Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 53 de 56

Páginas do PDF

Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Ueber Pebrine und verwandte Mikrosporidien. Zweite Mitteilung

Sobre a pebrina e microsporídios

afins*

 

Segunda comunicação

Devido a condições externas, fomos até hoje impedidos de continuar nossos comunicados sobre os microsporídios, apesar de já termos acumulado um considerável material sobre as novas espécies de Nosema na época da edição do nosso complemento ao primeiro comunicado (n.5, 1904). Esse material quase não aumentou desde então, mesmo com a repetição de algumas observações.

Nossas descobertas ampliaram a relação dos animais hospedeiros que passou a englobar, além de artrópodes e peixes, também vermes e mesmo protozoários; além disso foram observadas diferenças consideráveis em relação à forma e ao tamanho dos microsporídios. Assim, junto com o tipo de laterais achatadas, foi encontrada uma espécie regularmente encurvada, em formato de uma pêra esticada, que lembra de certa forma os esporos dos sarcosporídios, sendo que o diâmetro longitudinal da espécie maior chegava a ultrapassar em cinco vezes o da menor.

No que diz respeito ao agrupamento dos esporos, estes foram constantemente encontrados nos cistos em número de oito ou em quantidade variável para maior. Em outros casos, os cistos continham sempre um número pequeno de esporos e, freqüentemente, apenas oito ou quatro deles, sem que uma quantidade regular pudesse ser estabelecida. Algo semelhante ocorre também na Nosema periplanetae anteriormente descrita. Foram encontrados ainda, em animais hospedeiros iguais, provenientes de regiões diferentes, esporos dificilmente diferenciáveis pela forma, os quais se apresentavam, ora em número irregular, ora em número de oito, dispostos em pequenos cistos. Esses novos resultados indicam também que o número de esporos não é uma característica útil para definição de gênero, só devendo ser empregado para agrupamentos no interior da espécie.

Também constatou-se a ausência do filamento polar (com exceção de uma espécie, onde ele é facilmente observável), mesmo nos casos de animais aquáticos. Dificilmente podemos supor que ele esteja sempre presente, já que os diversos métodos de expulsão apresentaram constantemente resultados negativos. Baseados num material dificilmente superável em riqueza e número de observações individuais, gostaríamos, decididamente, de colocar em questão a sua ocorrência na maioria dos verdadeiros microsporídios; no entanto, ainda não nos parece adequado utilizar essa característica negativa para classificação. O mesmo é válido para o modo como as cascas se abrem.

Para evitar objeções facilmente previsíveis, gostaríamos de ressaltar que, nas formas observadas, está em definitivo excluída uma confusão com outros elementos, organizados ou desorganizados. Apesar disso, um engano com concreções dos tubos de Malpighi, corpúsculos calcários de platelmintos, esporos de fungos, células de levedo e cistos infusórios é absolutamente possível e pode ocorrer facilmente a iniciantes, acreditamos estar a salvo disso, em parte através da exclusão dessas formas, em parte devido a uma longa experiência. Para o olho hábil, os esporos da pebrina possuem algo tão característico que pudemos reconhecê-los sem maiores dificuldades até no conteúdo intestinal de um gato e, dessa maneira, presumir a existência dos ascarídeos infectados e localizá-los. Esse achado e dois outros, em dístomos e balantídios de batráquios, oferecem especial interesse, já que o próprio hospedeiro é parasita, e mesmo assim provavelmente ocorre uma infecção direta, sem que sejamos obrigados a recorrer à hipótese de transmissão hereditária.

A ocorrência de microsporídios em vermes intestinais não é novidade; no entanto, as observações foram feitas há tanto tempo que seria desejável uma nova confirmação. Sobre a ocorrência em infusórios, existe apenas uma observação, utilizada por Balbiani com alguma reserva. O acometimento de organismos monocelulares é de especial interesse, porque nos permite fazer um julgamento seguro sobre a origem do núcleo.

A seguir, damos uma descrição das novas formas observadas:

I. Espécies monomórficas regulares

A. Octósporos (forma Telchania)

1) Nosema simulii (Fig. 29) a e ß mostram o tipo Pleistophora, γ

é uma forma de Telchania já descrita. Cistos esféricos ou ovais,

que contêm oito esporos regularmente ovais, os quais são

idênticos aos de γ, mas um pouco menores. No pólo posterior

podemos ver, quase constantemente, um nítido vacúolo.

Comprimento dos esporos: 5-5,5, largura: 3-3,5μ. Ao lado dos

cistos com esporos brilhantes encontramos alguns com esporos

pálidos, entre os quais acham-se grânulos brilhantes,

provavelmente um análogo dos grânulos residuais. O conteúdo

dos esporos pálidos é formado quase que totalmente por um

grande vacúolo.

Se os esporos brilhantes forem conservados durante alguns

dias em câmara úmida eles se tornarão mais pálidos, o vacúolo

aumentará e poderá surgir um filamento polar, que é 35-40

vezes mais comprido que o diâmetro longitudinal dos esporos.

Após a saída do filamento pode-se ver nos esporos um corpo

arredondado e irregular (análogo às cápsulas polares dos

mixosporídios), que ora estará localizado no centro, ora próximo

a um dos pólos; as calotas polares parecem então planas no

contorno externo, enquanto sob elas surge um segundo,

abobadado e oval (Fig. 29A).

Após esses novos resultados, devemos admitir que não menos

de quatro espécies aparecem em nossas larvas de Simulium,

de acordo com as quatro formas encontradas.

É notável que todas estas tenham sido encontradas na mesma

localidade, onde as larvas de Simulium existem em maior

número a cada ano.

Uma outra descoberta de octósporos regularmente ovais (n.2)

foi feita em larvas de Brassolis astyra, mas estes não eram,

quanto à forma e localização, suficientemente distintos da forma

já descrita de Nosema, para que se possa considerá-los, com

segurança, uma nova espécie.

B. Número indeterminado de esporos em propagação difusa

3) 1 Nosema sabaunae (Fig. 40). Esporos regularmente ovais,

alongados e brilhantes com vacúolo constante na extremidade

traseira chata, em parte livres, em parte em cistos com número

variável de esporos. Encontrada na lagarta de um bombicídeo

comum, escassa entre nós em São Paulo, mas abundante no

material do sr. Foetterle, de Sabaúna. (O nome da borboleta

não pôde ser confirmado até agora.) Comprimento dos esporos

6-7μ, largura 2-2,5μ.

4) Nosema auriflammae (Fig. 38). Na imago de um pequeno

bombicídeo, Scea auriflamma, encontraram-se, em propagação

difusa, esporos brilhantes de formato oval regular sem vacúolos

perceptíveis. Comprimento 3,5-5, largura 1,7-2,5μ.

5) Nosema mystacis (Fig. 32). Essa espécie foi encontrada em

dois exemplares fêmeas de Ascaris mystax do intestino de um

gato. Apresentavam o lúmen dos tubos genitais completamente

preenchidos com esporos e não continham espermatozóides e

nem óvulos. Os esporos de forma oval regular eram brilhantes e

apresentavam um vacúolo redondo na extremidade traseira.

Comprimento 4-4,5, largura 2-2,5μ.

6) Nosema distomi (Fig. 33). Essa espécie foi encontrada num

pequeno dístomo, que habita o intestino do Bufo marinus, e foi

encontrado somente em exemplares de uma determinada

localidade (Guaratinguetá). Tratava-se provavelmente de um

Distomum linguatula Rud., cuja descrição não nos está

disponível. Os esporos encontravam-se livres ou em número

indeterminado, encistados na glândula vitelina, seu formato é

regularmente oval, e próximo ao pólo traseiro é observado com

freqüência um vacúolo arredondado. Comprimento 2, largura

0,8-1 μ.

7) Nosema chironomi (Fig. 35). Essa espécie foi encontrada

numa larva de água doce, de cor verde, que mostrava uma

grande semelhança com outras larvas vermelhas de

Chironomus. Difusamente espalhados na parte posterior do

intestino encontravam-se inúmeros esporos pequenos,

brilhantes, em formato de pêra, com um vacúolo no pólo

traseiro mais largo. Comprimento 2-3μ, largura maior 1,5-2μ.

8) Nosema ephemerae α (Fig. 36). No intestino de larvas

efemérides encontravam-se, em disseminação difusa, esporos

ovais brilhantes, que na extremidade traseira achatada

raramente apresentavam um vacúolo. Comprimento 3,5-4,

largura 2-2,5μ.

9) Nosema ephemerae β (Fig. 37). Essa forma é muito menor e

tem formato de pêra. Os esporos brilhantes apresentavam-se,

ora difusos, ora no interior de pequenos cistos, e nestes, ora em

número indefinido, ora em números regulares, em quatro ou

oito. Comprimento 2, largura maior 0,6μ.

I. Espécies polimorfas regulares

10) Nosema hydriae β (Fig. 39). Na imago de uma Hydria

indeterminada (Bombycidae) da região do Amazonas foram

encontrados esporos brilhantes de Nosema em propagação

difusa, de conformação ovóide regular ou oval cilíndrica, que

apresentavam, usualmente, um nítido vacúolo redondo na

extremidade traseira achatada. Comprimento 3,5-5,5, largura 2-

3μ. Uma segunda espécie da mesma região contém uma

Nosema, y (n.11), semelhante, mas que em média é um pouco

menor. As borboletas provêm da coleção do sr. Foetterle, que

foi o primeiro a constatar a infecção.

12) 2 Nosema ephialtis. Espécie encontrada pelo sr. Foetterle na

imago de um pequeno bombicídeo, Ephialtes angulosa, em

Petrópolis. Os esporos difusamente disseminados são

ovalóides e ovais cilíndricos sem vacúolo nítido. Comprimento

3,5-5,5, largura cerca de 2μ.

Formas Irregulares

13) Nosema corethrae (Fig. 30). Nas larvas hialinas de uma

Corethra (Sayomya) viam-se, ainda a olho nu, pontos brancos

como giz, que, sob o microscópio, revelaram-se como

aglomerados de pequenos cistos, os quais continham, cada um,

oito esporos brilhantes em ordenamento variado. Apresentavam

um formato alongado de pêra ou oval cilíndrico com um plano

de eixo transversal curvo. Este último tem 5,5-7,5, o diâmetro

transversal 1,5-2μ. No pólo traseiro um pouco mais largo acha-

se um vacúolo arredondado.

14) Nosema balantidii (Fig. 34). No intestino terminal do Bufo

marinus encontram-se freqüentemente neste país, infusórios do

tipo dos balantídios.

Os sapos que provinham de determinada localidade

(Guaratinguetá), apresentavam-se regularmente como

hospedeiros de uma espécie de Nosema. Encontramos também

infusórios infectados com Nosema em sapos da periferia da

cidade de São Paulo. Os esporos estavam dispostos

difusamente ou em pequenos cistos com inúmeros ou poucos

esporos (de quatro a oito). Os últimos são do formato de pêra

ou ovais com uma extremidade pontiaguda, no entanto são tão

achatados, regularmente, que apresentam um diâmetro vertical

longo e um horizontal curto. Comprimento 2-5, largura maior 1-

3μ.

15) Nosema stegomyiae. Na imago da Stegomyia fasciata

encontramos, algo raramente, uma espécie polimorfa da

Nosema. Os esporos são regular ou irregularmente ovais ou

piriformes e encontram-se espalhados no intestino ou em cistos

multiesporos. Comprimento 3,5-7, largura 2-2,5μ.

Aproveitamos para lembrar que encontramos uma vez em uma larva de mosquito, pertencente provavelmente à espécie Culex serratus, organismos serosporídios.

* Trabalho realizado por Adolpho Lutz e Alfonso Splendore e publicado com o título “Üeber Pebrine und verwandte Mikrosporidien. Zweite Mitteilung,” em CentralBlatt für Bakteriologie, Parasitenkunde und Infektionskrankheiten, 1908, v.46, n.4, p.311-5; 1 prancha com figuras numeradas 29 a 40. O trabalho constava na primeira seção do periódico, dedicada a trabalhos originais sobre “bacteriologia médico-higiênica e parasitologia dos animais”. Publicada pela Editora Gustav Fischer, de Jena, a Folha Central para Bacteriologia, Parasitologia e Doenças Infecciosas (título em português), o mais importante periódico dessas áreas no mundo germânico, ainda tinha como editor Oscar Uhlworm, coadjuvado agora por Friederich August Johannes LÖffler (1852-1915), de Greifswald, apresentado como “membro do Conselho de Medicina,” Richard Friedrich Johannes Pfeiffer (1858-1945?), da mesma corporação, e M. Braun, do “Conselho Estadual,” os dois últimos então residentes em KÖnigsberg. Pfeiffer estudara a coccidiose dos coelhos, depois os germes do cólera e do tifo exantemático; em 1892, descrobrira um microrganismo (Haemophilus influenzae), supondo que fosse o agente etiológico específico da gripe. Lòfler, outro grande nome da bacteriologia alemã, trabalhara com Robert Koch (1879-1884), tornando-se depois reitor da Universidade de Greifswald (1903-1907). Entre outras realizações, descobrira em 1884 o agente da difteria, Corynebacterium diphtheriae.

 

1 No próprio original não consta o item 2. [N.E.]

2 No próprio original verifica-se esse salto do item 10 para o 12. [N.E.]