Adolpho Lutz: febre amarela, malária e protozoologia
O mosquito como agente da propagação da febre amarela
O mosquito como agente da
propagação da febre amarela*
Introdução
Animaram-me a publicar este pequeno trabalho os resultados obtidos por profissionais competentes na Itália em relação ao papel do mosquito Anopheles na propagação da malária, a brilhante e decisiva prova a que foram os mesmos estudos submetidos na Inglaterra, e a recente publicação de uma nota sobre a febre amarela na ilha de Cuba.
Patrick Manson, notável e conhecido homem de ciência, deu a prova real na questão do paludismo fazendo picar, em Londres, seu próprio filho, que voluntariamente se prestou à experiência, por mosquitos que haviam sugado sangue de doentes atacados de paludismo de forma benigna nos dias 17, 20 e 23 de agosto de 1900, em Roma.
O paciente adoeceu em Londres no dia 13 de setembro de 1900, apresentando uma infecção malárica do mesmo tipo, diagnosticada não só pelo quadro sintomático, como pelo exame microscópico do sangue.
Além do dr. Manson, acompanharam essa observação, no Guy's Hospital, muitos outros médicos.
Se em relação à febre amarela não há ainda estudos tão concludentes, é lícito, entretanto, supor que o mosquito, representado por uma das espécies de pernilongos encontrada nas casas e detalhadamente descrita nas páginas 15 e 19 – o Culex taeniatus -, seja o agente mais ativo na propagação dessa moléstia. Ao expor as observações epidemiológicas colhidas entre nós, não me preocupei senão com a sua exatidão para que o leitor possa, com facilidade, concluir como entender mais justo.
Seja como for, acredito que devam ser postas em prática, desde já, as providências enumeradas no fim deste folheto.
O mosquito como agente da propagação da febre
amarela
Uma comissão de médicos norte-americanos incumbidos de estudar recentemente a febre amarela na ilha de Cuba acaba de fazer investigações muito interessantes e achou-se com o direito de tirar a seguinte conclusão: o mosquito serve de hospedeiro intermediário
para o parasita da febre amarela.1
Em uma nota preliminar,2 a referida comissão descreve três casos confirmados da moléstia atribuídos à inoculação por mosquitos que se tinham previamente alimentado de sangue, picando doentes de febre amarela.
Não pretendo negar o valor das objeções que possam ser opostas aos casos da manifestação da moléstia nas pessoas dos drs. James Carroll e Jesse W. Lazear, membros da referida comissão e que se sujeitaram às picadas dos mosquitos infeccionados, tendo o último médico falecido na tarde do dia 25 de setembro de 1900 (sétimo da moléstia, que apareceu no quinto dia depois da inoculação acidental, e décimo segundo a contar da época da inoculação) sendo Dr. Carroll atacado também, no quinto dia após a inoculação proposital de febre amarela grave (“severe attack of Yellow Fever”).
Quanto, porém, ao terceiro caso observado pela aludida comissão acho muito difícil contestar o papel do mosquito como agente de propagação e inoculador da febre amarela, levando-se em conta não ter estado o paciente em Havana senão 57 dias antes da inoculação e não se ter, enfim, exposto ao contágio depois daquele passeio.
O paciente se deixou picar por mosquitos infeccionados em ponto
diferente do foco,3 em Columbia Barracks, manifestando-se no quinto dia depois da inoculação proposital um caso bem caracterizado de febre amarela (“well-marked attack of Yellow Fever”).
Se de um lado, em assunto de tanta importância e responsabilidade científicas tenhamos que esperar maior número de fatos experimentais para concluir, de modo positivo e seguro, pela teoria de Finlay, de outro tudo leva a acreditar que a febre amarela é uma moléstia que se propaga pelos mosquitos, à maneira do paludismo e da filariose.
O dr. Carlos J. Finlay, de Havana, há muito tempo acredita que o mosquito é o agente de transporte e inoculador da febre amarela e, mesmo, entre nós, o Dr. Adolpho Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico do Estado, se tem preocupado com o assunto e continua a fazer detalhadas pesquisas sobre tão importante questão.
Entre os fatos de observação convém lembrar a enorme quantidade de mosquitos que tem sido sempre notada em nosso Estado nos lugares epidêmicos, e o modo rápido e simultâneo da propagação da moléstia, em um momento dado, para pontos diametralmente opostos e separados da zona infeccionada por um raio considerável, como chácaras até então indenes etc.
O citado fato foi verificado na terrível epidemia de 1889 em Campinas, na última de Sorocaba e em muitas outras em pessoas que procuraram evitam todos os meios de contágio.
O dr. J. B. de Paula Souza, chefe da Comissão Sanitária de Sorocaba, no relatório sobre a última epidemia de febre amarela naquela cidade diz:
Na opinião dos homens criteriosos e mais antigos na localidade,
os meses de outubro, novembro e dezembro haviam sido
excessivamente quentes e anormalmente chuvosos de modo a
determinarem uma cheia do rio Sorocaba como não havia
notícia há quarenta anos.
Foi igualmente notado por esses observadores um
aparecimento exagerado de mosquitos, chamados pernilongos,
que mesmo de dia, não cessavam de ser importunos.
Nestas condições é verificado o primeiro caso de febre amarela
em 23 de dezembro, à rua das Flores n° 19, numa padaria que
não primava pelo rigor do asseio.
Cumpre observar que este doente foi tratado durante nove dias
em seu domicílio e tinha um círculo de relações muito extenso
entre os seus patrícios alemães.
Esse doente foi internado no Hospital de Isolamento do Cerrado
a 24 e faleceu a 25.
Dois dias depois da sua morte, a 27, são verificados mais três
doentes, moradores à rua Brigadeiro Tobias, nos 6 e 10, rua
próxima à primeira.
No fim de dez dias são verificados e internados mais 12
doentes das seguintes ruas: das Flores, Penha n° 156, Rosário,
Ponte, Direita e Morros n° 41.
Foi esta a história do início da epidemia de Sorocaba cujo desenvolvimento posterior se caracterizou pela rapidez e desordem com que se sucederam os numerosíssimos casos, perto de três mil doentes, em pontos os mais diversos da zona urbana e suas circunvizinhanças.
Não há dúvida de que a teoria de Finlay se presta de modo satisfatório para explicar este assustador e cruel desenvolvimento epidêmico; de um lado, os focos representados pelos primeiros doentes e, de outro, a enormíssima quantidade de agentes de transmissibilidade e inoculação do morbo.
Se se quiser apelar para o pão fabricado na padaria citada, seria necessário que toda a população de Sorocaba o recebesse da mesma procedência, o que não se deu.
Por mais que me esforçasse, nada pude obter de positivo sobre a importação da moléstia e, até hoje, tenho dúvidas sobre este ponto, sendo, entretanto, informado que Alexandre Richtmann, um dos primeiros acometidos, estivera em Santos em meados de dezembro.
Sobre este último particular (a história das epidemias) é muito interessante a de Dois Córregos, na qual a doutrina de Finlay parece-me encontrar justa aplicação, de acordo com os dados obtidos de distinto clínico e de pessoas respeitáveis daquela vila pelo dr. Victor Godinho, Inspetor Sanitário comissionado na última epidemia de 1897 e que no seu relatório assim se exprime:
A primeira visita que recebeu esta vila do germe da febre
amarela foi devida ao italiano Cacciari, vindo de São Carlos do
Pinhal, onde então reinava uma epidemia desta moléstia, e que
aqui chegou a 10 de março de 1896.
Esse homem veio pelo trem da tarde e, já doente, foi até o
centro da vila, e como não encontrasse onde se agasalhar por
não ter relações, voltou à estação, em cuja plataforma
pernoitou, e onde vomitou toda a noite.
No dia seguinte foi encontrado morto, e o médico que verificou
o óbito, por ter sido mal informado nas investigações a que
procedeu, ou por não contar com a possibilidade de tratar-se de
moléstia infecciosa, atribuiu a causa da morte à embriaguez, e
atestou congestão cerebral.
O cadáver desse homem esteve exposto na plataforma da
estação (calçada a tijolo nesse tempo) até as 10 horas da
manhã, e, em conseqüência das circunstâncias especiais do
fato e da imprevidência perdoável por ser o perigo inesperado,
não foram tomadas medidas preventivas como o caso exigia.
Em todo caso, fez-se alguma desinfecção.
Mais tarde, quando se soube a procedência daquele homem,
que vinha fugido de São Carlos para não ser recolhido ao
Hospital de Isolamento, atentando-se à rapidez do desfecho, à
cor do cadáver, ao vômito preto, que a princípio acreditou-se
ser vinho porque fortuitamente aquele homem havia trazido
consigo uma garrafa de tal bebida, formou-se a convicção, no
espírito dos médicos, de que aquele fora o primeiro caso
importado em Dois Córregos.
O correr do tempo e a sucessão dos fatos é que vieram firmar
esta convicção.
Passados alguns dias, adoeceu um menino de nome Arlindo, filho do negociante José Quintaes, morador a 60 metros da estação, e que costumava ir brincar na plataforma desta.
Esse menino faleceu no dia 28 de março e foi dada como causa da morte, pelo dr. Pedro Paulo, tifo icteróide.
Foi o primeiro caso de febre amarela que se registrou no obituário de Dois Córregos.
Pouco depois, era acometida de uma moléstia grave a mulher do chefe da estação. Teve diversos sintomas da febre amarela, inclusive a icterícia na convalescença.
Em continuação a esses foram observados diversos casos confirmados de febre amarela.
Parece-me que a transmissibilidade pelos mosquitos explica de modo razoável a propagação da moléstia em Dois Córregos, por isso que houve um foco inicial representado por um doente de febre amarela, caído ao relento e exposto durante longas horas a picadas desses insetos que existiam naquela localidade, de acordo com a seguinte declaração feita pelo dr. V. Godinho no relatório citado: “o major Cesario Ribeiro e outros antigos moradores desta vila asseguram-me que os mosquitos pernilongos eram completamente desconhecidos em Dois Córregos, onde apareceram há cinco anos a esta parte”.
Essas observações estão de acordo com as citadas por Finlay que
lembra que em 1797, na época da epidemia de febre amarela
que devastou Filadélfia, os mosquitos eram em quantidade tão
assustadora que os mais antigos habitantes do país diziam não
ter jamais visto tal abundância.
Em Augusta, na Geórgia, uma invasão de mosquitos foi
acompanhada de febre amarela e não longe de lá, em
Summerville, onde não havia nem febre nem mosquitos, estes e
a moléstia apareceram em seguida à abertura de uma estrada e
à escavação de um poço.4
Em Campinas, onde a espécie suspeita foi observada em profusão em 1889 pelo dr. Lutz, se acha agora, depois dos melhoramentos dos domicílios, muito pouco notável, o que fica em acordo com a trégua das epidemias ultimamente verificada naquela cidade e vem, mais uma vez, demonstrar a necessidade do melhoramento sistemático das casas insalubres.
E ninguém poderá negar que as reformas dos domicílios, dando-lhes luz e franco arejamento, e o saneamento dos arredores das habitações, como a estanqueidade das áreas e preparo dos quintais no sentido de dar-lhes fácil escoamento – evitando-se, assim, as águas estagnadas onde se criam os mosquitos -, a construção de tanques apropriados para lavar roupas etc., representam condições esplêndidas para extinção desses insetos que procuram as atmosferas úmidas e lugares escuros.
De 33 mosquitos apreendidos ultimamente em Campinas pela Comissão Sanitária, apenas três eram da espécie suspeita, sendo um da Ponte Preta, bairro onde as habitações ainda deixam a desejar pela ausência de esgotos que concorre para facilitar a existência de água estagnada, e outros dois de uma casa situada à margem do Anhumas.
De outro lado o Culex taeniatus (espécie suspeita) só tem sido encontrado nesta Capital exatamente no bairro que foi assolado pela febre amarela em 1893, e onde se deram alguns casos dessa moléstia durante o ano passado.
Em Sorocaba, doze exemplares apreendidos em uma casa em más condições higiênicas e onde se deram casos de febre amarela na última epidemia eram todos representantes da espécie suspeita.
Na cidade de Tietê, em domicílio nas mesmas condições e que se tornou um foco da terrível moléstia, a metade dos mosquitos apreendidos há poucos dias pertencia à espécie suspeita e, durante a recente epidemia que assolou aquela cidade, pude eu próprio verificar, e os demais colegas que ali trabalhavam, a exagerada quantidade de pernilongos que picavam mesmo durante o dia, coincidindo esses fatos com o período agudo do desenvolvimento epidêmico.
Vem a apelo lembrar que o venerado e distinto profissional dr. Luiz Pereira Barretto, em uma interessante e patriótica conferência sobre a epidemia do Tietê, realizada na noite de 16 de julho de 1900 na Sociedade de Medicina e Cirurgia desta capital, deu importante papel ao pernilongo como veículo e agente inoculador do germe da febre amarela.
O eminente e respeitável médico considerou esses insetos como um dos principais elementos de propagação da moléstia.
Enfim, o dr. Barretto, fervoroso adepto da doutrina hídrica, apenas diverge no particular da comissão norte-americana quando diz: “O pernilongo é um fator importante, mas só e exclusivamente pelo fato de provir de uma água contaminada”.
Destarte ainda fica de pé a necessidade de extinção dos mosquitos, como excelente meio profilático, mesmo para aqueles que, na questão da febre amarela, pensam como o dr. Barretto e o prof. Camillo Terni.
Uma das cidades que com justa razão mais atenção tem despertado em matéria de epidemias, no nosso estado, é a de Ribeirão Preto que, possuindo uma grande população estrangeira e muito acumulada em relação ao número de domicílios, tem-se conservado, entretanto, livre das explosões epidêmicas, a despeito da importação de casos de febre amarela, mesmo dos pontos infeccionados da sua circunvizinhança.
Tanto nessa cidade, como em Araras e outras em idênticas condições, não teriam faltado em absoluto ou em parte os supostos agentes transmissores do germe da febre amarela na ocasião em que existiam os focos representados pelos doentes dessa moléstia?
Não é lícito supor que dado o desenvolvimento da espécie Culex taeniatus nos referidos pontos, tenhamos que presenciar as explosões epidêmicas?
De acordo com a feição que vão tomando os estudos da comissão
norte-americana na ilha de Cuba, a resposta deve ser afirmativa.5
No particular, convém citar o que sobre o assunto encontra-se no relatório de 11 de janeiro de 1901, apresentado pelo Inspetor Sanitário, Dr. Carlos Meyer, encarregado de estudar a questão:
Em Ribeirão Preto existem tanto o Culex fatigans como o Culex
taeniatus, sendo o primeiro encontrado com grande abundância
em toda parte.
O Culex taeniatus não só é muito menos abundante, mas
também não foi encontrado na parte alta da cidade, onde
examinamos meia dúzia de casas em diversos pontos.
Na parte baixa foi encontrado em oito de nove, colhendo-se,
entre todos, uns 50 exemplares aproximadamente.
Devo declarar que, conquanto a estação fosse de muito calor, o
número de Culex taeniatus observado não era bastante grande
para se tornar incomodativo.
As ruas em que encontramos maior número de Culex taeniatus
foram as do Comércio, Duque de Caxias, Amador Bueno,
General Osório, Saldanha Marinho e Largo da Matriz.
Finalmente é digna de nota a circunstância de terem sido tratados, todos os anos, muitos doentes de febre amarela procedentes de fora desta Capital no Hospital de Isolamento, sem que até hoje nenhuma das enfermeiras e mesmo das recém-chegadas da Inglaterra e, por isso, em excelentes condições de receptividade, tenha contraído a moléstia; ao passo que em Santos e no Rio de Janeiro, onde existe em grande quantidade o suposto agente transmissor do morbo, o fato tem sido por mais de uma vez observado mesmo em relação a enfermeiros nacionais, e, em Sorocaba, contraíram a moléstia todos os enfermeiros destacados
do Hospital daqui. 6
Por mais que se tenha procurado um exemplar de qualquer espécie de mosquito no Hospital de Isolamento desta Capital, não tem sido possível obtê-lo, porque esses insetos fogem à iluminação das instalações ali existentes e são inimigos do vento que varre com freqüência a atmosfera daquele local elevado, pitorescamente situado a cavaleiro desta capital e do vale do rio Pinheiros.
Antes de enumerar os meios de extinguir os mosquitos ou evitar as suas picadas, convém conhecer a descrição dos mesmos, alguns dos seus hábitos e fatos epidemiológicos ligados a esses insetos.
Sobre esse assunto tenho o prazer de transcrever os seguintes dados extraídos de uma nota manuscrita pelo Dr. Adolpho Lutz que há muito tempo se entrega, entre nós, a estudos de entomologia:
O nome de mosquitos tem sido aplicado a diversas espécies de
dípteros sugadores, mas hoje é geralmente reservado para as
Culicidae, chamadas pernilongos entre nós. Destes,
conseguimos observar e estudar no nosso país umas duas
dúzias de espécies, mas a maior parte delas só se encontra nas
matas ou em lugares pantanosos. Apenas duas têm se
constituído inquilinos freqüentes das nossas casas, onde são
encontradas muitas vezes e com regularidade, sendo
raríssimas em terrenos incultos. Trata-se de espécies
cosmopolitas de origem desconhecida, que são encontradas
em quase todas as regiões com clima adequado. Por isso têm
sido descritos, muitas vezes, com nomes diferentes, e a
apuração da nomenclatura ainda não se acha completamente
concluída. Pelas leis da prioridade parece que estas espécies
devem ser chamadas: Culex taeniatus e Culex fatigans.
Entre estas, a mais espalhada é o Culex fatigans, o nosso
mosquito noturno comum, encontrado quase em toda a parte
por ser menos sensível ao frio. É o transmissor da filariose e de
certos hematozoários de pássaros, mas considero-o insuspeito
na questão da febre amarela. O Culex taeniatus, pelo contrário,
é o único que se presta a explicar a distribuição da febre
amarela porque sabemos hoje que essa espécie tem sido
descrita, sob vários nomes, em quase todos os lugares onde a
febre amarela tem reinado. É freqüente no Rio e em Santos,
tanto no centro da cidade como nos arrabaldes. Verificamos a
sua grande freqüência em Campinas, em 1889, e em Casa
Branca, em 1899. Neste último lugar, achamo-lo abundante na
prisão, onde vários presos haviam adoecido. Em Sorocaba, no
ano passado, os mosquitos eram abundantes e, como este ano
de lá recebemos só o Culex taeniatus, é licito supor que se
tratava da mesma espécie. Do outro lado, o mesmo mosquito
parece atualmente raro em Campinas. Em São Paulo nunca o
encontramos nas várias casas onde moramos, e deve-se
considerar muito raro, mas tivemos este ano ocasião de
verificar que pode existir e até com bastante abundância em
pontos circunscritos desta cidade, o que explicaria
perfeitamente certas epidemias limitadas a poucas ruas.
Conquanto lá todos os moradores adoecessem, não há
exemplo de ter sido acometido o pessoal dos bondes que
continuamente percorriam essas ruas. Os simples transeuntes
não eram acometidos, mas bastavam, às vezes, algumas horas
passadas nas casas infectadas, seja de dia, seja de noite, para
contrair a moléstia. Estes fatos estão perfeitamente de acordo
com os hábitos do Culex taeniatus.
Essa mesma espécie tem sido encontrada nos Estados Unidos,
em Cuba, em Buenos Aires, como também em Portugal e na
costa da África, todos lugares que foram escolhidos pela febre
amarela.
Todavia, não se deve supor que a freqüência ou raridade dessa
espécie em um lugar dado seja uma causa absoluta e definitiva.
Pelo contrário, pode variar bastante, conforme a estação e a
facilidade de procriar. Também pode ser introduzida em um
lugar previamente imune, como aconteceu nas ilhas Sandwich
em data recente e conhecida. Conquanto essa introdução se dê
mais facilmente por navios que levam uma provisão de água
doce, pode também se realizar por via terrestre, como prova a
distribuição atual das espécies mencionadas.
Damos, em seguida, uma descrição breve do Culex taeniatus e
do Culex fatigans, espécies comuns encontradas nas nossas
casas, onde somente o Culex taeniatus pica também de dia.
Das outras espécies, há mais de uma dúzia que perseguem o
homem de dia ou de noite, mas só penetram nas casas quando
estas se acham perto de seus paradeiros, que são os pântanos,
as margens dos rios e as matas. Nestas condições, encontram-
se também os Anopheles, os transmissores da malária. Uma
espécie destes é exclusivamente silvestre; verificamos que as
larvas desta vivem na água das bromélias e que isso se dá
também em todas as outras espécies que vivem do mato.
Sinônimos: C. mosquito Robineau-Desvoidy e Lynch-
Arribálzaga (Cuba e Buenos Aires), C. frater Rob.-Desv., C.
calopus Hoffmannsegg (Portugal), C. elegans Ficalbi (Itália
meridional), C. vittatus Bigot (Córsega), C. rossii Giles (Índia).
Existe também na costa meridional e ocidental da África, nos
Estados Unidos, no Brasil e nas ilhas Sandwich.
Os caracteres anatômicos desta espécie são os dos culicídeos
em geral e do gênero Culex em particular. A cor geral é um
pardo mais ou menos enegrecido, mas todo o inseto é
salpicado de pontos, faixas e riscos brancos com brilho de prata
ou madrepérola, dispostos com muita elegância. Resultam da
acumulação de escamas brancas e por isso são muito visíveis
em exemplares novos e bem conservados, mas tornam-se mais
ou menos indistintos nos que já voaram muito, em
conseqüência da facilidade com que caem essas escamas.
As marcas brancas encontram-se em forma de anéis estreitos:
na ponta e na base das pulpas da fêmea; nas pulpas do macho,
em número de quatro; na base das antenas e perto da maior
parte das articulações das extremidades, em ambos os sexos.
Os últimos cinco artículos das pernas posteriores, formando os
tarsos, apresentam anéis muito mais largos e distintos, que
chamam logo a atenção e, em combinação com o desenho do
tórax e abdome, caracterizam a espécie. A região dorsal do
tórax é marcada com estrias brancas longitudinais,
freqüentemente apagadas, enquanto as regiões laterais ou
pleuras são marcadas com muitos pontos prateados e
brilhantes. Pontos análogos estão dispostos nas regiões laterais
do abdome, formando de cada lado duas linhas pontuadas. Na
parte anterior de cada segmento abdominal há uma faixa
transversal, curta, cuja cor branca facilmente se apaga. A
fronte, o occiput, o scutellum ou clypeus (na parte posterior do
tórax) também são marcados de branco.
As asas são transparentes, mas ligeiramente enfumaçadas,
sem manchas, colocadas, no repouso, uma por cima da outra.
As asas posteriores rudimentares, ou halteres, são escuras,
mas a sua haste é mais clara. A tromba é de cor parda, mais
clara na parte basilar, mais escura na extremidade.
O tamanho do Culex taeniatus regula de 5 para 6, quando muito
8 milímetros, sendo um tanto menor do que o Culex fatigans, o
nosso mosquito noturno comum.
Culex fatigans Wiedemann
Sinônimos: C. cingulatus Fabricius, Heteronycha dolosa F. L.
Arr., C. aestuans Wied., C. molestus Kollar etc.
O nosso mosquito noturno comum que consideramos uma
espécie cosmopolita e idêntica ao Culex fatigans da Índia é
encontrado provavelmente também na Austrália e nas ilhas
Sandwich. Na América do Sul o conhecemos desde o Rio de
Janeiro até Buenos Aires, mas deve ser muito mais espalhado.
Em nosso estado encontra-se tanto no litoral quanto no interior,
sendo comum em toda parte. Tem as seguintes características:
A região dorsal do tórax é coberta de penugem de uma cor
variando do loiro até o ruivo ou castanho, marcado de três
estrias longitudinais mais escuras que aparecem mais
distintamente quando a penugem tiver caído. O abdome, de cor
parda enegrecida, apresenta uma faixa transversal branco-
amarelada na margem anterior de cada segmento, menos
distinta quando o mosquito está cheio de sangue já um pouco
digesto. A tromba escura tem uma zona basilar bastante larga
de cor mais clara. Existem marcas claras nas articulações das
pernas e também nas palpas do macho, mas com o tempo
ficam tão indistintas que parece tratar-se de outra espécie, tanto
mais que o mosquito que já chupou sangue (o que só faz
depois de algum tempo) parece maior, mais robusto e com os
tecidos de cor mais uniforme e carregada. Os primeiros
segmentos das extremidades são sempre de uma cor
amarelada consideravelmente mais clara que a do resto.
Damos, em seguida, algumas informações sobre os hábitos dos
nossos mosquitos comuns: para amadurecer os ovos a fêmea
provavelmente não pode dispensar a alimentação com sangue
humano ou de animais vertebrados. O macho só
excepcionalmente chupa sangue, mas é precisamente o culex
taeniatus que apresenta esta particularidade. Certas espécies
picam logo depois de nascer, mas o Culex fatigans só mostra
essa inclinação depois de uma série de dias.
Os ovos maduros estão reunidos em cartuchos de cem para
duzentos e são colocados pela fêmea em cima da água, onde
formam uma espécie de jangada de forma elíptica. A do C.
taeniatus é muito menos bem feita e não é raro encontrar-se os
ovos isolados. Nos ovos reunidos o eixo longitudinal é
perpendicular à água e as larvas maduras depois de mais ou
menos um dia escapam diretamente na água pelo pólo inferior
do ovo. Para ficarem adultos levam um tempo variável
conforme a temperatura e o alimento oferecido, sendo de três a
quatro semanas em condições favoráveis. No fim desse tempo
forma-se a ninfa, que tem a faculdade da locomoção, mas não
se alimenta mais. Depois de três dias mais ou menos a ninfa
indica a formação do inseto perfeito apresentando uma
coloração mais escura e logo depois sobe à superfície da água
onde de uma fenda dorsal do integumento da ninfa sai o inseto
perfeito. Conserva-se ainda algum tempo sentado em cima da
pele da ninfa até que os tecidos adquiram tensão e consistência
normal, necessária para voar. Durante esse tempo crítico,
muitos mosquitos morrem afogados se a água for fortemente
agitada.
Resta ainda dizermos alguma coisa sobre os lugares onde os
Culex taeniatus e fatigans depositam os ovos. Escolhem para
esse fim qualquer água estagnada dentro das casas ou nos
quintais e jardins em bacias, moringas e tinas, e principalmente
os barris de água de chuva onde as larvas encontram grande
quantidade de pequenas algas e flagelados que servem para a
sua alimentação. Nunca os encontramos em valas profundas,
águas de inundação, brejos, nem em lugares completamente
incultos. Por essa razão a sua exterminação se torna bastante
fácil, tanto mais que a evolução completa de uma geração não
se faz em menos de três a quatro semanas. Por visitas
domiciliares periódicas, feitas por exemplo de quinze em quinze
dias, devia-se conseguir impedir quase completamente a
reprodução desses insetos.
Convém dizermos também algumas palavras sobre a duração
da vida do inseto adulto, que até há pouco julgava-se
geralmente brevíssima. Sabemos hoje que os mosquitos em
tempo de calor podem conservar-se vivos durante algumas
semanas pelo menos, e que em lugares mais frios eles podem
mesmo passar todo o inverno na forma de imago ou inseto
adulto. A condição indispensável é que possam, de vez em
quando, chupar sangue ou outro líquido nutritivo e que não
estejam em uma atmosfera seca e quente, na qual sucumbem
tanto mais facilmente, quanto mais lhe faltar um líquido
adequado para matar a sede. Como muitos outros insetos eles
pouco precisam de alimentos e para respirar bastam-lhes
pequeníssimos volumes de ar, de modo que se pode conservá-
los vivos em vasos pequenos, embora completamente
fechados. Do outro lado, morrem muito facilmente pela sede e
dessecação. Conservando-os numa atmosfera úmida e
alimentando-os, por exemplo, com bananas ou pedaços de
melancia, pode-se conservá-los por muitos dias, naturalmente
não todos, mas pelo menos uma parte deles.
Assim fica explicado como esses insetos podem transmitir
certas moléstias como o paludismo e a filariose, cujos
organismos causadores têm de passar no corpo do mosquito
umas fases de evolução que mesmo em tempo de calor
ocupam uma série de dias e em tempo de frio quase não
progridem. A febre amarela provavelmente obedece às mesmas
condições, de modo que a infecção só pode se dar depois de
um certo número de dias, o que explica o intervalo muitas vezes
observado entre o caso causador e os casos subseqüentes de
uma epidemia e que não pode correr por conta da incubação
geralmente muito curta na febre amarela.
Para compreender o mecanismo dessa transmissão convém
lembrar que os mosquitos na ocasião da picada não se limitam
a perfurar a pele e chupar o sangue, mas principiam este último
ato pela injeção de um líquido proveniente de um par de
glândulas muito desenvolvidas onde se fabrica uma saliva
tóxica. Esta serve para produzir uma congestão, aumentando
assim o afluxo do sangue, e também impede que as pequenas
feridas das capilares sejam imediatamente fechadas pela
coagulação do sangue. Essa secreção também explica a
irritação geralmente observada em pessoas que não se
tornaram ainda imunes pelas picadas repetidas. Quando essa
saliva é muito ácida pode-se, pela evacuação das glândulas
salivares, produzir uma mancha vermelha bastante grande num
pedaço de papel tornassol azul, e na ocasião da picada dessas
espécies o momento da injeção é perfeitamente percebido por
uma dor cáustica.
Compreende-se então que nesse ato possa haver inoculação
de um parasita quando este se achar depositado nas glândulas
salivares (como acontece para os bastonetes germinativos do
esporozoário que produz a malária), ou quando, por um outro
mecanismo, puder escapar com a saliva (como acontece no
caso das filárias). Com a febre amarela dá-se provavelmente o
primeiro caso e, assim, não há nada de extravagante na
hipótese desse modo de transmissão que encontra já muitas
analogias.
Levando em conta tudo que vem de ser exposto, fica justificada a necessidade da extinção dos mosquitos de quaisquer espécies.
Além de serem incômodos, já está brilhantemente provada a transmissibilidade de algumas moléstias por intermédio desses insetos; e, por isso, quando não aproveitasse para o caso da febre amarela, ainda assim a extinção dos mosquitos, que representa medida fácil e pouco dispendiosa, seria de grande vantagem sanitária.
Em relação à febre amarela, convém indicar especialmente, além das medidas já conhecidas e postas em prática, as seguintes providências:
1 a Evitar, por todos os meios, as águas estagnadas nas
habitações e em seus arredores.
2 a a Quando, de momento, não for possível a 1 providência por
embaraço material, deve-se lançar mão do querosene (de
mistura em partes iguais com o alcatrão) derramando-se sobre
a água estagnada 10 centímetros cúbicos da mistura para 1
metro quadrado, com o fim de matar as larvas.
3 a Proteção dos doentes, e principalmente dos primeiros casos
aparecidos em uma localidade, por meio de cortinados.
4 a Uso dos conhecidos pós inseticidas, procurando-se, enfim,
extinguir por todos os meios práticos as espécies encontradas
em domicílio.
5 a À maneira do que está sendo proveitosamente feito nas
regiões maláricas da Itália, proteger as habitações contra os
mosquitos por meio de telas de pano nas janelas e outras
aberturas e de uma tela metálica que feche automaticamente
na porta principal da casa, com o fim de evitar-se a entrada
desses insetos nas habitações, em ocasiões epidêmicas.
6 a Uma casa em que tenha havido casos de febre amarela
deve ser evitada, sobretudo enquanto não sofrer a ação das
fumigações dos pós inseticidas.
7 a As autoridades sanitárias devem proteger contra os
mosquitos, nos Hospitais de Isolamento, os pavilhões
destinados aos doentes acometidos de febre amarela, máxime
em zonas em que abunde o culex taeniatus e o Hospital fique
próximo aos grandes centros povoados.
Ao terminar, me é grato confessar a admiração e respeito inspirados pelos abnegados profissionais que, procurando resolver uma questão que importa a toda a humanidade, não trepidaram em arriscar, em Cuba, a própria vida nas experiências sobre os estudos de febre amarela.
Tenho esperança de que aquela comissão lançará muita luz sobre a causa dessa moléstia.
Este problema faz parte do seu programa e é necessário resolvê-lo, porquanto os ensinamentos até então conhecidos sobre a etiologia da febre amarela, se bem que emanados de respeitáveis e eminentes homens de ciência, não satisfazem, entretanto, o espírito do observador imparcial, ficando muitas vezes em desacordo com a verdade dos fatos.
São Paulo, 14 de janeiro de 1901
O Diretor
Dr. E. M. Ribas
Suplemento
Em Araras foi feita também, há poucos dias, a apreensão de mosquitos verificando-se a presença da espécie suspeita de transmitir a febre amarela e, depois de se achar este pequeno trabalho no prelo, tive o prazer de ler uma carta do Dr. Olympio Portugal dirigida ao dr. Adolpho Lutz, no dia 18 do corrente, e da qual transcrevo a valiosa opinião do distinto clínico residente naquela cidade:
O Culex taeniatus, conforme o classifica, posso asseverar que
não existe aqui em Araras senão de 2 a 3 anos a esta parte.
Esse meu juízo é corroborado pelo depoimento de muitos
residentes, extremes aliás de sugestão a respeito. Este ano,
principalmente, são estes (exemplares do Culex taeniatus)
muito numerosos e incômodos.
O trecho acima indica a ausência do Culex taeniatus em Araras, exatamente durante o período em que a febre amarela apareceu e desenvolveu-se epidemicamente em diversos pontos da sua circunvizinhança, como Rio Claro etc., não se tendo, entretanto, propagado a moléstia naquela cidade, apesar dos casos importados.
Por se tornarem úteis, junto, também, alguns esclarecimentos sobre a larva e a ninfa, extraídos da nota já citada:
Deixamos de descrever detalhadamente as larvas e ninfas
porque mais facilmente se compreenderá pela inspeção das
figuras anexas. O tubo comprido que se percebe na
extremidade posterior das larvas serve para a respiração,
ficando a sua extremidade à flor d’água e a larva dependurada
em posição oblíqua e com a cabeça para baixo. Nessa posição
característica as larvas costumam passar uma grande parte do
tempo ocupadas ao mesmo tempo em comer e respirar, mas ao
menor distúrbio recolhem-se ao fundo por meio de movimentos
de serpenteamento muito enérgicos. No fundo da água pode-se
observá-las estendidas e quase sem outro movimento que o
vaivém rítmico das partes bucais. Pouco a pouco voltam todas
à superfície pelo mesmo movimento de serpenteamento lateral.
As ninfas, em vez de tubo caudal, têm dois pequenos tubos
respiratórios colocados na região ântero-superior do corpo, ao
modo de dois chifres pequenos e pelos quais também ficam
dependuradas. Não têm movimento lateral, mas fazem saltos
por meio da flexão e extensão rápida do corpo, o que lhes valeu
o nome vulgar de saltões.
* Publicação do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo (São Paulo, Typographia do “Diario Official,” 1901, 24p.), assinada por seu diretor, dr. Emílio Marcondes Ribas. Este utiliza, extensamente, textos elaborados por médicos do serviço, principalmente nota manuscrita por Lutz sobre entomologia, assunto do qual Ribas pouco entendia. Por ser esse o cerne da publicação, julgamos oportuna sua inclusão na Obra Completa de Adolpho Lutz. [N.E.]
1 Foram estas as conclusões tiradas pela comissão norte-americana: “1 – Bacillus icteroides (Sanarelli) stands in no causative relation to Yellow Fever, but, when present, should be considered as a secondary invader in this disease. 2 – The mosquito serves as the intermediate host for the parasite of Yellow Fever”.
2 “The etiology of Yellow Fever, a preliminary note,” by Walter Read, M.D. Surgeon, USA, and James Carroll, M.D., A. Agramonte, M.D., Jesse W. Lazear, M. D., Acting Assistant Surgeons, USA.
3 A epidemia se desenvolvia em Quemados e Havana, Cuba. Em Columbia Barracks, com uma população de 1.400 pessoas da raça branca, não houve nenhum caso esporádico de febre amarela, durante seis meses de epidemia na sua vizinhança.
4 Annales d'Hygiène Publique et de Médecine Légale, Tome XLIV, n.5, nov. 1900, p.435.
5 A confirmação desses estudos explicará também o motivo de se ter acreditado erroneamente que a febre amarela fosse um privilégio da zona marítima. Ela naturalmente limitou, a princípio, o seu desenvolvimento ali, porque o Culex taeniatus habita de preferência os lugares quentes, baixos e úmidos, condições estas encontradas em quase todas as cidades do nosso litoral.
6 Em Sorocaba foram acometidos de febre amarela, na última epidemia, 109 funcionários do Serviço Sanitário do Estado, sendo três médicos, um prático de farmácia, quase a totalidade dos desinfectadores e todos os enfermeiros e ajudantes. Quatro dos enfermeiros eram do hospital daqui, onde prestavam, freqüentemente, serviços aos doentes atacados de febre amarela vindos de fora desta capital.