Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
Capítulo 1898
Casa de colono. Núcleo Colonial Campos Salles, Campinas,
SP, c.1900. Coleção Secretaria da Agricultura, Comércio e
Obras Públicas do Estado de São Paulo/Centro de
Memória/Unicamp.
Settler's house. Campos Salles immigrant settlement,
Campinas, SP, c.1900. Coleção Secretaria da Agricultura,
Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo/Centro de
Memória/Unicamp.
Instituto Bacteriológico do Estado de
São Paulo. Observações sobre a febre amarela no Núcleo Colonial Campos
Salles *
São Paulo, 27 de abril de 1898
Ao Ilustre Cidadão Dr. Diretor Geral do Serviço Sanitário
No dia 17 do corrente recebemos comunicação de que a opinião do Instituto Bacteriológico era requisitada a respeito de casos de febre, ocorridos no Núcleo Colonial Campos Salles.
Sabendo que existiam dois doentes provenientes do núcleo já referido, um no Hospital de Isolamento e outro na Santa Casa, desta capital, procedemos ao exame clínico desses doentes. Sendo o último suspeito de febre amarela, pedimos a sua remoção para o Hospital de Isolamento, onde fizemos culturas do sangue desses dois doentes.
No dia 18, à tarde, seguimos para Campinas, levando o necessário para o exame microscópico e bacteriológico e no dia 19, pela manhã, chegamos ao núcleo colonial empregando o dia em visitar os doentes que se achavam em diversas casas distantes umas das outras.
Entre os doentes examinados notamos os seguintes:
1° Um homem de nacionalidade italiana, apresentando os
sintomas do último período de febre amarela: icterícia,
hemorragia do nariz e da boca, e estado comatoso.
• Examinando as roupas manchadas por vômitos, notamos que tinham aparência típica do vômito preto.
• Quanto à duração da moléstia não havia concordância, mas não era inferior a uma semana.
• Não foi possível obter urina para exame.
• Com o sangue venoso deste doente, colhido por meio de seringa esterilizada, inoculamos uma série de tubos de ágar e caldo lactosado.
• Este sangue mostrou um distinto poder aglutinante sobre as culturas de bacilo de Sanarelli.
2° Um menino de nacionalidade suíça, morador no burgo. Esse
menino estivera alguns dias antes em um rancho do núcleo
habitado por trabalhadores portugueses, entre os quais houve
dois casos de febre sendo um fatal. (A descrição dos sintomas
observados no último caso correspondia à febre amarela
maligna, percorrendo todos os períodos e, no outro caso, a
forma leve e abortiva.)
• O menino acima referido tivera febre por três dias e, no quarto dia, quando examinamos, achava-se apirético desde a manhã; a febre era acompanhada de dores no epigástrio e nas pernas.
• A urina revelou grande proporção de albumina.
• O sangue deste menino tinha um poder aglutinativo manifesto sobre as culturas do bacilo da febre amarela, isolado em São Carlos do Pinhal.
Vimos mais três casos que pelos sintomas acusados podiam ser considerados febre amarela no primeiro período, faltando qualquer indicação de se tratar de outra moléstia.
Em todos os cinco casos o diagnóstico de impaludismo pôde ser rigorosamente excluído por faltarem absolutamente, no sangue, tanto os hematozoários de Laveran, como os leucócitos pigmentados.
Nunca se observou o tipo intermitente de febre, nem havia indicação de hemoglobinúria.
As informações que recebemos dos casos fatais, ocorridos antes da nossa chegada, concordavam com o diagnóstico da febre amarela.
É de notar também que naquela zona não se costuma observar o impaludismo.
Observamos também um suíço, doente de moléstia febril datando de três semanas.
Os sintomas indicavam tratar-se de febre tifóide e o diagnóstico foi confirmado pela experiência Widal, mostrando o sangue um elevado poder aglutinativo.
O exame microscópico do sangue não revelou os caracteres do impaludismo.
O primeiro caso observado no Isolamento faleceu depois de ter apresentado todos os sintomas de febre amarela.
O resultado das culturas do sangue, extraídos no dia 17 deste caso, foi positivo chegando-se a isolar o bacilo de Sanarelli, tendo também a autópsia revelado as lesões da febre amarela, excluindo o diagnóstico de impaludismo.
Consideramos, pois, este caso como bem verificado de febre amarela.
Conclusões
Atendendo aos exames clínico, microscópico e bacteriológico, podemos afirmar que:
1° houve casos de febre amarela entre os moradores do Núcleo
Colonial Campos Salles.
2° não existia outra moléstia febril em forma de epidemia.
3° entre os casos por nós examinados não houve nenhuma
manifestação do impaludismo.
* Relatório de autoria do diretor do Instituto Bacteriológico de São Paulo, dr. Adolpho Lutz, e seu ajudante, dr. Arthur Mendonça, endereçado ao diretor do Serviço Sanitário daquele Estado, dr. Emílio Marcondes Ribas (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 6, pasta 212 f, maço 3; cópia datilografada). O relatório, que permaneceu inédito, confirma um surto de febre amarela no Núcleo Oficial de Colonização Campos Salles, criado em 1897 pelo governo do Estado (decreto 510 A), às margens da ferrovia que ligava Campinas, uma das maiores produtoras de café de São Paulo, à Fazenda Funil, às margens do rio Jaguari. O empreendimento, executado pela Companhia Carril Agrícola Funilense, contou com empréstimo autorizado pela Câmara Municipal de Campinas (Lei n° 47, de 4.jan.1896), exigindo-se da Companhia a aquisição de terras contíguas ao leito da via férrea e sua cessão ao Estado, para o assentamento de colonos europeus. A coexistência de comunidades imigrantes de diversas nacionalidades no núcleo colonial Campos Salles – suíços, italianos, espanhóis, poloneses, dinamarqueses, portugueses, austríacos, russos e franceses – explica a denominação dada inicialmente à estação ferroviária (1905), depois ao distrito de Campinas (27.nov.1906) e, por fim, ao município autônomo (30.nov.1944): Cosmópolis, “cidade do mundo”. [N.E.]