Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 33 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Autópsias realizadas em 1896, 1897 e 1898. Instituto Bacteriológico de São Paulo

Autópsias realizadas em 1896, 1897 e

 

1898. Instituto Bacteriológico de São

Paulo *

 

Autópsia: João Lutz, 18 anos, Maranhão, solteiro, trabalhador, adoeceu 18 de dezembro, entrou no Hospital a 23, faleceu a 24 às 11 horas e 25 da noite procedente de Dois Córregos.

• Autópsia às 10 ½ horas do dia 25.

• Icterícia generalizada, infecção amarela das escleróticas,

hipóstase cadavérica das partes declives, corrimento espumoso

das ventas, inducto sanguíneo nos dentes, rigidez cadavérica

pronunciada, sangue muito fluido nas veias jugulares,

musculatura vermelha um pouco pálida, panículo adiposo

escasso, cor normal.

• Fígado muito pálido, de cor amarela, tendo apenas algumas

manchas hipostáticas.

• Vesícula biliar cheia de equimoses contém pouca bile

muculaginosa, cor escura.

• Bexiga contém algumas equimoses miliares e um líquido um

pouco sanguinolento.

• Baço de forma, tamanho e consistência normais.

• Pulmões com pontos, declives cheias de sangue hipostasiado

e apresentando um edema inguinal.

• Coração de tamanho normal cheio de sangue líquido, as

válvulas de cor amarela sem alterações, musculatura pálida

sem transparência.

• Estômago contendo mucosidade misturada com matéria preta.

• Rins um pouco aumentados de volume.

• Fígado – peso por dentro d’água 59 gramas.

• Fígado – peso absoluto 1.449 gramas.

• Mucosa do estômago apresentando 12 erosões hemorrágicas

do tamanho de um grão de feijão e muitos pontos vermelhos

devidos à infecção de vasos e às vezes pequenas equimoses.

• Temperatura

Baço – Peso absoluto 114 gramas.

Baço – Peso dentro d’água 10 gramas.

• 1° Rim – Peso absoluto 176 gramas.

• 1° Rim – Peso dentro d’água 9,7 gramas.

• 2° Rim – Peso absoluto 194 gramas.

Parte musculosa do coração peso absoluto 169 gramas.

 

Febre Amarela

Desinfetador Português procedente de Dois Córregos, 5 de janeiro de 1897. Entrou no Hospital, moribundo com poucos dias da moléstia, no dia 4, falecendo às 7 ½ horas da noite. Autópsia 15 horas p.m.

• Cadáver de homem adulto, muito robusto.

• Rigidez cadavérica. Hipóstases cadavéricas extensas nas

partes declives. Coloração ictérica pálida da pele e das

escleróticas.

• Intertrigo na região escrotamival [ 1 sic ], Panículo adiposo muito

abundante chegando a ter mais de 4 centímetros na parede

abdominal de cor natural.

• Musculatura com esqueleto de carne fumada.

• Vesícula biliar, meio cheia, contém uma cor2 verde escura,

muito escuro laginoso [sic].

• Fígado de tamanho normal, um pouco aumentado, com as

bordas arredondadas cor muito amarela principalmente nas

margens e no colode Ipzel3 [sic], na parte carnosa algumas

manchas lívidas por infecção de capilares e manchas verdes.

Peso 2,630 na água 35 na face côncava.

• Baço de tamanho, forma e consistência normal. Peso 162

gramas.

• Bexiga vazia.

• Rim esquerdo de volume um pouco aumentado, cor vermelho

amarelado na superfície, consistência mole. Peso 260 gramas.

• Rim direito. Peso 253 gramas.

• Pulmão direito na apia tem um pequeno poro seroso e mais

para baixo na face anterior do colo superior um grupo de

tubérculos na serosa visceral. Algumas aderências entre as

duas serosas.

• Pulmão esquerdo sem ulceração.

• Coração com as cavidades cobertas de gordura, pesando

1.509 gramas.

• Mucosa do estômago coberta de um induto mucoso escuro

um pouco esverdeado, conteúdo parece conter sangue digesto

e decomposto.

• Na mucosa uns pontilhados vermelhos.

• Há muita gordura depositada no…4

Febre Amarela

Procedente do Rio Claro.

Autópsia no dia 8 de fevereiro de 1897.

Hospital de Isolamento

Drs. Mendonça e Bonilha de Toledo fizeram autópsia de um caso de febre amarela no dia 8, doente entrando no dia 7 agonizante. Não colheram dado algum a não ser a procedência do Rio Claro.

• Cadáver de homem adulto, 30 anos mais ou menos,

escleróticas amarelas, hipóstase nas partes declives.

• Autópsia foi feita 17 horas depois da morte.

• Parte superior do tronco um pouco amarelada.

• Fígado de volume normal, muito amarelo friável.

• Baço um pouco aumentado, consistência e cor normais, com

cápsula aderente.

• Rins de tamanho, cor e consistência normais.

• Estômago contém mucosidade em mistura com matéria preta

aderentes às paredes.

• Bexiga contém 250 gramas de urina mais ou menos.

• Coração e Pulmões normais.

• Colheram para análise bacteriológica bile, suco do fígado, do

baço, do rim, sangue do coração e conteúdo do estômago. Para

exame anatomopatológico, fragmentos do coração.

Febre Amarela

Procedente da Estação do Leme.

• Autópsia em 9 de fevereiro de 1897.

• Aut. 21 horas depois da morte.

• Notava-se icterícia, matéria preta no estômago, 200 gramas

de urina mais ou menos, cor amarelado, fígado achava-se em

estado adiantado de putrefação por isso deixamos de colher

material para exame bacteriológico, exceto o conteúdo

estomacal (raspagem da mucosa) que pelo exame

microscópico direto mostrava espirilos finos e bacilos grandes,

a maior parte esporulados semelhantes ao mesentericus.

Autópsia feita pelos Drs. Lutz e Mendonça.

 

Febre Amarela

Autópsia feita no Hospital de Isolamento em 10 de janeiro de 1898. Proveniente de Dourados, perto de Ribeirão Bonito.

• Cadáver de homem adulto, 25 anos.

• Tegumentos e esclerótica amarelo cor de palha.

• Hipóstase cadavérica muito pronunciada nas partes declives.

• Rigidez cadavérica principalmente no queixo e extremidade

inferior.

• Da boca corre um líquido sanguinolento.

• Panículo adiposo regular de cor amarelo laranja.

• Musculatura pálida. Cartilagens amarelo.

• Língua muito fluida.

• Intestino e estômago, amarelo exteriormente.

• Mucosa do estômago de cor preto e conteúdo também.

• Rim direito de cor pálida.

Fez-se inoculação de todos os órgãos.

 

Febre Amarela

24 de fevereiro de 1897. Hospital de Isolamento Procedente do Rio Claro.

Autópsia 13 horas depois da morte no cadáver de um indivíduo procedente do Rio Claro, 8 dias de moléstia.

• Apresentava cor amarelo nas escleróticas e na parte anterior e

superior do tronco, corrimento espumoso pela boca.

• Fígado muito amarelo, de tamanho normal.

• Baço pequeno, nada de anormal.

• Estômago, distendido por gases, contém um líquido

sanguinolento.

• Bexiga contém um pouco de urina, 200 gramas mais ou

menos.

• Coração, de tamanho e consistência normal, contém um

pouco de sangue nas cavidades. Existe líquido no pericárdio e

na cavidade abdominal.

• Rins congestos, com cápsula muito aderente.

• Intestinos contêm matéria preta.

• Colhi para exames bacteriológicos: bile, cont. ext., cont. int

[sic], líquido do pericárdio, sangue do coração, sucos do fígado

e baço e urina.

Dr. Mendonça

 

Febre Amarela

Proveniente de Araraquara

Entrou para o Hospital no dia 29 e faleceu às 10 horas da noite. Autópsia feita no dia 30 de março de 1897 às 11 ½ horas da manhã (13 horas depois da morte).

• Adulto, rigidez cadavérica, cor dos tegumentos amarelo

carregado.

• Esclerótica cor de enxofre.

• Hipóstases pronunciadas, coloração verde nas fossas ilíacas.

• Sangue muito fluido.

• Conteúdo do estômago, mucoso.

• Baço um pouco aumentado de volume, consistência mole,

dividido em 2 lóbulos.

• Fígado amarelo pouco aumentado de volume.

• Rins tamanho normal.

• Rim direito muito lobulado, forma fetal.

Bexiga continha 50 gramas de urina turva.

Vesícula biliar contém um líquido cor de sangue, parede hemorrágica. Pulmões edemaciados nas bases.

Febre Amarela

Autópsia feita no Hospital de Isolamento. No dia 5 de junho de 1898.

Procedente de Santos, com 3 semanas da moléstia.

Cadáver de homem adulto, rigidez cadavérica pronunciada, tegumentos de cor amarela carregada, matérias fecais biliosas,

hérnia [-]6 esquerda potéquias de tamanho variável, edema ligeiro na face e na região tibial.

Sangue muito fluido no cortar, panículo adiposo de cor um pouco carregada.

Grande quantidade de líquido de cor amarela carregada na cavidade peritoneal (um litro mais ou menos).

Fígado de cor amarelada pálida, de aparência semelhante a noz moscada, com estrias amarelas correspondente às costelas, bordos arredondados, peso de 2.580 gramas.

Bile turva, consistência de nata, cor amarela parda.

Vesícula com a mucosa hiperemiada7 e hemorrágica.

Baço aumentado de volume, com a polpa muito amolecida.

Rins aumentados de volume, de cor amarelo esverdeada, tanto na superfície como no corte, com infecções nos capilares.

Estômago contém um líquido escuro, pontos hemorrágicos na mucosa.

 

* São Paulo, Instituto Bacteriológico, 1896/1903. Documento manuscrito e datilografado, sem paginação, contido no códice “Febre Amarela – Experiências feitas no Instituto Bacteriológico durante 1896 a 1903,” Instituto Adolfo Lutz, Arquivo, Livro 18. A folha de abertura do livro traz carimbo do Instituto Bacteriológico – Biblioteca – 22.6.1933. A parte concernente às autópsias ocupa dez páginas. [N.E.]

1 Lutz possivelmente refere-se a “escrotal”. [N.E.]

2 No original, “coste”. [N.E.]

3 No original está escrito “colode Ipzel,” entretanto Lutz poderia estar se referindo a “Lóbulo de Spiegel,” que constitui-se em “um dos lóbulos do fígado que se adapta à curvatura menor do estômago. Também chamado como Lóbulo caudado. Ver o verbete em:

www.iqb.es/diccio/l/lo.htm#lobulos_hepaticos, acesso em 27.09.2004.

4 Documento interrompido no original, no meio da página. [N.E.]

5 O dia não é indicado no original. [N.E.]

6 No original, há um espaço em branco, como se fossem inscrever depois a palavra que faltou. [N.E.]

7 O autor refere-se certamente à ocorrência de hiperemia (nesse caso, o correto seria ‘hiperêmico’), que significa acúmulo de sangue em um órgão ou uma parte do organismo. [N.E.]