Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 15 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Relatório apresentado pelo Dr. Adolpho Lutz, Diretor do Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, acerca de sua comissão em Montevidéu por ocasião da conferência do Dr. Sanarelli, relativa à descoberta do micróbio da febre amarela

Relatório apresentado pelo Dr.

 

Adolpho Lutz, Diretor do Instituto

Bacteriológico do Estado de São

Paulo, acerca de sua comissão em

Montevidéu por ocasião da

conferência do Dr. Sanarelli, relativa à

descoberta do micróbio da febre

amarela*

 

Ilustre cidadão Dr. Diretor do Serviço Sanitário

Tendo sido nomeado pelo governo para assistir à conferência do professor Sanarelli em Montevidéu, para lá segui em companhia do ajudante Dr. Arthur de Mendonça. Depois de ter assistido a esse ato e, em freqüentes visitas ao Laboratório de Higiene, ter colhido as informações necessárias a respeito das descobertas anunciadas, cabe-me agora apresentar um relatório sobre esse assunto. Talvez fosse preferível adiar esta discussão até aparecer a memória detalhada que deve ser publicada nos Annales de l'Institut Pasteur, porque agora só possuímos, como único documento, a conferência feita por Sanarelli no Teatro Solis, que é apenas um relatório sumário determinado para um público misto de profissionais e leigos.

Para não demorarmos demais a apresentação de nosso relatório, fazemos abstração de confirmar todos os dados da conferência pela nossa observação própria. Tratamos de dar apenas uma orientação provisória e voltaremos à discussão destes assuntos na ocasião do próximo relatório dos trabalhos do Instituto.

Quanto aos fatos apresentados pelo professor Sanarelli, os que não tivemos ocasião de conferir nos foram confirmados por pessoas que foram testemunhas oculares. As suas exposições não têm nada que provoque a crítica, não podem ser negadas senão sobre a base de outras observações e, na falta destas, devem ser aceitas pela garantia de seu autor. A habilidade e a competência dele são provadas pelos seus trabalhos anteriores, e tivemos ampla ocasião de verificá-las pessoalmente. Basearemos as nossas considerações não somente sobre a conferência pública, mas também sobre as informações particulares que recebemos em resposta às nossas perguntas.

O problema que o professor Sanarelli pretende ter resolvido é a verificação do organismo causador da febre amarela; diz também ter reproduzido no homem a sintomatologia da febre amarela por meio de injeções de culturas filtradas, e descreve os processos patológicos, produzidos em várias espécies de animais, tanto por culturas inteiras como pelo líquido dessas culturas depois de serem filtradas ou esterilizadas. Ao contrário do que foi dito pela imprensa, declarou categoricamente que nunca teve a pretensão de ter resolvido o problema da soroterapia da febre amarela; acrescentou, mais, que pelos estudos que fez nesse sentido, reconhece que o problema apresentava grandes dificuldades.

Antes de falarmos sobre o micróbio descrito pelo Dr. Sanarelli, convém resumir o estado em que se achavam os nossos conhecimentos sobre a bacteriologia da febre amarela antes das investigações do Dr. Sanarelli. É geralmente conhecido que a etiologia da febre amarela já serviu de assunto para muitas investigações. Deixamos de entrar em discussão sobre certos trabalhos feitos com métodos defeituosos e sem os conhecimentos considerados indispensáveis para trabalhos desta natureza. Limitamo-nos a constatar que os pretendidos resultados positivos, alegados nesses trabalhos, não foram verificados por outros investigadores. Basta citar que, nessa época, não se encontrava nos laboratórios de bacteriologia um germe bem definido e caracterizado, tanto por suas culturas como pela sua ação, que fosse reconhecido como produtor da febre amarela, quando muitos germes patogênicos, descobertos muito depois, já estão geralmente conhecidos e acham-se nas mãos da maior parte dos bacteriologistas.

Um outro fato significativo é que vários investigadores, reconhecidos como conscienciosos e peritos em assuntos bacteriológicos, não conseguiram encontrar ou isolar um micróbio que se pudesse julgar o causador da febre amarela. Em nosso Instituto foram feitos estudos numerosos e minuciosos cujos resultados se acham consignados nos respectivos relatórios.

Examinei pelo microscópio os órgãos de muitos doentes, falecidos de febre amarela bem caracterizada, e, geralmente, não encontrei germe algum, tanto no parênquima como nos vasos de sangue das vísceras. O mesmo se dá com o sangue, tirado durante a vida.

Os poucos resultados positivos explicaram-se perfeitamente pela possibilidade da invasão de germes de infecção secundária ou pelo princípio de decomposição cadavérica. É muito mais fácil de verificar a presença de esquizomiceto nos órgãos empregando o método de culturas; e é um fato verificado, conquanto não seja perfeitamente elucidado, que, freqüentemente, pelo exame microscópico, não conseguimos demonstrar a presença de micróbios, onde, pela cultura e pela inoculação em animais, pode ser verificada com a maior facilidade.

Acontece isso, por exemplo, em muitos casos de febre tifóide, mormo e tuberculose. As culturas, feitas independentemente pelo pessoal do nosso laboratório em muitas autópsias de febre amarela, revelaram formas correspondentes às espécies conhecidas como produtoras de infecções secundárias em outras moléstias (como, por exemplo, a febre tifóide), principalmente micróbios parecidos ou idênticos ao Bacillus coli communis e os cocos piogênicos. Também foram encontradas espécies não mencionadas ou mal caracterizadas nos manuais de bacteriologia, mas não era possível atribuir-lhes um papel etiológico, dadas a sua raridade e a falta de qualquer ação típica.

Esses resultados levaram-nos, por exclusão, a procurar o germe no tubo gastrintestinal, e perdemos muito tempo no trabalho ingrato de examinar os micróbios, na maior parte mal conhecidos, que lá encontramos. Não conseguimos isolar um germe específico e, finalmente, chegamos à conclusão de que, se a febre amarela era causada por um esquizomiceto, este devia estar ocultado pela dificuldade em distingui-lo dos outros germes freqüentes e banais.

Vejamos agora se as observações feitas pelo Dr. Sanarelli podem conciliar-se com as nossas ou se estão em contradição franca.

O Dr. Sanarelli, nos seus estudos, confirma completamente a freqüência da infecção secundária já mencionada por nós. Chega até a atribuir-lhe um papel mais importante, na grande mortalidade dessa moléstia, do que nos parece justificado pelas observações anatômicas e clínicas.

O germe que o Dr. Sanarelli conseguiu isolar foi obtido do sangue dos órgãos dos doentes, que nos deu um resultado negativo.

Há aqui uma divergência que, entretanto, é explicada pelas observações seguintes:

1° Este germe é tão difícil de encontrar que, mesmo depois de

descoberto e conhecido, só foi possível isolá-lo na metade dos

casos examinados.

2° A forma do bacilo Sanarelli é banal. Estudamos

cuidadosamente as preparações originais apresentadas por ele

e julgamos que não se diferenciam pela sua forma dos bacilos

do tifo abdominal e coli comum.

3° Este bacilo em condições ordinárias não produz colônias em

placas de gelatina nutritiva e, por isso, muitos trabalhos feitos

com este meio de cultura (geralmente considerado o melhor

para diferenciar as espécies) eram predestinados a ficar sem

resultado.

4° As culturas em ágar, feitas conforme as regras usuais, não

apresentam caráter especial e confundem-se facilmente com

variedades do Bacillus coli communis.

5° A presença de outros bactérios impede mais ou menos

completamente o desenvolvimento do bacilo de Sanarelli. Este

fato constitui mais um obstáculo e serve para explicar os

resultados negativos dos estudos anteriores. Levando em conta

todos esses fatos, compreende-se facilmente como este germe

podia passar despercebido até há pouco; entendem-se

perfeitamente as dificuldades extraordinárias do problema da

verificação do germe causador da febre amarela. O próprio

autor considera um caso muito feliz tê-lo encontrado em cultura

quase pura no segundo dos casos observados por ele. Julga

que, ainda hoje, o isolamento desse germe continua a ser difícil

e, em certos casos, até impossível.

Ainda não tivemos ocasião de procurar ou verificar a presença desse germe em casos de febre amarela.

Apenas verificamos que o cadáver de uma cobaia, morta em conseqüência de uma inoculação feita por Sanarelli com uma cultura do seu bacilo, forneceu cultura em ágar que mostrou as particularidades que mais adiante descrevemos. O micróbio de Sanarelli, apesar de sua semelhança com outras espécies, pode ser hoje reconhecido por alguns caracteres das suas culturas. O descobrimento desses caracteres deveu-se ao acaso, mas reconhece-se o gênio observador pelo modo de aproveitá-los sistematicamente para fornecer o meio diagnóstico.

A primeira característica, mais importante porque se percebe mais depressa, é a forma que tomam as colônias nas culturas de ágar crescendo na temperatura do quarto depois de ter estado na estufa (a temperatura do sangue) durante um certo número de horas. Essa colônia assemelha-se, pela sua forma, a um selo de lacre, e até hoje essa característica não foi observada nas colônias de outros micróbios.

Uma outra característica importante, e não observada até hoje em outra espécie de bacilo, é a de, freqüentemente, não se desenvolver na gelatina senão quando nesta cresce um bolor qualquer.

Então aparecem as colônias do bacilo em uma zona estreita em redor das culturas desses bolores, as quais, evidentemente, modificam o meio nutritivo de modo a favorecer o desenvolvimento do bacilo de Sanarelli.

Esta característica, talvez mais importante ainda, não pode ter o mesmo uso prático, porque é preciso mais tempo para verificá-la.

Se o fato de ter encontrado um bacilo ainda desconhecido nos órgãos de um certo número de doentes ou vítimas de febre amarela já por si era muito notável, ainda faltava verificar a sua ação patogênica antes de poder considerá-lo como causador da febre amarela.

A raridade relativa do bacilo parecia em contradição com os sintomas graves e a natureza epidêmica desta moléstia, onde se esperava antes a existência de um germe de cultivo fácil e encontrado em grande número no organismo dos doentes, como acontece no cólera e na peste. De outro lado, nessa suposição era difícil compreender a dificuldade de transmissão direta da febre amarela e o resultado negativo dos trabalhos anteriores.

A febre amarela tem sido considerada, já há muito tempo, como tipo de uma moléstia de intoxicação, e os fenômenos produzidos por um número tão diminuto de germes só podem explicar-se pela formação de substâncias excessivamente tóxicas, como se dá no tétano.

Por isso podia-se esperar que os animais (refratários a uma infecção espontânea, como se tem verificado em todas as epidemias) devem apresentar fenômenos de intoxicação mais ou menos característicos quando inoculados com uma grande dose de bactérios ou líquidos de culturas.

Experimentando com o seu bacilo em várias espécies de mamíferos, Sanarelli conseguiu produzir processos mórbidos, típicos para cada espécie, mas diferentes de uma para outra. Esses processos reproduzem, em vários animais, parte dos fenômenos observados no homem acometido de febre amarela. Assistimos a um certo número dessas experiências e vimos peças anatômicas provenientes de outras; tivemos, assim, ocasião de verificar, em vários pontos, a exatidão das descrições de Sanarelli, e, como os outros fatos foram presenciados por pessoas competentes, podem ser considerados como estabelecidos.

Essas experiências caracterizam o bacilo de Sanarelli como uma espécie patogênica nova e apresentando grande interesse.

Levando em conta as circunstâncias em que foi encontrado, crescia a probabilidade de que representasse o agente causador da febre amarela. Entretanto, as provas não eram ainda completamente suficientes para afastar qualquer dúvida. Mas essas dúvidas não podem continuar diante das provas fornecidas pelas cinco experiências feitas no próprio homem. Não podemos falar de observação pessoal, mas os médicos que tiveram ocasião de observá-las reconheceram os sintomas típicos da febre amarela. As curvas de temperatura provenientes desses casos certamente correspondem completamente às da febre amarela espontânea. De mais, em Montevidéu não se tem levantado uma só voz para contestar essas experiências, que foram julgadas absolutamente comprovantes e decisivas.

À vista dos fatos expostos, é incompreensível que se acusasse Sanarelli de ter apenas produzido uma septicemia, e esta insinuação só poderá iludir um público completamente ignorante em medicina e bacteriologia.

Se os estudos minuciosos e aprofundados de Sanarelli conseguiram estabelecer o germe da febre amarela, até hoje não conduziram ainda a resultado prático. Todavia, é de esperar que a concentração dos estudos sobre estes assuntos fornecerá meios mais fáceis de isolação, processos de culturas mais aperfeiçoados e que, assim se chegará a verificar o bacilo nos focos de infecção, onde ainda não foi procurado. Então haverá meios de decidir certas questões epidemiológicas cuja discussão tem sido tanto mais intensa quanto menos baseada em dados seguros.

Talvez seja cedo para tirar conclusões relativas à aplicação do isolamento e da desinfecção na febre amarela; assim mesmo ousamos indicar alguns pontos que parecem resultar dos trabalhos de Sanarelli:

A destruição do bacilo por meios químicos e pelo calor não apresenta dificuldades, tratando-se de uma espécie que não forma esporos e não é dotada de resistência especial. Por um lado, parece que, na falta de luz ativa e dessecação completa, pode conservar-se vivo por período considerável. O bacilo no sangue é, geralmente, raro, mas ocasionalmente pode se tornar mais abundante, conforme o período da moléstia e a natureza do caso. Por outro lado, não tem sido achado nas secreções dos doentes. Assim fica explicado por que na maior parte dos casos, principalmente nas infecções leves e no primeiro período das mais intensas, o perigo da contaminação, direta ou indireta, é tão pouco pronunciado, ao passo que, de vez em quando, se observa que um caso, geralmente grave ou fatal, cria uma verdadeira epidemia. O perigo existirá principalmente no período hemorrágico (que, como é conhecido, varia muito na sua intensidade e duração), e, na condição de reconhecer em tempo os casos e de tomar as medidas necessárias, provavelmente se conseguirá evitar a formação de focos epidêmicos nas casas dos doentes. O germe, escapando com o sangue, dificilmente chega a uma dessecação completa e pode ser conservado nas roupas e colchões ou misturado ao pó e à terra (por exemplo, na falta de assoalhos apropriados), esperando uma ocasião favorável para fazer invasão. Esta será facilitada se, pela concorrência de circunstâncias favoráveis, como, por exemplo, a vegetação de bolores, houver pululação prévia do germe.

Este (segundo nosso modo de pensar) pode ser introduzido tanto pelo ar como pela água. Com o sangue extravasado, o germe pode também passar nos excrementos e nos vômitos, e será uma questão para examinar se nestas circunstâncias pode conservar sua vitalidade e virulência por bastante tempo.

Também não convém esquecer o papel que as moscas e os insetos que chupam sangue podem ter na propagação da moléstia.

Terminando aqui o nosso relatório, resumimos o seguinte:

Do estudo dos fatos apresentados pelo dr. Sanarelli parece resultar que o germe por ele descrito é causador da febre amarela.

Os sintomas são produzidos pelas substâncias – provavelmente extremamente tóxicas para o organismo humano – que esse germe elabora depois da sua penetração no sangue.

A verificação desse germe é um trabalho de alto valor científico, mas, pelo menos até hoje, sem aplicação prática para o diagnóstico e a terapia.

Fica reservado a estudos ulteriores descobrir métodos para adaptar a descoberta do bacilo aos fins práticos de confirmar o diagnóstico, estudar a propagação e, finalmente, curar os doentes desta moléstia.

O diretor,

Dr. Adolpho Lutz.

 

* Relatório com data de 27 de julho de 1897, impresso no mesmo ano na capital paulista, na Typographia do “Diario Official,” endereçado ao dr. Emílio Marcondes Ribas (1862-1925), então diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Nome respeitado na comunidade científica internacional, Giuseppe Sanarelli (1854-1940) trabalhara no laboratório de Camilo Golgi, em Pavia, no de Max von Petenkoffer, em Munique; e no Instituto Pasteur de Paris, antes de ser contratado pelo governo do Uruguai para criar em sua capital um Instituto de Higiene Experimental, inaugurado em março de 1896.

Em 10 de junho de 1897 anunciou a descoberta do bacilo icteróide, o suposto agente etiológico da febre amarela, no Teatro Solis, em Montevidéu, evento de grande repercussão ao qual compareceram delegações médicas de vários países do continente. Adolpho Lutz e Arthur Mendonça eram os delegados do governo paulista. Lá estiveram também João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro (1895 a 1915), representante do governo brasileiro e da Academia Nacional de Medicina; Francisco Fajardo, Eduardo Chapot Prévost e Virgílio Ottoni, delegados de outras associações médicas do Rio de Janeiro. A conferência de Sanarelli foi publicada em O Paiz (10.jun.1897), e condensada em O Brazil-Medico (22.jun.1897, p.209-20). Sete meses depois, o bacteriologista italiano realizaria o teste de campo de um soro contra a febre amarela em São Carlos do Pinhal (SP), teste supervisionado por uma comissão médica da qual Lutz faria parte. [N.E.]