a medicine used in
treating malaria; published by British Java Cinchona Growers in
the periodical Transactions of the Royal Society of Tropical
Medicine and Hygiene, May 1952, v.46, n.3.
Instruções sobre a profilaxia do
impaludismo *
Está demonstrado, de modo indiscutível, que o impaludismo é transmitido ao homem só por intermédio de certos mosquitos (anofelinos), vulgarmente conhecidos pelo nome de mosquitos-prego. Para essa transmissão é necessário que o mosquito esteja infeccionado, isto é, tenha sugado o sangue de um doente dessa moléstia.
Para que haja, pois, malária em uma localidade, é necessário que coexistam os dois elementos: anofelinos e indivíduo malárico. Portanto, a profilaxia, para ser eficaz e completa, deve ser feita em dois sentidos: profilaxia contra o mosquito, vetor e propagador do hematozoário, e a profilaxia terapêutica ou específica que combate o parasita no corpo do homem.
Profilaxia Culicífuga
A profilaxia culicífuga tem por fim defender o homem contra a picada do mosquito. Esse resultado se obtém: 1° pela destruição dos mosquitos (método ofensivo); 2° pela proteção contra a picada dos mosquitos (método defensivo).
Método ofensivo – Este método se propõe à remoção das condições locais que facilitam a pululação dos anofelinos e à destruição destes, tanto no estado larval, como adulto.
Os anofelinos, transmissores de malária, com uma exceção, são espécies palustres, e se criam em brejos e lugares inundados, principalmente em conseqüência das enchentes periódicas dos rios. A estagnação das águas é devida, principalmente, à falta de drenagem. O remédio que se impõe é a correção dos pequenos rios e a drenagem sistemática de todos os lugares onde houver estagnação de águas. Esses trabalhos devem ser precedidos de roçagem, a fim de pôr em evidência a extensão dessas águas, geralmente cobertas por vegetação.
Convém notar que há uma espécie de mosquito transmissor que se cria em bromélias epífitas, vulgarmente chamadas caraguatás; onde se verifica a presença desses epífitos em maior número, convém fazer uma descampação que geralmente tem uma influência favorável por ajudar também no dessecamento do solo e por afugentar os mosquitos, que carecem de sombra e umidade. Estas medidas gerais dão os melhores resultados, diminuindo extraordinariamente a superfície das águas estagnadas em que os mosquitos palustres se desenvolvem.
Coleções menores de água, que não podem ser drenadas, devem ser tratadas de dois modos. Quando a água não é utilizada, o meio mais prático de destruir as larvas é a aplicação de substâncias oleaginosas, que se espalham na superfície da água matando as larvas, assim como as ninfas.
A substância de escolha é o petróleo, na proporção de 10 a 20cm3 por metro quadrado de superfície. Basta petrolear a cada oito ou quinze dias, para se obter um resultado perfeito. O modo de se aplicar o petróleo é projetar o líquido por cima da água por meio de bombas, ou fazê-lo por meio de pedaços de pano impregnados dessa substância e amarrados em varas mais ou menos compridas, conforme a superfície for maior ou menor.
Em outras condições, pode-se combater as larvas pela introdução na água de pequenos peixes (guarus, barrigudos etc.), que acabam com as larvas se estas não tiverem lugar onde se possam esconder.
Para destruir os mosquitos em estado adulto em um espaço fechado, o melhor processo consiste no emprego das fumigações, sendo para esse fim empregados o enxofre e o pó de píretro. As fumigações de gás sulfuroso têm uma ação rápida e certa. As de pó de píretro exigem, para serem eficazes, uma certa intensidade, e tornam, bem como as de enxofre, momentaneamente inabitáveis os lugares nos quais se as praticam.
O mesmo se dá com as fumigações de fumo, contanto que sejam intensas. Os outros meios empregados – ventiladores, essências, pomadas etc. -, não têm senão um valor muito pequeno, e mesmo esse momentâneo.
As pulverizações de pó de píretro têm também uma ação culicífuga manifesta.
Método defensivo – Consiste na proteção contra as picadas dos mosquitos pelos meios mecânicos. É individual ou coletiva. Os mosquitos procuram sugar o sangue principalmente à noite, portanto é fácil estabelecer-se uma proteção eficaz desde que o sol entra. Para isso, procura-se subtrair à picada dos mosquitos todas as partes descobertas do corpo: a face, o pescoço, as mãos, os tornozelos e os pés, empregando para esse fim um véu de gaze, que cobre inteiramente a face e o pescoço, e luvas espessas de algodão, que protegem completamente as mãos e os punhos. Os pés e os tornozelos podem ser garantidos pelas botinas.
A proteção mecânica individual é completada pelo uso do mosquiteiro, que deve cobrir completamente o leito, devendo os seus bordos livres ter comprimento bastante para chegar ao chão, de modo a não deixar passagem alguma aos mosquitos.
O uso dos mosquiteiros é especialmente necessário para proteger os indivíduos já infectados, quando estes não podem ser removidos para lugares livres de mosquitos.
A proteção coletiva é constituída pela extensão das medidas citadas aos grupos de indivíduos.
Sendo o fim que temos em vista opor, por todos os meios, a penetração dos mosquitos nas casas, deve-se proteger todas as aberturas destas – portas, janelas, chaminés etc. -, aplicando exatamente telas de pano ou de metal, de malhas bem finas. Em geral, a dimensão das malhas não deverá ser inferior a um milímetro, nem superior a dois, para que a tela possa preencher o seu duplo fim, que consiste em impedir a entrada dos mosquitos e permitir um arejamento suficiente.
Convém usar de portas duplas, que não podem ser abertas simultaneamente. Desse modo consegue-se proteger hospitais e dormitórios coletivos, mesmo sem o uso de mosquiteiros individuais.
Não se deve esquecer que a proteção será aplicada tanto aos indivíduos sãos como aos doentes. É bom lembrar que nas zonas palustres as crianças são infeccionadas em uma proporção muito grande, e muitas vezes sem sintomas bem evidentes ou manifestos.
Profilaxia Específica
A profilaxia específica ou terapêutica, do mesmo modo que a proteção mecânica, pode ser dirigida aos indivíduos sãos e aos impaludados, tornando-se, deste modo, preventiva ou curativa.
O específico incontestável da malária é o quinino, cujos sais têm uma ação tóxica manifesta sobre os parasitas do impaludismo.
O tratamento preventivo de todos os indivíduos impõe-se:
1 o) quando já reina o impaludismo de forma endêmica ou
epidêmica, sendo impossível remover todos os indivíduos
infectados, e sendo já geral a infecção dos mosquitos.
2 o) quando, por qualquer razão, os outros meios profiláticos são
impraticáveis ou não dão garantias suficientes.
Em todos os casos, a profilaxia por meio do quinino deve ser empregada por todas as pessoas já infectadas, que só podem ser consideradas curadas quando o exame microscópico do sangue provar a ausência de infecção crônica.
Sempre que for possível, o tratamento dos doentes deve ser feito por médicos competentes, e só na falta destes, por leigos bastante instruídos.
A remoção dos indivíduos doentes para lugares livres de impaludismo recomenda-se sempre que for possível, e principalmente na ocasião de trabalhos de engenharia em zonas perigosas. Tratando-se desses trabalhos, é de maior importância não introduzir, entre os trabalhadores, indivíduos já infectados e capazes de infectar os outros por intermédio dos mosquitos. Para esse fim recomenda-se o exame sistemático de todos os trabalhadores antes de empregá-los, ou de fazer depender o seu emprego de um certificado recente, atestando que não sofrem de impaludismo agudo ou crônico. Esta medida é considerada da maior importância.
A aplicação de doses fracas diárias de quinino com fim profilático não se recomenda. Convém empregar sempre doses, das quais se pode esperar um efeito curativo, quando já houver infecção, embora não manifesta. Deve-se considerar como dose mínima 50 centigramas de cloridrato, ou uma dose correspondente de outros sais. Essa administração pode ser diária, quando se tratar de focos muito intensos; em outros casos, pode ser feita uma ou duas vezes por semana, podendo-se elevar a dose até 1g para cada adulto.
Para as crianças dão-se doses proporcionais à idade e ao peso do corpo.
Dos sais de quinino, os cloridratos são os mais comumente empregados, por causa de sua grande solubilidade, de sua digestibilidade, e de conterem maior soma de alcalóides (81%). Qualquer que seja o sal adotado, o modo de administração sob a forma de cápsulas gelatinosas ou amiláceas deverá ser preferido a todos os outros, porque as soluções são desagradáveis ao gosto e fatigam o estômago; e as pílulas, a não ser frescas, recomendam-se menos.
Convém sempre evitar o mais possível tudo o que possa ser repugnante ou provocar oposição por parte dos indivíduos tratados, cuja boa vontade e cooperação é do maior valor.
Nos lugares onde existem os anofelinos, os indivíduos impaludados constituem um grande perigo; raras vezes se conseguirá isolá-los de tal forma que se tornem inofensivos, por isso convém tratá-los energicamente, tanto no interesse deles como no das pessoas ainda indenes.
É necessário evitar, por todos os meios, uma recaída, prolongando o tratamento durante algumas semanas, dando, pelo menos, uma dose curativa semanal.
Em resumo, os principais meios de profilaxia antimalárica são os seguintes:
1) Roçagem e drenagem do solo, e descampamento da região
vizinha dos criadouros de mosquitos.
2) As águas estagnadas, que não se podem esgotar, devem ser
tratadas por petrolização, na proporção de 10 a 20 cc. por
metro quadrado. Recomenda-se, também, a introdução de
peixes pequenos em reservatórios de água, que não se podem
petrolizar.
3) Proteger as casas por meio de telas de arame ou as camas
por meio de mosquiteiros. Além disso, convém não colocar as
habitações em zonas perigosas e já conhecidas por
experiências de anos anteriores.
4) Evitar freqüentar as zonas perigosas durante a noite e nas
horas crepusculares, e recolher-se às casas protegidas sempre
que for possível.
5) Tratar os doentes de impaludismo, agudo ou crônico, por
meio de doses apropriadas de quinino.
6) Evitar a introdução de novos doentes, e facilitar a remoção
das pessoas já infectadas para zonas indenes.
7) Em focos intensos, e quando os outros meios profiláticos não
podem ser estritamente aplicados, convém o tratamento
profilático das pessoas não infectadas, como foi aqui exposto.
* Documento datilografado (sete páginas), sem data. A autoria é atribuída a Adolpho Lutz por sua filha Bertha Lutz, que, não obstante, indaga, em anotação manuscrita a lápis: “De onde? Publicado?”. BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 23, pasta 85, maço 5. Não encontramos essas instruções nos relatórios que Lutz escreveu à época em que chefiava o Instituto Bacteriológico de São Paulo. Tudo indica que se trata de trabalho independente que permaneceu inédito. Foi elaborado a partir de 1899, ano em que Giovanni Grassi, Amico Bignami e Giuseppe Bastinelli revelaram o ciclo do parasita da malária humana em mosquitos do gênero Anopheles. [N.E.]