Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 22 de 56

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Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia

Febre Amarela. Resposta ao Sr. Dr. Adolpho Lutz. Arthur Mendonça

Febre Amarela *

 

Resposta ao Sr. Dr. Adolpho Lutz Arthur Mendonça

Em artigo publicado neste número da Revista Medica de S. Paulo, o Sr. Dr. Adolpho Lutz pretende responder em tom autoritário, dogmático e de mestre para discípulo, aos comentários que fiz à carta dirigida por S.S. ao professor Perroncito.

Essa carta foi lida em sessão da Academia Real de Medicina de Turim, pelo professor Perroncito, presidente da mesma academia. Um jornal médico de Turim publicou-a, a Revista Medica de Havana transcreveu-a, declarando de onde a extraiu e conforme as praxes da imprensa transcrevi-a na Revista Medica de S. Paulo, sem autorização do autor.

Se há alguém culpado na publicação da carta, esse é naturalmente o professor Perroncito.

Transcrevendo a referida carta, e sobre ela fazendo os comentários que julguei conveniente aduzir, não visava polêmica com o Sr. Dr. Adolpho Lutz, mas simplesmente mostrar que o diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo tem duas opiniões: uma para o governo e a classe médica de São Paulo e outra para as academias estrangeiras, de que S.S. é correspondente. Isso ficou perfeitamente provado com a publicação da carta de S.S. e com os trechos do relatório de 1899. Eu conheço perfeitamente o desprezo que mostra S.S. pelas pessoas que ousam discordar de suas opiniões e que se recusam a acompanhar o espírito de S.S., que sustenta hoje uma doutrina com vigor para amanhã repudiá-la, sem apresentar provas, experiências que justifiquem essas mudanças contínuas de opinião. O experimentador nas condições de S.S., que deve esclarecer os problemas de etiologia e profilaxia das moléstias infecciosas, não tem o direito de lançar a confusão nesse assunto, pois isso acarreta a dúvida e o desprestígio da ciência, cujos créditos deve zelar.

S.S. confunde o cargo de Ajudante do Instituto Bacteriológico, do qual fiz parte por muitos anos, com a posição de discípulo; e mesmo que o fosse, eu me acho em pleno direito de protestar contra o que está evidentemente errado.

O leitor que, com atenção, acompanhar os argumentos do Sr. Dr. Lutz, ficará convencido que não trata com um experimentador, um bacteriologista, que responde uma experiência com outra experiência; não, S.S. despreza o lado experimental, não são as experiências que levam a convicção ao espírito de S.S., que confessa que considerou o gérmen de Sanarelli como o causador da febre amarela, porque “entre os numerosos trabalhos até hoje apresentados por autores que pretendiam ter resolvido o problema etiológico da febre amarela, a sua publicação era a única merecendo consideração séria por basear-se em métodos de investigação correspondentes ao estado atual da ciência”.

S.S. apresenta agora argumentos para provar que a transmissão da febre amarela não se coaduna com a teoria bacilar. Eis os argumentos: “a falta de contágio por parte dos doentes e cadáveres de febre amarela em lugares indenes, quando em lugares onde a moléstia criou foco o contágio inere até a casas desocupadas e desinfetadas; a transmissão fácil da moléstia a certas localidades por meio de um só doente quando outras, cem vezes mais expostas, conservam-se imunes; a dependência da moléstia a temperaturas exteriores, conquanto o bacilo suporte perfeitamente o frio e encontre no corpo humano a mesma temperatura em toda parte; e, finalmente, as deficiências das teorias que fazem o ar respirado, a água ou o solo o veículo da moléstia. Estes e outros fatos explicam-se perfeitamente pela veiculação da febre amarela pelo Culex taeniatus, mas esta mal se reconcilia com a teoria bacilar, já pelo fato de haver uma incubação prolongada no mosquito, já pela escassez do germe no sangue, que mal permitiria a infecção de um mosquito entre alguns centos mordendo o

doente. 1 Chamamos aqui a atenção sobre o fato significativo de que as moléstias hoje conhecidas que dependem de temperaturas elevadas não são devidas a bactérios, mas a vermes e protozoários com hospedeiros intermediários de sangue frio e, por isso, influenciados pela temperatura”.

Se eu não conhecesse bem de perto o Sr. Dr. Lutz, não poderia acreditar que esses argumentos partiam de S.S.

Lembrei-me então dos tempos em que o Instituto Bacteriológico foi convidado pelo Sr. Dr. Cesário Motta para se pronunciar sobre a natureza da febre amarela em São Paulo.

S.S. tomou dejeções de diversos doentes e tentou isolar o bacilo tífico; como era natural não conseguiu, porque naquele tempo, durante a vida, não era possível isolar esse germe (salvo por punção do baço, o que quase ninguém tentava).

Em vez de esperar oportunidade para praticar autópsias, que mostrassem as lesões e facilitassem a pesquisa do germe, o Sr. Dr. Lutz apressou-se em declarar, em relatório oficial, que as febres de São Paulo nada tinham a ver com a febre tifóide.

Todos os colegas lembram que S.S. no ano seguinte mudou de opinião e, com o mesmo tom autoritário com que fala agora, censurava os colegas que imediatamente não bateram palmas às suas novas teorias.

Agora S.S. contradiz-se no mesmo artigo: “a falta de contágio por parte dos doentes e cadáveres de febre amarela em lugares indenes,” e mais adiante: “a transmissão fácil da moléstia a certas localidades por meio de um só doente, quando outras, cem vezes mais expostas, conservavam-se imunes”.

“A dependência de temperaturas exteriores.” É um fato geralmente conhecido, mesmo por estudante principiante, que o aparecimento de moléstias microbianas depende das temperaturas exteriores. Sabemos que a peste é uma moléstia bacteriana e que sua expansão está ligada a temperaturas baixas, neste ponto insistem todos os observadores e não seria, pois, para admirar que o germe da febre amarela dependesse de temperaturas elevadas.

“Finalmente, as deficiências das teorias que fazem o ar respirado, a água ou o solo o veículo da moléstia.” Antes de tudo eu desejava saber qual o autor extravagante que admitiu que o solo fosse veículo da febre amarela; até aqui eu sabia que diversos médicos admitiam que o solo fosse o habitat desse germe, mas, que fosse veículo, é a primeira vez que vejo tal opinião, que certamente não me abominaria muito quem a emitisse. Feitas estas observações, continuemos a analisar o argumento das “conhecidas deficiências”.

Todos sabem que, conquanto os médicos franceses sustentem que a transmissão da febre tifóide se dá quase que exclusivamente pela água, nos outros temos verdadeira dificuldade em aceitar isso como um fato provado, e quem observar a marcha da febre tifóide em São Paulo terá todos os motivos para não aceitar a opinião dos médicos franceses.

No entanto, ninguém se lembrou ainda, por esse motivo, de recusar ao bacilo de Eberth o seu papel etiológico na febre tifóide.

Diz S.S. que a febre tifóide é uma moléstia muito diferente da febre amarela: “independente do clima, transmissível aos enfermeiros e com localizações bem caracterizadas, nas quais o bacilo de Eberth é encontrado durante a vida, e que finalmente tem uma sero-reação bem caracterizada”.

O cólera e a peste são moléstias da Ásia, como a febre amarela é moléstia da América; está claro, pois, que as duas primeiras se mantêm na Ásia devido às condições de clima, e no entanto são devidas a bactérias. O fato, pois, de uma moléstia depender do clima não fala contra sua natureza bacteriana. A febre amarela não é transmissível aos enfermeiros, diz S.S., e no entanto é transmissível “às pessoas que visitam os doentes,” conforme declara em folheto recentemente publicado. Não se compreende.

A febre amarela não tem localizações bem caracterizadas, como a febre tifóide. O cólera e a febre de Malta também não apresentam “essas localizações caracterizadas,” portanto não devem ser moléstias bacterianas, segundo quer S.S.. “O bacilo de Eberth é encontrado durante a vida”. S.S. esqueceu-se de dizer que isso, muitos anos depois da descoberta desse germe, graças ao aperfeiçoamento dos meios de cultura. O de Sanarelli isolei em diversos casos durante a vida, e como eu, muitos experimentadores. A sero-reação foi observada com freqüência e bem estudada na febre tifóide, e mais tarde também se observou que o fenômeno não se apresenta com todas as culturas do bacilo tífico, é necessário escolher de diversas culturas as que apresentam esse fenômeno com constância. Nesse sentindo, não consta que tenha sido tentado na febre amarela e por isso não se dê com o bacilo icteróide.

Quanto ao fato de o soro de hog-cholera aglutinar as culturas do bacilo icteróide, isso nada tem de extraordinário, pois que o soro tífico aglutina as culturas dos germes da psitacose, moléstia bastante diferente da febre tifóide. Chega então o Sr. Dr. Lutz à conclusão que o germe da febre amarela não é um bacilo e que é veículo pelo Culex toeniatus.

S.S., sugestionando pelos trabalhos da Comissão americana, que apresentou a hipótese de um protozoário, já dá o fato como comprovado, e, com leis extravagantes da patologia geral afirma que “as moléstias hoje conhecidas e que dependem de temperaturas elevadas não são devidas a bactérias, mas a vermes e protozoários”.

Isso é pura fantasia, S.S. não será capaz de justificar essa lei tão extravagante, pois do contrário estariam destruídos os trabalhos etiológicos do cólera, da peste, da febre de Malta etc.

S.S. confessou que aceitou o bacilo icteróide como o causador da febre amarela à vista da “exposição habilmente preparada pelo prof. Sanarelli”. Eu tenho certeza de que a “exposição habilmente preparada” pela comissão americana convenceu a S.S. que o germe da febre amarela é um protozoário, mas isso por pouco tempo, até que venha “nova experimentação habilmente preparada” que lhe convencerá que é o verme.

Passemos a outra questão – a do soro de Yersin. Diz S.S. que não está sozinho, eu preciso declarar que também não me acho isolado. No estrangeiro a minha opinião está de acordo com a de Patrick Manson, que diz o seguinte do soro de Yersin:

“Yersin, Calmette e Borrel (Annales de l'Institut Pasteur, v.IX, 1895, p.589)” mostram que injeções intravenosas de cultura de bacilo da peste em gelatina misturada com um pouco de caldo e aquecida à temperatura de 58DC por espaço de uma hora, quando empregadas na dose quase exatamente necessária para determinar a morte e repetidas por três ou quatro vezes num intervalo de 15 dias, tornam os coelhos imunes para o bacilo da peste. O aquecimento mata os bacilos, porém não destrói as suas toxinas, que a princípio dão origem a uma dor viva, quando injetadas, diminuindo a reação nas seguintes injeções. Eles primeiro viram que o soro de um animal imunizado, quando injetado em um coelho não vacinado, exerce não só influência imunizante como curativa. Um coelho não vacinado foi inoculado com uma cultura virulenta de bacilo e 12 horas depois com o soro. A marcha da moléstia, que sem isso teria sem dúvida terminado fatalmente, foi desde logo sustada e o animal sarou.

Então eles imunizaram um cavalo por meio de injeção de culturas vivas virulentas. Depois de várias injeções feitas com intervalos (a 2a a vinte dias depois da 1), eles observaram que as reações de intensas, que eram, tornaram-se mais curtas e mais insignificantes, e que o soro do animal adquiria então não só poder preventivo como curativo, quando inoculado nos coelhos, cobaias e ratos.

Outras memórias têm nos levado a inferir, ou crer que o valor dessa descoberta foi aplicado ao homem praticamente. De 26 doentes de peste tratados na China pelo soro antipestoso de Yersin, 24 sararam. Ulteriores experiências na Índia não confirmaram esses brilhantes resultados; a soroterapia da peste até agora só tem dado resultados nulos”.

De São Paulo o médico que a empregou em maior escala foi o Sr. Dr. Victor Godinho, que declarou o seguinte: “devo dizer, com toda lealdade, que se não confirmam as minhas esperanças. Estou hoje convencido que o soro é destituído de ação curativa”.

Para justificar o poder curativo do soro de Yersin, diz o Sr. Dr. Lutz que “não houve nem pode haver dúvida alguma sobre o papel etiológico do bacilo de Yersin, que não podemos deixar de reconhecer evidências das experiências feitas neste Instituto pelas quais se verificou, no último soro experimentado, uma ação preventiva bem acusada no coelho”. Ninguém põe em dúvida o papel etiológico do bacilo tífico e do vibrião colérico, ninguém desconhece que os soros antitífico e anticolérico têm “uma ação preventiva bem acusada” nos animais, mas todos sabem que esses soros não têm ação curativa no homem.

Diz ainda o Sr. Dr. Lutz que não é apologista a priori do soro de Yersin, mas que observou cuidadosamente o seu efeito nos doentes. Se é por isso também acompanhei esse tratamento e fiquei convencido do contrário. Além disso, apresenta como testemunho da eficácia do soro – os doentes e o governo alemão! Esses testemunhos não me animo a comentar…

Diz ainda S.S. que o “resultado geral dos casos tratados em tempo fala eloqüentemente em favor do emprego do soro, sendo a mortalidade quase nula nas formas bubônicas”. De pleno acordo com S.S., o soro de Yersin é um grande específico para as formas bubônicas, porque aí até a homeopatia faz prodígios.

Aprendi agora, com o Sr. Dr. Lutz, que soro antitóxico é o que apresenta uma ação antitérmica; eu julgava que precisava mais alguma coisa, visto ter sido demonstrado praticamente que isso não era privilégio dos soros específicos e que se mostrava com a mesma constância quando se empregava o soro artificial (água e cloreto de sódio).

O meu otimismo em relação ao bacilo icteróide provém do fato de ter estudado por longo tempo esse germe e verificado que ele é de fato o causador da febre amarela. O otimismo do Sr. Dr. Lutz em relação ao protozoário da mesma moléstia, não se baseando em experiências, em demonstrações práticas, só se pode basear na hábil argumentação da comissão norte-americana.

* Artigo de Arthur Vieira de Mendonça publicado na Revista Medica de São Paulo (ano 4, n.4, 15.jan.1901, p.67-70). Resposta à réplica de Adolpho Lutz, na mesma edição (p.65-7), ao artigo de Mendonça publicado em 15.jan.1901, com críticas à posição do diretor do Instituto Bacteriológico contrária, agora, não apenas ao soro antiamarílico mas também ao bacilo incriminado por Giuseppe Sanarelli como o agente etiológico da febre amarela. [N.E.]

1 No original, foram omitidos trechos do artigo de Lutz que o autor citava, certamente por erro de composição, ficando truncado o sentido. Restauramos o sentido que deveria ter a citação. [N.E.]